30 junho 2011

ARTE SEQUENCIAL


A batalha de Oliveiros com Ferrabrás:
cordel clássico em quadrinhos


O cearense Klévisson Viana, autor das excelentes HQs Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida e A Moça que namorou com o Bode, acaba de lançar mais uma novidade unindo os quadrinhos e a literatura de cordel.

Trata-se do álbum A batalha de Oliveiros com Ferrabrás (formato 21 x 28 cm, 48 páginas em preto e branco, R$ 30,00, já com frete incluso), no qual Klévisson desenha, com arte-final de Eduardo Azevedo, o texto do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918).

Esta é a primeira vez que este clássico do cordel, publicado pela primeira vez no Século 18 e que versa sobre um embate ocorrido na época das Cruzadas, é adaptado para os quadrinhos.

A trama, traduzida em heptassílabos por Leandro Gomes de Barros, revive um episódio que alude à tradicional História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, romance de cavalaria do padre e médico militar português Jerônimo Moreira de Carvalho.

Na história, Oliveiros, um dos 12 cavaleiros liderados por Roldão (Roland, em francês), enfrenta Ferrabrás, o líder das hordas turcas, que, após saquear Roma e apossar-se de relíquias cristãs, desafia os paladinos de Carlos Magno para um combate. A partir daí, acontece uma árdua peleja entre estes cavaleiros, que são também cavalheiros.

O álbum, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Ceará, tem prefácio do escritor baiano Marco Haurélio, edição de texto do jornalista Max Krichanã e produção cultural de Bruno Monteiro.

A batalha de Oliveiros com Ferrabrás, que já conquistou o Prêmio Luiz Sá de Quadrinhos, promovido pela Secretaria de Cultura do Ceará, pode ser adquirido pelo e-mail tupynanquim_editora@ibest.com.br.




Fonte: Universo HQ

13 junho 2011

UM DIA, UMA LAGARTA...

Amostra sonora




No quase findar dos anos 1960, reverberando os movimentos que ocorriam na Califórnia, a "Borboleta de Ferro" começava a sair da crisálida e a deixar sua marca. Chamavam a atenção as texturas de teclados e as guitarras, emoldurando letras de temática um tanto quanto transcendental.

As músicas do grupo retorciam-se por sonoridades progressivas — uma refinada pesquisa de acordes psicomiméticos —, entrecortados por viradas rítmicas equalizadas através de (pioneiramente para a época?) recursos de phaser junto à característica voz de Doug Ingle, que transformou "In the Garden of Eden" no hino hard / acid "In-a-Gadda-da-Vida".




WATCH AND ENJOY

(In the Time of our Lives)


(In-a-Gadda-da-Vida com imagens interessantes da banda, em versão editada mais curta)


(In-a-Gadda-da-Vida Full Version, com edição psicodélica de imagens, diferente da versão acima)


(In-a-Gadda-da-Vida versão definitiva (LP original), com excelente qualidade de áudio: coisas da web) 

10 junho 2011

DE LIVROS E FOFOCAS

Geração T*

Meu amigo Patrick é francês e vive no Brasil há anos. Tem uma visão crítica da forma de ser do brasileiro em comparação a outros povos, especialmente aos europeus. E eu me divirto com ele. 

Recentemente, presente a um desses eventos badalados que tratam de redes sociais, ele me ligou para descrever o público. 

Jovens, muito jovens, com seus iPads e iPhones, tuitando furiosamente enquanto assistiam às palestras de dezenas de especialistas. Ao final da palestra, invariavelmente o apresentador dizia:

- Alguma pergunta?

Silêncio. Ninguém. Nada. E assim foi, de palestra em palestra. Ninguém nunca perguntava nada. 

O Patrick então disse que aquela era a Geração T. "Tê" de testemunha: “Sou testemunha de tudo, mas não tenho opinião sobre nada.” 

É isso mesmo que tenho visto por aí: a Geração T dominando os espaços e dedicando-se à única coisa que consegue fazer: contar para os outros o que viu. Ou no máximo, repetir a opinião de terceiros, enquanto permanece incapaz de analisar, comparar, julgar e de emitir opiniões.

Mas sabe o que é mais louco? A “Geração T”, diferente das outras gerações, parece não ter um período definido. Não é composta exclusivamente de gente que nasceu entre o ano x e o ano y... É claro que a quantidade de jovens é muito grande, mas ela generosamente engloba gente nascida desde 1950... 

Em minha palestra Quem não se comunica, se estrumbica falo de um estudo que mostra que, nos 40 mil anos que se passaram desde o momento em que o homem desceu das árvores até inventar a internet, a humanidade produziu 12 bilhões de gigabytes de informação, algo como 54 trilhões de livros com 200 páginas cada. 

Agora veja esta: somente no ano de 2002 produzimos os mesmos 12 bilhões de gigas! Geramos num ano o mesmo que em 40 mil anos... Em 2007 foram mais de 100 bilhões de gigas! E em 2012 serão alguns trilhões!

Produzimos informação numa velocidade cada vez maior, enquanto inventamos traquitanas que tornam cada vez mais fácil acessar essas informações. Mas de que adianta ter acesso às informações se não temos repertório para dar um sentido à realidade?

O resultado é a Geração T, que sabe tudo o que acontece, mas não tem ideia do por que tudo acontece. Entrega-se à tecnologia de corpo e alma, como se fossem vending machines, aquelas máquinas automáticas de vender refrigerantes em lata, sabe? 

Existem como distribuidoras de conteúdo de terceiros — focados no processo de distribuição mas sem qualquer compromisso com o conteúdo distribuído.

Nada a estranhar, afinal. Querer que as gerações que saem do nosso falido sistema educacional conheçam questões conceituais, paradoxos, tradições, estilos de comunicação, relações de causa e efeito, encadeamento lógico dos argumentos e significados, para poderem exercer o senso crítico é demais, não? 

É mais fácil e menos comprometedor simplesmente contar para os outros aquilo que ficamos sabendo.

A Geração T não consegue praticar a curiosidade intelectual, só a curiosidade social. Tentei achar um nome para esse fenômeno e acabei concluindo que só pode ser um: fofoca.

A Geração T é a geração dos fofoqueiros. E você é testemunha.


*Luciano Pires é jornalista, escritor e palestrante
SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br



LEIA MAIS
>> publicado em 1978 pela Summus Editorial,
o livro Tratado Geral Sobre a Fofoca - uma
análise da desconfiança humana
, do
psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, é
oportunamente atual















VEJA MAIS
www.metacafe.com/watch/1973293/gaiarsa_fofoca

www.metacafe.com/watch/1980593/jose_angelo_gaiarsa_1_de_3


www.metacafe.com/watch/1980885/jose_angelo_gaiarsa_2_de_3

www.metacafe.com/watch/1980889/jos_angelo_gaiarsa_3_de_3






24 maio 2011

MINISTÉRIO DA DESEDUCAÇÃO

Pobre flor do Lácio*



Ah, pobre de mim, que ainda sou capaz de acreditar na seriedade e nas boas intenções das instituições brasileiras. E que elas foram e são criadas para cumprir à risca as funções para as quais supostamente se destinam, segundo os meandros da burocracia governamental. 

Devido a essa minha patriótica credulidade, quando menos espero percebo que fui enganado, ludibriado, e que estou fazendo papel de bobo, pois cara de palhaço, pinta de palhaço foi o que sobrou pra mim. 

É, parece que não tem mesmo jeito de sustar essa vocação circense há séculos incrustada no modelo institucional brasileiro e na cabeça de quem porventura o comanda, dando-nos a indecorosa pecha de sermos tudo, menos um país sério. 

E ainda temos a cara lisa de nos sentirmos feridos em nossos brios quando nos expomos à galhofa internacional pelas palhaçadas e momices várias que cometemos com o aval das autoridades ditas competentes. É ou não é, Seu Zé?

Em minha santa ingenuidade, cheguei mesmo a pensar que o nosso Ministério da Educação tinha como papel precípuo educar o povo, fomentar a cultura, o conhecimento, levando-os aos mais distantes rincões da nação, reduzindo de modo drástico a ignorância que grassa ancestralmente nessa terrinha abençoada por Deus e bonita por natureza.

Que nada, necas de pitibiriba. Mais uma vez caí na esparrela, feito um patinho bobo. Com tanto tempo de janela, culpa minha não haver aprendido que algumas instituições não são realmente o que aparentam ser aos nossos incautos olhos e se tornam exímias especialistas em fazer justamente o contrário do que deviam, pouco ligando para a opinião pública. 

Seus mandatários fazem o que bem querem, inclusive perpetrando piramidais atentados contra a inteligência alheia com a desculpa furada, manjada de que agem em nome da modernidade, do progresso, da civilização.

Quem, dentre nós, mesmo aquele dotado de uma mente poderosamente criativa, de uma fertilidade espantosa, poderia sequer imaginar que o nosso Ministério da Educação tivesse a suprema coragem e ousadia de adotar um livro destinado ao ensino da língua portuguesa para jovens e adultos, repleto de crassos erros gramaticais da primeira à última página?

E o que é pior, tal nefanda obra vai ser distribuída impunemente por quase todas as escolas existentes no brasílico território. Para mostrar que não estou exagerando na dose, cito aqui, de maneira literal, algumas frases contidas no almanaque do besteirol: ”Os livro mais interessante estão tudo emprestado”; “Os menino pega o peixe”; e outras preciosidades de igual quilate. 

Num gesto de boa vontade, também desejo colaborar com a publicação, inserindo mais algumas pérolas de concordância verbal: ” Nós escreve bem”; “Vocês faça o favor de trazer alguma coisa pra mim fazer”; “Fui, fui, fui e acabei fondo”.

Os insignes autores defendem ardorosamente o seu aleijão, garantindo que sua intenção é acostumar o indefeso aluno com a linguagem popular — e não ensinar errado o Português. Além de proteger os estudantes de preconceito linguístico, por falarem e escreverem de modo errôneo. 

O importante, de acordo com tais “puristas”, é que a ideia de correto e incorreto ao usar a língua seja substituída pela ideia, inteligentíssima, por sinal, de uso adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa. Vocês entenderam alguma coisa? Nem eu. 

Falaram tanta água que daria pra encher todos os açudes. Estes deseducadores não passam de umas bestas quadradas de quatrocentas patas. Nelson Rodrigues dizia que só tinha inveja de uma coisa na vida. Da burrice, porque é eterna. 

Coitada da nossa Flor do Lácio tão maltratada, tão espezinhada, coitadinha. O Ministério da Educação, por aceitar tamanha aleivosia, merece ser chamado, daqui em diante, de Ministério da Deseducação e Promoção do Analfabetismo.


*Médico-psiquiatra, escritor, cronista e colunista do Jornal da Praia desde a década de 1980, Antônio Airton Machado Monte é um legítimo repórter da nossa época



13 maio 2011

PALAVRA, A PÁ QUE LAVRA

Relatividades presentes*




Existem coisas que mais claramente nos deixam ver, e existem coisas das quais estamos tão perto que nos confundem o pensamento, atordoam-nos a alma e não nos trazem serenidade para saber com clareza o que fazer.

Assim como existem aqueles que, mesmo distantes, fazem-se presentes; outros há que, mesmo na ausência, presentes estão: e há presenças que nem contam, de tão ausentes.

Há coisas que há muito deveríamos ter conhecido; há outras que melhor teria sido nunca ter tido. 

Há coisas pelas quais buscamos, procuramos, por elas tudo apostamos e, mais do que delas esperávamos, elas nos oferecem quando ali estamos.


Há coisas para as quais todo o preparo que já tivemos, suficente nunca foi, e tampouco o será para o espaço, dimensão que elas ocupam em nossas vidas, quando delas ou com elas viermos a nos deparar.


E novamente a mesma questão volta a se colocar: se tu não souberes bem te administrar, não saberás tampouco nenhuma situação administrar; se tu não souberes contigo mesmo lidar.

Os teus pontos fracos ou fortes, tendo-os bem conhecidos, poderão te ajudar ou atrapalhar quando tiveres que decidir, arguir, quando uma solução urgente para determinado problema tiveres que apresentar.

Há coisas em relação às quais tu precisas te distanciar, para melhor enxergar, e há coisas que, somente estando perto poderás, afinal de contas, ver descoberto o que, antes, não poderias nem sequer imaginar.

Em qualquer situação, que sejas tu o(a) senhor(a) e não um(a) cativo(a) deste sentimento ou daquela emoção.

Age com equilíbrio, com equidade e, contigo, sempre por perto estará a sabedoria, que jamais te deixará à revelia.

Há coisas que somente de perto é possível melhor enxergar, e há coisas para as quais é preciso haver certa distância, para melhor poder-se avaliar e avaliar-se.


*Pernambucano de São José do Egito, Pe. Airton Freire de Lima é psicólogo, escritor
(56 livros publicados) e criador de grupos de oração (os Grupos da Terra, apoiados
pelos IPA-Institutos Padre Airton no Ceará, Piauí, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco,
França e Inglaterra). Pós-graduado em Paulo Freire pela UECE-Universidade Estadual do Ceará,
gravou CDs com músicas autorais e preside há 26 anos a Fundação Terra, entidade
mantida por doações devotada à saúde, educação e moradia para cerca de 2.000 pessoas.