05 junho 2012

INTENÇÕES PARA O FUTURO

O que esperar da Rio+20*


c5 300x200 O que se pode esperar da Rio+20 A Rio+20 pode dar bons resultados. Mas esses resultados não corresponderão às expectativas. O que ela pode fazer é criar uma base suficientemente sólida para que se construa no futuro a arquitetura desejada para o desenvolvimento sustentável — baseado em uma economia de baixo carbono e com menor pegada ecológica.
Não existe a possibilidade de uma reunião como a Rio+20 adotar decisões que enquadrem os países, antes que eles estejam preparados para adotar as políticas correspondentes. O modelo de decisão “de cima para baixo” não funciona. Um marco global adequado para o desenvolvimento sustentável virá da consolidação das escolhas que os países farão internamente, “de baixo para cima”.

Um fórum tão amplo, com grande  número de temas e uma variedade enorme de países, desde produtores de petróleo a importadores de petróleo, de nações super-ricas a nações super-pobres, de potências maduras a potências emergentes produz uma rede complexa e densa de conflitos de visões, perspectivas e interesses. Alguns impasses são absolutamente insolúveis nesse modelo de decisão por consenso de uma assembleia geral de países.
O que se pode esperar, então, da Rio+20 que vá além de uma declaração vazia de intenções? Duas coisas. Primeiro, que ela não reabra questões já fechadas em outros fóruns. Segundo, que ela defina um piso mínimo a partir do qual se possa construir o edifício da sustentabilidade global, à medida que os países vão avançando em suas políticas próprias de sustentabilidade. Pressões internas e a dinâmica da economia verde emergente – que está ganhando escala em alguns países e gerando empregos – farão com que alguns países avancem mais rápido. Esses países de vanguarda terão benefícios competitivos mais adiante. Essas vantagens terminarão por convencer os demais a se atualizar.
A transição para uma economia de baixo carbono é inexorável, porque os custos da economia marrom serão crescentes e os rendimentos decrescentes nas próximas décadas. Os fragmentos de economia verde já existentes, principalmente no setor de energias renováveis não convencionais, de tecnologias limpas para a logística e agricultura sustentáveis, terão custos decrescentes e rendimentos crescentes. Mas isso não significa que a transição será automática, nem na velocidade necessária. Só a combinação de uma estrutura adequada de incentivos à economia verde e desincentivos à economia marrom, com regulação mais eficaz das emissões de gases estufa, dos resíduos sólidos, da poluição e dos danos ambientais, pode acelerar esse processo.
Uma revisão das discussões sobre o documento que contém as resoluções da Rio+20 o ‘Draft Zero’ (Rascunho Zero), que a essa altura já é, no mínimo, o ‘Draft 3’ (Rascunho 3), dá uma boa ideia da amplitude tratar de temas dessa reunião, que é a sua marca de singularidade. O primeiro tinha 19 páginas. O segundo inchou para quase 300 páginas. O atual emagreceu para 80 páginas, mas é praticamente só colchetes, isto é, frases não aprovadas e redações diferentes apoiadas por grupos distintos de países.
Ele trata de praticamente todos os temas econômicos, sociais, ambientais e climáticos que outros fóruns e outras reuniões da ONU vêm tratando há anos. Entre a Rio-92 e a Rio+20 houve um grande desenvolvimento de instituições tratando de temas significativos para o avanço civilizatório da humanidade e para a sustentabilidade do planeta. A começar pelas Convenções do Clima e da Biodiversidade, que nasceram na Rio-92. Houve progresso, também, no conhecimento e na legislação a respeito de praticamente todos os tópicos que estão sendo discutidos no documento da Rio+20.
O documento em discussão refere-se a essas questões, para reafirmá-las como parte do conceito de ‘desenvolvimento’. A confusão já se instala nessas preliminares. São muitos países, com modelos políticos e econômicos e níveis de desenvolvimento econômico, social, ambiental e político muito distintos. Há democracias, regimes autoritários e tiranias fechadas. Qualquer item da pauta gera diferentes visões, propostas mais ousadas e reações defensivas. Alguns países tentam reabrir questões que foram fechadas em outros fóruns, sob outro marco internacional de referência legal. Tudo dá divergência.
Por exemplo, a questão dos direitos humanos está regulada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, existem na ONU a Comissão sobre Direitos Humanos, o Alto Comissariado para Direitos Humanos e vários outros organismos criados sob o estatuto da ONU ou por várias convenções internacionais. O documento da Rio+20 reafirma a importância da liberdade, da paz, da segurança e do respeito a todos os direitos humanos. Parece uma questão evidente em si mesma e pacífica. Pois ela dá discussão. A China demandou que se cortasse a expressão ‘adequada’ da frase sobre o direito à alimentação. O EUA pediu que o documento falasse de ‘direito a um padrão de vida adequado, inclusive alimentação’. Na frase que reafirma a ‘igualdade entre os gêneros’, a Santa Sé quer que se diga “igualdade entre homens e mulheres”. E por aí a discussão vai se perdendo, antes de chegar nos temas que a Rio+20 deve resolver.
Essa necessidade de atender às preferências idiossincráticas de cada país ou interlocutor – como a Santa Sé – reflete, na verdade, questões políticas ou ideológicas associadas ao regime de governança de cada um. Ela impede que se chegue a um acordo com a amplitude e a profundidade que os tempos que vivemos e viveremos demandam. O máximo que dá para esperar é que os delegados cheguem a um acordo que defina um piso mínimo, uma base, a partir da qual, se evolua gradualmente para uma arquitetura mais sólida e mais adequada aos desafios do século. Não é o resultado necessário, dadas as urgências que vivemos. Mas é o resultado possível. Isso não significa que as demandas e as pressões devam ser pelo mínimo. Devem ser pelo máximo possível. Dessa forma, há uma chance de que o piso não seja tão baixo como está parecendo que será e se consiga eleva-lo um pouco mais.
Mas a pressão maior deve ser sobre os governos nacionais, para que avancem mais no entendimento e da regulação dos temas da sustentabilidade. Se olharmos para nossa própria casa, veremos que um governo que emite uma medida provisória como a do Código Florestal; que reduz áreas de reservas para fazer hidrelétricas discutíveis do ponto de vista econômico e energético; que incentiva o uso de combustíveis fósseis e o consumo de automóveis, sem qualquer exigência de aumento de eficiência energética; entre outras tantas medidas recentes pioram a insustentabilidade de nossa economia, não está preparado para ser avançado na transição para a economia verde.
O caso do estímulo recente à compra de automóveis é exemplar. Havia pelo menos uma condição lógica e evidente a fazer: exigir motores flex mais eficientes quando rodam com álcool, para eliminar a disparidade de custo/benefício entre álcool e gasolina (subsidiada), que faz com que a maioria dos carros flex rode com gasolina a maior parte do ano. Mas o governo jamais pensa em questões de sustentabilidade quanto toma suas decisões. Tem um quadro mental fixado no desenvolvimentismo dos anos 1950 e 1970. No entanto, a mídia e os políticos têm mais facilidade em criticar os países desenvolvidos e a China por seus erros no campo da sustentabilidade, do que o governo brasileiro.
Em resumo, há conflito em relação a menções introdutórias a temas já regulados por outras convenções, tratados, protocolos e resoluções. Duas questões são centrais para a Rio+20: a transição para a economia verde e o sistema de governança multilateral para a sustentabilidade. Discute-se tanto o acessório que não se consegue tempo e dedicação suficientes para discutir o que é central. Não é que as outras questões não sejam relevantes. Elas são de grande importância, mas estão sendo tratadas em seus espaços próprios.

O único caminho para o sucesso da Rio+20 é tomar como dadas essas questões e se concentrar nos dois temas principais. Nas metas de desenvolvimento sustentável, que indicarão o caminho para o início da transição para a economia verde. Na estrutura institucional de governança que permitirá a implementação das metas, o monitoramento e verificação do progresso dos países no alcance dessas metas no prazo determinado.
*por Sérgio Abranches, blogueiro, escritor, analista ecopolítico e comentarista de rádio.
Para ouvir as opiniões do autor na rádio CBN clique aqui

Conteúdo disponível originalmente em www.ecopolitica.com.br.
Imagem em 
http://envolverde.com.br

25 maio 2012

ORGULHO NERD

Eles estão entre nós (faz tempo)*

Jornal O Povo, de Fortaleza/CE, antecipa comemoração do
Dia do Orgulho Nerd e traz entrevista exclusiva com autores
da Enciclonérdia, Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios

Rosana Rios e Luís Flávio Fernandes, os autores: "Caminhamos em direção
a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus..."









Talvez você nem saiba, mas no dia 25 de maio é comemorado  internacionalmente o Dia do Orgulho Nerd. A data, que não foi escolhida de forma aleatória, presta homenagem à estreia do primeiro filme da série Star wars (em 25 de maio de 1977), e também ao Dia da Toalha para os aficionados pela trilogia O guia do mochileiro das galáxias. Estas e outras informações do gênero passam batidas entre não-nerds, mas são fundamentais para aqueles que se identificam como integrantes desta "tribo" urbana.
Este é o tipo de informação que você encontra no livro Enciclinérdia - Almanaque de Cultura Nerd, escrito a quatro mãos pelo especialista em software, e nerd assumido, Luís Flávio Fernandes e pela escritora de literatura fantástica Rosana Rios. Em entrevista exclusiva, eles explicam como o mundo se “nerdificou” e como os que antes eram rotulados de "esquisitos" hoje estão no comando.
O Povo - Como surgiu a ideia de escrever a Enciclonérdia?
 Rosana Rios - Estávamos escrevendo um outro livro, uma aventura juvenil de mistério. E vivíamos colocando referências nerds nos diálogos dos personagens... Aí, tivemos a ideia de escrever um livro juntando todas essas referências. Ora, a “nerdice” não tem fim! Quando começamos a relacionar e a pesquisar livros, filmes, seriados, frases, conteúdos de tecnologia e ciência que são apreciados pelo público nerd, quase ficamos loucos! E o resultado dessa loucura toda foi a Enciclonérdia.
O- Existe diferença entre nerd e geek?
 Rosana - Em essência, nerd e geek significam a mesma coisa. Mas a palavra geek acabou tendo um sentido mais ligado à tecnologia. Então, normalmente considera-se que um(a) nerd é uma pessoa inteligente, curiosa e que aprecia a faceta nerd da cultura - literatura, cinema, seriados, games, alta ciência, etc. A palavra geek passou a ser mais usada para definir o nerd que, especificamente, entende de tecnologia, física quântica, T.I. etc.
OP - Em que momento histórico o nerd vira o jogo, deixa de ser um defeito e passa a ser uma qualidade? A que se deve essa mudança?
 Rosana - Antigamente, o nerd era o CDF, a pessoa inadequada socialmente, tímida, retraída. Hoje, a “nerdice” é uma qualidade porque, com a mudança ocorrida no mundo, após a popularização dos computadores e da Internet, as sociedades perceberam que só tem sucesso acadêmico e profissional quem está acostumado a lidar com tecnologia, trabalhar em modo multitarefa, decodificar linguagens, ler muito... e todas essas características descrevem um nerd. Logo, o nerd passou a ser valorizado por sua inteligência , criatividade e curiosidade, enquanto os não-nerds precisam se “nerdificar” se quiserem fazer parte do século XXI...
 Luís Flávio Fernandes - Acho que a grande virada dos nerds acontece no momento em que surge uma verdadeira revolução tecnológica, com a popularização dos computadores pessoais e o advento da Internet, nas últimas décadas do século XX. É quando surgem também ícones nerds do sucesso econômico e pessoal, dos quais os mais famosos são Bill Gates e Steve Jobs. A partir daí, as pessoas começaram a perceber que ser nerd não é uma coisa negativa, mas é eventualmente um fator de sucesso.
O- O que caracteriza, nos dias de hoje, um nerd?
Rosana - Há vários tipos de “nerdice” hoje em dia. Não existe apenas um tipo particular de nerd: há aqueles que se especializam em informática, os cientistas (e há nerds em todos os campos da ciência), os escritores e apreciadores de literatura, os gamemaníacos... A lista é infinita. O que todos eles têm em comum é aquilo que já citamos: inteligência, curiosidade e capacidade de mergulhar em uma vasta gama de assuntos. E um nerd sempre pode se tornar mais nerd ao encontrar outro nerd e ambos trocarem figurinhas!
 Luís Flávio - Atualmente, a cultura nerd é muito mais valorizada, o que facilita que as pessoas se identifiquem com ela. Prova disso é a popularidade, principalmente entre os jovens, dos videogames, quadrinhos, filmes e livros de fantasia e ficção científica, que antigamente eram quase que restritos aos nerds mais hardcore. Por exemplo, há 40 anos, não acredito que um filme sobre heróis de quadrinhos, como os Avengers, pudesse bater todos os recordes de bilheteria. Acho até que, nos dias de hoje, e principalmente, nas gerações futuras, os nerds estão deixando de ser uma minoria.
OP - Ser nerd está ligado a alguma faixa etária ou transcende limites de idade? 
 Rosana - Não há limites de idade. Há crianças que já nascem com tendências nerds; e se conferirem a Enciclonérdia, verão que já existiam nerds em todos os períodos da História, só que a palavra para defini-los ainda não existia. Temos encontrado nerds dos 2 aos 100 anos... e, se observarem as crianças que nascem nos dias de hoje, concluirão, como nós, que caminhamos em direção a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus...
 Luís Flávio - Concordo com a Rosana. Acho que o futuro da humanidade está nas mãos dos nerds, que estão em toda parte, independente de idade, sexo, ou qualquer outra categorização. O que deve tornar o mundo no mínimo muito mais divertido do que é hoje.

SERVIÇO  
 Enciclonérdia – Almanaque de Cultura Nerd,
 de Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios (248 páginas)
 Preço:
R$ 39,90


 *Émerson Maranhão é editor da página  
Tendências e titular da coluna Cena G
em 
www.opovo.com.br



21 maio 2012

ADÃO & MIRIAN

Sem pecado e sem juízo*


Sexo, corpo, traição e risadas conduzem o bem-humorado livro lançado pela antropóloga Mirian Goldenberg, ilustrado pelo cartunista gaúcho Adão Iturrusgarai.

Pedalando no calçadão de Ipanema em 2006, Adão abordou a antropóloga e lhe disse ter ideias que afinavam com temas estudados por ela: sexo, relacionamento, corpo, infidelidade...

Os dois nunca mais se cruzaram, até que, cinco anos depois, Mirian escreveu ao cartunista propondo enfim consumar a parceria. O resultado é o livro Tudo o que você não queria saber sobre sexo, que acaba de sair pela editora Record.


Baseado em pesquisas da antenadíssima antropóloga, professora da UFRJ e colunista do caderno "Equilíbrio", da Folha de S.Paulo, Adão, que também colabora no jornal, desenhou cartuns e tiras coloridos para o volume.


São três os estudos de Mirian, realizados com homens e mulheres do Rio de Janeiro: um sobre infidelidade, casamento e sexualidade; outro dedicado à risada; e o terceiro, centrado em questões que abordam corpo, felicidade e envelhecimento (só este último tema ficou fora do livro).


Os desenhos de Adão por vezes refletem os resultados das pesquisas, noutras são licenças criativas que se mesclam a ilustrações com gráficos que reproduzem mais diretamente os questionários (exemplo: 60% dos homens já foram infiéis, contra 47% das mulheres).


"Descobri, no meu trabalho, que o humor mobiliza e faz as pessoas pensarem mais do que se estivessem diante de um texto analítico pesado. Este livro coroa essa tendência", explica Mirian.


Uma boa sacada de edição foi reproduzir a troca de e-mails entre os autores, descrevendo as brincadeiras e o processo de construção conjunta do trabalho.


Ali ficamos sabendo também que, com o dinheiro das vendas do livro, Adão sonha comprar uma casa maior, enquanto Mirian quer um belo massagista.


"Espero que consigamos atingir nossos objetivos: minha mansão com barco e seu massagista com cérebro", escreve Adão em uma mensagem. Ao que Mirian responde: "Quem disse que precisa ter cérebro?".


Confira algumas tiras:


















(*com edição de conteúdo publicado em www1.folha.uol.com.br)


11 maio 2012

PAISAGEM EM REDE

Tudo pelo social*




Você e sua empresa não precisam mais decidir se e como entrarão nas redes sociais: vocês já estão dentro delas.

A esta altura do jogo, as redes já estão falando de você, da sua marca, dos seus produtos. Ouvi-las tem que fazer parte do seu negócio. Pesquisá-las tem que fazer parte do seu negócio. Mas o que você mais precisa mesmo é de uma estratégia.

E não é uma estratégia de defesa, mas de ataque, e estratégia não só para o que dizer, mas também para o que ser. Porque só existe uma coisa mais social do que uma pessoa: uma empresa.

 
Quem não agregar esse valor da comunicação total ao seu negócio terá desvantagem competitiva diante das empresas que já fazem ou farão isso bem.

Há um potencial social natural em toda empresa — que agora terá de ser mais acessado e desenvolvido, sob o custo da obsolescência. Olhe para a sua atividade e pense como a capacidade de comunicação total pode transformá-la, para dentro e para fora. 


É preciso encontrar esse ângulo, que certamente está lá e será necessário, neste mundo com a velocidade do último chip.

Não é fácil, não tem histórico, mas é intenso e rápido, muito rápido. Fortes emoções estão garantidas.

 
As marcas agora devem ter sua personalidade, sua integridade e sua opinião.

Antes era um monólogo, agora é uma conversação, mais dissonante que consonante, e muito mais democrática do que antes. Impossível de entender pensando pequeno, criando limites.
Para começar, social não é uma mídia, é um espírito. Um espírito animal. Tudo o que poderia um dia ser social, agora será.

Música pode ser social. Leitura pode ser social. Fotografia pode ser social. TV pode ser social. Comprar pode ser social. Viajar, se informar, estudar, encontrar um emprego, um(a) namorado(a) são todas atividades que podem ser sociais e por isso se organizam e se organizarão cada vez mais em torno de redes como Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e outras que virão e irão.

 
Você não precisa se tornar um especialista nessas novas ferramentas, até porque elas passam.

 
Mas seja — sim! — um especialista em comportamento, entenda a suprema tecnologia humana, aquilo que chamamos de alma.
 
Aliás, é bom lembrar que as redes sociais sempre foram dominantes e determinantes — das associações mercantis da Idade Média aos fluxos de migração global. Foi com essa capacidade de organização social que vencemos tantos desafios.
 
No Coliseu romano, a plateia já usava o dedão para cima ou para baixo, como fazemos hoje no Facebook, para mostrar aprovação.
  
As redes sociais estão com tudo, mas elas não têm uma regra fixa. O que já sabemos: não basta anunciar, é preciso comunicar; não é só oferta, é relacionamento; não fique indiferente.


Mais do que a mensagem e do que o meio, agora é o modo. O modo social.
Mas é preciso tomar cuidados.
 
O sujeito entrou cabisbaixo no consultório do psiquiatra e explicou:
 
"Doutor, não sei o que está acontecendo comigo. Só ando com a cabeça baixa, olhando na direção do chão, não falo com ninguém, não ouço ninguém, não consigo ter longas conversas, manter o foco. Minhas mãos doem, meu pescoço dói. Doutor, o que eu tenho?".
"Um Blackberry."

Piada é uma das maneiras mais fáceis de contar verdades. O perigo das redes é o da alienação, do distanciamento pela proximidade superficial. É preciso equilíbrio e coerência. O que se faz na rede deve-se fazer fora da rede. Quanto mais o "on" estiver junto com o "off", mais força as duas bandas dessa nova realidade terão.
 
E não podemos confundir conexão com conversação. Afinal, fãs não são próximos e seguidores não são amigos.
 
O brasileiro é um ser social por definição e criação. As redes aqui avançam com rapidez maior do que na maioria dos lugares, e ficamos conectados mais tempo do que os outros.

 Isso só vai aumentar. Você não pode ficar de fora. Você já está dentro. Acomode-se. Incomode-se. Comunique-se.
 
E não digite com os dedos, digite com a alma
 

*Nizan Guanaes é publicitário e presidente do Grupo ABC.
Imagem em FredCavazza.net


04 maio 2012

EM TORNO DA MARCA

Criando uma comunidade
de experiência e interesse*
 



Cada vez menos as pessoas curtem e seguem as marcas nas redes sociais. Com tanta coisa para fazer e descobrir, será que ainda temos tempo para segui-las? Será que elas estão sabendo como impactar, envolver e engajar de forma consistente seus fãs? 

Ainda estamos aprendendo a desenvolver essas comunidades de marca em torno de novos
tastespaces e a utilizar as novíssimas ferramentas em um meio tão complexo e dinâmico.

Mas estrategistas e marcas presentes nas redes sociais já sabem da importância de dialogar, envolver e se relacionar com seus públicos de interesse. O modelo B2C agora funciona muito mais na contramão: de fora para dentro. Invertendo-se o binômio: C2B e tornando os canais de comunicação vias de mão dupla.

Os tastespaces de marca são criados quando elas ouvem os feedbacks e as conversas de suas comunidades e são capazes de fazer curadorias de conteúdo relevantes e criativas. 
Cabe às marcas entender as práticas, atitudes e temas de interesse dos seus públicos, para criar uma comunidade por nexos de experiência e gostos compartilhados.

As comunidades de marca são plataformas coletivas, interativas e colaborativas, onde os diálogos são sempre horizontais, líquidos e amarrados aos temas de interesse dos diversos membros do grupo. Um bom estudo de caso é o da fanpage da Coca-Cola, entre outros inúmeros casos de sucesso. Estes tastespaces funcionam como um espaço interativo e colaborativo, on ou offline, que constitui um clube social ou um meeting point, onde podemos conhecer e trocar ideias com pessoas com os mesmos gostos e práticas.

Além de reforçar o posicionamento da marca, estas comunidades nos ajudam a dizer quem somos e a nos identificar com outras pessoas em um universo digital cada vez mais massivo e indistinto.


O papel das marcas é prever e antecipar, criar e oferecer valor através de uma eficiente gestão de conteúdos de interesse, informar, entreter e divertir, gerar fóruns de discussão, estabelecer nexos de filiação e diálogo entre as partes, orientar sobre os temas de interesse, selecionar e apresentar de forma atraente vídeos, imagens e textos que nos permitam conhecer mais do universo e do contexto em que a marca e seus fãs estão inseridos.

Não é ponto de venda e nem tampouco de promoção de seus atributos. É um espaço de socialização e interação, de troca de conteúdos e opiniões.
Alguns autores tentam explicar a razão que leva um grande número de consumidores a participar destas comunidades e tastespaces patrocinados por empresas e marcas nos mais diversos segmentos: Cova, 2002, Tapscott, 2006; Turner, 2006; Zwick, 2008, Kozinets, 2008, Anderson, 2009.

Muitas razões subjetivas e comportamentais são elencadas: por envolvimento com a marca; por busca de notoriedade, reconhecimento social no grupo ou capital social na rede; por serem entusiastas declarados de temas, interesses e gostos compartilhados; por pura diversão e passatempo.

Muitos se envolvem por algum tipo de recompensa material e objetiva: em forma de descontos, prêmios e amostras, convites para eventos; participando de concursos e competições ou pela possibilidade de ser contratado para o quadro interno da empresa ou ganhar expressão dentro de sua área de atuação.


Uma leitura mais antropológica nos mostraria talvez uma busca por diferenciação e pertencimento, ou quiçá, por uma busca ainda mais subjetiva de "sentidos da vida" ou construção de projetos de identidade e sociabilidade em um mundo esvaziado de significado e sentido.

Muitos desses consumidores que interagem nas comunidades de marca são os antigos participantes das tribos urbanas, que reaparecem em uma outra dimensão da realidade, num processo facilitado pela experiência de interação das redes sociais, para se reorganizarem como tribos de consumo ou comunidades de marca.


Os tastespaces de marcas e consumidores são uma tendência crescente nas mídias sociais: comunidades, fanpages, aplicativos, vlogs, flogs e blogs. Os brand lovers e os evangelistas das marcas e tribos de consumo, as comunidades de lead users e experts cooperativos, as crowds, swarms, hives e mobs de Kozinets, mas também os grupos de resistência e movimentos e coletivos de consumo ético, não consumo e consumo emancipado, estão cada vez mais presentes e ativos nas redes e comunidades de marca.

Este engajamento desses consumidores na rede e a busca por capital social dentro de suas comunidades são um sinal de que vivemos em uma época na qual o consumo, mais do que nunca, articula as relações entre os indivíduos e se tornou a principal forma de afirmação identitária, seja para negar ou afirmar pertencimentos a grupos ou se diferenciar buscando a afirmação de um estilo pessoal e de uma autoexpressão marcante.

Podemos entender esse modelo sociologicamente, a partir da lógica durkheiminiana: o incremento dos processos colaborativos vem aumentar o grau de interdependência entre os agentes, articulando novas formas de "solidariedade orgânica". Nesse sentido, as marcas constroem-se a partir da lógica dialógica com seus grupos de consumidores e estes se ressocializam a partir de práticas e ações dentro destes tastespaces

O branding de relacionamento é um facilitador social, cria e promove um novo campo de interações e diálogos em torno de interesses e práticas de estilos de vida e consumo, que movimentam e fortalecem as relações entre as pessoas.


*Sérgio Lage Carvalho é Mestre em Sociologia e Publicidade
pela USP e Consultor e Professor de Comportamento do
Consumidor dos cursos de MBA e Pós-Graduação da FIA,
ESPM, Rio Branco, FIT E IED. Artigo publicado
em 
http://mundodomarketing.com.br. Imagem em 

30 abril 2012

DE VOLTA A FORTALEZA


"Se essa rua fosse nossa"*






Se essa rua fosse nossa seria muito diferente. Longe de saudosismos, tenho saudades de um tempo em que as ruas eram nossas. Quero uma rua que seja nossa, mas não quero uma rua de condomínio fechado, enclausurada.

Quero uma rua livre, menos segregada, que permita a passagem e a convivência com todos. A rua pode e deve ser simples, com casinhas e grama entre as pedras que revestem seu calçamento.  



A posse da rua advém das relações que estabelecemos com ela. Ruas com calçadas, com pessoas conversando, crianças brincando. A rua não pode e não deve ser pensada só para atender à necessidade de passagem de veículos. Rua sugere caminho, direção, paradas. 


Também sugere endereço, nosso lugar no mundo, nosso espaço de referência que permite a fricção do individual e do coletivo, do público e do privado. A porta da casa é passagem, é entrada, é saída. As janelas favorecem olhar o mundo a partir da proteção oferecida pela casa.    


Quero nossa rua de volta. Quero ter o direito e o prazer de encontrar vizinhos, conversar, atualizar minhas discussões, me intrometer nos disse me disse cotidianos, saber das festas, dos acontecimentos. Não quero só a rua, quero a vizinhança. Quero sentir a proximidade das pessoas, saber de seus afetos e dissabores. 


Quero a praça como espaço vivido regulado pelas necessidades de seus usuários. Não quero a praça fria do shopping. Ela não me diz nada. É igual a todas as praças de shopping do mundo. Restaurantes de fast food, uma quantidade enorme de mesas e cadeiras, onde pessoas apressadas devoram sanduíches e se empanturram de batatas fritas e refrigerantes. 


Quero uma pracinha simples com bancos dispostos simetricamente, árvores e marcas de vida coletiva construídas ao longo do tempo. Trechos pisados demarcando caminhos, parquinhos gastos revelando seu tempo e a passagem de infâncias pretéritas. 


Quero uma parte da cidade que pode voltar. Não quero muito. Quero apenas ter o direito de exigir minha condição de parte integrante da cidade, ter prazer em fruí-la, desfrutá-la. Também quero reparti-la. Não a quero só para mim. 


Uma cidade aberta, livre e segura é possível. Temos que retomar ruas e praças. Temos que ter a capacidade de nos apoderarmos de espaços e territorializá-los a partir de nossos desejos de conviver de forma harmônica, conforme os preceitos das regras sociais. Não quero muito. Aceito a cidade com seus conflitos, com suas contradições. Tenho plena consciência de seus limites, mas tenho, entretanto, consciência que chegamos ao limite. 


Morar em condomínios fortificados, viver pelas ruas circulando em carros idênticos a tanques de guerra e fingir que nada está acontecendo, é pura alienação. Basta o “salve-se quem puder”. O coletivo existe. Nossas necessidades são as mesmas. Saiamos do imobilismo diante das telas da tevê e do computador. 


Que venham pessoas povoar as ruas, ocupar as calçadas reanimando uma vida latente que aguarda as condições mais favoráveis para um acontecer social menos excludente. 


*José Borzacchiello da Silva é geógrafo e professor da UFC-Universidade Federal do Ceará

26 abril 2012

QUE PAÍS MESMO É ESTE?

Câmara aprova versão do Código 
Florestal criticada por ambientalistas



Codigo Florestal 20120425 size 598 300x169 Câmara aprova versão do Código Florestal criticada por ambientalistasA Câmara Federal dos Deputados aprovou no início da noite de quarta-feira (25) o texto-base do novo Código Florestal, com as mudanças propostas pelo relator do projeto, o deputado Paulo Piau (PMDB-MG). 
Após horas de discussões, os deputados aprovaram por 274 votos a 174 e 2 abstenções as mudanças feitas por Piau, contrariando a orientação do Palácio do Planalto. A versão do Código Florestal feita por Piau é contestada por ambientalistas, uma vez que é considerada ainda mais favorável aos interesses do ruralistas do que o projeto construído no Senado.
Antes mesmo de encerrada a votação, ambientalistas iniciaram nas redes sociais uma campanha para a presidente Dilma Rousseff vetar o Código. A bancada do PT, que votou contra o projeto de Piau, deu indicações de que Dilma deve fazer isso. A própria presidente aventou esta hipótese, sem esclarecer, no entanto, se vetaria o texto na íntegra ou apenas alguns pontos. Os ministérios do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura também eram favoráveis à versão do Senado.
O resultado revela um racha entre a bancada do PMDB e o governo. Os deputados do partido, dos quais muitos são ruralistas, votaram em peso a favor do texto de Paulo Piau.
Piau chegou a reformular o seu parecer antes da votação. O principal problema do relatório era a retirada de percentuais mínimos de recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) desmatadas nas margens de rios localizados dentro de propriedades rurais. Eram áreas a 15 metros dos rios e córregos com até 10 metros de largura. Além disso, Piau repartia entre o governo federal e os governos estaduais a obrigação de legislar a respeito das APPs. 
Em reunião de líderes nesta terça, Piau foi obrigado a devolver este artigo ao texto, pois ele já havia sido aprovado pela Câmara e pelo Senado. Ainda assim, Piau conseguiu fazer uma alteração considerada inaceitável pelo governo e por ambientalistas, que dá aos estados e municípios o poder de delimitar as áreas de preservação em cursos d’água de regiões urbanas.
Outra mudança que irritou o governo e os ambientalistas diz respeito aos princípios do Código Florestal. O texto que saiu do Senado afirmava que o Código Florestal era, primordialmente, uma lei ambiental. Sem este dispositivo, a impressão é de que a bancada ruralista está querendo transformar a lei em uma anistia aos desmatadores.
*publicado originalmente em www.cartacapital.com.br

12 abril 2012

FELIZ ANIVERSÁRIO (ENVELHEÇO NA CIDADE)

Fortaleza: 286 anos*


Fortaleza faz aniversário com muitas conquistas e vários problemas. Completa 286 anos no próximo dia 13, com múltiplos motivos para festejar. Aguarda ansiosa obras estruturantes, assusta-se com o volume de veículos que congestionam ruas e avenidas, constata uma interminável lista de carências.


Não se muda a cidade só na aparência. Não adianta implantar prédios grandiosos, modernos e funcionais se a cidade não acolhe a todos, se a distribuição de renda é extremamente desigual. 


Fortaleza chega a essa idade com contrastes desoladores. A Semana Santa finda no último domingo escancarou as misérias de nossa cidade. Nas ruas, levas de maltrapilhos pediam esmolas. 

Eram muitos nas esquinas, situação nada condizente com a “loura desposada do Sol”. A cidade com suas mazelas expostas quer instalar um aquário grandioso, de construção cara e manutenção dispendiosa.
Na mídia os problemas da cidade aparecem e incomodam: violência, feridos e doentes acantonados em corredores de hospitais, falta de médicos e remédios nos postos de saúde, escolas pouco atraentes para as crianças, habitações precárias.

Alheia aos problemas, Fortaleza prossegue em plena expansão. A cidade camufla as péssimas condições de vida de um enorme contingente da população ostentando bairros e centros comerciais luxuosos e dinâmicos.

A incorporação de novos quarteirões e a abertura de grandes avenidas comprovam a expansão urbana desordenada com praças e parques amesquinhados em sua forma e na função, contradizendo a capacidade atrativa da cidade.


A aparência bucólica de alguns bairros, escamoteia a não valorização de seus espaços públicos. São poucas as praças e são mínimos os cuidados com a paisagem urbana. Fortaleza é pouco generosa com a rua, principal fragmento do espaço público.

A cidade contraditória relega suas áreas públicas e super valoriza espaços privados voltados à animação como as praças de alimentação dos shoppings.


O Centro, apesar dos novos investimentos como os mercados São Sebastião e Central, Dragão do Mar e novas praças é o bairro de aparência mais degradada. A migração de serviços especializados para outros setores da cidade induziu o Centro para funções não condizentes com sua expressão sociocultural.

Mesmo assim, permanece importante espaço de sociabilidade urbana. Suas ruas, praças e calçadas, mesmo que amesquinhadas, garantem ainda a riqueza cultural do encontro, da festa, reproduzida na circulação frenética da população.


Imagens de um passado recente da cidade mostram uma Fortaleza que se reduzia à atual área central, com prédios alinhados, ruas cuidadas e praças ajardinadas. Não revelam, entretanto, o intenso controle espacial regido pelos severos códigos de postura.

Hoje, malgrado as desigualdades sociais, é uma cidade mais democrática, com muitas oportunidades. Espera-se que nos 286 anos de Fortaleza, os gestores que tomam decisões que impactam a cidade tenham lucidez para repensar seu futuro. 


*José Borzacchiello da Silva é geógrafo e professor do
Curso de Geografia da UFC-Universidade Federal do Ceará.
Imagem em http://blog.manager.com.br

JACK WHITE

Dois contra um








05 abril 2012

CULTURA DE 5 MIL ANOS

A força da agricultura chinesa*


Um dos muitos provérbios chineses diz que uma visita vale por mil relatórios. É uma das grandes verdades, pois é preciso ir até àquele país do Oriente para ver de perto a grande revolução que está acontecendo em todos os setores daquela nação.

A nossa visita teve como foco principal ver de perto a realidade da agricultura familiar. E tentar entender como um país com 700 milhões de agricultores familiares, explorando 140 milhões de hectares de terras agricultáveis (com média de 0,2 hectare por agriculor), é capaz de produzir grãos em quantidade que chega a três vezes mais do que a safra brasileira.


Se não bastasse tudo isto, eles ainda são os maiores produtores de milho, trigo, leite, alho, suínos e com produtividades de grãos nunca inferior a cinco mil Kg/ha. Apesar de serem recordistas em muitas culturas, por conta do aumento da demanda têm que importar alguns produtos, principalmente soja. A sua produção não vai além de 15 milhões de toneladas.


Com o aumento do poder de compra, disparou o consumo de carne, o que levou aquele país a importar, pela primeira vez, milho de outros países. Apesar deste sucesso, eles se depararam com um fator limitante: não há mais fronteira agrícola na China. Com um frio superior a -10ºC, no inverno é impossível imitar o Brasil fazendo a "safrinha" ou praticando a irrigação durante praticamente os 12 meses do ano.


Diante desta realidade chinesa, o Brasil é visto por eles como o país cuja economia pode complementar a chinesa, principalmente no fornecimento de grãos e de minério de ferro, para que eles tenham um desenvolvimento sem nenhum sobressalto, principalmente no que se refere à segurança alimentar.


Depois de passarmos 10 dias com os chineses, quais lições poderíamos aprender com eles para melhorarmos a eficiência da nossa agricultura familiar?Com certeza, elencaria as cinco descritas abaixo:


1 - A religião deles é o trabalho;


2 - O planejamento é uma verdadeira virtude do chinês;


3 - Os chineses ão extremamente disciplinados;


4 - O cooperativismo e o associativismo são muito fortes na agricultura chinesa;


5 - A internet é usada intensivamente para prestar assistência técnica aos agricultores chineses.


Quem tem um acumulado de conhecimentos e uma cultura de cinco mil anos, com certeza tem uma lição a ensinar — e o agricultor familiar brasileiro tem que se espelhar no exemplo do agricultor chinês.




*José Maria Pimenta Lima é presidente da EMATERCE-Empresa
de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará.
(texto publicado em www.opovo.com.br)

27 março 2012

AMEAÇA À SAÚDE

 Atenção aos perigos dos transgênicos* 


Frequentemente, ambientalistas e produtores rurais alertam sobre os riscos que os alimentos transgênicos representam para saúde e o meio ambiente. 

Cada vez mais presentes na mesa dos consumidores, esses produtos fazem parte de uma complicada cadeia produtiva, além de tornar os antibióticos ineficazes para os seres humanos e causar alergias.

Os transgênicos são alimentos geneticamente modificados, e protegidos por patentes. Os agricultores precisam pagar uma taxa extra para cultivá-los. 

Isto cria dependência, porque as empresas químicas desenvolvem as sementes pensando em protegê-las dos agrotóxicos que elas também desenvolveram.



Um exemplo é a soja "Roundup Ready", que tem como característica resistir à aplicação do herbicida glifosato**. 


Com isso, há a necessidade de aplicação de maiores quantidades de veneno nas plantações, o que representa maior quantidade de resíduos tóxicos nos alimentos que consumimos, nos rios e no subsolo.
Para ter-se uma ideia do impacto na saúde dos brasileiros, em 2004 a ANVISA-Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o aumento em 50 vezes do limite de glifosato permitido em alimentos à base de soja.

Porém, esta variedade de agrotóxico está relacionada a problemas reprodutivos e ao surgimento de câncer.

*por Jorge Américo da Radioagência NP, com informações do
IDEC-Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor e do Greenpeace

**O glifosato (N-(fosfonometil) glicina, C3H8NO5P, ou glyphosate) é
um herbicida sistêmico não seletivo (mata qualquer tipo de planta)
desenvolvido para eliminar ervas, especialmente as perenes. É o
ingrediente principal do 
herbicida Roundup, desenvolvido pela
norteamericana Monsanto. Muitas plantas geneticamente modificadas
têm basicamente modificações genéticas destinadas a fazê-las resistir
ao glifosato. Sementes dessas plantas são comercializadas sob a
marca "RR" (Roundup Ready), registrada pela empresa. O herbicida
é absorvido pelas folhas e não pelas raízes 
das plantas. Abaixo, logomarca oficial da Monsanto:






LEIA MAIS 
www.radioagencianp.com.br
www.idec.org.br

26 março 2012

DE POLÍTICAS E CANÁRIOS

Fina flor da moralidade pública quer redefinir terras indígenas, quilombolas e ambientais*

O canário está ferido. Suas plumas estão tintas de sangue. Ele foi atingido nesta quarta-feira, 21 de março, pelos disparos feitos por trinta e oito deputados que aprovaram, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, um relatório destinado a mudar a atual Constituição Federal do Brasil.

A mudança proposta redefine as terras indígenas, quilombolas e ambientais, num retrocesso histórico que, se for confirmado por três quintos dos parlamentares, condena o canarinho à morte.

A imagem do canário é do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ele conta que nas minas de carvão do Reino Unido, os mineiros tinham o costume, até 1986, de levar com eles, para dentro dos socavões, um canário em uma gaiola.

O bichinho, muito mais sensível que os humanos aos gases tóxicos acumulados dentro dos túneis, começa a agonizar quando o ar fica envenenado. Sua morte é um sinal para os mineiros, um “aviso” de que devem evacuar as galerias. “Canary in the coal mine” — canário na mina de carvão — virou expressão que indica perigo iminente.
Dessa forma, os mineiros usavam o canário como um “indicador ecológico” toda vez que iam cavar os “ossos da terra” — é assim que os Yanomami chamam os metais extraídos das jazidas.
Viveiros de Castro considera que os índios, bem à sua revelia, são os nossos canários sociológicos ou socioambientais. A agonia dos índios é um “aviso”, anunciando que a sociedade envolvente está podre, na iminência de falir, do ponto de vista ecológico e sociopolítico.

E acontece que, no Brasil, se essa emenda passar, o ar vai ficar irrespirável. Só que, ao contrário dos mineiros, nós não temos para onde nos picar. O nosso destino está amarrado ao das sociedades indígenas.
Nova Era
Aqui, durante cinco séculos, os índios tiveram suas terras pilhadas, saqueadas, usurpadas, sempre através da violência armada. Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte deu um basta nisso, quando aprovou a Constituição, selando um pacto novo com mais de 200 povos.

O Brasil falou, então, aos índios, que não era mais possível recuperar os 87% das terras que eles haviam perdido, mas daqui em diante o Estado garantia a demarcação dos 13% restantes que ainda ocupam. A partir de agora, ninguém mais pode roubar terra de índio.

Esse foi o pacto assumido pela “carta cidadã” de 1988, que acatou o pressuposto da antecedência histórica, reconhecendo aos índios os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, posto que eles estavam aqui antes do que qualquer fazendeiro.

O quadro jurídico novo reconhece ainda organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como a relação integrativa com a terra, que é tão essencial para os índios como o ar para qualquer ser vivo.
Com esse espírito, a Constituição criou mecanismos de ações afirmativas para compensar os crimes históricos cometidos contra os índios, permitindo que o país inaugurasse uma “nova era constitucional”, para usar a expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ayres Britto, em seu relatório sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
O Brasil chamou, como testemunhas desse novo pacto, o mundo inteiro, quando assinou, em 2002, a Convenção 169 da OIT-Organização Internacional do Trabalho, que estabelece, no plano internacional, a proteção das instituições, das pessoas, dos bens e do trabalho dos índios.

Depois, no dia 13 de setembro de 2007, numa Assembleia Geral da ONU-Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, o Brasil aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e se comprometeu, na frente de todos os países do mundo, que iria respeitar esses direitos.
Agora, 38 deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir os acordos nacionais e internacionais do Brasil. Eles ressuscitaram a Proposta de Emenda Constitucional — a PEC 215/2000 — de autoria do deputado Almir Sá, do PPB (atual PP — vixe, vixe) de Roraima.

Esta PEC estabelece que quem decide se uma terra é indígena não é a forma tradicional de ocupação, mas o Congresso Nacional, que pode até mesmo rever as demarcações já feitas. As raposas votam que são elas que devem tomar conta do galinheiro.
O relatório aprovado do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR - vixe, vixe) retirou essa última parte sobre as terras já demarcadas, mas conservou o restante, que representa um golpe contra índios e quilombolas. Manteve várias outras propostas incorporadas à PEC 215, como a do deputado Carlos Souza (PSD-AM, vixe, vixe), que determina que as Assembleias Legislativas devem ser consultadas sobre demarcações — o que é competência da União — “a fim de se evitarem os significativos prejuízos que a demarcação de terras indígenas impõe às unidades federadas”. Ele não explica que prejuízos são esses e, afinal, quem são os prejudicados.
Agonia do canário
A sessão da CCJ, tumultuada, durou mais de quatro horas. Os índios, é claro, se fizeram presentes e protestaram, entre eles, Jaci Makuxi, comandante da luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Tiveram o apoio do deputado Alessandro Molon (PT-RJ), para quem a PEC é um “gravísimo retrocesso, gritantemente inconstitucional, que atende à sanha do ruralistas por novas terras”.

O relatório foi aprovado com o voto de 38 deputados da CCJ. Entre eles, a fina flor da moralidade pública, da retidão e da honestidade, com uma larga folha de serviços prestados a si próprios: Paulo Maluf, Esperidião Amin, Alberto Lupion, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha e — que vergonha! — Roberto Freire, além dos cultivadores de cacau do Sul da Bahia, Félix Mendonça e Paulo Magalhães, inimigos declarados dos Pataxó e Tupinambá.


Agora, com o relatório aprovado, uma Comissão especial criada exclusivamente para isto vai elaborar a emenda que deve ser apresentada ao plenário. Resta saber se a parte sadia do Brasil vai assistir acocorada, de braços cruzados, à morte do canário, e vai morrer junto com ele, ou se vai se levantar contra essa vergonhosa legislação em causa própria.



O ministro Ayres Britto, que assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal, representa um fiapo de esperança. Quando ele foi relator no caso Raposa Serra do Sol, desmontou o alegado antagonismo entre a questão indígena e o desenvolvimento e defendeu “a efetivação de um novo tipo de igualdade, qual seja, a igualdade civil-moral de minorias que têm experimentado historicamente e por preconceito desvantagem corporativa com outros segmentos sociais”.


Contra essa igualdade civil-moral é que votaram os 38 deputados, que parecem retomar o espírito das comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, cuja sessão magna, no dia 4 de maio de 1900, foi aberta com um discurso do engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro.

Ele disse, com todas as letras, que o Brasil nada tinha de indígena: “Os selvícolas (…), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los”.



O cara, que presidia as solenidades, estava propondo eliminar os índios, como se estivesse dando um presente de aniversário ao País. Afinal, qual é o lugar dos índios na construção do Brasil?

Se for aquele planejado por Paulo de Frontin e pelos ruralistas, então quem está ameaçada é toda a sociedade brasileira, nós, nossos filhos e nossos netos, e já podemos ouvir os gritos soando nas galerias:
— Canary in the coal mine!...
*o professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa
de
Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no
Programa de
Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).
Imagem em  
http://
altmentalities.wordpress.com


Informações complementares: