01 agosto 2006

CRÔNICA DA RAZÃO (?!?)

A gota d'água


Razão. Você a evoca, angustiada. E a razão surge, gritando em cada sinal vermelho: pare de ser louca! Mas aí o sinal esverdeia e você precisa seguir em frente, entre os automóveis e a chuva que não cessa. Ainda bem. Não fosse o sinal verde, talvez agora você ainda estivesse ali, pensativa, o carro parado no cruzamento. O cruzamento da ruazinha da razão com a imensa avenida da loucura... e do desejo.

As pessoas na rua correm para se proteger da chuva, todas certas de seu caminho, seguem rápidas e decididas. Você não. Tudo em seu ser se contradiz, uma célula quer ir, outra morre de medo. Sim e não. Em seu peito o coração bate no compasso da urgência, em suas veias o sangue se desencontra. Não e sim. No rádio, música nenhuma entende o seu estado de ânimo. E essa chuva, a deixar tudo ainda mais confuso... Sim e não. Ai, que vontade imensa de gritar... Você respira fundo. E acelera.

Francamente falando, você sabe muito bem que limites existem para serem quebrados, não é? E os seus há muito que a desafiam: sim. Para ser exato, desde que ele surgiu, de repente, não mais que de repente. Ele e seu olhar inquietante, o jeito diferente... Você já não sabe se ele é louco ou se louca fica você toda vez que o vê. Tem algo nele que dá um arrepio, um calor, não é? Você nunca sentiu antes, não sabe explicar. Não. É algo meio insano, que a faz inventar uma mentira e largar o trabalho no meio da tarde. É algo que a fez soltar o cabelo, deixar o soutien na bolsa e sair no meio dessa chuva louca... Ai, essa chuva... Sua vida antes era tão certa e agora tudo é tão... imprevisível. Mas ao mesmo tempo você tem raiva dele, por invadir assim seu espaço, ele não tinha o direito. Não. Sim, ele tinha virado seus dias de cabeça para baixo. Ah, mas você tem que admitir: ver o mundo desse novo ângulo é muito interessante...

Ahnn... mas... e a ética, como fica? Afinal, você tem namorado. E você o ama. Bem, na verdade talvez não o ame como achava que amava. Sim, pois se amasse, não desejaria esse homem assim. Ou não? Ou o amor nada tem a ver com o desejo? Se os homens são capazes, por que você não seria também? Uma mulher pode entregar-se a um homem, uma vez só, e voltar para outro, como se nada tivesse acontecido? Como uma chuva que de repente já passou? "Sim, pode", você mesma responde, surpresa com a própria determinação. Pode voltar sim, mas não como se nada houvesse acontecido, pois sempre terá acontecido, "sempre...?", você completa, olhando seu sorriso diferente no retrovisor.

Você lembra da última briga, um dia antes, e então, sem perceber... seu pé pisa mais fundo no acelerador. E a chuva aumenta, seguindo sua determinação. Sim. Não, não se trata de vingança, nada disso. É só a velocidade do desejo. Não. Na verdade é mais que isso. É uma necessidade. Você tem de encontrá-lo. Sim. Você precisa. É a única coisa que importa agora. Em frente ao prédio, dentro do carro, você inventa mil coisas para se dar mais um tempo para pensar. Olha a chuva, olha de novo. Então finalmente pega o celular. E liga. Deixa chamar uma vez e desliga. Agora só tem que aguardar alguns segundos. Mas não são alguns segundos — é um século!

Um século inteiro de dúvida e angústia, onde razão e desejo vêm se chocar em sua alma feito as gotas da chuva que batem no vidro, uma gota sussurrando "sim" e a outra gota gritando "não", "sim" e "não", "não" e "sim"... Lógico que não! De súbito, você dá-se conta do absurdo. Claro que não. O que está fazendo? Esperando por um homem que mal conhece? Para quê? O que lhe dirá? Que largou o trabalho no meio dessa tempestade só para desejar-lhe "boa-tarde"? O que ele vai pensar? Vai pensar que é louca, claro.

De repente, tudo fica límpido como um dia de sol. Não, não vale a pena se arriscar tanto por algo que não tem chance de dar certo, não, alguém que você não sabe quem realmente é, alguém que semana que vem irá embora, alguém que... A porta se abre, porém. E ele entra. E senta-se no banco ao seu lado. Todo molhado, rindo, parece um menino travesso. Você se vira, assustada, e dá de cara com aqueles olhos, aquele sorriso... Meu Deus, você pensa, me ajude, por favor, me ajude... Mas seu deus não pode ajudar, não com essa chuva toda. Não.

Ele então se aproxima, estende a mão e delicadamente toca seu rosto. Não... Não é mais um menino travesso, é um homem. Não? Então tudo que não podia acontecer, acontece: uma gota dágua escorre... da mão dele... para dentro... do seu decote. Você a sente deslizar... pelo contorno do seio... cada microscópico pelinho acusando a passagem... Enquanto a gota prossegue em seu íntimo percurso, você fecha os olhos, sente um arrepio na alma inteira. Você quer morrer, só para não ter que decidir.

Você se controla para não gritar, para não abrir a porta e sair correndo na tempestade, você quase explodindo, esticada entre o sim e o não... Não. Não, você não grita. Nem poderia. Porque os lábios dele, molhados da chuva, tocam os seus e o grito morre em sua boca. E da vida previsível faz-se a aventura. Não mais que de repente.


SERVIÇO
O colunista Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora no Rio de Janeiro, Terra (a 3.ª pedra do Sol)...

LEIA COM IMAGENS E COMENTÁRIOS
www.ricardokelmer.net/rktxtagotadagua.htm

O QUE MÁRIO APRENDEU NO SUL

Definições definitivas


O "passarinho" Mário Quintana faria 100 anos neste finzim de julho: o tempo passa — e, com ele, até os poetas passam. Só a visão que Mário tinha das coisas é que nos parece, digamos, definitiva. Após construir sua vasta produção literária, aos 87 anos ele teria então dito:

"A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos."

Mário sabia ser amargo quando queria, não é? Levando em conta o quanto tudo pode ser menos rançoso — se assim o quisermos! —, vamos seguir o fluxo antidiscriminatório do pensamento deste poeta profundo, nascido em Alegrete e partido em Porto Alegre (adaptam-se a palavra que o poeta traz no peito e a que esgrime?):


"Deficiente" é aquele(a) que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é o(a) únic(a) dono(a) do seu destino...

"Louco(a)" é quem não procura ser feliz com o que possui...

"Cego(a)" é aquele(a) que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores...

"Surdo(a)" é aquele(a) que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e só pensa e quer garantir seus tostões no fim do mês...

"Mudo(a)" é aquele(a) que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia...

"Paralítico(a)" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda...

"Diabético(a)" é quem não consegue ser doce...

"Anã(o)" é quem não sabe deixar o amor crescer...

E, finalmente, a pior de todas deficiências é mesmo a de ser miserável, pois "Miseráveis" são todo(a)s o(a)s que não conseguem falar com Deus!


SAIBA MAIS SOBRE O POETA MÁRIO QUINTANA
www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/616835.html

CONTE A AMIGOS E AMIGAS O QUE DESCOBRIU
Troque uma idéia com a Letícia das Graças, que nos enviou este texto
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=17060428479751581249

31 julho 2006

MANGÁ EM SEIS EDIÇÕES

Chega ao Brasil Yuki, de Kazuo Koike

Do traço de Kazuo Koike — autor do famoso mangá Lobo Solitário (Lone Wolf and Cub nos EUA) — surge a história de Yuki, que acabou inspirando a criação do assistidíssimo longa-metragem Kill Bill de Quentin Tarantino.

Yuki conta uma história de pura vingança, de uma criança que nasce com um único objetivo: vingar a morte de sua família nas mãos de um bando de foras-da-lei. O desejo de vingança faz parte da vida de Yuki desde a sua gestação, e foi passado a ela por sua mãe, que depositou na filha todas as esperanças de que a justiça seja feita: Yuki nasceu na prisão, é fruto do estupro de sua mãe, que morreu logo após dá-la à luz.

Seu pai e irmão foram assassinados. Assim, desde pequena ela será treinada para lutar e matar. Mas, apesar do tema violento e das cenas de sangue e ação, os desenhos do mangá são extremamente delicados. Contam a fábula de uma mulher nascida da dor, detalhada em traços que nos marcam o olhar por sua beleza.

E atenção, garotada: a série Yuki terá 6 mangás, publicados mensalmente. Por seu conteúdo, a obra — cuja arte traz a assinatura de um velho parceiro de Koike, Kazuo Mamimura — foi classificada como imprópria para menores de 16 anos.


O AUTOR
Kazuo Koike é um dos mais importantes mestres vivos do mangá. Criador das excelentes histórias do Lobo Solitário, em parceria com Goseki Kojima, e Crying Freeman, junto com Ryoichi Ikegami (também desenhista de Sanctuary), Koike e colaboradores viram seu nome tornar-se lendário em todo o mundo. Diversos dos seus roteiros de mangás foram adaptados para o cinema. Sua escola de desenho, a Koike Kazuo Gekigason-juku é uma das mais disputadas em todo o Japão.


PARA ADQUIRIR
Yuki, volume 1, de Kazuo Koike, 192 páginas
Formato: 13,4 x 20,2cm
Preço: de R$ 12,00 por R$ 10,80
Onde: site da Conrad Editora
http://www.lojaconrad.com.br/MangasemLivros/Yuki_-_Vol_1.asp

JOVENS EMBAIXADORES NOS EUA

Últimos dias para as inscrições!


Alunos de escolas públicas de todo o Brasil com bons conhecimentos do idioma Inglês podem se inscrever até o dia 11 de agosto no Projeto Jovens Embaixadores. Os estudantes selecionados viajam no mês de janeiro de 2007 para participar de atividades programadas em universidades americanas, sendo hospedados em casas de família. A intenção é proporcionar a esses jovens, assim como às famílias americanas que irão recepcioná-los, um intercâmbio cultural entre os dois países.

Os candidatos precisam preencher alguns requisitos: ter idade entre 15 e 18 anos, jamais ter viajado para o exterior, possuir fluência verbal e escrita em Inglês e demonstrar um bom desempenho escolar, entre outros itens. Sem fazer qualquer despesa, os selecionados serão acompanhados por representantes da embaixada e do consulado dos Estados Unidos no Brasil em seu programa de intercâmbio.

Os participantes têm direito a passagem aérea internacional doméstica ida-e-volta, hospedagem e alimentação por duas semanas, ajuda de custo para a aquisição de roupas adequadas (pode fazer frio em terras norte-americanas!) e seguro-saúde.

O Projeto Jovens Embaixadores é organizado anualmente por 92 centros binacionais espalhados pelo Brasil. Para participar, os interessados devem preencher um formulário de pré-inscrição, que pode ser encontrado no site www.embaixadaamericana.org.br


SERVIÇO
Centro Cultural Brasil-Estados Unidos (unidade Cambuí)
Rua Júlio de Mesquita, 606 - Tel.: (19) 3794-9700
Campinas/SP
http://www.ccbeuc.com.br

VOANDO DE ALMA NOVA

Novo visual das aeronaves TAM


A TAM Linhas Aéreas — cujo início foi a Táxi Aéreo Marília, criada por um grupo de pilotos em 1961 — lança neste 1.º de agosto a nova identidade visual do interior de suas aeronaves, oferecendo um coquetel no hangar da companhia, situado no Aeroporto de Congonhas (São Paulo).

O novo layout, assinado pela arquiteta Aline Cobra, será apresentado no Airbus 320 que estará especialmente estacionado no hangar para a noite de lançamento (o da foto acima foi clicado por Fábio Laranjeira).

O olhar da arquiteta dedica-se a “vestir” as aeronaves e criar desenhos agradáveis para o cliente contemporâneo, ao qual preza uma sutil sofisticação. Na cartela de cores, o vermelho TAM e o bege predominam, enquanto os matizes púrpura e verde-claro estão presentes em escala complementar. Técnicas modernas de confecção, somadas a um trabalho artesanal de criação, dão ao tecido das poltronas resistência e estilo inusitados.

Estando na capital paulista, confira.


SERVIÇO
Lançamento da nova identidade visual interior das aeronaves TAM
Data: 01/08/2006
Horário: 19h30

Local: Hangar VII – Av. Jurandir, 856 – 6.º andar – São Paulo/SP

SAIBA MAIS
http://www.tam.com.br

28 julho 2006

ESQUENTANDO O CLIMA

Franciely na Romano

A revista Romano n.º 13 traz (já desde a capa!) a atriz Franciely Freduzeski, clicada por Moisés Pazianotto. Para quem não a conhece, Franciely, que conta 28 anos, tem 1,70 metro e 58 quilos e é mãe de Lucas (3 anos).

Na TV, seus personagens que mais se destacaram foram a Conchita (América) e a secretária de Agildo Ribeiro naquele quadro do Zorra Total, que tinha o bordão "Dá uma subidinha!"...

Atualmente, Franciely contracena em uma peça com Francisco Cuoco, O último bolero, que (aguarda-se!) deve excursionar pelo País. Enquanto a peça não chega, vamos curtindo as fotos publicadas na revista, feitas no restaurante Toro, em São Paulo. Franciely mantém toda essa boa forma exercitando-se seis vezes por semana, três horas por dia. Não é mole, não!

A seguir, algumas frases pinçadas da matéria com a atriz publicada na Romano, que dão uma amostra do astral de Franciely (que não está para brincadeiras): "Os homens não são nada criativos. As cantadas são sempre iguais e velhas"; "Paixão, tesão e amor. Esses três ingredientes juntos são infalíveis"; "Eu é que não vou ficar um bagulho só, para não ser taxada de gostosona"; "Gosto de homem que não manda recado, que vai lá e faz".


E AÍ, VAI MANDAR RECADO?
Curta melhor a revista Romano
http://www.escala.com.br/grupos.asp?grupoid=32&categoriaid=148

DIVERSÃO CLÁSSICA

Estreou Pinocchio, o musical

Desde o dia 15 de julho está em cartaz no Hopi Hari (em São Paulo) a fábula do menino de madeira que virou menino de verdade. Trata-se do segundo espetáculo entre os quatro previstos para integrar o Ciclo de Homenagem aos Grandes Clássicos da Literatura Infantil, projeto que visa trazer famosos espetáculos musicais a um parque temático (o Hopi Hari trouxe a Campinas, em outubro de 2005, O mágico de Oz, prestigiado por mais de 700 mil pessoas em toda a América Latina. O segundo espetáculo da série é o musical Pinocchio).

Pinocchio é uma superprodução com mais de 110 profissionais envolvidos, trazendo 40 personagens que movimentam 180 figurinos, 35 cenários (dos quais nove são giratórios), oito toneladas de equipamentos e muitos efeitos especiais. Tudo sob a coordenação geral do diretor Billy Bond, que arrecadou cerca de R$ 1,8 milhão para a produção do musical.

Para abrigar o espetáculo, o Theatro di Kaminda em Hopi Hari foi reformado. Cenários mecânicos computadorizados foram construídos, foi desenvolvido um projeto de iluminação de última geração e o espaço recebeu dois sistemas de gravação Protools, sendo equipado com som surround 5.1. O teatro tem 716 lugares, ar-condicionado, cinco camarins, amplo palco (medidas: 16 x 13m – pé direito: 6,5m), coxia (espaço atrás do palco), saídas de emergência, porão e completa infra-estrutura para abrigar uma produção desta grandiosidade.

Pinocchio retrata a história do carpinteiro Gepeto, que constrói um boneco de madeira e lhe dá este nome. Seu sonho, como ele não tinha filhos, era o de que aquele boneco ganhasse vida. Após concluir sua obra-prima, Gepeto adormece. Durante a noite, uma fada-madrinha transforma o boneco em um garoto de verdade, mas lhe impõe como condições que seja bom e honesto. Ao acordar, Gepeto fica surpreso e muito feliz. Encaminha Pinocchio para a escola, com o Grilo Pepe. Devido à sua ingenuidade, Pinocchio é surpreendido no caminho por personagens como a raposa, o gato, o espoleta, as marionetes, o papa-pouco e o papa-burro, que o levam para o caminho da mentira, da avareza, da soberba e outros mais.

Muitas aventuras se passam, inclusive no interior da barriga de uma enorme baleia e passagens pelo Parque de Diversões dos Meninos Burros. No final, Pinocchio descobre o verdadeiro valor da generosidade e da honestidade e que é importante aprender com as experiências de seus amigos. Só assim é possível mesmo tornar-se um menino de verdade.

Billy Bond, diretor e produtor teatral com atuação internacional, é o responsável por trazer musicais da Broadway ao Brasil — como Rent, O Beijo da mulher-aranha, Les miserables, Aí vem o dilúvio e outros. Em sua trajetória profissional, inaugurou os teatros Procópio Ferreira, Jardel Filho, Ópera e Abril. E assumiu novo desafio: responder pela operação e produção dos espetáculos de Hopi Hari, que rendeu ano passado a estréia de O mágico de Oz, adaptado do livro de mesmo nome de Lyman Frank Baum (de 1856), contando a aventura de Dorothy e seu cãozinho Totó.

Com o projeto Ciclo de Homenagens aos Grandes Clássicos Infantis, o Hopi Hari consolida-se como o mais completo complexo de lazer e entretenimento da América Latina, oferecendo mais de 40 atrações para todas as faixas etárias — espetáculos, shows, teatro, circo e, com esta parceria de sucesso, musicais de grande porte.

SOBRE O AUTOR
Escrita por Carlo Lorenzini sob o pseudônimo de Carlo Collodi, a obra original tem 36 capítulos. Os primeiros foram publicados entre julho de 1881 e janeiro de 1883 em um jornal infantil da Itália — o Giornale per i Bambini. A primeira edição em livro foi publicada em 1883, ilustrada por Enrico Mazzanti, pela Felice Paggi – Libraio Editore. Collodi colaborou em jornais, escreveu romances e peças teatrais. Somente em 1875 é que passou a se dedicar à literatura infantil. Carlo nasceu em Florença, Itália, em 24 de novembro de 1826 e faleceu aos 64 anos em sua terra natal.

SERVIÇO
Pinocchio, o musical
Classificação: Livre
Direção geral: Billy Bond
Duração: 120 minutos, com intervalo de 15 minutos
Local: Theatro di Kaminda, em Hopi Hari – Rodovia dos Bandeirantes, km 72,5 – Vinhedo/SP
www.parquehopihari.com.br/arquivo/eventos.pps



30 junho 2006

PARA TOMAR UM CAFEZINHO

O sabor do prazer cotidiano


O cafezinho é, no nosso dia-a-dia, um hábito indispensável, quase que obrigatório. Que começa pelo café-da-manhã e continua com os tomados durante o trabalho, para quebrar a monotonia, e os tomados com os amigos, acompanhando um bom papo. E até mesmo pelos tomados sem motivo, simplesmente pelo hábito e puro prazer, na cafeteria mais próxima, ou na que lhe parece mais ao seu gosto.

Apesar do diminutivo, o cafezinho poderá proporcionar grandes prazeres numa boa mesa, ao final de uma refeição, tomado isoladamente ou acompanhado de um álcool branco de frutas, um cognac ou armagnac de categoria ou, ainda, um bom licor. Entre os licores, há um que, para o meu gosto, se destaca neste casamento: o Sambuca, licor italiano de teor alcoólico alto, moderadamente doce e preparado com aniz e bagas de sabugueiro. É servido, segundo os italianos, com mosca, isto é: três ou quatro grãos de café torrados, colocados no copo cheio de licor, que é flambado na hora, a fim de que o sabor e o aroma do café se incorporem aos do licor. É evidente que, na hora de tomar o licor, o fogo deverá ser apagado, abafando-o com um guardanapo. E claro que há outros grandes licores que fazem harmonização sublime com o café — como o Maraschino, o Cointreau etc.

Além de à mesa, o cafezinho também poderá ser tomado no balcão de uma cafeteria, considerando-se aí o balcão como uma grande mesa coletiva, à qual todos acorrem pelo prazer de desfrutar um bom café em boa companhia, comentando as qualidades do café e as do barista (caso alguém não saiba, barista é o profissional que prepara, ou tira, o café expresso num bar ou cafeteria).

Em Fortaleza, os cafés são elaborados, principalmente, de duas formas: café coado pelo método onde o pó de café e a água fervente são passados num coador de pano ou de papel; e café em que o grão de café, moído na hora, é passado numa máquina contendo água quente sob pressão. Ambos os processos podem produzir excelentes cafés, mas com características totalmente diferentes. O nome espresso tem a ver com pressão, e não com expresso (rápido). Nesta crônica, vamos nos restringir ao espresso, que é mais encontradiço nos bares, cafeterias e restaurantes da cidade. Coisas boas da globalização e da modernidade.

Para um bom espresso, o primeiro fator importante é a qualidade dos grãos, que devem ser de preferência 100% arabica (gourmet ou especiais). Além disso, o café deve ser guardado em grão, para preservar os aromas e sabores, sendo moído apenas na hora da preparação do espresso. O moinho deve ser regulado, tanto nas máquinas profissionais como nas domésticas, para uma granulometria apropriada, que forneça o máximo de sabor, aroma, corpo e creme (espuma) ao café.

Se os grãos moídos ficarem grossos, a água sob pressão passará muito rapidamente através deles e o café sairá fraco, com pouco corpo e sem espuma. Já se os grãos forem moídos finos demais, a água demorará a passar pelo pó, conferindo um gosto amargo ao café, como se estivesse queimado. As xícaras devem ter paredes grossas e fundo abaulado, além de estarem previamente aquecidas, para manter a temperatura do café durante um tempo mais prolongado.

Na identificação de um bom espresso, observam-se algumas características indispensáveis: na sua superfície deverá se formar um creme (espuma) espesso e consistente, com uma cor homogênea de caramelo (avelã), um pouco rajado, com densidade suficiente para reter (segurar) o açúcar durante alguns segundos na sua superfície. Este creme deverá se recompor depois que o açúcar descer. O creme preserva a temperatura e ajuda a manter os aromas e os sabores do café na atmosfera. Para se constatar a densidade correta do creme, é preciso que, à medida em que o café vai sendo tomado, este creme vá deixando suas marcas nas paredes da xícara.

Para se tirar um bom espresso hão que ser observadas algumas pequenas regras:
· Utilizar, para cada xícara de cafezinho, 7,5 gramas de pó de café moído na hora;
· A pressão da máquina deverá estar regulada para 9,0 bar;
· Para um cafezinho, utilizar45 mililitros de água mineral, na temperatura aproximada de 90º C;
· O tempo de extração do cafezinho, para 45 mililitros de água, será de 22 a 28 segundos.

Se todas estas regrinhas forem observadas pelo barista, com certeza você estará tomando um grande cafezinho. Cumprimente o seu barista pelo feito. E bom café.


CONTATE
O colunista Jorge Cals Coelho escreve aos sábados no suplemento Buchicho do jornal O Povo de Fortaleza
calscoelho@uol.com.br

29 junho 2006

FUTEBOL, ARTIGO FEMININO

Brasileira joga pra ganhar


Enquanto os fogos estouram pelas ruas do bairro, pa-pa-pa-pa-bummmm, e o gato sai correndo pra se esconder embaixo da cama, visto minha camisa amarela me imaginando um antigo guerreiro em seu solene ritual de preparação pra batalha. No lugar da lança, a garrafinha com domecq no bolso da bermuda. Sacomué, os guerreiros precisam estar sempre prevenidos com a poção mágica. Boné da sorte, oquei. Cueca da sorte, oquei. É jogo de Copa do Mundo. Tô pronto.

Lotado o bar que escolhi pra ver o jogo. Mas milagrosamente consigo uma cadeira pertinho do telão e bem ao lado de uma mesa com, não acredito, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete mulheres! Hummm. Ainda comemoro a boa sorte quando uma rajada de fumaça me atinge o rosto. Argh! Uma delas é fumante. E escolheu logo a mim pra dividir seu risco de câncer, que ótimo. Tava bom demais. Cravo nela meu olhar inquisidor e deixo-lhe uma praga: vai ficar sete anos sem arrumar namorado.

Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo, taí o que você queria, bola rolando. Ah, a emoção do futebol, a beleza plástica, a poesia... E a tática? É muito eficiente, já reparou? O jeans justinho preenche com eficiência os espaços, reforça a retaguarda e aperta bem a marcação. A triangulação é perfeita e dá pra acompanhar bem a linha divisória do gramado... Ops. Mazessa crônica não é sobre futebol? Desculpe a falha. Voltemos ao jogo. Sai, Dida! Saaaaai!!! Isso! Ufa... Bolas aéreas são sempre um susto.

Elas aparecem de repente, insinuantes, e aí tem que pegar firme, com as duas mãos, segurar e não soltar mais, senão vão ficar cruzando perigosamente a área dos nossos olhos. Não bote dar decote, digo, rebote. Ahn? Eu disse decote? Putz, tá difícil de prestar atenção no jogo. Parece que todas as mulheres lindas decidiram ver o jogo aqui. Ver o jogo e não deixar a gente ver. Precisava desses decotes tão violentos? Isso é antijogo, a regra é clara. Nosso futebol-arte é reconhecido no mundo inteiro. O verdiamarelo brilha não apenas no uniforme mas no brinco, na bandana, bracelete, sandalinha...

Mas cuidado, o short curtinho deixa o atacante atrás da zaga. E com a camiseta justinha na intermediária, o pírcin, coitado, fica sozinho no ataque... Ah, assim não dá! Impossível se concentrar no jogo. Quer saber duma coisa? Vamos logo virar a câmera pra ela. Vamos falar da torcedora brasileira, o produto mais belo e poético que o futebol gerou. Mais bonito até que aquele gol que Pelé não fez. Não fez porque uma brasileira se levantou na arquibancada, não sei se você sabe, justamente quando o Rei ia tocar pro gol. Culpa dela.

Cá pra nós, já reparou como brasileira fica ainda mais linda em dia de jogo da seleção? O desenho tático fica evidente nos modelitos, já sacou? Ela improvisa bem, mexe daqui, substitui dali e o conjunto não perde a harmonia. A fitinha do cabelo vai pra direita, pra esquerda, que nem as pedaladas do Robinho. E quando se levanta toda jeitosa pra ir ao banheiro? Impedimento escandaloso! Mas ninguém marca e a jogada segue, ainda bem. E quando comete falta no entendimento futebolístico? Ninguém adverte.

Pra quê? Importante é manter o rendimento. Brasileira só joga pra ganhar. E de goleada.Outro dia vi uma matéria mostrando que na Copa ela usa calcinha com motivos patrióticos. Ai, ai. Ainda tem isso... São verdinhas, amarelinhas e algumas têm até umas mensagens bem mimosas, já viu? Você toca daqui, recebe dali, vai avançando, invade a área e de repente tá lá escrito: "vai que é tua, gatão!" Ou então: "pimba na gorduchinha!" Com um incentivo desse, não é possível que você vá pipocar, né? Pobre da unha dela... As bandeirinhas pintadas com tanto esmero já foram todas roídas.

Ela fica nervosa, dá gritinho, se descabela com o gol perdido, pede mais garra, mais chute e mais chope. No meio da tensão geral, o time deles atacando, o maior perigo... e agora ela lá tranquila retocando o batom. Essas viradas de jogo são pra confundir. E quando finalmente a rede adversária balança, uau, que delícia, ela grita, samba, saltita, abraça todo mundo, fica ainda mais linda e cheia de graça, no doce balanço do gol. A partida termina, ufa, o Brasil venceu, que bom.

Levanto pra ir embora, mas antes meu olhar se despede, agradecendo enternecido a todas elas. Até a fumante chata de repente ficou mais bonita. Aliás, desafiando a praga que joguei, ela já tá aos beijos com um bonitão acolá. Zero a zero parece que não é com a moça. Como eu disse, brasileira joga pra ganhar. Pro bem do futebol-arte. E do futebol-paixão.


O colunista Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora no Rio de Janeiro, Terra, 3.ª pedra do Sol
www.ricardokelmer.net

LIVROS DE RK a tão-somente R$ 19,10 (frete incluído)
www.ricardokelmer.net/rklivrosrk.htm

EXPERIMENTAL

Para ouvir e aprofundar


Julho é o mês da I Mostra da Música Experimental em Fortaleza: todas as quintas-feiras do mês, às 20 horas, acontecem shows e performances no palco do Teatro SESC Emiliano Queiroz. Além das apresentações, vão rolar mostras de vídeos experimentais, palestras e oficinas gratuitas sobre temas instigantes como síntese sonora, tecnologia VST, música fractal e rock in opposition, além de poesia e vídeo com música experimental, tapping no baixo elétrico, música microtonal, estética da música contemporânea, música de ação e construção de instrumentos experimentais.

Além de contemplar a sede de novidades de um amplo leque de interessados, a intenção é abrir intercâmbios com produtores em outros estados. Para começar, está confirmada a presença de Didier Guigue (doutor em Música e Musicologia do Século XX pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris e professor da Universidade Federal da Paraíba) e Thelmo Cristovam (que prepara uma mostra semelhante em Pernambuco no segundo semestre).

Confira a seguir a programação do evento.

06 de julho
TARDE (14hs)
Oficina: "Síntese Sonora e Tecnologia VST", com Ars Electrum
Palestra: "Música Fractal" , com Alexandre Costa

NOITE (20hs)
Fossil; HeSheIt; Dança Muda em Deca Coordenadas (Escola de Bens Materias); Apócrifos (Airton Lima)

13 de julho
TARDE(14hs)
Oficina: "Tapping no Baixo Elétrico", com Roberto William
Palestra: "Música Microtonal", com Cristiano Cardoso

NOITE (20hs)
Sinfonia das Máquinas; Didier Guigue; Thelmo Cristovam

20 de julho
TARDE (14hs)
Oficina: "Video Poesia e Música Experimental", com Mardônio França
Palestra: "Rock in Oposition", com Weber dos Anjos

NOITE (20hs)
Radio Ativo; Zener Sarte e os Iconoclastas; URO; Levita

27 de julho
TARDE (14hs)
Oficina: "Instrumentos Experimentais", com NarcélioGrud, Tércio e Lindenberg Munroe
Palestra: "Música de Ação", com David da Paz

NOITE (20hs)
Renegados; Anômalos; Ars Electrum


VEJA TUDO
www.forumexperimental.blogspot.com.

CONTATE
O colunista George Frizzo é o baixista da Fossil
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=3581673251579933718

23 junho 2006

PALAVRAS QUE LUZEM

A origem da poesia


Falar da origem da poesia é o mesmo que falar da origem do homem: visto que sem poesia não poderia haver o homem. Claro que essa afirmação vai contra tudo o que estamos acostumados a ouvir e entender por poesia e por origem, e só poderia ser minimamente aceita se questionarmos antes duas posturas que estão no cerne da nossa maneira de pensar: 1) a compreensão evolutiva do espaço, do tempo e da história, e 2) a noção, tão insistentemente fundamentada pela funcionalidade do sistema de produção e consumo, de que a arte é uma forma de entretenimento, um meio de expressão, uma válvula de escape, enfim, uma fantasia sem importância feita para embelezar o mundo.

Essa visão da instrumentalidade da poesia, da linguagem e da história nos faz entrever o mundo como uma série de processos separados, onde arte nada tem a ver com a realidade, distante da História, da Física, da Biologia, da Economia e da Política. Na verdade, todas as coisas do homem surgem a partir de um mesmo princípio, que é o agir do homem enquanto agir-se. Na Grécia antiga, havia um termo para isso: poiesis, o princípio pelo qual se dava a criação.

Acontece que a instrumentalidade da linguagem acarreta uma instrumentalidade do homem, e este perde o que existe de essencial no fazer, que é o criar, tornando-se, assim, mero repetidor em função do sistema. E dentre todas as coisas que o homem age, a poesia é a mais importante. Pois a poesia não é uma coisa entre outras coisas. A poesia não é um mero jogo que utiliza a linguagem como matéria-prima a ser trabalhada; muito pelo contrário, é a poesia que tornou e torna a linguagem possível, sempre.

A poesia é a linguagem primogênita de um povo, disse Heidegger. A poesia é o primeiro e o mais fundamental testemunho do homem, atestação de sua presença e de seu pertencimento à Terra. É assim que ele se manifesta enquanto linguagem e, então, enquanto homem. Basta lembrar que os primeiros físicos do Ocidente eram, sobretudo, poetas. Na verdade, nem havia diferença entre ser poeta, físico, filósofo ou matemático, pois em todas essas coisas havia a dimensão do sagrado: homens espantados diante da complexidade da physis que se erguia com seus grandes milagres e tempestades. O mesmo espanto que, milhares de anos depois, acompanha o cientista de hoje diante da imprevisibilidade das partículas e da grandiosidade do cosmos.

“O sol é do tamanho de um pé humano”, disse Heráclito, numa afirmação que, antes de ser científica é poética e antes de ser poética é sagrada. Não é uma afirmação ingênua, como poderiam pensar alguns. Heráclito sabia da distância do sol, mas sabia também que o sol era sim, como ainda hoje é, a medida do homem. Esse sol adquiria uma dimensão poeticamente moldável como o horizonte de Manuel de Barros, onde se enfiam pregos, ou a florflamejante de Sousândrade. É a dimensão onde as coisas são e deixam de ser.

A nós, homens modernos, depois do cogito cartesiano, depois da metafísica kantiana, depois que o homem expulsou os deuses de seu convívio e se tornou seu próprio deus através da ciência em detrimento da poesia, isso tudo parece distante e absurdo. Não entendemos que o conhecimento científico é uma interpretação do mundo tão “fantástica” e falha quanto qualquer outra. A ciência explica que a Lua é um satélite. Mas esta não é a Lua, é uma das facetas da Lua. A Lua é isso e muito mais. A Lua é a Lua de Lin Sao, que pende madura na ponta de um galho, é a Lua de São Jorge, é Selene, é a Lua dos mitos, todas diferentes e a mesma.

Os próprios cientistas hoje se dão conta do absurdo que é a realidade. Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Física, afirmou ser a realidade somente uma das realizações do possível. Assim, o absurdo da poesia não é nada mais que o absurdo do real. A poesia e a arte não surgiram num momento específico, mas surgem a cada instante — e com elas o homem, pois nisso consiste a cultura, a constante atualização do homem como homem. Pois o homem só pode ser sendo, homem, num constante processo de realização poética.

Nos percebemos humanos e mortais a cada ato, e é disso que vem a poesia. Por isso, ao contrário da visão linear do senso comum, a arte não é um jogo subjetivo de gênios excêntricos. Sua essência sagrada está na física moderna e clássica, está nas habitações, na matemática, em todos nós. A poesia é a linguagem primordial de todo espanto e está na essência de tudo que produzimos, enquanto ato criador não-alienado. A poesia é o que permite o real, ainda que hoje o real a oculte, entulhado na rotina dos sistemas.


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O poeta Márcio-André é também contista e músico, autor dos livros Movimento perpétuo e Chialteras e membro do grupo Arranjos para Assobio, que explora texturas poéticas e realidades experimentais
(http://arranjos.confrariadovento.com). Traduz a poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita as revistas literárias Confraria e Improvável (www.improvavel.com)

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