19 fevereiro 2011

MUITO ALÉM DO HIP-HOP

Invisível nunca mais


No dia 16/02, a presidência nacional da CUFA-Central Única das Favelas foi transferida para a representação do Ceará. O rapper Preto Zezé recebeu uma estatueta de madeira simbólica -- o pássaro anu* -- das mãos do também rapper carioca MV Bill, no palco do Theatro José de Alencar. O anu passou de mão em mão pelos coordenadores da CUFA de todo o Brasil, que se perfilaram no corredor central do teatro

Em seu percurso Zezé cruzou a linha que segrega favela e asfalto
Criada há 13 anos, a CUFA-Central Única das Favelas reuniu um grupo de jovens de várias favelas do Rio de Janeiro, que buscavam espaço para expressar suas ideias, questionamentos e atitudes. Embora o hip-hop fosse sua principal forma de expressão, o movimento ampliou seus horizontes e lançou ações para as esferas políticas, sociais, esportivas e culturais do País. 

Em 2011, com sede em todas as capitais brasileiras, a CUFA pôs em prática dois de seus ideais básicos: democratizar e descentralizar o poder.

Em cerimônia no Theatro José de Alencar em Fortaleza/CE, os cariocas MV Bill e Nega Gizza, respectivamente presidente e vice-presidente nacional da CUFA, transmitiram seus postos na instituição para Preto Zezé e Karina Santiago, então coordenadores gerais das CUFAs Ceará e Mato Grosso.

“A CUFA é muito democrática e é um modelo do que eu gostaria que fosse mudado no País. A alternância de poder é sempre muito saudável”, defende o rapper MV Bill, premiado pela UNESCO em 2004 como uma das 10 pessoas mais militantes da década.

Após 13 anos com a mesma direção, os escritórios estaduais decidiram mudar. “Esses nomes (Preto Zezé e Karina Santiago) surgiram de forma muito natural. O Zezé é um dos caras mais inteligentes e articulados que conheço e essa decisão ajuda a quebrar essa coisa do eixo Rio-São Paulo. Uma das coisas mais interessantes da CUFA é fazer com que o protagonismo seja a nossa marca”, define Bill.

“Muito além do hip-hop”. É assim que Preto Zezé avalia o trabalho realizado pela CUFA no Ceará, criada oficialmente em 2005.

Ele avalia que o movimento deixou de ser pautado pelas políticas públicas para sugerir e motivar a criação de novos projetos e ações no governo local. “Nos últimos seis anos de governo, tivemos uma série de avanços. Agora precisamos ampliar os direitos já conquistados e aumentar o diálogo e a organização do povo. O legal é que ações pequenas da CUFA possam inspirar a política pública maior. É a nossa contribuição enquanto movimento social”, destaca Zezé.


Para Karina Santiago, representante da CUFA Mato Grosso, mudar e valorizar outros atores sociais é a proposta. “É muito simbólica essa questão do Zezé ser do Nordeste e eu do Centro-Oeste, locais que geralmente ficam fora do eixo. A instituição escolhendo esses dois nomes e essas duas regiões aponta esse processo de descentralização do poder. Acho que será uma boa dupla”, anseia Karina.

Os próximos projetos da CUFA visam a criação de um programa de televisão local e a estruturação da sede na Comunidade das Quadras, onde surgiu a CUFA Ceará. “Estamos estruturando algumas bases porque temos muitas ações nas comunidades. Queremos agora criar alguns núcleos com prédio, computador, internet para que esses jovens cuidem do nosso próprio investimento. Queremos ser coadjuvantes da nossa própria história”, decide Preto Zezé.

Quem é Zezé?
Francisco José Pereira de Lima, 34, o Preto Zezé, é produtor cultural, educador, membro do Conselho Nacional de Juventude, idealizador dos projetos Se Liga: o Som do Hip-Hop (pela Universitária FM 107.9, junto ao grupo Comunidade da Rima desde 1999) e Ronda Cultural. É ainda autor do documentário Selva de Pedra - a Fortaleza Noiada.

Preto Zezé: pelo fim da invisibilidade
Empossado esta semana como o novo presidente da CUFA-Central Única das Favelas, Francisco José Pereira de Lima, o cearense Preto Zezé, fala sobre família, infância, hip-hop e sua atuação na entidade.


Zezé acredita na quebra de barreiras entre
favela e sociedade para uma vida harmônica
Homem de nome comum e comportamento singular. Nascido e criado na Comunidade das Quadras, quarteirão de casas populares margeado pela avenida Senador Virgílio Távora e pelas ruas Beni de Carvalho, Vicente Leite e General Tertuliano Potiguara, no bairro Dionísio Torres, Francisco José Pereira de Lima, 34, teve uma trajetória surpreendente. Enquanto criança, precisou equilibrar o desenvolvimento na escola à proximidade com o crime e as drogas. Enquanto buscava afirmação entre os amigos, sonhava em ser surfista. Do mar, veio o palco.

Durante a adolescência, período que considera a primeira grande virada de sua vida, conheceu o movimento hip-hop. Com o tempo, percebeu que o hip-hop não era tudo e tornou-se um executivo social, como se define. Assim, em 2005, participa da implantação da Central Única das Favelas em Fortaleza. Passados seis anos, Zezé hoje não é mais uma voz local da instituição. Desde a última quarta-feira, 16, o Preto das Quadras de Fortaleza é presidente nacional da CUFA.

No Twitter, você se denomina “Amante das coisas simples, otimista, pai do Malcom Jonas, rapper, escritor, documentarista, educador e coordenador da CUFA”. Como administra toda essa versatilidade?
Essa versatilidade dialoga uma coisa com a outra. Na medida em que eu faço uma música, eu quero ver um videoclipe, um documentário, escrever um livro sobre os bastidores dele, produzir um evento, cuidar do filho, viver com os amigos, viver as coisas mais simples do dia a dia. São os ingredientes de uma vida simples, porém não medíocre. Tem que ter metas, tem que ter vivência, tem que ter ideologia.

Como é o Preto Zezé pai?
Já fui melhor. O Malcom hoje tem 13 anos. Ele morou um tempo comigo, agora fica mais com a mãe. Ficamos distantes devido às viagens, mas estamos sempre nos conectando pelo Orkut. Quero passar a mensagem que ele não tem que ser um Zezézinho, ele tem que ser ele mesmo. Ainda bem que ele gosta de break e não de rap e hip-hop como eu, já tem opinião própria, quer torcer time diferente, usar um brinco. Ele é a minha bússola do que está acontecendo hoje na periferia da cidade, do que essa juventude está pensando.

Como foi a sua infância?
Somos quatro irmãos homens e uma irmã. O povo costuma me chamar lá nas Quadras de filho da dona Fátima e do seu Chico Macumbeiro. A vivência na periferia é muito injusta. Muitas vezes, você tem que escolher entre estudar e trabalhar. As notas que você tira não dão a mesma empolgação do que o dinheiro que você leva para casa. E é uma cultura estranha essa de assumir responsabilidade de adulto quando adolescente. Combato muito isso com o meu filho. Porque, na comunidade, quem não trabalha logo é vagabundo. Uma hora dessas, jovens de classe média estão no cinema, em casa na internet, no teatro, estão lendo, tendo acesso a outras culturas. E na periferia a gente é muito pressionado. Eu tive sorte porque, ao mesmo tempo em que fui obrigado a esse cotidiano, eu pude viver muita coisa: soltar raia, brincar de carimba, pescar peixe Beta, ir pro baile funk. Ainda tive muita vivência, e também muita sorte, porque da minha época, de mais ou menos uns 20, 30 adolescentes que nem eu, hoje sobram poucos adultos. E grande parte dos que sobreviveram estão presos, outra parte, infelizmente, não está mais com a gente. E olha que nem tinha tanta incidência de arma, de crack. Sou um sobrevivente.

Você costuma dizer que o rap o encontrou, salvou a sua vida. Como isso aconteceu?
Minha vida tem vários momentos da virada. A primeira foi a virada da rua pro rap. Uma tarde de domingo, chegou uns malucos lá em casa, uns caras da antiga pichação, com uns discos. Nossa referência era muito o surf, as roupas Ciclone, Redley. Eles botaram um disco de rap que chamava Cultura de Rua, que depois virou o nome de um dos movimentos que eu criei. E aquilo causou um choque, foi a virada. A música era sobre violência policial. Jamais passaria na minha cabeça, naquele contexto, que alguém pudesse fazer crítica à polícia, gravar um disco e fazer música com aquilo. Foi muito doido porque toda a minha referência era gangue, armas, meninas, marcas. O rap me ajudou a fazer essa leitura do entendimento de identidade, do negro, como se processa o racismo no Brasil, a invisibilidade da juventude. Aí, montamos o movimento. O MH2O (Movimento Hip-Hop Organizado do Brasil, fundado em 1989 em Fortaleza) foi o primeiro. Depois montei o MCR-Movimento Cultura de Rua. Começamos o programa na Rádio Universitária (Se Liga: o Som do Hip Hop), retomamos as atividades nos bairros. Depois começamos a ver que o hip-hop não era bastante. Foi a época da criação da CUFA. A gente era sempre o público-alvo, era parceiro, mas a nossa pauta nunca estava no centro. O perfil do Celso (Athayde), do Zezé e do (MV) Bill são muito parecidos: jovens que eram invisíveis e que hoje tomaram a frente da CUFA.

Qual o papel da cultura hip-hop em Fortaleza? Há poder de mudança?
Trabalho muito pelo tipo de hip-hop que a CUFA faz, porque o entendemos como uma linguagem necessária para um setor da juventude. Por que o hip-hop? Porque é o único que traz esse discurso do negro, a maioria dos movimentos culturais musicais abandonou isso. As bandas antigas, como a Reflexo, falavam da África, depois tiraram o conteúdo africano, depois o próprio negro e botaram o pessoal pra rebolar a bunda e beber cerveja. E o rap acabou sendo a única coisa que nos sobrou, que ainda conseguimos decidir, escrever e produzir a nossa leitura de mundo. Até costumo dizer que o rap é a maior produção intelectual literária das favelas. O hip-hop pode ser uma janela. O cara vem pra cá porque gosta de rap e pode aprender o audiovisual, a construir um blog, ser produtor de um evento, participar de um projeto, mas nós não somos uma entidade hip-hopista. Ele é a nossa origem, mas é necessário que se dialogue com outras questões, como a segurança pública, a saúde, as correntes culturais e musicais da comunidade como o funk, o samba, brega.

Que dificuldades você enfrentou na sua trajetória?
Uma coisa que é difícil é a invisibilidade. O que é um jovem invisível? É aquele que só a Polícia vê. E aí, quando é que o resto da sociedade vê esse jovem? Quando ele comete um ato de violência. E aí, a invisibilidade recai sobre esse jovem, individual e coletivamente, e recai sobre o seu território. A Comunidade das Quadras, durante muito tempo, viveu nas páginas policiais. Você ia procurar emprego e o cara perguntava: “Onde você mora?”. A gente até mentia. “Na comunidade do Santa Cecília”. “Ah, do Santa Cecília? Mas aonde é?”. “Ali, perto do Colégio Santa Cecília”. “É na Quadra, né? Ah, então depois a gente te chama”. E nunca mais chamava. Cansei de chegar nos lugares e a pessoa dizer: “Não, nós estamos esperando o diretor da CUFA”. “Não, mas o diretor da CUFA é esse cara aí, o Preto Zezé”. Ou então você para numa blitz e o cara pergunta de quem é o carro, o carro nunca pode ser seu. É uma questão no Brasil que não avançou, de um lugar pré-estabelecido pra gente, mesmo que a gente tenha dinheiro. Mas as pessoas começaram a ver o Preto Zezé. Não é porque o cara é preto, negão, contra o branco. Daqui a pouco nem tem mais cor. Nossa lógica começa a transformar isso em carisma, em vez de ficar só na denúncia, na crítica, naquela coisa rancorosa, e começa a conquistar o espaço sem perder o nosso referencial.

De onde surgiu o apelido Preto Zezé?
Eu coloquei de propósito, pra constranger: 11 anos atrás, decidi que meu nome seria Preto Zezé. Às vezes, a galera ligava pra fazer entrevista e dizia: “Eu queria falar com o... como é o seu nome mesmo?”. “É Preto Zezé”. “Pedro?”. “Não, cara, Preto, preto da cor do gato preto”. E o cara: “Não, não era isso que eu quis dizer”. No Brasil, é engraçado, diferente dos EUA, porque aqui a relação das pessoas se dá muito pela cor da pele. Se você olhar na história, as piadas brasileiras, tudo o que é negativo, está relacionado às coisas negras. Essas construções parecem que não existem, pra quem não as vive, mas pra nós é muito forte. Por isso que muitas pessoas dizem que racistas são os próprios pretos. Lógico que são. A nossa construção história não tem nada que nos faça ter orgulho disso.

É comum no seu discurso você dizer que não quer ser mais convidado para discutir a pobreza, mas a distribuição de renda.
Se você olhar no mapa da ONU, nós, Fortaleza, somos a quarta cidade mais desigual do planeta. Se é desigual, é porque há concentração de riqueza. Então, nós não somos tão pobres assim. Onde está essa concentração? Se você fizer uma pesquisa sobre desenvolvimento humano, infra-estrutura, qualidade de vida, com certeza a Beira Mar e o Meireles se igualariam a países da Europa. Aí, você desce mais algumas ruas e chega no (bairro) Lagamar, no (bairro) Tancredo Neves e vai ver indicadores de países da África. E as pessoas acham que esses dois universos vão viver sem ter conflito. É tão grave essa coisa, e aí a pobreza para se manter tem que estar mais visível em alguns territórios, que no Lagamar, por exemplo, de 2007 a 2009, morreram lá mais de 30 jovens e não foi notícia nenhuma. Mas quando o jovem do Lagamar mata um jovem da classe média, vira uma grande tragédia. Aqueles 30 e tantos jovens eram estatísticas, não eram vidas. Vida é vida, independente da classe social a que ela pertença. O negócio é o seguinte, setores ricos concentradores de Fortaleza: vocês vão ter que fazer um acordo pra dividir essas alegrias todas ou vão ter que conviver com a tragédia, porque nós estamos no mesmo planeta, na mesma cidade. E é isso que proponho. Não vou discutir pobreza porque senão vai terminar botando projetinho lá nas Quadras e isso não vai resolver. É necessário que a cidade, como um todo, discuta a divisão das oportunidades.

As Quadras estão num bairro nobre da cidade, circundadas por uma escola particular, uma concessionária de carros e vários condomínios. Como funciona esta relação?
Quando decidi abrir a CUFA Fortaleza nas Quadras, foi pra dizer o seguinte: essa tese é correta? É. Você começa a fazer ações de visibilidade coletiva positiva, porque até então, as Quadras só eram lembradas como campo de bandido, de gangue. Então começamos esse processo de positividade da imagem da CUFA. Resultado: conseguimos tirar as Quadras das páginas policiais e colocar nos cadernos sociais, culturais, até de negócios. Nosso maior investimento é na emoção das pessoas. Então, a partir do momento que aquela comunidade se vê motivada, emocionada, valorizada, ela passa também a mudar o seu comportamento. A gente começou construindo essa ponte, porque o abismo também é no preconceito. Aí caiu o muro. E o legal é que caiu da quadra para o asfalto e do asfalto para a quadra. Começou a vir todo mundo para os shows organizados nas Quadras.

Quem mora na Comunidade das Quadras parece não querer sair dali. As casas viram duplex, triplex e o quarteirão cresce verticalmente. Houve tentativa de tirar as casas dali?
Acho que a Quadra avançou no sentido de estabelecer o seu espaço dentro da Aldeota, e a economia acompanhou. É uma comunidade que lutou muito. Era um monte de barraco de madeira. Hoje, tem saneamento básico, luz, água. Se você vir, nas Quadras hoje tem pouco carro velho. E muita gente evoluiu também. O Foca era um cara de gangue, hoje é corretor de seguros. Tem o James que era um cara que trabalhava com insulfilme, hoje já tem a própria empresa e emprega gente da comunidade. Então, as relações do asfalto com a quadra vão além da contratação de mão-de-obra, da compra de droga ou da eleição, mas passa a estabelecer um diálogo interessante ao redor de questões culturais, sociais, de debates sobre a cidade, da ampliação da inclusão.

Em quanto tempo você filmou o Selva de Pedra e como foi a experiência?
Primeiro, começamos a fazer o Falcão (Meninos do Tráfico, dirigido por MV Bill), com gravações aqui em Fortaleza. Depois percebemos o deslocamento de duas drogas do Sul do País: uma era a merla, que era muito forte em Brasília, e estava se deslocando pro Maranhão, e o crack, que era uma droga só de São Paulo. E fomos estudar esse processo. Só que eu não queria fazer como no Falcão, num lugar externo. Essa coisa vem de dentro da lata pra fora e assim partimos pra entrevistar os próprios usuários. Se tivesse outro nome, o crack se chamaria “segregação”, porque o cidadão segrega tudo, inclusive dele mesmo: não come, não toma banho, não tem prazer. E você tem um grande problema, porque o cara bate na mulher, quer vender tudo dentro de casa, violenta os mais pequenos. Só que o problema, na verdade, está por trás do crack. Sexualidade mal resolvida, relações de família malfeitas, frustrações afetivas e profissionais. E o mais complicado é que a mesma droga que mata e escraviza essas famílias, também sustenta, coloca feijão e arroz na panela. Então começamos a ver uma forma de humanizar esse contato que todo mundo tem medo. Pra gente ouvir o noiado. Por isso se chama Selva de Pedra - A Fortaleza Noiada. Porque a noia é da cidade, como um todo.

Com toda a visibilidade conquistada, existem pretensões políticas de candidatura?
Nem minha, nem de nenhuma parte. Muita gente está comentando, eu até agradeço. Me lançaram até como o Obama de Fortaleza, mas eu agradeço a confiança e a credibilidade. Não é a minha. Não serei candidato a nada, não sou nem filiado a partido que é pra ninguém dizer que eu já estava me preparando pras eleições. Mas assim, estamos também cumprindo missões. Então se um dia a CUFA decidir deslocar os seus quadros ou criar um partido, que acho ser o mais próximo, isso acontecerá. Mas não está em pauta, não é a nossa discussão hoje, pelo menos pelos próximos cinco anos. Pode ficar sossegado o povo da política que não vamos ser candidatos a nada.




EVENTOS DA CUFA
FESTIVAL SOMLIDÁRIO - shows de MV Bill, Transacionais, DJ Guga de Castro, DJ Doido, Comunidade da Rima, Andread Jo e Groovytown
Quando: 15/02 às 19h
Local: Ginásio Paulo Sarasate
Ingresso:
 Doação de alimentos não perecíveis, produtos de higiene pessoal, produtos de limpeza, lençóis, toalhas, colchões e água mineral para as vítimas das enchentes de Fortaleza.
Mais info: 3067-8024 / 3066-2329

POSSE DA NOVA PRESIDÊNCIA DA CUFA
Quando: 16/02 às 10h
Onde:
 Theatro José de Alencar (Praça José de Alencar, s/n - Centro)
Mais info: 3067-8024 
texto: Elisa Parente
edição e foto principal: Rede Dapraia
foto secundária: RafaelCavalcante

foto anum preto: Antonio CBC Lopes
fonte: jornal O Povo de 15/02/11 e 21/02/11


*Anum Preto
Pássaro muito popular no Nordeste do Brasil. O termo vem do tupi "anu" — vulto preto, indivíduo negro. Os anuns são muito úteis para a sociedade, porque são vorazes comedores de insetos, sobretudo os ortópteros, ou seja, baratas, gafanhotos, esperanças, grilos etc.


SAIBA MAIS

18 fevereiro 2011

MILLÔR, ÚLTIMA INTELIGÊNCIA



Brasil de ágrafos

O jornalista Luciano Pires já afirmava que "qualquer coisa que Millôr se propõe a fazer, faz melhor que qualquer outro". E se declarava "fã de carteirinha dessa figura maravilhosa de ser humano pensante, homem, escritor, teatrólogo etc. etc. etc.!"

Feito o elogio, convidava-nos, ainda em 2005, a ler o que "esse deus das letras" escrevera, segundo ele, publicado pelo jornal La Insígnia, em 2 de setembro de 2005.



Foi uma visão porreta Sobre os livros — e aí nos lembramos da frase atribuída a Monteiro Lobato, de que um país se faz com homens e com livros. Faz-se ou não?




 Fato é que, como em tudo que fazia, Millôr sempre abusava da ironia, expunha feridas e tirava um grande sarro. Senão, leiamos:

SOBRE OS LIVROS

"Na deixa da virada do Milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, tecnologicamente chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas -- ou, resumidamente, L.I.V.R.O. 

"O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada e nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo! 

"Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua ordem correta.

"O uso intensivo do recurso TPA -- Tecnologia do Papel Opaco -- permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade! 

"Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. E sabem que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas.

"Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, fato que atrai críticas dos adeptos da portabilidade do sistema. 

"Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escameada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro.

"Lembramos que, quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.


"Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima pagina. 

"Assim, o L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, basta abri-lo. Ele nunca apresenta 'ERRO GERAL DE PROTEÇÃO', nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. 

"O comando 'broxe'* permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. 

"E mais: a maioria dos modelos de 
L.I.V.R.O. à venda vem com o equipamento 'índice' instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.


"Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na ultima utilização, mesmo que ele esteja fechado.

"A compatibilidade dos marcadores de página é total, e permite que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. 


"Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para o uso de marcadores coincide com o número de páginas.


"Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada — o L.A.P.I.S.. 


"Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. é apontado como o mais popular instrumento de entretenimento e cultura do futuro. 


"Por isso, milhares de programadores desse sistema continuam disponibilizando vários títulos e upgrades para utilização na plataforma L.I.V.R.O."

Pois é, Luciano Pires tem razão: Millôr é genial — e todo mundo sabe. Mas hoje, preocupa-nos.

Tudo porque, via twitter, a equipe do venerado desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor, que já conta 86 anos, divulgou no dia 16/02 que Millôr, internado na clínica São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio, estaria "melhorando lentamente".

Oras, nada foi dito sobre o seu estado de saúde. A pedido da família, não foi divulgada nem a data nem a razão da internação. Enquanto isso, diz-se que, em seu site no UOL, Millôr postou o seguinte texto:


"Há mais de cinco décadas escrevendo na imprensa, sempre me disseram, os que me disseram, que me admiravam, os que me admiravam, mas não me entendiam (quase todos). Admirado, no sentido de perplexo, procurei, centenas de vezes, descobrir quem eu era e o que fazia neste perfeito mundo profissional de vocês todos". 


A seguir, teria elencado frases intituladas como "(eis) algumas dessas tentativas de auto-entendimento — ou autotapeação." Bem, divirtamo-nos com sua verve e esperemos por sua saúde.



No blog da jornalista Lu Lacerda lê-se que o escritor, desenhista, dramaturgo e humorista Millôr Fernandes, "como sabido", está internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio, depois de um acidente vascular cerebral (AVC). "Millôr, inconsciente desde o começo de fevereiro, deixou a unidade intensiva nesta quinta-feira (17/02). Os três médicos que estão cuidando dele dizem que ele responde bem aos estímulos e supõem que seu estado neurológico seja bom. Quanto às eventuais postagens no Twitter, são de assistentes de Millôr."

Millôr, que participou da criação do combativo e brasileiríssimo Pasquim, é um dos principais tradutores de Shakespeare no País, além de cartunista, poeta, escritor, dramaturgo, jornalista  e uma das mais completas inteligências nacionais, também como pesquisador da semântica e das artes em diversos idiomas e suportes. 

Prova disso é que ele — sempre — recusou-se peremptoriamente a deixar-se dispor da intenção de que o fizessem participar da Academia Brasileira de Letras.

Porque seria? 


Pra saber, só mesmo perguntando ao Mestre!



*provável trocadilho com "browse", ação decorrente do
termo "browser" — "navegador", em Português do Brasil

LEIA & OUÇA MAIS

19 janeiro 2011

JORNADA COMO METÁFORA


Ir como se quer*

“Tenho proposta de outro palestrante por um terço do valor que você pediu!” — Era o comprador de uma grande empresa, durante concorrência para uma série de palestras que eles queriam contratar. Eu já havia esgotado meus argumentos lógicos e o que fiz foi corrigir o sujeito: 
- Meu caro, onde você disse “valor”, quis dizer “preço”. 
Em seguida, dei-lhe uma aula: 
“Valor e preço são coisas diferentes, quer ver? Após uma viagem acidentada e cansativa você chega ao aeroporto de Cumbica. Seu carro, é claro, está no aeroporto de Congonhas. Você tem algumas escolhas: pode, por exemplo, tomar um ônibus circular até o Tatuapé, de onde pegará outro para Congonhas. O preço é cerca de R$ 7,00 e o deslocamento levará no mínimo uma hora e meia. Você também pode optar pelo Airport Bus Service, direto de Cumbica para Congonhas. Gastará uns R$ 40,00 e levará 50 minutos. Se preferir um taxi, pagará no mínimo R$ 120,00 e levará uns 45 minutos. Mas você poderia alugar uma limusine pagando R$ 1.000,00. Levaria um pouco mais de tempo que o taxi, mas que conforto!"
Resumindo, dá pra fazer Cumbica - Congonhas gastando R$ 7,00, R$ 40,00, R$ 120,00 ou R$ 1.000, 00. 
Levar você de onde você não quer estar para onde você quer estar é a corrida, qualquer um faz, só varia o preço. E cá entre nós, uma corrida entre Cumbica e Congonhas não vale R$ 120,00, muito menos R$ 1.000,00. Mas você não está comprando só ‘uma corrida’. É o quanto de rapidez, conforto e segurança você deseja que determinará o valor da corrida. Para um mochileiro com pouco dinheiro, enfrentar várias paradas, ônibus sem conforto, carregar a bagagem e sujeitar-se a atrasos gastando apenas R$ 7,00 é um ótimo negócio. Mas para um empresário buscando rapidez, conforto e segurança, não. Dependendo das circunstâncias, R$ 120 ou até mesmo os R$ 1.000,00 podem ser aceitáveis.
Quem compra uma palestra apenas para preencher uma janela num evento ou entreter as pessoas enquanto não chega a hora do jantar, está comprando “uma corrida”, um serviço comum, sujeito a leilões. Dá para escolher o mais baratinho. E aí eu fico caro, pois não vendo palestras. 
O que eu vendo é a habilidade de transformar 17 anos de educação formal, 30 anos de experiência profissional, 54 anos de experiência de vida, centenas de livros lidos, cinco livros escritos, muitos sucessos e muitas quebradas de cara, viagens inusitadas e milhares de reuniões e reflexões, numa argumentação capaz de encantar a platéia e levá-la a agir de forma a atender aos objetivos de quem me contratou, trazendo resultados para seu negócio.

A palestra é apenas o processo de entrega. Uma corrida.
E finalizei: "Se você quer preço, experimente o ônibus comum. Se quer um pouco mais de conforto, experimente o Airport Bus Service. Mas se você busca algo criativo, excepcional, único e sensorial, que marque definitivamente, não tem jeito: tem que ser de limusine. E essa experiência eu vendo.”
Não ganhei a concorrência. O comprador só conseguia entender "preço".
Foi de ônibus.

*Luciano Pires é palestrante, executivo, comunicador, focado em despertar o pensamento crítico, lateral, com foco na solução de problemas. Imagem em glimboo.com

SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br 

11 janeiro 2011

TUMORES MALIGNOS

Lamentável Congresso*


Ganhar um bom salário é bom. Ganhar um ótimo salário é ótimo. Mas muito melhor do que isso é poder determinar o valor do próprio salário: que o digam os parlamentares brasileiros que, recentemente, deram-se um estrondoso aumento.

Fizeram isso despudoradamente, com a desculpa de que eles, os senadores, o Presidente, o vice e os ministros de Estado devem ganhar o mesmo que os juízes do STF, que recebem o salário máximo do funcionalismo público.

Foi um "aumentinho bobo", de 62%, quando a inflação acumulada desde o último aumento foi de 20%. Um "aumentinho besta", que elevará seus salários de R$ 16,5 mil para R$ 26,7 mil.

Um "aumentinho" que causará um efeito cascata, aumentando também os salários de vereadores e deputados estaduais.
Indignação, asco e revolta — é o que nos inspiram, cada vez mais, nossos deputados e senadores.

Enquanto o salário mínimo sua e sofre para acompanhar a inflação, os parlamentares presenteiam-se com estupendos salários, zombando dos idiotas que os elegeram. Eles, que deveriam ser representantes do povo, transformaram-se em tumores malignos da sociedade.

Louve-se a esperteza de Suas Excrescências: aprovaram o aumento, sorrateiramente, pouco antes do Natal, quando a atenção do País inteiro se volta para compras, férias, viagens e réveillon

Com isso, a partir de fevereiro um assalariado precisará de quatro anos para ganhar o que um parlamentar embolsa num único mês, e com a diferença de que este tem 14.º e 15.º salários, verbas extras a perder de vista e só trabalha três dias por semana. E ainda pode aumentar o próprio salário.

Há os que protestam, felizmente. Homenageado pelo Senado com a comenda Direitos Humanos Dom Helder Câmara, oferecida aos que se destacaram em favor dos Direitos Humanos, Dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo de Limoeiro do Norte, no Ceará, viajou a Brasília mas recusou a homenagem. 

Em discurso no Plenário da Casa, disse que o aumento era um atentado aos direitos humanos dos brasileiros. Falou por todos nós, os indignados.

O salário do tumores parlamentares é só um item. Incluindo todos os benefícios a que Suas Excrescências têm direito, cada um deles custará para nós, os eleitores idiotas, em média, R$ 140 mil mensais. 

É muita grana. Daria pra comprar meio milhão de ovos. Ou para manter um bandido em um presídio de segurança máxima por 29 dias.
Tirando uma mísera parcela que realmente trabalha pelo bem-estar do povo, nossos políticos usam o mandato apenas para legislar em nome de seus interesses pessoais.

Para esses pilantras, o voto obrigatório é vantajoso, pois mantém baixo o nível médio de senso crítico do eleitorado. Se não fosse obrigatório, só fariam questão de votar os que realmente sabem da importância de seu voto.

Infelizmente, o sistema eleitoral permite também que candidatos com menos votos sejam eleitos, graças a candidatos do mesmo partido ou coligação que receberam muitos votos. 

Isso faz com que o "voto de protesto" piore a situação: foi o que aconteceu com o palhaço Tiririca, que foi feito candidato somente para arrastar com ele alguns colegas menos votados.

Ao saber do aumento salarial, o palhaço mais votado do País comemorou, fazendo piada com o dinheiro alheio. Começou mal.

No site peticaopublica.com.br há um abaixo-assinado onde nós, os idiotas, podemos protestar contra o aumento. Não é isso, obviamente, que resolverá o problema, mas é o mínimo que um cidadão indignado deve fazer.

Ah, ia me esquecendo. Com o que gastamos todo mês com um desses tumores malignos de Brasília, daria para comprar 1.320 guilhotinas, tamanho grande. Bem afiadas.



LEIA MAIS

*o indignado escritor e roteirista Ricardo Kelmer mostra mais facetas de sua rotina em blogdokelmer.wordpress.com
.
Dos 318 deputados presentes à sessão de 15/dez, 35 se posicionaram contra a urgência para votar o projeto de aumento dos salários. Foram eles:
Henrique Afonso (PV-AC), Luiz Bassuma (PV-MG), Augusto Carvalho (PPS-DF), Magela (PT-DF), Capitão Assumção (PSB-ES), Lelo Coimbra (PMDB-ES), Sueli Vidigal (PDT-ES), Vander Loubet (PT-MS), Luiz Couto (PT-PB), Major Fábio (DEM-PB), Alfredo Kaefer (PSDB-PR), Assis do Couto (PT-PR), Gustavo Fruet (PSDB-PR), Marcelo Almeida (PMDB-PR), Reinhold Stephanes (PMDB-PR), Takayama (PSC-PR), Raul Jungmann (PPS-PE), Chico Alencar (PSOL-RJ), Cida Diogo (PT-RJ), Fernando Gabeira (PV-RJ), Luciana Genro (PSOL-RS), Paulo Pimenta (PT-RS), Eduardo Valverde (PT-RO), Ernandes Amorim (PTB-RO), Mauro Nazif (PSB-RO), Décio Lima (PT-SC), Dr. Talmir (PV-SP), Emanuel Fernandes (PSDB-SP), Fernando Chiarelli (PDT-SP), Ivan Valente (PSOL-SP), José C. Stangarlini (PSDB-SP), Luiza Erundina (PSB-SP), Paes de Lira (PTC-SP), Regis de Oliveira (PSC-SP) e Iran Barbosa (PT-SP).

SAIBA MAIS
>> Petição contra o aumento do salário de deputados e senadores assine em www.peticaopublica.com.br 

>> Assine a petiçãocontra a obrigatoriedade do voto -  https://votoobrigatorionao.com.br/index.php

>> Congresso em Foco: informações sobre as atividades dos parlamentares - http://congressoemfoco.uol.com.br

02 janeiro 2011

NORDESTE: SOPRAM OS VENTOS

Nova convenção desenvolvimentista*


O conceito de "convenção" utilizado no título deste artigo refere-se a uma expressão já consagrada nos textos que tratam do desenvolvimento econômico, significando o "conjunto de crenças compartilhado coletivamente, que tem um papel importante na mobilização da sociedade em torno dos objetivos do desenvolvimento".

É a isso que temos assistido mais recentemente no País — e, particularmente, no Nordeste —, quando o sentimento geral traduz a opção pelo crescimento econômico, impulsionado pelos maciços investimentos que vêm sendo conduzidos pelo Governo Federal e pelos Estados.

Os indicadores macroeconômicos revelam que o País segue um ciclo virtuoso, possibilitado pela conjunção de políticas públicas coerentes com a promoção do seu desenvolvimento. Como resultado dessas políticas, a taxa média de crescimento real anual do PIB-Produto Interno Bruto passou de 2,5%, no período 1994-2003, para 4,7%, entre 2004 e 2008.

O crédito teve papel importante para estimular essa expansão, uma vez que sua participação, em relação ao PIB, passou de 24,5% em 2004 para 45% em 2009. A contribuição dos bancos públicos para o crédito bancário representou 82%, destacando-se, principalmente, a contribuição deles no período pós-crise financeira internacional, para contrabalançar a significativa redução da disponibilidade de crédito privado para as empresas.

Na realidade, a política de desenvolvimento do Governo Federal tem sido direcionada para estimular investimentos com vistas a consolidar e expandir a liderança em setores estratégicos, como de petróleo e gás natural, bioetanol, carnes, mineração, papel e celulose, siderurgia e do complexo aeronáutico. E essas políticas, de caráter nacional, vêm tendo rebatimentos importantes nas regiões.

Ao lado disso, há também, ações federais de recorte regional, traduzidas pelos investimentos públicos para viabilização de grandes empreendimentos como a Transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina, as Refinarias e as duplicações de BRs, os quais deverão ser concluídos ao longo do próximo Governo Dilma, proporcionando mudanças estruturais em nossa economia.

Estes investimentos traduzem bem o esforço do Governo Federal para equacionar problemas históricos que afligem boa parte da população, principalmente os relacionados com a elevada pobreza e as desigualdades, tanto em termos pessoais, quanto espaciais.

Quando o Governo Federal prioriza o combate à pobreza e a redução das desigualdades regionais tende, naturalmente, a orientar suas ações para as regiões Norte e Nordeste. No Nordeste, de modo peculiar, tais políticas são fundamentais, pois têm estimulado o surgimento de subespaços, cuja dinâmica tem gerado encadeamentos produtivos, abrindo possibilidades para o desenvolvimento de novos setores vinculados às cadeias produtivas regionais, além de exporem os principais gargalos logísticos regionais, passando a requerer ações mais estratégicas da União para a inserção da região no contexto econômico nacional.

Daí a razão desses grandes investimentos estruturadores, como é o caso da Transnordestina — que vai ter um impacto importante na logística regional —, contribuindo, certamente, para a melhoria da competitividade da nossa economia.

Junto à ampliação e modernização dos portos de Itaqui, Suape e Pecém, cuja capacidade operacional irá demandar um maior volume de cargas provenientes de outras regiões do País, a Transnordestina vai ligar as áreas dinâmicas do interior do Nordeste, produtoras de grãos (Sul do Maranhão e Piauí e Oeste da Bahia), frutas (Vale do São Francisco) e gesso (Araripina/PE) com os portos de Pecém/CE e Suape/PE.

Além disso, a integração estratégica da Transnordestina com a ferrovia Norte-Sul vai viabilizar o escoamento da produção da riqueza produzida no Centro-Oeste do País através dos principais portos nordestinos, que apresentam condições operacionais bem melhores do que as de qualquer outro porto do Brasil, além da localização estratégica mais próxima aos mercados americano e europeu.

Na área de energia, além dos investimentos na complementação das linhas de transmissão de alta tensão e a multiplicação de projetos no âmbito do PROINFRA, implementando pequenas centrais hidrelétricas, o Nordeste apresenta também elevado potencial para o aproveitamento de energia eólica, fotovoltaica e de biomassa, garantindo uma matriz energética não poluidora, capaz de atender a qualquer acréscimo de demanda decorrente do crescimento econômico regional.

Finalmente, na área de infraestrutura, a integração de bacias no Nordeste, através da Transposição do Rio São Francisco, deverá resolver o problema secular de carência hídrica do semiárido nordestino, viabilizando a utilização dos recursos hídricos para fins econômicos e de consumo humano, dentro do princípio da sustentabilidade ambiental.

Portanto, as perspectivas de manutenção da atual convenção desenvolvimentista nos dão a certeza de que todos esses grandes empreendimentos deverão estar concluídos a curto ou médio prazos, o que nos permite estabelecer um cenário otimista quanto às possibilidades de continuarmos evoluindo em termos de melhoria das condições de vida da população nordestina, especialmente da residente no semiárido.


*Adriano Sarquis Bezerra de Menezes é economista, Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia, Mestre em Economia, Especialista em Administração pelo MIT-Massachussets Institute of Technology e professor de Economia da UNIFOR-Universidade de Fortaleza (imagem: www.madphotoworld.com)



LEIA MAIS
www.afbnb.com.br/noticias

CONTATE O COLUNISTA
asarquis@unifor.br

Complementando o pensamento exposto, o leitor Ricardo Perdigão Pamplona comentou (em 03/01/2011 no jornal O Povo) que, "na verdade, a nova idéia de convenção aponta para novos paradigmas, onde o crescimento e o PIB dão lugar a desenvolvimento e IDH, conceitos ainda pouco ou mal utilizados no Brasil. Na visão convencional de desenvolvimento, supunha-se que, alcançando taxas significativas de crescimento econômico, o mesmo 'se derramaria' sobre os setores menos favorecidos, tirando-os da pobreza. Assim, o crescimento seria, ao mesmo tempo, desenvolvimento social. Essa teoria ficou conhecida como 'modelo de derrame', ou seja, não basta o crescimento para solucionar a pobreza.

"Dentro da agenda dominante da globalização, a formação de capital é frequentemente confundida com riqueza, assim como o crescimento é igualado ao desenvolvimento. De maneira inversa, a criação de riqueza é a geração de um pool holístico de recursos para o desenvolvimento, e não apenas para o crescimento, e que, por sua vez, poderia se tornar a base da regeneração de recursos. A crise do pensamento econômico convencional abre uma oportunidade para que, na busca de um modelo mais compreensivo, abrangente e integral do desenvolvimento, se incorporem de forma legítima as dimensões culturais do mesmo.

"Assim, o desenvolvimento é, hoje, entendido como 'desenvolvimento cultural', em cujo cerne se encontram a criação, a produção e o intercâmbio de sentidos e as apropriações individuais e sociais, entendidas como processos dinâmicos. Finalizando, e do ponto de vista prático, os economistas costumam admitir que existam efeitos diretos sobre o emprego e a renda, em produtos culturais tradicionais como o artesanato e o turismo cultural — infelizmente ainda pouco explorados entre nós."



E TEMOS AINDA o discurso de posse da Presidente Dilma Rousseff, que dia 1.º de janeiro focalizou a importância da cultura para o desenvolvimento do País:

“Pela primeira vez o Brasil se vê diante da oportunidade real de se tornar, de ser, uma nação desenvolvida. Uma nação com a marca inerente também da cultura e do estilo brasileiros – o amor, a generosidade, a criatividade e a tolerância.

(…)
Mas o caminho para uma nação desenvolvida não está somente no campo econômico ou no campo do desenvolvimento econômico pura e simplesmente. Ele pressupõe o avanço social e a valorização da nossa imensa diversidade cultural. A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade.

Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação de nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo.

Em suma: temos que combater a miséria, que é a forma mais trágica de atraso, e, ao mesmo tempo, avançar investindo fortemente nas áreas mais modernas e sofisticadas da invenção tecnológica, da criação intelectual e da produção artística e cultural. 

Justiça social, moralidade, conhecimento, invenção e criatividade devem ser, mais que nunca, conceitos vivos no dia a dia da nossa nação.”