08 setembro 2014

O MUNDO É UM CAMPO MINADO


A tormenta*


Apesar de nos ter sido emprestada há milhões de anos, tão limitados e incompetentes que somos, ainda não conseguimos tomar posse da vida.

O ser humano já é incompreensível até por definição, quando diverge daquilo que é, o ser propriamente dito, concebido pela natureza involuntária, talvez pela transa irresponsável de estrelas num orgasmo da Via Láctea, daquilo que o faz ser humano, em seu caráter integral, consciente e merecido, de quem é pelo que se faz ser.

Viver é tão único e tão solitário que é difícil mensurar o quanto perdemos, ou mesmo o que ganhamos nessa conjunção coletiva, sinuca de alteridades, na complexidade de nossa relação com o que está além da nossa individualidade, dos nossos desejos, do nosso ser gratuito, tão desconhecido de nós, mas, certamente, íntimo de todos e qualquer um.

O mundo é um campo minado, e não uma colina de flores do campo, e daí exige a perda da ingenuidade, a atenção redobrada, a sensibilidade e a noção exata do peso da nossa pisada.

No correr da História, e da histeria, rumamos culturalmente num saco de gatos universal, apoteótico, com destino certo ao espetáculo, ao grande teatro do absurdo, cuja nossa audiência útil amuralha o império de forças que têm como argumento, principalmente nos tempos modernos, os caríssimos anúncios e a publicidade chula, criados por agências de pseudointelectuais devoradores de long-necks e drinks coloridos. 

A máquina não para, movida sempre pela intensa e cruel brutalidade financeira, causa maior, quase sagrada, dos espíritos opressores da humanidade, insaciáveis porcos comedores de bacon, genocidas, fascistas e admirados postadores de selfies europeus, levantando taças de vinho cor-de-sangue brasileiro, ou abrindo os braços como manjadas estátuas, pontes e postes dignos de gerar a inveja nos tão medíocres quanto eles.

O fogo do poder e da ambição se alastra nos intestinos magnânimos desses porcos egoístas, corroendo-lhes as vísceras e deixando-lhes em cirróticas cinzas o lúmen de sua alma original. 

Resta-lhes, para disfarçar o carcoma, cobrir-se com roupas caras, banhar-se com perfumes franceses, andar em carros do ano, comprar toda bobagem ultramoderna, dar de presente garrafas de bebidas envelhecidas para parceiros (leia-se “interesseiros”) com quem dividem suas aparentes vitórias e conquistas. 

À noite, o fantasma da ansiedade e do medo não os deixa dormir, ou os acompanha na hemorroida doída ou no desdém indesejado do(a) companheiro(a) de leito.

Para suportar a dor desta vergonha inconfessável, adoçam a boca com álcool, entopem o sangue com drogas, consomem sapatos e acessórios no shopping mais próximo, mas nada, simplesmente nada, afasta deles o medo de perder tudo aquilo que eles bem sabem ser apenas uma farsa.

Porém, mesmo assim, somos nós quem os alimentamos, os incentivamos e permitimos que esses porcos dominem o mundo, subam as rampas, vistam-se em togas, nos representem, ganhem voz aos microfones, decidam a nossa vida, gastem o nosso dinheiro com armas, com projetos de fachada, náufragos e megalômanos, em negociações vergonhosas.

Permitimos que eles decidam os destinos das nossas crianças, que deixem nossos velhos ao relento, que esqueçam das populações mais pobres e sentenciadas pelo não-poder, que cultivem um celeiro de segregação, de injustiça, de desigualdade, de gente que nunca vai saber até onde poderia chegar se tivesse alguma oportunidade.

Diante de tão opressora e impassível realidade, sofre quem ainda se indigna com o sofrimento alheio, quem é sensível às possibilidades do ser e do mundo, quem muito gostaria de crer na possibilidade de algo diferente.

Escolher nos parece sempre tão difícil... mas, sinceramente, o que queremos mudar se nem mesmo aprendemos a colocar o lixo na lixeira?


*O escritor Raymundo Netto é designer, quadrinhista, 
produtor cultural e editor-adjunto da Fundação Demócrito Rocha

05 setembro 2014

SOU DA MINHA TRIBO


A Escolha*




Qualquer pessoa que tenha estudado as questões que envolvem moral e ética, em algum momento deparou-se com o conceito do Imperativo Categórico, criado pelo filósofo Immanuel Kant por volta de 1785. 

“Imperativo”, no contexto utilizado por Kant, pode ser entendido como “mandamento”. E “categórico” é o que não aceita dúvidas, o “indiscutível”. Imperativo Categórico então seria um Mandamento Indiscutível, que Kant explicou assim: "Aja apenas segundo a máxima que você gostaria de ver transformada em lei universal." 

Simplificando: você deve agir baseado em princípios que desejaria ver aplicados para todo o mundo. 

Você vai ao estádio assistir a um jogo de futebol, entra no embalo da torcida e decide fazer parte do coro que xinga o goleiro do time adversário, que é negro: 

- Macaco! 

Tá todo mundo xingando, pô! Você é só mais um(a), que mal há em zoar o adversário? Afinal de contas, estádio de futebol é o lugar onde a gente xinga todo mundo, não é? Pois é. 

Mas então você recorre ao Imperativo Categórico de Kant: “E se aquele goleiro fosse eu? Me sentiria bem ao ser chamado de macaco?” 

É claro que não! Então, apesar do calor da torcida, você decide não xingá-lo. Esse é o princípio que você gostaria que fosse seguido por todo mundo. 

Pois é. 

Mas ao decidir não xingar, você abre mão de parte do exercício de combater o adversário. Você se coloca fora da tribo. Ou melhor, do coletivo, pra ficar na moda. Afinal, o papel da torcida é motivar seu time a seguir adiante e desmotivar o adversário para que ele perca o jogo. A única forma de fazer isso é... torcendo! Gritando, vaiando, cantando, xingando! E quem acha que não é assim é porque nunca pisou num estádio. 

Ao ser coerente com seus valores morais e não xingar, você deixa de tomar parte num rito importante do torcedor, não faz mais parte da patota na plenitude. Se bobear é até criticado(a) e corre o risco de não ser aceito(a) pelo grupo. 

Tá certo, estou exagerando, mas no fundo esse é o conceito: xingo pois todos xingam e assim sou aceito pela tribo. 

Em minha palestra Tudo bem se me convém, falo desse que é o grande dilema da humanidade: agonizar com os prejuízos de fazer o que é certo, honrar a palavra dada, agir com compaixão... ou ser bem-sucedido ignorando esses valores? 

Bem, depende do que você considera ser "bem-sucedido", não é? Se dar bem com a desgraça do Outro é ser bem-sucedido? E se o Outro for você? 

Negociar ambições, riscos, ilusões e trocas consigo mesmo(a) tem sido nosso grande desafio ao longo dos tempos. 

Quem vive verdadeiramente seus valores agoniza diante de escolhas morais. Corre o risco de não ser aceito pela tribo. 

Já quem deixa esses valores apenas pairarem sobre sua vida, nem percebe que essas escolhas precisam ser feitas. E chama o goleiro de macaco. 

- Mas e se o goleiro se sentir ofendido? 

- Ah, tudo bem se me convém. 

Agora que você já sabe o que é o Imperativo Categórico de Kant, talvez consiga reconhecer as pessoas que não vivem de acordo com ele. 

E escolha não fazer parte dessa tribo. 



*O jornalista e palestrante Luciano Pires comanda um baita serviço de despocotização .

SAIBA MAIS
www.portalcafebrasil.com.br

17 julho 2014

UM LUGAR MELHOR


"Às vezes ouço o canto
de uns passarinhos..."*

Bucolismo: "The Reflection Pool" com "The Singing Tower" ao fundo

Em Julho de 2014 a tradicional revista mensal norte americana Ladies’ Home Journal, com 131 anos de idade, publicará a sua última edição. A revista continuará apenas na internet, mais um sinal da mudança dos tempos. Ao ler a notícia me lembrei de um “causo”.

Conheci o Ladies' Home Journal através de um de seus editores, Edward Bok (de origem holandesa, seu nome de batismo era Eduard Willem Gerard Cesar Hidde Bok. Nascido em outubro de 1863, partiu em janeiro de 1930, levando consigo um prêmio Pulitzer), que escreveu um livro chamado The Americanization of Edward Bok

Nele ele conta a história de seu avô, que viveu na Dinamarca e foi designado pelo rei para liderar um grupo de soldados no combate a piratas que infernizavam uma região da costa dinamarquesa. Bok instalou seu quartel-general numa ilhota desolada e, após alguns anos de luta, conseguiu dizimar os piratas. Agradecido, o rei perguntou a Bok o que ele gostaria de receber como retribuição, e ouviu atônito o pedido: um pedaço de terra na tal ilha desolada. 

Ninguém entendeu, pois a ilha era um pedaço de nada, sem qualquer estrutura; como alguém poderia querer viver ali? E Bok respondeu: “Quero plantar árvores, quero tornar a ilha um lugar bonito”. Enlouquecera? Além da desolação, a ilha era constantemente assolada por temporais e fortes ventos! Ele seria incapaz de plantar qualquer coisa ali!

Diante da insistência, o rei concedeu o pedido e Bok mudou-se para a ilha, construiu uma casa e levou consigo sua esposa. Por anos os dois, laboriosa e persistentemente, plantaram árvores, grama e arbustos pela ilha. Gradualmente a vegetação tomou conta e, numa manhã, eles acordaram com o canto de pássaros. Até então, jamais havia aparecido um pássaro por lá! Com o tempo a ilha se tornou um lugar aprazível, que hoje é visitado por milhares de turistas. Ao morrer, o velho Bok pediu que inscrevessem em sua lápide: “Faça o mundo um pouco mais bonito e melhor porque você viveu nele.”

Muitos anos depois, Edward Bok, o neto, aos 50 anos de idade se aposentou do Ladies’ Home Journal e, um dia, viajando pela Flórida, ao conhecer um lugar chamado Iron Mountain, o ponto mais alto da Flórida, teve uma ideia: por que não repetir o feito de seu avô?

Ele então comprou o terreno e transformou a área no Mountain Lake Sanctuary, em Lake Wales. Ao morrer, deixou a propriedade para o estado da Flórida. Hoje o local é uma atração turística — também conhecida como Bok Tower Gardens, que você pode apreciar em boktowergardens.org.

Na lápide de Edward Bok, o neto, está escrito: “Faça o mundo um pouco mais bonito e melhor porque você viveu nele.”

Conto essa história para celebrar os 10 anos de lançamento de meu livro Brasileiros Pocotó que floresceu para dar no que hoje é o Café Brasil, minha vida, meu propósito, o que sou. Em 2004 eu tinha 48 anos de idade e a intenção de ajudar a desemburrecer o Brasil e fazer o mundo um pouco mais bonito e melhor, sabe porquê?

Porque vivo nele.

Dez anos depois, constato que não é fácil, todo dia é uma luta, às vezes dá desânimo, sensação de impotência e vontade de desistir. Mas aí ouço o canto de uns passarinhos...

“Fazer o mundo um pouco mais bonito e melhor porque você viveu nele.”

Obrigado por compartilhar do mesmo propósito.



*Luciano Pires é jornalista, blogueiro e trabalha com muito
afinco no afã de tentar despocotizar a mente da brasileirada.
Imagem: The Singing Tower, em Bok Tower Gardens (FLA)


30 junho 2014

QUANTOS TÃO BELOS?!?


Uma cidade 
e um Theatro* 






O Theatro José de Alencar completou 104 anos e a data merece comemoração. A junção de estilos associada à configuração espacial resultou em territórios distintos que fazem do centenário Theatro uma lenda. 

O jardim desenhado por Burle Marx e a sede do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional formam um conjunto arquitetônico belíssimo, harmonioso e monumental numa cidade carente de edifícios de prestígio. 

Só isso já justifica sua inserção na iconografia urbana, e muitos, especialmente, os de fora, associam imediatamente a imagem do José de Alencar com a própria cidade. O que seria de Fortaleza sem ele?

Foi-se o tempo em que as casas de espetáculos de grande porte, equipadas para suntuosas apresentações, ocupavam lugar de destaque na paisagem urbana. Fortaleza conta com palcos para os mais variados espetáculos. Contudo, nenhum se destaca. Podem contar com modernos recursos cênicos, mas não compõem o perfil urbano da cidade. 

Essa condição e qualidade são exclusividades do charmoso Theatro. Raros são os artistas que não registram sua emoção ao se apresentar no palco do garboso José de Alencar.

Sua arquitetura majestosa se destaca na extremidade sul da Praça com o mesmo nome. A cidade cresceu, seguiu novas direções e o velho Centro se ressente muito. Tentaram tirar tudo do bairro mais tradicional de Fortaleza. Entretanto, o velho Theatro resiste, contraria os que apostavam em sua decadência.

O povo reverencia o José de Alencar a seu modo. Ninguém é indiferente à sua grandiosidade. Os adeptos da dramaturgia e de outros espetáculos continuam prestigiando sua programação. Ficam pouco tempo. Formam fila na bilheteria, assistem às apresentações e saem rapidamente. Nas ocasiões de grandes solenidades, o Theatro se engalana, amplia sua sala de estar avançando pelos jardins e garante festas concorridas e elegantes. 

Entretanto, é na faina cotidiana da vida da cidade, no meio de um povo apressado, que se percebem os vínculos afetivos do cidadão com a tradicional casa de espetáculos. Ninguém passa por ele de forma indiferente. Uns se benzem. Pensam tratar-se de igreja. Outros alteram o ritmo dos passos e, curiosos, olham as portas enormes, o frontal, a vidraça da fachada interna. Observam o jardim.

O tempo passou e o Theatro resistiu. Uma visita guiada é imperdível. Contemplar as pinturas de Ramos Cotoco, subir as escadinhas helicoidais das torrinhas e do alto constatar a ousadia da fachada vitral com suas cores fortes. 

Atravessar as passarelas, transpor a moderna cortina de vidro, garantia da climatização do foyer, parar e admirar a delicada estrutura de ferro, os balcões, as cadeiras de palhinha, o teto ricamente pintado e seu belo lustre. Fortaleza faz muito bem em se orgulhar de seu belo Theatro. Quantos são tão belos quanto ele?






*José Borzacchiello da Silva é geógrafo e professor titular da Universidade Federal do Ceará.


29 maio 2014

ALTERNÂNCIA ENLOUQUECEDOIRA


Amar e punir*


Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou e mandou para o Senado a Lei da Palmada, ou Lei Menino Bernardo (em homenagem a Bernardo, assassinado recentemente, aos 11 anos, no RS). A lei fará que pais e educadores não possam recorrer a castigos corporais, mesmo moderados, ainda que sejam na intenção de educar as crianças.

Há argumentos contra: a vontade de não deixar o Estado invadir o espaço privado da família e o receio de que educar se torne mais impossível do que já é.

Eu sou mais a favor da lei do que contra ela, porque a violência é contagiosa: reprimir a violência de pais e educadores talvez quebre o círculo vicioso pelo qual tendemos a reproduzir a violência da qual fomos vítimas.

Mesmo assim, cuidado: o que enlouquece as crianças não são as palmadas, mas as oscilações repentinas do humor dos adultos.

Harold Searles, numa obra (1959) que continua sendo uma referência, descreveu O Esforço para Tornar o Outro Louco. Ele revelou, por exemplo, as consequências enlouquecedoras de um comportamento dos pais feito de alternâncias rápidas e contínuas entre amor visceral e fúria punitiva.

Essa alternância não é obra de malucos. Ao contrário, ela é trivial, sobretudo quando os adultos amam muito seus rebentos (ou seus educandos) e, portanto, querem dar tudo (e mais um pouco) para eles: tempo, atenção, esperanças, bens materiais etc.

Repetidamente, o adulto que ama demais explode, porque não aguenta o sacrifício de sua própria vida, que as crianças não lhe pedem, mas que ele se impõe como se as crianças lhe pedissem. Cada explosão, por sua vez, produz culpa e uma nova onda de extrema paixão amorosa. E a coisa recomeça.

Essa alternância de beijos molhados e punições terrificantes mina a confiança da criança no mundo e é muito mais enlouquecedora do que, por exemplo, uma severidade constante, mesmo que ela se expresse em castigos físicos.

De novo, uma criança não enlouquece porque seus pais utilizam a palmatória; mas algumas crianças enlouquecem porque os pais passam de apertões e declarações de amor a gritos raivosos e tentativas de estrangulamento.

Conclusão: talvez a maior violência contra as crianças não seja a palmada, mas o amor excessivo dos adultos.

Falando em "maior violência contra as crianças", durante a discussão na Câmara, no dia 21, o deputado pastor Eurico disse que a Xuxa cometeu "a maior violência contra as crianças", referindo-se ao fato de que, em 1982, num filme vagamente erótico, Xuxa (então com 18) contracenou com um garoto de 12 anos (cá entre nós: o verdadeiro problema com o filme em questão é que ele não é exatamente uma obra-prima).

Enfim, para o pastor Eurico, a maior violência contra as crianças consiste em deixar um menino de 12 anos acariciar um seio.

Por coincidência, no dia seguinte à patacoada do pastor Eurico, o Ministério Público de São Paulo ratificou um Termo de Ajustamento de Conduta com a Igreja Universal do Reino de Deus para impedir que crianças e adolescentes sejam expostos publicamente, durante cultos ou eventos.

A promotora de Justiça responsável pelo TAC, Fabiola Moran Faloppa, entendeu que são humilhantes ou degradantes as situações em que, no púlpito ou na TV, o ministro religioso revela informações íntimas sobre as crianças (suas doenças, seus abusos sofridos etc.). 

Concordo com a promotora. E acrescento um comentário.

Há várias razões para expor as crianças à religião. Entre elas, a ideia de que a autoridade divina possa ajudar pais e educadores —a ameaça do inferno substituindo castigos e palmadas. Pode ser. 

Mas é também possível que, para as crianças, a religião seja mais perigosa do que a palmada ou o vago erotismo de um filme.

O Deus da Bíblia é muito parecido com a mãe ou o pai que enlouquecem seus filhos: ele nos ama a ponto de nos criar e nos entregar as chaves do mundo, mas pode se transformar num castigador absurdamente intransigente (palmadas eternidade adentro).

Em outras palavras, Deus passa do amor à punição com a mesma ferocidade de uma mãe ou de um pai ciclotímicos. Será que os ganhos sociais do ensino precoce da religião compensam seus efeitos enlouquecedores?

Seja como for, se quisermos punir menos as crianças, deveríamos começar por amá-las menos, adotando um novo provérbio: quem ama demais castiga demais.

*O psicanalista italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris é Doutor em Psicologia Clínica e colunista da Folha de S. Paulo. 


01 maio 2014

PARTICIPAÇÃO ESTATAL


Por que há tanta
corrupção no Brasil?*





Entram governos, saem governos, e uma variável insiste em persistir no cenário político brasileiro: a corrupção. A impressionante recorrência de escândalos envolvendo malversação de recursos públicos leva à questão: por que há tanta corrupção no Brasil?

Há, na certa, muitos fatores. Mas é importante entender, em primeiro lugar, que o brasileiro não nasce corrupto. A corrupção no Brasil é fruto das nossas instituições, moldadas por séculos de tradição ibérica, patrimonialista e cartorialista, onde o público se confunde desde as entranhas com o privado. 

Somos a república dos cartórios, dos alvarás, das concessões e, sem surpresa, do jeitinho. Criam-se dificuldades para, logo em seguida, oferecerem-se facilidades devidamente comissionadas ao agente público que presta o serviço, claro.

Adicionalmente, vemos em curso no país o desenvolvimento de um perigoso “capitalismo de compadres”. Torna-se cada vez mais rentável para uma empresa o investimento em “empreendedorismo político” e o atendimento às demandas de agentes públicos – em contraposição ao empreendedorismo de mercado, buscando a inovação e o atendimento às necessidades do consumidor. 

Quando tarefas tão prosaicas e, ao mesmo tempo, tão vitais ao crescimento e desenvolvimento do país, como a abertura de um negócio, a obtenção de uma licença ou o pagamento de tributos tornam-se tão complexas, é natural, e até instintivo, que os agentes busquem maneiras de contornar tais obstáculos. 

Acaba se tornando uma questão de sobrevivência em muitos casos. Some-se a isso a falta de uma cultura de transparência e prestação de contas por parte dos poderes públicos e um sistema penal leniente e temos um terreno fértil para a corrupção em suas diversas formas.

Sair desta lógica demanda a redução da participação estatal na sociedade. É necessário que o governo limite sua atuação a algumas poucas áreas (segurança, educação, saúde e infraestrutura básica), deixando o resto à iniciativa privada. 

Mundo afora, a correlação entre grau de intervenção do Estado na economia e os índices de corrupção é inequívoca. É também uma questão de bom senso: quanto maior a participação do Estado na economia e a autoridade conferida a seus agentes, maiores são as oportunidades de corrupção.

A iniciativa para uma mudança de tal profundidade não partirá de nossa classe política, zelosa em manter seus poderes e privilégios. Mas políticos também são indivíduos racionais que respondem a incentivos. 

Cabe, portanto, à sociedade brasileira dar-lhes o sinal por meio das instituições democráticas: queremos mais liberdade e menos Estado em nossas vidas. Somente assim nos livraremos da chaga da corrupção, que corrói diariamente nossas instituições e trava nosso desenvolvimento.

*O cientista político da PUC-RS Fábio Maia Ostermann é Bacharel em Direito
(UFRGS) e graduado em Liderança para a Competitividade Global (Georgetown University) 



15 abril 2014

CORAGEM & AMOR


Gestos que contam*





Garanto que vocês nunca ouviram falar em Samara Oliveira, Jéssica Silva, Camila Beatriz e Jéssica Camarço. Nem eu. Mas, cada uma delas recebe meus aplausos e mil beijos de gratidão.

Seguinte: o Lar Torres de Melo foi assaltado no dia 20 de março e os ladrões levaram toda a grana dos velhinhos. Quem já anda mal, imagine quando lhes roubam tudo.

Estas garotas, estudantes universitárias, resolveram por conta própria, lançar uma campanha de ajuda/socorro à instituição. Tudo que seja alimento não perecível e leite em pó, aveia, café, açúcar, biscoitos, roupas, toalhas, material de higiene pessoal (pasta, escova etc.). 

Elas combinaram com alguns centros acadêmicos que se tornaram pontos de arrecadação. As doações foram entregues no sábado seguinte.

Não tenho a informação de quanto foi arrecadado, pois nenhuma notícia saiu na imprensa sobre a coleta. Parece não ser assunto palpitante. Não anima pauta. Não tem sangue.

Entretanto, quando se fala tanto em “mundo perdido”, que a juventude “não está nem aí”, que “formam um bando de alienados” e outras coisas que tais, aparecem estas meninas, dizendo e fazendo o contrário. Passagem ao ato.

Elas não criticam o governo, que não faz. Que se mostra totalmente alheio. Nem condenam os ladrões… De uma maneira silenciosa, elas reprovam os bandidos dizendo que a sociedade sempre terá mais força e mais solidariedade para mostrar.

Fatos como este precisam ser divulgados, mostrados. Deveriam torna-se exemplo para outros jovens. E até virar um movimento social de transformação da sociedade. 

Um dia, uma costureira negra recusou-se a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco (1.o de dezembro de 1955). Os Estados Unidos viviam o racismo brabo. Ela não aceitou a humilhação. Foi detida e condenada à prisão.

O pequeno gesto deu origem à mais profunda transformação da sociedade americana: o fim do racismo. Hoje, essa mulher – Rosa Parks – é símbolo dos movimentos dos direitos civis dos negros.

Sinceramente meninas, fico muito orgulhoso do gesto de vocês. Mostra que a coragem e o amor ainda são as maiores armas que possuímos.

*Antonio Mourão Cavalcante é médico, antropólogo e professor universitário
(imagem em www.wvwc.edu)



09 abril 2014

RESOLUÇÃO DO CONANDA n.º 163/2014


Infância livre
de publicidade*





Há oito anos, quando fui convidado a colaborar com o projeto Criança e Consumo, que estava sendo criado pelo Instituto Alana, a primeira ideia que me veio à cabeça foi a de que a sociedade brasileira não deveria medir esforços na produção de convergências que fossem capazes de enfrentar os interesses dos responsáveis pela exploração comercial da inocência por meio da indução compulsiva ao consumo.

Um dos maiores problemas identificados naquele momento era a forma desregrada e, por vezes, inconsequente, com que muitas das empresas de produtos e serviços destinados ao consumo infantil usavam as mais variadas técnicas de publicidade para seduzir crianças no Brasil, causando toda sorte de problemas de estresse familiar e escolar. 

Por outro lado, era alentador saber que, se em vários outros países essa prática de sedução comercial não era permitida, nem tudo estava perdido.

De 2006 a 2014, foram muitos debates, embates, articulações e vontade de “fazer valer nossos valores essenciais para influir em nossas escolhas de vida”, de modo que a infância não se resuma a uma “possibilidade de negócio, mas a possibilidade de um mundo melhor”, como procurei sintetizar da fala de Ana Lúcia Villela, fundadora e presidente do Alana, em um artigo intitulado Sociabilidade Infantil (DN, 01/04/2006). Nesse período o Instituto, com apoio do Ministério Público, obteve muitas conquistas para deter excessos do mercado na relação com a infância, em ações envolvendo retiradas de comerciais do ar e multas inibidoras.

Os avanços por uma infância livre de publicidade tiveram, entretanto, na sexta-feira passada (4), um dia histórico, quando foi publicada no Diário Oficial da União a norma que proíbe a publicidade dirigida à criança em todo território nacional. 

A Resolução n.º 163 (13/03/2014) do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) – órgão do qual o Alana faz parte, como uma das entidades da sociedade civil, ao lado de ministérios do governo federal – já está, portanto, em vigor, tipificando como abusiva esta prática de comunicação mercadológica em eventos, espaços públicos, páginas de internet, canais de televisão, creches, escolas (inclusive uniformes e materiais didáticos), pontos de venda e nas embalagens de produtos.

É provável que haja questionamento da resolução do CONANDA junto ao Poder Judiciário, por parte de agentes do mercado que exploram a credulidade infantil, mas os direitos de cidadania da criança estão cada vez mais evidentes, e uma forma de demonstrarmos respeito a eles é colocarmo-nos na posição da criança, como defendeu e fez o escritor, médico e educador polonês Janusz Korczak (1878-1942), autor do ensaio O direito da criança ao respeito, no qual traça uma perspectiva das considerações que viriam a ser dadas à pessoa criança, como um tipo particular de sujeito de direito.

Não deixar que a publicidade aborde diretamente a criança é um passo para uma nova infância, com liberdade para filhos e alívio para pais e educadores. Na nova arquitetura sociopolítica que se pretende para o mundo pós-hipermoderno, não cabe mais a violência do vínculo forçado ao consumo pelo assédio perturbador das empresas, em comunicações de mercado que tornam a criança refém da publicidade e os pais reféns das crianças. 

A norma do CONANDA dá um basta nessa anomalia social, libertando meninas e meninos dessas técnicas de domesticação do desejo, a fim de que possam usufruir de suas reservas de espontaneidade.

O nivelamento entre crianças e adultos na publicidade tem sido um dos responsáveis pela supressão do tempo da infância. Não é mais aceitável esta perda generalizada de espaços imaginativos, por conta do estímulo ao consumismo. 

As corporações que se valem do argumento de que, como cidadãs, as crianças também precisam ter acesso direto às informações de produtos e serviços postos à venda e que seriam do seu interesse, não se dão conta, ou agem de má-fé, por desdenharem da representação da infância em sua igualdade diferenciada.

No plano do Direito, a justiça se dá na distinção existente entre os iguais, na igualdade da diferença. A importância de a sociedade cuidar para que a publicidade de produtos e serviços infantis seja dirigida aos pais e adultos cuidadores, e não ao público infantil, está no reconhecimento de que a criança é um Outro – com necessidades e capacidade de participação próprias –, apesar de semelhante. Uma infância livre de publicidade está mais próxima da emancipação do si-mesmo.

Na história da infância, entre episódios de incompreensão, repressão, exclusão e avanços conceituais e práticos, pode-se dizer que a norma do Conanda para que as empresas deixem as crianças em paz é um marco a ser comemorado pela sensatez da dinâmica democrática. 

Esta conquista leva em consideração uma infância do presente, e não aquela do vir a ser, pregada pela ideologia geracional. Com ela, a criança conta com uma força legal capaz de protegê-la dessa sanha gananciosa, que a tudo transforma em mercadoria e a todos em estatísticas de consumo.
(publicado por Flávio Paiva em www.opovo.com.br)
(imagem em www.wallsave.com)

08 abril 2014

CHEGOU A HORA?


Alinhamento entre Terra,
 Sol e Marte antecipa
 o "fim do mundo"



Um evento cósmico raro é esperado para esta noite, 
 antecedendo as "quatro luas de sangue" — que alguns 
 acreditam ser um presságio do fim do mundo 



Para alguns fiéis, as luas de sangue são mais que um evento cósmico raro,
representando um presságio para o fim do mundo (Foto: Nasa / Divulgação) 

 Marte, Terra e Sol vão se alinhar no espaço na noite desta terça-feira, um evento conhecido também como “oposição de Marte” que só acontece uma vez a cada 778 dias. 

 Porém, o que faz o acontecimento cósmico marcante é ele antecede as "luas de sangue", um fenômeno que poderá ser visto da Terra na próxima semana e que é interpretado por muitos como um sinal bíblico do fim dos tempos. 

 De acordo com a Nasa, a rara sequência de quatro eclipses lunares (as ”luas de sangue”) é conhecida como tétrade, e será seguida por seis luas cheias. 

O ciclo começa na semana que vem, no dia 15 de abril, e terminará apenas em 28 de setembro deste ano. Ainda segundo a Nasa, as quatro "luas de sangue" só foram vistas por três vezes em mais de 500 anos: a primeira vez na Idade Média, em 1493, quando os judeus foram expulsos pela Inquisição Católica na Espanha; a segunda, em 1949, quando o Estado de Israel foi estabelecido na Palestina, e a terceira em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias entre Árabes e Israelenses. 

 Para alguns fiéis, as luas de sangue significam mais que um evento cósmico raro: são um presságio para o “fim do mundo” e o retorno de Cristo à Terra para o Juízo Final. 

 A passagem bíblica do Livro de Joel, no Antigo Testamento, diz: “O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (Joel, 2:31).


 (conteúdo publicado em http://noticias.terra.com.br)


26 fevereiro 2014

"ÁGUA PARA NOSSO FUTURO"


Brasília vai sediar
VIII Fórum Mundial
da Água em 2018





O Fórum Mundial da Água de 2018 já tem uma sede: Brasília. A capital brasileira foi eleita hoje, 26 de fevereiro, por 23 governadores do Conselho Mundial da Água (WWC, na sigla em inglês) durante a 51.ª Reunião do Quadro de Governadores da instituição, que organiza o maior evento do planeta com a temática dos recursos hídricos. A cidade dinamarquesa de Copenhague, que concorria com Brasília, recebeu dez votos dos 36 possíveis. A escolha aconteceu em Gyeongju, Coreia do Sul.

Na disputa com Copenhague, a candidatura de Brasília recebeu visita do Comitê de Avaliação do WWC em agosto de 2013. Na ocasião, os avaliadores puderam analisar a viabilidade de a capital brasileira receber o evento em diversos aspectos, como: infraestrutura de transportes, mobilidade urbana, rede hoteleira e locais para realização da 8.ª edição do Fórum. O relatório do Comitê de Avaliação serviu como subsídio para que os governadores do Conselho Mundial da Água escolhessem a sede do evento de 2018.

A candidatura de Brasília foi resultado de um esforço conjunto do Governo Federal, do Governo do Distrito Federal (GDF), da Agência Nacional de Águas (ANA) e das diversas instituições que compõem a Seção Brasil do Conselho Mundial da Água.

Segundo o presidente do WWC ex-diretor da ANA, Benedito Braga, a candidatura brasileira foi visionária ao apresentar o tema “Compartilhando Água” e integrar os temas discutidos nas edições anteriores do evento, dando continuidade à discussões já realizadas sobre os desafios do setor de recursos hídricos.

O Fórum Mundial da Água é realizado a cada três anos com o objetivo principal de inserir a temática dos recursos hídricos com destaque na agenda global. Para tanto, o WWC reúne diferentes públicos durante o evento, como: organizações internacionais, políticos, representantes da sociedade civil, cientistas, usuários de água e profissionais do setor de recursos hídricos.

Assim, o Fórum funciona como uma plataforma para que os tomadores de decisão e os usuários de recursos hídricos possam se encontrar para trabalhar conjuntamente por soluções relativas a água. Na última edição do evento, em 2012, tomadores de decisão de mais de 140 países  e um público estimado de 35 mil pessoas compareceram à cidade francesa de Marselha.

Histórico

Desde 1997, o Conselho Mundial da Água vem realizando o Fórum Mundial da Água. A primeira edição aconteceu em Marrakesh, Marrocos, com o tema “Visão sobre a Água, Vida e Meio Ambiente no Século XXI”. Em 2000, a cidade de Haia, Holanda, sediou o evento com a temática “Da Visão à Ação”. Três anos depois, o Fórum foi para o Japão. Nas cidades de Kyoto, Shiga e Osaka, o tema foi “Um Fórum com uma Diferença”. Na ocasião, os debates consideraram as metas estabelecidas pela Cúpula do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em 2006, o maior evento do mundo sobre recursos hídricos aconteceu na Cidade do México norteado pelo tema “Ações Locais para o Desafio Global”. Depois de passar pela África, Europa, Ásia e América, o Fórum Mundial da Água de 2009 foi realizado numa cidade ao mesmo tempo europeia e asiática: Istambul, Turquia. Nela o assunto que norteou as discussões foi “Superar Divergências sobre a Água”.

Na última edição, em 2012, a cidade onde fica a sede do WWC também sediou o Fórum: Marselha, França. Na ocasião, o tema escolhido foi “Soluções para Água”. O próximo evento acontecerá em duas cidades da Coreia do Sul, Daegu e Gyeongbuk, entre 12 e 17 de abril de 2015. Para esta edição, a temática dos debates será “Água para nosso Futuro”.


(conteúdo publicado em www2.ana.gov.br)
(texto: Raylton Alves - ASCOM/ANA)
(foto: Zig Koch / Banco de Imagens ANA)



24 janeiro 2014

CONHECER, DECIDIR, AGIR


Conhecendo os
nossos potenciais*


Capacidade de desenvolver, habilidade e condição de realizar, força disponível para ser utilizada. Todas essas definições falam sobre a habilidade ou força disponível para realizar algo, mas elas, por si sós, não garantem essa tal realização. 

Carros de corrida têm o potencial de atingir velocidades de até 340 km/h, celulares têm o potencial de fazer ligações para qualquer lugar do mundo, geladeiras têm o potencial de refrigerar os alimentos, mas isso não necessariamente acontece. Potencial é ter a condição de fazer algo, mas isto não é suficiente para alcançar a realização.

Carro de corrida, por exemplo, é preciso que seja ligado, abastecido e acelerado, senão pode ficar parado para sempre, mesmo tendo o potencial de correr. Quando nos limitamos ao “ter potencial” ou ao “ter a capacidade para”, não saímos do lugar. Diferente de quando unimos o potencial para algo com o que precisa ser feito para ativar ou exercer tal potencial.

Vivemos anos e anos nos contentando com ter o potencial de conquistar os nossos sonhos, de ter a saúde e o corpo que queremos, de batermos nossas metas, de vivermos um ano melhor, de lermos mais, de sermos o que sabemos, o que podemos e queremos ser. 

Enfim, eu poderia escrever muito mais opções aqui, mas ninguém melhor do que nós mesmo(a)s para sabermos quais as nossas famosas “potencialidades”.

Não consigo achar uma palavra melhor para definir a situação de querer e poder realizar algo, mas não fazer o que precisa ser feito para isso; se não, desperdício. Ou seja, um gasto inútil. De tempo, energia, recursos, atividades, sonhos, vida.

Como passar de potencialidades para realizações? 
Acredito que isso se dá através de três passos: conhecimento, decisão e disciplina.

Muitas vezes não conhecemos os nossos potenciais e, por isso, vivemos com muito menos do que poderíamos. Conheço um casal que foi passar a lua-de-mel no melhor e mais caro hotel da cidade. Eles passaram os seus dias lá, sendo muito cuidadosos com os gastos, porque, claro, que no final iriam pagar por tudo. 

Na hora do check-out descobriram que todos os seus dias de hospedagem, gastos e muito mais, que haviam sido poupados, tinham sido pagos como presente de casamento por uma pessoa amiga. Enquanto eles contavam a história, diziam “Ahhh, se eu soubesse! Teria aproveitado muito mais”. 

O que quero dizer com isso é que devemos parar de ser, viver e realizar menos do que temos condição, por simplesmente não sabermos que podíamos. Conheça!

Normalmente já sabemos que temos potencial, pois nossas metas são relacionadas a isso. É aquilo que sabemos que podemos melhorar, é aquilo que sabemos que podemos conquistar, é aquilo que as pessoas que nos amam insistem que deveríamos fazer. 

Quando já sabemos qual o nosso potencial, precisamos decidir superar a preguiça, o medo, o comodismo, as desculpas, as pessoas e tudo o mais que nos impede. Precisamos decidir e agir!

E finalmente, precisamos de disciplina. É comum nos iludirmos procurando métodos mágicos, receitas instantâneas e atalhos, mas o que precisamos entender é que não há melhor atalho do que "fazer o que precisa ser feito".

 Me ajuda pensar que minhas escolhas são sementes que ninguém, além de mim mesma, vai colher depois. A cada dia nos é dada uma porção de sementes e cabe a nós usá-las com sabedoria.

Que este ano seja diferente. Ter e conhecer o nosso potencial é o primeiro passo, mas se não decidirmos e nos disciplinarmos, vai ser só mais um ano em que “poderíamos ter sido o nosso melhor”.

Este ano tem o potencial de ser o mais produtivo, o de melhores escolhas, o ano em que você realizará todas as suas metas, o ano em que você se alimentará bem e se exercitará regularmente, o ano em que você se aproximará de Deus e conhecerá a vida que Ele já “pagou” na cruz para você, o ano de parar de adiar os seus sonhos.

Cabe a cada um(a) de nós decidirmos exercer o potencial que há em nós.



*Alana Benevides é membro da Comunidade Cristã
Videira e aluna do Hillsong College em Sidney, Austrália.

06 janeiro 2014

NÃO NO GIBI, MAS AO REDOR DE NÓS


Os X-Men*




E num DVD em homenagem a Stevie Ray Vaughan, um dos maiores guitarristas da história, um depoimento de outro gênio, chama a atenção. Eric Clapton diz mais ou menos assim:

- Quando toco guitarra, penso no próximo acorde de acordo com o resultado que quero obter. Levo uma fração de segundo, que é aquele momento em que, racionalmente, penso para construir o acorde. Stevie Ray não fazia isso. Quando tocava, um acorde seguia o outro naturalmente. Ele não precisava pensar para tocar. Era como se a guitarra fosse extensão de seu corpo.

Conversei a respeito com meu amigo Nuno Mindelis, outro guitarrista de primeira linha, e ele disse algo que também chamou a atenção.

- Quando subo no palco e começo a tocar, saio da realidade e entro em outro mundo. Passo a pensar diferente. É uma espécie de autismo.

Steve Ray com a guitarra nas mãos era um autista. Nuno também é.

Recentemente meu amigo Luis Tejon publicou um artigo em que afirmava que Lionel Messi, o maior jogador de futebol da atualidade, é autista. Tejon escreveu assim: “Messi tem Síndrome de Asperger, um autismo leve que o dota de um impressionante talento de foco e de concentração na repetição do que deve ser feito para obter êxito nas jogadas do futebol. 

Ele tem o olhar que não olha, mas que foca no objetivo de maneira completa. Em função do autismo também busca escapar das pressões das entrevistas, das badalações sociais e mesmo na propaganda consegue pronunciar a palavra "listo" (pronto) meio sem-jeito… mas com todo o jeito no foco de sua arte esportiva.”

Lionel Messi, com a bola nos pés, é um autista.

Se você reparar bem nos indivíduos que têm alguma habilidade especial muito acima da média, no limiar da genialidade, notará que a maioria deles é “gente esquisita”. Olham diferente, falam diferente, movimentam-se diferente, tomam decisões diferentes. São gente diferente da gente.

Pois começa a ganhar força uma tese dando conta de que esses indivíduos, vivendo vários tipos diferentes de síndromes ligadas ao complexo “autismo”, ou até mesmo dislexia, já seriam os primeiros exemplares do que será o ser humano no futuro. Esses atributos “diferentes”, que muitos julgam defeitos, seriam mutações, evoluções, na direção de um novo ser humano capaz de feitos inimagináveis para nós, os “normais”. 

São como os X-Men dos gibis e do cinema, com habilidades sobre-humanas que hoje achamos esquisitas, pois implicam num comportamento social que não compreendemos. 

Eles realizam feitos inacreditáveis, têm memória incrível, saem tocando piano aos quatro anos de idade, leem quando outros bebês nem mesmo balbuciam palavras, anteveem jogadas brilhantes, são capazes de visualizar padrões onde só vemos confusão. Seres humanos do futuro, hiper sensíveis, com habilidades que ainda não compreendemos.

E a novidade é que a quantidade de crianças com vários graus de autismo está crescendo ano a ano. Os X-Men estão chegando e a sociedade vai ter de se adaptar a eles. 

Não sei se isso é assustador ou maravilhoso, mas algo me diz que é o futuro. 


*Luciano Pires é jornalista. 
Conteúdo publicado em www.portalcafebrasil.com.br