16 agosto 2011

EUA: COMPLEXO MILITAR-ACADÊMICO

 Forças Armadas na América Latina*



A militarização imperialista na América Latina tem se expressado historicamente de maneiras diversas, mas sua essência permanece. 

Tanto nas novas como nas velhas formas, o objetivo foi e continua sendo o mesmo: obter a dominação e a exploração dos povos. Isto é particularmente válido em um período de crise sistêmica como o que estamos atravessando, quando, mais que nunca, o poder imperial precisa descarregar sobre os povos as consequências da crise, fazendo com que as políticas de dominação assumam contornos brutais.

É de todo importante conhecer as formas renovadas que o projeto imperial assume para poder denunciar seus planos e enfrentá-los. Com essa finalidade, convém concentrar a atenção em dois documentos elaborados nos últimos anos que orientam as ações das forças armadas dos EUA: são eles a Visão Conjunta 2020, VC2020, (Joint Vision 2020), emitido pelo Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, no ano de 2000, e a Estratégia do Comando Sul dos EUA 2018 (United States Southern Command Strategy 2018), preparado pelo Pentágono em 2008.


O núcleo do primeiro documento é a doutrina da dominação de espectro completo — Full Spectrum Dominance —, orientada para proteger o que se denominam “os interesses globais e as responsabilidades dos EUA” na nossa região e no resto do mundo. Segundo a definição, a "dominação de espectro completo" é “a capacidade das forças dos EUA, operando unilateral ou conjuntamente com aliados multinacionais ou forças inter-agências, de derrotar qualquer adversário e controlar qualquer situação em qualquer lugar do mundo”.

Isto inclui conflitos com emprego de forças estratégicas e armas de destruição em massa, guerras em teatro de operações convencional, conflitos regionais e contingências de menor escala, como situações ambíguas que caem entre paz e guerra, tais como as operações para manter e reforçar a paz, a ajuda humanitária e o apoio às autoridades locais. 



Sem subterfúgios, estão a nos advertir sobre o que poderemos esperar das guerras imperialistas do século XXI: uma ação global desdobrada em todos os domínios, no especificamente militar, com seu poder letal, mas também no plano político, econômico, ideológico e cultural, sem limitação ou condicionamentos jurídicos e morais de nenhuma espécie. Não se trata de uma simples ameaça, pois é exatamente o que estão fazendo com a Líbia.

Se alguém ainda duvida de suas intenções, a VC2020 explicita: “Para que nossas forças armadas sejam mais rápidas, mais letais e mais precisas em 2020 do que são agora, devemos continuar investindo e desenvolvendo novas capacidades militares”. Para isso o orçamento de guerra dos Estados Unidos cresce cada ano e na atualidade equivale à soma do orçamento militar dos demais países do mundo.


No atual contexto estratégico mundial, os EUA se percebem como um sheriff global. Por isso, afirmam que suas forças conjuntas devem estar preparadas para se projetar e atuar em qualquer lugar do mundo, aptas a conduzir operações rápidas e sustentáveis, dispondo de liberdade para operar em todo o planeta, seja no espaço, mar, ar, terra ou na área de inteligência.

Isso é exatamente o que propôs a recente cúpula da OTAN, realizada em Portugal, em novembro de 2010, onde proclamou-se o papel global dessa aliança agressiva encabeçada pelos EUA.

No segundo documento mencionado, a Estratégia do Comando Sul dos EUA 2018, são concretizados os conceitos de VC2020 como objetivos estratégicos do governo dos EUA para a América Latina e o Caribe. Vale a pena analisá-lo para se precaver e estar preparado para atuar. É um desafio que propomos aos leitores e que excede os limites deste artigo.


(Texto extraído do documento apresentado por Rina Bertaccini* à Mesa Redonda n.º 7 / O Complexo Acadêmico-Militar dos EUA e suas Relações com a América Latina, promovida no V Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, realizado em Fortaleza, no Seara Hotel, de 8 a 10 de agosto de 2011)
(versão em Português: Olga Benário Pinheiro para conteúdo publicado no jornal O POVO em 20.08.2011)

*Rina Bertaccini é engenheira, geógrafa, presidente do MOPASSOL-Movimento pela Paz, Soberania e Solidariedade entre os Povos (sediado
na Argentina), vice-presidente do Conselho Mundial pela Paz e colaboradora do Observatório das Nacionalidades 
www.nacionalidades.ufc.br

(Imagem de Barack Obama em 
http://southasiarev.wordpress.com/2010/11/page/2)   









14 agosto 2011

NADA SERÁ COMO ANTES

Os zoiudos*

Comprei um Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon, e comecei a baixar os livros que eu queria. Uma experiência fascinante! Descubro o livro e em três minutos tenho-o em mãos! Mas logo percebi que algo estava faltando...

Veja só, até hoje a experiência de consumo de bens culturais utilizava visão, audição, tato, olfato e – às vezes – paladar. Mas a tecnologia tem feito com que a visão e a audição sejam mais e mais utilizadas, as mensagens vem de todo lado, até meu carro fala! Mas o tato está acabando. O olfato também. O paladar, bem talvez não se aplique.

Passei a sentir falta daquela sensação de chegar em casa após um dia de trabalho e abrir a porta, ansioso pra ver um pacotinho da Amazon em cima da mesa. A cada dia uma ansiedade, até que o pacote chegava e eu pegava nas mãos o livro comprado três semanas antes, sentia o peso, a textura do papel, o cheiro de tinta, o brilho das ilustrações... Que delícia!

E a experiência de sentar no chão da livraria, ali naquela prateleira esquecida e ficar por horas pesquisando os livros mais escondidos? O cheiro de poeira, o frio no estômago ao achar aquele livro daquele autor que você procurava há tempos?

E a sensação de abrir a caixinha do CD ou DVD, pegar o disquinho na mão e enfiar o dedo no furinho antes de colocar no tocador? E aquela saboreada no encarte? E o “vou na locadora”, onde eu não sabia que novos filmes encontraria e às vezes tinha surpresas maravilhosas?

Tudo isso está acabando, superado pela modernidade. Em vez do livro, do CD ou do DVD, temos “bytes”, que são mais rápidos, mais baratos, não ocupam espaço, uma maravilha! Mas “bytes” não têm peso, não têm cheiro, não têm gosto, não têm brilho. Só chegam aos nossos sentidos quando transformados em imagens e sons. Em breve, talvez comecem a se transformar em cheiros e gostos, mas e o tato?

Já passamos por um processo parecido quando o e-mail acabou com as cartas que o carteiro entregava e que nos davam aquela alegria imensa de saber que alguém, em algum lugar, havia transformado um pedaço de papel e um pouco de tinta numa obra de artesanato, especialmente pra nós... O e-mail não dá essa sensação.

E antes que você saia me rotulando de saudosista, saiba que nada disto tem a ver com saudades e sim com a perplexidade de testemunhar uma daquelas profundas mudanças que alteram o eixo da humanidade.

Então concluo, baseado no que aprendemos com a Teoria da Evolução, que o uso excessivo da visão e da audição fará crescer os nossos olhos e orelhas. E diminuirá nossos narizes, bocas e músculos. Teremos dedos mais finos e frágeis. O ser humano será zoiudo e orelhudo.

Isso é ruim? Não sei, não estarei lá pra ver.

Mas que é estranho, ah isso é.


*O jornalista e palestrante Luciano Pires milita no combate à "mentalidade pocotó" que assola o País — e o mundo 


SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br


09 agosto 2011

VIDA NOSSA, ESSA

Brasileiro: tão bonzinho!



Honestamente, nunca imaginei que tantas coisas positivas acontecessem ao Brasil nas últimas décadas. Ou melhor, pensei que as coisas mudassem para melhor logo após o final da ditadura militar, mas os primeiros governos civis foram frustrantes, com resultados pífios.

Entre as boas surpresas, destaco o sucesso no combate à inflação, o CDC-Código de Defesa do Consumidor e suas consequências, a redução da pobreza e a ascensão das classes C e D.

Confesso que esperava muito mais das agências reguladoras, e que é triste ver os brasileiros ansiosos por bons serviços públicos, submetidos a apagões de energia, a aeroportos mal administrados, a telefonia móvel de má qualidade e acesso à banda-larga idem.

A continuidade do poder absoluto do sistema financeiro é outra pedra no sapato do consumidor.

Nos últimos anos, com a valorização do real ante o dólar e a ampliação dos consumidores com alguma renda, enfrentamos outro fenômeno preocupante, que poderá desfazer parte da inclusão social: o encarecimento do País.

Especialmente em São Paulo e em outras grandes cidades, pagamos preços absurdos, extorsivos, quase inacreditáveis, por um prato de macarrão, pelo estacionamento do automóvel, por serviços em geral.

Estamos longe de contar com uma boa distribuição de renda. Há mais empregos formais, mas somos, em média, muito mal remunerados. É verdade que um empregador que pague R$ 2.000 para um profissional destina outro tanto em impostos e taxas ao governo.


Há vários fatores que condicionam a elevação de preços: alta carga tributária; especulação livre e desenfreada; crescente oligopolização da economia nacional; falta de mobilização dos consumidores.


Esqueçamos, por um instante, os três primeiros itens. Afinal, dificilmente mudarão no curto prazo, ainda mais sem ações concretas dos três Poderes para que isso ocorra. A mobilização, contudo, cabe a nós.

Por que não brigamos pelos nossos direitos? Por que não usamos nosso poder de fogo, como consumidores organizados, para boicotar, por exemplo, as empresas de estacionamento que nos cobram, em São Paulo, R$ 30 por três horas de “serviços”?

Porque podemos pagar. E também para não quebrar nossa rotina de imobilismo. Somos capazes de sair às ruas para protestar contra o fraco desempenho da seleção brasileira em campo.

Mas não nos dignamos a comparecer a uma esporádica reunião de condomínio do prédio, que decidirá, entre outras coisas, o reajuste da mensalidade cobrada pelos serviços prestados no edifício em que moramos.

Enfrentamos uma longa espera em um restaurante da moda, pagamos muito caro por um prato mais ou menos, e por um serviço de má qualidade, sem nenhum questionamento. Porém, se boicotássemos aqueles que abusam dos preços — sem nenhum espírito dos antigos "fiscais do Sarney" —, a situação mudaria. Mas, não, se há como pagar, que se pague.

Imóveis dobraram de preço. Nossos automóveis são caríssimos e não dispõem de itens de segurança para lá de básicos em países desenvolvidos. As tarifas de luz, de água, de telefone e de banda larga estão entre as mais salgadas do mundo.

Apesar disso, nem nos damos ao trabalho de avaliar, periodicamente, o trabalho dos políticos que elegemos. Na maioria das vezes, esquecemos os nomes dos candidatos nos quais votamos.

A cidade de São Paulo, uma das mais ricas do mundo, uma cornucópia de geração de tributos em todos os níveis de governo, está à matroca. Ruas esburacadas, trânsito infernal, transporte coletivo ruim, tudo isso permeado por apagões e por uma poluição insana, nos dias mais secos do inverno.

Assistimos a tudo como se fosse um filme ruim, de um Freddy Krueger que nos ameaça impunemente.

Ou nos mexemos, ou em breve tudo custará o dobro, porque quem cala, e aceita quieto, consente.

Como dizia uma personagem de humor, com sotaque norte-americano, "Brasileiro, tão bonzinho!".


*Maria Inês Dolci é coordenadora institucional da ProTeste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) e colunista do jornal Folha de S.Paulo (caderno Mercado). Imagem em http://media.photobucket.com



29 julho 2011

OLHAR AO FÚNEBRE


Trabalhoso não é morrer*


Fui ao velório de uma amiga. A morte e o sepultamento sempre tiveram seus rituais e teatros, com as particularidades de cada povo e civilização. 

Minha amiga sofria de doença cardiovascular grave, fez várias cirurgias, colocou próteses nos vasos, tomava caixas de medicação e já completara os seus 84 anos. 

Teve uma parada cardíaca, deu entrada quase sem vida numa emergência, foi levada a uma UTI, entubada e reanimada sem sucesso. 

A família e os médicos, mesmo conhecendo a gravidade do caso, mesmo sabendo que as chances da paciente sobreviver eram mínimas, não aceitaram o desfecho da história. Esse é o primeiro ato.

Desde os primórdios o homem se pergunta por que tem fim nossa capacidade de ver, de ouvir, de caminhar e de falar. Elaborou imagens sobre a morte, tentou representá-la. Apareceram rudimentos de cidades, aumentaram os agrupamentos humanos e as questões se alargaram. 

A morte é para sempre ou apenas transitória? Teremos outra vida depois dessa, num lugar longe daqui? As perguntas se transformaram em representações na pintura, na poesia, na música, no teatro e na dança. Surgiram a arte e a filosofia, fundaram-se as religiões, elaboram-se os conceitos de alma e espírito.

O segundo ato. O cemitério numa colina possui ótimas instalações, túmulos cobertos de grama, lápides planas. Parece um campo de golfe que resvala em despenhadeiros. A altura sem obstáculos permite que se veja um por de sol inesquecível. 

Tudo de bom. Os familiares sentem-se apaziguados e assumem um comportamento discreto, sem excessos de choro e lamento. Acreditam que seus mortos, a sete palmos da superfície, descansarão na paz eterna.

Na despedida, levaram o corpo a uma sala ampla, sem símbolos religiosos, com uma mesa coberta por uma toalha de renda, onde se celebraram as exéquias. O corpo foi recomendado a Deus por um padre, dentro do ritual católico. Um filho pediu a palavra e fez um pequeno inventário das bondades da morta. 

O caixão foi posto em frente ao altar improvisado, entre filas de cadeiras. As coroas de flores descansavam dos lados, removeram a tampa do caixão para que todos pudessem olhar uma última vez a que se despedia desse mundo. Foi o terceiro ato.

As funerárias cobrem os mortos com flores e deixam apenas o rosto de fora. Não sei de onde veio o costume. Houve tempo em que se procedia assim apenas com as crianças, os anjinhos. O padre sacode água benta na morta, nos familiares e em todos os presentes. Já não usa o hissope para aspergir, mas um tubinho plástico bem ao gosto da igreja contemporânea. 

Os judeus não deixam seus mortos expostos, eles são fechados em ataúdes e deixados num lugar à parte do velório. É como se já tivessem partido e o corpo não representasse muito. Nós temos o mau gosto de contemplar os nossos defuntos, olhar a última feição da morte.

Minha amiga desejou ser cremada e a família atendeu-a. Nada de retornar à terra de onde veio, nem ser esmagada por mausoléus descomunais como os de La Recoleta, em Buenos Aires, ou os do Père-la-chaise, em Paris. Nada do lento processo de decomposição, entregue a bactérias e micro organismos do solo ou à ação corrosiva do tempo. 

Em seis horas de forno, necessárias ao aquecimento a uma temperatura máxima e ao desaquecimento, o corpo, as roupas, as flores e o caixão – desprovido das alças metálicas – se transformam num punhado de cinzas. Forno crematório. Não gosto desse nome porque me traz à memória outros fornos de passado sombrio, nos campos de extermínio.

De uma abertura invisível no teto, caem pétalas de rosas de várias cores sobre a morta. Uma portinhola se abre automaticamente e o caixão é sugado para dentro de um vazio escuro como a noite. 

Último ato. Levaram o caixão de tampa lacrada a uma nova sala, espécie de anfiteatro, e o colocaram sobre uma plataforma, a uns dois metros do chão. As coroas de flores foram dispostas em longa fila. Os amigos e parentes sentam-se em poltronas confortáveis. Toca uma música solene, que termina num grand finale. 

Após o ato final. As pessoas ganham as ruas da cidade nos seus carros de faróis acesos. A cidade traga os móbiles vivos, enquanto o cemitério no alto aguarda por eles, sem pressa.

A música cresce, a portinhola se fecha. Apenas as coroas de flores restam aos olhos, sozinhas, sem a homenageada. Todos aplaudem em despedida, emocionados com a cena perfeita.


*Radicado em Recife, o cearense Ronaldo Correia de Brito é escritor, dramaturgo, roteirista, médico e autor de Galileia, A Faca, O Livro dos Homens e vários contos (imagem em www.satisfeitayolanda.com.br )



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12 julho 2011

VENENOS: MAPEAMENTO


Agrotóxicos no Ceará*

Há quatro anos, a fim de elaborar este projeto, estendíamos a mão à Fundação Cearense de Apoio à Pesquisa (FUNCAP), na busca de respaldo financeiro (menos de R$ 4 mil/mês). Não tardaria o indeferimento: "Negado. Não há recursos". Em última instância, recorríamos ao prestigiado jornalista Demócrito Dummar, solicitando-lhe interferência junto àquela instituição, na esperança de reverter o quadro. 

Todavia, não tardaria a resposta do saudoso amigo: "Debalde os meus esforços, os meus apelos, doutor. Aliás, quem já viu governo bater de frente contra as multinacionais dos agrovenenos?", sentenciou taxativamente. Inobstante, o clarividente Dummar foi-me generoso em seu incentivo: "Seu estudo, Júlio, é muito importante. Não recue, vá em frente e conte com O Povo para divulgar os resultados". Assim o fiz.

Quase sozinhos, dávamos continuidade ao projeto. Lenta, mas tenazmente. Cativo apenas à lúcida parceria da pesquisadora Erbene Góes da Ponte, admirável exemplo de esposa dedicada e competente.

Na incansável busca de dados, palmilhamos todos os recantos do Ceará, cerca de 15 mil quilômetros. Enfim, tudo concluso. E, abaixo, alinhadas e em ordem decrescente dos respectivos investimentos em agrotóxicos: 1) Ibiapaba, com 26%; 2) Vale do Jaguaribe, 24%; 3) Litoral, 17%; 4) Maciço de Baturité, 15%; 5) Cariri, 8%; 6) Sertão Norte, 6%; 7) Sertão Central, 3%, e 8) Inhamuns, 1%.

Em sua totalidade, comercializam-se, no Ceará, 24 mil t/ano, o correspondente a 3% de todo o consumo nacional (800 mil t/ano). Vale lembrar que o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e, segundo a FAO, o primeiro também no ranking em mortandade por câncer. 

Agrotóxico e câncer estão intrinsecamente ligados pelos liames de causa/efeito. Neste Estado, até 1960, o percentual de óbitos por câncer girava em torno de 0,1%. Hoje, é da ordem de 16%. Com efeito, não há, atualmente, nenhuma família que não deplore a morte de um ente querido vitimado por tal doença.

Não obstante, alheios ao problema, médicos e nutricionistas, por descaso ou ignorância, continuam a receitar dietas vegetarianas sem advertir sobre frutas e hortaliças envenenadas. São os profetas do câncer. Na infame lista dos males causados por agrotóxicos, alinham-se doenças graves e deploráveis desequilíbrios ambientais.

Dentre os produtos agrícolas mais envenenados, tomate, morango, alface e demais verduras folhosas prevalecem nos primeiros lugares, logo seguidos de uva, goiaba, melão, melancia, batata, citros, banana, legumes e cereais. 

Entre os agrotóxicos mais difundidos no Ceará, sobrelevam-se Tomaron, Malution, Decis, Folidol, Mancozeb e Monocrofton, todos de alta toxicidade e, há anos, prescritos na Europa, América do Norte e até no Senegal e na Mauritânia. No Brasil, continuam livres. Por quê? Perguntem ao ex-ministro Reinhold Stephanes e à retrógrada bancada ruralista do parlamento.

Urge um "basta!" aos agrotóxicos. Em termos prescritos ao Ceará, vale um crédito de confiança no atual secretário de Agricultura, Nelson Martins, agrônomo consciente e, até ontem, deputado estadual brilhante e destemido. Louvado seja!

*o engenheiro agrônomo José Júlio da Ponte Filho é presidente da Associação Cearense de Ciência, professor emérito e livre-docente da cadeira de Fitopatologia do Curso de Agronomia da UFC e desde 2007 comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico. É ainda o criador de um substituto eficaz ao uso de agrotóxicos, para o qual solicitou patente, a "Produção de manipueira em pó para utilização como insumo agrícola: defensivo e fertilizante". Tal invenção, inteiramente original, pretende prover a produção de manipueira (extrato líquido das raizes de mandioca, Manihot esculenta) em pó, mediante processo de liofilização, de sorte a manter praticamente intactos os componentes responsáveis por sua extraordinária eficácia como defensivo e fertilizante agrícolas, conforme os compostos em seu estado original, ou seja, na forma líquida. Em forma de pó e devidamente acondicionada em embalagens apropriadas, a manipueira torna-se disponível durante todo o ano e a qualquer tempo ou distância, corrigindo-se, assim, as suas duas principais limitações: a sazonalidade (o composto dificilmente é encontrado na estação chuvosa, época pouco adequada à farinhada) e, em muitos casos, a dificuldade em obtê-la dada a grande distância que separa a propriedade rural do usuário do centro de produção de mandioca, de cuja industrialização a manipueira é um subproduto. Além do mais, superando outra limitação do composto natural: a curta durabilidade dos seus préstimos como insumo agrícola, pois a manipueira à temperatura ambiente perde sua eficácia a partir do quarto dia após a extração, dada a sua fermentação (imagem editada de www.agencia.cnptia.embrapa.br). 

01 julho 2011

SOM E SANIDADE

Ode ao silêncio*


Se existe uma coisa com a qual não consigo me conformar, por mais que eu tente denodadamente nos últimos tempos, é com a barulheira caótica, ensandecedora e infernal que assola esta cidade em que sobrevivo, transito e me morro de amores. 

E o que é pior, não tem hora nem dia para começar o diabólico pandemônio. Tanto faz se é de manhã cedo, de tarde, no começo da noite ou até mesmo altas madrugadas. Pouco importa que estejamos em pleno feriado, ou seja um sábado, um domingo. 

Parece que a palavra "silêncio" foi sendo paulatinamente riscada do mapa do respeito ao sossego do próximo e do distante. Não há ouvido humano capaz de suportar a zoadeira generalizada que estoura, sem dó nem piedade, os sofridos tímpanos dos habitantes desta metrópole sem dono, tiranicamente dominada pelos malditos paredões de som que infernam a vida de quem nela habita de modo duradouro ou provisório.

Portanto, acima de tudo que me cerca nesta minha para sempre amada Loura Desposada, banhada pelo sol equatorial, a mim me resta um único e desesperado apelo que ora lanço aos ares como uma branca bandeira de trégua em meio a essa batalha citadina. 

Premido, imprensado entre o sossego e o desassossego, agoniadamente imploro: silêncio, pelo amor de Deus e de todos os santos. Silêncio, eu encarecidamente suplico. Só um bocadinho de silêncio é que o que peço agora. 

Será demais ou um vão e inútil pedido desejar um pouco de silêncio para que eu possa ouvir, sem interferências pandemônicas meus próprios, vadios pensamentos? Acredito que não. 

Afinal, numa cidade modestamente civilizada, em que ainda reste um resquício de indispensável gentileza, todo e qualquer cidadão possui o sagrado direito a um pouco de silêncio, por mínimo que seja, para ser, vez em quando, um Robinson Crusoé de si mesmo, sem a companhia de um Sexta-Feira e sem radinho de pilha na tranquilidade do seu lar.

Sim, evidente que concordo inteiramente com a célebre frase de um autor cujo nome, nesse instante, se escapa à minha não tão confiável memória: nenhum homem é uma ilha. Porém, o que me custa tentar sê-lo uma vez ou outra, quando assim bem o desejar e carecer? 

Ah, que imensa falta me faz o silêncio, por demais bem-vindo nessa tarde tão bela, que tinha tudo para ser de uma calma ansiolítica, quieta, mansa, suavemente recoberta por uma vestimenta silenciosa como uma cadelinha domesticada. 

E não é. Infelizmente, há demasiado barulho ao meu redor. Vozes que ressoam alto dentro dos bares vizinhos, buzinar atordoante dos carros, aparelhos de som estrondeando as insuportáveis trilhas sonoras de um estúpido mau gosto, uma babel de irritantes cacofonias que minhas sambadas oiças já não são capazes de suportar até que me atinja a surdez definitiva, irreversível. 

Não duvido nada que haja baixado em mim um espírito de eremita e tudo o que é humano me parece estranho, exceto o toque-toque das teclas do computador.

No entanto, onde exilar-me na cidade que, ora sim, ora não, sinto que não mais me pertence? Nada do silêncio estéril das catacumbas, da solidão dos cemitérios. Mas o silêncio poético de quem anseia encontrar-se consigo mesmo. 

Da espreguiçadeira instalada no alpendre, observo a vida miúda das formigas laborando, incansáveis, no espaço do quintal, onde algumas plantinhas teimam em brotar nas frestas do cimento. Também procuro ao longo dos telhados o grande gato gordo que não mais os povoa, a caçar pombos invisíveis. 

Somos tão iguais, eu e o desaparecido velho gato grande, gordo, imersos na tarde morna que tinha tudo para ser calma, quieta, mansa, suavemente silenciosa e que assim não o é. Enfim, descubro tristemente que o silêncio por mim desejado é impossível de se obter nesta urbe barulhenta e bárbara. 

Que saudades me dá do suburbano silêncio da minha louca mocidade, tão pacificamente prenhe de segredos, sossegos e maravilhosos mistérios.

*O escritor, cronista, médico-psiquiatra e colunista do Jornal da Praia desde 
os anos 1980, Antônio Airton Machado Monte, é um autêntico repórter desta época que habitamos