22 setembro 2007

O QUE SERÁ, SERÁ?

Já parou pra pensar?



Será que é motivo, será que é pretexto?

Você só está vivo ou pertence ao contexto?

Se o que você chama de amor for doença,
Se o que você prega é menor que sua crença,
Será que é racismo ou será preconceito?

Será que é altruísmo ou só mais um defeito?

Se o que você acha que vem da infância
Controla sua vida ou não tem relevância,
Será que é certeza ou somente vaidade?

Será que é riqueza ou é felicidade?

Será que é sentença ou seu ponto de vista?

Se o que você pensa equivale à conquista,
Já parou pra pensar, já parou pra pensar, já pensou... ? (refrão)

Será sentimento ou será que é só sexo?

Se o seu sofrimento é uma dor que tem nexo,
Será que é malícia ou é só distração?

Será que é polícia ou será que é ladrão?

Será que é sincero ou é só fingimento?

Será que o que eu quero é só nesse momento?

Será que é desejo ou será que é vontade?

Se tudo o que eu vejo é a mais pura verdade,
Será que é tristeza ou é só depressão?

Será que é da natureza ou da situação?












*David Duarte é compositor, instrumentista e intérprete de sua época


DAPRAIA FUNNY PAGES

Hora de relaxar


Tudo de uma vez ao mesmo tempo agora (lá em casa!)






por Guabiras

Anderson Lauro







por Denilson Albano

O que foi que o papai ensinou?















por Jefferson Portela





VEJA MAIS
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FLOR DE MACAXEIRA

Muito além da ilustração


A inusitada caricatura de Drummond criada por Carlus Campos para ilustrar a matéria O poeta gauche de sete faces (publicada em 12 de agosto deste ano no caderno Vida & Arte Cultura do jornal O Povo de Fortaleza) conquistou o primeiro lugar da categoria no 9.º Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco.

Leigos poderiam avaliá-la como uma simples caricatura, tradicional e com a esperada ênfase exagerada nas características físicas de Drummond. Mas o olhar especializado do júri do FIHQ 2007 não teve a menor dúvida em premiá-la, entre mais de 700 trabalhos de artistas de 28 países, com o primeiro lugar da categoria Caricatura do Salão, cuja exposição fica em cartaz até 7 de outubro nas dependências da Torre Malakoff, em Recife (PE).

Quem assina a imagem é Francisco Carlus Campos, o Carlus (ou Carlão, como é conhecido na redação do jornal em que trabalha). Para conseguir o resultado final, o ilustrador e caricaturista resolveu pôr a mão na massa — ou melhor, na macaxeira. Sim, a cabeça de Drummond, na imagem, foi esculpida a partir daquele rizoma também conhecido, Brasil afora, como aipim.

A caixa que guarda a peça recebeu texturas de tinta acrílica, assim como o inusitado "Drummond". Depois, o próprio Carlus fotografou a peça e, no computador, fez as interferências necessárias com o software Photoshop. "Confesso que, quando terminei, ela (a caricatura) me surpreendeu. Aproveitei esse trabalho e mandei-o pro Salão. E aí venceu, né?", conta Carlus, revelando a timidez e poupando predicados à própria arte.

Quem vê tanta humildade numa resposta com certeza se impressiona com o currículo do artista. Carlus Campos já faturou o primeiro prêmio no mesmo Salão, em 2002, também na categoria Caricatura. Este ano, foi finalista com outras três peças inscritas na modalidade Ilustrações Editoriais. Em outras edições do FIQH, recebeu menções honrosas e já obteve destaque em eventos nacionais e internacionais — como o Salão Nacional de Humor de Lajeado (2002) e Le Salon International du Dessin de Presse et d'Humour Saint-Just-Le-Martel (França, 1994).

O sucesso das caricaturas e ilustrações de Carlus deve-se, principalmente, à ousadia do artista, que gosta de sair do trivial na hora de desenhar. "Ultimamente estou experimentando sair um pouco do traço e do papel e começando a usar fotografia. Faço a foto e faço interferências com desenho. É uma procura que a gente faz de sair do senso comum da caricatura, da simples distorção. Procuro levar um caminho mais para a arte. É um diferencial", detalha.

A construção artística de Carlus segue uma tendência de inovação na composição das imagens caricaturais. Ultimamente, nos salões internacionais de humor de Piracicaba e de Pernambuco, alguns dos mais importante do País, os primeiros lugares foram justamente para os trabalhos que buscaram esse tipo de viés surpreendente. O artista toma esta idéia para si por ela romper as barreiras que delimitam o que é um ilustrador e o que é um artista plástico.

"De repente você é um caricaturista tradicional, que só trabalha com bico de pena, mas de repente você é um artista plástico, de outra área, mas que tem uma sacada de um trabalho que é das duas áreas", explica. Na conquista desse primeiro lugar, Carlus Campos faturou R$ 6.000, quantia que já tem destino certo. "Vou sair do vermelho, né? Quem sabe comprar um computador novo?". Para quem quer seguir a carreira de caricaturista e ilustrador, vai aí a dica preciosa do vencedor: "O segredo do caricaturista, do ilustrador de humor, é estar antenado com o que está rolando, tanto em termos de arte como de fatos. Isso é fácil porque a gente tem um mundo na Internet, mas tem que estar sempre descobrindo técnicas, se reciclando", conclui.

PRIMEIROS TRAÇOS
Todo artista mostra que é da área logo na infância. Com Carlus Campos não foi diferente: o artista começou a revelar-se ainda pequeno em Russas, no interior do Ceará. "As lembranças mais remotas que tenho são debaixo de um pé de tamarindo que ficava em frente lá de casa. Quando chovia, ficava aquele chão úmido. Então eu começava a reproduzir monstros de seriados de TV que eu via naquela época", lembra.

Autodidata, Carlus praticou desenho durante toda a infância e adolescência. Profissionalmente, mesmo, ele começou só em 1997, quando chegou ao jornal O Povo como estagiário e, por sua competência, acabou ficando. Atualmente, Carlus estuda Jornalismo. Sem revelar pretensões de ser repórter, mas crendo que o curso pode ajudá-lo a aperfeiçoar o ofício, ele dá um passo além na vida profissional. "Quero que seja algo que venha a acrescentar à minha carreira de artista. Se vou escrever, acho que isso será uma conseqüência, mas, no momento, eu quero é pegar essas informações que estou tendo na faculdade e colocá-las no meu trabalho como artista".


*matéria especial publicada por Guilherme Cavalcante no jornal O Povo


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CRIATIVA E PRODUTIVA

Produção orgânica vertical


Há pessoas que desejam muito cultivar uma horta em casa — ou até na na empresa —, mas não sabem como fazer isso. Nas casas em geral, um espaço que poderia ser destinado à horta acaba sendo revestido com piso de cerâmica ou concreto, não restando terra sequer para um canteiro. Quem mora em apartamento, então, conta com outra dificuldade, além da área restrita: a falta de insolação adequada.

Bem, certamente é possível plantar hortaliças em vasos cerâmicos ou potes de plástico, mas estes recipientes têm o inconveniente de ocupar muito espaço e dispor de pouca profundidade, o que impede o desenvolvimento das mudas. Os vasos de barro, por exemplo, não servem, pois são pesados, trincam e quebram-se com facilidade. Já os vasos de plástico preto, além do custo mais alto, esquentam demais, mostrando-se inadequados para esse tipo de cultivo.

Refletindo sobre estas e outras particularidades, o administrador de empresas Eduardo Walter de Oliveira Borges (foto) e sua esposa, Regina, criaram uma técnica inédita a partir de características inusitadas: a combinação de um espaço vertical com o plantio em vários níveis, utilizando para isso tambores e outros recipientes de plástico reutilizáveis (como bombonas e até garrafas PET).

A primeira experiência realizada na residência do casal, em Jundiaí (SP), resultou na montagem de uma prática horta vertical em uma área de apenas 16 m² (4 m x 4 m) de piso de concreto. Foi o suficiente para produzir e satisfazer o consumo diário de hortaliças de sua família, com seis pessoas.

“No decorrer de algum tempo, fazendo várias experiências, aprendemos a ter sucesso”, diz Borges. Ao divulgar os resultados, o casal percebeu que o número de pessoas interessadas no cultivo de uma horta era maior do que imaginavam. "E elas sempre esbarravam nestas mesmas dificuldades: falta de terra para uma horta tradicional e falta de idéias para resolver o problema de outro jeito”, conta o administrador. Resultado: o invento deles tornou-se marca registrada.

Sem dúvida, a Horta Vertical Orgânica pode ser uma solução prática e eficiente até para quem tem apenas a sacada do próprio apartamento, por exemplo, e quer produzir e consumir suas próprias hortaliças. Porém, mais importante do que a satisfação de um desejo talvez seja a constatação de que este sistema pode solucionar um dos grandes problemas contemporâneos — a incerteza da procedência e qualidade dos vegetais adquiridos nas feiras, mercados e supermercados.

Os que aprenderam a técnica estão se abastecendo com legumes, verduras e temperos tenros e saborosos, livres de quaisquer agrotóxico, composto químico ou bactérias nocivas. E os benefícios de sua adoção não se restringem apenas aos frutos de uma alimentação mais saudável, mas tornam possível inclusive o aspecto terapêutico de uma prática extremamente agradável, quase em desuso na região urbana, que consiste em lidar com a terra, produzir e colher seus próprios alimentos.

A seguir, mais sobre o funcionamento da Horta Vertical Orgânica:

ESPAÇO OCUPADO E RENDIMENTO
A unidade produtora (foto) mede 1 m de altura por 40 cm de diâmetro e permite a produção de até 25 pés de hortaliças — o suficientes para o consumo mensal de uma pessoa, desde que novas mudas sejam replantadas imediatamente após a colheita para consumo.

TEMPO DISPENDIDO
O tempo necessário para a manutenção de uma horta já implantada, para uma família de seis pessoas, é de no máximo 20 min diários, em média, para regar, colher, semear, transplantar e cuidar da compostagem (adubo). Agora, apreciar e mostrar aos amigos — isso demora um pouco mais!

IMPLANTAÇÃO
Cada unidade produtora igual à da foto tem um custo inicial de montagem aproximado de R$ 50, mas poderá ser reaproveitada indefinidamente. Outros tipos de unidades têm custos menores.

CUSTO DE MANUTENÇÃO
Após a implantação, os custos passam a ser mínimos, em média R$ 8 por mês para uma horta que abastece uma família de seis pessoas.

CONSUMO DE ÁGUA
Uma das vantagens da Horta Vertical é a economia de água — apenas o suficiente para manter a terra úmida. A perda pela evaporação é muito menor do que em uma horta convencional.

FAZ SUJEIRA?
Após a montagem das unidades não haverá sujeira.

A COMPOSTAGEM CHEIRA MAL?
A compostagem, quando realizada conforme as instruções, não deverá produzir qualquer mau cheiro e pode ser realizada no ambiente doméstico.

O QUE PODE SER CULTIVADO?
Alface, chicória, rúcula, agrião, almeirão, tomate, beterraba, berinjela, couve, salsa, salsinha, escarola, pimentão, cenoura, brócolis, orégano, hortelã, sálvia, poejo, manjerona, manjericão, tomilho, rabanete, mostarda, morango, maracujá, uva etc.

MANUAL DE INSTRUÇÕES
Pode-se adquirir o Manual da Horta Vertical ® Orgânica completo pelo e-mail contato@hortavertical.com.br. Nas versões impressa ou digitalizada, apresenta fotos coloridas e todas as instruções para a montagem e cuidados de uma horta. Os responsáveis por escolas ou projetos comunitários que atendem pessoas carentes, quando devidamente identificados, podem receber o Manual gratuitamente por e-mail.

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11 setembro 2007

SEM ROLHA

Enochatos


No mundo dos vinhos distinguimos, entre as diversas pessoas ligadas ao vinho, o enólogo — que estuda, entende e normalmente é um profissional do vinho trabalhando na sua produção —, o enófilo — que é o amante do vinho, degustador e apreciador, com conhecimentos ou não sobre o assunto —, e o sommelier — que também é um profissional do vinho, encontrando seu lugar nos restaurantes, onde ajuda-nos a escolher o melhor rótulo para uma perfeita harmonização entre seu cardápio e sua carta de vinhos. Mais recentemente, estão aparecendo em profusão os enochatos. Não é difícil identificá-los...

Cada vez mais, este novo termo circula entre os amantes do vinho, designando um espécime em aparecimento que promete grande proliferação no nosso meio. O enochato é um sujeito que toma vinhos com a gente mas abusa, quando tenta mostrar seus conhecimentos adquiridos recentemente, em cursos não muito fidedignos, ou em leituras de revistas especializadas. Com estas munições, aproveita todas as oportunidades para vomitar determinados jargões com pose de expert, prejudicando todo o ambiente simples e agradável que deve ser uma sessão de (degustação de) vinhos.

Você, com certeza, conhece alguns. São facilmente identificáveis e quando falam de vinhos, o fazem de maneira sofisticada, arrogante, demonstrando pouco conteúdo e muita chatice. Nestas demonstrações, saem afirmações pedantes, principalmente quando se referem ao aroma dos vinhos: “Lembra couro de sela”, “Sabe a rabo de raposa molhado”, “Tem algo de suor de cavalo”, “Parece grama cortada” e por aí vai esta seqüência de jóias pedantes e esdrúxulas. Quando falam dos processos de produção do vinho, utilizam expressões tais como: “fermentação malolática”, “maceração carbônica”, “chaptalização” “micro-oxigenação”, “batonage” e outros jargões muito técnicos e pouco entendidos pelos companheiros de mesa. O enochato é um chato mesmo.

Acho que antes de ser um enochato, ele já era chato por natureza em qualquer assunto, querendo ser "o" professor ou "o" entendido — e, no fundo, todo mundo sabe que não sabe nada, pois os que sabem alguma coisa são humildes e modestos. Nesta nova fase dos chatos, em que começaram a gostar de vinho, houve apenas uma ampliação no espectro das suas chatices. São esnobes por natureza, existem com diversas roupagens e deixam-se facilmente identificar. Numa mesa, são eles que vão contradizer os conhecedores de vinho presentes. Além disso, pelos aromas e cores do vinho, são capazes de identificar não apenas a região e a vinícola, mas até a cor da roupa que o vinicultor usava na ocasião em que as uvas foram colhidas e o tamanho do pé do pisoteador das uvas... São além de chatos, esnobes, predicados estes que os transformam também em bobos.

Os leitores que me perdoem este assunto chato, mas é que me deparei outro dia com um espécime desta natureza e não sei ficar calado, principalmente quando acho que posso ajudar um companheiro de vinhos a conviver melhor em suas reuniões enogastronômicas, onde eu também estiver presente.

Mas deixemos os enochatos de lado — eles que vão espalhar chatices em outras plagas! — e vamos nos deliciar com os autênticos prazeres da boa mesa (como vinhos, comidas, harmonizações perfeitas e bons papos, prenúncios de grandes prazeres para depois da mesa — como licores, cognacs, charutos e outros que tais). Saudações vínicas!


*Jorge Cals Coelho é enogastrônomo e escreve aos sábados a coluna Boa mesa (jornal O Povo de Fortaleza/CE)


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http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/boamesa

27 agosto 2007

QUARTA CAPITAL

Fortaleza: cidade de risco


Fortaleza é uma cidade sem lei. Sua forma urbana comprova esta assertiva com ruas e avenidas implantadas sem obediência de plantas oficiais. Assim, crescem edificações em locais impróprios ou "proibidos". Do ruído excessivo e destruição acelerada da natureza, nem se fala. É fácil constatar essas agressões na orla da cidade, no aterro de lagoas e várzeas e muitas construções irregulares. Tudo isso faz de Fortaleza uma cidade em situação de risco. O que fazer para minorar ou corrigir essas e outras irregularidades que comprometem o bem-estar e a qualidade de vida?

Na América Latina, especialmente no Brasil, as cidades cresceram muito, em proporções descomunais. No início, os especialistas denominaram de "inchaço" esse crescimento desmesurado das cidades. Não era só a forma urbana que se modificava: cidade é feita de gente. Gente que trabalha, come, bebe, estuda, se movimenta, se diverte, gera conflitos, contrai doenças. Toda a dinâmica da vida está presente nas cidades. Com uma enorme gama de problemas, a cidade espelha também a realidade da região ou país onde ela está inserida.

A falta de terra no campo para plantar, associada à ausência ou insuficiência de políticas públicas de apoio aos pequenos produtores tem ocasionado um intenso fluxo demográfico do campo para as cidades. No caso brasileiro, mais de 82% da população do País vive em cidades — e Fortaleza é uma delas. O crescimento urbano não seria problema, se as cidades fossem capazes de atender à demanda dos que partem em sua direção.

Muitos se deslocam à procura de serviços não-oferecidos no interior. Saúde, educação e comércio são os principais. Parte expressiva da população que chega à cidade, permanece nela. Mesmo não sendo devidamente acolhida, busca acomodar-se a seu modo, fazendo de sua solução mais um problema urbano. A cidade, quando equipada e organizada, oferece condições excelentes para a reprodução da vida.

Não é o caso de Fortaleza. Nossa cidade apresenta um elevado nível de carência no que tange ao atendimento de demandas coletivas e ao conforto urbano. Este quadro de carências, tão presentes em nossas cidades, cria situações delicadas — como as do eufemismo que diferencia as favelas das áreas de risco. Ambas são carentes. Acrescentem-se a prepotência dos ricos, certos de que podem fazer o que querem no uso do solo urbano, além das extensas áreas periféricas, ocupadas de forma indevida por loteamentos clandestinos, não submetidos às normas exigidas pelos órgãos competentes da gestão municipal.

Este quadro catastrófico também advém da negligência de gestores, da forte pressão de grupos corporativos e/ou da corrupção. São inúmeros os riscos a que fica submetida a população. A ciência contemporânea, face aos inúmeros problemas que afetam a sociedade, desenvolveu um campo específico denominado Gestão de Riscos. Na cidade, os riscos estão intimamente ligados às relações travadas entre sociedade e natureza.

O descontrole urbano revela o conteúdo social do crescimento da cidade. A gestão de riscos na perspectiva de identificação de problemas e adoção de políticas públicas envolve vários sujeitos sociais, especialmente técnicos, estudiosos, sociedade civil e governos. Nas cidades, os riscos podem ser provocados por catástrofes naturais, violência, colapsos econômicos, empobrecimento em demasia da população, ocupação indevida, excesso de emissão de gases tóxicos, acidentes industriais. A elaboração do Plano Diretor Urbano é um momento privilegiado para o estabelecimento de políticas públicas de gestão de riscos.

O caos urbano tem que ser encarado como socialmente produzido. Vai longe o tempo em que catástrofes e situações calamitosas eram encaradas como castigo divino. Deus, e não a sociedade, era culpado por tudo. Em seu livro Os riscos, a geógrafa francesa Yvette Veyret afirma que, na França, a origem da idéia de "riscos" data de 1775 e que a preocupação inicial foi a grande catástrofe que destruiu parte expressiva de Lisboa.

Diante dessa calamidade, o filósofo Jean-Jacques Rousseau afirmou que, se foram tantos os mortos pelo terremoto, maremoto e incêndio ocorridos naquele ano, a culpa foi dos homens e não de Deus. Foram eles que se instalaram onde a terra tremeu. Dizia ainda que, se o terremoto tivesse acontecido no deserto, não haveria vítimas.

Como não vivemos num deserto, o que fazer para reduzir os riscos em Fortaleza?


*José Borzacchiello da Silva é Doutor em Geografia e professor do Curso de Geografia da UFC-Universidade Federal do Ceará


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15 agosto 2007

COTIDIANO AMARO

Somente a lama


Se quiser fumar, eu fumo
Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém
Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-choro de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua ela pode ver o movimento dentro da igreja, os pastores já no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar. Na entrada, uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que toca. Então ele surge.

Bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se 10 anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa ao lado e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também
"Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!!" A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com o bolero. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume da música mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. "Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens junto com elas para o Inferno!!!"

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar
Ele era um garoto quando ela o conheceu. A paixão foi instantânea, mútua... e avassaladora. Semanas depois seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no Centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado dos seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios — que não eram poucos — enganaram, roubaram e assaltaram. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas.

Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar
Foram 8 anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser dele, apenas dele, durante toda a vida. No fim da noite, ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar com os amigos, bebendo e jogando. Uma noite, porém, não o encontrou lá.

Procurou-o pelas ruas, mas lá ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez mas, nos autos, consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranqüila e cantarolando um bolero. Ao lado dos dois corpos ensanguentados.

Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também
Quinze anos depois, foi libertada. Quinze anos no inferno. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava. Depois de muito perguntar foi que soube onde ele estava. Rumou para lá. Era uma modesta igreja, que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão.

Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do final ela levantou-se, interrompendo o culto e, de dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles 15 anos. Quinze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Sequer lhe escrevera um mísero bilhete. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis e de sua esposa, todo o seu passado sombrio.

Quando ela fez uma pausa ele aproveitou e disse, em voz alta, para todos ouvirem, que ela estava possuída por Satanás. Nesse instante os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela gritou e se debateu, mas foi inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em 15 anos não chorara, enquanto os fiéis louvavam a glória do Senhor Jesus.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém
Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, loucamente, mas a outra simplesmente não conseguia perdoá-lo. Durante 40 dias e 40 noites amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. O inferno do presídio era pouco, perto daquela eternidade inimaginável de torturas. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo.

E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa-nova que soprava alegre em seu espírito, feito uma brisa de Verão. Mas quando chegou à porta do salão, foi enxotada pelos próprios fiéis que, ajudados pelos seguranças, levaram-na para fora e, no beco ao lado, a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu aproxima-se, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: "Pra mim você já morreu".

Se eu errei, se pequei
Pouco importa
A voz do garçom chega novamente, misturando-se às lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre clientes indo embora, 10 anos se passam rapidamente em sua mente, 10 anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente essa noite. Nesse instante um casal entra, observa o interior do recinto, dá meia-volta e sai, com jeito de assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha mais e vai embora.

Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também
*Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra — a 3.ª pedra do Sol
A música “Lama” (letra usada no texto) é de autoria de Aylce Chaves e Paulo Marques, na interpretação de Núbia Lafayette


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05 agosto 2007

MISTÉRIOS EXISTENCIAIS

Sobre o "cuidado de si"


O filósofo e professor francês Michel Foucault (15/10/26 — 26/06/84, foto) legou-nos uma das mais belas profecias sobre o "cuidado de si", compondo uma ética política sobre a história da sexualidade — incluída a morte. A problemática da governamentalidade fôra retomada em seu Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1984): "Gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante 10 anos".

Foucault veio a falecer em 25 de junho de 1984, quando seu estado de saúde não mais lhe permitia prepará-los. Salvo engano, nenhum sistema de pensamento obteve, em tão pouco tempo, repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de racionalidade simbólica, a partir de temas como a crítica da razão governamental, a analítica do poder, sobre as relações "espaço-tempo" e "poder-saber", a "estética da existência" e o "experimento moral", e mesmo entre o "império do olhar" e a "arte de ver". É também impossível esquecer a tese segundo a qual "a visibilidade é uma armadilha", numa sociedade que "canceriza" a vista através do poder disciplinar.

O estudo dedicado ao "cuidado de si" teve como referência Alcebíades (451-404 a.C.) — general grego retratado em 1865 pelo pintor, desenhista e escritor brasileiro Pedro Américo (1843-1905). Nele, as questões dizem respeito ao "cuidado de si" com a política, com a pedagogia e com o conhecimento de si próprio. Sócrates recomendava a Alcebíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois "com 50 anos, seria tarde demais". Isso, numa relação que diz respeito talvez ao "enamoramento" (na acepção do sociólogo italiano Francesco Alberoni) e que não pode "ocupar-se de si" sem a ajuda do Outro.

Contudo, é no discurso dedicado à formação da "hermenêutica de si" (1981-1982) que Foucault pretendeu estudá-lo "não somente em suas formulações teóricas, mas analisá-lo em relação ao conjunto de práticas que tiveram uma grande importância na Antigüidade clássica ou tardia". Certamente porque, para ele, estes princípios de "ocupar-se de si", de "cuidar-se a si mesmo" estão associados.

O exercício da morte, tal como evocado pelo filósofo estóico Sêneca (Lucius Annaeus Seneca, nascido em Córdoba, Espanha, em 4 a.C.), consiste em viver a longa duração da vida como se esta fosse tão curta quanto um dia e viver cada dia como se a vida inteira coubesse nele: todas as manhãs, deve-se estar na infância da vida, mas deve-se viver toda a duração do dia como se a noite fosse o momento da morte. "Na hora de ir dormir", afirma Sêneca em sua Carta 12, "digamos com alegria e com um sorriso: 'eu vivi'."

Isto quer dizer que, através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a askesis (ascese, a disciplina de contenção da luxúria) necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca-nos a questão da verdade — da verdade do que se é, do que se faz e do que se é capaz de fazer — no cerne da constituição do sujeito moral.

E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é, ainda e sempre, definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo, embora tal soberania amplie-se numa experiência onde a relação consigo mesmo assume a forma, não somente de uma dominação, "mas de um gozo sem desejo e sem perturbação".

Neste lento desenvolvimento da arte de viver sob o signo do "cuidado de si", os dois primeiros séculos da época imperial podem ser considerados como o ápice de uma curva, uma espécie de Idade de Ouro na cultura de si — sendo subentendido, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais, bem limitados em número, que eram portadores de cultura e para os quais uma techne tou biou (uma "arte da vida") podia ter um sentido e uma realidade — ou seja, "aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar".

Ademais, é conhecida a amplitude tomada em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar às outras ocupações. O indivíduo poderia, desse modo, tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de todo um vocabulário para designar as diferentes formas que o cuidado de si deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. "Apressa-te, pois, para o objetivo, dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível".

Portanto, é possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Dizia Epicuro (Epicuro de Samos, filósofo grego do período helenístico que propunha uma vida de contínuo prazer como chave para a felicidade): "Nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para ocupar-se com a própria alma". De sorte que devem filosofar o jovem e o velho — este para que, ao envelhecer, seja jovem em bens pela gratidão ao que foi, e o outro para que, jovem, seja ao mesmo tempo ancião pela ausência de temor pelo futuro.

"Aprender a viver a vida inteira" era um aforismo citado por Sêneca que nos convida a transformar a existência numa espécie de exercício permanente. E mesmo que seja bom começar cedo, é importante jamais relaxar, mas há uma advertência: "É preciso tempo para isso". É um dos grandes problemas dessa cultura de si o fixar, no decorrer do dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas diversas: podem-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de recolhimento para o exame daquilo que se fez, para a memorização de certos princípios úteis, para o exame do dia transcorrido.

O exame matinal e vesperal dos pitagóricos encontra-se, sem dúvida com conteúdos diferentes, nos estóicos. Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio* fazem referência a esses momentos que se devem consagrar ao "voltar-se para si mesmo". Pode-se também interromper, de tempos em tempos, as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Musonius (Musonius Rufus, filosófo estóico romano que viveu no Primeiro Século), dentre outros, recomendava vivamente: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida e familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional.

É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, ao trabalho filosófico (ou, como Spurima, belo jovem romano citado no Filocolo de Giovanni Boccaccio que desfigura a própria face para não ser conspurcado pelo mundo) na calma de uma existência agradável, "à posse de si próprio".

Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação — tão medida quanto possível —, as necessidades. Existem ainda as meditações, as leituras, as anotações que se tomam sobre livros ou conversações ouvidas — e que mais tarde serão relidas —, a rememoração das verdades que já se sabem, mas das quais convém apropriar-se ainda melhor.

Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de "anacorese em si próprio": trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se aqui um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo, que não constitui um exercício da solidão, mas sim uma verdadeira prática social. E isso, em vários sentidos.

Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma. Tal iniciativa encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a um Outro, o qual adivinha-se que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito. E é também um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a um Outro — ou quando se recebem, com gratidão, as lições que ele nos pode dar.

Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do Outro inserir-se em relações preexistentes, às quais dá uma nova coloração e um calor maior. O cuidado de si — ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos — aparece então como uma intensificação das relações sociais. Neste particular, Sêneca dedica um consolo à sua mãe no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores.

O "cuidado de si" aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de "serviço da alma" que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o Outro e de um sistema de obrigações recíprocas.


*Ubiracy de Souza Braga é sociólogo, cientista político e professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE)


*Marco Aurélio Antonino (121-180) pertenceu a uma família de aristocratas e muito cedo perdeu os pais. Foi então adotado pelo tio, Aurélio Antonino, que mais tarde tornou-se imperador, nomeando-o seu sucessor. Aos 11 anos, conheceu o estoicismo e adotou hábitos de vida austera. Após sua formação, passou a colaborar intimamente com o imperador, seu pai adotivo, ocupando o cargo de cônsul por três vezes. Em 161, Aurélio Antonino morre e Marco Aurélio torna-se imperador.

O governo de Marco Aurélio, que se estendeu por quase 20 anos (até sua morte), foi perturbado por guerras sangrentas e prolongadas, com as conseqüentes dificuldades internas. Ele conseguiu enfrentar todas as dificuldades, tendo sido excelente guerreiro e administrador e, ao mesmo tempo, humanizando profundamente o exercício do poder. Nos poucos momentos livres que lhe permitiam os encargos de governo, recolhia-se à reflexão filosófica e escrevia seus pensamentos em língua grega. Com isso, tornou-se o terceiro e último expoente do estoicismo romano.

O conteúdo de suas Meditações (como ficaram conhecidos seus pensamentos), é a filosofia estóica, mas um estoicismo distante das doutrinas de Zenão (Zenão de Eléia — 495 a.C.-430 a.C. — nasceu em Eléia, Itália. Discípulo de Parmênides, defendeu de modo apaixonado a filosofia do mestre. Seu método consistia na elaboração de paradoxos. Deste modo, não pretendia refutar diretamente as teses que combatia, mas sim mostrar os absurdos nelas expressos e, portanto, sua falsidade. Acredita-se que Zenão tenha criado cerca de 40 destes paradoxos — todos contra a multiplicidade, a divisibilidade e o movimento, que nada mais são que ilusões, segundo a escola eleática. Aristóteles o considera o criador da dialética).

As especulações físicas e lógicas cedem lugar ao caráter prático dos romanos e ao aconselhamento moral. Em Marco Aurélio, como também nas máximas de Epicteto, a questão central da filosofia é o problema de como se deve encarar a vida para que se possa viver bem. Este tema é tratado com grande esforço e interesse por Marco Aurélio, homem religioso e pouco interessado na investigação científica. Em seus pensamentos, são bem visíveis as tendências ecléticas. Ele não hesita em acolher posições de sabedoria, que vêm até mesmo de Epicuro.

Uma das características que mais impressiona o leitor de suas Meditações é a insistência com a qual é tematizada e afirmada a "caducidade" das coisas: "Quão rapidamente, num segundo, desvanecem todas as coisas, os corpos no espaço, e a memória desses no tempo! E o que são todas as coisas sensíveis e, especialmente, as que nos seduzem com a voluptuosidade ou nos amedrontam com a dor ou são exaltadas pelos homens! Quão vis são, desprezíveis, horríveis, corrompidas, mortas!".

Marco Aurélio também rompe com o antigo Pórtico — a palavra estóico vem do grego stoá, que significa pórtico — quando distingue no homem o corpo, que é carne, a alma, que é sopro ou pneuma (ar) e, superior à própria alma, o intelecto ou mente. Enquanto o antigo Pórtico identificava o princípio dirigente do homem com a parte mais elevada da alma, Marco Aurélio o põe fora da alma e identifica-o com o intelecto. Por essa razão, o estoicismo de Marco Aurélio freqüentemente apresenta discrepância em relação às suas origens gregas. Por certo, a verdadeira chave para a compreensão das oscilações de Marco Aurélio deve ser procurada menos em suas características psicológicas do que nas circunstâncias históricas em que viveu. E, embora sua colaboração tenha sido de grande importância, ele não chegou a ser um pensador original.


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usbraga@hotmail.com

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(Cena de 300, filme inspirado na graphic novel épica do norte-americano Frank Miller que aborda romanceadamente a estóica resistência de Esparta às hostes do imperador persa Xerxes, aqui derramando-se sobre o abismo)

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www.300deesparta.com.br


30 junho 2007

A VER SE ROLA

No pelourinho.com


Algum tempo atrás, usei um texto de Rubem Alves no podcast “A volta do malandro”. O Rubem escreveu assim: “É preciso notar que os criminosos não são criminosos só por razões práticas, como dinheiro e poder. Eles são criminosos também por razões estéticas. Todos os homens desejam ser figuras lendárias, objetos de admiração, espanto ou mesmo de horror. A felicidade do criminoso quando a sua fotografia aparece na primeira página do jornal!"
"Há um enorme prazer em se sentir temido e odiado. O horrendo pode ser belo. Também os criminosos se alimentam de fantasias narcísicas! Na Idade Média havia uma forma curiosa de punir os criminosos. Eles eram colocados em pelourinhos com cabeças e mãos presas numa peça de madeira. O pelourinho ficava numa praça pública. Ali ficavam os infratores, expostos ao riso e zombaria do povo."

"Essa situação de ridículo, imagino, se constituía num poderoso antídoto a quaisquer imagens heróicas que os criminosos pudessem ter de si mesmos. Não há narcisismo que resista à zombaria. Aí fiquei pensando se não haveria uma forma moderna de se aplicar esse castigo pedagógico e inspirado na psicanálise. O medo do ridículo é capaz de desencorajar muitas ações. Já imaginaram? Poderia haver praças dedicadas aos políticos corruptos, aos seqüestradores, aos pedófilos, aos assassinos etc., etc. Lá ficariam eles expostos ao riso público e, preferivelmente, com as partes pudendas à mostra."

"Se essa proposta é inviável, por razões práticas (não há praças em número suficiente, o número dos criminosos é muito grande), as autoridades competentes poderiam colocar na Internet um site com o nome de Pelourinho. Ali poderíamos ver a cara dos criminosos nas mais variadas versões, ao lado de suas partes pudendas e crimes cometidos. Aí o povo começaria a rir deles. Quem sabe os criminosos se regenerariam, por vergonha...”.

Pois recebi de uma ouvinte brasileira que mora nos EUA, a Mirian Amorim, uma dica interessante, demonstrando que a idéia do Rubem não é de todo impossível: “Nos Estados Unidos já existe um site onde os criminosos sexuais têm seus endereços registrados e fotografias, Se você for se mudar para uma cidade, na hora de comprar ou alugar uma casa, você pode recorrer àquele site e encontrar a lista dos tarados da região. O site é o http://ncfindoffender.com/search.aspx . Você vai no segundo item: Find offenders near you by address, clica o zip code (por exemplo 28227) e pronto, funciona! Aparecerá a foto do indivíduo que mora naquela localidade.”

Não resisti e acessei o site. É da Carolina do Norte. E realmente estão lá as fotos dos tarados que vivem no seu bairro... Fascinante! Como é que você acha que seria um site assim aqui no Brasil? Já estou vendo a reação das patrulhas dos direitos humanos, condenando a exposição pública das pobres “vítimas da sociedade”... E os malandros? Imediatamente criariam uma indústria para impedir que as fotos fossem publicadas.

Além disso, os políticos logo aprovariam uma lei impedindo que o “nopelourinho.com” fosse criado. Autoproteção, né?Pois dê uma olhada no site e responda a algumas perguntas: ele é politicamente incorreto? Age certo uma sociedade que se protege dos criminosos, tornando pública sua localização e seus crimes? A exposição desses indivíduos no site é uma ofensa aos direitos humanos?Se fosse possível promover esse debate no Brasil, sem ideologias ou hipocrisia, talvez colocássemos em prática nossos pelourinhos. Sem violência. Mas com vergonha.


*O jornalista Luciano Pires é um paladino da despocotização nacional.



31 maio 2007

DAPRAIA FUNNY PAGES

Um sorrisinho só faz bem...


Eu, por mim mesmo e mais ninguém - por Denilson Albano







Manibura memories - por Guabiras









29 maio 2007

A INCOMPETÊNCIA BRASILEIRA - II

Uma análise beeem dolorida


Há cerca de 10 anos, participei de um debate no Instituto de Estudos Estratégicos de Lisboa, Portugal, com a presença de embaixadores, militares superiores, intelectuais, acadêmicos e outras personalidades de destaque. Um dos temas era vislumbrar a posição do Brasil no mundo, principalmente na América Latina. A partir desse evento, comecei a perceber, com mais nitidez, que o Brasil é um País incompetente.

No encontro, chegamos a uma conclusão: somos uma nação sem rumo no cenário mundial, carecendo de uma política externa amadurecida, inclusive no nosso próprio continente. Tive a oportunidade de afirmar que, caso o meu País tivesse juízo, uma elite esclarecida, intelectualmente bem-dotada, pensando estrategicamente, facilmente seríamos líderes dos sul-americanos e não ficaríamos imaturamente rodopiando sem foco, nos relacionando sofregamente com Uruguai, Paraguai, Argentina etc. que, juntos, talvez não cheguem ao tamanho do Brasil.

A economia de Santo Amaro (bairro paulistano), quando muito o ABC (também em São Paulo), possivelmente seria mais pujante do que a economia argentina. Até o Chile, considerado bem-sucedido (não pertence ao Mercosul) é uma tripa (basta olhar o mapa) no espaço geográfico, notabilizando-se pela vocação internacional exportadora. E o Brasil ainda patina no mercado externo.

A raiz desta nossa injusta inferioridade repousa na notória incompetência das elites nacionais, com dificuldade de pensar além do nariz. A partir dessa percepção, continuei observando a incapacidade nacional. Ao viajar pelo Brasil, a serviço ou como turista, deparo-me com outros sinais de incompetência. Por exemplo, um País imenso, dotado de ilimitadas riquezas e, por outro lado, parcela considerável da população passando fome. Daí a minha admiração e respeito pelo MST, único movimento cutucando a repugnante elite e responsável pelo andamento, mesmo tímido, da reforma agrária.

Fico pensando com meus botões: o que faz de concreto e eficaz a enorme estrutura do Ministério da Agricultura, das secretarias estaduais e outros órgãos afins para explorar as vastíssimas terras e saciar a fome da população? Outra ilustração da incompetência tupiniquim. Tenho dois amigos, ex-ocupantes do Ministério do Planejamento. Um da Universidade de São Paulo (USP) e outro do Nordeste. Perguntei a um deles: “Como tem sido a sua experiência no Planejamento?” Ele respondeu: “Uma riquíssima experiência”. E voltei a interrogá-lo: “Por quê?” Ele concluiu: “Porque meu ministério faz tudo, menos planejar. Enquanto isso, a China, Japão e diversos países têm projetos estratégicos para mais de 100 anos à frente”. Desdobrando esta resposta do ministro, veja a miopia, a vulgaridade da classe política.

Deputados, senadores, governadores de Estado, ministros, prefeitos, vereadores levam a vida batendo papo-furado, mormente em Brasília. Independentemente da conversa pobre de idéias, de conteúdo, de boas intenções, o teor do conversório é de curtíssimo prazo. Não conheço políticos refletindo no longo prazo. Predominam os papos no varejo, nas picuinhas. Com um agravante: discutindo interesses pessoais e imediatos.

Agora, vamos fazer um passeio superficial pela História do Brasil. O período Colonial plantou a incompetência. Os “descobridores” sequer tiveram nível para compreender a cultura indígena vigente. E cometeram uma falha imperdoável de querer impor aos silvícolas a cultura ocidental. Daí a reação violenta dos nativos. Ademais, o cotidiano na Colônia restringia-se aos senhores feudais concentrados somente nos ganhos financeiros e nas futilidades.

Do outro lado, os escravos e nenhuma imaginação em se aproveitar o potencial nacional. O Império, curiosamente, foi o período no qual o Brasil deu alguns avanços, sobretudo na cultura, nas artes, na literatura, em coisas intangíveis, mas para atender aos hábitos europeus dos reis. O povão ficou excluído desse tímido avanço intelectual e espiritual.

No entanto, um tempo caracterizado por uma elite ociosa que adorava unicamente os salões, festas, bacanais (vide o baile da Ilha Fiscal, quando o Império estava sendo desalojado), mais ociosidade, viagens, gastos. Mauá, considerado o maior empresário do século XIX, quebrou a cara porque colocou o Império para plantar uma árvore num de seus empreendimentos. Os estudos eram feitos em Coimbra, até porque o Brasil era desprovido de uma Universidade.

O Brasil começou a ter ensino superior no começo do século XX, com 400 anos de atraso. Enquanto isso, a Universidade de São Marcos, fundada antes do descobrimento do Brasil, fica no Peru, de onde se originou o eficaz Sendero Luminoso. A República Velha tinha nomes isolados de altíssimo respeito, cultos e muita cultura. Mesmo assim, o Brasil continuou avançando precariamente.

Em represália a esta República, surgiram sementes que plantaram a revolução de 30, liderada pelo Getúlio Vargas. O Levante do Forte de Copacabana, o tenentismo, a Coluna Prestes pareciam um bando de desorientados, apenas movido pelo idealismo conjugado com muita ingenuidade e com a meta simplista de derrubar o Presidente da República. De implantar o comunismo, socialismo, integralismo e outras macaquices ideológicas.

A Coluna Prestes, sob a liderança do Luís Carlos Prestes, não passou de uma viagem a cavalo pelo Brasil. Era desprovida de propostas, de projetos para equacionar os gravíssimos problemas nacionais. Não passou de uma aventura. Houve a revolução de 30, capitaneada por Getúlio Vargas, considerado no século XX um estadista. Porém, era um provinciano.

O maior percurso feito por ele foi de trem, de Porto Alegre até o Rio de Janeiro. Portanto, o homem que implantou parte da infra-estrutura econômica (vide Cia. Siderúrgica Nacional) era provinciano. No segundo governo da década de 50, suicidou-se depois de alcançar o nível de incompetência na administração dos conflitos dos partidos, notadamente a UDN (o PSDB de hoje), os militares infantilmente usados pela UDN, os empresários na busca das tetas dos Estados e outros descontentes manipulados pela imprensa da Direita.

Do Getúlio até à hora da elaboração deste artigo, tivemos o Juscelino em 56, mesmo um grande realizador, era engenheiro de obra, sem maiores luzes. A revolução de 64, mesmo com alguns progressos econômicos, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, único dos militares daquela época de horizontes de longo prazo.

Os demais, um desastre, salvando-se um pouco o Geisel, por ter promovido a abertura e tocado fogo nos radicais da Direita. Assim, nesse vôo panorâmico, fica patente a agressiva incompetência das lideranças políticas, governamentais. Debaixo desse pano de fundo, vêm as incompetências micro, das organizações publicas e privadas, objeto de próximos artigos.


VÁ ALÉM
O autor, Dr. Cleber Aquino, é professor da Universidade de São Paulo (USP), consultor de Alta Gestão e coordenador dos 6 volumes de História empresarial vivida – Depoimentos de empresários brasileiros bem-sucedidos (Editora Gazeta Mercantil, 1986 — busque em http://www.livronet.com.br/listagem/id_estante/1/pid/3)


15 abril 2007

MUNDO ATUAL

A questão da propriedade


Ulrich Duchrow, professor de teologia sistemática na Alemanha, na tentativa de explicitar as dificuldades e as oportunidades apresentadas à teologia pelo mundo de hoje, toca numa das questões mais espinhosas para quem se põe na perspectiva de pensar uma alternativa mais humana às nossas formações sociais.

O capitalismo produziu pobreza crescente, miséria e destruição da natureza em nível mundial. O mais trágico no momento presente é que depois de mais de 50 anos do estabelecimento do atual sistema econômico em Bretton Woods e do colapso do socialismo real parece não haver alternativas plausíveis que possam barrar os mecanismos ameaçadores da vida da ordenação econômica capitalista mundial.

Neste contexto, é urgente a busca de alternativas, que começa em primeiro lugar pela coragem e pela obrigação da fazer perguntas inaceitáveis no mundo de hoje. Uma primeira observação sobre nossa situação é que para ele, mesmo nas crises dos poderes econômicos e políticos, a segurança do poder ideológico parece inabalável. A hegemonia atual do pensamento neoliberal não aconteceu por acaso: ela foi longa, eficiente e sistematicamente preparada através da formação de redes transnacionais de teóricos que se empenharam na construção de institutos de pesquisa em todo o mundo e se infiltraram estrategicamente em universidades, na mídia, em instituições políticas, culturais etc.

Daqui brota, então, uma pergunta básica para a teologia: como ela pode ajudar a construir um trabalho teórico interdisciplinar a respeito de alternativas a esta hegemonia neoliberal? Esta é certamente uma pergunta central no mundo de hoje para quem está convencido do papel importante que as religiões e conseqüentemente suas teologias podem exercer na configuração da vida coletiva.

É neste contexto que uma questão se revela como questão-chave: a questão da propriedade precisamente porque a propriedade privada dos meios de produção é uma coluna-chave do capitalismo dominante e a propriedade estatal fracassou. Quais são, então, as alternativas que nos permitam recuperar os recursos da Terra para o uso sustentável de todas as pessoas e, portanto, para a superação da situação de morte em que vivem bilhões de pessoas no planeta, assim como a superação da sua destruição sistemática?

Têm surgido em muitos países, inclusive no Brasil, reflexões alternativas a respeito do desenvolvimento comunitário autogestionário e da emancipação do trabalho humano. Há em todo mundo experiências em curso que apontam para um futuro diferente e nos estimulam a pensar alternativas. A característica básica destas experiências é que os trabalhadores têm assumido a tarefa de reorganizar eles mesmos a produção, as finanças, o crédito, o comércio, o consumo, os serviços na base da cooperação e da solidariedade.

Isto, como nos relata Marcos Arruda*, tem levado à criação de empresas autogestionárias nas quais valores novos — a cooperação, a complementaridade e a solidariedade — regem as relações, não somente no interior das firmas, mas nas relações com outras empresas e comunidades. Nestas experiências percebe-se que a eficiência não existe mais simplesmente em função de mais lucros e menos custos, mas acima de tudo em função de mais dignidade da vida e do trabalho humanos.

O mais radical nestas experiências é a percepção de que um horizonte novo de valores pode reger a vida e levar a um mundo institucional diferente: a reciprocidade e a solidariedade podem reestruturar pelas raízes o mundo econômico e toda a existência humana.


*Socioeconomista e educador, Marcos Arruda é coordenador geral do PACS-Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul, membro do Instituto Transnacional, com sede em Amsterdã, e da equipe internacional de animação do Pólo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário. Integra a secretaria do Fórum de Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro e tem publicado extensamente no Brasil e no exterior, trazendo elementos para a construção de fundamentos mais sólidos a uma nova práxis social.

CONTATE O COLUNISTA
Manfredo Araújo de Oliveira é sacerdote diocesano, Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana, Doutor em Filosofia e professor na Universidade Federal do Ceará (UFC)
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