29 abril 2010

NÃO VALE UM CIBAZOL

Desprezada cidadania*



Abri a janela de par em par, com uma solenidade exuberante e magnificente. E foi então, nesse instante exato, preciso, que se abateu sobre mim uma clareza estonteante e assustadora a respeito de tudo, uma clarividente lucidez que se poderia chamar de obscena.

Afinal, quase sessenta e um anos no mundo, quase sessenta e um anos de batente, de janela, de praia. Se eu ainda não conseguisse sacar nada da vida que vivo e que vivemos, eu nada mais seria do que o mais profundo poço de obtusidade.

Porém, claro que aprendi alguma coisa sobre mim e sobre a vida. Ah, como difícil é, estonteante até, desesperador (posso dizer) a gente sobreviver em um valhacouto continental de saqueadores eméritos do dinheiro público, de bucaneiros de nossa desprezada cidadania.

Também, o que desejar de um país, de uma nação em que a vida de um cidadão não vale um velho Cibazol? O povo brasileiro me parece sofrer de uma vocação inenarrável e retumbante para ser órfão ou vítima do poder em todas as esferas, sejam oficiais ou marginais.

Nesse ínterim, só para não perder o embalo, sempre é bom lembrar que o funcionário público, de um modo geral, vai virando um bicho de uma espécie em extinção, coitadinho. Sim, por que hei de negar uma verdade irrefutável e dolorosa?

O funcionalismo público, de calças na mão, o cinto apertado até o último buraco, de corda no pescoço, ajoelhado num tamborete perneta e se afogando de remorsos mil e tardios por não haver se rebelado a tempo.

Cada dia mais me convenço de que não existe nada no mundo comparável ao desamparo do cidadão a esta triste altura, embora uma ciranda de lantejoulas enfeitada, engalanada. O povo é o pior cego, o que não quer ver nada além de suas desgraças, de suas ilusões perdidas e traídas.

Ponho Miles Davis na vitrola, acendo um cigarro imaginário e chego à conclusão de que o jazz possui a milagrosa capacidade de atenuar-me as tensões do corpo e da mente, de suavizar as minhas angústias ou de aguçá-las de um modo insuportavelmente belo, belo.

Fico olhando velhas fotografias amareladas de meus desdobramentos celulares e descubro que meus filhos cresceram rápido demais, como todos os filhos, e me fazem perguntas demais sobre como fazer para viver num país melhor, sem a saída do exílio.

E cada vez mais descubro que menos vou sabendo respondê-las.


*Médico psiquiatra e escritor, Airton Monte é cronista de sua época, um colunista do Jornal da Praia desde a década de 1980. O Cibazol, antigo remédio para aliviar a dor, foi retirado de circulação pelo Ministério da Saúde



06 abril 2010

MODA SUSTENTÁVEL

Têxteis com origem ética*



Sabe aquela camiseta de algodão natural guardada no seu armário, que traz uma mensagem amigável, insígnia de banda de rock ou opinião política?

Na verdade, essa camiseta pode ser a roupa mais ambientalmente tóxica que você possui. Só para começar, lembremo-nos de que, no Brasil, são produzidas cerca de 450 milhões de peças de camisetas por ano.

De acordo com um estudo do IISD-Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, para confeccionar na China uma camiseta de 250 gramas utiliza-se, em média, 160 gramas de agrotóxicos.

Uma pesquisa do Departamento Agrícola dos Estados Unidos aponta ainda que cerca de um terço dos pesticidas e fertilizantes produzidos no mundo são pulverizados sobre o algodão.

A OMS-Organização Mundial de Saúde afirma que 25% dos inseticidas produzidos mundialmente são utilizados na plantação do algodão -- e quase metade deles são extremamente tóxicos.

O Aldicarbe (ou Temik 150) é, por exemplo, o segundo pesticida mais utilizado na produção de algodão mundial. Apenas uma gota dele, absorvida pela pele, é suficiente para matar um adulto.

Um levantamento do IISD, realizado em conjunto com o Centro para o Desenvolvimento Sustentável e o Meio Ambiente da Academia Chinesa das Ciências Sociais de Beijing, revela que o algodão está no topo da lista de produtos que precisam de controle ambiental.

Com isso, chegamos enfim a concluir que a água e os agrotóxicos utilizados no cultivo de algodão, os resíduos deixados nos rios e os restos despejados em aterros fazem com que o ciclo de vida da sua humilde camiseta de algodão tenha deixado um gigantesco rastro ecológico.

É por isso que celebridades, como o compositor/cantor Jason Mraz, apareceram na entrega dos Grammys usando ternos de plástico reciclado. Mas o movimento de "ecologização" da indústria da moda levanta uma pergunta ainda mais relevante: o que seria a moda sustentável?

Para encontrar respostas coerentes e práticas, é necessária a opinião de profissionais do lado menos atraente da indústria da moda, como pesquisadores ambientais e engenheiros de produção especializados na fabricação de tecidos, envolvidos em estudos de impacto ambiental.

No desenvolvimento de uma peça de roupa verdadeiramente orgânica, que não seja financeiramente exorbitante, designers, estilistas e consumidores de moda precisam trabalhar em conjunto com profissionais especializados em gestão de sustentabilidade.

No entanto, para ser qualificado como orgânico, o algodão ou lã devem passar por inspeções e processos sofisticados, de forma a que não sejam contaminados por produtos químicos e substâncias tóxicas.

Porém, a indústria têxtil mundial ainda encontra grande dificuldade para definir os padrões de qualidade mínimos necessários à criação de um produto realmente orgânico e sustentável.

No Brasil, diversos produtores da Paraíba já trabalham com a IFOAM-International Federation of Organic Agriculture Movements, visando atender à legislação referente a produtos orgânicos da Comunidade Européia e dos Estados Unidos.

Em 2007, cerca de 7,5 mil hectares nos Estados Unidos foram dedicados à safra de algodão orgânico. E programas como o “North American Organic Fiber Processing Standards” já estão se popularizando junto à indústria da moda.

De acordo com projeções do site DataMonitor, o mercado varejista de vestuário no bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) deverá chegar a US$ 253,6 bilhões em 2013. Por ser o principal produtor e importador de algodão cru e o maior exportador de tecidos de algodão e vestuário acabado do mundo, a indústria têxtil chinesa tem grandes interesses neste novo cenário.

Sendo assim, a China já está se organizando para estabelecer os requisitos necessários à obtenção de escala na cadeia de produção de roupas orgânicas. Vale lembrar que sua cadeia produtiva já passou por problemas que precisam antes ser resolvidos.

O avanço do vasto deserto de Taklimakan, por exemplo, cujas dunas engoliram cidades inteiras, apavorando os moradores dos subúrbios de Beijing, tem sido associado à produção industrial do algodão em larga escala na província árida de Xinjiang ocidental.

Para além da indústria têxtil, o universo da moda também está se mobilizando. No mês passado, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em Genebra, Suíça, realizou a EcoChic: um desfile de moda sustentável, em que conhecidos designers criaram peças a partir de fibras naturais fabricadas de forma mais sustentável.

Em fevereiro de 2010, na Fashion Week de Londres, a exposição “Estethica” foi dedicada à moda ecologicamente sustentável. Em março de 2010, o Fashion Institute of Technology, em Nova York, uniu forças com a Universidade de Delaware e com a escola Parsons de design para montar uma exposição de moda sustentável, intitulada "Passion for Sustainable Fashion", na qual os estudantes criaram roupas com matérias de origem ética e matérias-primas ecologicamente neutras.

Outra alternativa seria o processo de reaproveitamento de produtos descartados, como o Upcycling, do qual o terno de Jason Mraz é um bom exemplar. O problema é descobrir como fazer o Upcycling em escala comercial.

Em tudo isso, o mais importante é a conscientização de que "sustentabilidade" não se trata de modismos passageiros e sim de um assunto que deve ser abordado de forma séria e coerente.

*Carolina Cabral Murphy é pesquisadora da Columbia University e fundadora da MicroEmpowering.Org, sediada em Nova York (EUA)

**Imagem do Taklimakan -- o "deserto de onde não se volta" --, postada na web por Lilian Hellmann: 350 mil km2 de areias escaldantes




24 março 2010

"NÃO!" À RENDIÇÃO

Crise civilizatória*



As relações políticas são regidas por uma natureza especial, que é a conquista do poder. Nesse particular, diferem bastante das relações humanas comuns -- que são geridas pelos impulsos da paixão.

A política no mundo capitalista moderno tem se movido destruindo as bases que sustentavam as teorias políticas prevalecentes até o crepúsculo do século passado. O século XX foi um retrato da decadência dos pilares em que se estruturava a dinâmica e a evolução do progresso humano e político.

Ao mesmo tempo em que se valorizavam os princípios democráticos, na busca de eternizá-los e torná-los universais, desmanchavam-se pelas mãos invisíveis dos macrointeresses das corporações mundiais as partículas e os núcleos genéticos do fazer e realizar a política.

Daí a decadência dos partidos políticos e a mutação social advinda do crescente enfraquecimento da classe operária, desenraizada da vanguarda revolucionária, derivado dos avanços tecnológicos. O novo mosaico apagou o papel imaginado de força inata revolucionária, que tanto adubou o pensamento científico e utópico libertário de muitas gerações.

O mundo mudou de rotação e os velhos pensamentos pereceram pelos (des)caminhos inusitados da História. A crise mais retumbante é a da paralisia do pensamento intelectual acerca da complexa realidade.

Os utensílios conceituais que confortavam os intelectuais são hoje peças obsoletas, geradoras de perplexidade diante da marcha insensata dos acontecimentos. Há um sentimento de solidão no mundo, uma busca de refúgio nos esconderijos do individualismo. E, quando muito, uma tendência a se deleitar nas catedrais da distração do consumo.

As coisas banais da vida passam a ganhar relevo, tomando o precioso tempo da engenhosidade humana de compreender e transformar o mundo. Vivemos dos pequenos ódios, das alegrias fabricadas e da sede inconsequente de levar vantagem em tudo.

É uma crise civilizatória que atinge de cheio a nossa capacidade de raciocínio e imaginação. Há um vazio pairando no ar, que nos paralisa diante da bestialidade dos debates públicos e das mediocridades da vida privada.

A afetividade das relações pessoais se esfacela, gerando falta de generosidade e humanismo. Existe algo estranho dominando o comportamento humano, fazendo definhar a amizade, o carinho e a família.

Tudo parece ter virado um grande balcão de negócios, no pulsar egocêntrico do universo público e da intimidade. Talvez seja o apogeu da crise dos valores éticos e da decadência humana para enfrentar os grandes desafios históricos e das relações sociais.

Os parlamentos não mais traduzem os anseios coletivos, os partidos políticos viraram isopor, sem cheiro e sem sabor, boiando numa galáxia de interesses de corporações econômicas danosas. Discute-se o nada, propõe-se o inexistente e adiam-se as grandes decisões.

Não obstante, é tempo de repensar os passos, as instituições e a constituição de lideranças legítimas e enraizadas por esses novos eflúvios da contemporaneidade.

Antes, é preciso organizar o sentimento de perplexidade e apatia diante do caos que domina os destinos da humanidade. É insuficiente a crítica improdutiva e a fuga da salvação pessoal e da banalização dos afetos.

Os seres humanos não podem perder sua essência gregária. Não podemos nos render ao processo de desumanização, que só interessa às máfias bélicas e da guerra e ao mercado das drogas, que hoje avançam no domínio do poder.

*Fernando Cartaxo é sociólogo e jornalista




12 março 2010

BRASILEIRO TEM CABEÇA?

Pesquisa(s) e análise(s) (!)



Muito polêmicas são as conclusões brandidas no livro A cabeça do brasileiro, lançado em 2007 pelo sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida, e que representa, tomando-se as palavras do próprio autor, “um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta”.

Este — a quem o sociólogo, em primeiro lugar, dedica sua obra —, é exaltado como sendo "o Tocqueville brasileiro". Alexis de Tocqueville (Charles-Alexis Clérel de Tocqueville, 1805-1859), pensador e político liberal, foi um dos observadores mais lúcidos das transformações produzidas, em sua época, pela revolução liberal.

Este intelectual francês analisou a democracia na América igualitária, enquanto que DaMatta revela no Brasil uma sociedade tremendamente hierarquizada. E, o que nos interessa, Almeida nos mostra que pessoas de escolaridade baixa têm menos propensão a expressar os valores democráticos e igualitários, enquanto que “pessoas mais educadas tendem a se afastar da autoridade superior e a rejeitar as relações sociais verticais, em benefício de relações de poder mais horizontais”.

O trabalho de Almeida e suas conclusões realizaram-se através da aplicação de 2.363 entrevistas feitas nas cinco regiões do País, cujos questionários foram confeccionados a partir da teoria antropológica de DaMatta.

Os temas investigados na pesquisa, apresentados nos 11 capítulos do livro, variam entre racismo, o "jeitinho" brasileiro, hierarquia, relações parentais, sexualidade, a presença do Estado, o público e a lei na sociedade brasileira, entre outros.

No bojo de diversas observações, Almeida concluiu que, quanto menor o grau de instrução dos entrevistados, maior o índice de aprovação da quebra das regras sociais patrocinadas pelo “jeitinho brasileiro”. “Entre esta população de baixa escolaridade, há também uma tendência em mostrar-se tolerante com a corrupção”, afirma o autor.

O ponto que mais gerou polêmica em seu trabalho é que a pesquisa retira o véu religioso, que no Brasil encobre o discurso acerca da pobreza e dos menos instruídos, do cotidiano da nação.

Tradicionalmente, o governo e a igreja sempre se encarregaram de “cuidar” dos pobres e dos analfabetos. Sobre eles, historicamente, foi depositada uma película de comiseração ideológica acerca de qualquer crítica que, por acaso, se pudesse fazer aos pobres ou iletrados.

Outro aspecto impactante da pesquisa é a revelação de que a escolaridade baixa é a causa principal dos problemas brasileiros, num País — uma observação que não é do autor — onde o Presidente orgulha-se de não ter precisado de diploma para chegar ao cargo mais alto do Executivo.

Para o autor, “é a educação que comanda a mentalidade”. A pesquisa mostra que a população de baixa escolaridade tende a aprovar mais a censura e a intervenção do Estado, entre outras coisas. Por exemplo, 17% da população aprovam o nepotismo nos cargos públicos.

Esta faixa populacional também comanda um índice maior de aprovação no que se refere ao tão famoso "jeitinho" brasileiro. Estas práticas sociais agravam-se mais ainda, porque o "jeitinho" — o da pechincha, o da lábia, o da ginga, o das manobras políticas e o dos favores pessoais — acaba sendo a porta de entrada da corrupção.

Mas, tragicamente, a pesquisa revela que “o favor ainda é concebido pela população como algo legítimo na esfera pública”. Basta o leitor ouvir dos nossos políticos o número de vezes que estes se utilizam da palavra "negociação" quando deveriam se referir à palavra "discussão".

É sabido que o "favor" e o "jeitinho" sempre foram as práticas políticas mais convencionais da nossa história passada. Porém, daquela "sala-de-visitas", o governo atual passou definitivamente para o âmbito seguinte: o "espaço das negociações".

O governo, portanto, torna-se o lugar onde se fazem negócios — o que equivale a dizer que os brasileiros transformaram a política em compras e vendas de votos, projetos e medidas provisórias. Pior, as pessoas sequer dão-se conta do significado trágico desta semântica forçada.

Eu perguntaria, ao leitor esclarecido: esse tipo de política relacional feita na Casa do Povo entre parentes, amigos e amantes, é da ordem do "jeitinho", do favor ou da corrupção? Afinal, trata-se de uma "questão de ordem, Excelência!”.


*Gilberto Gnoato é psicólogo, mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência, professor do Curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e coordenador do Projeto Gincana de Morretes/PR


LEIA MAIS

www.estadao.com.br/estadaodehoje/20070826/not_imp41133,0.php

www.estadao.com.br/noticias/suplementos,como-anda-o-prazer,133357,0.htm

www.veja.abril.com.br/220807/p_086.shtml




17 fevereiro 2010

TRANSCICLAR É PRECISO

Arte revalorizadora


O documentário Lixo Extraordinário (Waste Land) recebeu dois prêmios em sua participação no 60.º Berlinale - Festival de Berlim: foi eleito pelo público, entre mais de 50 filmes, como Melhor Documentário da Mostra Panorama e ainda levou o prêmio independente concedido pela Organização de Defesa dos Direitos Humanos da AI-Anistia Internacional.

O longa-metragem mostra o desenvolvimento do trabalho do artista plástico Vik Muniz, tendo como cenário o Jardim Gramacho (foto) -- um dos maiores aterros sanitários do mundo.

Co-produzido pela O2 Filmes e pela inglesa Almega Projects, Lixo Extraordinário (Waste Land) já havia conquistado o prêmio do público como Melhor Documentário Internacional no Festival Sundance 2010.

Em Berlim, de 11 a 21 de fevereiro, Waste Land integrou a Mostra Panorama, paralela à disputa pelo Urso de Ouro -- seção do festival que se propõe a ser uma vitrine da produção mundial. Sua primeira exibição, no sábado 13, trouxe à metrópole alemã o co-diretor João Jardim e o produtor Hank Levine, que vieram acompanhar as sessões.

João Jardim, que dirigiu Janela da Alma e Pro dia Nascer Feliz, colabora em Waste Land com a cineasta Karen Harley e a documentarista inglesa Lucy Walker. Assinam a produção executiva os brasileiros Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro.

Com esta equipe, Lucy Walker propõe-nos um de seus mais elaborados projetos — uma instalação num imenso depósito de lixo, onde vivem os mais necessitados entre os desvalidos. Ali, muitos sobrevivem apenas dos descartes que encontram, reciclando-os de várias formas. Conhecidos como "catadores" ou "pluckers", alguns deles colaboram com Vik Muniz em seus experimentos de transcriação.

Um deles é Tiao, carismático sonhador que fundou uma cooperativa de catadores. Outro é o "traça" Zumbi, que devora livros como um genuíno intelectual. Há também a jovem Suelen, que com 18 anos já é mãe de duas crianças. Grávida de uma terceira, ela trabalha no lixão desde os 7 anos e tem orgulho de afirmar que nunca teve que se prostituir para viver.

Conduzidas por Vik Muniz, tais personagens transcriam-se em extraordinárias obras de arte. No processo, fotos dos catadores são ampliadas e reconstituídas com sucata, debris e outros descartes, sendo a seguir fotografadas para, por fim, retornarem transcicladas ao mercado.

Neste percurso, as personagens reciclam também a faina que inclui a transformação de si próprias, na constante ida e volta do aterro: o trabalho de Vik mexeu não somente com a visão que estas pessoas tinham de si mesmas, mas também alterou a forma de olharem para o mundo que habitam.

Em resumo, o documentário emoldura uma possível trajetória do lixo dispensado no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina, situado na periferia de Duque de Caxias (RJ) -- a de ser transmutado pelo artista plástico Vik Muniz, que após registrá-lo em fotografia o faz seguir rumo a prestigiadas casas de leilões internacionais.

Algumas destas obras inclusive retornam ao Rio de Janeiro, para compor as paredes da alta sociedade carioca. A estreia mundial do documentário Lixo Extraordinário, nos EUA, deixou o público do Sundance emocionado e perplexo, a ponto de aplaudir de pé o filme. "O instante em que uma coisa se transforma em outra é o mais belo de todos", sentencia Muniz.

“É surpreendente encontrar tamanha beleza no meio de tanto lixo, descaso e esquecimento. O trabalho do Vik funciona como um bálsamo no meio disso”, comemora Andrea Barata Ribeiro, co-produtora executiva do longa.



FICHA TÉCNICA
Waste Land* (Brasil/EUA/Londres - 2009), O2 Filmes & Almega Projects
Duração: 90 minutos
Ano de Produção: 2009
Diretores: João Jardim, Karen Harley, Lucy Walker
Produtores: Angus Aynsley e Hank Levine
Produtor Executivo: Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro
Fotografia: Duda Miranda
Patrocínio: BB Seguros, Brasilveículos, Brasilcap, Eletrobrás

*Viabilizado pela Lei do Incentivo ao Audiovisual (Art. 1.º A)


SAIBA MAIS
http://www.vikmuniz.net/

http://www.wastelandmovie.com/

29 janeiro 2010

DESGLÓRIAS VÍVIDAS

Antes que a chuva*



(I - Da Temporada 2010)
Férias, sol, suor e cerveja: alegria na cidade! Está aberta a nova temporada de caça ao turista.

O taxista engrena três meninas novas no pedaço, combinam porcentagens, discutem locais... o porteiro do hotel da Beira-Mar, do motel da Parangaba e da quitinete no Centro concordam com os índices. Os pais das meninas também.

Os restaurantes confeccionam novos cardápios, sempre com alguns números a mais.

Os meninos doiradinhos de sol descem o morro, canelas secas e ligeiras atrás do "gringo velho" que desapareceu no Novo México -- e, dizem, reapareceu em Iracema.

Os sujeitos das vans caçam vítimas: "Atenção, senhor! Três praias por 80 réis..."

Buggies assassinos esperam novas vítimas. Enquanto isso, cavalos, burros e jumentos cagam na onda branquinha.

O paredão de som ameaça com o "mais novo sucesso" da axé music e do forró eletrônico.

Três novos garçons foram contratados na barraca. Os olhos vermelhos miram câmeras e celulares.

No velho teatro, pseudo-humoristas desenferrujam velhas piadas, bufônicas, histriônicas e carregadas de preconceitos. Sacaneiam o carequinha, o gordito, o branquelo... arrancam o riso a fórceps.

Fecham o velho turismo nosso dos "três PPP": Praia, Prostituição Infantil e Piada de Mau Gosto.

"Está aberta, senhores, a nova temporada de caça aos turistas. Mas por favor, não os assustem, para que voltem! Vivos!"


(II - De paradidáticos)
E depois da famigerada corrida às compras de Natal e Ano Novo, os esfomeados comerciantes já afiam novamente suas garras, por trás dos mil livros escolares...

Além, os primos-pobres ensaiam sadismos, entre as árvores da Praça dos Leões.

— Olha aqui, freguês! Me mostra sua lista! Aqui a gramática novinha, já com o novo acordo ortográfico... Não tá riscada!... Custa 80 paus na livraria...

O "freguês" se esquiva do vendedor, do trombadinha e vai atrás do Papai Noel, que cortou a barba e é especialista em paradidáticos...

Quando se sente segura, telefona para o marido. "É melhor comprar no colégio, dividido em seis vezes..." Não chegam a um acordo e ela sai apressada, arrastando o menino e três sacolas cheias na direção do Passeio Público.


(III - De Pré-Carnavais)
Ano bom que se preze só se inicia depois do Carnaval, o meu apenas após a Semana Santa. E olhem lá!!!

E uma das desculpas preferidas do cearense é a de que "o Carnaval não, mas o Pré-Carnaval aqui é ótimo". Lenda urbana, igual à da Perna Cabeluda (que é de Recife), a Loira do Banheiro e a recente "Railux Preta".

(Aliás, somos pródigos em lendas urbanas, as mais variadas e nocivas possíveis: a de que o turismo beneficia a todos, a de que temos por aqui futebol, a de que a cidade é bela... e outras mil mais.)

Pois bem, se o Carnaval em três dias (?) já incomoda meio-mundo, imaginem os diversos pré-carnavais em cada canto desta nossa desvalida loirinha desvirginada pelo sol.

Do Periquito da Madame ao Vai dar o Carlito, do Cachorra Magra ao Rosca de Chifre do Zé Walter, do Num Ispaia senão Ienche, do Luxo da Aldeia ao finado Quem é de Bem Fica.

E tomem marchinhas mal-tocadas pelos ouvidos afora, e tomem fedor de mijo pelas calçadas semana adentro, e tomem cerveja quente pelo fígado alheio, e tomem "saidinhas" de blocos pelas ruas adjacentes...

E tomemos nós, insossos fortalezenses, barulhos sem-fim pelo mês de janeiro em diante...

E tomemos, nesse andor todos nós, no...



*Pedro Salgueiro constroi contos e crônicas e enreda palavras (de amor) à capital cearense como só ele sabe


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www.revista.agulha.nom.br/psalgueiro6.html

www.bestiario.com.br/16_arquivos/mestre%20resenha.html

20 janeiro 2010

A TERRA & A HUMANIDADE

Comunidade de destino*



Temos que começar o ano com esperança: urge fazer frente ao clima de revolta e frustração que significou a COP 15 de Copenhague.

Seguramente, o aquecimento global comporta graves consequências. Numa perspectiva mais filosófica, o fenômeno não se destinaria a destruir o projeto planetário humano. Mas, vem, porém, obrigá-lo a elevar-se a um patamar mais alto, existir concretamente: do local ao global e do nacional ao planetário.

Se olharmos para trás, para o processo da antropogênese, podemos seguramente dizer: a crise atual -- como as anteriores --, não nos levará à morte, mas a uma integração necessária da Terra com a Humanidade.

Será a geossociedade. Neste caso estaríamos, então, face a um sol nascente e não a um sol poente.

Tal fato objetivo comporta um dado subjetivo: a irrupção da consciência planetária com a percepção de que formamos uma única espécie, ocupando uma casa comum com a qual formamos uma comunidade de destino.

Isso nunca ocorreu antes e constitui o novo da atual fase histórica.

Inegavelmente, há um processo em curso que já tem bilhões de anos: a ascensão rumo à consciência. A partir de geosfera (Terra) surgiu a hidrosfera (água), em seguida a litosfera (continentes), posteriormente a biosfera (vida), a antroposfera (ser humano) -- e, para os cristãos, a cristosfera (Cristo).

Agora, estaríamos na iminência de outro salto na evolução: a irrupção da noosfera, que supõe o encontro de todos os povos num único lugar -- vale dizer, no planeta Terra -- e com a consciência planetária comum.

Noosfera, como a palavra sugere (nous em grego significa mente e inteligência), expressa a convergência de mentes e de corações que dá origem a uma unidade mais alta e complexa.

O que, entretanto, nos falta é uma Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade, que coordene as consciências e faça convergir as diferentes políticas.

Até agora nos limitávamos a pensar no bem comum de cada país. Alargamos o horizonte, ao propor uma Carta dos Direitos Humanos. Esta foi a grande luta cultural do século XX.

No entanto emerge, premente, a preocupação pela Humanidade como um todo e pela Terra, entendida não como algo inerte, mas como um superorganismo vivo, do qual nós, humanos, somos sua expressão consciente.

Como garantir os direitos da Terra junto com os da Humanidade? A Carta da Terra, surgida nos inícios do século XXI, procura atender a esta demanda.


*Leonardo Boff é teólogo, escritor e professor universitário

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www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html

http://blogs.opovo.com.br/yoga/categoria/ecologia-e-paz

12 janeiro 2010

VIVENDO E (DES)APRENDENDO

Trogloditas corporativos*



Décio, um leitor antigo, me escreve desconsolado. Não aguenta mais o ambiente de trabalho. Tem 28 anos, um espírito criativo e uma inquietação próprios de pessoas que gostam de fazer acontecer.

Quando saiu da Universidade tinha planos de tornar-se executivo de uma grande empresa, o que acabou conseguindo. Trabalha numa multinacional de serviços.

Cresceu praticamente do zero, pois começou na empresa sete anos atrás, como estagiário. E aprendeu e realizou muito, até atingir o cargo de gerente, quando os problemas começaram.

Repentinamente viu-se retirado de um grupo de pessoas que passa o dia fazendo acontecer e foi transferido para outro grupo, o das chefias. Onde fazer política é mais importante que fazer acontecer.

E do dia para a noite, ele — que era um funcionário badalado e sempre motivado pelos chefes — viu-se jogado num mundo onde a lógica, a motivação e o "pensar pelo bem de todos" perdeu o sentido.

Décio repentinamente descobriu que estava lidando com um tipo de gente diferente, os que não fazem e não deixam fazer.

Suas argumentações técnicas deixaram de ter sentido diante do "sempre foi assim", "não se aplica ao nosso negócio", "para o bem dos acionistas" e outras frases prontas destinadas a torpedear qualquer idéia ou projeto que intimide os que preferem a zona do conforto.

Numa das reuniões, Décio viu-se aos brados com um diretor comercial que não queria a implementação de um projeto que ajudaria a área comercial. O argumento era um "isso não serve" vazio, apoiado no "achismo"...

Décio não demorou a transformar sua irritação em desilusão. Sua idéia havia sido bombardeada não pelos méritos técnicos ou incapacidade de inovar e trazer benefícios para a empresa, mas pelos interesses políticos que ela ameaçava. Era uma excelente idéia, mas vinha de "outro". Portanto, não era possível "deixar fazer".

Pois a situação do Décio é muito mais comum do que ele, eu ou você imaginamos. Eu topo todo o tempo com gente que "não faz e não deixa fazer". São "trogloditas corporativos", os piores males que qualquer empresa pode ter. São inimigos internos, gente que aparentemente está imbuída das melhores intenções mas, no fundo, apenas luta pela manutenção de suas posições de poder.

Para essa gente, qualquer idéia vinda de outra área é uma ameaça que precisa ser destruída. Afinal, pode dar certo e projetar o autor a um nível igual ou superior ao do ameaçado. É o jogo político corporativo, a verdadeira razão da maioria dos problemas que afligem as empresas.

Tem gente que diz que é ego. Outros dizem que é incompetência. Tem quem jure que é saudável e necessário.

Pois eu acho burro. Mas compreendo que esse jogo deve ter se iniciado dentro de uma caverna, milhares de anos atrás.

O mundo evoluiu, mas os trogloditas corporativos continuam sua missão de não fazer e não deixar fazer.

Pobre Décio.


*Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.



06 janeiro 2010

VACILOS E CAMELOS

O buraco da agulha*



Noite de 31 de dezembro. O telejornal saía do ar por alguns instantes para dar espaço ao intervalo comercial. A última imagem era a de dois garis que, abraçados, olhavam para a câmera da reportagem e desejavam a todos um "Feliz Ano Novo".

Por um descuido técnico, desses que já derrubaram ministros no auge do prestígio, o microfone do âncora permaneceu ligado. Enquanto a vinheta de passagem se movimentava na tela, em milhões de lares ouviu-se o comentário jocoso do repórter: "Que merda, dois garis, a escala mais baixa de trabalho, desejando felicidade!" -- foi o que disse Bóris Casoy.

Não foi um deslize ético porque o profissional não teve a intenção de se manifestar no ar, publicamente, mas o comentário é muito revelador sobre a visão de mundo de muitos que, absortos numa vida pautada por valores materialistas, se alienam do sentido essencial da vida.

Para pessoas como o repórter, só um alienado seria capaz de sentir alegria e cultivar esperanças vivendo nas condições modestas em que vivem os garis. Há quem, isolado pelos muros do conforto, mimado em seu universo de luxo excedente, perca a capacidade de perceber a beleza das coisas pequenas.

Aquele gari deve ter filhos, por exemplo, e a alegria de revê-los em casa, após uma jornada extenuante de trabalho, justifica existencialmente pelo menos uma parte de suas privações. Quem sabe a métrica com que se mede o amor? Não tenho motivos para considerar aquela uma alegria menor do que as minhas, que ganho o meu sustento de modo menos árduo.

Como eu, como você, aquele senhor que limpa as ruas torce por um time de futebol, visita seus pais aos domingos, tem amigos na rua onde mora e todos aqueles vínculos simbólicos e afetivos que aliviam o fardo da existência e alimentam o espírito -- com um significado sempre renovado para esse mistério que se chama Vida.

Extrair prazer das coisas simples é o tesouro dos pobres. Há neles uma demanda de realização humana que, de tão reprimida e negada, se mobiliza ao menor indício de gozo. Por isso, é tão fácil se perder desses vínculos gratuitos com a graça quando se alcançam as distrações do conforto.

É o "buraco da agulha", na metáfora do profeta nazareno.


*Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Imagem: Needle's Eye -- formação rochosa do Custer State Park, South Dakota, USA, em www.gdargaud.net --, sob a qual espreme-se o fio da Needle's Highway

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ricardofortaleza@uol.com.br

22 dezembro 2009

TUDO AO REDOR

Natal com Cristo



Seríamos todos verdadeiramente felizes se passássemos o Natal com Cristo. Preferimos inventar, no entanto, umas bobagens e enchemos a imaginação de nossos filhos com Papai Noel, veados, renas, trenós fantásticos, Polo Norte imaginado.

Escondemos a realidade que construímos em redor de nós, com seres humanos vivendo nas favelas em situações as mais indignas e humilhantes.

Sabe qual é o Papai Noel que mais admiro? Ele existe de verdade e não faz a barba, porque não tem dinheiro para comprar qualquer tipo de barbeador. Quando ele passa, segurando um cordão com seis caixas de sapatos, sem sapatos, para mim é o Papai Noel mais importante do mundo.

O mais galante. As senhoras o adoram quando ele deixa uma caixa vazia em frente às suas casas, na favela. Durante alguns dias, vão viver como seres humanos e não como bichos -- para falar melhor a verdade, como gatos.

No caminhão de lixo, ninguém jamais abre as caixas: "É o esgoto dos pobres" -- explicam os lixeiros veteranos aos funcionários novos.

No Brasil atual, brincamos com Democracia e Cristianismo. Não levamos os dois a sério. Os políticos em Brasília piedosamente deram-se as mãos e rezaram o Pai-Nosso pelo presente de Natal que a Democracia Brasileira lhes deu: as verbas roubadas.

Tempo de Natal! A Liturgia católica recomenda ler, neste ano, o evangelho de São Mateus. Você, católico relaxado, vai mesmo morrer sem jamais ter lido um evangelho da primeira à última página? São tão poucas folhas!...

Somente umas vinte! Não tenha a Eternidade para se arrepender...

Com Cristo, tenham todxs um feliz Natal de verdade. Contado por Mateus!


*O professor Roberto de Carvalho Rocha é diretor da Faculdade Christus em Fortaleza

SAIBA MAIS
www.christus.com.br

14 dezembro 2009

PROPAGANDA ENGANOSA

Óleo: menos é melhor



Por que há toda esta preocupação com o óleo de cozinha usado, que é 100% biodegradável? Porque dá dinheiro e tem gente oportunista se aproveitando da falta de informação das pessoas para obter matéria-prima de graça. Será mesmo que elas estão preocupadas com o meio ambiente?

É contraditório, porque os mesmos que dão ênfase ao óleo de cozinha não se preocupam com o óleo que vaza dos motores de carros e caminhões: reparem, nas vagas de estacionamento, quanto óleo vaza do cárter dos veículos.

E quanto aos lubrificantes, que são descartados no ambiente de qualquer jeito? E quanto aos resíduos de óleo (filtros, peças quebradas e estopas encharcadas de óleo) das oficinas mecânicas, desovados em áreas preservadas? Estes resíduos é que poluem para sempre, já que não são biodegradáveis e afetam gravemente a saúde das pessoas e são cancerígenos.

O óleo de cozinha é um resíduo totalmente biodegradável e, se fosse tão terrível assim, não poderia ser usado como alimento. O volume que é lançado no esgoto não chega a ser mais do que um litro a cada 100 mil litros de esgoto. A própria água é um bom solvente de óleos vegetais. Por isso, nunca ninguém viu um filme de óleo de cozinha na estação de tratamento de esgoto, muito menos nos rios. O impacto de pasta de dentes, sabão, xampu, detergentes, produtos de limpeza em geral, resíduos de remédios e hormônios dos humanos é muito maior.

Para as pessoas, apenas um litro de óleo de cozinha usado não vale nada. Mas, para quem consegue juntar centenas de litros sem ter custos, vale bom dinheiro. Então, tudo o que precisam para conseguir matéria-prima de graça (e faturar) é de uma boa propaganda enganosa, de que as pessoas "ajudam o meio ambiente" se depositarem o óleo de cozinha usado em algum lugar.

Com este lucrativo negócio de obter matéria-prima a baixo custo, ou até de graça, estão proliferando indústrias químicas altamente poluentes para processar óleo de cozinha e transformá-lo em algo altamente nocivo para o planeta: em combustível, tintas e vernizes, substâncias que não se degradam nunca mais e que vão poluir mais ainda o planeta e agravar o problema do aquecimento global. Que ajuda para a natureza é essa?

A indústria que processa óleo de cozinha é uma indústria química como qualquer outra e requer, portanto, atenção especial dos órgãos de fiscalização ambiental. A transformação do óleo de cozinha em biodiesel, por exemplo, consome vários insumos (substâncias químicas) e gera resíduos altamente tóxicos e perigosos que necessitam de destinação especial, em locais devidamente licenciados para receber este tipo de material tóxico — e isso custa caro.

Nada contra as entidades assistenciais coletarem o óleo de cozinha para arrecadar fundos. Mas não é ético apelar para a questão ambiental, enganando as pessoas, ao dizer que elas "ajudam o meio ambiente" se depositarem o óleo usado. Porque, com certeza, não ajudam.

Trata-se de um apelo de marketing enganoso. Na verdade, as pessoas ajudariam o meio ambiente se diminuíssem um pouco o consumo de óleo de cozinha. O impacto considerável que o meio ambiente sofre é para produzir o óleo. Basta ver os índices de desmatamento batendo recordes sucessivos para plantar soja.

E, justamente, nessa questão mais crucial, neste momento em que vivemos, estas campanhas deixam a desejar, porque passam uma falsa ideia de que não há problemas em consumir à vontade o óleo de cozinha.

Ou seja, aliviam a nossa consciência e podem até estimular as pessoas a consumirem mais óleo de cozinha.


*Germano Woehl Junior é mestre em Física pela USP e doutor em Física pela UNICAMP, e um dos fundadores do Instituto Rã-bugio em Jaraguá do Sul/SC.

SAIBA MAIS
www.ra-bugio.org.br

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13 dezembro 2009

TEMPO NÃO PARA

Óbvio que subsiste


Constantemente sou convidado a falar para grupos de jovens em escolas, entidades e eventos específicos. É sempre uma experiência fascinante pegar pela frente uma platéia jovem, faminta por informação e questionadora.

Numa das últimas vezes, falei sobre minha experiência de 26 anos como executivo numa multinacional. Hoje como empresário, olho o universo corporativo sob um novo ponto de vista, que me leva a pequenas reflexões sobre o que vi e aprendi.

Achei que valeria a pena compartilhar algumas com você:

Se você é cliente e acha ruim ser tratado com desrespeito, espere até ser fornecedor. Você provavelmente será visto como um Zé qualquer, que sempre chega na hora inconveniente para roubar o tempo dos outros. E vai ter que esperar. Esperar que seu e-mail seja retornado. Que seu telefonema seja atendido. Que seu interlocutor o receba...

Todo mundo parece ocupado demais para ser educado. E-mails e telefonemas não são retornados. Reuniões têm o horário desrespeitado, mesmo que você venha de muito longe. E ninguém pede desculpas. Ficou tão normal ser mal-educado que quando alguém respeita as regras da educação, ficamos espantados! Comentamos, até! Não é uma inversão total de valores?

Que feio... Será preciso um livro japonês, um guru estadunidense, um processo alemão ou a ISO xis mil para que a educação volte a fazer parte dos relacionamentos profissionais?

Outro ponto: todo mundo está com medo. Medo do concorrente, medo de tomar decisões erradas, medo que as ações caiam, medo de perder o emprego. Houve um tempo em que esse medo era o gatilho que gritava: “mexa-se!” e fazia com que as pessoas criassem soluções.

Mas hoje é diferente. Alimentado pela insegurança, pela falta de autonomia, pela ignorância sobre o negócio, pela gritaria da mídia sensacionalista, o medo hoje é criado por gente que jamais se preocupou em preparar seus sucessores. Por sistemas criados para pulverizar as responsabilidades e os processos de tomada de decisão. Assim, o que antes era resolvido em uma semana agora leva seis meses. O medo que desafiava, agora só paralisa.

Mais um ponto: você pode ser um gênio, mas estar estúpido. Ser e estar. Se a genialidade é inata, a estupidez é uma condição. Ninguém deixa de ser inteligente ou genial. Mas todo mundo está propenso a praticar atitudes estúpidas. Somos todos bons em alguma coisa e ruins em outras. Reconhecer os momentos em que estamos estúpidos é o primeiro passo para atenuar os problemas. Mas quem é capaz de se reconhecer estúpido?

E por fim: neste Brasil do novo milênio parece que perdemos a capacidade de aprender com nossos erros. Os erros de hoje, que são os mesmos de 10, 20, 30 ou 100 anos atrás. Estão mais sofisticados, informatizados, teorizados e enfeitados. Mas são os mesmos erros de sempre. Será que ninguém aprende?

Boa educação, coragem, reconhecer nossas limitações e aprender com os erros.

No meu tempo, o nome disso era “obviedades”. Hoje, é “exceções”.


*o colunista Luciano Pires é profissional de comunicação, jornalista, escritor, palestrante e cartunista ("blah, blah, blah" por Mel Bochner)