29 janeiro 2010

DESGLÓRIAS VÍVIDAS

Antes que a chuva*



(I - Da Temporada 2010)
Férias, sol, suor e cerveja: alegria na cidade! Está aberta a nova temporada de caça ao turista.

O taxista engrena três meninas novas no pedaço, combinam porcentagens, discutem locais... o porteiro do hotel da Beira-Mar, do motel da Parangaba e da quitinete no Centro concordam com os índices. Os pais das meninas também.

Os restaurantes confeccionam novos cardápios, sempre com alguns números a mais.

Os meninos doiradinhos de sol descem o morro, canelas secas e ligeiras atrás do "gringo velho" que desapareceu no Novo México -- e, dizem, reapareceu em Iracema.

Os sujeitos das vans caçam vítimas: "Atenção, senhor! Três praias por 80 réis..."

Buggies assassinos esperam novas vítimas. Enquanto isso, cavalos, burros e jumentos cagam na onda branquinha.

O paredão de som ameaça com o "mais novo sucesso" da axé music e do forró eletrônico.

Três novos garçons foram contratados na barraca. Os olhos vermelhos miram câmeras e celulares.

No velho teatro, pseudo-humoristas desenferrujam velhas piadas, bufônicas, histriônicas e carregadas de preconceitos. Sacaneiam o carequinha, o gordito, o branquelo... arrancam o riso a fórceps.

Fecham o velho turismo nosso dos "três PPP": Praia, Prostituição Infantil e Piada de Mau Gosto.

"Está aberta, senhores, a nova temporada de caça aos turistas. Mas por favor, não os assustem, para que voltem! Vivos!"


(II - De paradidáticos)
E depois da famigerada corrida às compras de Natal e Ano Novo, os esfomeados comerciantes já afiam novamente suas garras, por trás dos mil livros escolares...

Além, os primos-pobres ensaiam sadismos, entre as árvores da Praça dos Leões.

— Olha aqui, freguês! Me mostra sua lista! Aqui a gramática novinha, já com o novo acordo ortográfico... Não tá riscada!... Custa 80 paus na livraria...

O "freguês" se esquiva do vendedor, do trombadinha e vai atrás do Papai Noel, que cortou a barba e é especialista em paradidáticos...

Quando se sente segura, telefona para o marido. "É melhor comprar no colégio, dividido em seis vezes..." Não chegam a um acordo e ela sai apressada, arrastando o menino e três sacolas cheias na direção do Passeio Público.


(III - De Pré-Carnavais)
Ano bom que se preze só se inicia depois do Carnaval, o meu apenas após a Semana Santa. E olhem lá!!!

E uma das desculpas preferidas do cearense é a de que "o Carnaval não, mas o Pré-Carnaval aqui é ótimo". Lenda urbana, igual à da Perna Cabeluda (que é de Recife), a Loira do Banheiro e a recente "Railux Preta".

(Aliás, somos pródigos em lendas urbanas, as mais variadas e nocivas possíveis: a de que o turismo beneficia a todos, a de que temos por aqui futebol, a de que a cidade é bela... e outras mil mais.)

Pois bem, se o Carnaval em três dias (?) já incomoda meio-mundo, imaginem os diversos pré-carnavais em cada canto desta nossa desvalida loirinha desvirginada pelo sol.

Do Periquito da Madame ao Vai dar o Carlito, do Cachorra Magra ao Rosca de Chifre do Zé Walter, do Num Ispaia senão Ienche, do Luxo da Aldeia ao finado Quem é de Bem Fica.

E tomem marchinhas mal-tocadas pelos ouvidos afora, e tomem fedor de mijo pelas calçadas semana adentro, e tomem cerveja quente pelo fígado alheio, e tomem "saidinhas" de blocos pelas ruas adjacentes...

E tomemos nós, insossos fortalezenses, barulhos sem-fim pelo mês de janeiro em diante...

E tomemos, nesse andor todos nós, no...



*Pedro Salgueiro constroi contos e crônicas e enreda palavras (de amor) à capital cearense como só ele sabe


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www.revista.agulha.nom.br/psalgueiro6.html

www.bestiario.com.br/16_arquivos/mestre%20resenha.html

20 janeiro 2010

A TERRA & A HUMANIDADE

Comunidade de destino*



Temos que começar o ano com esperança: urge fazer frente ao clima de revolta e frustração que significou a COP 15 de Copenhague.

Seguramente, o aquecimento global comporta graves consequências. Numa perspectiva mais filosófica, o fenômeno não se destinaria a destruir o projeto planetário humano. Mas, vem, porém, obrigá-lo a elevar-se a um patamar mais alto, existir concretamente: do local ao global e do nacional ao planetário.

Se olharmos para trás, para o processo da antropogênese, podemos seguramente dizer: a crise atual -- como as anteriores --, não nos levará à morte, mas a uma integração necessária da Terra com a Humanidade.

Será a geossociedade. Neste caso estaríamos, então, face a um sol nascente e não a um sol poente.

Tal fato objetivo comporta um dado subjetivo: a irrupção da consciência planetária com a percepção de que formamos uma única espécie, ocupando uma casa comum com a qual formamos uma comunidade de destino.

Isso nunca ocorreu antes e constitui o novo da atual fase histórica.

Inegavelmente, há um processo em curso que já tem bilhões de anos: a ascensão rumo à consciência. A partir de geosfera (Terra) surgiu a hidrosfera (água), em seguida a litosfera (continentes), posteriormente a biosfera (vida), a antroposfera (ser humano) -- e, para os cristãos, a cristosfera (Cristo).

Agora, estaríamos na iminência de outro salto na evolução: a irrupção da noosfera, que supõe o encontro de todos os povos num único lugar -- vale dizer, no planeta Terra -- e com a consciência planetária comum.

Noosfera, como a palavra sugere (nous em grego significa mente e inteligência), expressa a convergência de mentes e de corações que dá origem a uma unidade mais alta e complexa.

O que, entretanto, nos falta é uma Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade, que coordene as consciências e faça convergir as diferentes políticas.

Até agora nos limitávamos a pensar no bem comum de cada país. Alargamos o horizonte, ao propor uma Carta dos Direitos Humanos. Esta foi a grande luta cultural do século XX.

No entanto emerge, premente, a preocupação pela Humanidade como um todo e pela Terra, entendida não como algo inerte, mas como um superorganismo vivo, do qual nós, humanos, somos sua expressão consciente.

Como garantir os direitos da Terra junto com os da Humanidade? A Carta da Terra, surgida nos inícios do século XXI, procura atender a esta demanda.


*Leonardo Boff é teólogo, escritor e professor universitário

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www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html

http://blogs.opovo.com.br/yoga/categoria/ecologia-e-paz

12 janeiro 2010

VIVENDO E (DES)APRENDENDO

Trogloditas corporativos*



Décio, um leitor antigo, me escreve desconsolado. Não aguenta mais o ambiente de trabalho. Tem 28 anos, um espírito criativo e uma inquietação próprios de pessoas que gostam de fazer acontecer.

Quando saiu da Universidade tinha planos de tornar-se executivo de uma grande empresa, o que acabou conseguindo. Trabalha numa multinacional de serviços.

Cresceu praticamente do zero, pois começou na empresa sete anos atrás, como estagiário. E aprendeu e realizou muito, até atingir o cargo de gerente, quando os problemas começaram.

Repentinamente viu-se retirado de um grupo de pessoas que passa o dia fazendo acontecer e foi transferido para outro grupo, o das chefias. Onde fazer política é mais importante que fazer acontecer.

E do dia para a noite, ele — que era um funcionário badalado e sempre motivado pelos chefes — viu-se jogado num mundo onde a lógica, a motivação e o "pensar pelo bem de todos" perdeu o sentido.

Décio repentinamente descobriu que estava lidando com um tipo de gente diferente, os que não fazem e não deixam fazer.

Suas argumentações técnicas deixaram de ter sentido diante do "sempre foi assim", "não se aplica ao nosso negócio", "para o bem dos acionistas" e outras frases prontas destinadas a torpedear qualquer idéia ou projeto que intimide os que preferem a zona do conforto.

Numa das reuniões, Décio viu-se aos brados com um diretor comercial que não queria a implementação de um projeto que ajudaria a área comercial. O argumento era um "isso não serve" vazio, apoiado no "achismo"...

Décio não demorou a transformar sua irritação em desilusão. Sua idéia havia sido bombardeada não pelos méritos técnicos ou incapacidade de inovar e trazer benefícios para a empresa, mas pelos interesses políticos que ela ameaçava. Era uma excelente idéia, mas vinha de "outro". Portanto, não era possível "deixar fazer".

Pois a situação do Décio é muito mais comum do que ele, eu ou você imaginamos. Eu topo todo o tempo com gente que "não faz e não deixa fazer". São "trogloditas corporativos", os piores males que qualquer empresa pode ter. São inimigos internos, gente que aparentemente está imbuída das melhores intenções mas, no fundo, apenas luta pela manutenção de suas posições de poder.

Para essa gente, qualquer idéia vinda de outra área é uma ameaça que precisa ser destruída. Afinal, pode dar certo e projetar o autor a um nível igual ou superior ao do ameaçado. É o jogo político corporativo, a verdadeira razão da maioria dos problemas que afligem as empresas.

Tem gente que diz que é ego. Outros dizem que é incompetência. Tem quem jure que é saudável e necessário.

Pois eu acho burro. Mas compreendo que esse jogo deve ter se iniciado dentro de uma caverna, milhares de anos atrás.

O mundo evoluiu, mas os trogloditas corporativos continuam sua missão de não fazer e não deixar fazer.

Pobre Décio.


*Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.



06 janeiro 2010

VACILOS E CAMELOS

O buraco da agulha*



Noite de 31 de dezembro. O telejornal saía do ar por alguns instantes para dar espaço ao intervalo comercial. A última imagem era a de dois garis que, abraçados, olhavam para a câmera da reportagem e desejavam a todos um "Feliz Ano Novo".

Por um descuido técnico, desses que já derrubaram ministros no auge do prestígio, o microfone do âncora permaneceu ligado. Enquanto a vinheta de passagem se movimentava na tela, em milhões de lares ouviu-se o comentário jocoso do repórter: "Que merda, dois garis, a escala mais baixa de trabalho, desejando felicidade!" -- foi o que disse Bóris Casoy.

Não foi um deslize ético porque o profissional não teve a intenção de se manifestar no ar, publicamente, mas o comentário é muito revelador sobre a visão de mundo de muitos que, absortos numa vida pautada por valores materialistas, se alienam do sentido essencial da vida.

Para pessoas como o repórter, só um alienado seria capaz de sentir alegria e cultivar esperanças vivendo nas condições modestas em que vivem os garis. Há quem, isolado pelos muros do conforto, mimado em seu universo de luxo excedente, perca a capacidade de perceber a beleza das coisas pequenas.

Aquele gari deve ter filhos, por exemplo, e a alegria de revê-los em casa, após uma jornada extenuante de trabalho, justifica existencialmente pelo menos uma parte de suas privações. Quem sabe a métrica com que se mede o amor? Não tenho motivos para considerar aquela uma alegria menor do que as minhas, que ganho o meu sustento de modo menos árduo.

Como eu, como você, aquele senhor que limpa as ruas torce por um time de futebol, visita seus pais aos domingos, tem amigos na rua onde mora e todos aqueles vínculos simbólicos e afetivos que aliviam o fardo da existência e alimentam o espírito -- com um significado sempre renovado para esse mistério que se chama Vida.

Extrair prazer das coisas simples é o tesouro dos pobres. Há neles uma demanda de realização humana que, de tão reprimida e negada, se mobiliza ao menor indício de gozo. Por isso, é tão fácil se perder desses vínculos gratuitos com a graça quando se alcançam as distrações do conforto.

É o "buraco da agulha", na metáfora do profeta nazareno.


*Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Imagem: Needle's Eye -- formação rochosa do Custer State Park, South Dakota, USA, em www.gdargaud.net --, sob a qual espreme-se o fio da Needle's Highway

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ricardofortaleza@uol.com.br

22 dezembro 2009

TUDO AO REDOR

Natal com Cristo



Seríamos todos verdadeiramente felizes se passássemos o Natal com Cristo. Preferimos inventar, no entanto, umas bobagens e enchemos a imaginação de nossos filhos com Papai Noel, veados, renas, trenós fantásticos, Polo Norte imaginado.

Escondemos a realidade que construímos em redor de nós, com seres humanos vivendo nas favelas em situações as mais indignas e humilhantes.

Sabe qual é o Papai Noel que mais admiro? Ele existe de verdade e não faz a barba, porque não tem dinheiro para comprar qualquer tipo de barbeador. Quando ele passa, segurando um cordão com seis caixas de sapatos, sem sapatos, para mim é o Papai Noel mais importante do mundo.

O mais galante. As senhoras o adoram quando ele deixa uma caixa vazia em frente às suas casas, na favela. Durante alguns dias, vão viver como seres humanos e não como bichos -- para falar melhor a verdade, como gatos.

No caminhão de lixo, ninguém jamais abre as caixas: "É o esgoto dos pobres" -- explicam os lixeiros veteranos aos funcionários novos.

No Brasil atual, brincamos com Democracia e Cristianismo. Não levamos os dois a sério. Os políticos em Brasília piedosamente deram-se as mãos e rezaram o Pai-Nosso pelo presente de Natal que a Democracia Brasileira lhes deu: as verbas roubadas.

Tempo de Natal! A Liturgia católica recomenda ler, neste ano, o evangelho de São Mateus. Você, católico relaxado, vai mesmo morrer sem jamais ter lido um evangelho da primeira à última página? São tão poucas folhas!...

Somente umas vinte! Não tenha a Eternidade para se arrepender...

Com Cristo, tenham todxs um feliz Natal de verdade. Contado por Mateus!


*O professor Roberto de Carvalho Rocha é diretor da Faculdade Christus em Fortaleza

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www.christus.com.br

14 dezembro 2009

PROPAGANDA ENGANOSA

Óleo: menos é melhor



Por que há toda esta preocupação com o óleo de cozinha usado, que é 100% biodegradável? Porque dá dinheiro e tem gente oportunista se aproveitando da falta de informação das pessoas para obter matéria-prima de graça. Será mesmo que elas estão preocupadas com o meio ambiente?

É contraditório, porque os mesmos que dão ênfase ao óleo de cozinha não se preocupam com o óleo que vaza dos motores de carros e caminhões: reparem, nas vagas de estacionamento, quanto óleo vaza do cárter dos veículos.

E quanto aos lubrificantes, que são descartados no ambiente de qualquer jeito? E quanto aos resíduos de óleo (filtros, peças quebradas e estopas encharcadas de óleo) das oficinas mecânicas, desovados em áreas preservadas? Estes resíduos é que poluem para sempre, já que não são biodegradáveis e afetam gravemente a saúde das pessoas e são cancerígenos.

O óleo de cozinha é um resíduo totalmente biodegradável e, se fosse tão terrível assim, não poderia ser usado como alimento. O volume que é lançado no esgoto não chega a ser mais do que um litro a cada 100 mil litros de esgoto. A própria água é um bom solvente de óleos vegetais. Por isso, nunca ninguém viu um filme de óleo de cozinha na estação de tratamento de esgoto, muito menos nos rios. O impacto de pasta de dentes, sabão, xampu, detergentes, produtos de limpeza em geral, resíduos de remédios e hormônios dos humanos é muito maior.

Para as pessoas, apenas um litro de óleo de cozinha usado não vale nada. Mas, para quem consegue juntar centenas de litros sem ter custos, vale bom dinheiro. Então, tudo o que precisam para conseguir matéria-prima de graça (e faturar) é de uma boa propaganda enganosa, de que as pessoas "ajudam o meio ambiente" se depositarem o óleo de cozinha usado em algum lugar.

Com este lucrativo negócio de obter matéria-prima a baixo custo, ou até de graça, estão proliferando indústrias químicas altamente poluentes para processar óleo de cozinha e transformá-lo em algo altamente nocivo para o planeta: em combustível, tintas e vernizes, substâncias que não se degradam nunca mais e que vão poluir mais ainda o planeta e agravar o problema do aquecimento global. Que ajuda para a natureza é essa?

A indústria que processa óleo de cozinha é uma indústria química como qualquer outra e requer, portanto, atenção especial dos órgãos de fiscalização ambiental. A transformação do óleo de cozinha em biodiesel, por exemplo, consome vários insumos (substâncias químicas) e gera resíduos altamente tóxicos e perigosos que necessitam de destinação especial, em locais devidamente licenciados para receber este tipo de material tóxico — e isso custa caro.

Nada contra as entidades assistenciais coletarem o óleo de cozinha para arrecadar fundos. Mas não é ético apelar para a questão ambiental, enganando as pessoas, ao dizer que elas "ajudam o meio ambiente" se depositarem o óleo usado. Porque, com certeza, não ajudam.

Trata-se de um apelo de marketing enganoso. Na verdade, as pessoas ajudariam o meio ambiente se diminuíssem um pouco o consumo de óleo de cozinha. O impacto considerável que o meio ambiente sofre é para produzir o óleo. Basta ver os índices de desmatamento batendo recordes sucessivos para plantar soja.

E, justamente, nessa questão mais crucial, neste momento em que vivemos, estas campanhas deixam a desejar, porque passam uma falsa ideia de que não há problemas em consumir à vontade o óleo de cozinha.

Ou seja, aliviam a nossa consciência e podem até estimular as pessoas a consumirem mais óleo de cozinha.


*Germano Woehl Junior é mestre em Física pela USP e doutor em Física pela UNICAMP, e um dos fundadores do Instituto Rã-bugio em Jaraguá do Sul/SC.

SAIBA MAIS
www.ra-bugio.org.br

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13 dezembro 2009

TEMPO NÃO PARA

Óbvio que subsiste


Constantemente sou convidado a falar para grupos de jovens em escolas, entidades e eventos específicos. É sempre uma experiência fascinante pegar pela frente uma platéia jovem, faminta por informação e questionadora.

Numa das últimas vezes, falei sobre minha experiência de 26 anos como executivo numa multinacional. Hoje como empresário, olho o universo corporativo sob um novo ponto de vista, que me leva a pequenas reflexões sobre o que vi e aprendi.

Achei que valeria a pena compartilhar algumas com você:

Se você é cliente e acha ruim ser tratado com desrespeito, espere até ser fornecedor. Você provavelmente será visto como um Zé qualquer, que sempre chega na hora inconveniente para roubar o tempo dos outros. E vai ter que esperar. Esperar que seu e-mail seja retornado. Que seu telefonema seja atendido. Que seu interlocutor o receba...

Todo mundo parece ocupado demais para ser educado. E-mails e telefonemas não são retornados. Reuniões têm o horário desrespeitado, mesmo que você venha de muito longe. E ninguém pede desculpas. Ficou tão normal ser mal-educado que quando alguém respeita as regras da educação, ficamos espantados! Comentamos, até! Não é uma inversão total de valores?

Que feio... Será preciso um livro japonês, um guru estadunidense, um processo alemão ou a ISO xis mil para que a educação volte a fazer parte dos relacionamentos profissionais?

Outro ponto: todo mundo está com medo. Medo do concorrente, medo de tomar decisões erradas, medo que as ações caiam, medo de perder o emprego. Houve um tempo em que esse medo era o gatilho que gritava: “mexa-se!” e fazia com que as pessoas criassem soluções.

Mas hoje é diferente. Alimentado pela insegurança, pela falta de autonomia, pela ignorância sobre o negócio, pela gritaria da mídia sensacionalista, o medo hoje é criado por gente que jamais se preocupou em preparar seus sucessores. Por sistemas criados para pulverizar as responsabilidades e os processos de tomada de decisão. Assim, o que antes era resolvido em uma semana agora leva seis meses. O medo que desafiava, agora só paralisa.

Mais um ponto: você pode ser um gênio, mas estar estúpido. Ser e estar. Se a genialidade é inata, a estupidez é uma condição. Ninguém deixa de ser inteligente ou genial. Mas todo mundo está propenso a praticar atitudes estúpidas. Somos todos bons em alguma coisa e ruins em outras. Reconhecer os momentos em que estamos estúpidos é o primeiro passo para atenuar os problemas. Mas quem é capaz de se reconhecer estúpido?

E por fim: neste Brasil do novo milênio parece que perdemos a capacidade de aprender com nossos erros. Os erros de hoje, que são os mesmos de 10, 20, 30 ou 100 anos atrás. Estão mais sofisticados, informatizados, teorizados e enfeitados. Mas são os mesmos erros de sempre. Será que ninguém aprende?

Boa educação, coragem, reconhecer nossas limitações e aprender com os erros.

No meu tempo, o nome disso era “obviedades”. Hoje, é “exceções”.


*o colunista Luciano Pires é profissional de comunicação, jornalista, escritor, palestrante e cartunista ("blah, blah, blah" por Mel Bochner)




15 novembro 2009

DAPRAIA FUNNY PAGES

Tiras siarences



Eita, mundo animal!














por Guabiras


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www.universohq.com



Eu, por mim mesmo e mais ninguém, em "Modelo Vivo"




















por Denilson Albano


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www.denilsonalbano.blogspot.com


Mungu - o palhacinho féla, em "Diga 'não' às drogas"











por Jefferson Portela


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www.tirasnacionais.blogspot.com







14 novembro 2009

SOM COM NOME PRÓPRIO

Cristiano Pinho



O guitarrista cearense Cristiano Pinho lança Cortejo (Ellemento / 2009), seu segundo álbum instrumental solo, em show no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema – Tel.: (85) 3488-8600), em Fortaleza, no dia 21 de novembro, sábado, às 21 horas.

O show contará com as participações especiais da cantora e compositora Kátia Freitas e do Maracatu Az de Ouro. Ao lado do artista, a banda formada pelos músicos cearenses Denilson Lopes (bateria), Miquéias dos Santos (baixo), Marcus Vinnie (teclados) e Jones Cabó (percussão).

A iluminação tem a assinatura do light designer Marcio Barreto, responsável pela iluminação de shows de artistas como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Raimundo Fagner, Gilberto Gil, Simone, Tim Maia, Cazuza e Elba Ramalho, entre outros.

O repertório do show traz composições do CD Cortejo e inclui músicas do primeiro álbum do artista, Pessoa (1997 / Independente), como Deserto e Amolando Faca, ambas de autoria de Cristiano, além de uma releitura para A Volta da Asa Branca (Zé Dantas / Luiz Gonzaga).

Antes, na quinta-feira, 19, Cristiano Pinho estará em noite de autógrafos na loja Desafinado (Av. Dom Luiz, 655 – Aldeota – Tel.: (85) 3224-3853), em Fortaleza. O evento acontecerá de 18h30 às 21h.

Cortejo faz o ouvinte passear, enternecida e vigorosamente, por baiões, maracatu, baladas e blues, executados com guitarras, rabeca, violões e viola portuguesa, numa espécie de síntese da experiência artística do guitarrista, misturando as influências mais remotas do menino do interior às suas vivências musicais urbanas.

O álbum teve as participações especiais dos cantores Raimundo Fagner e Kátia Freitas, além dos percussionistas do Maracatu Az de Ouro. O CD Cortejo contou com o patrocínio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e com o apoio do Ministério da Cultura, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Guitarrista, compositor, arranjador e produtor musical, Cristiano Pinho (foto: Larissa Freitas) é mais uma estrela entre os talentosos, criativos e versáteis guitarristas do Brasil. Natural de Viçosa do Ceará, Cristiano Pinho começou a tocar com 12 anos de idade. Graduou-se em Música na Universidade Estadual do Ceará e, em 1988, estudou Harmonia e Improvisação na Escola Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical, no Rio de Janeiro.

De lá para cá, seu talento ganhou reconhecimento nacional, ao enriquecer os discos e shows de cantores e compositores como Raimundo Fagner, Kátia Freitas e Fausto Nilo, entre outros. Multi-instrumentista, compositor, arranjador e produtor musical, Cristiano lançou em 1997 seu primeiro álbum instrumental solo, Pessoa (Independente).

Desde então, participou de diversos festivais de música instrumental, entre eles o Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga e o Festival Música na Ibiapaba -- neste último sendo convidado também como professor. Em 2004, tocou como músico convidado com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência do maestro Roberto Minczuk, na Sala São Paulo.

Desde 1997, integra a banda do cantor e compositor Raimundo Fagner em seus discos, DVDs e turnês. Cristiano foi o responsável pela direção musical do álbum do artista, intitulado Fortaleza, lançado em 2008 pela gravadora Som Livre. Em outubro de 2009, Cristiano Pinho fez show de lançamento do CD Cortejo no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, em Natal (RN), abrindo a programação do IV Festival BNB da Música Instrumental.

Algumas produções:
- 2009 – Cortejo (Cristiano Pinho / Ellemento), como produtor e arranjador
- 2008 – Fausto Nilo (Fausto Nilo / Pão e Poesia), como arranjador e diretor musical
- 2007 – Fortaleza (Fagner / Som Livre), como arranjador e diretor musical
- 2003 – Casa Tudo Azul (Fausto Nilo / Pão e Poesia), como arranjador e diretor musical
- 2002 – Próximo (Kátia Freitas), como produtor, arranjador e diretor musical
- 1997 – Pessoa (Cristiano Pinho), como produtor e arranjador
- 1995 – Kátia Freitas (Kátia Freitas), como coprodutor, arranjador e diretor musical.

SERVIÇO
Show Cortejo, com Cristiano Pinho
Data: 21 de novembro (sábado)
Hora: 21 horas
Local: Anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema – Tel.: (85) 3488-8600)
Entrada: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)
Informações: (85) 9915-4585


MAIS AINDA
Patrocínio: Banco do Nordeste do Brasil (BNB)
Parceria: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e Serviarm
Apoio Institucional: Governo Federal e Governo do Estado do Ceará
Promoção: Rádio Universitária FM 107.9 MHz
Realização: Kamafeu Produções de Arte

CD à venda nas lojas Desafinado (Av. Dom Luiz, 655 e Shopping Del Paseo – 3.º Piso), em Fortaleza e pelo e-mail
atendimento@desafinado.com.br

TRAÇOS, ESBOÇOS

Imagens das Segundas



Acendo mais um cigarro dentro da noite veloz, como quem conversa com um velho amigo e lhe faz confidências que não mais faria a ninguém. Faz pouco, fui beber um gole de café e a xícara escapou-me das mãos e espatifou-se dentro da pia.

Por incrível que pareça, quase na mesma hora lembrei-me de um verso de Carlos Drummond de Andrade, poeta que venho relendo com uma certa frequência: "Os cacos da vida, colados / Formam uma estranha xícara / Sem uso / Ela nos espia do aparador".

Creio que a minha vida anda assim, um tanto quanto parecida com esta xícara de café que acabei de quebrar por puro descuido.

Escrevo numa segunda-feira, seis horas da noite e as segundas-feiras para mim são um arremedo de dia, uma infeliz brincadeira de mau-gosto do tempo. Eu sei que elas jamais podem deixar de existir e que sempre seriam segundas-feiras, mesmo que lhes mudássemos o nome.

"As segundas-feiras estão atravancadas de pormenores inúteis / a vida parece um romance malfeito", como bem o disse o poeta Mário Quintana.

Não faz muito, um bom amigo telefonou para saber como está meu pai e me fala, em tom carinhoso, que todos estão muito preocupados comigo, se estou comendo direito, dormindo direito. Respondo que não há motivo para preocupações e que a vida segue seu curso.

Ando meio triste, devo confessar, contudo não estou tão desesperado ainda. Simplesmente continuo, prossigo vivendo do jeito que dá e que posso. Claro que deixei, por esses dias, de ser aquele sujeito brincalhão, sempre fazendo brincadeiras, com a gargalhada prestes a ser desatada a qualquer piada.

Mas também não ando chorando pelos cantos, exibindo com ar funéreo as minhas penas. Há dias melhores, há dias piores no carrossel do meu existir. Por vezes, penso que estou vivendo um pesadelo do qual despertarei em qualquer próxima manhã radiante de sol, perfumada de flores e de pássaros.

Giovanni Papini costumava dizer que a vida não é sonho, mas a urdidura dos sonhos pode iluminar e embelezar a trama da vida. E eu concordo completamente com ele.

Somos tão frágeis, tão fracos, tão egoístas que só conseguimos pensar em torno do nosso mundinho como se as outras pessoas também não tivessem lá a sua cota de sofrimentos e pesares.

Não sou o único a seguir o meu solitário Calvário. Pego da caneta e escrevo o que ainda consigo escrever. Ah, como eu gostaria que fossem palavras bonitas, frases irretocáveis. No entanto, só me saem estes garranchos espinhosos e urtigas.


*O cronista Airton Monte, que é nas horas vagas psiquiatra, redige impressões do viver para o Jornal da Praia desde a década de 1980

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http://opovo.uol.com.br/opovo/colunas/airtonmonte

13 novembro 2009

EUFEMISMO INDIGESTO

"Abate humanitário"?!?!?



Conforme certa definição, "abate humanitário" é o "conjunto de procedimentos" que "garantem o bem-estar dos animais que serão abatidos", desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorífico.

"Humanitário" . . . "bem-estar" . . . são palavras muito fortes, que não refletem o que realmente querem dizer. Termos como “humanitário” e “bem-estar” deveriam ser aplicados apenas nos casos em que buscamos o bem do indivíduo, e não para as situações em que procuramos matá-lo de alguma forma.

Quando enviamos ajuda humanitária à Africa, não estamos enviando recursos para que os africanos possam se matar de uma forma mais rápida e menos dolorosa. Não estamos pensando: “Bem, aquele continente vive na miséria, cheio de fome, doenças e guerras, vamos resolver isso matando-os”. Ajuda humanitária significa alimentos, água, remédios, cobertores — ou seja, intervenções realmente em benefício daqueles indivíduos.

Quando falamos em "bem-estar social", "bem-estar do idoso", "bem-estar da criança", não estamos pensando em outra coisa senão proporcionar o bem a essas pessoas. Jamais pensamos em métodos de "matá-los com menos sofrimento", porque isso seria o contrário de bem-estar, seria o contrário do que consideramos humanitário.

Por isso, quando escutamos alguém falar em “abate humanitário”, isso soa como um contrassenso. A primeira palavra representa algo que vai contra os interesses do indivíduo e a segunda encerra um significado que atende aos seus interesses.

Igualmente, a idéia de “bem-estar de animais de produção” é um contrassenso, pois a preocupação com o bem-estar implica em preocupar-se com a vida, e não visar sua morte ou exploração de alguma forma.

Essas duas ideias — "abate" e "humanitário" — só se harmonizam quando a morte do animal atende aos seus próprios interesses, como no caso em que o animal padece de uma enfermidade grave e incurável e a continuidade de sua vida representa um sofrimento. Nesses casos a eutanásia, ou dar fim a uma vida seguindo uma técnica menos dolorosa, pode ser classificada como humanitária, e uma preocupação com o bem-estar.

As organizações e campanhas que pregam pelo "abate humanitário" alegam que esse é "um modo de evitar o sofrimento desnecessário dos animais que precisam ser abatidos". Mas o que é o “sofrimento necessário” e o que diz que animais “precisam ser abatidos”?

O abate de animais para consumo não é, de forma alguma, uma necessidade. As pessoas podem até comer carne porque querem, porque gostam ou porque sentem ser necessário, mas ninguém pode alegar que isso seja uma necessidade orgânica do ser humano.

Porém, se comer carne é hoje uma opção, não comê-la também o é. Se uma pessoa sinceramente sente que animais não devem sofrer para servir de alimento para os seres humanos, seria mais lógico que essa pessoa adotasse o vegetarianismo, ao invés de ficar inventando subterfúgios para continuar comendo animais sob a alegação de que esses não sofreram.

A insensibilização que antecede o abate não assegura que o processo todo seja livre de crueldades, especialmente porque o sofrimento não pode ser quantificado com base em contusões e mugidos de dor. Qualquer que seja o método, os animais perdem a vida e isso por si só já é cruel.

Caso todo o problema inerente ao abate de uma criatura sensível se resumisse à dor perceptível, matar um ser humano por essa mesma técnica não deveria ser considerado um crime. Caso o conceito de "abate humanitário" fizesse sentido, atordoar um ser humano com uma marretada na cabeça antes de sangrá-lo e desmembrá-lo não seria um crime — e menos ainda matá-lo com um tiro certeiro na cabeça.

Está claro que a idéia de "abate humanitário" não cabe, e nem atende aos interesses dos animais. Mas se não atende aos interesses dos animais, ao interesse de quem ela atende?

A questão é bastante complexa, porque envolve ideologias, forças do mercado, psicologia do consumidor e política, entre outras facetas. O conceito de "abate humanitário" atende aos interesses de diferentes grupos (pecuaristas, grupos auto-intitulados “protetores de animais”, políticos etc.), não necessariamente integrados entre si.

Pecuaristas têm interesse no chamado "abate humanitário" porque ele não implica em gastos para o produtor, mas investimentos que se revertem em lucros. A carne de animais abatidos “humanitariamente” tem um valor agregado. O consumidor paga um preço diferenciado por acreditar que está consumindo um produto diferenciado.

Possuir um selo de “humanidade” em sua carne significa acesso a mercados mais exigentes, como o europeu. Além disso, verificou-se cientificamente que o manejo menos truculento dos animais reflete positivamente na qualidade do produto final, e, portanto, mudanças nesse manejo atendem aos interesses do pecuarista pois melhoram a produção e agregam valor ao produto.

Os chamados protetores de animais têm interesses no abate humanitário, mas não porque este é condizente com o interesse dos animais. Em verdade, esses “protetores“ não se preocupam com animais — talvez, sim, com cães e gatos, mas não com animais ditos “de produção”. Esses “protetores de animais” não os protegem: eles os criam, depois os matam e depois os comem. Eles podem não criá-los nem matá-los, mas certamente os comem e mesmo quando não o fazem por algum motivo, não se opõem a que outros o façam.

“Protetores de animais” lucram com o conceito de "abate humanitário", pois isso lhes rende a possibilidade de fazerem parte do mercado. Há entidades de “proteção” animal que se especializaram em matar animais. Sob a pretensão de estarem ajudando aos animais, elas mantêm fazendas-modelo onde pecuaristas podem aprender de que forma melhorar sua produção de carne, leite e ovos e de que forma matar animais de uma maneira mais aceitável pelo ponto de vista do consumidor comum. Podem também lucrar, servindo como consultores em frigoríficos.

Simultaneamente, essas entidades fazem propaganda no sentido de convencer o consumidor de que todo o problema relacionado ao consumo de carne encontra-se na procedência da carne, na forma como os animais são mortos, e não no fato de que eles são mortos em si. A fórmula é muito bem-sucedida, pois essas entidades acabam gozando de bom prestígio entre pecuaristas e consumidores comuns, não se opondo a quase ninguém. Políticos vêem na aliança com essas entidades a certeza de reeleição, e por isso elas contam também com seu apoio.

Exercendo seu poder para educar as pessoas ao “consumo responsável” de carne, essas entidades não pedem que as pessoas façam nada diferente do que já faziam. Elas não propõem uma mudança, de fato, em favor dos animais, pois os padrões de consumo da população mantêm-se os mesmos e os animais continuam a ser explorados.

A diferença está no fato de que essas campanhas colocam a entidade em evidência: a tal entidade se promove, deixando a impressão de que faz algo de realmente importante em nome de uma boa causa. Dessa forma, as pessoas realizam doações e manifestam seu apoio, ainda que sem saberem ao certo o que estão apoiando.

Com a carne abatida de forma “humanitária”, o consumidor se sente mais à vontade para continuar consumindo carne, pois o incômodo gerado pela ideia de que é errado matar animais para comer é encoberta pela idéia de que, naqueles casos, os animais "não sofreram para morrer". E o pecuarista lucra mais, porque pode cobrar um preço maior por seus produtos, bem como colocar seus produtos em mercados mais exigentes.

De toda forma, os interesses desses grupos não coincidem com os interesses dos animais, e por esse motivo não faz sentido que esses grupos utilizem nomenclaturas tais como como "bem-estar" e "humanitário", que podem vir a dar essa impressão.

Entidades que promovem o "abate humanitário" não protegem animais, mas sim promovem sua exploração. Elas estão alinhadas com os setores produtivos, que exploram os animais, e não com os animais. Se elas protegessem animais, trabalhariam pelo melhor de seus interesses. Seriam, eles mesmos, vegetarianos — e não consumidores de carne. No entanto, adotando sua postura e sua retórica, não desagradam a praticamente ninguém, e dessa maneira enriquecem e ganham influência.

Entidades que realmente promovem o bem dos animais esforçam-se em ensinar às pessoas que animais jamais devem ser usados para atender às nossas vontades. Elas devem se posicionar de forma clara a mostrar que comer animais não é uma opção ética, e que não importa que métodos utilizemos de criação e abate, isso não mudará a realidade de que animais não são produtos e que o problema de sua exploração não se limita à forma como o fazemos.

Ainda que uma campanha pelo vegetarianismo provavelmente conte com menos popularidade e menor adesão da população, até porque isso demanda uma mudança verdadeira na vida das pessoas, certamente uma campanha nesse sentido atende ao interesse real dos animais.

Ainda que reconhecendo que abater animais com menos crueldade é menos ruim do que abatê-los com mais crueldade, repudiamos que o abate que envolve menor crueldade seja objeto de incentivo. Esses "métodos" não deveriam ser incentivados, premiados, promovidos ou elogiados, porque "um pouco menos cruel" não é sinônimo de "sem crueldade", e só porque é algo um pouco mais controlado não quer dizer que seja certo ou correto.


* O biólogo da UNICAMP Sérgio Greif é mestre em Alimentos e Nutrição, co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável".


O AUTOR
sergio_greif@yahoo.com

SAIBA MAIS
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www.anda.jor.br/?p=3086

10 novembro 2009

CRIMINÍNDIOS DESTERRADOS

Cancelamento de reserva



Uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados prevê o cancelamento da propriedade de terras indígenas onde ocorrerem crimes ambientais — como venda ilegal de madeira ou tráfico de animais. A ideia, segundo o autor do projeto, o deputado Dr. Ubiali (Marco Aurélio Ubiali, do PSB-SP), é que os próprios índios se fiscalizem. “O objetivo maior não é puni-los, mas que eles sejam responsabilizados por atividades para as quais hoje se faz vista grossa”, afirma o parlamentar.

Pelo projeto de lei, qualquer condenação em última instância — depois que são apresentados todos os recursos — por um crime ambiental cometido em uma terra indígena faria com que essa reserva fosse cancelada, e todas as pessoas que morassem ali perdessem o direito de viver no local. “Se você tiver uma exploração ilegal em uma área de uma determinada tribo, é quase certo que isso é do conhecimento de todos, e se eles ignoram, são coniventes”, diz Ubiali.

Um mapa do Imazon mostra as terras indígenas (em laranja) e pontos da devastação ocorrida em setembro (em vermelho). Segundo o instituto, apenas 3% do desmatamento desse período ocorreu dentro de reservas indígenas, apesar delas ocuparem 21,6% da Amazônia.

Puorém, para a advogada Paula Souto Maior, do ISA-Instituto Socioambiental, o projeto fere a Constituição, pois estabelece uma punição coletiva aos indígenas. “A pena não pode passar para a família da pessoa que cometeu o ato ilegal”, afirma.

Segundo Ubiali, contudo, a punição à comunidade toda pode ser aplicada no caso dos índios. “É uma punição coletiva porque o crime é coletivo. Na tribo, você não tem um indivíduo cometendo um ilícito. Não há a figura do indivíduo dentro de uma tribo. A tribo tem um comportamento como um todo”, argumenta o deputado.

O líder indígena Aílton Krenak, conhecido por defender a Amazônia junto com Chico Mendes na década de 1980, discorda do deputado. Segundo ele, cada pessoa deve ser tratada separadamente e a própria legislação brasileira já prevê punição individual para índios que cometem crimes. “Como se pode dizer que crianças, velhos e outras pessoas da comunidade devam responder por quem cometeu um crime?”, questiona.

No conjunto dos fatos, apesar de haver problemas ambientais dentro de terras indígenas, esse é o tipo de reserva em que há menos desmatamento. Segundo os dados de devastação de setembro de 2009, publicados pela ONG Imazon-Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, houve 216 km² de desmatamento nesse mês e apenas 5 km² (3%) teriam ocorrido dentro de terras indígenas — apesar desses territórios ocuparem 21,6% da Amazônia brasileira. Os parques e reservas estaduais, por sua vez, sofreram 15 km² de desmatamento, e ocupam 20% da Amazônia.

“As terras indígenas têm se mostrado mais eficazes para a conservação da floresta do que as unidades de conservação — parques e reservas — que se beneficiam do aparato do Ibama, das secretarias de meio ambiente dos estados, e que têm gente trabalhando fazendo a manutenção e monitoramento dessas unidades”, aponta Krenak.

Questionado sobre a possibilidade de seu projeto ser aplicado também a propriedades privadas, Ubiali afirma que pretende apresentar uma emenda para que donos de terra também possam perder suas fazendas. De acordo com ele, a ideia será apresentada durante as discussões na Câmara para alterar o Código Florestal — lei que define, entre outras coisas, o quanto deve ser preservado dentro de cada terreno rural.

A proposta sobre terras indígenas tramita na Comissão de Meio Ambiente e, caso seja aprovada por essa e outras comissões, não precisará ir para votação no plenário para seguir ao Senado.

Desmatamentos, queimadas e notícias sobre toda a Amazônia Legal podem ser encontradas no mapa interativo Amazônia.vc, que também possibilita aos internautas protestar contra a destruição da floresta. O aplicativo Amazônia.vc foi desenvolvido em parceria com o INPE-Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, pelo programa Fantástico e Globo.com e traz mapa interativo com queimadas e desmatamento da região, permitindo a sua participação. Participe.

*por Iberê Thenório, em www.portaldomeioambiente.org.br (imagem: alguns Karitiana em pib.socioambiental.org)


VEJA MAPAS
www.imazon.org.br