27 agosto 2015

COM OU SEM CULPA


Mentirinha crônica*

Em tom meio de deboche, meio de desafio, o amigo quis saber se conseguiria escrever apenas com a verdade, como se propusesse escrever sem as vogais ou as consoantes. 

Como se a verdade limitasse o campo de abordagem de quem, por ofício ou divertimento, resolve patinar na escrita.

Mas não qualquer verdade, acrescentou esse amigo, já animado. Mas a Verdade, essa com maiúscula, pronunciada nos tribunais, ao pé do ouvido, no auge da bebedeira e na hora do casamento. 

Respondi que tinha deixado a 5.ª série pra trás havia uns bons anos. Logo, entenderia a sugestão como uma dessas provas de coragem a que se submetem os meninos da escola quando têm lá seus 10 ou 12 anos. Ele insistiu: seria mais que uma gincana. Uma espécie de faxina mental.

Pensei um pouco antes de repetir: não, muito obrigado, mas mentir faz parte das andanças humanas. Posso abrir mão de qualquer coisa; não da mentira, sem a qual não se chupa um picolé, já dizia Nelson Rodrigues. 

Das marcas que distinguem homens de bichos, talvez a mais importante seja mentir, que se relaciona com a capacidade de falsear a realidade. Com ou sem culpa.

Sem a mentira, os governos desmoronam, as bolsas despencam, o dólar cai, as matérias-primas se desvalorizam, os presidentes se desestabilizam, os laços maritais se desfazem, os chefes de Estado vão ao cadafalso, os professores se desempregam, os ministros claudicam, os padres largam a batina, os pastores se complicam, as acareações perdem sentido, as trocas de cartas se embaralham, os amantes perdem o tino e os políticos se tornam obsoletos como ábacos em plena era digital.

A mentirinha é a fiadora da governabilidade social humana. Sem ela, seríamos como os autômatos de Orwell e sua novilíngua, cuja obra aborda o sofrimento crônico e autoritário que acompanha qualquer tentativa, ainda que bem intencionada, de quem prescindir do pecado.

Construímos nosso edifício moral com tijolos aparentes e argamassa de invenção. Em seguida, aplicamos uma demão de tinta acrílica para fixar a versão de nós mesmos que melhor convém à ocasião: não raro, a mais bonita, sob o melhor ângulo, sem os pontos cegos que nenhum radar capta nas fotos e vídeos explodindo de contentamento. 

Uma narrativa de extrema satisfação consigo mesmo(a), a fim de convencer amigos/empresas de que a minha história (meu nome-fantasia) está intimamente associada ao sucesso. Autoengano: forma clássica de mentir.

Com a profissionalização da mentira em ambiente virtual, cada um(a) é coaching e plataforma de negócios de si mesmo(a). A sua própria moeda corrente; o seu personal.

Enganosamente, a mentira faz crer que ninguém, exceto eu, tem problemas com a autoestima ou medo de fracassar no emprego ou de estar empilhando ridículos sempre que abre a boca. 

Do ponto de vista do ego, ela cria uma espécie de autodefesa que mantém afastados os visigodos – toda e qualquer ameaça ao meu bem-estar e à minha impostura.

Para o cronista, então, a mentirinha é mais que acessória: é parte integrante da oração. 

É mais que remédio: é Viagra estilístico. 

É mais que esquema tático: é a essência do jogo. 

É mais que disfarce: é o próprio reflexo. 

É mais que brincar com palavras: é uma maneira de proteger as verdades — não essa com V capitular, flácida e difícil de encontrar no dia a dia. 

Mas essa verdade miúda, pé-duro, vizinha do amor e de outros sentimentos igualmente fortes e frágeis a um só tempo.


*Henrique Araújo é jornalista.
Conteúdo publicado em
www.opovo.com.br
Imagem em www.picgifs.com


27 julho 2015

HQs E EDUCAÇÃO


Professor publica tese de Doutorado
em forma de quadrinhos nos EUA*


Nick Sousanis desenhou e escreveu
sua tese Unflattening
Nada como ver sua tese de Doutorado publicada pela editora da Universidade de Harvard, uma das mais tradicionais do mundo, não? Para o norte-americano Nick Sousanis, o feito teve um gostinho ainda mais especial: todo o trabalho foi feito em formato de história em quadrinhos.

Intitulado Unflattening, Sousanis, que agora tem pós-Doutorado em HQs pela Universidade de Calgary, no Canadá, defendeu em sua tese a importância do pensamento visual no processo do ensino e da aprendizagem. "As imagens podem falar coisas fora do alcance da linguagem [escrita] e os quadrinhos têm o potencial de ampliar as possibilidades de comunicação, são como parte integrante do significado como texto, enquanto as palavras são o significante", explicou. 

O pós-doutor não quis revelar a nota que tirou na tese, mas contou que foi o trabalho mais longo que já fez. "Eu passei! Eu tenho o meu Doutorado [agora]", pensou ao ser aprovado. "Fui com minha esposa e filha de três semanas de idade para um passeio no Central Park logo em seguida! Foi um bom dia!", brincou.

Sousanis decidiu fugir dos padrões acadêmicos antes mesmo de ser aprovado no Doutorado em Educação pela Universidade de Columbia. Em 2008, ele aproveitou alguns quadrinhos educacionais que havia feito e entregou para a instituição de ensino como parte dos materiais de aplicação à pós-graduação. "Quando me candidatei, expressei minha intenção de fazer o trabalho [de Doutorado] em forma de quadrinhos. E acho que eu acertei o momento ao fazer isso. Houve mais recepção aos quadrinhos do que nunca", relembrou.

Em 2011, iniciou o projeto Unflattening e tanto os acadêmicos da instituição quanto os produtores de quadrinhos abraçaram a ideia, segundo o ex-aluno. O Doutorado foi concluído em 2014 e o livro publicado no começo deste ano. "Precisamos incentivar esse tipo de alfabetização visual e eu acho que os quadrinhos se prestam bem para fazer isso acontecer."


Cortesia Harvard University Press
"Unflattening é o que o leitor decide o que é", definiu o autor

Unflattening
O nome Unflattening (algo como "desnivelado", em tradução livre) surgiu da vontade do autor de representar ideias e histórias em planos além da linguagem escrita. O objetivo foi valorizar o uso da imagem como forma de comunicação e estimular o leitor a refletir sobre diferentes pontos de vistas.

"Unflattening é o que o leitor decide o que é. Eu uso metáforas visuais e verbais para tornar os conceitos mais acessíveis, mas nunca os simplificando. O texto por si só pode ser um fator limitante e imagens são como parte integrante do significado como texto", detalhou.

"Estou emocionado em ver como as pessoas se envolveram profundamente com este meu trabalho [Unflattening] e como ele já está sendo usado em uma variedade de salas de aula."

Paixão desde cedo
Os quadrinhos o fascinam desde quando ele era bebê. Tanto que "Batman" (!) acabou sendo a primeira palavra que Sousanis falou – seu irmão mais velho lia as histórias em quadrinhos do personagem na época. Já os primeiros traços foram feitos por brincadeira, quando criança.

Apesar da paixão, o jovem trilhou outros caminhos em sua vida acadêmica. Sousanis é matemático por formação. Porém, voltou aos quadrinhos quando começou a trabalhar com artes depois de formado. "Voltei aos quadrinhos em pleno vigor mais tarde. Primeiro, ao fazer alguns quadrinhos políticos e, em seguida, alguns quadrinhos educativos sobre arte e jogos", relembrou.

"Eu gostaria de pensar que o desenho um dia será considerado parte de uma alfabetização vital que não apenas para os sete anos, mas que continue a nos nutrir por toda a vida", acrescentou.


Cortesia Harvard University Press
"Eu gostaria de pensar que o desenho um dia será considerado parte de uma alfabetização vital,
não apenas para os sete anos, mas que continue a nos nutrir por toda a vida"

Na sala de aula
Sousanis acredita muito no potencial dos quadrinhos na sala de aula. Para ele as HQs oferecem um meio distinto e importante para a organização dos pensamentos. Além disso, ele defende que os quadrinhos são importantes ferramentas de comunicação sobre qualquer assunto e em qualquer campo.

"Os méritos da alfabetização com os quadrinhos para leitores com dificuldades têm sido bem documentados. Talvez em algum momento eles não serão apenas formas 'alternativas' [para usar na sala de aula]", afirmou.

*por Bruna Souza Cruz para o portal UOL, em 26/07/15

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"TEMPOS INTERESSANTES"


O sensacional e o normal*




A capa da revista Veja da semana passada (com a data 22/07/2015) foi feita com o objetivo de refletir dias repletos de fatos extraordinários e relacionados que se sucederam no Brasil, em uma sequência quase impossível de ser editorialmente retratada com uma capa tradicional.

Montada como se fosse a primeira página de um tabloide sensacionalista, a capa agradou e surpreendeu os leitores.

Nesta semana foi nossa vez de ser surpreendidos: muitos leitores elogiaram o que pensaram ser uma mudança gráfica permanente da capa de Veja. Sinal dos tempos.

Quando o extraordinário é tomado por normal, o País está mesmo fora dos eixos. Fizemos a capa sensacionalista para pontuar uma semana particularmente nervosa, movida pelo inesperado no centro da vida política brasileira.

O País passa por um período político conturbado, com reflexos paralisantes na economia. Surpresa mesmo será se tudo se acalmar de repente. Toda crise chega ao fim um dia. Esta é, atualmente, a única certeza positiva no cenário.

Mas toda crise, para terminar, tem de ser percebida, enfrentada e vencida. Para vencer sem maiores traumas os períodos instáveis, o essencial é que nunca se perca o horizonte institucional. Não existem soluções fora das instituições.

Os homens públicos sempre podem falhar. As instituições que eles dirigem, no entanto, não contam com esse benefício.

"Que você viva em tempos interessantes", expressão inglesa atribuída duvidosamente aos chineses, tem um significado que só pode ser compreendido quando se conhece a maneira como ela é utilizada.

Pois quando alguém diz isso está rogando praga, torcendo para que, onde você estiver, prevaleça o caos, este notório inimigo do progresso material e espiritual.

Estamos atravessando tempos interessantes, mesmo que não tenham sido trazidos por uma praga. Para superá-los, o esforço de todos tem que ser pela volta da previsibilidade na economia e da transparência, honestidade e confiabilidade na política.

A duras penas nós, brasileiros, conseguimos derrotar a inflação, a irresponsabilidade fiscal e a instabilidade política. É inaceitável que a atual geração no poder nos arremesse de volta àqueles dias trevosos.

As autoridades e políticos, se quiserem, que vivam em tempos interessantes, mas não arrisquem neles a paz e a prosperidade dos brasileiros.


*Carta ao Leitor publicada na Veja com a data 29/07/2015. 
(editor assistente: Eduardo Tedesco)



23 julho 2015

RESPONSABILIDADE SOCIAL


Valores construídos*



A conjuntura social brasileira, levando-se em consideração o campo da educação, sinaliza para a necessidade de se repensar os modelos de relações sociais cidadãs que estão sendo construídos para os jovens. 

Esses modelos põem em cheque valores éticos e morais, e se instalam de modo sorrateiro no tecido social, da forma mais egoísta, individualizada e cruel, sem deixar espaços para o acolhimento, o respeito e às necessidades do Outro.

Assim é que surge a esperança no cenário atual, com a nomeação, para o MEC, do professor de ética e filosofia política da USP, Renato Janine Ribeiro. Convém enfatizar, a emergente necessidade de um “olho clínico” de alto teor cultural, como o do ministro Janine, para agir nesse espaço educacional -- que leva em conta a importância da ética como atitude norteadora do comportamento humano --, principalmente no que tange à preocupação com a formação cidadã de crianças e adolescentes.

Em entrevista recente ao jornal Folha de S.Paulo, o ministro lança proposta ao mundo acadêmico, ao sugerir a prestação de serviços sociais, aulas e atendimentos às comunidades, por estes alunos. Não como serviço obrigatório e, sim, uma espécie de estágio social, a ser definido conforme a área de cada um.

Nesse bojo de inovações, a promessa de incluir formação ética que possibilite o contato de alunos com valores humanísticos, os quais engrandeçam e orgulhem o nosso tempo, tão desassistido de amorosidade com o Outro.

Experiência similar vem realizando a FIEC com o Programa Formação Cidadã, formando rede acadêmica com 25 Instituições de Ensino Superior (IES), dentre universidades e faculdades particulares, com o compromisso de estimular a formação de universitários com a praxis da responsabilidade social, através da cultura de equidade social e princípios éticos. 

Ações essas estendidas aos municípios cearenses Sobral, Caucaia e Aracati. O pioneirismo do programa antecipou-se à iniciativa do MEC em 2004, por ocasião do lançamento do regulamento do novo Sistema de Avaliação Nacional da Educação Superior, por meio da Lei 10861/2004, determinando que as faculdades passassem a desenvolver projetos de responsabilidade social passíveis de avaliação pelo MEC.

Com os resultados alcançados, o Formação Cidadã, conduzido pela diretoria de Responsabilidade Social da FIEC, foi aclamado como tecnologia social exitosa pelo Conselho Temático Permanente de Responsabilidade Social da CNI, e designado como modelo a ser replicado pelas demais federações das indústrias. 

Iniciar programa nesses moldes com as universidades públicas do País faz o MEC ser merecedor de apoio da sociedade, no sentido de formar um batalhão de jovens cidadãos universitários, com visão humanista e sentimento profundo de ser e estar no mundo, conscientes do seu papel na sociedade. 

*A jornalista Wânia Cysne Dummar preside o Conselho de
Responsabilidade 
Social da FIEC-Federação das Indústrias do Estado do Ceará




07 julho 2015

VALORES RENTÁVEIS (?!?)


Dilemas éticos*




Vivemos uma época em que um prato de feijão em casa é mais importante que qualquer ideal e qualquer bem comum

Segunda-feira, estive na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, para conversar com Eugênio Bucci, Mario Sergio Cortella e o rabino Michel Schlesinger.

Era o começo de um ciclo de debates intitulado "Dilemas Éticos". Eis as notas do que eu disse.

Para mim (e para a maioria dos psicólogos), o dilema é a única forma aceitável de pensamento ético.

Na hora de decidir o que é certo e o que é errado (e eventualmente de agir em consequência), só pensa eticamente quem não segue receitas e escolhe, em seu foro íntimo, soluções, todas insatisfatórias.

Já falei mais de uma vez do trabalho de Lawrence Kohlberg, o psicólogo piagetiano que tentou medir a nossa capacidade de pensar eticamente.

Para Kohlberg, recorrer a "normas" instituídas (ou seja, a qualquer lista do que se pode e do que não se pode fazer) é prova de debilidade moral: só pensa moralmente quem julga por convicção própria, sem se preocupar com as normas.

Será que isso significa que cada um teria seu pensamento ético particular? Kohlberg esperava que não, pois imaginava que existissem grandes princípios nos quais os indivíduos se inspirariam na hora de acionar seu foro íntimo. Quais princípios?

Essa é a dificuldade moderna. Quem julga a partir de normas ou mandamentos não é um indivíduo moral, e a escolha ética é uma experiência singular e autônoma, de cada um. Nessa condição, como encontrar universais éticos (claro, sem ceder à tentação de aceitar princípios instituídos)?

De Kant a Kohlberg ou a John Rawls, os que tentaram responder a essa pergunta chegaram a conclusões parecidas: talvez existam princípios implícitos, que funcionam sem normas instituídas, mas que o indivíduo respeita sem precisar de contratos -- por exemplo, "trate o outro como você gostaria que ele te tratasse".

Nessa altura de minha breve apresentação, mostrei um vídeo em que uma jovem mulher prega seu seio esquerdo numa tábua de madeira. E perguntei: que tal se essa mulher se inspirasse no princípio universal que mencionei e nos tratasse como ela gostaria que os outros a tratassem?

Segundo a nossa premissa, tratando os outros como ela quer ser tratada, estaria respeitando nosso grande "princípio ético universal".

Este pequeno paradoxo serve para lembrar que os princípios universais são sempre fundados no bem-querer dos sujeitos que se acham "normais". Ou seja, o que é vendido como universal é apenas a suposta "normalidade".

Nada grave, salvo que, em geral, o sujeito que se acha "normal" é uma "alma bela", ou seja, uma alma preocupada apenas em parecer nobre, moral e pura aos olhos dos outros e aos seus próprios.

Enfim, a procura por universais éticos levou a modernidade a propor o respeito à vida como um princípio ético universal óbvio e aparentemente incontestável (afinal, se estivermos todos mortos, a ética vai servir para o quê?).

A vida é um valor ético curioso e inédito. No mundo pré-moderno, um valor é aquela coisa pela qual vale a pena morrer. Em outras palavras, é fácil reconhecer os valores (fidelidade, honra, palavra dada, honestidade, fé etc.) porque eles estão acima da vida.

A posição contemporânea, ao contrário, coloca a vida como valor supremo ou como uma condição dos outros valores: algo que custe a vida não tem como ser um valor ético.

Desenha-se assim um leque, entre dois extremos.

Do lado da ética clássica, há um extremo em que a morte é erotizada: meu desprezo pela vida prova que sigo grandes ideais.

É o que pensam os membros de gangues que se tatuam com caveiras, é o que pensavam nazistas e fascistas quando também usavam a caveira para afirmar que seus valores só podiam ser supremos, visto que estavam dispostos a morrer por eles.

Infelizmente para os praticantes desse extremo, o martírio nunca foi uma prova da existência de Deus, ou seja, nossa morte, por mais heroica que seja, não demonstra que nossos valores mereciam que a gente morresse por eles.

Do lado da ética contemporânea, no outro extremo, aceita-se qualquer covardia, pois nenhum valor respeitável poderia exigir que lhe sacrificássemos a vida. A modernidade pretende que os bons valores sejam baratos. Só falta concluir que os bons valores precisam ser, além de baratos, rentáveis.

Nossa época idealiza a vida nua (a sobrevivência). Sem surpresa: é uma época em que o prato de feijão em casa é mais importante do que qualquer ideal e qualquer tipo de bem comum.

*Contardo Caligaris é psicanalista e escritor. Conteúdo
publicado na seção
Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo.
Imagem em eHowenespanol.com/
Photodisc/Photodisc/Getty Images


06 julho 2015

INDECOROSA CARNAVALIZAÇÃO


Sociedade violentada*



De nossas janelas gradeadas, todos os dias todos, a violência nos conduz à insegurança e ao medo. São muitas as desculpas e mais ainda as mentiras. O descaso, o pouco-caso ou nenhum caso, a inconsciência, a inconsequência, a essência do mal-estar social. 

Eu mesmo perdi as contas de quantas vezes fui assaltado. Na maioria das vezes por jovens, quase adolescentes, quase crianças, mas sempre bem armados. Nos acostumamos com o tempo, mas a dor dói mais, pois a ferida que não sangra também não sara.

Os criminosos são encorajados por um paraíso de orientações ilusórias de segurança: não reaja, entregue suas armas, entregue tudo, não se meta com eles, finja que não os viu, que não viu nada, finja que vive e respire só se for preciso, e, de preferência, não arrisque, não viva muito, não saia de casa... apenas!

Pior também é ser assaltado diante de/ou por um juiz, cúmplice em nome de uma estranha lei que privilegia quem mente, quem tem dinheiro, quem tem poder, e ainda entender, numa arrogância pedante de escola, que está cumprindo o seu papel, quando, fosse honrado, procuraria um lugar impotente entre as pernas para enfiar seu vergonhoso cabedal de reprimendas e códigos caducos de tempos.

Violada nos é a democracia, achincalhada nos gabinetes, nas câmaras e assembleias por bate-bocas teatrais, pela imposição do voto obrigatório, por caras eleições de indecorosas alianças, pelo sistema único de licitações fraudulentas, pela carnavalização dos interesses mesquinhos em troca de pão.

Pela esbórnia partidária de “destros” e “sinistros” cujo gozo se dá à custa da carne cheia de erupções cutâneas de nossas crianças, pelo Estado capitalista que vende tudo e se vende, e que um dia há de explodir, antes mesmo de assumir-se podre, gordo, a boca escancarada e cheia de dentes cariados de seu deboche e competência em não promover a construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

A não erradicação da pobreza e da marginalização, a não redução das desigualdades sociais e das discriminações de qualquer tipo e a não promoção do bem-estar geral. A demorragia é o que impera no País.

Daí, as praças tomadas à espera da sopa e do aguardente, os valores esquecidos, os parques e rios sendo devastados, o rolezinho da cultura do concreto e a majestade do lixo, todo ele, a humanidade inteira de resíduos. 

Uma Fortaleza chinfrim, descoberta, feia e enlameada, de braços abertos e a bunda arrebitada nas coxias, pedindo esmolas "padrão FIFA" – assim como a corrupção –, enquanto em seus terminais de transporte o estranhamento e o medo vêm acompanhados de impossibilidades e da correria histérica em seus túneis e corredores: usuários apavorados, nem eles sabem do quê, tentam preservar o único bem que lhe resta: a vida! 

Sete assaltos por dia nos ônibus da cidade, sem contar os assédios, o trânsito difícil, os perigos de se andar nas ruas. À noite, por conta de incêndios, podem não voltar para casa. Passageiros, homens, mulheres e crianças, chegam aos terminais, mas não vai ter ônibus hoje. 

E quem quer saber? Cansados, catam o fundo dos bolsos. Às vezes, nem pra água dá. Deitam num banco, colocam a bolsa embaixo da cabeça e, porque não conseguem mais chorar, culpam-se por sonhar em como seria bom não ter que acordar para o novo dia.



*Escritor e poeta, o fisioterapeuta Raymundo Netto é
editor-adjunto na Fundação Demócrito Rocha em Fortaleza




11 junho 2015

GIBI NA ESCOLA


Universitários produzem
HQs para aprender Biologia*



Alunos da UFSCar elaboram quadrinhos para divulgar 
conhecimentos acadêmicos de maneira divertida e acessível



Tudo começou como uma atividade despretensiosa de um professor: procurar, recortar, xerocar e colar imagens e textos para que os alunos pudessem aprender conceitos de Biologia. 

O exercício ganhou uma dimensão maior, e as atividades acabaram se tornando o primeiro passo para o surgimento da GIBIOzine, uma revista em quadrinhos produzida semestralmente por estudantes de biologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), campus Sorocaba, em São Paulo. 

O recorta-e-cola ficou no passado. Hoje as HQs, criadas e ilustradas pelos universitários, ajudam a divulgar conhecimentos acadêmicos de maneira divertida e acessível, ganhando até formatos 3D. 

A publicação também se expandiu para além dos muros da faculdade e passou a contar com a colaboração de alunos do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas locais e de colaboradores de todo o País.





A GIBIOzine, que é uma revista no formato fanzine – tipo "feito por fãs” e produzida sem fins comerciais –, acabou se tornando um projeto de extensão universitária. É impressa na gráfica da faculdade e também oferecida no site do projeto (clique aqui). 

Além disso, passou a ser indexada com o ISSN (Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas, sigla de International Standard Serial Number), registro que identifica e individualiza as publicações seriadas.

De acordo com Hylio Lagana, professor adjunto da UFSCar e idealizador da iniciativa, a produção de HQs surgiu, principalmente, “como uma maneira divertida de divulgar os conteúdos científicos praticados pelos estudantes, tirando o rigor conceitual acadêmico, para apresentá-los com uma linguagem de fácil compreensão”. 

Para isso, os universitários (veteranos e novatos) têm liberdade total de criar histórias, que muitas vezes são contadas em forma de fábulas, como na edição Gibiografias – árvore gibiológica. Na publicação, os insetos ganharam voz para contar a biografia de cientistas famosos, professores e biólogos brasileiros.

É o caso da história A Herança de Morgan, em que os mosquitos conversam sobre os estudos do geneticista Tomas Hunt Morgan. A partir das teorias desenvolvidas por Gregor Mendel – considerado o pai da genética –, Morgan decidiu testar a hereditariedade dos animais.  

Já na revistinha As abelhas de Warnick Kerr, os insetos dialogam sobre o engenheiro agrônomo brasileiro que estudou a chegada das abelhas africanas ao Brasil e o gene CSD, que, segundo suas pesquisas, é essencial na determinação sexual dos zangões.

Os primeiros exemplares nasceram em 2007 e foram avançando editorialmente ao longo dos anos. Hoje, a revista é produzida com a colaboração de universitários de diferentes regiões do país, como São João Del Rey e Uberlândia, em Minas Gerais, Goiânia e Rio de Janeiro. 

Além disso, as edições não se restringem apenas à biologia. Outras duas revistas já foram dedicadas à pedagogia e à diversidade. “Hoje, fazemos tudo on-line, com a mais avançada tecnologia”, afirma Lagana. 

A tecnologia tem permitido, inclusive, a criação de ousadas edições tridimensionais. Uma delas, com estereogramas (técnica de ilusão de ótica) na capa e no verso e com efeito “papel de parede” no miolo, permite visualizar os desenhos em formato 3D.

HQs no Ensino Fundamental

Segundo Lagana, os avanços editorais também marcaram o início de uma cooperação internacional.  Em outra publicação, que expôs a prática de educação ambiental e a conservação de carnívoros, participaram dois biólogos argentinos, que levaram exemplares ao seu país de origem. 

Nessa edição tridimensional, diferentemente das demais publicações confeccionadas por universitários, foram os estudantes da escola estadual José Odin de Arruda, em Sorocaba, os responsáveis pelos HQs. 

A produção contou com a parceria entre os alunos da UFSCar e os professores do colégio. Juntos, optaram pela água como tema central da revista, que teve o Hagar, o horrível, criado pelo cartunista Dik Browne, como personagem principal para a série de histórias.

No Brasil, alguns professores adotaram as HQs em sala de aula. É o caso de Poliana Oliveira, ex-estudante de pedagogia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), que durante sua graduação, em 2009, usou as histórias em quadrinhos com seus alunos de 3.o ano do Ensino Fundamental de uma escola pública de Sorocaba. 

O resultado do uso dos HQs também foi apresentado em seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), que verificou como a série de histórias pode ser usada como recurso pedagógico eficaz. 

“As HQs são ótimas para serem trabalhadas na sala de aula, os alunos ficam mais interessados em produzir, compreendem com mais facilidade os temas estudados e melhoram a capacidade de interpretação textual”, afirma. 



A HQ é produzida semestralmente

*publicado em http://porvir.org por Vagner de Alencar 
Imagens: Danomye/ Fotolia.com - Dragan85/ Fotolia.com



10 junho 2015

CREDIBILIDADE PRECARIEZADA


A revoada dos passaralhos*

Demissões em massa nos grandes jornais acontecem
 de forma sucessiva e tornam os jornalistas mais inseguros, 

vulneráveis, explorados – e com menor liberdade de expressão





O maior orgulho de Vera Saavedra Durão foi ver a filha virar jornalista. Isso porque ela própria, Vera, dedicou 35 anos à profissão, com a garra de quem cumpre uma missão. “Você quer que as informações sejam publicadas da melhor forma possível, que aquilo ali venha a público. A gente se entrega”, diz Vera. “Se minha filha seguiu o mesmo caminho é sinal de que ela viu valor nisso”.

A jornalista, hoje com 65 anos, abraçou a reportagem com a mesma paixão que lutou contra a ditadura, como militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), onde foi companheira de Dilma Rousseff. Ficou dois anos na prisão; quando saiu, atuou como repórter de Economia nos então principais jornais do País – O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo.

Em 2000, fez parte da equipe que fundou o jornal Valor Econômico, onde ficou por 13 anos. “No início eu cobria muito tudo, o empenho era muito grande para manter o jornal, com furos, afinal ele precisava se firmar. A gente fazia muita coisa”, lembra Vera, que traz dessa época a lembrança de uma úlcera duodenal sangrante, que surgiu quando fazia uma cobertura particularmente tensa para o Valor. “Perdi dois litros de sangue, e eu nem sabia, até que caí desmaiada. Eu me alienei tanto naquela cobertura, me estressei muito”, conta a jornalista, respeitada por sua competência e dedicação pelos colegas e fontes.

No dia 24 de maio passado, Vera foi demitida sumariamente, junto com mais de 20 colegas do Valor, jornal que pertence ao Grupo Folha e às Organizações Globo. “Fui apanhada de surpresa, não podia imaginar que eu podia entrar numa lista negra, para ser cortada de uma maneira tão brusca”.

A surpresa foi ainda maior porque acabara de vir à tona que ela fora alvo de espionagem da empresa Vale S.A., segundo denúncia de um ex-gerente de segurança, caso ainda investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. 

Mas Vera, que estava de férias, nem chegou conversar com a direção do jornal sobre a denúncia. “O jornal não teve contato comigo sobre isso. Mandei e-mail para a chefia para conversar sobre isso, mas acabou a gente não conversando porque eu fui demitida”, conta.

“Depois de 13 anos trabalhando para engrandecer o jornal achei que teria direito a um período sabático e não a uma demissão”, diz ela. “O meu raciocínio sobre os meus direitos era o da minha classe, que é a dos jornalistas, dos que ‘carregam o piano’, e não dos acionistas, donos do jornal, que querem ver o resultado imediato do nosso trabalho”. 

Vera lembra de uma fonte empresarial que lhe dissera, em 2005, que merecia um bônus já que por causa de uma série de reportagens suas, o Valor passou a ser lido no Japão. “Eu disse que jornalista não tinha bônus, só ônus”.

Enquanto Vera ainda tenta digerir a demissão na sua casa do Rio de Janeiro, a mil quilômetros dali Flávio José Cardoso, de 51 anos, atende clientes de um belo restaurante à beira mar na ponta de Sambaqui, em Florianópolis. Há quatro anos, ele escrevia os editoriais do jornal mais lido de Santa Catarina, o Diário Catarinense, com 40 mil exemplares diários. Hoje, é garçom.

A guinada em sua vida começou em 2010, quando mudou o editor-chefe do jornal. Ele deixou de ser editor de Opinião e foi “promovido” a subeditor de Geral, seção que inclui de polícia a comportamento. “Passei a editar também o caderno Mundo, sozinho. Depois de um tempo, me colocaram para escrever matérias especiais todos os dias”. 

Além das reportagens e da edição, ele passou a fazer a diagramação, montar tabelas, procurar fotos. Se antes trabalhava das 13h às 19h, passou a ficar no mínimo 12 horas dentro do jornal, todos os dias – e estava sempre atrasado. “O trabalho que estava fazendo era para ser resolvido por oito ou dez pessoas. Entrava às 13h e saía a 1h, 2h da manhã, todos os dias. Não parava para comer; comia um salgado, enquanto digitava”. 

Isso quando o editor não falava, em alto e bom som para todo mundo ouvir, coisas como “Eu já te expliquei isso. Uma pessoa com um neurônio entende”.

Flávio aguentou a situação por um ano. “Isso leva o indivíduo a um nível de estresse que ele começa a se achar incompetente para executar as tarefas que faz há 20 anos”. Durante esse período, teve lesões nos tendões das mãos e na córnea, porque usa lentes de contato e ficava muito tempo exposto ao computador e ao ar condicionado. 

“Quando voltei de licença por causa da lesão, o editor-chefe teve a cara de pau de dizer que eu inventei a doença!”. Entrou com um processo contra o Diário. Hoje, embora seja garçom, colabora com uma revista especializada em economia. E não largou o jornalismo – ainda.

As histórias de Vera e Flávio não são exceção entre os jornalistas brasileiros; o que é raro é algum deles vir a público denunciar essa situação. Acúmulo de tarefas, assédio moral, hora extra não-remunerada, insegurança sobre o próprio futuro são males que infestam a indústria das notícias no Brasil. 

Embora sejam fruto de decisões empresariais que já duram alguns anos, nos últimos meses a situação se agravou com diversos grandes cortes de pessoal – os chamados “passaralhos”.


Uma ave que acaba com tudo
Passaralho é um jargão agressivo para as demissões em massa nos meios de comunicação. Remete a pássaros, revoadas de algo que destrói tudo por onde passa. De março a maio de 2013, eles passaram sobre redações grandes como Estadão, Valor Econômico, Folha de S. Paulo e já sobrevoam a editora Abril, a maior do País, além de atingir a maioria dos jornalistas em redações menores, como Brasil Econômico e Caros Amigos.

Isso, somente dentre as empresas sediadas na cidade de São Paulo. No estado inteiro houve demissões no jornal A Tribuna, o maior da região da Baixada Santista, e na Rede Anhanguera de Comunicações (RAC), que domina as regiões ao redor de Campinas, Ribeirão Preto e Piracicaba.

Considerando apenas os jornalistas registrados em carteira e somente na cidade de São Paulo, foram registradas 280 demissões homologadas de janeiro a abril desse ano, 37,9% a mais que no mesmo período de 2012, quando foram registradas 203 homologações por conta de demissões. 

Ou seja, tudo indica que 2013 será pior que o ano passado, quando mais de 1.230 jornalistas foram demitidos de redações no Brasil. Os motivos, em geral, foram “reestruturações”, que nada mais são que novas formas de organizar o trabalho usando menos pessoas e mais tecnologia.

“É um ponto fora da curva”, diz Paulo Totti, que, com quase 60 anos de jornalismo, também foi vítima do corte no Valor. Totti usa a expressão para explicar que, na indústria do jornalismo, os trabalhadores mais experientes são descartados facilmente e substituído por recém-formados – o oposto do que acontece em outras áreas.

“Em nenhum outro ramo da economia se vê atitudes semelhantes. Os administradores têm a preocupação de manter a sua mão-de-obra qualificada”, diz Paulo, que sempre cobriu economia, e com excelência. Em 2006 foi vencedor do Prêmio Esso, o mais respeitado do jornalismo brasileiro, com uma série sobre a economia chinesa. 

Meses antes de ser demitido, havia se oferecido para fazer oficinas com cada uma das editorias do Valor, para ajudá-las a melhorar a qualidade dos textos. “Há, claro, uma certa surpresa, já que a demissão não decorre de uma maior ou menor dedicação ao trabalho. Mesmo um jovem fica meio intranquilo quanto ao seu futuro. Pior: se o cara desempenhar bem suas funções, ele pode ter um aumento de salário, e esse aumento causa a sua demissão”.

Aonde os donos de jornais querem chegar?
Paulo Totti, que no momento considera a única opção que lhe foi dada pelo jornal – virar colaborador freelancer – compartilha um receio que se espalha nas redações com a mesma rapidez que o voo dos passaralhos. “Temo que isso esvazie o conteúdo do jornal. E esse é o sentimento de todo corpo de gente que integra o setor redação em todos os jornais brasileiros”, explica ele. 

“Não sabemos bem aonde os donos dos jornais querem chegar. A decisão no Valor, por exemplo, partiu da pressão de pessoas que integram o conselho administrativo do jornal, representantes dos acionistas. Nenhum deles tem no seu currículo alguma passagem pelo jornalismo”.

Os cortes de pessoal se devem a um investimento milionário em um serviço de informações financeiras em tempo real, o Valor Pro. Esse investimento começou a ser feito há cerca de três anos, quando os funcionários foram avisados que a redação seria unificada. “Fomos avisados de que nos dois anos seguintes ninguém teria aumento salarial. Ao mesmo tempo, todos teriam que escrever para as três plataformas: tempo real, site e impresso”, diz um jornalista que sobreviveu ao último corte no jornal e que prefere não se identificar. 

Segundo o repórter, o clima da redação está ruim; além do trauma provocado pelas demissões, sobrou excesso de trabalho para todos. “O site, que antes era cuidado por cada editoria, agora é alimentado por pessoas de um ‘mesão’ digital, que não tem muita familiaridade com alguns assuntos. No impresso, a cada dia está uma briga por espaço e o número de páginas está sendo reduzido”.

Também a Folha de S Paulo anunciou uma reestruturação na última semana, com o fim do caderno “Equilíbrio” e o reagrupamento de outros cadernos em três núcleos de produção. O número de jornalistas demitidos foi de 24. A direção comunicou à ombudsman, Suzana Singer, que “as redações do futuro deverão ser cada vez mais enxutas, assim como o produto impresso”. 

Entre os demitidos estão nomes do porte de Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo 2011 pela série que demonstrou o enriquecimento do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo”, resumiu Suzana Singer, em artigo na Folha.

A Pública falou com um dos jornalistas cortados do Grupo Folha, da área de cultura, que pediu para não ser identificado. “Ao chegar à redação um dos colegas comentou que haveria corte e, cerca de 20 minutos depois, fui chamado para ser avisado de que seria desligado da empresa. A justificativa? Corte de gastos. Tinham de ter uma meta x de gastos, e a minha saída ajudaria a atingir tal meta”.

“Eu tenho pena de quem ficou e de quem está entrando no jornalismo”, diz, com certa serenidade, o repórter fotográfico Lula Marques, premiado jornalista da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo. 

No dia 1.º de abril, ele acordou comemorando o aniversário de 26 anos de jornal. À tarde, foi comunicado que estava demitido. “Me falaram que eu estava ganhando muito, mais que o editor de fotografia de São Paulo, que meu nome estava na lista há dois anos e que não dava mais para me segurar na empresa”. 

Desde novembro de 2011 – quando a empresa cortou 10% dos seus jornalistas – os cortes, discretos e sem alardes, são constantes na Folha. Tanto, que Lula diz que já estava preparado. “Saí com um equilíbrio emocional bom, porque já estava me preparando para isso. Nos últimos dois anos, as pessoas que estavam com o salário lá no alto foram todas embora. Sabia que um dia ia chegar minha vez”.
Tensão na Abril

Era sexta-feira, dia 7 de junho, quase no final do expediente, e o clima no prédio da editora Abril S.A, zona oeste de São Paulo, estava pesado por conta dos rumores de um grande corte, previsto desde a  morte do presidente do grupo, Roberto Civita, em 26 de maio. 

“Olha, está muito tenso e é uma tensão diferente. Eu já vivi outras demissões coletivas, mas antes era assim: os diretores das redações estavam plenamente por dentro de quantas pessoas deveriam ser cortadas de cada revista, enquanto os 'peões’ estavam morrendo de medo. Agora não, ninguém sabe de nada direito, nem os diretores”, disse à Pública uma jornalista, que também pediu não ser identificada por medo de represálias.

Pouco depois, seis executivos foram demitidos, junto ao anúncio de que o grupo passaria por uma “reestruturação”, com agrupamento de unidades de negócios, reduzidas de dez para cinco. O objetivo, segundo a empresa, era a “racionalização dos recursos”. Há boatos de que 11 revistas deixarão de circular – entre elas nomes lendários como Playboy, Capricho e Contigo. 

É a senha para o passaralho. “Deve acontecer na próxima semana”, diz a mesma jornalista. “Eu acho que, se na semana que vem já anunciarem qual revista vai ser cortada, o clima vai melhorar. Não saber o que vai acontecer que é estranho. A gente faz piada o tempo todo, tipo, estou me matando pra fazer esse editorial de moda e se a revista acabar amanhã…”

“Entre os jornalistas, nesse momento o clima é de intranquilidade aguda”, diz Paulo Zocchi, diretor jurídico do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e que trabalha na redação da revista Quatro Rodas, da editora Abril. “Tá todo mundo morrendo de medo. Na minha redação, que é de uma faixa etária um pouco mais velha, tá todo mundo falando: ‘vamos ver se segunda-feira vamos estar aqui’”. 

A jornada dupla de Paulo – na revista e no sindicato – está ainda mais atribulada desde as últimas demissões. Toda vez que corre um boato de demissão, o sindicato é acionado, e pede uma reunião de emergência na empresa, para negociar.

Foi o que aconteceu em abril, na negociação com o Estado de S. Paulo – de desfecho inesperado. O Estadão anunciara a redução da quantidade de cadernos diários para apenas 3, a extinção do caderno Link, sobre tecnologia, e do caderno de Negócios. 

Ao mesmo tempo, passou a privilegiar as plataformas digitais, com o lançamento do novo aplicativo do Estadão, adaptável a qualquer dispositivo móvel.  Segundo conta Paulo Zocchi, na quinta-feira, dia 4 de abril, ele recebeu uma ligação avisando sobre boatos de demissão em massa no Estadão.

“Hoje, a redação tem 250 jornalistas. O boato era de que 100 seriam demitidos na segunda ou na terça-feira da semana seguinte”. O sindicato solicitou uma reunião de emergência com a direção do Estadão, mas o jornal não respondeu e começou a demitir já no dia seguinte, sexta-feira. No total, foram 31 demitidos.

“Na sexta-feira, 12 de abril, fizemos uma assembleia na empresa, e desceram 90 pessoas. O objetivo era reverter todas as demissões. Até que uma das trabalhadoras demitidas disse que não queria ser reintegrada”, lembra ele, revelando sua surpresa. No fim da assembleia, em que estavam 14 dos 31 demitidos, nenhum deles queria voltar a trabalhar no Estadão. “As pessoas se sentiram descartadas, afetadas emocionalmente de uma forma tal que elas não queriam voltar”.

Um dos demitidos, repórter com cerca de cinco anos de profissão, não disfarça sua revolta. Segundo ele, os rumores de cortes eram constantes no jornal, espalhando um “clima de terrorismo”: “O jornal esperava que os jornalistas continuassem a manter a quantidade e a qualidade de trabalho com menos pessoas, impossível. Jornalistas acumularam funções e a qualidade, como os leitores puderem observar, caiu”. Ao ser demitido, ele foi procurado por um dos diretores, “para deixar claro que eu não estou sendo demitido pela sua falta de competência, que é uma questão de corte de gastos”, lembra. “Querem que você não se revolte e não sai baixo astral, que saia feliz e tranquilo. Te apoiam, mas dizem: ‘vai lá’”.

Como a maioria dos jornalistas demitidos, ele prefere não se identificar publicamente. Quase nenhum dos entrevistados, principalmente os mais novos, quiseram se expor. “Sabe como é, o mercado é muito pequeno e eu posso ter dificuldade para conseguir trabalho”, diz um deles.

Do Sul ao Norte do Brasil
Na ilha de Santa Catarina, o nome do passaralho é mais poético: chamam de “barca”, como aquela, dirigida por Caronte, que levava as almas ao inferno, ou Hades, na mitologia grega. 

A última barca do Diário Catarinense, o maior jornal do Estado, aconteceu no dia 21 de março e levou cerca de 20 profissionais da redação. Poucas pessoas souberam. A divulgação mais ruidosa do caso foi um e-mail do jornalista Célio Klein anunciando, aliviado, sua demissão após 25 anos de casa. 

Nela, ele se diz alegre por ter saído do jornal, mas expressa “profundo pesar pela situação”: “É muito grave e difícil não se ver outra saída que não a de abrir mão do trabalho do qual se gosta e ao qual se dedicou a maior parte da vida”. A carta prossegue: “Em uma empresa de comunicação, questionar, alimento do jornalismo, não é permitido. Em uma empresa de comunicação que tem a educação como bandeira, que implica justamente pensar de forma autônoma, pensar não é permitido. Em uma empresa de comunicação que exalta a democracia, vende a diversidade de opiniões, a participação dos leitores como case de ação, de sucesso, divergir não é permitido”.

Semanas depois,  em abril, o jornal A Crítica, no Amazonas – um veículo da RCC (Rede Calderaro de Comunicação), que tem filiadas à Rede TV!, ao SBT e à Record – demitiu aproximadamente 15 pessoas, entre repórteres, editores e fotógrafos do jornal impresso e do site. A repórter especial Elaíze Farias, vencedora do prêmio Imprensa Embratel 2013, foi uma das cortadas. “A justificativa oficial é de que o jornal acabou com esse cargo”, diz ela. “Não sei quais foram os critérios”.

Com quase 20 anos de experiência, Elaíze dedicou metade deste período a produções de reportagens sobre questões sociais e ambientais da região. Ela lembra de uma das últimas reportagens que fez, sobre um casal de índios matis que estava sendo acusado de tentar cometer "infanticídio" contra seu filho doente em Manaus – o que foi completamente desmentido por eles. 

“Para conseguir entrevistar este casal, me desloquei de lancha pelo rio Solimões (uma hora) de Tabatinga até outro município, Benjamin Constant, e dali peguei um táxi-lotação (meia hora), viajando pela estrada até Atalaia do Norte, onde os índios Matis estavam. Fiz o retorno de carona, na moto de um indígena, porque não havia mais táxi disponível entre Atalaia e Benjamin, até novamente voltar a Tabatinga. E precisava chegar antes das cinco da tarde, pois as lanchas que fazem a travessia do rio em Benjamin operam até neste horário. Ou seja, foi um gasto extra que precisei utilizar. Depois de uma jornada de oito dias, voltei a Manaus. Bom, é assim que se faz jornalismo na Amazônia”.

Para ela a maior preocupação é ter que deixar de realizar reportagens como essa. “Fiquei muito frustrada por, após a minha saída, estes temas terem ficado parados, na minha própria gaveta de pautas. Elas continuam guardadas, para quando eu tiver algum espaço e logística para viabilizar”.

Sobre o silêncio que cerca as demissões, Elaíze diz: “No geral, a notícia das demissões ficaram restritas ao boca-a-boca e às redes sociais – eu, por exemplo, fiz um comunicado pelo Facebook e por e-mail aos meus amigos, companheiros de luta, organizações sociais e fontes”, comenta. “Hoje se fala muito nas crises dos jornais impressos e na sua dificuldade de se adaptar aos novos tempos e às notícias publicadas nos portais de internet. O enigma é: a mídia vai se conseguir se reinventar, se ressignificar, para continuar sobrevivendo? Cabe a todos nós, os que estão dentro e os que estão fora das redações, passar a refletir”, acredita.

Para o pesquisador José Roberto Heloani, da FGV, a esperança é a de que os jornalistas comecem a ter maior consciência e maior interesse nessas questões. “É isso que chamo de luz no fim do túnel. E isso vai fazer com que as pessoas comecem a perceber que a saída não é individual. A saída é coletiva”. 

Neste ano, em São Paulo, houve pelo menos quatro casos de organização de jornalistas contra demissões: O Vale e Bom Dia, de São José dos Campos; do Jornal da Cidade de Jundiaí; do Brasil Econômico; e a dramática greve da pequena redação de Caros Amigos, que se autodenomina “a primeira à esquerda” que terminou com demissões e ações na Justiça (veja box).

O jornalista Audálio Dantas, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog e foi o primeiro presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, tem uma avaliação mais pessimista. “Por mais que se lute, o panorama dos meios de comunicação concentrado em poucas mãos contribui para que as lutas sejam enfraquecidas”, diz Audálio, que considera a regulação da propriedade dos meios de comunicação essencial no debate sobre o futuro da profissão: “Há a necessidade de se regular, porque nós temos esse fenômeno: o sujeito faz o trabalho para o veículo impresso, a empresa faz uma adaptação do mesmo texto e o trabalho de um profissional é aproveitado em quatro meios”.

Nesse cenário, ele diz, não há mais distinção entre bons profissionais e medianos. “Antes os grandes jornais tinham esses cuidados de preservar os bons jornalistas. Hoje, não se distingue os profissionais e vão todos no mesmo diapasão”, observa Dantas, que identifica um ciclo vicioso para a profissão: para aproveitar o rendimento máximo – em termos quantitativos – as empresas mantêm o jornalista dentro da redação, fazendo matérias por telefone e por e-mail, o que resulta em um número maior de matérias, mas de pior qualidade.  

“A grande vítima, depois do jornalista, é a apuração. A qualidade da informação, que é o que garante historicamente a credibilidade, está prejudicada”.

Para os mais jovens, porém, a sensação é de que as mudanças são ainda mais profundas, como diz o jovem profissional, recém demitido do Estadão: “A justificativa [de cortes de papel e demissões] é a financeira. Se você acompanha o jornal, deve ter percebido que as editorias enxugaram, algumas sumiram… O jornal inteiro ficou menor. A sensação, dentro e fora da redação é de que o jornal está apenas adiando o seu fim”.

Desrespeito também nas pequenas redações
Tão comum é a precarização do trabalho do jornalista, que ela chega a redações grandes e pequenas, de todos os espectros ideológicos. Em março deste ano, a revista Caros Amigos – na qual trabalharam, no passado, as duas diretoras da Pública – protagonizou uma dramática greve. 

Os 11 profissionais grevistas abriram uma página no Facebook, que chegou a ter mais de 1500 apoiadores; mas, ao cabo de 3 dias, todos foram demitidos pelo atual proprietário Wagner Nabuco. Os funcionários protestavam contra a ameaça de uma redução de parte da equipe ou redução dos salários. 

“O dono comunicou que iria fazer um corte de 50% dos custos da redação, o que significaria a demissão de metade da redação”, diz o ex-editor Hamilton Octavio de Souza. Também queriam direitos trabalhistas, como contratação formal no regime CLT. 

Em entrevista ao portal Sul 21, Nabuco mostrou-se indignado com as reivindicações. “Não tem carteira assinada porque ninguém entrou aqui com essa promessa. Foram crescendo devagar na empresa, muitos começaram como estagiários. A folha de pagamento da redação nunca foi tão alta, era maior que a do departamento comercial. Nunca me falaram que eu era um patrão ruim. Que instrumento eu utilizei para mantê-los acorrentados e explorados ao máximo? Por acaso coloquei um 38 na cabeça de alguém?”.

Após uma tentativa de negociação, mediada pelo Sindicato dos Jornalistas, os demitidos decidiram entrar com ação judicial contra a empresa. Gabriela Moncau, uma das jornalistas demitidas da Caros Amigos, explica que nove dos onze profissionais desligados da empresa estão se organizando para mover uma ação reivindicando os direitos mínimos trabalhistas, negados no momento da demissão, o que deve ocorrer em breve.


*publicada por Bruno Fonseca, Camila Rodrigues, Luiza Bodenmüller
e Natalia Viana em 10 de junho de 2013 em
 
http://apublica.org

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08 junho 2015

ENXUGAMENTO E DESCARACTERIZAÇÃO


Para ombudsman, jornal “corre o risco
de ficar cada vez mais dispensável”*




 Folha de S. Paulo promoveu reformulação em abril (Imagem: Reprodução)

A reformulação da Folha de S. Paulo -- que uniu em três cadernos de editorias antes separadas e eliminou seções e colunistas -- foi abordada pela ombusdsman do jornal, Vera Guimarães Martins, que está no veículo desde 1990. 

Com o título Os desafios do jornal enxuto, o texto publicado no domingo, 7, tratou das consequências da mudança. 

“Não será fácil conciliar consistência informativa e analítica num espaço cada vez mais reduzido”, escreveu Vera. 

O caso aconteceu em abril, mas o tema foi resgatado para “dar voz às dezenas de leitores que escreveram para expressar raiva, desencanto e perplexidade”, conforme divulgou a jornalista. 

As modificações resultaram no corte de espaço para Esporte, que acabou reduzido a uma página às terças e sextas e duas páginas às quartas e quintas. 

Os 125 colunistas do jornal passaram a escrever apenas no site. Somente Clóvis Rossi, dos seis de Mundo, segue no impresso. 

Os leitores questionaram se a intenção do veículo de comunicação é migrar para a versão eletrônica. Para a ombusdman, ainda que o cenário mundial seja de perda de assinantes e anunciantes, “o impresso ainda é a joia da coroa em faturamento e prestígio”. 

Ela ainda afirma que os leitores reclamam com razão, já que os textos estão cada vez mais curtos. 

“A meta é que os textos noticiosos já tragam embutidas análise e interpretação”, informa a direção de redação. Para Vera, isso não está sendo feito. 

“Se continuar como está ou não for eficiente na transição da cobertura, a Folha será enxuta, mas corre o risco de ficar cada vez mais dispensável”, opina.