28 agosto 2012

FIO DE ARIADNE

Brasileiros constroem 
"biblioteca borgiana" 



Dois artistas brasileiros criaram uma biblioteca em forma de labirinto, inspirada no escritor argentino Jorge Luís Borges. 

 Marcos Saboya e Gualter Pupo empilharam 250 mil livros na obra aMAZEme, que está exposta no Southbank Centre (Waterloo Bridge) em Londres. 

Uma equipe de 50 voluntários trabalhou por cinco dias e noites para terminar a instalação baseada numa impressão digital de Borges, misturando em Inglês os termos "encante-me" e "labirinto".

"Perder-se no labirinto" aqui significa apenas "apanhar outro livro para ler", num exercício sem fim. 

Saboya diz que Borges é seu escritor favorito e que tem suas obras completas na mesa ao lado da cama. 

"Ele tinha uma biblioteca inteira dentro de si e dizia que sua ideia de paraíso era uma espécie de biblioteca", afirmou. 

 Segundo o artista, o objetivo da instalação é colocar as pessoas em contato com bons livros. 

VEJA MAIS


   











 (imagens em www.madeinslant.com)


27 agosto 2012

KUARUP 2012

Xingu, a aldeia global*



Índios do Parque Nacional do Xingu descobriram o Facebook. Procure lá por 

Ikpeng, Juruna, Yawalapiti, Kuikuro, Mehinaku, Kalapalo, Kamaiurá… Quase 

todos os índios jovens da reserva de 27 mil quilômetros quadrados, a maior 

do mundo, possuem um perfil na rede social, embora vivam praticamente igual 

ao que era 51 anos atrás, quando o parque foi criado: em ocas comunitárias 

e alimentando-se basicamente de peixe assado e beiju de tapioca


Quase todos os índios jovens da reserva de 27 mil quilômetros
quadrados, a maior do mundo, possuem perfil na rede social


À primeira vista, parece que o tempo não passou por ali. O chão de terra batida, crianças correndo peladinhas, mulheres agachadas preparando o beiju. Aí você repara melhor e vê algumas antenas parabólicas, placas de energia solar, volta e meia uma motocicleta circulando. O contraste entre o ancestral e o moderno faz pensar que o Xingu encarna literalmente a “aldeia global” que previu Marshall McLuhan nos anos 1960, justo quando a reserva estava sendo criada.
Estamos na aldeia Yawalapiti, uma das 16 etnias que habitam o parque, onde aconteceu no último fim-de-semana o kuarup (cerimônia fúnebre) em homenagem ao antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro, que completaria 90 anos em 2012. Nas ocas, tem energia elétrica e televisão, mas não tem telefone nem pega celular. Com 300 habitantes, a aldeia é abastecida por geradores elétricos, mas um sistema de captação de energia solar está sendo implantado com a ajuda da Fundação Darcy Ribeiro. As primeiras placas estão em fase de teste e moradores são treinados para fazer a manutenção do equipamento. Se der certo, a ideia será replicada em outras aldeias do Xingu.
Embora as crianças da aldeia estejam desnudas como sempre, durante a festa alguns dos homens adultos preferem usar cueca por baixo da (pouca) roupa. As índias jovens já não têm tantos filhos quanto suas mães, com oito, nove rebentos. Muitas meninas são mães em tenra idade, mas têm apenas uma criança. Contam usar pílula anticoncepcional. Em vez de andarem despidas, preferem usar vestido de elastex tomara-que-caia. Todas usam o mesmo modelo de vestido, prático na hora de amamentar os filhos.
No ponto de cultura Yawalapiti, onde é possível conectar-se à internet, é que os índios conversam no facebook com gente de todo o País. Como em qualquer parte, há entre os jovens um certo fetiche pelos gadgets eletrônicos. Mesmo sem sinal para fazer ligações, os celulares são utilizados para fazer fotos. No Kuarup, Munuri, vestido a caráter para a festa, não larga de seu tablet. “Sempre gostei de aparelhos, mas de qualidade boa. Não gosto de coisa ruim. Fotografo, filmo, escrevo textos. Faço tudo aqui no meu tablet”, diz Munuri, que transmite o que aprendeu às crianças da aldeia.

O índio-cinegrafista Collor, que ganhou o
nome em homenagem ao ex-presidente

Pela primeira vez um kuarup foi inteiramente documentado pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico Nacional), desde o começo da preparação, dez meses atrás. Dos pequis sendo colhidos para a bebida fermentada que é distribuída na cerimônia, até as centenas de quilos de polvilho que são acumulados durante o ano para o beiju que será consumido no kuarup, tudo foi filmado por uma equipe com o apoio do índio cinegrafista Collor –isso mesmo, ele ganhou o nome em homenagem ao ex-presidente. Nasceu há 22 anos, quando o futuro “impichado” por corrupção acabara de tomar posse.
Além de filmar, Collor também dança e luta huka-huka, a batalha que na manhã do domingo 19 levará cerca de mil guerreiros de várias tribos do Xingu ao centro da aldeia. Ele se diz autodidata: aprendeu a filmar observando. A câmera, ganhou de “um francês”. Grava todas as festas mais importantes entre os Yawalapiti e guarda tudo em seu notebook. Pergunto onde gostaria de trabalhar. “Eu queria ficar aqui, registrando nossa cultura. Nunca pensei em sair”, diz Collor. A mesma frase é repetida por outros jovens índios. Querem sair só para estudar e voltar à aldeia.
Na tarde do sábado, Collor está sentado detrás do local onde foram colocados os três troncos representando as almas dos homenageados do kuarup – além de Darcy, duas índias. “Até na morte Darcy está rodeado de mulheres”, alguém brinca. Todos receberam adornos e são pintados com tintura de jenipapo e urucum para a festa. Os guerreiros que vão lutar o huka-huka fazem a sangria: têm os braços raspados por um instrumento rudimentar, a arranhadeira, feito com dentes de peixe-cachorra, para ganhar coragem.
As mulheres são mais tímidas e não falam bem o Português, mas sim uma mistura de dialetos, como a maioria dos índios do Xingu. Entre os Yawalapiti, apenas 12 pessoas falam a língua original da etnia. Existe um projeto para reviver a língua ao qual a ministra da Cultura, presente ao Kuarup, promete empenho. Ana de Hollanda, porém, causa constrangimento geral ao se recusar a receber o documento preparado pelos índios em protesto contra a usina de Belo Monte e repúdio à portaria 303 da AGU (Advocacia Geral da União) sobre o uso de terras indígenas. O cacique Aritana, chefe dos Yawalapiti e considerado a maior liderança do Xingu, protestou na hora, mas, pacificador, preferiu não criticar a ministra publicamente.

Índios usam celulares para fazer fotos









Enquanto cânticos eram entoados, familiares dos mortos choravam em volta dos troncos enfeitados, durante toda a noite. A família de Darcy Ribeiro, que não teve filhos, compareceu em peso: 46 pessoas, entre sobrinhos e sobrinhos-netos do antropólogo, vindas em sua maioria da terra natal do antropólogo, Montes Claros (MG), se revezavam a cada 40 minutos ao redor de sua “alma”. Sobrinho de Darcy, Paulo Ribeiro lembrava que, ao lado dos irmãos Villas-Boas, ele foi um dos idealizadores do parque. “Darcy e o antropólogo Eduardo Galvão fizeram todo o levantamento da área”, explicou Paulo.
Observando a cerimônia sob o inacreditável manto de estrelas, o índio Kamalurré Mehinaku assombrava os brancos com lendas sobre o Kuarup. “Esses troncos são perigosos. Não pode olhar muito. Se olhar e ver gente nele, passando três dias, morre. O pai de Aritana viu e morreu. Teve outro que ouviu o tronco respirar, chorou aos pés dele, mas não adiantou. Dois dias depois morreu. É por isso que o pajé sopra fumaça do cigarro no tronco, para acalmar o espírito.”
No final da tarde de domingo, os troncos-almas são levados para o rio Xingu. É a última parte do Kuarup. Significa que o luto acabou e daqui para a frente todos podem sorrir novamente. As fotos já estão no Facebook.


*a jornalista Cynara Menezes já escreveu em
 Jornal da Bahia, Folha de S. Paulo, Estadão, Veja VIP
 este texto e fotos foram publicados na revista Carta Capital


24 agosto 2012

FRENCH ROCK (?)

Bangs!

Bangs! se intitula uma "banda francesa de rock" , integrada pela cantora Eve e pelo guitarman Tony. Têm quatro músicas no Myspace, sem menção a quem os acompanha na bateria, baixo e efeitos. Misteriosos...

Uma delas é esta "Mais rápido ou Nunca!", em que Eve "conversa" com o personagem "Tommy" (?) e explica pontos de vista sobre música e algumas outras coisas... o destaque vai para a qualidade da distorção dos riffs alternados com dinâmicas entre os vocais, tudo permeado por efeitos eletrônicos e frases bem humoradas que o Tony extrai da sua Telecaster...

Segundo seu lacônico release, Bangs! produz suas canções em Massilia -- nome de Marselha (Marseille) ao tempo de Julius Caesar -- que, conforme a dupla de músicos, é uma cidade "caracterizada por sua forte identidade e senso de independência e inconformismo", definição que Bangs! "gostaria de aplicar à música que compõe"...

Interessante é que houve um Bang ativo no rock da Flórida na década de 1970 (que relançou material em CDs em 2011), houve um grupo de punk rock chamado Bangs que começou a carreira em 1997 em Olympia, Washington (EUA) com mulheres na guitarra e no baixo, houve mais um outro The Bangs em  Manchester (Grã-Bretanha) fazendo o gênero grunge, existe um The Bangs que faz black rap com duas vocalistas e ainda há The Bangs Family em Ottawa (Canadá), no qual duas irmãs tocam fiddle e sapateiam e o pai as acompanha ao violão, participando até do espetáculo Quidam com a troupe do Cirque du Soleil... ufa!

Aquele das meninas punk, conforme a Wikipedia, acabou (reuniram-se em 2010 para alguns shows), e o britânico, também com vocais femininos, fez seu último login no Myspace em setembro de 2010 -- onde estreou em 2007. 



Vale mencionar que há muitas acepções e significados emprestados ao termo "bangs", que não vamos incluir aqui mas que vêm enriquecer ainda mais a simbologia de toda essa história, sem sabermos o quanto disso se alinha à intenção destes músicos ao elegerem tal nome para a sua autodenominação.

Enfim, na cena musical indie, a nota final quem pode dar são os ouvidos... no caso da Bangs! francesa, dá pra conferir agora também o vídeo.


18 agosto 2012

TUDO É MUDANÇA


Lição do Taoísmo*


Diz a sabedoria popular: “Não há bem que dure para sempre, nem mal que nunca acabe”. Na vida, tudo passa. As próprias estações do ano mostram que tudo está em constante mutação, que tudo é transitório. 

Mas as estações também ensinam algo importante: que as coisas sempre acontecem em ciclos, que há um movimento maior por trás da transitoriedade. Isto é algo essencial: aprender a perceber a vida em uma perspectiva maior.

Existe uma frase que resume tudo isso: “Os anos ensinam coisas que os dias desconhecem”. Ou seja, de nada vale ficar observando os dias, que são pequenos e transitórios. Para compreender a vida, é necessário olhar os anos, os grandes ciclos.

O sábio chinês Lao-Tsé ensina, no seu extraordinário livro Tao-Te-Ching: “Poupem as palavras,/ e tudo mudará por si mesmo. / Um ciclone não dura a manhã inteira./ Um aguaceiro não dura todo um dia./ E quem os produz?/ O céu e a terra./ Se o céu e a terra nada podem fazer de durável,/ muito menos o pode o homem”.

É preciso compreender que a vida vai muito além do que se convencionou chamar de "bem" e de "mal". Certo dia, um mestre descobre que seu único cavalo desaparecera. E os vizinhos falaram: “Que coisa ruim”. O sábio, disse, porém: “É ruim, mas também é uma coisa boa”. 

Os vizinhos não entenderam o que poderia haver de bom naquilo. Só que, dias depois, o animal volta, trazendo consigo outro cavalo que o acompanhou pelo caminho. E vieram os vizinhos: “Que coisa boa, você agora tem dois cavalos”. O velho respondeu: “É bom, mas também é uma coisa ruim”. 

Novamente, ninguém o entendeu. Passa-se mais um tempo, o filho do velho tenta domar o cavalo selvagem, mas é derrubado e quebra a perna. Mais uma vez dizem os vizinhos: “Que coisa ruim”. E o sábio: “É ruim, mas também é uma coisa boa”. Desta vez, o povo fica indignado, chamando o velho de insensível. 

Aconteceu porém, logo depois, a deflagração de um grande conflito na região, e todos os jovens foram convocados para a guerra, com exceção dos deficientes e dos feridos. Aí chegam os vizinhos: “Que coisa boa, seu filho não vai para a guerra”. Ao que o mestre respondeu: “É bom, mas também é uma coisa ruim”. Essa história não termina nunca.

Na verdade, não há uma coisa exclusiva que se chame causa, nem uma coisa isolada que se chame efeito. Tudo é causa e tudo é efeito de algo. O problema é quando se olha apenas para um aspecto da realidade. Daí, a coisa vai ser boa ou vai ser ruim mesmo. Mas quando se tem uma visão panorâmica, quebrar a perna é só quebrar a perna, perder o cavalo é só perder o cavalo. Não é bom e não é ruim, apenas é.

A sabedoria está em ver o contexto maior da vida, percebendo que, na realidade, nada é isto ou é aquilo; tudo é processo de mudança. Para cada face da realidade, existe um oposto. 

Qualquer evento é parte de uma mudança natural, que está em constante transição. É assim que o sábio vê a vida, e é assim que se deve vê-la.



*professor de Filosofia, escritor e poeta, Edilson Santana Gonçalves 
é titular da 8.ª Promotoria de Justiça Cível da Comarca de Fortaleza
(fonte: jornal O Povo de 19/08/12; imagem em www.asiaticos.org)

09 agosto 2012

HORA DE BRIO

Nosso lugar no pódio*



Escrevo emocionado do estádio de Wembley, uma das grandes catedrais do mundo, como a de Notre-Dame ou a de São Pedro. Até uma anta futebolística como eu sente o peso do lugar, que, mesmo reformado como o Maracanã, será sempre o histórico Wembley.

Tudo numa Olimpíada é carregado de significado. A glória e a derrota: entramos na história e saímos dela, em fração de segundos.

Ver Michael Phelps conquistar a 18.ª medalha de ouro é estar num momento do século que não passará. E há muito de shakespeariano no choro de Rebecca Adlington [nadadora britânica que faturou dois ouros nos Olympic Games de 2008, nos 400 m e nos 800 m, quebrando um recorde  estabelecido há 19 anos por Janet Evans nos 800 m (N. do Ed.)], de quem a Inglaterra esperava mais ouro neste ano e que terá de remoer seus bronzes pela vida inteira. 

A trama era digna de Glória Perez: a feia e simpática inglesa disputando com uma italiana sensual que posou nua para a Vogue. Só que Lady Gold virou as costas para as duas favoritas, num enredo superado apenas por Carminha e Nina.

Esporte é novela, teledramaturgia pura, reality show de alto nível.

Rezo apenas para que o Brasil -- nosso povo, nossos governantes em todos os níveis, nossos empresários grandes, médios e pequenos -- entenda que agora é a nossa hora.

A mais difícil e a mais bela. Como diria Churchill, "our finest hour".

Terei 56 anos na nossa Copa e 58 na Olimpíada. Os dois eventos formam oportunidade única de o Brasil assumir o lugar que já é dele. A questão desses tempos é ser e não ser. Não basta ser, você tem de ser percebido.

O Brasil melhorou muito nos últimos três governos. Mas nossa história não pode ser contada pelos mercados e por seus interesses. Ela tem de ser contada por nós, "we, the people", como lindamente escreve a Carta americana.

Temos de cuidar de nossos interesses e de como nossos filhos, nossas empresas, nossos produtos, nossos livros e nossa arte são percebidos no mundo neste século. E este século pode ser nosso.

Digo isso não por megalomania. Não precisamos dominar o mundo, mas podemos encantá-lo. O Brasil tem tudo para ser a potência soft do século. O que não pode acontecer agora é a montanha parir um rato. Nestes próximos quatro anos, todos os olhos do mundo estarão voltados para nós. Não é hora de fazer forfait. É hora de brio, de amor próprio, de sangue nos olhos.

É preciso ter senso de história. A velhinha inglesa que se despede de nós depois de um dia de sol e de um anoitecer gelado tem isso no seu dedicado sorriso de voluntária da Olimpíada. A Inglaterra, que de história entende bem, até escalou sua rainha de 86 anos para brilhar como "Bond girl" neste mundo midiático.

A discussão sobre ser o dinheiro da Copa ou da Olimpíada mais bem usado na saúde ou na educação é uma discussão mal posta. Dinheiro mal usado é mal usado em qualquer lugar. Se usarmos esse dinheiro apenas para sediar dois eventos, sem dúvida o custo será maior que o benefício. Mas o Rio de Janeiro, o Estado e a cidade, já está usando a Olimpíada para se posicionar como marca, lugar de negócios, sociedade e destino.

Estou em Londres a convite de um dos patrocinadores da Olimpíada, a revista Fortune, que realizou um dos muitos eventos empresariais paralelos. Tudo foi bancado com o dinheiro chinês da municipalidade de Changdun, onde ocorrerá o próximo fórum global da revista, com a presença do líder chinês e dos maiores empresários do mundo, ou seja, enquanto a bola ou o cronômetro correm, a grana corre também.

É um jogo grande, e o Brasil entrou nele por conta própria. Volto feliz do evento sob a lua cheia de Londres, e o dean da Harvard Business School, que participou do fórum da Fortune, com sorriso maroto e cabeça brilhante, me diz: "It's you guys, in four years", e todos os olhos do ônibus se dirigem a mim.

Meus amigos e inimigos, ninguém mais é uma pessoa. Agora somos todos um País. Se um de nós em Santa Catarina ou na Bahia atropelar um ciclista francês, o Brasil terá atropelado um ciclista francês. Os olhos do mundo estarão postos em nós. Cheios de curiosidade, de preconceito e de inveja.

Não é hora de amarelar nem de ser soberbo. Nem de vir com burrice, achando que se trata de jogo de futebol ou de vôlei. O que está em jogo é a evolução do País, das commodities para o valor agregado.



*o publicitário baiano Nizan Guanaes comanda o Grupo ABC
e
escreve na Folha de S.Paulo quinzenalmente, às terças-feiras.

(imagem: Thiago Pereira com a medalha de ouro após a prova dos 200 metros
medley, nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, México [19/10/2011],
em
 http://veja.abril.com.br 
 / Mike Ehrmann / Getty Images)




31 julho 2012

PREOCUPAÇÃO GOVERNAMENTAL

Pesquisadores brasileiros buscam 
novas fontes de energia renovável

pesquisadores Pesquisadores brasileiros buscam novas fontes de energia renovável
Termoverde Salvador é a primeira termelétrica movida a biogás de aterro sanitário do Nordeste 


Apesar de ter conquistado uma matriz energética equilibrada entre fontes de energia renováveis e tradicionais, o governo brasileiro tem se empenhado para manter essa relação diante de um cenário projetado pelo aumento do consumo de energia. 
Além de garantir a manutenção de sistemas, como o de produção de energia eólica e solar, os pesquisadores buscam novas fontes que poderiam complementar essa oferta para atender a crescente demanda do setor.
A principal motivação do governo para manter esse equilíbrio de fontes na matriz energética é o cumprimento da meta de redução das emissões de gases de efeito estufa. 
Durante a 15.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), realizada em dezembro de 2009 em Copenhague, o Brasil se comprometeu a reduzir essas emissões entre 36,1% a 38,9% até 2020, em relação ao que emitia em 1990. Entre os setores estratégicos da economia, a energia está sob a mira dos órgãos que se debruçam sobre o problema.
“O setor energético representa a segunda maior preocupação do governo no quesito das emissões de gases de efeito estufa, perdendo apenas para o desmatamento e agropecuária [apontados como os vilões responsáveis por 70% das emissões], explicou Ana Lúcia Doladela , diretora da secretaria de mudanças climáticas e qualidade ambiental do MMA-Ministério do Meio Ambiente. 


O setor energético, desde a produção até o consumo, responde por cerca de 23% dessas emissões. “Uma das formas de reduzir esse impacto é renovar nossa matriz e aumentar nossa eficiência energética”, acrescentou.
Uma das estratégias adotadas pelo Brasil é a aproximação com especialistas europeus. O interesse nas experiências do Velho Continente explica-se pelos esforços e investimentos em pesquisa e produção de fontes alternativas de energia. Ana Lúcia Doladela ressaltou que os técnicos brasileiros têm absorvido conhecimentos e tecnologias europeias e acredita que essa relação pode resultar em parcerias estratégicas para o desenvolvimento do setor, ainda em crescimento no Brasil.
“A energia eólica foi estabelecida de forma competitiva. Mas a fotovoltaica ainda é cara e precisa de incentivos para se estabelecer. O ministério têm acompanhado as pesquisas e o governo vem adotando medidas como o estímulo ao uso da fonte solar térmica para aquecimento de água”, pontuou. 


A diretora do MMA ainda acrescentou que o país também precisa amadurecer tecnologicamente nas pesquisas sobre energia a partir dos oceanos. “Temos três fontes que são as ondas, mares e correntes marítimas. Ainda precisamos muito investimento em tecnologia”, explicou.
Potencial do biogás Em relação às fontes renováveis a partir da biomassa, como o etanol e o biodiesel, o Brasil assumiu uma posição de liderança no cenário internacional. Como a tendência é de aumento do consumo de energia no país, pesquisadores brasileiros buscam novas fontes que poderiam complementar essa matriz.
Em Concórdia, Santa Catarina, experimentos com o biogás produzido a partir de resíduos de suínos mostraram, segundo técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o potencial do produto tanto para a geração de energia demandada pelas propriedades rurais quanto como fator de agregação de valor à cadeia produtiva.
“Os dados já mostram que o biogás pode se tornar um dos três grandes combustíveis do Brasil. O importante é termos mais fontes, promover o setor e o uso dos resíduos das cadeias produtivas, o que poderia agregar valor a essas produções e atender a demanda crescente por energia no país”, disse Manoel Teixeira Souza Júnior, chefe-geral da Embrapa Agroenergia.

*por Agência Brasil.
Imagem: 
Rafael Martins/Agecom-BA, 
em www.ecodesenvolvimento.org

12 junho 2012

PEDRO, UM PIONEIRO

O Imperador visionário*



Participantes da conferência carioca deveriam inspirar-se em Dom Pedro II.
Ao recuperar a Floresta da Tijuca no século XIX, ele se tornou
um dos pioneiros do desenvolvimento sustentável






Vinte anos depois da Eco 92, os representantes de 170 nações vão se encontrar à sombra da Tijuca, uma das maiores áreas verdes urbanas do mundo. O simbolismo é muito forte. Em meados do século XIX, o imperador dom Pedro II reconheceu a importância do que chamamos hoje de serviços de ecossistema, as funções ambientais úteis aos seres humanos e que tanto necessitam de cuidados. 


O imperador não precisou de ciência sofisticada ou de análises econômicas para chegar a tal conclusão. Foi o seu senso prático que o levou a perceber como o reflorestamento da área, encravada no coração da cidade, era essencial para recuperar a atividade da frágil bacia hidrográfica do Rio de Janeiro. O Brasil foi um dos pioneiros do desenvolvimento sustentável, muito antes de o termo ser cunhado pela ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland, em 1987.


 A Eco 92 resultou em enormes avanços na abordagem das questões ambientais. Duas convenções internacionais foram criadas: uma relacionada à mudança climática e outra, à diversidade biológica. A Agenda 21, desenhada nos encontros cariocas, elaborou uma série de posturas concretas para o desenvolvimento sustentável como fora definido pela Comissão Brundtland, em 1987, da qual participou o brasileiro Paulo Nogueira Neto, secretário especial do Meio Ambiente entre 1973 e 1985, nas presidências de Ernesto Geisel e João Figueiredo. Foram listadas, então, áreas prioritárias – oceanos, atmosfera, energia, água e financiamento – para que países e empresas buscassem melhorias ambientais.


Cinco anos depois da Eco 92, quando uma reunião relativamente informal, a Rio+5, foi realizada, mais uma vez à sombra da Tijuca, os governos ainda trabalhavam para implementar as convenções e a agenda de desenvolvimento sustentável em seus três pilares – o social, o econômico e o ambiental. Na ocasião da Rio+10, em Johannesburgo, o aspecto ambiental foi praticamente ignorado. A meta de aumentar o desenvolvimento como forma de estímulo à sustentabilidade tinha evaporado.


Agora, uma década depois, emerge uma repetição perturbadora. As autoridades brasileiras advertem, novamente, que a reunião é sobre o desenvolvimento, não sobre o ambiente. É uma postura delicada. Dessa forma, ignora-se a observação, citada com frequência, de que a economia é a subsidiária integral da natureza. É como voltar as costas para a própria definição de desenvolvimento sustentável. 


Se bem analisada, a questão principal recai sobre a qualidade de vida humana, gravemente ameaçada, e sobre o desenvolvimento verdadeiramente sustentável em escala, a única solução possível para o problema. Não é algo que a humanidade pode se dar ao luxo de passar algum tempo analisando: o desafio acontece aqui e agora e exige nossa máxima atenção e empenho.


A agenda Rio+20, em si, à margem da postura do Brasil, parece mais encorajadora. Trata do desenvolvimento sustentável em sua abertura, inclui metas energéticas cruciais (Energia Sustentável para Todos) e se debruça sobre as economias verdes, levando em conta valores ambientais para a tomada de decisões econômicas. Essa agenda lida com as chamadas questões de governança global. E com um bom motivo. Nenhum país atingiu as metas estabelecidas pela convenção de biodiversidade na reunião em Nagoia, em 2010. 


A agenda da convenção de mudança climática tem sido encolhida por um jogo míope de dança das cadeiras entre os Estados Unidos, a Índia e a China. Basicamente, o debate é sobre quem vai reagir primeiro e reduzir suas emissões de carbono, atitude que parece zombar da própria definição de liderança. Potencialmente promissora é a ideia de Metas de Desenvolvimento Sustentável. Similar às Metas de Desenvolvimento do Milênio, elas poderiam – ao contrário das primeiras – conter elementos ambientais fortes.


Conforme as negociações prosseguem, qualquer análise perspicaz mostrará que, apesar das conquistas reais, a humanidade não foi capaz de resolver os grandes problemas ambientais na escala necessária.


As negociações sobre o clima estipulam a interrupção do aumento da temperatura global em 2 graus. Para que haja essa interrupção, as emissões globais de gases do efeito estufa devem atingir o pico em 2016 – e, a partir de então, não mais crescer. Há provas abundantes de que 2 graus significam muita coisa. 


Tal elevação seria desastrosa para os ecossistemas e eliminaria os recifes de corais tropicais. Da última vez em que o mundo esteve 2 graus mais quente, os oceanos subiram entre 4 e 6 metros. Hoje esse aumento na temperatura inundaria a maior parte do Rio. O que mais precisamos saber para soar o alarme?


Além da mudança climática, duas outras fronteiras planetárias foram ultrapassadas. Uma é a importância do uso do nitrogênio, principalmente, mas não exclusivamente, na agricultura. Os níveis atuais de nitrogênio biologicamente ativo são o dobro do normal, o que causa prejuízos enormes. O principal deles é o aumento das zonas costeiras mortas, que, desprovidas de oxigênio e peixes, têm dobrado de tamanho a cada dez anos ao longo das últimas quatro décadas.


A fronteira mais agressivamente ultrapassada é a da biodiversidade. Não é surpresa, pois todos os problemas ambientais afetam os sistemas vivos. Hoje, algumas taxas de desaparecimento de espécies crescem de maneira vertiginosa, o que acarreta consequências profundas para a humanidade. Os recursos biológicos são vitais para nós como seres vivos por causa de suas múltiplas funções, saudáveis, executadas pelos ecossistemas (como o da Floresta da Tijuca). 


Mais do que isso, a diversidade de espécies constitui uma riqueza de possibilidades biológicas testadas pela evolução. Essa variedade tem o potencial de transformar seguidamente a agricultura e a medicina, algo crucial no momento em que mais 2 bilhões de pessoas se juntarem aos 7 bilhões de habitantes do planeta. Soluções e oportunidades essenciais podem ser encontradas na diversidade biológica, desde que consigamos cuidar dela de forma adequada. Índices de extinção ascendentes equivalem à queima de livros em escala global.


Evidentemente, o tempo está se esgotando para que consigamos evitar deixar como herança para as próximas gerações um planeta degradado. Não se trata apenas de olhar para o futuro longínquo. Muitas pessoas nascidas nesta década estarão vivas até o fim do século para vivenciar as consequências do sucesso ou do fracasso dos nossos esforços. Quanto mais esperarmos, mais duras e menos numerosas serão as escolhas.


Os protagonistas de hoje são diferentes daqueles de vinte anos atrás. A liderança dos Estados Unidos na questão ambiental foi anulada pela falta de propósito nacional, de interesse e pelas disputas partidárias que parecem ignorar a relevância da preservação e de uma economia de baixo consumo de carbono. 


A Europa está limitada pela grave crise que se abateu sobre a zona do euro. A China, a Índia e muitos outros países continuam queimando combustíveis fósseis como se não houvesse amanhã. Alguns líderes de países ricos não participarão da Rio+20, indicação chocante do desrespeito à urgência da agenda, o que pode prejudicar tanto pobres quanto ricos.


O Brasil, nesse jogo, tem uma posição especial, com sua economia grande e vibrante, um setor de energia de baixo carbono e uma posição de credibilidade junto às velhas potências industriais e ao Grupo dos 77, que reúne 132 nações em desenvolvimento. O país também é provido de capacidade técnica e científica vigorosas, além de ter um povo capaz de compreender a importância da preservação ambiental – ainda que esteja na infância dessa compreensão. Nas palavras do embaixador Rubens Ricupero, ser a “potência ambiental” é o destino do Brasil.


Seria extraordinário ter o país nessa condição de liderança, relevante e decisivo em um planeta ainda riquíssimo, porém fragilizado. Quatro bilhões de anos de evolução produziram uma diversidade impressionante de plantas, animais e organismos lindos, intricados e fundamentais para o desenvolvimento sustentável. 


Não devemos virar nossas costas para ele, mas sim celebrá-lo e protegê-lo com toda a inventividade que possuirmos. Devemos empreender de forma consciente a administração do planeta como o sistema integrado físico e biológico que é. Isso significa administrar a nós mesmos, controlar nossos impulsos de consumo e exploração da natureza, reconhecendo a poderosa mensagem da Tijuca reflorestada por dom Pedro II.


Enquanto isso, de maneira preocupante, concentrações de dióxido de carbono de 400 ppm (partes por milhão) são registradas no Ártico, algo nunca visto em 800000 anos. São as contradições que precisam ser enfrentadas durante a Rio+20.


*Thomas Lovejoy estuda a biodiversidade brasileira e da Amazônia desde 1965.
Doutor pela Universidade Yale (EUA), é titular da cátedra de Biodiversidade
do Centro Heinz para Ciências, Economia e Meio Ambiente.
Publicado em 
http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx

LEIA MAIS
http://pt.calameo.com/read/000958877ec38bd88e2d7







05 junho 2012

INTENÇÕES PARA O FUTURO

O que esperar da Rio+20*


c5 300x200 O que se pode esperar da Rio+20 A Rio+20 pode dar bons resultados. Mas esses resultados não corresponderão às expectativas. O que ela pode fazer é criar uma base suficientemente sólida para que se construa no futuro a arquitetura desejada para o desenvolvimento sustentável — baseado em uma economia de baixo carbono e com menor pegada ecológica.
Não existe a possibilidade de uma reunião como a Rio+20 adotar decisões que enquadrem os países, antes que eles estejam preparados para adotar as políticas correspondentes. O modelo de decisão “de cima para baixo” não funciona. Um marco global adequado para o desenvolvimento sustentável virá da consolidação das escolhas que os países farão internamente, “de baixo para cima”.

Um fórum tão amplo, com grande  número de temas e uma variedade enorme de países, desde produtores de petróleo a importadores de petróleo, de nações super-ricas a nações super-pobres, de potências maduras a potências emergentes produz uma rede complexa e densa de conflitos de visões, perspectivas e interesses. Alguns impasses são absolutamente insolúveis nesse modelo de decisão por consenso de uma assembleia geral de países.
O que se pode esperar, então, da Rio+20 que vá além de uma declaração vazia de intenções? Duas coisas. Primeiro, que ela não reabra questões já fechadas em outros fóruns. Segundo, que ela defina um piso mínimo a partir do qual se possa construir o edifício da sustentabilidade global, à medida que os países vão avançando em suas políticas próprias de sustentabilidade. Pressões internas e a dinâmica da economia verde emergente – que está ganhando escala em alguns países e gerando empregos – farão com que alguns países avancem mais rápido. Esses países de vanguarda terão benefícios competitivos mais adiante. Essas vantagens terminarão por convencer os demais a se atualizar.
A transição para uma economia de baixo carbono é inexorável, porque os custos da economia marrom serão crescentes e os rendimentos decrescentes nas próximas décadas. Os fragmentos de economia verde já existentes, principalmente no setor de energias renováveis não convencionais, de tecnologias limpas para a logística e agricultura sustentáveis, terão custos decrescentes e rendimentos crescentes. Mas isso não significa que a transição será automática, nem na velocidade necessária. Só a combinação de uma estrutura adequada de incentivos à economia verde e desincentivos à economia marrom, com regulação mais eficaz das emissões de gases estufa, dos resíduos sólidos, da poluição e dos danos ambientais, pode acelerar esse processo.
Uma revisão das discussões sobre o documento que contém as resoluções da Rio+20 o ‘Draft Zero’ (Rascunho Zero), que a essa altura já é, no mínimo, o ‘Draft 3’ (Rascunho 3), dá uma boa ideia da amplitude tratar de temas dessa reunião, que é a sua marca de singularidade. O primeiro tinha 19 páginas. O segundo inchou para quase 300 páginas. O atual emagreceu para 80 páginas, mas é praticamente só colchetes, isto é, frases não aprovadas e redações diferentes apoiadas por grupos distintos de países.
Ele trata de praticamente todos os temas econômicos, sociais, ambientais e climáticos que outros fóruns e outras reuniões da ONU vêm tratando há anos. Entre a Rio-92 e a Rio+20 houve um grande desenvolvimento de instituições tratando de temas significativos para o avanço civilizatório da humanidade e para a sustentabilidade do planeta. A começar pelas Convenções do Clima e da Biodiversidade, que nasceram na Rio-92. Houve progresso, também, no conhecimento e na legislação a respeito de praticamente todos os tópicos que estão sendo discutidos no documento da Rio+20.
O documento em discussão refere-se a essas questões, para reafirmá-las como parte do conceito de ‘desenvolvimento’. A confusão já se instala nessas preliminares. São muitos países, com modelos políticos e econômicos e níveis de desenvolvimento econômico, social, ambiental e político muito distintos. Há democracias, regimes autoritários e tiranias fechadas. Qualquer item da pauta gera diferentes visões, propostas mais ousadas e reações defensivas. Alguns países tentam reabrir questões que foram fechadas em outros fóruns, sob outro marco internacional de referência legal. Tudo dá divergência.
Por exemplo, a questão dos direitos humanos está regulada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, existem na ONU a Comissão sobre Direitos Humanos, o Alto Comissariado para Direitos Humanos e vários outros organismos criados sob o estatuto da ONU ou por várias convenções internacionais. O documento da Rio+20 reafirma a importância da liberdade, da paz, da segurança e do respeito a todos os direitos humanos. Parece uma questão evidente em si mesma e pacífica. Pois ela dá discussão. A China demandou que se cortasse a expressão ‘adequada’ da frase sobre o direito à alimentação. O EUA pediu que o documento falasse de ‘direito a um padrão de vida adequado, inclusive alimentação’. Na frase que reafirma a ‘igualdade entre os gêneros’, a Santa Sé quer que se diga “igualdade entre homens e mulheres”. E por aí a discussão vai se perdendo, antes de chegar nos temas que a Rio+20 deve resolver.
Essa necessidade de atender às preferências idiossincráticas de cada país ou interlocutor – como a Santa Sé – reflete, na verdade, questões políticas ou ideológicas associadas ao regime de governança de cada um. Ela impede que se chegue a um acordo com a amplitude e a profundidade que os tempos que vivemos e viveremos demandam. O máximo que dá para esperar é que os delegados cheguem a um acordo que defina um piso mínimo, uma base, a partir da qual, se evolua gradualmente para uma arquitetura mais sólida e mais adequada aos desafios do século. Não é o resultado necessário, dadas as urgências que vivemos. Mas é o resultado possível. Isso não significa que as demandas e as pressões devam ser pelo mínimo. Devem ser pelo máximo possível. Dessa forma, há uma chance de que o piso não seja tão baixo como está parecendo que será e se consiga eleva-lo um pouco mais.
Mas a pressão maior deve ser sobre os governos nacionais, para que avancem mais no entendimento e da regulação dos temas da sustentabilidade. Se olharmos para nossa própria casa, veremos que um governo que emite uma medida provisória como a do Código Florestal; que reduz áreas de reservas para fazer hidrelétricas discutíveis do ponto de vista econômico e energético; que incentiva o uso de combustíveis fósseis e o consumo de automóveis, sem qualquer exigência de aumento de eficiência energética; entre outras tantas medidas recentes pioram a insustentabilidade de nossa economia, não está preparado para ser avançado na transição para a economia verde.
O caso do estímulo recente à compra de automóveis é exemplar. Havia pelo menos uma condição lógica e evidente a fazer: exigir motores flex mais eficientes quando rodam com álcool, para eliminar a disparidade de custo/benefício entre álcool e gasolina (subsidiada), que faz com que a maioria dos carros flex rode com gasolina a maior parte do ano. Mas o governo jamais pensa em questões de sustentabilidade quanto toma suas decisões. Tem um quadro mental fixado no desenvolvimentismo dos anos 1950 e 1970. No entanto, a mídia e os políticos têm mais facilidade em criticar os países desenvolvidos e a China por seus erros no campo da sustentabilidade, do que o governo brasileiro.
Em resumo, há conflito em relação a menções introdutórias a temas já regulados por outras convenções, tratados, protocolos e resoluções. Duas questões são centrais para a Rio+20: a transição para a economia verde e o sistema de governança multilateral para a sustentabilidade. Discute-se tanto o acessório que não se consegue tempo e dedicação suficientes para discutir o que é central. Não é que as outras questões não sejam relevantes. Elas são de grande importância, mas estão sendo tratadas em seus espaços próprios.

O único caminho para o sucesso da Rio+20 é tomar como dadas essas questões e se concentrar nos dois temas principais. Nas metas de desenvolvimento sustentável, que indicarão o caminho para o início da transição para a economia verde. Na estrutura institucional de governança que permitirá a implementação das metas, o monitoramento e verificação do progresso dos países no alcance dessas metas no prazo determinado.
*por Sérgio Abranches, blogueiro, escritor, analista ecopolítico e comentarista de rádio.
Para ouvir as opiniões do autor na rádio CBN clique aqui

Conteúdo disponível originalmente em www.ecopolitica.com.br.
Imagem em 
http://envolverde.com.br

25 maio 2012

ORGULHO NERD

Eles estão entre nós (faz tempo)*

Jornal O Povo, de Fortaleza/CE, antecipa comemoração do
Dia do Orgulho Nerd e traz entrevista exclusiva com autores
da Enciclonérdia, Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios

Rosana Rios e Luís Flávio Fernandes, os autores: "Caminhamos em direção
a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus..."









Talvez você nem saiba, mas no dia 25 de maio é comemorado  internacionalmente o Dia do Orgulho Nerd. A data, que não foi escolhida de forma aleatória, presta homenagem à estreia do primeiro filme da série Star wars (em 25 de maio de 1977), e também ao Dia da Toalha para os aficionados pela trilogia O guia do mochileiro das galáxias. Estas e outras informações do gênero passam batidas entre não-nerds, mas são fundamentais para aqueles que se identificam como integrantes desta "tribo" urbana.
Este é o tipo de informação que você encontra no livro Enciclinérdia - Almanaque de Cultura Nerd, escrito a quatro mãos pelo especialista em software, e nerd assumido, Luís Flávio Fernandes e pela escritora de literatura fantástica Rosana Rios. Em entrevista exclusiva, eles explicam como o mundo se “nerdificou” e como os que antes eram rotulados de "esquisitos" hoje estão no comando.
O Povo - Como surgiu a ideia de escrever a Enciclonérdia?
 Rosana Rios - Estávamos escrevendo um outro livro, uma aventura juvenil de mistério. E vivíamos colocando referências nerds nos diálogos dos personagens... Aí, tivemos a ideia de escrever um livro juntando todas essas referências. Ora, a “nerdice” não tem fim! Quando começamos a relacionar e a pesquisar livros, filmes, seriados, frases, conteúdos de tecnologia e ciência que são apreciados pelo público nerd, quase ficamos loucos! E o resultado dessa loucura toda foi a Enciclonérdia.
O- Existe diferença entre nerd e geek?
 Rosana - Em essência, nerd e geek significam a mesma coisa. Mas a palavra geek acabou tendo um sentido mais ligado à tecnologia. Então, normalmente considera-se que um(a) nerd é uma pessoa inteligente, curiosa e que aprecia a faceta nerd da cultura - literatura, cinema, seriados, games, alta ciência, etc. A palavra geek passou a ser mais usada para definir o nerd que, especificamente, entende de tecnologia, física quântica, T.I. etc.
OP - Em que momento histórico o nerd vira o jogo, deixa de ser um defeito e passa a ser uma qualidade? A que se deve essa mudança?
 Rosana - Antigamente, o nerd era o CDF, a pessoa inadequada socialmente, tímida, retraída. Hoje, a “nerdice” é uma qualidade porque, com a mudança ocorrida no mundo, após a popularização dos computadores e da Internet, as sociedades perceberam que só tem sucesso acadêmico e profissional quem está acostumado a lidar com tecnologia, trabalhar em modo multitarefa, decodificar linguagens, ler muito... e todas essas características descrevem um nerd. Logo, o nerd passou a ser valorizado por sua inteligência , criatividade e curiosidade, enquanto os não-nerds precisam se “nerdificar” se quiserem fazer parte do século XXI...
 Luís Flávio Fernandes - Acho que a grande virada dos nerds acontece no momento em que surge uma verdadeira revolução tecnológica, com a popularização dos computadores pessoais e o advento da Internet, nas últimas décadas do século XX. É quando surgem também ícones nerds do sucesso econômico e pessoal, dos quais os mais famosos são Bill Gates e Steve Jobs. A partir daí, as pessoas começaram a perceber que ser nerd não é uma coisa negativa, mas é eventualmente um fator de sucesso.
O- O que caracteriza, nos dias de hoje, um nerd?
Rosana - Há vários tipos de “nerdice” hoje em dia. Não existe apenas um tipo particular de nerd: há aqueles que se especializam em informática, os cientistas (e há nerds em todos os campos da ciência), os escritores e apreciadores de literatura, os gamemaníacos... A lista é infinita. O que todos eles têm em comum é aquilo que já citamos: inteligência, curiosidade e capacidade de mergulhar em uma vasta gama de assuntos. E um nerd sempre pode se tornar mais nerd ao encontrar outro nerd e ambos trocarem figurinhas!
 Luís Flávio - Atualmente, a cultura nerd é muito mais valorizada, o que facilita que as pessoas se identifiquem com ela. Prova disso é a popularidade, principalmente entre os jovens, dos videogames, quadrinhos, filmes e livros de fantasia e ficção científica, que antigamente eram quase que restritos aos nerds mais hardcore. Por exemplo, há 40 anos, não acredito que um filme sobre heróis de quadrinhos, como os Avengers, pudesse bater todos os recordes de bilheteria. Acho até que, nos dias de hoje, e principalmente, nas gerações futuras, os nerds estão deixando de ser uma minoria.
OP - Ser nerd está ligado a alguma faixa etária ou transcende limites de idade? 
 Rosana - Não há limites de idade. Há crianças que já nascem com tendências nerds; e se conferirem a Enciclonérdia, verão que já existiam nerds em todos os períodos da História, só que a palavra para defini-los ainda não existia. Temos encontrado nerds dos 2 aos 100 anos... e, se observarem as crianças que nascem nos dias de hoje, concluirão, como nós, que caminhamos em direção a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus...
 Luís Flávio - Concordo com a Rosana. Acho que o futuro da humanidade está nas mãos dos nerds, que estão em toda parte, independente de idade, sexo, ou qualquer outra categorização. O que deve tornar o mundo no mínimo muito mais divertido do que é hoje.

SERVIÇO  
 Enciclonérdia – Almanaque de Cultura Nerd,
 de Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios (248 páginas)
 Preço:
R$ 39,90


 *Émerson Maranhão é editor da página  
Tendências e titular da coluna Cena G
em 
www.opovo.com.br