06 março 2013

PROBLEMA GLOBAL

Relatório da ONU diz que 
substâncias psicoativas 
ameaçam saúde pública*

Segundo a JIFE-Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, 
o problema pode ser visto em emergências de hospitais; somente na 
Europa, uma nova substância é descoberta a cada semana



Informação à população e preparo de pessoal da área médica são paliativos recomendados


As chamadas "drogas legais" ou "designer drugs" estão representando crescente e impactante ameaça à saúde pública. A constatação é de um relatório das Nações Unidas, divulgado nesta terça-feira (05/03) em Viena, na Áustria

De acordo com um estudo da JIFE-Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, realizado em 2012, o mundo está sofrendo com a proliferação de substâncias psicoativas, que têm levado a um aumento do número de ocorrências em emergências hospitalares e outros centros de tratamento.

Tranquilizantes
A JIFE também ressalta o que chamou de "abuso de medicamentos e farmacêuticos", como tranquilizantes e estimulantes. Somente na Europa, uma nova substância é descoberta a cada semana. A compra é facilmente realizada pela internet, e o número de sites que vendem psicoativos mais que quadruplicou em dois anos na União Europeia.

De acordo com a JIFE, os países precisam estruturar uma ação coordenada para impedir a produção, uso e tráfico dessas substâncias.

Em entrevista à Rádio ONU, da Costa Rica, o especialista da Agência Mundial Antidoping (WADA) no Brasil, Eduardo de Rose, falou sobre o envolvimento das policias federais e ministérios de Saúde no controle de vendas pela internet:

"O risco é de saúde pública. Deve haver um controle pelo Estado da venda desse tipo de substâncias para a população. A venda pela internet é de área internacional, ilegal e deve estar controlada pelo Estado. Como para pessoas físicas ou instituições de Direito não governamental é muito difícil fazer o controle desse tipo de venda, às vezes a questão  também entra numa área de drogas sociais proibidas", referiu Rose.

De acordo com o relatório, em alguns países pesquisados mais de 6% de alunos do Segundo Grau já tomaram tranquilizantes. Para a JIFE, é preciso agir preparando pessoal da área médica e informando a população sobre os perigos que este tipo de droga representa.


Inexiste controle efetivo sobre a venda de diversas substâncias 


Riscos
Os riscos são variados, incluindo doenças como HIV e hepatites B e C, no caso de uso de drogas injetáveis.

O titular da JIFE, Raymond Yans, disse que este é um problema global, que deve ser combatido de forma partilhada pela comunidade internacional. Segundo ele, é hora de agir em todos os níveis, incluindo o comunitário, para reduzir o sofrimento de todos.

Ao abordar a situação das drogas por regiões, o estudo da JIFE lembra que, na América do Sul, o consumo de cocaína, por exemplo, se manteve estável, com uma média de consumo por adultos de 0,7%. Já no Brasil, esta média é mais do que o dobro, atingindo 2%.

México, 60 mil mortos
O tráfico de drogas também está afetando a segurança regional, com o aumento da violência relacionada à distribuição ilegal de várias substâncias.

No México, por exemplo, mais de 60 mil pessoas foram assassinadas desde 2006 por causa do tráfico de drogas.

A América do Norte continua sendo o maior mercado de drogas ilícitas no mundo. Uma em cada 20 mortes de pessoas entre 15 e 64 anos na América do Norte tem a ver com o abuso de drogas.

Brasil
Segundo o relatório, o Brasil -- ao lado de outros países como Argentina, Índia, Grã-Bretanha e Paquistão -- teria perdido o prazo de entrega dos dados estatísticos sobre substâncias psicotrópicas em 2011. Os especialistas lembraram que esses países são importantes produtores, exportadores e importadores de drogas.


Cocaína apreendida


Cocaína apreendida
Ainda em 2011, nove das grandes 14 apreensões de cocaína foram feitas no oeste da África. Quase metade da cocaína escondida em contêineres, transportados pelo mar, era proveniente do Brasil.

Segundo a JIFE, devido à posição geográfica com um litoral extenso, o Brasil tem dificuldade para implementar e fortalecer as leis contra o tráfico de drogas. Porém, a entidade aponta que o governo brasileiro tem se esforçado para combater o tráfico, utilizando aeronaves de segurança, contêineres e scanners.

Reabilitação
Os especialistas da ONU notaram ainda os esforços brasileiros para prevenir o uso de entorpecentes e estabelecer redes de reabilitação e tratamento. A Junta afirmou que os programas devem ser levados também ao sistema prisional. E lembrou que o País tem um problema grave com o abuso do crack.

As apreensões no Brasil da chamada cannabis herbácea aumentaram 12% no ano passado, se comparadas às operações de 2011. No total, foram 174 toneladas.

Já as apreensões de cocaína, em forma de sais, caíram em vários países sul-americanos, incluindo o Brasil.  A polícia brasileira apreendeu no ano passado 24,5 toneladas de cocaína em forma de sais e base, e mais da metade vinha da vizinha Bolívia. No geral, a prevalência do uso de cocaína na América do Sul permaneceu estável, em torno de 0,7%. Já no Brasil, esta média sobe para 2%.


Combate ao tráfico ilegal de drogas

Drogas Sintéticas
O UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) está preocupado com o aumento de drogas sintéticas em toda a América do Sul. Somente no ano passado, o Brasil apreendeu 259 mil comprimidos de ecstasy, 170 mil anfetaminas e 48 mil metanfetaminas.

O abuso de produtos farmacêuticos, tipo tranquilizantes e estimulantes, é classificado como um problema pelos especialistas. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo mostra que 7% dos brasileiros entre 19 e 59 anos já fumou maconha pelo menos uma vez, e mais de 60% deles antes de completarem 18 anos. 

Dos usuários de cannabis, 37% são considerados viciados. A legalização da maconha continua recebendo a oposição de três quartos da população brasileira.

Ainda na região, a JIFE mostrou-se preocupada com a notícia veiculada em agosto passado, de que o governo do Uruguai havia apresentado um projeto de lei ao Congresso para legalizar a produção e venda de cannabis no país, e o governo, neste caso, se encarregaria de regular as atividades de produção, venda e importação.

*por Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York


(apresentação de áudio: Edgard Júnior)
(fotos: UNODC; PNUD /Brain Sokol)
(conteúdo publicado em www.unmultimedia.org)



22 fevereiro 2013

POR FALA DOCE

Um pouco mais 
de delicadeza*



  
Lá em casa teve briga de cachorro. Duas fêmeas que estão em conflito, querendo cada uma dominar o território. Dentes e unhas de fora e eu no aperreio de apartar a briga, com cuidado para não sobrar pra mim. 

Elas são disciplinadas, obedecem aos comandos. Só que as duas querem ser Alfa. O cão Alfa é o líder da matilha, é o poderoso da história. É a referência para os outros cães do grupo, que obedecem e acolhem sua supremacia. 

Nem sempre a gente se dá conta da nossa animalidade. Nós, os animais humanos. Fomos metodicamente educados para a vida em sociedade e controlamos a exibição de nossas unhas e dentes para funcionarem como estandartes de esmaltes e sorrisos. 

E quando dá vontade de soltar os bichos presos? Partir pra cima do desafeto, como fazem os outros animais que nem são tão vorazes assim quanto os humanos?

Para isso, usamos as palavras e os silêncios. Quando as palavras têm como fonte um impulso raivoso e, se a pessoa não consegue filtrar o sentimento, a palavra é parida como insulto.

Ontem presenciei uma briga de trânsito. Um animal fechou a passagem do outro. O ofendido com a atitude Alfa saltou do carro, gritando seus insultos e os dois, em um piscar de olhos, estavam atracados num tear mais complexo de separar do que o dos cães. 

Segui meu rumo com a sensação de que só não presenciei uma tragédia porque felizmente nenhum deles portava arma de fogo.

Lembro que li uma referência sobre o primeiro homem a proferir um insulto contra seu inimigo, no estudo Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, de Sigmund Freud. Ao utilizar a agressão das palavras em substituição a agressão física, esse homem teria fundado a civilização. 

Como corre a vida, vou pedindo: um pouco mais de delicadeza, por favor. Avançamos tanto em tecnologia, dominamos o mundo de fora e desabitamos o mundo de dentro. Não conseguimos ainda governar a nós mesmos. 

Podemos recomeçar lapidando as palavras. Delicadas, polidas, fiéis, generosas, corajosas, gratas, justas, doces, amorosas palavras.

*Ana Valeska Maia Magalhães é professora universitária
(imagem em http://media.mercola.com)

18 fevereiro 2013

RESILIÊNCIA NATIVA

Jovens indígenas ajudam 
a proteger suas raízes*

Indígenas de Chiquimula trabalham na elaboração de uma corda extraída do agave



Jovens de diversos povoados indígenas se envolvem em iniciativas para evitar que suas respectivas comunidades sigam pelo caminho do desaparecimento e para coexistirem com outras culturas em um mundo cada vez mais globalizado. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima em 370 milhões o número de indígenas vivendo em comunidades, localizadas em centros urbanos, reservas ou no meio do caminho entre ambos.

Estes povos sofrem os mesmos problemas que outras comunidades carentes de direitos, como pobreza, falta de educação básica, elevado desemprego, altas taxas de criminalidade e falta geral de acesso aos serviços públicos e a recursos. Mas há outros assuntos que são únicos da experiência indígena, como separação forçada de suas terras ancestrais, perda de sua língua e histórias de injustiça, exclusão social e violência que levaram à sua marginalização.

Em 2000, foi criado o Fórum Permanente para as Questões Indígenas, no qual um comitê de especialistas, designados por governos e organizações indígenas da sociedade civil, discute os assuntos fundamentais e recomenda ações ao sistema das Nações Unidas. Este ano o Fórum destaca o papel dos jovens indígenas como líderes comunitários e já houve em janeiro um encontro entre representantes de sete regiões para compartilhar sua visão com membros desse órgão e organizações relacionadas.

Os sete jovens coincidiram em sua preocupação pelo rápido desaparecimento das línguas indígenas, vitais para a unidade cultural. O Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que no mundo desaparece uma língua a cada duas semanas. Os sistemas educacionais têm um papel histórico no desaparecimento das línguas indígenas, às vezes forçando sua extinção por meio de castigos e humilhações severos contra meninos e meninas por falarem sua língua-mãe, ou por expressar de alguma forma sua identidade étnica.

Na tribo anishinaabe de Andrea Landry, no Canadá, só resta uma anciã que fala fluentemente sua língua ancestral. Aos 80 anos ainda não superou a vergonha por falar seu idioma, que lhe foi inculcada quando menina, o que deixou mais complicado compartilhá-la com as gerações mais jovens. Landry, representante da América do Norte, coincidiu com muitos de seus companheiros no encontro quanto à responsabilidade do Estado em ter oferecido uma educação bilíngue nas escolas onde havia crianças indígenas, mas que a quantidade de línguas dificultou a implantação da medida.

Implantar programas no âmbito comunitário por meio de organizações da sociedade civil seria uma boa alternativa, sugeriram os jovens. Também se mostraram todos preocupados pela falta de consciência e pela tergiversação de sua história, cultura, e situação atual. Todos concordaram que os sistemas educacionais deveriam ensinar sua história e a diversidade social com mais cuidado e exatidão.

Landry contou à IPS que, quando fazia seu mestrado em comunicação e justiça social, ficou surpresa pela falta de material sobre questões indígenas. Tentou preencher as falhas com material complementar, mas argumentou: “Não sou eu quem tem de ensinar estas coisas”. Steven Brown, representante das nações tribais bundjalung e yuin, na Austrália, expôs sua preocupação pelos estereótipos negativos que são difundidos em lugar de uma compreensão real dos povos indígenas.

Em algumas comunidades, onde muitas pessoas só falam sua língua ancestral, ocorrem outros problemas: acesso à informação importante sobre cuidados com a saúde, oportunidades de emprego, direitos legais e serviços públicos. O representante da tribo de caçadores-coletores batwa, em Uganda, Niwamanya Rodgers Matuna, deu um exemplo à IPS sobre como a falta de informação sobre os medicamentos e seu uso adequado na língua materna de seu povo fez seus membros não confiarem em remédios que não os seus tradicionais e rapidamente parecem perder eficácia.

O uso inadequado e a má qualidade dos antibióticos fizeram com que as doenças desenvolvessem resistência, fenômeno que se torno problemático em países pobres, mas que pode ser combatido com a melhoria do acesso à informação dos destinatários dos medicamentos. A representante da Ásia, Meenakshi Munda, da comunidade munda, na Índia, disse que não quer que seu povo se torne dependente da ajuda estatal, nem da internacional.

Os indígenas, e em especial os mais jovens, sabem que aprender outras línguas é uma necessidade para colaborar com pessoas de outros meios em ambientes acadêmicos e profissionais. Muitos deles, na verdade, se beneficiaram por saber muitas línguas e dos intercâmbios com outras pessoas. Porém, acreditam que esse processo de aprendizagem pode e dever ser um intercâmbio entre iguais e não necessitar da subjugação de um povo ou a eliminação de sua cultura ou história.

O mundo tem muito que aprender sobre o estilo de vida dos povos indígenas. Apesar de haver uma grande diversidade entre eles, compartilham ideias centrais que a maioria das sociedades modernas não tem. A ideia mais significativa talvez seja o enorme respeito que têm pela terra e a profunda ligação com o território onde vivem. “Temos uma relação com a terra, é um ser vivente. Não se trata de tomar, tomar, tomar. Damos à terra e ela nos dá”, explicou Landry.

Além disso, os povos indígenas conservam um enorme respeito pelas pessoas mais velhas e por tudo o que possui a sabedoria do tempo. Para alguns é difícil compreender a importância de proteger as culturas indígenas enquanto ancestrais das civilizações modernas. No entanto, Matuna, citando um provérbio africano, diz: “Um rio que esquece sua fonte, logo seca”. 


*por Marzieh Goudarzi / IPS. Foto: Danilo Valladares / IPS
(conteúdo publicado em http://mercadoetico.terra.com.br)


15 fevereiro 2013

BENEFÍCIO SOCIAL

Estudar faz pessoas serem
mais felizes e viverem mais*




Estudo recente sobre aspectos da educação mostra que quem estuda mais tende a ser mais feliz e ter uma expectativa de vida maior. O levantamento What are the social benefits of education? (Quais são os benefícios sociais da educação?, em tradução livre) foi produzido pela OCDE-Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e realizado em 15 países-membros da organização -- da qual o Brasil não faz parte. 

“A educação ajuda as pessoas a desenvolver habilidades, melhorar a sua condição social e ter acesso a redes que podem ajudá-las a terem mais conquistas sociais”, dizem os autores da pesquisa.

Segundo o estudo, as pessoas que estudam mais são mais felizes porque tem maior satisfação em diferentes esferas de sua vida. Esse nível de satisfação pessoal é de, em média, 18% a mais para que têm nível superior em relação àquelas que pararam no ensino médio.

Em relação ao aumento da expectativa de vida, o estudo mostra que um homem de 30 anos, por exemplo, pode viver mais 51 anos, caso tenha formação superior, enquanto aquele que cursou apenas o ensino médio viveria mais 43, ou seja, oito anos menos. Essa disparidade é mais acentuada na República Tcheca, onde os graduados podem viver 17 anos a mais. Já os portugueses, asseguraram a diferença mais baixa, apenas 3.

O estudo, divulgado no fim do mês passado, encerra a Education Indicators in Focus, série composta por 10 estudos, apresentados ao longo de janeiro de 2012 a janeiro de 2013, que destacam diferentes aspectos educacionais avaliados da educação básica ao ensino superior. 

Entre eles, como a crise global afeta as pessoas com diferentes níveis de escolarização, quais países estão dando suporte ao acesso ao ensino superior e qual a variação no número de alunos ao redor do mundo.

Os interessados em acompanhar as pesquisas podem acessá-las gratuitamente on-line em três versões: Inglês, Espanhol e Francês.No caso das mulheres, a diferença não é tão acentuada: a expectativa média de vida é de quatro anos a mais para as universitárias. À frente desta tabela estão as nascidas na Letônia, que vivem quase nove anos mais do que suas compatriotas que interromperam os estudos no antigo segundo grau.

“Os políticos devem ter em conta que a educação pode gerar benefícios sociais mais amplos desde que haja mais investindo em políticas públicas.”

Em outro capítulo desse mesmo levantamento, realizado com um grupo de 27 países, a OCDE chegou à conclusão de que 80% dos jovens com ensino superior vão às urnas, enquanto o número cai para 54% entre aqueles que não têm formação superior. Os adultos mais escolarizados também são mais engajados quando o assunto é voluntariado, interesse político e confiança interpessoal. 

“A educação tem o potencial de trazer benefícios para as pessoas e para as sociedades, e isso vai muito além da contribuição para a empregabilidade dos indivíduos ou de renda”, afirmam os autores da pesquisa, que enfatiza ainda a importância do Estado. “Os políticos devem ter em conta que a educação pode gerar benefícios sociais mais amplos desde que haja mais investimento em políticas públicas”.

Sala de aula
Nos países da OCDE, a quantidade média de alunos em sala de aula é de 23, embora o número varie de acordo com cada país. Na Coreia e no Japão chega a 32; enquanto na Eslovênia e Reino Unido não passa de 19 por classe, segundo mostra o estudo How Does Class Size Vary Around the World? (Como o tamanho da sala de aula varia ao redor do mundo?, em tradução livre), divulgado em novembro de 2012. 

A pesquisa mostra que entre 2000 e 2009 muitos países investiram recursos adicionais para diminuir o número de estudantes em sala de aula, no entanto, o desempenho melhorou em apenas alguns deles. “Reduzir o tamanho da turma não é, por si só, uma alavanca política suficiente para melhorar o rendimento dos sistemas de ensino, mas, sobretudo, priorizar a qualidade dos professores em relação ao tamanho da classe”, aponta a pesquisa.


(conteúdo publicado em http://porvir.org)
(imagem em http://3.bp.blogspot.com)



12 fevereiro 2013

LER E CULTIVAR

Biblioteca nos EUA
além de livros,
empresta sementes*




Os envelopes de sementes são etiquetados com
informações do conteúdo e o nome do produtor

Sair de biblioteca apenas com livros e CDs é coisa do passado na Biblioteca Pública de Basalto, no Colorado, Estados Unidos. O local adicionou um banco de sementes à sua coleção de meios de comunicação. 

Os visitantes, além de usufruírem de uma boa leitura, também podem virar produtores de frutas ou legumes e de novas sementes que devem voltar ao local de origem.

Para participar é simples. O leitor adquire o pacote de sementes e planta. Quando o vegetal cresce, é só colher as sementes e devolvê-las à biblioteca para que outras pessoas possam usá-las.

Ação de caráter colaborativo amplia acesso às espécies vegetais

As sementes são armazenadas em envelopes com etiquetas que descrevem informações da fruta ou vegetal, e o nome do produtor, no intuito de dar crédito às pessoas que se esforçaram no cultivo.

Segundo a American Library Association, existe pelo menos uma dúzia de programas semelhantes em todo o país. Para a diretora da biblioteca, Barbara Milnor, o local pode parecer estranho para o projeto, mas é "uma ótima solução para ampliar o acesso de sementes e plantas à população", afirmou no portal NPR.

Já para a frequentadora Stephanie Syson, a biblioteca tem sido um lugar onde a filha aprende. As sementes adicionaram apenas mais uma nova lição.


(*conteúdo publicado em  www.ecod.org.br)


01 fevereiro 2013

AME-O OU DEIXE-O!!!

(meu Brasil brasileiro)
De Amadores & amadores*








E lá vou eu palestrar mais uma vez para uma grande empresa, mais de mil pessoas na platéia. Chego ao maravilhoso teatro com três horas de antecedência, para não dar margem a erros, e vou direto testar o equipamento. 

Começo a ficar preocupado quando vejo a quantidade de gente da "equipe técnica". Garotos e garotas, felicíssimos com seus intercomunicadores. A cada pergunta, um "isso é com o fulano", "isso é com a fulana"... e chama no rádio. 

Tenho que esperar o teste da orquestra, que atrasou. O tempo passando, e nada. Quando me chamam, pedem desculpas, mas só o som poderá ser testado, pois estão com um problema no projetor etc e tal. Falta pouco mais de uma hora para o início do evento. Faço o que é possível e, sem testar a imagem, me retiro para o camarim onde fico sozinho, lendo, num estado zen, me preparando para arrasar.

Eu estava trabalhando neste texto quando aconteceu a tragédia de Santa Maria. Acho que esta reflexão ganha mais importância ainda.

Começa o evento, eu ouvindo o som abafado, e a coisa vai atrasando. Quarenta minutos de atraso e soltam a turma para o café. Eu entro depois do café. Uma menina esbaforida vem me chamar, estão precisando de mim no palco. Vou correndo. O computador não compartilha a imagem com o telão. Eu arrumo. A imagem está distorcida. Eu mexo nas configurações e nada muda, é claro que o problema é no projetor. E então ele vem... O técnico. 

Amador. Um garoto com seus 27 anos de idade. Eu olho de longe e o vejo chegando até meu laptop com dedos de ogro. Frio no estômago. E lá vai ele, mexer nas configurações como eu havia feito. Não adiantou eu dizer que já havia feito, ele faz de novo. E não resolve. Chamo o chefe dele. 

Amador. Mostro o problema, dou a dica do que pode ser e então vejo a expressão de “numsei”. Vou reduzindo o ritmo e volume da fala aos poucos, diante da expressão que deixava claro que nem o técnico, nem o chefe do técnico sabiam como arrumar a encrenca. 

Eram amadores. E o café terminando. Não há tempo de fazer mais nada. Meu “estado zen” foi pro saco.  Resultado: a palestra no evento milionário, com iluminação milionária, cenário milionário e equipe milionária, tem uma projeção de merda.

Eu sou um amador em tudo o que faço. Palestro como um amador, escrevo como um amador, produzo meus vídeos como um amador. Mas amador não no sentido pejorativo e sim no de que amo o que faço. Faço com amor. 

Com paixão. E quem ama uma coisa, quer saber mais sobre ela, se aperfeiçoar, aprender, melhorar. Até virar amador profissional...

É impressionante a quantidade de amadores que encontro que, de posse de ferramentas ou métodos, se acham capazes de cumprir qualquer tarefa. Não é assim. Ferramentas e métodos nas mãos de quem não sabe o que fazer com eles são mais que inúteis. São perigosos. 

E vira-e-mexe me pego discutindo com o amador, o sabe-tudo, sobre um problema que já enfrentei antes. Mas sabe como é, não sou o técnico...

Quando o amador é consciente de sua ignorância e tem a humildade de ouvir as sugestões de alguém que pode, veja bem, eu disse pode, dar alguma luz, é possível transformar um problema em aprendizado. 

Mas quando o amador não tem consciência – e às vezes se orgulha!  de sua estupidez, só existe conflito. E de quando em quando, uma tragédia.

O Brasil é a República dos Amadores. Daqueles.



*o jornalista Luciano Pires é um observador atento 
da fuleiragem que ronda & assola o País, como 
mostra no livro Brasileiros Pocotó e no seu Melô do 
Pocotóaproveitando uma levada jamaicana relida em
1956 pelo showman norteamericano Harry Belafonte

SAIBA MAIS
www.portalcafebrasil.com.br

www.youtube.com/watch?v=Lk3arpNy0tQ




08 janeiro 2013

DAPRAIA COMIC RELIEF

Riso fácil é...
mangação!


Uma hilária sequência de amostras do
trabalho de 4 feras do traço cearense!


1) GUABIRAS
Meu filho Luís: vida pelus óio!
Uma parada animalesca!



2) DENILSON ALBANO


História da evolução da Terra


Pressão e possibilidades




3) JEFFERSON PORTELA








4) NEWTON SILVA
Após as eleições...





Foco parlamentar



VEJA MAIS
blog.opovo.com.br/blogdoguabiras
denilsonalbano.blogspot.com
blogsivirino.blogspot.com
newtonsilva.blogspot.com




25 dezembro 2012

LOST TAPES FOUND

The Beatles in Melbourne, Australia


Esta apresentação ao vivo dos "Fab Four" realizada em 1964 na Austrália é um verdadeiro "achado" -- hoje aqui, um grande presente de Natal. As canções utilizadas para fazer este concerto foram apenas recente e plenamente divulgadas (em 2004): andavam "perdidas". Os textos do vídeo trazem estas e outras informações.

Mas agora podemos saborear o visual restaurado e remasterizado desses momentos de nua & crua Beatlemania, com a musicalidade das bandas que abriram o show e o aparato artístico à época em que estas performances ocorreram. Parece que foi ontem, um tempo em que ainda não se haviam popularizado os jeans, as T-shirts e os tênis... 

Enjoy!







29 novembro 2012

"FAÇA O MELHOR QUE PUDER"

Decisões morais*




É uma da tarde, e você dirige uma caminhonete pelas ruas de São Paulo. De repente, você esbarra num carro parado; ao lado dele, dois motoqueiros; um dos dois enfia seu braço armado pelo vidro do motorista do carro; o assaltante ameaça e grita, ele pode atirar a qualquer momento, quer seja porque não estão lhe entregando o que ele pediu, quer seja porque não gostou do que lhe foi entregue, quer seja porque, simplesmente, ele está nervoso e a fim de matar.


Atrás de você e da cena do assalto, só buzinam os mais afastados, que não enxergam o que está acontecendo. Os mais próximos ficam paralisados, divididos entre o medo e a vergonha por não reagirem e por serem cidadãos de um lugar onde isso é possível e corriqueiro.

Você está na posição ideal para pisar fundo e atropelar os dois meliantes, antes que atirem ou que fujam, ganhando, mais uma vez, dos assaltados e de todos nós.

Você não vai acelerar. É por medo de que o assaltante evite seu carro e acerte você com um tiro? É por preguiça de se envolver com polícia e investigação? Ou receia que cúmplices e familiares dos criminosos se vinguem?

Tudo bem, imaginemos que seja noite funda: não há ninguém, só os assaltantes, os assaltados e você. Ninguém verá nada. Ainda assim, você não vai acelerar?

Talvez prevaleça em você a inibição que paralisa a muitos na hora de machucar um semelhante, mesmo odioso. Ou talvez você queira agir "segundo a lei". Mas você sabe que a lei contempla e admite a "legítima defesa de terceiro"? Tudo bem, sua única obrigação jurídica é acionar a autoridade competente: fique no seu carro e ligue para a PM, uma viatura chegará a tempo para interromper o assalto e proteger os assaltados -não é verdade?

Ok, você hesitou demais, um dos assaltados acaba de ser baleado. Juridicamente, você não tem responsabilidade por não ter agido. A lei não exige de ninguém que seja herói. Mas será que isso é verdade também da moral? Você vai dormir tranquilo?

Outro dilema. Agora, imagine que, exatamente na mesma cena, você seja o assaltado. A caminhonete do dilema anterior apareceu, atropelou os assaltantes e sumiu. O bandido para quem você entregou sua bolsa está no asfalto, numa poça de sangue. Você faz o quê? Chama uma ambulância e espera para dar depoimento? Ou recupera o que lhe foi roubado e vai embora?

Já escrevi aqui mais de uma vez: admiro a teoria dos estágios do pensamento moral, de Lawrence Kohlberg. Resumindo, com nosso exemplo: é inútil querer decidir se é mais moral jogar a caminhonete para cima dos ladrões ou se esconder atrás do volante.

O que importa é a razão de nossa escolha. Se decidirmos por medo da punição, por conformidade ou mesmo por respeito à lei, nossa conduta será moralmente medíocre. Se decidirmos segundo o que nos parece certo, em nosso foro íntimo, nossa conduta -seja ela qual for- será de uma qualidade moral superior.

Mais uma coisa: Kohlberg também mostrou que a gente não melhora moralmente à força de memorizar valores ou exemplos a seguir, mas destrinchando dilemas e ponderando como e por que agiríamos de uma maneira ou de outra.

Os dois dilemas que acabo de expor são extraídos de um filme excelente, que não me sai da cabeça, Disparos, de Juliana Reis, em cartaz desde sexta passada.

"Disparos" acontece no Rio, embora seu roteiro seja, hoje, mais paulistano do que carioca. De qualquer forma, não perca o filme e não fuja do debate íntimo sobre o que você faria numa situação parecida (até porque as chances de viver uma situação parecida aumentam a cada dia).

O Senado acaba de incluir disciplinas de ética no currículo do ensino fundamental e médio. Espero que se evite a monumental estupidez de ensinar ética normativa, ou seja, de querer enfiar valores em nossas crianças -goela abaixo, como se fossem partículas consagradas.

Para crianças como para adultos, "aprender" ética significa aprimorar a disposição a pensar moralmente, ou seja, a capacidade de debater, em nosso foro íntimo, os enigmas complexos (e, muitas vezes, insolúveis) que a realidade nos apresenta. Como disse, essa disposição só melhora à força de encarar dilemas.

Sem esperar o mais que provável desastre do novo curso, podemos ir (e levar nossos adolescentes) ao cinema. Disparos é um filme perfeito para pesar a complexidade da vida urbana no Brasil, ou seja, para pensar o que significa sermos morais hoje, aqui, no lugar em que estamos vivendo.



*o psicanalista italiano Contardo Calligaris é Doutor em Psicologia Clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School (NY, USA) e foi professor de Antropologia Médica na Universidade da Califórnia em Berkeley (CA, USA). Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo -- as patológicas e as ordinárias. Texto publicado na versão impressa do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo (www1.folha.uol.com.br). (imagem por iga.com em http://videogamecritic.net)






14 novembro 2012

O SOM DO FEELING

Overdose sonora

Jeff Beck exibe garra, destreza e timbres muito pessoais. Este guitarman é, ao lado de Jimmy Page e Eric Clapton, o responsável pela alta qualidade e experimentalismo do Rhythm & Blues procedente da Grã-Bretanha há cerca de 40 anos.







VEJA MAIS
http://uwall.tv





12 novembro 2012

CIÊNCIA & CONSCIÊNCIA ANIMAL

Descoberta aquece debate*

O grau de humanização de uma sociedade pode ser
medido pela forma como nela são tratados os animais


   
As confusões reinantes no planeta por conta de guerras e crises financeiras tiraram de foco um importante manifesto lançado, há duas semanas, por neurocientistas, alertando para confirmações de pesquisas que apontam a existência de graus de consciência —mais do que os suspeitados— em animais. As implicações de tais resultados poderão revolucionar a forma como os humanos veem e se relacionam com os animais.

A prova de que não se trata de sensacionalismo está na respeitabilidade de instituições envolvidas na pesquisa – tais como os institutos de tecnologia Caltech, MIT e Max Planck. A eles pertence o grupo de neurocientistas responsável pelo manifesto no qual se afirma que o estudo da neurociência evoluiu de modo tal que não é mais possível excluir mamíferos, aves e até polvos do grupo de seres vivos que possuem consciência. 

A declaração está sendo encarada como um possível marco divisor na forma como o pensamento filosófico e o pensamento político encararam a questão dos animais até agora.

Tais conclusões reforçam a luta pelos direitos dos animais. O racionalismo ocidental havia quebrado a respeitosa visão originária das antigas tradições em relação aos bichos. No entanto, no próprio Ocidente, a evolução da doutrina dos direitos fundamentais levou à incorporação também de outros seres vivos, além dos humanos. 

Hoje, não é possível conceber o Estado Democrático de Direito sem incluir uma legislação protetora dos animais. É a base para se combater a crueldade contra eles.

Por isso, o grau de humanização alcançado por uma sociedade pode ser medido também pela forma como nela são tratados os animais. O combate à crueldade deve ser feito não só pela repressão, mas, sobretudo, pela educação. 

Em certas áreas rurais, por exemplo, considera-se natural a tortura empregada por crianças e adolescentes contra animais silvestres e domésticos. Isso embota a qualidade da compaixão e cria as condições psicológicas para a violência contra o próprio ser humano.

Que esta nova descoberta da ciência sirva para remover tal deformação cultural e melhorar a legislação e as formas de tratar os animais, inclusive, os meios de abate dos que são sacrificados para servirem de alimento ao bicho homem. Até que um dia, quem sabe, o próprio abate possa ser dispensado para sempre.


(Editorial publicado em www.opovo.com.br)
(imagem em petshopandmore.com)



10 novembro 2012

DESPEDIDA

Mudanças*



Mais uma semana começa sem alarde, discreta, iniciando seu ciclo igual a todas as semanas de sempre. E minha vida também parecer recomeçar com ela, pois assim caminha, descaminha a humanidade em qualquer lugar desse mundo velho sem porteiras nem fronteiras. Certamente, se o inesperado não mostrar a sua cara, todos os dias decorrerão tão rotineiramente semelhantes feito irmãos gêmeos e o tédio será, sem dúvida, minha companhia mais frequente. Nada poderei fazer para mudar tal estado de coisas. 

Só me restará seguir, acompanhar obediente o marchar do resto do rebanho a batalhar, sem descanso, pela sobrevivência. Raros homens estão libertos desse cotidiano, esmagador destino. Dessas obrigações, desses compromissos dos quais é impossível escapar, fugir, desde que Adão e Eva foram expulsos injustamente do terrenal paraíso por um locador de maus bofes. E eu, que sonhava tanto, quando moço, em ser um sujeito completamente livre, preocupado apenas comigo mesmo e ninguém mais. Entretanto, a juventude nos dá esse direito de sermos tolos e ingênuos, preparando a alma para suportar, mais tarde, o terrível peso da realidade.

Claro que a vida, embora seus pesares, indubitavelmente vale a pena de ser vivida. Não profiro aqui nenhuma novidade. Tampouco besta não sou de pensar o contrário, porque se assim o fosse, de há muito já teria dado cabo da minha por desespero e desencanto totais. Por maiores e mais graves que sejam os problemas que nos afligem, nos atormentam, roubam descaradamente o nosso sono, existe sempre um jeito de resolvê-los, de encontrar uma solução, uma saída de uma maneira ou de outra, por bem ou por mal, quer nos custe mais ou menos. 

Ou então, na pior das hipóteses, de conseguir atenuá-los do melhor modo possível que esteja ao nosso alcance. Nada é definitivo. Tudo é circunstancial, deletério, provisório, assim acredito. Para quem já esteve perto da morte e viu, de vislumbre, a sua assustadora carantonha como eu, a vida passa a possuir um valor de imensidão desmesurada. Aprendi, com tal aterradora experiência, a procurar viver intensamente um dia de cada vez, preso a cada momento, a cada instante do tempo presente, do aqui e agora, despido de preocupações quanto ao futuro, pois sei que ele chegará impreterivelmente, pontual como um cobrador, ao meu encontro. Enquanto o amanhã não acontece, somente o hoje me importa, interessa, faz parte do meu show, seja ele alegre ou triste, me mostre uma cara simpática ou me exiba um sardônico sorriso.

Há gente que escolhe viver à moda peru de Natal, morrendo de véspera, cingido pelo abraço doentio da ansiedade. Já fui assim nas antigas quebradas do meu existir. Se as coisas não ocorriam como eu as havia planejado, costumava armar uma tosca tragédia de circo mamulengo. Mergulhava de cabeça numa cava depressão e a vida perdia, então, todo e qualquer sentido. Em verdade, comportava-me qual um adolescente mimado quando meus desejos e quereres eram contrariados, sem dar-me conta que me tornava um chato insuportável para todos aqueles que comigo conviviam dentro e fora de casa. Faltava-me senso de humor suficientemente capaz de me fazer rir das minhas próprias desgraças e desditas. E sem senso de humor, até uma prosaica topada num paralelepípedo assume ares de uma tremenda catástrofe. 

Pronunciava a palavra "azar" por qualquer dá-cá-aquela-palha, sem perceber que a má-sorte sempre atende a quem a chama, a invoca com imbecil assiduidade. Custei a aprender a viver, mas fui forçado a adquirir esse demasiado necessário aprendizado, que diferencia os homens dos meninos na hora da onça beber água. Disse, uma vez, o poeta Torquato Neto: “Levem um homem e um boi ao matadouro. O que berrar primeiro é o homem, mesmo que seja o boi”. A velhice e o sofrimento podem não nos tornar mais sábios, mas nos ensinam a compreender que as coisas são como são. Algumas podem ser por nós mudadas e outras, não. As coisas estão no mundo, só que é preciso aprender.

Hoje, a minha tolerância ficou mais elástica, inclusive para com a burrice alheia. Claro que não desenvolvi a infinita paciência de um monge trapista, porém deixei de correr continuamente o risco de morrer de raiva, de um ataque de apoplexia, enfurecido por qualquer besteira. Findei por descobrir a verdade mais simples de que não posso controlar tudo aquilo que acontece ao meu redor, a falar menos e escutar mais, tornar-me mais flexível em minhas opiniões, mantendo, entretanto, a rigidez dos meus princípios éticos. Até chego a levar, como não fazia dantes, desaforo pra casa, desde que não me sinta profundamente ofendido nem desrespeitado, porque aí o negócio muda de figura e minha reação é do tamanho ou maior que a ação. 

Meu sangue continua quente, contudo aprendi como esfriá-lo nos momentos em que se faz preciso tentar resolver os conflitos usando a calma de um pacifista. Manter a tranquilidade tornou-se uma arte que busco exercitar todos os dias e vi que minha vida melhorou bastante em qualidade. Sei que inda falta muito o que aprender na dura escola do existir, porém procuro ir me transformando em um aluno bem comportado — mas não tanto que termine por virar covarde e saia correndo, rabo entre as pernas, diante dos insultos e ameaças alheias.

*O médico-psiquiatra Antônio Airton Machado Monte, poeta do cotidiano que publicara textos 
no Jornal da Praia já nos anos 1980, deixou-nos em 10/09 passado. Deus o guarde, cronista