07 fevereiro 2012

RECEITA FUNDAMENTAL

Sexo, dinheiro e sucesso? Só lendo!*

Você é jovem? Mora no Brasil? Está lendo este artigo numa boa, sem soletrar palavra por palavra? Já leu mais de um livro inteirinho este ano? E, finalmente, entendeu tudo o que estava escrito no livro? Respondeu "sim" a estas perguntinhas?


Ufa! Que bom, parabéns, posso, então, ir direto ao ponto: primeiro, você faz parte de uma elite.


Segundo, você está com a faca e o queijo para conquistar tudo o que quiser na vida.


Terceiro, você precisa ler mais, muito mais.


Agora, antes que você pare de ler isto aqui, por achar que estou gozando com a sua cara, relaxe que eu explico.


O Brasil faz parte de uma lista horrorosa dos 12 países com mais analfabetos entre os 14 e os 21 anos. Pior que nós, apenas Paquistão, Indonésia, Nigéria e Etiópia — que raramente aparecem em boas notícias nos jornais.


Ah, você já sabia disto por que lê jornais também? 


Nesse caso, você é minoria superespecial mesmo: apenas 1 entre 100 mil jovens brasileiros dão uma espiada em jornais regularmente.  


E o restante, faz o quê? Exatamente: assiste televisão (não o noticiário, claro), ouve rádio (só os programas com músicas e brincadeirinhas para idiotas) ou fica caçando mulher pelada na internet.


Ainda está lendo este texto, e compreendendo tim-tim por tim-tim?


Então encha o peito de orgulho: você está fora de uma lista ainda mais nojenta que aquela lá de cima.


A UNESCO faz um teste que avalia alunos de 15 anos em 40 países sobre compreensão da linguagem escrita. Um teste mamata: ler uma historinha de poucas linhas e depois dizer o que entendeu. É bom lembrar que os testados têm, no mínimo, oito anos de bumbum na carteira da sala de aula.


Na grande avaliação deste ano, adivinhe quem tirou o último lugar? Coisa chata mesmo, bró: o adolescente brasileiro ficou com o troféu de mais burro do mundo.


Não disse que você era minoria das minorias?


Mas, sem querer pentelhar e já pentelhando, como diria o intelectual Chaves da televisão: existem quilômetros de livros para você devorar depois que entrar na facú, se quiser continuar fora da manada e não levar uma vida de gado.


Bastaria uma única providência: você não ser folgado lendo apenas trechinhos xerocados dos livros para passar nas provas. E seu professor tomar vergonha na cara e parar de fazer as famigeradas pastinhas para xerocar.


Isso está mais em suas mãos do que nas das faculdades, afinal já existem mais faculdades que saúvas no Brasil e boa parte é só caça-níqueis mesmo. Pense bem: já que são boas as chances de você sair com um canudo que o mercado de trabalho não respeita, que ao menos sua cabeça saia cheia da cultura maravilhosa dos livros.


Uma última tarracada na moleira: pesquisa recente indica que mais de 60% das professoras do ensino público, fundamental e médio, não possuem o hábito de ler jornais. Se alguém não se interessa nem por ler jornais, muito menos se ligará em um livro que, em geral, tem muito mais letrinhas impressas e exige mais raciocínio do que a última notícia sobre a boazuda do BBB. Você acha que elas irão incentivar a leitura em seus alunos?


Bem, o "titio" Ulisses já mordeu demais, mas agora assopra.


Vou, em poucas linhas, provar que, lendo bastante, você poderá ter rapidamente as 3 coisas que em geral jovens saudáveis e antenados desejam. Preparado? Então raciocine junto comigo:


SEXO! De maneira bem realista, se você é gêmeo do Gianecchini, clone do Brad Pitt ou até mesmo um rústico Alexandre Frota, esqueça o que vou dizer. Cabeças de anta em corpos de cisnes conseguem sexo (ficar, namorar ou qualquer variante) sem precisar ler nem o Pato Donald. Idem para as garotas. 


Mas sem uma boa dose de criatividade, imaginação e informação, não há cantada que resista. Seja ao vivo, nas baladas, ou nos chats. Aliás, escrever errado nos chats de paquera, ou na praga dos blogs (quem não tem um atualmente?), é pedir para ser deletado.


E só quem lê muito desenvolve a criatividade, amplia a imaginação e fica bem informado.


Quem só repete o que assistiu nas mesas-redondas sobre futebol, nem bêbado de boteco aguenta.


E uma cartinha bem escrita? Um poeminha inspirado e exclusivo para a musa ou muso, hein? Hein? Deu certo com o Cyrano de Bergerac (personagem do Victor Hugo), e olha que ele certamente era mais feio, narigudo, desengonçado e tímido que você.


Se sempre deu certo comigo também, que sou o próprio cão chupando manga, e ainda por cima velhinho e durango, imagine com você, que é jovem e esperto.


DINHEIRO! Adivinhei seu pensamento? Como é que você vai ler bastante para ganhar dinheiro no futuro, se lhe falta dinheiro para comprar livros no presente?


Falso dilema. As bibliotecas estão em toda parte, e você vai ver que barato, literalmente, é ir a uma delas sem a obrigação de fazer pesquisa escolar.


Faça pesquisa pessoal — isso sim, é muito bom! Leia o que gosta, o que interessa, por prazer de adquirir conhecimentos.


Ou vá pela Internet. A biblioteca do mundo está dentro dela, a um clique. E, para quem ainda não tem computador, uma hora de web em cafés virtuais, por exemplo, custa menos do que um cafezinho de coador.


Vou te dar um estímulo e tanto para você incluir a leitura imediatamente em sua formação profissional: quem não passa nas entrevistas dinâmicas que as empresas realizam hoje em dia é quem não lê. Nenhum empregador é besta de contratar outra besta. 

E mais: você já assistiu a algum daqueles programas O Aprendiz? Os selecionados para participar, todos, vieram de faculdades que receberam a trista nota "F" do Provão. Como é que eram tão competitivos, vindo de facús fundo-de-quintal?


Porque eram moços e moças que sabiam falar bem, se expressar com clareza — e isso só se obtém lendo muito.


Compare com os políticos, empresários, tesoureiros, aos quais você também assistiu recentemente depondo nas COIs do Congresso. Até os que tinham o título de "professor" tropeçavam nas frases, falavam errado pra caramba. 

Se não eram corruptos, ficou provado que não eram chegados na leitura e, quando professores, devem ter se formado num bordel, nunca numa escola decente.

Mas e o Lula?

É a exceção que confirma a regra! Ganhou prestígio, dinheiro, mas seus assessores ficam malucos, porque ele se recusa a ler qualquer documento com mais de duas páginas.


E, como ele mesmo tem afirmado, nunca sabe de nada.


SUCESSO! Para ser bem-sucedido, você não precisa, necessariamente, ter sexo, dinheiro e... sucesso em alta escala. Não precisa ser o "número um", a vida real não é assim.


Mas se você fizer a lição de casa direitinho, ou seja, lendo muito e lendo sempre, estará sempre sendo muito bem-sucedido.

Nas empresas, as promoções vão para os que tomam mais iniciativas e têm uma visão macro (para o mercado) e micro (para a empresa), desde o office-boy ao gerente.


Hoje não é só o diploma que conta pontos. Contam a sua inteligência, a sua cultura, a sua versatilidade etc.


Se você não é filho do dono da empresa nem nasceu com o rabo pra lua, os livros serão as suas verdadeiras universidades e cursos de aprimoramento profissional.


No dia a dia, os livros podem ajudar você a entender de culinária, de cuidar dos seus filhos e até de informática. 

Mesmo quando não ensina nada objetivamente, todo livro é um manual de auto-ajuda (ou você acha pouco espiar a alma feminina e a aflição masculina por dentro?).


Há algum tempo o Bill Gates, sim, apenas o homem mais bem-sucedido pelos padrões da sociedade materialista, deu uma palestra a jovens estudantes, de alguns minutos apenas, com um único conselho: “Respeite aquele CDF da sua escola, que vive com a cabeça enterrada nos livros. É certo que ele será o seu patrão no futuro.”


E o Dalai Lama, o homem mais bem-sucedido pelos padrões da sociedade espiritualista, resume sua dica a: “Antes de ser seu próprio Mestre, ouça, leia os outros Mestres”.


Sim, estude, estude sem preguiça. 

Estudar, meu bró, vem do Latim e nada mais significa do que ler




*Ulisses Tavares  é professor, escritor, dramaturgo, compositor,
roteirista, poeta, publicitário, jornalista, treinador de executivos
em criatividade, consultor de marketing e web business e, se
não fosse um leitor voraz, seria apenas mais um zé mané
 


20 janeiro 2012

LER, VERBO SUPERTRANSITIVO

Nada há como bons livros






... e quando chega a noite ...





... pois livros são só TUDO,


começo (meio) e fim!


...

03 janeiro 2012

NEM PÉ NEM CABEÇA

História de um dia*



Cada dia tem a sua história própria, que em seu desenrolar, está cheia de acontecimentos banais, comezinhos, vulgares ou espantosos, estranhos, incomuns, feito cada um de nós, pobres mortais. Os dias nascem, vivem e morrem com esplendor ou desprovidos de qualquer brilho, qualquer fulgor. Há claridades e há sombras envolvendo cada dia que transcorre.
 
O dia pode ser triste tanto quanto pode ser alegre — igualzinho como acontece conosco.


No fundo, eu realmente creio no que digo, somos uma sucessão de dias desde o nascimento até à morte. E nesse contínuo convívio temporal, nós fazemos os dias assim exatamente como os dias nos constroem, erguendo o frágil arcabouço de nossa humana existência. 


O meu dia sou eu e eu sou o meu dia, indissoluvelmente unidos no traçar da mesma arquitetura. A alguns pode parecer que estou elucubrando, nada mais do que uma filosofia barata, dessas que brotam aos montes nas mesas democráticas dos botequins.

No entanto, faço minha, tomada de inocente empréstimo, uma frase do grande Paulo Francis e que considero lapidar para definir como me sinto agora, escrevinhando estas mal traçadas de hoje: “Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas”. 
Nada mais natural para um escritor de amenidades, mesmo que não ultrapasse, coberto de pompa e glória, os limites de sua província. 

Por isso, insisto em afirmar que cada dia tem a sua história, assim como cada um de nós, que orgulhosamente nos consideramos dotados de um cérebro pensante, estando aparentemente situados no topo da cadeia zoológica, acima de todos os outros animais que, junto conosco, povoam essa cada vez mais superlotada Arca de Noé. 

Em nossa estúpida arrogância, costumamos nos esquecer de um pequeno, mas essencial detalhe, do qual somente nos lembramos quando somos obrigados a encará-lo: "tudo o que vive deve morrer, ser levado pela natureza para a eternidade". Imortais palavras de William Shakespeare.

Portanto, meus caros amigos, é humanamente imprescindível nos mantermos perenalmente conscientes do fato de nossa existencial finitude e aprender com a transitoriedade do dia a nossa própria condição de transitórios habitantes deste mundo, pois nem o universo está destinado à eternidade, por maior que seja a sua misteriosa imensidão. 


Desde o momento em que irrompemos do ventre de nossa mãe, já recebemos a irrecorrível sentença de estarmos iniciando a nossa longa ou breve caminhada para a tumba. Tal conhecimento, apesar de terrível e assustador, deveria nos tornar mais humildes, mais generosos, mais solidários com nossos companheiros de viagem terrenal. 
Um dia estamos e somos. No outro, deixamos de ser e de estar. Agora rebrilha a manhã. Mais tarde, a noite virá, sem tardança e sem falta. De igual maneira, alvorecemos e anoitecemos sem darmos importância a isso, nos comportando como se jamais fosse acontecendo conosco todos os dias.

Ao longe, uma ave passariforme, pertencente à família dos tiranídeos, o popular
Pitangus sulphuratus, mas conhecido como bem-te-vi, entoa seu cantar repetitivo, mas nem por isso menos belo, aliviando com sua melodia os meus pobres ouvidos cansados da barulheira das ruas. 

Duas ou três abelhas pousam nas humildes flores do meu minúsculo jardim, sugando seu néctar com o insuperável prazer de quem bebe uma cerveja gelada na mesa do boteco predileto. 
Agora me lembro de que sou alérgico a picadas de abelha, mas nem ligo, enquanto não sobrevoarem minha cabeça em voos rasantes, pois cada dia tem sua história e me dá vontade de contá-la tal como ela é ou transfigurando-a, usando os artifícios da imaginação. 

Talvez, ao narrar a história do dia, eu também finde por narrar um pouquinho da minha. As horas se passam e eu tenho pressa de acabar esta narrativa da jornada diária, mesmo que não tenha pé nem cabeça.

*O médico-psiquiatra Antônio Airton Machado Monte
escreve para 
o Jornal da Praia desde os anos 1980. 

23 dezembro 2011

PICO DO PETRÓLEO

Perdas ainda maiores*




O geólogo norte-americano Marion King Hubbert previu, já em 1956, que a produção de petróleo alcançaria seu nível máximo quando a humanidade tivesse usado a metade das reservas mundiais até então comprovadas. Esta postura se baseia no fato de os geólogos tenderem a encontrar primeiro os poços maiores e a estes ficarem “exaustos” antes de realmente se ter extraído todo o óleo.
É possível que a oferta de petróleo tenha chegado ao seu máximo histórico em julho de 2008, e, assim, já tenhamos passado o temido teto sem que ninguém se desse conta. Isso teria sua explicação no fato de a produção de gás natural continuar aumentando e cada vez mais substituindo derivados do petróleo. As coisas seguramente vão piorar quando a extração combinada de petróleo e gás natural alcançar o máximo possível no planeta.
Depois disto, o fornecimento de hidrocarbonos começará a baixar e já não poderá atender à demanda, e os preços dispararão. Quando isso ocorrer, começará um período de depressões severas da economia, com recuperações curtas e intermitentes. A produção de alimentos também sofrerá, pois 80% de nosso consumo é produzido com a ajuda de fertilizantes nitrogenados, cujos preços dependem do valor de mercado do gás natural.
Os governos e as empresas se tornaram muito conscientes do problema e enormes quantias de dinheiro são investidas em várias soluções alternativas. Uma opção possível é expandir as reservas de gás natural acessível, com uma tecnologia conhecida como fratura hidráulica, ou fracking. A técnica consiste em bombear, sob alta pressão, dezenas de milhões de litros de água tratada quimicamente dentro de profundas formações de relativamente impermeáveis rochas sedimentares, conhecidas como "xisto". O líquido quebra estas pedras ou expande fraturas existentes, liberando os hidrocarbonos de modo que possam fluir para um poço.
Outra opção é um método conhecido como "gaseificação subterrânea do carvão", ou UCG. Neste procedimento, os veios de carvão são convertidos em syngas (gás sintético) — uma mistura de metano, hidrogênio e monóxido de carbono —, mediante a injeção de oxidantes na profundidade do solo. O conceito foi proposto originalmente por Dmitri Mendelejev, cientista russo conhecido como o "pai" da Tabela Periódica dos elementos. Os primeiros grandes projetos aconteceram no Uzbequistão na década de 1930, quando esse país integrava a União Soviética.
Nos últimos tempos, muitos governos se mostraram interessados em ressuscitar esta ideia. É fácil compreender o motivo de tanto entusiasmo. Relativamente perto da superfície há limitadas quantidades de carvão, mas as reservas situadas nas profundezas da crosta terrestre são enormes. Por exemplo, estima-se que no fundo do Mar da Noruega haja três bilhões de toneladas de carvão. Estes depósitos não podem ser explorados economicamente com os meios convencionais atuais, mas a UCG pode convertê-los em syngas. O lado negativo é que tanto o fracking como o UCG podem ser uma receita para o pior pesadelo ecológico definitivo.
Apesar de poderem multiplicar os recursos recuperáveis de combustíveis fósseis e produzir muitas vezes mais dióxido de carbono (CO²) do que outro modo, a ação combinada desta técnica teria consequências desastrosas para o clima, por que o dióxido de carbono é um gás de forte efeito estufa. Além disso, um terço do dióxido de carbono que produzimos atualmente se dissolve no oceano, como ácido carbônico. Cada vez mais cientistas afirmam que a acidificação dos oceanos poderia, no longo prazo, ser um problema mais sério do que o aquecimento global.
Outro perigo é que parte do metano produzido por fracking ou UCG vaze dos sistemas de coleta para a atmosfera. Se forem considerados tanto os impactos diretos quanto os indiretos, durante os próximos cem anos uma molécula de metano esquentará nosso planeta 33 vezes mais do que uma molécula de dióxido de carbono.
Segundo um estudo da norte-americana Cornell University, inclusive agora, até 8% do gás natural vaza para a atmosfera durante a fase de produção ou transporte ou no uso final. É razoável presumir que a UCG e o fracking produzirão perdas ainda maiores do que os métodos atuais. Então, o que podemos fazer para substituir o gás natural e o petróleo se a UCG e o fracking são muito perigosos para nosso clima e nossos oceanos?
Uma terceira opção comumente mencionada é usar o óleo do xisto e a areia betuminosa como matérias-primas para produtos substitutos do petróleo, mas isto também produziria muita emissão de dióxido de carbono. Em teoria, os carros elétricos poderiam substituir os movidos a gasolina e diesel, contudo, até agora se difundem muito lentamente e também seria praticamente impossível fabricar navios de carga ou aviões elétricos.
Isto nos deixa apenas com duas soluções realistas: com a economia e melhor eficiência energética, por um lado, e o aumento da produção de biocombustívies, por outro. Também não se deve descuidar da produção de insumos para elaborar biocombustíveis, que frequentemente exigem fortes doses de fertilizantes nitrogenados, que, por sua vez, produzem óxido nitroso, outro gás-estufa. Por isso a conversão em grande escala de áreas florestadas e turbas tropicais em plantações destinadas a esse fim constitui um risco para a biodiversidade e para o clima.
Para evitar essa ameaça se deveria apelar para a produção de biocombustíveis por meios ecológica e socialmente sustentáveis. Temos imensas superfícies de campos seriamente prejudicados pela erosão e terras de pastoreio que perderam a maior parte de seu carbono orgânico e sua fertilidade. Podem ser distribuídas a famílias de camponeses sem terras para que produzam alimentos e madeira, bem como de matérias-primas para biocombustíveis.
Este pode ser um excelente meio para resolver os problemas relacionados com a futura queda na produção de petróleo e gás de uma maneira que também propicie um sustento decente para centenas de milhões de famílias rurais.
Risto Isomaki é ativista ambiental e escritor finlandês. 
(versão publicada em envolverde.com.br)
(imagem: protesto anti-fracking. Foto by Marcellus Protest / Creative Commons)

22 dezembro 2011

HORA DO PIQUE

Tudo está na mente


Um amigo liga pra marcar um almoço. Ele é alto executivo e confessa estar tão desgastado com a empresa que não tem mais motivação para continuar. Quer partir para o seu próprio negócio e gostaria de saber se eu teria algum conselho. E lá fui eu, tentando não ser óbvio:


“É claro que você já sabe que, no momento em que deixar a empresa, perderá tudo aquilo que no contexto da sociedade faz de você uma pessoa importante: o sobrenome corporativo, o carro novo, as reuniões importantes, os baba-ovos, o poder. No lado material, essas coisas podem ser trabalhadas, dependem de sua eficiência profissional. O problema é o lado intangível, o que se passa dentro da sua cabeça.


Comece com o que eu chamo de “timeframe”: defina um prazo. Quer sair quando? Daqui a seis meses? Cinco anos? Essa primeira definição é fundamental, é ela que orientará as suas escolhas, daqui para a frente.


Outra coisa imprescindível: crie uma proteção emocional.”


Diante da expressão de curiosidade, continuei: “O que mais me incomodou desde que deixei o universo corporativo foi manter a estabilidade emocional quando eu me visse ‘desimportante’, esperando na recepção, encontrando resistência para marcar reuniões, sendo esnobado por clientes e não tendo equipes para me dar suporte. No lado financeiro, também houve um baque. Sem o salário garantido, eu teria que repensar cada investimento, não poderia dar mais à minha família certos confortos sem preocupação. Sem uma proteção emocional, essas constatações derrubam nossa autoestima, fazem com que questionemos nossa capacidade de resolver problemas, nos deixam amargos, colocam o trabalho que fazemos em xeque. Se você não se preparar emocionalmente, entrará numa espiral destrutiva, perderá o tesão de lutar por seus objetivos até chegar no inferno de qualquer empreendedor: a insegurança. É exatamente aí que a proteção emocional cumpre um papel fundamental."


E fui em frente: "Proteção emocional não se aprende na escola. É claro que você pode contar com a ajuda externa de mentores, coaches e gurus que lhe darão dicas preciosas, mas que sempre serão algo 'de fora para dentro'. A proteção emocional a que me refiro vem 'de dentro para fora', e começa com uma profunda reflexão sobre o impacto e a influência que a decisão de sair, a mudança, causará sobre você e sobre os que o rodeiam. Passa por um exercício de cenários, quando você deve mentalmente imaginar as situações que podem acontecer, praticar aquele 'e se?'. Depende de uma ideia clara de propósito: você está a serviço de quê? É também necessário conhecer muito bem as expectativas das pessoas que dependem de você e calibrá-las para a nova fase."


E o principal: "você tem que ser capaz de gerenciar suas próprias expectativas, não sonhar alto demais, não achar que todas as pessoas querem o seu sucesso e vão te ajudar. Não querem e não vão.


Resumindo: fixe o prazo para sair e construa uma proteção emocional. O resto depende só de sua eficiência profissional — e isso você tem de sobra.”


Meu amigo pagou o almoço.

                                                   *O jornalista multimídia Luciano Pires é um pioneiro pela despocotização do nosso Brasil 


SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br

19 dezembro 2011

FELIZ NATAL E UM 2012 POSSÍVEL

Muita ação pela frente





É preciso falar menos. Agir mais.
Suprimir os comentários. Usar o 
pouco ar que há no ar e respirar.

07 dezembro 2011

O TEMPUS, O MORES!

A mídia ameaça?

10 Estratégias de Manipulação

Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenómenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceitualizada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas.

Noam Chomsky desenvolveu a lista das "10 estratégias de manipulação” dos princípios sociais e econômicos, de forma a atrair o apoio inconsciente dos meios de comunicação para a manipulação.

1. A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas.
A técnica é a do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações sem importância.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.


"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, atraída por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar."
(Citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. CRIAR PROBLEMAS E DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES:
Este método também é chamado:
PROBLEMA--> REAÇÃO--> SOLUÇÃO”.
Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o suplicante das medidas que se deseja fazer aceitar.
Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizaratentados sangrentos, a fim de que o público seja o requerente de leis de segurança e políticas, em prejuízo da liberdade.

Problema + Reação + Solução = Publico Indefeso = ESCRAVOS
Ou também:
Criar uma crise econômica para que o povo aceite como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3. A ESTRATÉGIA DA GRADUALIDADE:

Para fazer que se aceite uma medida inadmissível, basta a aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, num prazo ampliado.
Dessa forma, as novas condições impostas, as mudanças radicais são aceitas sem provocar revoltas.


4. A ESTRATÉGIA DO ADIAR:
Outra maneira de provocar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.
É mais fácil aceitar um sacrifício futuro que um sacrifício imediato.

Isto dá mais tempo ao cidadão para se acostumar à idéia da mudança e de aceitar com resignação quando chegar o momento.
 Primeiro, porque o esforço não é imediato. Segundo, porque a massa, ingenuamente crê que “amanhã tudo irá melhor” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado.


5. DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIATURAS DE POUCA IDADE:  
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonações particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. 


Quanto mais se tende procurar enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantil. Por quê?

“Porque dirigir-se a uma pessoa como se tivesse 12 anos ou menos, tenderá, por sugestão, aadotar respostas ou reações mais infantis e desprovidas de sentido crítico”.


6. UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS QUE A REFLEXÃO:
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para gerar um "curto-circuito" na análise racional, e neutralizar o sentido critico dos indivíduos.  

Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir a determinados comportamentos.


7. MANTER O POVO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE:
Fazer com que o público seja incapaz de compreender a tecnologia e métodos utilizados para seu controle e escravidão.

“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distancia entre estas e as classes altas permaneçam inalterada no tempo e seja impossível alcançar uma autêntica igualdade de oportunidades para todos.”



8.ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE COM A MEDIOCRIDADE
Fazer crer ao povo que está na moda à vulgaridade, a incultura, o ser mal falado ou admirar personagens sem talento ou mérito algum, o desprezo ao intelectual, o exagero do culto ao corpo e a desvalorização do espírito de sacrifício e do esforço pessoal.
As Paniquetes.. e é bunda pra todo o lado....

9. REFORÇAR O SENTIMENTO DE CULPA PESSOAL:
Fazer crer ao individuo que ele é o único culpado de sua própria desgraça, por insuficiência de inteligência, de capacidade, de preparação ou de esforço.
Assim, em lugar de rebelar-se contra o sistema econômico e social, o individuo se desvaloriza , se culpa, gerando em si um estado depressivo, que inibe sua capacidade de reagirE sem reação, não haverá revolução.

 10. CONHECER OS INDIVÍDUOS MELHOR DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM:
Nos últimos 50 anos, os avanços da ciência geraram uma crescente BRECHA entre os conhecimentos do público e aqueles utilizados pelas elites dominantes. 

Graças à biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada, o Sistema tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica.
"Obedeça!"
Sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele se conhece.  
Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um maior controle e poder sobre os indivíduos, superior ao que pensam que realmente tem.

Noam Chomsky Visões Alternativas 
Versão: José Mauro Rodrigues

(originalmente publicado em www.guerradassementes.com.br)






ASSIM SENDO, O QUE SERIA O QUE SE SEGUE ABAIXO?!? BOA VIAGEM!




(publicado em www.brasilindomavel.com.br)

02 dezembro 2011

VIDA SUSTENTÁVEL

Apostando no futuro possível


22 novembro 2011

ADEUS BIOSSEGURANÇA

Resolução normativa autoriza isenção
do monitoramento de transgênicos




"Está em curso um processo de desmanche das regras de biossegurança no País”, declara o agrônomo Gabriel Fernandes, ao comentar a resolução normativa que autoriza empresas produtoras de transgênicos a pedirem isenção do monitoramento dos produtos após a liberação comercial.

A resolução foi aprovada aprovada esta semana pela CTNBio-Comissão Técnica Nacional de Biossegurança. Com a mudança, as empresas estão liberadas de monitorar os efeitos dos transgênicos sobre a saúde humana e o meio ambiente. “O não monitoramento pós-comercialização dos transgênicos impede que seus potenciais riscos sejam identificados. Com isso, as empresas seguirão dizendo que ainda não foram comprovados danos causados pelo uso de transgênicos”, adverte o pesquisador.

De acordo com o agrônomo, antes de as regras sobre o monitoramento dos transgênicosserem alteradas, as empresas apresentaram suas posições em reunião da CTNBio. “Na prática, a reunião serviu para as empresas apresentarem suas propostas sobre o monitoramento. Quando questionado por um dos integrantes, o presidente da CTNBio disse que os demais interessados poderiam enviar suas sugestões por escrito, mas o texto base para comentário não foi disponibilizado, nem foi aberto prazo para consulta pública”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Fernandes informa que “84% da área total cultivada com sementes transgênicas” está somente em quatro países: Brasil, Estados Unidos, Argentina e Índia. Afirma haver uma falsa ideia de que a transgenia cresce no mundo todo e que essa “é uma imagem que a indústria tenta empurrar. A forte concentração no mercado de sementes explica boa parte dessa expansão, inclusive no Brasil”. 

A produção de transgênicos apenas será reduzida “quando os consumidores de forma geral passarem a ter mais interesse em saber de onde vem sua comida e virem no consumo uma opção política também”, ressalta.

Como você recebeu a notícia de que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio aprovou a resolução normativa que autoriza empresas produtoras de organismos geneticamente modificados a pedirem isenção do monitoramento pós-liberação comercial? O que muda em relação ao controle dos transgênicos a partir da liberação desse procedimento? Quais os riscos?
Gabriel Fernandes – Está em curso um processo de desmanche das regras de biossegurança no país. Aqueles poucos itens da lei que as empresas não conseguiram levar em 2005, quando da disputa no Congresso, estão sendo conquistados agora por meio da CTNBio, que é órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia. A mudança está no fato de que as empresas daqui em diante poderão se isentar de monitorar os efeitos de médio e longo prazo dos transgênicos sobre a saúde e o meio ambiente. As que porventura o estivessem fazendo poderão pedir sua extinção. O perigo está exatamente no fato de que os riscos desses produtos não serão investigados.

Como aconteceu o processo de votação na CTNBio?
G.F. – Antes de mudar as regras de monitoramento, o presidente da CTNBio convidou as empresas para uma reunião em Brasília/DF, na qual se discutiriam regras para o tratamento de informações confidenciais. Na prática, a reunião serviu para as empresas apresentarem suas propostas sobre o monitoramento. Quando questionado por um dos integrantes, o presidente disse que os demais interessados poderiam enviar suas sugestões por escrito, mas o texto base para comentário não foi disponibilizado, nem foi aberto prazo para consulta pública. No início da reunião em que o fim do monitoramento foi votado, entidades protocolaram pedido para adiamento da votação até que todos os interessados tivessem garantido o mesmo direito de participar. O pedido não foi lido.

Posteriormente à comercialização de agrotóxicos, os produtos são submetidos a novos testes e alguns são retirados do mercado em função dos novos resultados. Ocorre o mesmo com os transgênicos? Podes citar exemplos de transgênicos que já foram banidos do mercado?
G.F. – Antes de chegar ao mercado um agrotóxico passa por três órgãos, e mesmo assim, quando a reavaliação é feita anos depois, alguns produtos são banidos e outros têm seu uso restringido em função dos danos que causam. Algo semelhante acontece com os remédios. No caso dos transgênicos, até antes da aprovação da nova lei de biossegurança em 2005 o procedimento para licenciamento seguia os moldes dos agrotóxicos. A CTNBio já existia, mas era instância apenas consultiva. Essa nova lei foi criada exatamente para dar amplos e terminativos poderes para esta comissão, criando um caso de exceção na administração pública, onde suas decisões criam obrigações para seus órgãos hierarquicamente superiores. Desconheço algum transgênico que tenha sido banido do mercado após ter sido cultivado por algum tempo. Há casos na Europa de banimentos nacionais em face de liberações no âmbito da Comissão Europeia. Mas, assim como o banimento de agrotóxicos seria inviabilizado caso dessem cabo da reavaliação toxicológica, o não monitoramento pós-comercialização dos transgênicos impede que seus potenciais riscos sejam identificados. Com isso as empresas seguirão dizendo que ainda não foram comprovados danos causados pelo uso de transgênicos.

Como vê a postura da CTNBio diante desse assunto, considerando que a Comissão autorizou a comercialização do milho e, recentemente, do feijão transgênico no Brasil?
G.F. – A meu ver, essa comissão foi criada exatamente para funcionar como um cartório, só carimbando os pedidos de liberação. Colocaram nela um nome pomposo para tentar transmitir uma ideia de cientificidade que permitiria legitimar o processo. A questão é que esse ritmo acelerado de liberações só ocorre porque o restante do governo está de costas para o assunto, não quer entrar no debate. O mesmo pode-se dizer da maior parte das entidades científicas. Falta institucionalidade na CTNBio. A maioria de seus integrantes está lá falando por si mesmo; parecem se esquecer que cada um lá dentro deveria representar a posição de um ministério, de um setor da academia ou da sociedade. Se o governo estivesse atento, querendo saber o que fazem seus representantes, ou então se as entidades científicas estivessem acompanhando o debate ou mesmo pedindo algum tipo de “prestação de contas” a seus representantes, a questão poderia ser tratada com um pouco mais de rigor. O descaso é tamanho que a derrubada do monitoramento vai contra orientação de 2008, expedida por 11 ministros e assinada à época pela ministra Dilma Roussef, que chefiava a Casa Civil, para que o Ministério de Ciências e Tecnologia criasse grupo de trabalho (que nunca foi criado) envolvendo outros ministérios e que teria como objetivo realizar estudos de monitoramento de médio e longo prazo para avaliar os potenciais danos dos transgênicos.

A transgenia tem crescido no mundo? É possível travar a produção dos organismos geneticamente modificados?
G.F. – É preciso destacar que Estados Unidos, Brasil, Argentina e Índia respondem por 84% da área total cultivada com sementes transgênicas. Assim, a ideia de que a transgenia cresce no mundo todo é uma imagem que a indústria tenta empurrar. A forte concentração no mercado de sementes explica boa parte dessa expansão, inclusive no Brasil. Grandes multinacionais como Monsanto, Syngenta e Pioneer vêm há anos comprando empresas menores de sementes e formando um poderoso oligopólio. Como seu interesse é vender sementes transgênicas, elas tiram do mercado as variedades convencionais e o agricultor fica sem opção. Os grandes produtores de soja do Mato Grosso já ameaçaram recorrer ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE para tentar barrar essa imposição. Também contribuem para a expansão a grande presença de representantes comerciais das empresas no campo e de convênios de governos estaduais para disseminação das sementes modificadas, como no Rio Grande do Sul e no Acre. Até hoje os transgênicos não trouxeram nenhum benefício para o consumidor. Não há nenhuma vantagem que o produtor possa ter eventualmente obtido com os transgênicos que não poderia ter sido alcançada com a adoção de outras técnicas de manejo. Assim, os transgênicos serão travados quando os consumidores de forma geral passarem a ter mais interesse em saber de onde vem sua comida e virem no consumo uma opção política também. Na agricultura, especificamente a familiar, a reversão do quadro dependerá dos movimentos do campo (Via Campesina, Fetraf e Contag) colocarem o controle sobre as sementes como prioridade em suas agendas estratégicas e como um caminho para um modelo agrícola que liberte o agricultor de fazer o que faz o agronegócio, só que em menor escala.

Como vê a participação da sociedade civil em relação aos transgênicos? Por que não há uma mobilização massiva contra esses produtos?
G.F. – Muitas entidades e movimentos sociais estão atravessando um momento difícil, de indefinições políticas e financeiras. Isso torna necessária a priorização de agendas ou, em muitos casos, o enxugamento de quadros. A questão dos transgênicos já foi um tema mais mobilizador e que ajudou a puxar o debate sobre o modelo dominante de agricultura. Agora os agrotóxicos estão novamente cumprindo esse papel. Mas trata-se, na verdade, de dois lados da mesma moeda, e a tendência é que a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida comece a pautar mais a questão dos transgênicos.

Como ficou a diversidade das sementes depois da introdução dos transgênicos?
G.F. – Os produtores que conservam suas sementes próprias estão tendo que assumir o ônus de evitar a contaminação. Isso quer dizer que estão tendo que plantar barreiras em suas propriedades, mudar épocas de plantio ou a localização de suas lavouras. Há casos em que as organizações locais estão comprando kits diagnósticos para averiguar se não houve contaminação das sementes que serão repassadas a outros agricultores ou levadas a feiras de sementes e biodiversidade. A preservação desses recursos genéticos nas mãos dos agricultores será decisiva para a produção de alimentos em tempos de mudança climática e esgotamento dos recursos naturais. O papel estratégico dessas sementes já é reconhecido há décadas, por exemplo, pelos agricultores do semiárido, que desenvolveram os bancos comunitários de sementes, e agora é também defendido pelo relator especial da ONU para o direito humano à alimentação. No âmbito do programa Fome Zero, o governo tem iniciado ações que permitem a compra e distribuição de sementes crioulas entre os agricultores familiares. É um reconhecimento importante, que permitirá que o agricultor enfrente os transgênicos cultivando suas próprias sementes.

Quais são os limites da fiscalização de produtos geneticamente modificados?
G.F. – Para fins de rotulagem dos alimentos, o Ministério da Agricultura deve fiscalizar as plantações; a ANVISA, a indústria de alimentos; e a Justiça, por meio dos Procons, o mercado varejista. Se houvesse cooperação e troca de informação entre esses órgãos, o controle seria mais eficaz e o consumidor poderia estar mais bem informado. Mas infelizmente não é isso o que acontece. Além de ser bem mais caro, o teste em produtos amostrados nos mercados não é totalmente satisfatório, pois em muitos alimentos o processamento torna impossível a detecção do ingrediente transgênico.

*Gabriel Fernandes é agrônomo formado pela USP-Universidade
de São Paulo e membro da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.
Fonte: 
www.ihu.unisinos.br / Imagem em www.flashinthepan.net

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