27 maio 2008

DO JAPÃO AO BRASIL

Contrato avalizou viagem



No Japão, os eventos que marcaram o início das comemorações relativas ao Centenário da imigração japonesa ao Brasil não tiveram o grande apelo popular visto nas cerimônias promovidas em nosso País, restringindo-se à realização de discursos e à promoção de coquetéis para as autoridades. Nas cidades Tóquio e Kobe, fizeram-se presentes membros da família imperial e do governo japonês. Menos de 400 pessoas participaram do coquetel presidido pelo príncipe-herdeiro Naruhito em Kobe — de onde partiu há 100 anos o navio Kasato-Maru, que trouxe até Santos os primeiros 781 imigrantes japoneses.

Assim, o dia 18 de junho celebrou o Centenário da imigração japonesa no Brasil. A saga nipo-brasileira começou no início do século passado, quando a nossa república — recente e contando apenas 20 anos da abolição de seus escravos — adotava uma economia fortemente agropastoril, necessitando de mão-de-obra barata para as lavouras. Os imigrantes europeus, não adaptados à lida extensiva nos campos, buscavam outros meios de subsistência.

O Japão, por sua vez, experimentava forte explosão populacional com sua economia em recessão, devido à passagem da economia feudal para a capitalista. Mais ainda, os nipônicos não tinham espaço nos Estados Unidos, Europa e Austrália, que proibiam a imigração. O Brasil despontou como solução, e um acordo entre os dois países celebrado em 1895 — o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação — autorizou a viagem dos imigrantes japoneses. Saindo do porto de Kobe a bordo do vapor Kasato-Maru, no dia 18 de junho de 1908 aportou em Santos (SP - foto) a primeira leva organizada de trabalhadores do país do Sol Nascente, contando 781 pessoas, após uma viagem de 52 dias.

Em 6 de novembro de 1907, o governo de São Paulo firmou contrato com a Empire Emigration Company (Kokoku Shokumin Kaisha), estipulando que seriam introduzidos três mil agricultores, em levas não superiores a mil pessoas. Poderiam vir pedreiros, carpinteiros e ferreiros em número não superior a 5% do total. Para a maioria dos imigrantes japoneses, a vida no Brasil começou nas fazendas, colhendo e cuidando dos pés de café que nem imaginavam existir. Apanhar, peneirar, capinar — a rotina dessa faina ia sendo aprendida por eles. O problema era na hora de acertar as contas: na caderneta, as despesas sempre eram maiores que o saldo.

Nos primeiros 10 anos, a imigração foi tímida: 15 mil pioneiros japoneses chegaram ao País, cheios de esperança e sonhos de prosperidade, num País de costumes, língua, clima e tradições completamente diferentes. O número aumentou consideravelmente com a Primeira Guerra Mundial (1914-1818), chegando ao ápice em 1940, quando cerca de 160 mil japoneses chegaram a São Paulo, Paraná, Amazonas, Pará e Espírito Santo.

A língua, os costumes e o preconceito foram as principais barreiras à integração dos japoneses no Brasil. Muitas famílias tentaram voltar ao Japão, mas o contrato de trabalho com os fazendeiros previa normas que impediam sua rescisão. O período mais difícil desta adaptação ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): o Brasil entrou no conflito junto aos aliados, declarando guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A imigração japonesa foi proibida e seus descendentes prejudicados por vários atos governamentais — não podiam usar seu idioma nem manifestar costumes culturais ou religiosos.

Com o fim do conflito, os atos foram desfeitos e a imigração voltou a crescer. Os japoneses diversificaram suas áreas de atuação para a indústria, comércio e serviços. Atualmente, o Brasil é o país com a maior quantidade de japoneses fora do Japão: a comunidade nipo-brasileira conta mais de 1,5 milhão de indivíduos, segundo o Centro de Estudos Nipo-Brasileiros em São Paulo (SP). Atualmente, 75% destes descendentes estão concentrados naquele Estado, 15% no Sul do Brasil e os 10% restantes em outros Estados da Federação.

Os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão denominam-se nikkei, sendo os filhos nissei, os netos sansei, os bisnetos yonsei e os nipo-brasileiros que foram trabalhar no Japão a partir do fim dos anos 80 são chamados dekasseguis. Estima-se que, hoje, 10 % dos brasileiros filhos e netos de japoneses saibam falar o idioma japonês. Também é cada vez mais comum o casamento fora da colônia japonesa e, atualmente, cerca de 30% dos nipo-brasileiros são filhos de um relacionamento entre um japonês e um não-japonês.


CEARÁ DE OLHOS PUXADOS
No dia 16 de maio de 1960 chegaram ao Ceará os primeiros imigrantes japoneses. Eram 43 pessoas que pertenciam a uma família oriunda da província de Kagoshima e a mais outras 9 de Nagano, que atraíram a atenção dos moradores da cidade de Guaiúba (Região Metropolitana de Fortaleza) ao desembarcarem na estação ferroviária local.

O grupo partira também de Kobe, no navio Santos-Maru, tendo viajado por 43 dias até chegar a Recife (PE). Após uma noite de descanso, o caminho foi retomado em um trem. O destino era definido: a fazenda São Jerônimo, depois renomeada como Colônia Pio XII, instalada na área adquirida pelo INIC-Instituto Nacional de Imigração e Colonização, órgão governamental que promoveu o traslado e o assentamento dos nipônicos para um projeto agrícola em terras do Brasil.

A vinda dos japoneses foi acertada quando a JICA-Japan International Cooperation Agency, baseada no Rio de Janeiro, solicitou de suas sedes localizadas em províncias do Japão a convocação de agricultores daquele país para o cultivo de frutas e verduras no Ceará, com o aval do governo federal. Inicialmente destinando sua produção ao mercado de Fortaleza, a seguir a comunidade deveria difundir aos cearenses as técnicas agrícolas empregadas.

Muito em breve tornaram-se disponíveis a melancia e o melão resultantes das primeiras tentativas de aclimatação, ambos de excelente qualidade e até o presente ainda cultivados em Guaiúba. A obtenção de sementes selecionadas destes e de outros frutos, bem como de pepino, pimentão e abóbora é creditada a Shinzo Ohama, representante da igreja japonesa Tenrikyô (Ensinamento da Razão Divina), já então radicado no Brasil. Seu apoio foi essencial para a adaptação daquela colônia de imigrantes e para a evolução do seu experimento agrícola, que desenvolveu variedades de verduras e frutas muito bem aceitas pelo mercado.

Ao completar 48 anos de existência, a colônia hoje compõe-se de apenas três famílias, cujos isseis (imigrantes de primeira geração) encontram-se na Terceira Idade. Estas pessoas foram homenageadas com o respeitoso título subarashi (“magnífico”, “esplêndido”, “grandioso”), em referência à sua capacidade de superação — demonstrada desde a mudança da terra natal até à conquista das barreiras representadas pelo clima, pela cultura, pelos costumes e pelo idioma encontrados.

Segundo Yuka Ito, do Curso de Mestrado em Lingüística Aplicada da UECE-Universidade Estadual do Ceará, os atuais representantes destas três famílias em Guaiúba são os senhores Koichi Fijiwara, Daisuke Tsuchiya e Motoyuki Okura, homenageados junto aos seus conterrâneos que vivem no Estado com a entrega de placas comemorativas pelo Centenário da Imigração Japonesa no Plenário 13 de Maio da Assembléia Legislativa, no último dia 7, pelos esforços e contribuições prestados à sociedade brasileira.


ENTRE OS PIONEIROS
Conforme estima o Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará, há cerca de 2 mil nikkeis no Estado, espalhados principalmente em Fortaleza, Cascavel e Guaiúba, com 500 famílias cadastradas na entidade. Criado em 1971 e inoperante durante 10 anos, o instituto foi reativado em 2006 por iniciativa dos nikkeis cearenses e voltou a promover encontros comunitários e a incentivar ações ligadas à tradição japonesa (como o evento Lanternas pela Paz, realizado anualmente no Ceará, reunindo os nikkeis locais e fortalecendo os laços entre os dois países, e o apoio dado ao curso de Língua Japonesa do Núcleo de Línguas da UECE-Universidade Estadual do Ceará). O empresário da construção civil João Batista Fujita é o atual presidente do instituto.

Jusaku Fujita, o pai de João Batista, chegou ao Ceará em 1923. Rebatizado como Francisco Guilherme Fujita, antes de se estabelecer definitivamente em Fortaleza ele viveu no Peru, no Chile e na Bolívia. Depois de passar por Crateús, ao chegar à capital cearense o imigrante fixou residência na Moitinga (hoje Maraponga), onde ocupou-se da horticultura e seu comércio numa banca do Mercado Central. O clã Fujita emergiu do casamento de Jusaku com a cearense Cosma Moreira (alcunhada Neném). Da união nasceram 14 filhos (apenas seis chegaram à idade adulta): Luzia (dentista), Edmar (médico, já falecido), Francisco (dentista, já falecido), João Batista (empresário), Nisabro (engenheiro) e Maria José (professora). Hoje, os Fujita somam cerca de 50 integrantes, entre filhos, netos e bisnetos.


100 ANOS
No último dia 6, o presidente do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará João Batista Fujita deu início, ao lado do cônsul-geral do Japão no Brasil, Toshio Watanabe, às comemorações locais do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil.

João e sua esposa Rejane anfitrionaram 200 convidados no buffet La Maison Dunas, na Praia do Futuro em Fortaleza. Do menu — assinado pelo chef Élcio Nagano, do premiado Kingyo Restaurant — constaram (como entradas) minisushis especiais com ovas de masago (capelin), harumaki (rolinhos de alga kombu) recheados com carne bovina, acompanhados de cogumelos shiitake e nasu (beringela japonesa) e (como prato principal) Yakissakana Sirigado (sirigado grelhado) ao molho sumiso de maracujá, acompanhado de Yakimeshi (arroz) de cogumelos shimeji. Como sobremesa, Nagano criou a Sunrise (“sol nascente”, em homenagem aos seus ancestrais): salada de frutas (kiwi, lichia, morango, manga e mamão) com gelatinas kanten (de algas e saquê), acompanhada por sorvete (de creme e baunilha) e espetinho quente de harumaki (rolinho Primavera) de maçã, cortada bem fininho. Foi tal o sucesso da sobremesa que ela já integra o cardápio do Kingyo.

No restaurante também pode-se degustar o bife de Kobe, exótico e caro, que demorou décadas para chegar ao Brasil. "A iguaria está entre as 10 mais exóticas do mundo", afirma Nagano, que é também o vice-presidente do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro no Ceará. "Equipara-se ao foie gras, ao caviar, à trufa branca, entre outras raridades da culinária universal", complementa.

Em Kobe, no Japão, o bezerro da raça wagyu é criado em um ambiente cercado de cuidados e mordomias para evitar qualquer estresse, sendo alimentado à base de cevada e cerveja, para manter sua carne macia e suculenta. É massageado diariamente, o que estimula a migração das gorduras para dentro das fibras e, modernamente, até ouve música clássica. Lenda ou verdade, sua carne é reconhecida como a mais nobre do mundo: no Japão, uma refeição à base do bife de Kobe pode custar ao redor de R$ 350.

Nagano, que gosta muito de pesquisar e combinar tradição com inovação, inspirou-se para criar o Ishi Kobe, que serve fatias cruas de filé de Kobe, trazendo no prato uma pedra (de rio) aquecida que assa as finíssimas fatias de carne, que podem ser embebidas nos molhos teppan e sumiso, ao custo de R$ 29. A culinária japonesa é apreciada hoje no mundo inteiro por vários fatores, como o apelo à saúde: tem baixo colesterol nocivo, é rica em colesterol “bom”, saborosa, leve, refrescante e combina com o clima tropical. “No entanto, preparar sushis, por exemplo, requer cuidados e critérios higiênicos e de qualidade dos materiais e ingredientes que devem ser necessariamente observados”, aponta o chef do Kingyo.


TRANSCULTURALIDADES
Tokyo, Kyoto, Hiroshima, Otome Toge, Tsuwano e Nagasaki são as seis cidades japonesas pelas quais passou um grupo de brasileiros em peregrinação ao Japão.Os peregrinos da Pastoral Nipo-Brasileira (PANIB) viajaram entre os dias 27 de março e 10 de abril, numa iniciativa que integra os eventos do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Na programação, missas e palestras, numa promoção da Pastoral Nipo-Brasileira, ligada às Pastorais da Mobilidade Humana da CNBB-Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.

Enquanto isso, a atriz Daniele Suzuki — que interpreta a personagem Alice na novela Ciranda de Pedra da Rede Globo de televisão — foge aos estereótipos. Em entrevista, ela revela: “Não me olho no espelho e fico dizendo: ´Caraca, sou muito japonesa!´. Estou integrada ao meio, vou pra samba, pro forró, não me visto a caráter, não tenho uma cultura em casa, minha comida é arroz, feijão e farofa. Quando alguém me chama de ‘japa’, nem ligo, não é comigo”. Daniele confessa ainda ser uma garota de muita, muita fé: “No meu altar, ficam o jardim japonês, o gatinho, o Buda, uma imagem de Nossa Senhora, do Padre Cícero e do Dalai Lama. Quando o negócio aperta, corro pro meu Padim Ciço, Jesus Cristo e Nossa Senhora”, declara.

Na atualidade, palavras origem japonesa como saquê, sushi, sashimi, yakisoba (culinária), karate, ju-jitsu, ju-do (artes marciais), mangá, anime (histórias em quadrinhos e desenhos animados), Toshiba, Samsung, Sony (marcas de eletro-eletrônicos), Toyota, Honda e Suzuki (veículos), entre muitas outras, encontram-se fortemente incorporadas à cultura brasileira.

Nas últimas décadas, a penetração da influência nipônica no cotidiano das cidades brasileiras expandiu-se tanto que, em muitos casos, tornou-se modismo. É o que se passa, por exemplo, com a sua admirável culinária, que segue conquistando admiradores, seja pela harmonia dos arranjos de seus ingredientes, seja pela extrema sensibilidade e riqueza de detalhes com que são servidos e apresentados os pratos.As histórias em quadrinhos e os desenhos animados japoneses — mangás e animes —, granjeiam cada vez mais fãs no Brasil. O fato é notório em eventos que reúnem milhares de jovens apaixonados pelo Japão.

Em Fortaleza, o SANA FEST, promovido dias 19 e 20 de janeiro passado no Centro de Convenções Edson Queiroz, atraiu mais de 10 mil adolescentes. O evento abriu a seu modo, no Ceará, as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (1908-2008), realizando uma eliminatória do WCS-World Cosplay Summit (em que os fãs fantasiam-se de personagens) e anunciou atrações para o novo evento do gênero, a ser realizado em julho em Fortaleza.

Neste tipo de “celebração coletiva” a idolatria é acentuada e o “espírito da coisa” entre os jovens é vestir-se com cópias das roupas usadas pelos personagens de games, animes e mangás. Seus participantes denominam-se otakus — termo usado no Japão para designar quem é fanático por alguma temática qualquer, significando também pessoas gordas, rosadas, cheias de espinhas na cara (às vezes no corpo todo) e que vivem num “mundo paralelo”...

Em cena, dubladores de personagens de animações do cinema (como Rei Leão, Sailor Moon, Cavalo de Fogo), palestras sobre estes temas e sessões de autógrafos que reúnem centenas de otakus atentos às curiosidades do mundo da dublagem e com grandes expectativas de ouvir as frases ditas por seus personagens favoritos.

Junto às exibições, ocorreu a apresentação de trailers com as atrações internacionais deste ano (mostrando intérpretes de animesongs adorados como Pegasus Fantasy e Chikiugy) e no concurso de fantasias, Iara e Natália, ambas de 20 anos, saíram vencedoras como cosplayers de personagens do anime Sakura Card Captors. Por fim, os alunos de Japonês da UECE fizeram uma divertida apresentação de danças tradicionais. Além de tudo isso, os jovens presentes divertiram-se com bandas de j-music (como X-Metal, Akatsuki, Yakisoba) e animekê, games, card games e nas salas de exibição, como membros de uma tribo para quem tudo é virtual e uma grande brincadeira.

Em São Paulo, capital, foi eleita a Miss Centenário Brasil-Japão, em evento promovido no Ginásio do Ibirapuera. A cirurgiã-dentista e bancária Karina Eiko Nakahara, de 26 anos, estreante em concursos de beleza, foi a escolhida, disputando o título com cerca de outras 500 moças de vários Estados, depois de ser eleita Miss Centenário Alto Tietê (foto). Mato Grosso, Paraná e São Paulo, respectivamente, forneceram o maior número de participantes ao evento, devido à grande quantidade de imigrantes de ascendência nipônica nessas regiões.

Paulista e neta de japoneses, a morena de 1,76m e 56Kg teve o incentivo dos pais. “Eles viram o anúncio na televisão e falaram para eu me inscrever”, conta a miss — que, além do reconhecimento e do carro de cerca de R$ 35 mil que ganhou, que fazer um pouco mais para que sua comunidade receba ainda mais carinho dos demais brasileiros.

Conciliando seus empregos com os novos compromissos, Karina reflete a trajetória de seus antecessores: depois daqueles primeiros 781 lavradores destinados às fazendas de café, os cerca de 230 mil japoneses de todas as idades que chegaram ao País até a década de 1950 pouco a pouco deixaram o campo em direção às cidades, sob o incentivo de interesses políticos, econômicos e culturais.

No ano passado, as exportações cearenses para o Japão alcançaram US$ 10,1 milhões. As importações, por sua vez, somaram US$ 9,7 milhões. No Brasil, as vendas para o mercado japonês chegaram a US$ 4,3 bilhões em 2007, enquanto as importações representaram US$ 4,6 bilhões, conforme o Centro de Negócios da FIEC-Federação das Indústrias do Estado do Ceará. Porém, estas relações comerciais têm um grande potencial de crescimento e podem envolver cifras ainda maiores. "Estamos falando de negócios em trilhões de dólares", afirmou o economista e professor Paulo Yokota em sua palestra sobre "O atual intercâmbio Brasil-Japão" proferida dia 14 passado, na sede da FIEC em Fortaleza.

Yokota, um ex-diretor do Banco Central, esteve recentemente no Japão e explica que há grande entusiasmo das autoridades e empresários daquele país com relação ao nosso. "A situação do Brasil melhorou muito. A economia melhorou, temos mais petróleo, somos a noiva do mundo", enfatiza. O Japão, segundo ele, é um bom pretendente, pois trabalha com contratos de longo prazo, financiamento barato e ainda compra a produção.

Entre os interesses do mercado japonês, o economista cita o etanol e os biocombustíveis. "O Japão precisa de energia, eles estão investindo nisso", revela. Segundo ele, o Japão está de olho também em tecnologias que dominamos, como a da exploração de petróleo em águas profundas e softwares (programas e sistemas) diversos, especialmente aqueles ligados à fabricação de aeronaves. "Nosso software já está entrando (no Japão). Eles são bons em hardware (máquinas), mas em software o Brasil é muito mais criativo", acredita.

Sucos de fruta, produtos orgânicos, artesanato, moda e design são também nichos apontados como de grande potencial de comércio com o Japão. Em todos os casos, no entanto, é preciso estar atento para que o mercado deseja e adequar os produtos a estas necessidades. "A mulher japonesa é diferente da brasileira na moda, por exemplo. Tem que produzir para o mercado", observa. Para conseguir espaço no comércio nipo-brasileiro, Yokota aconselha também que o empresariado busque atender aos padrões de exigência internacionais, por meio de certificações que atestem sua qualidade. "Aqui no Ceará, por exemplo, a participação ainda é muito modesta. Precisamos fazer um controle de qualidade para entrar neste mercado, certificar os produtos", ensina.

Trabalhar exportação e importação é outro conselho dado pelo economista: assim fica mais fácil compensar as flutuações da moeda americana. A palestra de Paulo Yokota fez parte das comemorações ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil e foi promovida pela FIEC, junto ao Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará.


COMISSÃO NACIONAL
O Centenário da Imigração Japonesa está sendo comemorado com diversos eventos País afora. No âmbito nacional, foi instalada a Comissão Nacional Organizadora das Comemorações. Para executar a tarefa, sete grupos de trabalho foram formados: 1) agricultura; 2) energia e desenvolvimento sustentável; 3) oportunidades de comércio; 4) comunidade brasileira no Japão; 5) comunicação, logística e meios; 6) cultura, turismo e esporte; e 7) educação e ciência.

O Brasil e o Japão atualmente têm diversos interesses em comum, como a conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a associação no processo da TV digital e o comércio bilateral. Em 2006, as exportações brasileiras para o mercado japonês somaram US$ 3,884 bilhões e as importações US$ 3,839 bilhões.Estão presentes no Brasil mais de 200 companhias japonesas. Recentemente houve novos investimentos importantes na área de siderurgia, como na Usiminas e também na Cenibra, na área de celulose. Toyota e Honda ampliam suas fábricas no Brasil. Os investimentos estão crescendo.


PROGRAMAÇÃO
O Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará desenvolve programação comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Junto a ela, seguem alguns eventos:

>> 31 de maio a 1.º de junhoTokyo 2008, exibição de animes, tokusatsus (séries filmadas como Godzilla, National Kid, Ultraman, Ultraseven, Spectreman, Jaspion, Changeman, Jiraiya etc.), j-dramas, Radio Tokyo.tube, j-clips, workshop de origami, para-para (dança japonesa popular solo), artes marciais, concursos e campeonatos de cosplay e Tokyo Cosplay Book, menino e menina Kawaii, animeknow, animekê, AMV (nível nacional), animequiz, Batalha Medieval, fan-art, roteiro, arena RPG, fotografia e desenho, Tokyogames (Nintendo wii, Playstation 2, Gamecube, fliperamas, Nintendo-DS (in-game) e bandas (Cry of Soul, Kakattekoi etc.), das 9h às 19h30 na Faculdade Marista Católica do Ceará (Av. Duque de Caxias, 101)

>> 10 de junho — palestra da pesquisadora Celina Midori Murasse Mizuta sobre A educação japonesa na Era Meiji (1868-1912), no auditório da UNIFOR-Universidade de Fortaleza;

>> 17 de junho — sessão solene na Câmara Municipal de Fortaleza em homenagem à Colônia Japonesa do Ceará, destacando a trajetória de Jusaku Fujita;

>> 18 de junho — o príncipe-herdeiro da coroa japonesa, Naruhito, de 48 anos, chega a Brasília após fazer escala em Nova York. A princesa Masako não acompanhará o marido na viagem, pois está em tratamento médico devido a um "transtorno adaptativo". Naruhito quer conhecer descendentes de japoneses que moram no Brasil e "ouvir o que eles têm a dizer, ver seu compromisso com a comunidade brasileira e as dificuldades que tiveram que enfrentar". O príncipe discursará em Brasília em ato comemorativo alusivo ao Centenário da Imigração Japonesa comandado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e depois se dirigirá a São Paulo, onde visitará memorial dos pioneiros japoneses. Naruhito já esteve no Brasil em 1982. Desta vez, ele também visitará Maringá (PR) e Rio de Janeiro (RJ) antes de retornar ao Japão no dia 27, após escala em Los Angeles (EUA). Na foto, Naruhito com as princesas Aiko e Masako.

>> junho (até o presente a data ainda não se confirmou) — lançamento da Pedra Fundamental da Praça Jardim Japonês na Beira Mar (na Volta da Jurema, em frente ao edifício Granville) pela Prefeitura de Fortaleza;

>> de 7 a 11 de julho — 8.ª SANA-SuperMostra Nacional de Animes

>> de 11 a 13 de julho — 1.º SANA Fashion by Sugai Cosplay, concurso Garota Yume, desfile Cosplay, apresentação de Cute Project (o evento atraiu milhares de adolescentes, identificados com o ideário dos otakus)


LIBERDADE EM SP
São Paulo é hoje a maior cidade japonesa fora do Japão: são mais de um milhão de japoneses e seus descendentes, já aclimatados à “Terra da Garoa”. O bairro da Liberdade é um tradicional bairro japonês, com restaurantes e comércios em geral ligados à cultura nipônica. A formação da primeira colônia japonesa na capital paulista teve início em 1912, em um aglomerado na ladeira íngreme onde passava um riacho e existia uma área de mangue, na rua Conde de Sarzedas.

O comércio começou a aflorar — primeiro uma hospedaria, depois um empório, docerias, agenciadoras de empregos —, formando assim a “rua dos japoneses”. Em 1915, foi fundada a Taisho Shogakko (Escola Primária Taisho), que ajudou na educação dos filhos dos imigrantes. Em 1932, eram 2 mil nipônicos em São Paulo.
Porém, no dia 6 de setembro de 1941, como conseqüência da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro decretou a expulsão dos japoneses residentes nas ruas Conde de Sarzedas e Estudantes. Somente em 1945, após a rendição do Japão, é que a situação voltou à normalidade na região.

Na década de 1960, a Liberdade passou a ser um local de visita obrigatória dos turistas e, na década de 1970, deixou de ser um reduto exclusivo dos japoneses: o bairro passou a ser procurado também por chineses e coreanos. Nas décadas de 1980 e 1990, as casas noturnas foram sendo substituídas por karaokês, a nova mania que tomava conta do Japão e do Brasil.


DE VOLTA À PÁTRIA
A palavra dekassegui nomeia o migrante que sai de sua terra natal para trabalhar, mas alimenta o desejo de retornar às suas origens. Este era o sentimento dos primeiros japoneses que aportaram no Brasil há 100 anos, mas a maioria jamais voltou. Na década de 1980, teve início o fenômeno inverso — a ida de nipo-brasileiros para a Terra do Sol Nascente, em busca de oportunidades de emprego. As razões foram bem parecidas com as que motivaram os japoneses a virem para o Brasil: o peso da questão econômica.

Naquela década, o Brasil experienciava uma hiperinflação e desemprego galopante. O Japão, por sua vez, oferecia milhares de empregos e altos salários e recrutava trabalhadores japoneses e de dupla nacionalidade. As vagas surgiam em empresas de pequeno e médio porte, na área automobilística e de eletro-eletrônicos. Os dekasseguis viajavam com o intuito de retornar depois para sua terra natal, no caso o Brasil, com recursos para dar início a investimentos.

Os primeiros dekasseguis eram homens, de idade média avançada, casados, chefes de família e que falavam japonês. Como não podiam permanecer muito tempo no Japão, acabavam trabalhando ilegalmente.Atualmente há no Japão aproximadamente 300 mil dekasseguis, que remetem para o Brasil cerca de US$ 2,5 bilhões anuais. Já quando retornam, cada dekassegui traz, em média, cerca de US$ 70 mil para investir em algum tipo de negócio. Eles se concentram nas cidades de Aichi, Shizuoka, Mie, Nagano, Gifu, Gunma, Saitama, Kanagawa, Shiga e Ibaraki, conforme o quadro a seguir, que relaciona o nome da província ao número de dekasseguis que lá estão:


Aichi — 63.335 dekasseguis
Shizuoka — 44.248 dekasseguis
Mie — 18.157 dekasseguis
Nagano — 17.758 dekasseguis
Gifu — 17.596 dekasseguis
Gunma — 16.455 dekasseguis
Saitama — 14.030 dekasseguis
Kanagawa — 13.860 dekasseguis



SAIBA MAIS
www.nikkeyweb.com.br

www.tenrikyo.com.br

www.japao100.com.br

www.culturajaponesa.com.br

www.portalsana.com.br/sanafest

www.opovo.com.br/opovo/economia/788911.html

26 maio 2008

DAPRAIA FUNNY PAGES

Humor Dapraia


Tudo de uma vez ao mesmo tempo agora









por Guabiras


Mungu, o palhacinho fela












por Jefferson Portela (directly from Portugal)


Eu, por mim mesmo e mais ninguém









por Denilson Albano

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16.ª VEZ EM CANNES

Palma d'Ouro à paulistana


A atriz Sandra Corveloni, que estréia em longas-metragens com o filme Linha de passe, conquistou a Palma de Ouro de Melhor Atriz no 61.º Festival de Cannes. O prêmio foi recebido pelos diretores Walter Salles e Daniela Thomas. Sandra Corveloni interpreta Cleuza, empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos e está grávida novamente de mais um pai desconhecido. (foto de Paula Prandini)

De Cannes, Walter Salles e Daniela Thomas comentaram a premiação: "Foi uma surpresa maravilhosa. Cleuza (a personagem de Sandra) foi o pilar da história, o ponto de intercessão de cada um dos destinos do filme e Sandra trouxe a ela densidade e ao mesmo tempo uma luminosidade que acabou se irradiando por todo o filme".

Sandra, que nasceu em São Paulo, em 1965, formou-se no curso de Teatro Avançado do TUCA-Teatro da PUCSP-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A seguir, entrou para o grupo Tapa, onde, além de atuar, é professora e assistente de direção. Seus principais trabalhos no teatro são As viúvas, de Arthur Azevedo, Contos de sedução, de Guy de Maupassant, e Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes.

No cinema, ela atuou nos curtas Flores ímpares (1992), de Sung Sfai, e Amor (1993), de José Roberto Torero. No teatro, seu próximo projeto é o espetáculo Amargo Siciliano, inspirado em contos de Luigi Pirandello, em que é assistente de direção de Eduardo Tolentino.


SINOPSE
São Paulo, 22 milhões de habitantes, 200 quilômetros de engarrafamentos, 300 mil motoboys. No coração da cidade em transe, quatro irmãos tentam se reinventar. Em Linha de passe, Reginaldo — o mais novo e único negro na família — procura seu pai obsessivamente. Dario sonha com uma carreira de jogador de futebol, mas, aos 18 anos, vê-se cada vez mais distante dela.

Dinho refugia-se na religião e o mais velho, Dênis, pai involuntário de um menino, enfrenta dificuldades para se manter. Sua mãe, Cleuza, empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos, está grávida novamente, de mais um pai desconhecido.

O futebol e as transformações religiosas pelas quais o Brasil passa, o exército de reserva de trabalhadores que alimenta a cidade, a questão da identidade e da ausência paterna estão no coração da história de Linha de passe — novo filme dos mesmos diretores de Terra estrangeira, Central do Brasil e Diários de motocicleta.


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19 maio 2008

A CHEGADA DA CORTE

Muito mais que um enredo



Para quem não viu os desfiles de escolas de samba que comemoraram o Bicentenário da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, talvez fiquem em branco os erros históricos que repetiriam, mais uma vez, o espírito do “Samba do Crioulo Doido”. A vinda da Família Real presta-se a equívocos. O que menos conta é o que talvez mais valha para a própria história do Carnaval.

Ainda hoje, a porta-bandeira e o mestre-sala são um par fundamental em todas as escolas de samba: suas indumentárias luxuosas do princípio do século XIX pretendem, certamente, imitar o fausto que foi a chegada da Família Real portuguesa, com suas vestes desconhecidas até ali no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, capital da Colônia.

Não havia nada de carnavalesco na comitiva de D. João VI, mas o povo incorporou a chegada da comitiva no seu faz-de-conta. Numa certa medida, confirma-se Karl Marx, que dizia que a História se repete sempre como farsa.

No entanto, a Independência brasileira nasceu justamente da fuga dos Braganças de Portugal para o Brasil. Talvez pudesse ser este o tema do desfile e dos sambas-enredo que celebraram a chegada da Família Real. O historiador Evaldo Cabral de Mello, de Pernambuco, assinala que, não obstante tudo o que se diz do “moleirão” que teria sido D. João VI, foi ele o único rei que manteve a coroa na Europa continental, apesar das investidas de Napoleão.

Digamos que ele tivesse para onde fugir, e que, afinal, sua inteligência foi ter sabido qual a sua rota de fuga, é uma das leituras que os brasileiros fazemos. Assim também em relação à Independência, que se deu não através de um movimento de massas, mas pelo gesto de um príncipe luso. Ao que parece, a “piada de português” nasceu aí: para não concedermos que até a nossa independência veio como dádiva dos “patrícios”, inventamos que eles seriam “burros”.

À dominação portuguesa, opusemos-lhe o riso. Não deixa de ser uma resposta a qualquer opressão. Quanto ao mais, porém, as guerras napoleônicas, a fuga de D. João e a posterior derrota de Napoleão ter-se-iam encarregado de facilitar.

O que quase não se diz, a propósito, é que quando D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil ele tinha atrás de si a boa-vontade de toda a Europa — como aconteceu em anos recentes com o fim da URSS, em que, como se pregava, o mundo seria redimido sem os socialismos do tipo bolchevique. Após o fim da era napoleônica, as antigas monarquias esperavam que o republicanismo da Revolução Francesa se extinguisse para sempre.

Ou seja, para voltar ao Brasil: ninguém mais confiável à Europa restaurada do que um príncipe a reger um país de dimensões “continentais”. A história de que D. João VI teria adivinhado que o Brasil seria independente e que teria, assim, recomendado a seu filho que precipitasse o inevitável, antes que um “aventureiro” o fizesse, numa certa medida era já a intuição de que a Europa preferiria que o Brasil fosse um império e não uma república.

Sugere-se, em cima disso, que o primeiro imperador brasileiro, apesar de seu liberalismo, talvez cedesse à tentação de enredar o Brasil nas contas de Portugal. Dom Pedro teria abdicado por não convencer de que uma eventual reunião de Portugal e Brasil não poria a perder a independência brasileira.

Seja ou não essa a verdade, uma coisa é certa: ao contrário dos republicanos latino-americanos que tinham em Napoleão o seu herói e o seu exemplo, Dom Pedro seria, por suas origens, o representante da antiga ordem — aquela que acabaria sendo restaurada após a derrota de Napoleão em Waterloo. Para a Inglaterra, a Áustria e a Rússia, as grandes vencedoras das guerras napoleônicas na Europa, D. Pedro I seria, em princípio, mais confiável aos seus interesses do que os republicanos como Washington e, principalmente, Simon Bolívar e José San Martín (Argentina).

Para dizer tudo, os tais sambas-enredo teriam de dizer da vinda de D. João VI que começava, então, uma outra História do Brasil: não só a dos grandes faustos das escolas-de-samba, com tudo o que isto significou para a cultura popular brasileira, mas para o que acabou como irremediável sob o ponto de vista econômico e político — a submissão do Brasil, logo na seqüência, aos interesses da Inglaterra.

Foi ela que avalizou o Grito do Ipiranga: a conta viria em seguida e não há, enfim, do que reclamar, posto que a História é irreversível...

Mas a chegada da Família Real portuguesa parece ter sido bem mais que um choque político ou mesmo econômico: a porta-bandeira e o mestre-sala figuram encarnar um aparato que se amplificaria para a cultura brasileira em muitos sentidos. Mais além, os acadêmicos gostam muito de falar da “carnavalização” do Brasil como um dado relevante do nosso processo cultural.

No entanto, talvez se devesse falar da “operatização” do Carnaval. Parece ser bem mais como espécies de óperas o que os carnavais de rua e suas escolas de samba prodigalizam nas avenidas. A partir da chegada da corte lusa ao Brasil, teríamos passado a “operatizar” nossos festejos como conseqüência do que foi o “maravilhoso” desfile da chegada do rei com sua comitiva de milhares de pessoas: eles se vestiam e se tratavam de uma maneira nunca vista pela embasbacada e pouco cultivada população do Brasil-Colônia.

Quanto a D. Pedro I, porém, fica difícil discuti-lo no papel de porta-estandarte das monarquias restauradas. Ao contrário do que esperavam dele os reinos europeus, Dom Pedro não aceitou a fantasia, o modelito, de rei absolutista: era autoritário, sem dúvida — mas destituiu manu militari seu irmão Miguel, que pretendeu impor uma monarquia absolutista em Portugal.

Enquanto Fernando VI, da Espanha, esfalfou-se em perseguição aos liberais que desejavam uma monarquia constitucional, o que provocou a fuga de intelectuais da Espanha, após a queda de Napoleão (o pintor Goya foi um dos que se exilaram na França), D. Pedro I — IV, em Portugal — deu um pinote para as monarquias absolutistas.

É provável que o quisessem como “cantor” de um samba-enredo escrito algures, nos salões das mais altas cortes européias. Não o fez. Não se amoldou à farsa que foi o absolutismo na Espanha, onde até a Inquisição “pediu passagem”, tendo se instalado no reino espanhol com tudo o que era de sua antiga usança: perseguições religiosas, intolerância, racismos etc. No Brasil e em Portugal não foi assim.

Tudo, de fato, parece mesmo ter começado com o desembarque da Família Imperial ao nosso País. O lado prosaico da coisa — as comilanças de D. João, a vida galante e algo degradada de D. Pedro, seus desregramentos, enfim — parece bem se compor com o Carnaval. Mas não se sugere também que, por causa disso, o Brasil passou a ser conhecido como “o País do Carnaval”. Afigura-se, neste caso, que a coisa está mesmo mais para ópera do que para desfiles de escolas-de-samba. Nas óperas, os finais podem até ser trágicos ou felizes, porém muito dificilmente terminam como farsa.


*Ênio Squeff é jornalista, crítico de música, ilustrador e artista plástico

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www.squeff.com

07 maio 2008

CONSUMISMO DESENFREADO

Neoliberalismo e psicopatologia



Doenças psicológicas como depressão, bipolaridade, síndrome do pânico e histerias obsessivas se encontrariam associadas diretamente às imposições sociais decorrentes da adoção do sistema capitalista neoliberal — capaz de desencadear o consumismo desenfreado por bens materiais e serviços.

Tal compulsividade estaria ocultando, na verdade, a procura permanente pela felicidade — que seria provisoriamente saciada por algum produto oferecido pelo mercado.
Neste contexto, a indústria farmacêutica e de medicamentos contra doenças psicosintomáticas estaria fortalecendo o papel controlador exercido pela (assim denominada) "ditadura do número”, a qual classifica (no âmbito das agências de propaganda e empresas produtoras de mídia) os cidadãos como "mercadoria".

Esta análise dá a tônica ao livro O Mercosul no divã, lançado pela psicóloga e escritora Gleuza Salomon no Fórum Social do Mercosul 2008, promovido em Curitiba/PR. Ela participou — na segunda-feira 28/04 — do painel Psicanálise e cultura, coordenado pela psicanalista Maria de Sousa, integrante da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola Brasileira de Psicanálise.

Para Gleuza Salomon, as "doenças da mente" são expressões pontuais da época atual que vive a humanidade. Conforme aponta a autora, o modelo capitalista "empurra" as pessoas para o consumo exacerbado, e assim, inconscientemente, a sociedade tenta substituir a felicidade pela aquisição de produtos de diversos gêneros.

Porém, quando os bens materiais deixam de representar estímulos competentes, já que desprovidos de essência vital, as pessoas tendem a mergulhar na depressão ou desenvolver sintomas psicopatológicos.

“É então que as indústrias farmacêuticas entram em ação e acabam condicionando as pessoas a seguir tratamentos severos à base de medicamentos. Tal situação as deixa inertes, classificadas em números, sem nenhuma condição de sair do estado de angústia, pois a compra exagerada não leva a lugar algum”, descreve a psicóloga.

Segundo conclui a autora, a imposição do sistema neoliberal aos países da América Latina tem ocasionado efeitos devastadores. Por conseguinte, a população do continente, a despeito da conscientização existente sobre a influência "colonizadora" estrangeira, padece sob a neurose do consumismo.

“As doenças psicológicas aqui, no Mercosul e na América Latina podem ser consideradas também doenças impulsionadas, justamente, pelo sistema neoliberal”, sintetiza Gleuza Salomon.



*A psicóloga Gleuza Salomon, coordenadora do Fórum do Mercosul e de Psicanálise, é autora de O ego de James Joyce, Transferência negativa ou O horror de saber da castração, O sujeito e seu sintoma e outros textos (foto da sala com o divã de Freud disponível na Wikipedia)


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06 maio 2008

O VENTRE LUNAR

Mistérios, segredos e ocultações


A sua alma pulsa — em sensibilidade, emoção e receptividade.

Conforta, alimenta, nutre. De tal modo que, em todos os seres da natureza, encontra-se a sua representação.

O aconchego, a proteção, a segurança: eis a mãe que (o rebento já dentro de seu ventre) fornece ao protegido carinho, consolo, dedicação. E, mesmo após seu fruto sair de seu abrigo, continua a protegê-lo — em seu leite materno, no calor de seus braços, em constantes afagos de mãe.

A Lua, no seu envolvimento de dama astrológica, é o corpo celeste simétrico ao maternal: ilumina a noite, inspira os poetas, instiga os apaixonados.

Eis nosso ponto de apoio, o caminho a percorrer quando sentir-se indefeso, desprotegido, na iminente vontade de lacrimejar.

Na infância, no processo de aprendizagem e descobrimento, a mãe se faz presente, levantando-nos no cair dos primeiros passos, colocando-nos no colo, conduzindo-nos ao seu seio quando famintos.

A partir de então, percebe-se a dependência, a necessidade da aprovação — os aplausos dos primeiros passos e das primeiras sílabas soltas ao ar.

Crescemos, tornamo-nos adultos, mas a figura materna continua patente, fazendo-se presente nos recônditos de nosso ser.

Aquela vontade de correr para os braços de nossa mãe, chorar e agarrar no sono, sabendo que ali encontra-se a real guarida.

Ao nos casarmos, acabamos por procurar no cônjuge um espelho, um reflexo daquela que representa conforto. Uns irão procurar quem lhes indique o caminho, quem os guie. Outros resistirão ao sair do seio de sua mãe, na tentativa de encontrar-se abrigados.

Enganam-se.Tornam-se filhotes indefesos, em constante necessidade de proteção.

Aprender a cortar o cordão umbilical, expressando assim a sua individualidade, torna-se vital para criar e fortalecer a responsabilidade pelo próprio caminhar.

Necessita-se estar atento, pois um dia esse corte será feito. E, na maior delonga, mais difícil se torna.




*Fábio Silva faz o seu mapa astral e perscruta os astros para você ver melhor a vida