25 dezembro 2010

DAPRAIA COMIC RELIEF

Tirinhas Dapraia


UNIÕES IMPROVÁVEIS — por Guabiras



ALERTA NATALINO —  por Denilson Albano




 ATIREM LOGO A PRIMEIRA PEDRA — por Jefferson Portela





















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10 dezembro 2010

OS PREÇONHENTOS

Dimensões e comparações*


Alguns conhecidos meus foram — e voltaram da China impressionados. Um determinado produto, do qual o Brasil fabrica um milhão de unidades, uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões...

A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reação é impressionante. Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas... com preços que são uma fração dos praticados aqui.

Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: US$ 100. Um operário brasileiro equivalente ganha US$ 300, no mínimo.

São valores que, acrescidos de impostos e benefícios, representam quase US$ 600. Comparados com os US$ 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente zero benefícios...

Hora-extra? Na China? Esqueça. O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego (!), que trabalha horas-extras sabendo que nada vai receber...

Essa é a armadilha chinesa. Que não é uma estratégia comercial, mas de poder. Os chineses estão tirando proveito da atitude dos marqueteiros ocidentais, que preferem terceirizar a produção e ficar com o que “agrega valor”: a marca.

Dificilmente você adquire, nas grandes redes dos EUA, um produto feito nos EUA. É tudo “made in China”, com rótulo estadunidense. Empresas ganham rios de dinheiro comprando dos chineses por centavos e vendendo por centenas... Mesmo ao custo do fechamento de suas fábricas.

É o que chamo de “estratégia preçonhenta”.

Enquanto os ocidentais terceirizam as táticas e ganham no curto prazo, a China assimila as táticas para dominar no longo prazo. As grandes potências mercadológicas que fiquem com as marcas e com o design...

Os chineses ficarão com a produção, desmantelando aos poucos os parques industriais ocidentais. Em breve, por exemplo, não haverá mais fábricas de tênis pelo mundo. Só na China. Que então aumentará seus preços, produzindo um “choque da manufatura”, como foi o do petróleo.

E o mundo perceberá que reerguer suas fábricas terá custo proibitivo. Perceberá que tornou-se refém do dragão que ele mesmo alimentou. Dragão que aumentará ainda mais os preços, pois quem manda é ele — que tem fábricas, inventários e empregos... Uma inversão de jogo que terá o impacto de uma bomba atômica. Chinesa.

Nesse dia, os executivos “preçonhentos” tristemente olharão para os esqueletos de suas antigas fábricas, para os técnicos aposentados jogando bocha na esquina, para as sucatas de seus parques fabris desmontados.

E se lembrarão, com saudades, do tempo em que ganharam dinheiro comprando baratinho dos chineses e vendendo caro a seus conterrâneos...

E então, entristecidos, abrirão suas marmitas e almoçarão suas marcas.


*o colunista Luciano Pires é palestrante motivacional, escritor, jornalista, cartunista, executivo, radialista, comunicador multimídia, empresário e mantém ativa a luta contra a pocotização universal

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"O menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada e fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos." (Erico Veríssimo)

24 novembro 2010

REALIDADE TAL E QUAL

Profissão de fé*



Apesar dos pesares e de circunstanciais laivos de tristeza e amargor que, por vezes, deixo transparecer no que escrevo, talvez por não me levar sempre demasiado a sério, jamais fui de viver chorando a morte da bezerra ou aquilo que simplesmente poderia ter sido e que não foi.

Porque não faz parte da minha natureza cultivar o pessimismo profissional — mas também, por outro lado, não me considero aquele tipo de sujeito que pode ser classificado como um otimista delirante.

Humanamente, hei por bem confessar que não sou dotado de razão plausível para andar reclamando da maneira pela qual a vida vem me tratando ao longo do meu existir, embora haja sofrido algumas pernadas traiçoeiras do destino.

Outrossim, jamais fui seduzido pela ufanista ideia de me deixar ficar sentado, acomodadamente, sobre os poucos louros e os muitos fracassos por que passei, chocando ovo de jacaré só pra ver se nasce rouxinol.

Além do mais, ora pílulas, não se pode de forma alguma tentar negar que a realidade é a realidade tal e qual, sem subterfúgios, sem tirar nem por, e que se abate sobre todos nós de todas as maneiras possíveis e imagináveis e nem adianta coisa nenhuma tentar fugir dela usando qualquer anestésico, pois que senão é como tentar escafeder-se de si mesmo(a), mentindo descaradamente diante da nossa imagem refletida num espelho.

Só existe um modo de mudar a tal da realidade: unir a ação ao pensamento e ir à luta, com a solene disposição de matar um leão a cada dia.

Porque buscar inutilmente nos enganarmos? Não, a vida não é inimiga vocacional de seu ninguém, muito embora tenha lá algumas insondáveis predileções por alguns raros sortudos, que nascem com a bunda virada pra lua, como se diz no popular.


Eu, por exemplo, em matéria de PPB (Produto Pessoal Bruto), já me habituei ao inegável fato de que as minhas reservas cambiais nunca me foram por demais folgadas. Os ventos da monetária fortuna nunca se dignaram a enfunar generosamente as velas do meu boêmio barco.

Porém, de uma coisa tenho absoluta certeza (logo eu, homem de raras certezas): não posso me queixar da vida. Bem ou mal, com ou sem percalços, ainda consigo garantir a cervejinha sem álcool das crianças fazendo o que gosto.

De uma maneira ou de outra, sou o que sempre almejei ser: nem mais nem menos.

E à noite, antes de vencer a minha contumaz insônia, não resta em mim nem um tico de vergonha, ou de pejo, quando olho minhas sessentonas fuças ao espelho.

Posso até não dormir o sono dos justos, dos inocentes, dos sem-pecado, mas caio nos braços de Morfeu certo de que mal nenhum fiz a meus semelhantes, pelo menos de caso pensado.

O jovem idealista que um belo dia fui não se decepciona com o quase ancião que hoje sou. Não tenho medo do novo —afinal, o novo sempre vem, embora pelo simples fato de ser novo não significa compulsoriamente que seja bom.

E por isso mesmo, como sempre, estou aberto a novas experiências, principalmente porque o imprevisível jogo da vida é que nem o Cassino do Chacrinha, que só acaba quando termina.



*Escritor contumaz, médico-psiquiatra, colunista do Jornal da Praia desde os anos 1980, Antônio Airton Machado Monte é um dos mais legítimos cronistas da sua (nossa) época. Imagem por A. Britton (2002)


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03 novembro 2010

SUGESTAS E SUGESTÕES

Nas entrelinhas*


As informações não transformam apenas o nosso pensamento e mudam nossa visão de mundo, mas transformam também os nossos sentimentos em relação a este mundo. Assim, o mundo não é feito apenas do que podemos ver e tocar, mas também das idéias e dos sentimentos que temos sobre ele.

Dizem que a imprensa se interessa mais por notícias ruins do que por boas. A imprensa e a publicidade sobrevivem de audiência, logo, não estariam divulgando mais más notícias do que boas, se não houvesse interesse do público. Então, fica difícil saber quem veio primeiro — se o interesse do público nas notícias ruins em vez das boas ou da imprensa em divulgá-las.

A razão para o especial interesse nas más notícias pode estar no fato de que o mal tem uma enorme capacidade de causar danos. Uma única bala perdida, ou um cochilo no trânsito ou na conduta moral, ou uma explosão de fúria, pode deixar alguém paraplégico, morto, corrupto ou assassino. De nada adiantará lembrar de todos os outros momentos em que este alguém foi uma pessoa boa, pacífica, honesta, cuidadosa.

Ela será, antes, medida e julgada por este único ato mau, e em raras ocasiões os seus atos bons poderão ser considerados para atenuar sua pena: se pedir com jeitinho e da maneira correta, Deus perdoa, mas os homens não. E, mesmo depois de cumprida a pena, permanecerá o preconceito, que marcará a pessoa que foi pega cometendo um ato mau como um carimbo na testa.

Considerando estes fatores, o que nos dizem as entrelinhas das notícias? Que informações nos passam sem dizer diretamente? Por exemplo, como nos sentimos quando recebemos notícias sobre a descoberta de mais um político ou policial corrupto?

E quando sabemos que esses corruptos, mesmo depois de descobertos, ainda assim permanecem ou retornam ao poder, por algum artifício legal ou por força de uma Justiça injusta, ou mesmo pelo voto do eleitor?

Uns podem sentir-se satisfeitos ao ver em tais divulgações um indicador do fortalecimento das instituições e da democracia e que os bons estão prevalecendo, conseguindo identificar e punir os maus, indicando o caminho que devemos seguir para uma boa vida em sociedade.

Outros podem sentir medo e desamparo, por acharem que, para cada corrupto violento e despreparado que é descoberto, existem outros que permanecem ocultos e que foram mais inteligentes e espertos e por isso conseguiram escapar, mas que continuam se passando por sérios e competentes, como os corruptos e despreparados eram antes de serem pegos.

Como um cidadão assim se sente, por exemplo, ao ser abordado numa blitz? Como saber se é falsa ou verdadeira? Como saber a diferença entre um policial honesto e um bandido de farda?

Os policiais vivem o mesmo dilema. Como saber se estão diante de um cidadão de bem ou de um bandido pronto para atacar? Como o policial pode diferenciar a legitima reclamação de um cidadão de bem, constrangido em seus direitos, de um bandido querendo criar tumulto para distrair os policiais a fim de sacar uma arma escondida?

Então, naturalmente, os policiais assumem uma atitude de prudência, que facilmente pode ser confundida, ou ser de fato, grosseria, arrogância, violência — agravada pelo fato de estar empunhando a arma pelo lado do gatilho.

Por instinto, o medo do desconhecido leva os cidadãos de bem a confiarem desconfiando de sua polícia, resultando na não colaboração, na sindrome do pânico, num surdo sentimento de medo e insegurança, por que "bandido é bandido", não há desconhecimento neste fato, e é para se ter medo mesmo, mas quem faz a polícia são servidores públicos, pagos com o dinheiro dos nossos impostos, e que deveriam passar aos cidadãos o sentimento de que estão seguros, pois eles, os policiais, tomaram para si esta responsabilidade!

Entretanto, bem ao contrário disso, alguns cidadãos se sentem reféns da própria cidade e de quem deveria lhes proteger.

E como nos sentimos diante de notícias sobre juízes corruptos ou que censuram a imprensa com condenações injustas, que obrigam o veículo a pagar indenizações, por ter publicado a verdade que atingiu algum poderoso ou a própria Justiça?

Como nos sentimos diante de notícias sobre a lentidão e ineficácia da Justiça e condenações pífias contra empresas poderosas?

Pessoas lesadas em seus direitos acharão que vale a pena recorrer à Justiça ou é melhor arder no prejuízo, para não sofrer (mais) perdas e ter aborrecimentos maiores depois?

Como se sentem os milhões de consumidores lesados por bancos, empresas de telefonia, energia, transporte e muitas outras, conduzidas por maus empresários, ávidos por lucros crescentes, que parecem adotar deliberadamente, como prática de negócio, a criação ou aumento de taxas, reajustes indevidos ou calculados erradamente, sempre para mais, juros e cobranças indevidas, servidos mal prestados etc., como estratégia para aumentarem seus lucros?

Estes maus empresários correm um risco calculado, lesando os consumidores aos milhares e reparando individualmente apenas os que reclamarem, e como a maioria silenciosa não recorre aos seus direitos porque não acredita na Justiça, os lucros compensam de sobra as perdas.

Contam com uma Justiça lenta, burocrática e comprometida com os poderosos, que considera "tentativa de enriquecimento indevido" a reclamação de penas maiores por um consumidor lesado, mas não acham indevido o enriquecimento de empresas que, deliberadamente, lesam os consumidores. Um simples desvio de centavos na conta de milhares de consumidores será quase imperceptível ao consumidor, mas significará muitos lucros a mais para as empresas.

Trata-se de problemas que não dizem respeito apenas aos cidadãos, mas também fomentam uma "dor moral" que afeta a todas as autoridades, juízes, policiais e empresários honestos que, em função dos desonestos, são vistos pelo público como desonestos também — até que provem o contrário.

A confiança na polícia e na Justiça está na base do pacto social, onde as pessoas decidiram abdicar das armas e de fazer justiça com as próprias mãos em troca de uma polícia e de uma Justiça que as representem.

Então, quando a sociedade passa a ter medo de sua polícia e a desacreditar de sua Justiça, ela se arma e começa a agir em sua própria defesa — e passa a contratar milícias para se proteger e a apoiar o poder paralelo do tráfico. Quando isso acontece, o Pacto Social que nos permite a vida em sociedade e nos faz cidadãos está ameaçado!

Resgatar a credibilidade da policia e da Justiça, junto aos olhos da população, é muito mais do que mera propaganda institucional. É resgatar os princípios básicos que orientam e estimulam a vida em sociedade.

Não conheço as soluções, mas consigo sentir e perceber o problema. Preocupa-me a idéia de mais polícia nas ruas, mais blitze, por que tais medidas só farão aumentar o medo das pessoas de bem que foram levadas a perder a confiança na sua polícia.

Pois bem, resgatar esta confiança me parece fundamental, pois não é com quantidade maior de policiais que se resgatará tal confiança, mas com maior qualidade — e isso requer melhor treinamento, melhores salários e melhores condições de trabalho para os policiais.

Talvez, se a comunidade conhecesse melhor seus policiais e sua Justiça, com uma polícia comunitária permanente e uma Justiça itinerante, nos bairros, aproximando a polícia e a Justiça da população. Entretanto, não uma polícia e Justiça arrogantes, onde todos são bandidos até que provem o contrário, mas uma polícia e uma Justiça humanizadas, preocupadas em informar e formar, antes de punir.

Talvez, com a criação de Códigos de Ética amplamente divulgados, feitos com a participação de todos os envolvidos e que incluam a participação e o controle da sociedade?

Talvez com o fortalecimento do disque-denúncia gratuito, que permita o acompanhamento pelo denunciante de forma anônima?

Talvez, com o fortalecimento e investimento em programas de educação e informação públicas, principalmente nas comunidades de baixa renda e nas comunidades escolares, apresentados pelos próprios policiais, juízes, promotores, defensores públicos e também por presidiários, sobre o papel da polícia e da Justiça para a sociedade?

Talvez, se os menores infratores pudessem participar de programas de reabilitação, em que presidiários falariam da vida na prisão e de quanto os caminhos do crime, das drogas e da violência os fez perder o melhor de suas vidas?

Talvez com sistemas de informação de amplo acesso do público e usando a internet, que assegurem transparência às ações da polícia e da Justiça?

Talvez com penas mais duras e milionárias, contra maus empresários acostumados a lesar ao consumidor como estratégia de negócio?

Estas não são soluções de curto prazo, porque fazem parte do fortalecimento da própria democracia e da consciência e cidadania da sociedade.

Entretanto, o fato de não vermos os resultados no curto prazo não significa que não devamos nos esforçar para mudar esta situação. Diz-se que, a longo prazo, todos nesta geração estarão mortos, mas podemos deixar construídos os alicerces de uma nova sociedade, para que as próximas gerações não tenham que começar do zero.


*editor da Revista do Meio Ambiente, o gaúcho Vilmar Sidnei Demamam Berna participou da fundação de várias organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, dedicadas à luta por um mundo melhor, mais ecológico, pacífico e democrático, contribuindo para a formação de uma nova consciência ambiental e na cidadania ambiental em nossa sociedade. Imagem por Kirwan em www.rense.com

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www.escritorvilmarberna.com.br

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08 outubro 2010

ENTRANDO EM PÂNICO

Uma história dos Diabos*


Se o Diabo existisse, sua diabólica estratégia seria a de colocar as pessoas trabalhando em algo que não fosse a sua verdadeira vocação.

Epidauro foi uma cidade da Grécia Antiga, situada às margens do Mar Egeu, célebre pelo santuário dedicado a Esculápio, deus da Medicina. Em Epidauro estava situado o principal centro de saúde de toda a Grécia.

Contava-se que pessoas acometidas por várias enfermidades acorriam a Epidauro para se curarem. Lá, eram recebidas por sacerdotisas curandeiras e, assim que chegavam, depois de uma conversa preliminar e o reconhecimento do lugar, recebiam delas para beber uma poção com ervas medicinais, que as fazia dormir por dois ou três dias.

Quando acordavam, iniciavam um período de profunda reflexão e autocrítica, apoiadas por conversas com aquelas sacerdotisas, para identificarem o que estava errado em suas vidas.

Diferentemente da atualidade — em que problemas de saúde se resolvem com remédios e hospitais —, para os gregos a saúde física e mental estaria intrinsecamente relacionada aos hábitos de vida e, principalmente, ao grau de satisfação e amor que as pessoas nutriam por si e pelas demais.

Para terem saúde, que olhassem com mais carinho para si mesmas e, envolvidas com o seu próprio destino, colocassem em exercício constante os seus talentos, na luta para realizá-los plenamente no mundo.

Costumava-se dizer que as pessoas deveriam consultar seus Deimons, "gênios" interiores ou "luzes" profundas. Dizia-se que os chás medicinais de Epidauro colocavam as pessoas num estado de relaxamento que propiciava um encontro com as motivações profundas há muito esquecidas, armazenadas além dos ideais, ética e sonhos reprimidos pelas exigências do dia-a-dia.

O próprio Sócrates afirmou ser guiado por seu Deimon nos discursos que nos legou através de Platão. Mais tarde, sob a égide do Império Romano e do Catolicismo inicial, estas visões de mundo foram perseguidas como "seitas pagãs".

Depois da queda do Império Romano, em 476 dC, já sem a presença de um poder central autoritário e forte, estas crenças voltaram a existir. É justamente aí que começa a nossa história dos Diabos.

Mais ou menos no ano 1600, quando a Idade Média já começava a dar sinais de desfalecimento, o famoso astrônomo e matemático Johannes Kepler teve a sua idosa mãe curandeira presa e ameaçada de morte, justamente porque ela costumava receitar chás.

A acusação à senhora genitora do cientista foi baseada no fato de que os algozes da Inquisição encontraram na estante de Kepler um livro de infância, escrito por ele mesmo ainda menino, no qual afirmava, numa brincadeira, ter viajado à Lua, depois de tomar um chá feito por sua mãe.

Mesmo com as devidas explicações, a mãe de Kepler foi presa. Como o leitor deve saber, o termo "Inquisição" refere-se à eliminação das heresias e seitas pagãs. Assim, desde 1184 e até 1542, o condenado era responsabilizado pelas doenças e misérias sociais e entregue às autoridades do Estado para que fosse punido. As penas variavam do confisco de bens e perda da liberdade até a morte na fogueira.

O que estava acontecendo é que a instituição religiosa nascente não estava conseguindo fazer crescer o número dos seus adeptos, porque as pessoas insistiam em procurar os conselhos das idosas curandeiras que abundavam na Europa.

Depois de uma grande perseguição, estas senhoras foram chamadas de "bruxas" e condenadas à morte. Além disso, estas visões foram perseguidas com a acusação de que orientavam as pessoas na direção do Demônio (Deimon).

Quando o povo simples começou a perguntar-se qual seria a forma do tal Demônio, foi inventado pelas autoridades que o Demônio tinha a forma de uma famosa figura da Grécia antiga: o deus Pã.

Na Mitologia grega, "Pã era o deus dos bosques, dos rebanhos e dos pastores. Residia em cavernas e era representado com orelhas, chifres e pernas de bode. Amante da música, trazia consigo uma flauta. Era temido pelos que atravessavam florestas à noite, pois as trevas os predispunham a ter pavores súbitos, atribuídos a Pã; daí o nome pânico."

Com medo deste Pã, tornado assustador, sinistro e perigoso, as pessoas afastaram-se das curandeiras e dos seus conselhos. Aos poucos, foram se esquecendo também do mergulho em si mesmas e da necessidade de viverem por paixão pela vida.

Até mesmo o sentido da palavra paixão — pathos — viria, mais tarde, tornar-se sinônimo de doença: patologia. Desde então, tudo o que vinha das motivações interiores das pessoas foi associado ao pecado e à perdição. Mesmo o sorriso e a gargalhada foram banidos, durante séculos, dos contatos humanos.

As mulheres, que na Antiguidade eram símbolos de fertilidade e religiosidade, foram afastadas de suas funções sagradas pelos novos homens sacerdotes. E nós, facilmente manipulados pelos medos infiltrados em nossa consciência, iniciaríamos um período alienado que se estenderia até hoje, onde perdidos e desorbitados de nós mesmos, nos tornaríamos superficiais, vazios e assoberbados por pânicos e dogmas, além de um excesso de expectativas exteriores, alimentadas em nós por interesses "maiores".

Mais tarde, nos perderíamos num racionalismo abstrato, que nos deu esperteza bastante para colecionarmos justificativas e argumentos para não sermos o que somos. Assim, seríamos vítimas fáceis para a nascente época industrial, na qual nos tornamos discípulos dóceis e obedientes das máquinas e dos seus produtos.

Finalmente, nos tornamos serviçais resignados de um sistema econômico que nos manipula, submete, aliena e exaure sem dar tempo e oportunidades à maioria de nós para um verdadeiro e salutar encontro interior, verdadeira origem de um destino que nos realizaria de fato.

Lembro-me agora da inscrição no famoso templo grego de Delfos, sempre repetida pelo grande filósofo Sócrates: "Conhece a ti mesmo". No fim das contas, o demônio foi criado para nos afastarmos de nós mesmos.

*Dib Curi é editor do jornal Fórum Século XXI

01 outubro 2010

CONSUMO GLOBAL

Como e para onde vamos?*


O Instituto Akatu pelo consumo consciente e o WWI-Worldwatch Institute lançaram uma versão em Português do relatório Estado do Mundo 2010. Produzido pelo WWI, este relatório faz anualmente um balanço com números atualizados e reflexões sobre as questões ambientais.

Entre os muitos dados que mais chamam a atenção, há um que aponta que apenas um sexto da humanidade consome 78% de tudo que é produzido no mundo (!). E mais: segundo o relatório, na última década a humanidade aumentou seu consumo de bens e serviços em 28%. Óbvio que, para produzir tantos bens, é preciso usar cada vez mais recursos naturais.

Assim, entre 1950 e 2005 a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente -– enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população.

Além de excessivo, o consumo é desigual. Em 2006, os 65 países com maior renda, que somam 16% da população mundial, foram responsáveis por 78% dos gastos em bens e serviços. Somente os americanos, com apenas 5% da população mundial, abocanharam uma fatia de 32% do consumo global.

Ora, se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Atualmente, somos quase sete bilhões, e projetam-se nove bilhões para 2050. A pior notícia é quem nem mesmo um padrão de consumo médio, equivalente ao de países como Tailândia, seria suficiente para atender todos os habitantes do planeta.

A conclusão do relatório não deixa dúvidas: sem uma mudança cultural que valorize a sustentabilidade e não o consumismo, não haverá esforços governamentais ou avanços tecnológicos capazes de salvar a humanidade dos riscos ambientais e de mudanças climáticas.

Ainda segundo o relatório, a mídia é um forte indutor do processo do consumismo insustentável. Por meio de ações publicitárias globais, o setor de água engarrafada, por exemplo, ajudou a criar a impressão de que água na garrafinha é mais saudável, mais saborosa e está mais na moda do que a boa e velha água "torneiral", mesmo quando estudos demonstram que algumas marcas de água engarrafada são menos seguras do que água da rede e custam de 240 a 10 mil vezes mais.
Por fim, a indústria de água engarrafada movimenta hoje US$ 60 bilhões e vendeu 241 bilhões de litros de água em 2008, mais que o dobro da quantidade vendida em 2000. Convém observar o relatório e seguir o que o Akatu recomenda: refletir sobre o consumo consciente.


*o jornalista Edgard Patrício assina a coluna Ecologia no jornal O Povo
de Fortaleza/CE

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http://portal.opovo.com.br/app/colunas/ecologia/2010/07/10/inter_ecologia,2018551/estado-do-consumismo-no-mundo.shtml

www.akatu.org.br/consumo_consciente/dicas

www.worldwatch.org.br/estado_2010.pdf

06 setembro 2010

CIDADANIA PLANETÁRIA

Nossa grande família*


Honroso é morrer pela pátria: militar adora dizer isso. Bem, morrer pelo Brasil eu, particularmente, nunca morri. Mas já desmaiei por ele. Verdade.

Tinha 12 anos e estudava no Colégio Militar. E como o colégio vive em função do Sete de Setembro, toda semana tinha treinamento para o grande desfile. Um dia, num desses treinos, nós todos metidos naquele pesado uniforme de gala e perfilados sob o solzão cruel, minha vista escureceu, o corpo fraquejou e bufo!, desabei feito um armário, de cara no chão.

Despertei na enfermaria, tudo bem, só uns arranhões. Novecentos e dezenove, você está liberado por hoje! Sim, senhor!

Se desmaiar já é ridículo, imagine morrer pela pátria. Isso não faz mais sentido num tempo em que ou nos unimos pelo bem geral do planeta e da espécie ou afundamos todos. Sim, eu sei que muitos ainda crêem em superioridade racial e religiosa e outras ilusões.

Porém está em curso atualmente uma revolução que ameaça mudar tudo isso. Silenciosa e sem sangue, ela está fazendo com que a humanidade, cada vez mais, se veja como um único povo a habitar uma única pátria: o planeta Terra.

Estamos presenciando uma profunda transformação no modo da espécie entender a si mesma e ao mundo em que vive. Isso é tão sério que pode mudar para sempre o rumo evolutivo do Homo sapiens.

Sempre que se aprofunda um pouco mais na maneira de entender a si mesmo(a), você adentra um novo nível pessoal de evolução. Você se transforma. E como tudo são espelhos a refletir tudo que há, nada fica imune à sua transformação.

O mundo ao redor muda… simplesmente porque você mudou. Este é o segredo da revolução: você não precisa transformar o mundo, basta mudar a si mesmo(a).

E quando ela começou? Impossível precisar. No entanto, foi no século 20 que ela tomou impulso. E no final da década de 1960, quando divulgaram ao mundo aquela primeira foto da Terra tirada do espaço, algo estalou na alma coletiva da humanidade.

Foi um momento histórico muito significativo. A maioria não parou para refletir, mas o estalo aconteceu. Pela primeira vez olhamos para a imagem do planetinha azul e percebemos, enternecidos, como ele é lindo. E nos demos conta de algo incrível: do alto não há fronteiras! Habitamos todos o mesmo lar! E somos todos responsáveis por ele!

É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária. As comunicações fáceis e a internet incentivam os jovens a viajar mais, conhecer o mundo. Seus horizontes são mais amplos e não se conformam com fronteiras nem intolerâncias raciais, étnicas, sexistas ou religiosas.

Veem os fanatismos nacionalistas atuais como os últimos espasmos da velha mentalidade que não quer morrer – mas já está moribunda. Para eles, essa noção de patriotismo é mesquinha demais diante de uma pátria bem maior — que se chama Terra.

A nova revolução traz em sua luta o clamor pela conscientização ecológica, pelas liberdades individuais e pelo respeito à vida e às diferenças. Pode soar ingenuamente otimista, mas são conceitos que a cada dia se espalham mundo afora feito um vírus benigno.

A Terra é meu país e a humanidade minha família — este é o grito dos seus soldados que, desarmados, se denominam cidadãos do mundo, uma nacionalidade bem mais abrangente e que abraça toda a riqueza da diversidade cultural humana.

São ainda minoria, sim, esses belos revolucionários, mas sua bandeira tremula com a cor de todos os povos e eu me orgulho de lutar ao lado deles.

Sim, eu sei que a espécie humana está muito doente e que em seu delírio põe em risco a própria sobrevivência. Vejo tempos terríveis se anunciando no horizonte. Mas sei também que às vezes é preciso que a doença atinja seu clímax para então, somente então, regredir.

Entram aí os ideais revolucionários: eles é que nos manterão vivos durante a longa noite.

É por isso que quando assisto à parada do Sete de Setembro, tudo aquilo me parece tão pequeno… E é por isso que nada vejo de honroso em morrer pela pátria. Sim, adoro o Brasil e seu povo.

Porém, nossa pátria verdadeira, de todos nós, é muito maior que o Brasil. E nossa família não são apenas brasileiros, brancos ou negros ou índios, muçulmanos ou cristãos, homo ou heterossexuais: nossa família é a humanidade inteira, bela e diversa.


*o escritor cearense Ricardo Kelmer publicou este texto em seu livro A arte zen de tanger caranguejos (edição do autor)

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www.blogdokelmer.wordpress.com


31 agosto 2010

NOTA DE FALECIMENTO

Liberdade imprensada*


Circulou nesta terça-feira (31/8) a última edição em papel do Jornal do Brasil (1891-2010), que foi o primeiro diário brasileiro a publicar uma página na internet, em projeto de seu então editor-chefe, Rosental Calmon Alves.

De agora em diante, o JB tenta sobreviver no formato digital, com poucas chances de seguir existindo nos próximos anos. Agonizou nas mãos do empresário Nelson Tanure, o mesmo que tirou o último hálito da Gazeta Mercantil, também extinta no ano passado.

A morte virtual do Jornal do Brasil é tema de duas curtas reportagens na imprensa considerada mais influente. "Jornal do Brasil circula em papel pela última vez", diz o Estado de S.Paulo numa página da edição nacional.

"Última edição impressa do JB circula hoje", anuncia a Folha de S.Paulo na sessão "Poder". O Globo, que durante décadas tomou uma sova do agora extinto concorrente, não lhe dedica nem mesmo uma linha na edição desta terça-feira (31).

A Folha faz um pequeno registro da história do jornal, criado em 1891, lembrando que em 1959 o JB realizou uma revolucionária reforma gráfica e editorial que deu início à modernização da imprensa brasileira. Alinha, entre seus colaboradores históricos, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.
O Estadão cita Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira e Antonio Callado.

Faltaram outros nomes, como o de Alberto Dines. Poucas linhas para muita história. Pouco respeito da imprensa para consigo mesma.

A morte do Jornal do Brasil resulta não apenas de décadas de má gestão. Ele também sofreu com a concorrência injusta da propriedade cruzada dos meios de comunicação, contra um opositor que conta com a maior rede de rádio e TV do país.

Na verdade, muitos de seus leitores já se haviam sentido órfãos havia mais de vinte anos, quando o jornal, cheio de dívidas, se transformou em bandeira de aluguel do ex-governador Paulo Salim Maluf.

Ao tratar com tamanho desprezo o desaparecimento daquele que foi o símbolo do melhor jornalismo brasileiro no século passado, seus antigos concorrentes também justificam a tese segundo a qual as velhas marcas da imprensa se tornam cada vez menos relevantes.

O JB morre sem ao menos uma nota respeitosa de obituário. A velha imprensa morre um pouco com ele e nem se dá conta.


*Comentário do editor do Observatório da Imprensa e colunista de Sustentabilidade do jornal Brasil Econômico, Luciano Martins Costa, para o programa radiofônico do OI

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www.observatoriodaimprensa.com.br

http://www.g1.com.br

http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI4652780-EI12884,00-Tradicional+jornal+impresso+encerra+circulacao+no+Brasil.htm

26 agosto 2010

PRA NÃO DESANIMAR

Solitária marcha*



Não, de jeito nenhum, caríssimo(a)s leitore(a)s meu(minha)s. De forma alguma, que não sou homem pra desanimar fácil, de recolher as velas à menor mudança de ventos ou prenúncio de tempestade.

Sim, eu bem sei, há tempos em que tudo dá certo e logo depois, sem que se espere, dá tudo errado, no chamado revertério. Mas e daí?

Se a vida é assim mesmo, com dias ruins, com dias bons, o importante mesmo é jamais desistir de brigar pelo que se quer, até que não reste uma gota mais por que valha a pena lutar. Todo o resto não passa de desculpas furadas ou pura covardia.

Uns querem demais da vida e estão absolutamente certos, porque não há quereres demais em se tratando de viver. O diabo é que a vida não nos dá nadinha de graça, nem sequer a infância -- existe sempre um preço a pagar por nossas promissórias existenciais.

Se é caro ou barato, depende do quanto você é capaz de arriscar, nessa sutil roleta vital de perdas e danos. Por vezes, penso cá com os meus botões se aprender a viver não seria aprender a suportar os perderes em troca de outros ganhares -- que nem sempre sabemos se nos deixarão satisfeito(a)s.

E assim lá vamos nós, levantando e caindo, caindo e levantando, porque pra frente é que se anda ou então se desiste da empreitada, seja ela qual for.

E por falar em perder e ganhar, ao que parece o brasileiro, este ilustre desconhecido, está mais sozinho do que bem-acompanhado em matéria de amor, digamos assim: não sei se isso é verdade ou se a fonte é fidedigna, porém afirmam existir no País perto de dezessete milhões de patrícios sem mulher, junto a uns quatorze milhões de mulheres sem homem.

A continuar por tal e tamanha solitária marcha, daqui a pouco ou cairemos forçosamente na castidade total ou, então, nos perderemos na galinhagem universal. Até que ponto chegamos em termos de cultura e de civilização!

Sofisticamos de tal modo a solidão compulsória que, para nós, o Outro tornou-se uma mera abstração virtual na tela de um computador.

Até onde chegaremos (se é que chegaremos a algum lugar que não seja o precipício) com esse nosso desenfreado narcisismo?

Não sei e nem quero saber. Quero mais é saber de mim mesmo e do Outro -- ou melhor, da outra, que me completa e me eterniza.


*Médico-psiquiatra e escritor, colunista do Jornal da Praia desde a década de 1980, Antônio Airton Machado Monte é um cronista de sua época


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REFESTELANÇA

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ECOLOGIA E MISSÃO

Jogos de palavras*


A ecologia ambiental carece de maior fôlego. Não se trata de salvar “o meio ambiente”, mas o ambiente inteiro. Com esse jogo de palavras, arrancamos o olhar pequeno do sitiante que protege seu rincão: está em jogo o ser humano enquanto ser inserido na sociedade.

Os cuidados pessoais necessários e primeiros não bastam. Vivemos numa sociedade cada vez mais complexa. Soluções individuais não dão conta dos problemas.

Entra em questão a modificação de nossa concepção. E salta-nos aos olhos o fato de que os dois extremos da sociedade – os mais ricos e os mais pobres – degradam a natureza.

Os primeiros, pelo consumismo desvairado, pelo desperdício insano, sugam-na até à exaustão; os outros a contaminam, por falta de condições humanas de viver.

Ao invés de horrorizar-nos, fascina-nos a abundância de bens que shoppings quilométricos exibem. Nem nos passa pela cabeça o que significa tal esbanjamento de objetos em termos de gasto de energia, de destruição da natureza, de extração de minérios e materiais não-renováveis.
Os ecologistas denunciam sem cessar a inviabilidade total da expansão desse alto nível de consumo para as gigantescas massas asiáticas. E, em grau menor, também para as nossas.

Basta imaginar cidades como Beinjing, México e São Paulo, se cada família tiver dois ou mais automóveis saindo à rua. Tudo para.

Só a gigantesca injustiça social consegue manter as massas pobres longe do consumo conspícuo, abundante, dos ricos.

Do seu lado, os pobres destroem a vida por serem forçados a viver na precariedade: falta de saneamento básico, de assistência à saúde e de outras condições dignas de sobrevivência. Moram em lugares inadequados e perigosos, devem conviver com mais doenças e até com o lixo.

De novo, a injustiça social os mantêm em situação de morte e de semeadores de morte. Só uma ecologia social traz resposta a tal situação.


*J. B. Libanio, sj, originalmente no semanário O Domingo, publicado pela Pia Sociedade de São Paulo (Paulus), num Ano C (verde). Image by Susan at Photobucket

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www.sunnet.com.br

09 agosto 2010

CRESCIMENTO INSUSTENTÁVEL

Batendo no teto*


"Decrescimento", diz o graffiti inscrito sobre a Coluna de Julho (monumento localizado na Praça da Bastilha em Paris, França) durante protestos dos trabalhadores (greve geral) realizados em 28 de março de 2006 (vivos, certamente, até hoje).

Decrescimento é um conceito essencialmente econômico, mas também político, cunhado na década de 1970, parcialmente baseado nas teses do economista romeno e criador da bioeconomia, Nicholas Georgescu-Roegen, as quais foram publicadas em seu livro The entropy law and the economic process (1971).

A tese do decrescimento baseia-se na hipótese de que o crescimento econômico -- entendido como aumento constante e progressivo do PIB-Produto Interno Bruto em qualquer sociedade humana -- não é sustentável pelo ecossistema global. Esta ideia opõe-se cabalmente ao pensamento econômico dominante, segundo o qual a melhoria do nível de vida só seria possível em decorrência do crescimento do PIB e, portanto, o aumento do valor da produção deveria ser um objetivo permanente da sociedade.

A questão principal, segundo os defensores do decrescimento -- dos quais o também economista e filósofo francês Serge Latouche é o mais notório -- é que os recursos naturais são limitados e, portanto, não existe crescimento infinito. A melhoria das condições de vida deve, consequentemente, ser obtida sem aumento do consumo -- o que implica, necessariamente, na mudança do paradigma atualmente dominante.

Segundo seus críticos, as principais consequências do produtivismo, entendido como a ênfase dada aos aumentos de produtividade e ao crescimento, nas sociedades industriais, tanto socialistas como capitalistas, seriam:

• o esgotamento dos recursos energéticos (petróleo, gás, urânio, carvão) no próximo século, caso se mantenha o atual ritmo de crescimento do consumo;
• o valor decrescente de diversas matérias-primas e o crescente de outras;
• a degradação ambiental, evidenciada pelo efeito estufa, pelo aquecimento global, pela perda da biodiversidade e pela poluição;
• a degradação da flora, da fauna e da saúde humana;
• a evolução do padrão de vida dos países do hemisfério Norte em detrimento dos do Sul, no que diz respeito a transportes, saneamento, alimentação etc.

Embora o produtivismo tenha sido parcialmente questionado pelos defensores do desenvolvimento sustentável, a crítica dos adversários do crescimento é mais radical, já que consideram o próprio desenvolvimento (ou crescimento) sustentável como um oxímoro -- ou seja, uma contradição, em termos.

O desenvolvimento (ou crescimento) não pode ser sustentável, uma vez que o aumento constante da produção de bens e serviços também provoca o aumento do consumo de recursos naturais -- acelerando, assim, o seu esgotamento. É urgente perceber que 20% da população mundial já consomem 85% dos recursos naturais do planeta (!).

Além disso, os adeptos do decrescimento tentam mostrar que mesmo a tão esperada "desmaterialização da economia" -- que deveria ocorrer pelo deslocamento do eixo da atividade econômica para o setor terciário, menos demandante de recursos naturais e, particularmente, de energia -- acabou por se revelar uma ilusão.

Segundo Serge Latouche, a "nova economia" é relativamente imaterial (ou menos material), porém, mais do que uma substituição da antiga economia pela nova, o que existe são relações de complementaridade entre ambas. No final, todos os indicadores mostram que a extração de recursos continua a crescer.

Conforme Latouche, o conceito de decrescimento baseia-se, num primeiro momento, na crítica antropológica da modernidade e do homo economicus, elaborada a partir dos anos 1970, quando a mensagem de pensadores (como o austríaco Ivan Illich) é a de que viveríamos melhor de outra maneira -- ou seja, seria desejável sair deste sistema.

O segundo momento da Teoria do Decrescimento -- ligado, principalmente, à ecologia e ao relatório do Clube de Roma -- é perceber quando se torna imperativo, por razões físicas, sair desse sistema (mais sobre a entidade em < http://www.clubofrome.org/ >).

"Fomos formatados pelo imaginário do 'sempre mais', da acumulação ilimitada, dessa mecânica que, se um dia pareceu'-nos virtuosa, agora se mostra infernal, por seus efeitos destruidores sobre a humanidade e o planeta. A necessidade de mudarmos esta lógica é a de reinventar a sociedade em uma escala humana, uma sociedade que reencontre seu sentido da medida e do limite que nos é imposto, porque, como dizia meu colega Nicholas Georgescu-Roegen, 'um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito'", afirma Latouche.

E há mais (muitos mais) argumentos:

• o funcionamento do sistema econômico atual depende essencialmente de recursos não renováveis e, portanto, não pode se perpetuar: as reservas de matérias-primas são limitadas, sobretudo quanto a fontes de energia, o que contradiz o princípio de crescimento ilimitado do PIB;
• não existe evidência da possibilidade de se separar o crescimento econômico do aumento do seu impacto ambiental;
• a riqueza produzida pelos sistemas econômicos não consiste apenas de bens e serviços, mas há outras formas de riqueza social -- tais como a saúde dos ecossistemas, a qualidade da justiça e das relações entre os membros de uma sociedade, o grau de igualdade e o caráter democrático das instituições. O crescimento da riqueza material, medido apenas por indicadores monetários, pode ocorrer apenas em detrimento dessas outras formas de riqueza;
• as sociedades ocidentais, dependentes do consumo supérfluo, em geral não percebem a progressiva perda de riquezas (como a qualidade de vida) e subestimam a reação das populações excluídas (a exemplo da violência nas periferias e o ressentimento em relação ao Ocidente, por parte dos países que não apresentam o padrão de desenvolvimento econômico ocidental).

Para os teóricos do decrescimento sustentável, o PIB é uma medida apenas parcial da riqueza e, se se pretende restabelecer toda a variedade de riquezas possíveis, é preciso deixar de utilizá-lo como bússola. Neste sentido, defendem a utilização de outros indicadores -- tais como o IDH-Índice de Desenvolvimento Humano, a "pegada ecológica" e o Índice de Saúde Social.



*membro-diretor (Região Nordeste) da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, Manuel Osório Viana pesquisa há 40 anos sobre desenvolvimento e ambiente osorioviana@live.com


SAIBA MAIS
http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=375&PHPSESSID=2992afb2cd65c8594faad2ff286459fc

http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/sustentabilidade_em_um_mundo_lotado.html

http://www.decroissance.org

http://www.degrowth.eu



LEIA TAMBÉM
LATOUCHE, Serge. Pequeno tratado do crescimento sereno. São Paulo: Martins Fontes, 2009

19 julho 2010

DESMODELOS DE VIDA

Passeio socrático*


Outro dia, observava eu o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares, mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam.

Com certeza, já haviam tomado café-da-manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz.

Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”.

“Não -- ela retrucou --, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional).

Pois é, não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem 60 academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.

Acho ótimo, vamos todos morrer esbelto(a)s: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade: tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse.

Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais.

Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina: cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil -- com raras e honrosas exceções --, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é "entretenimento".

Domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!”.

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir!

O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo(a), começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor.

Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade -- a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center.

É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.

Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas.

Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”


*Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Ed. Rocco), entre outros livros

SAIBA MAIS
http://travessia21.blogspot.com/2008/06/eu-o-livro-homenagem-frei-betto.html


15 julho 2010

INTEGRAÇÃO QUÂNTICA

Como construir o amanhã?*


O que é sustentabilidade, em seu conceito geral?
Em primeiro lugar, o meu "olá" para os leitores deste site. O termo "sustentabilidade", uma palavrinha meio "na moda", tem um conceito muito maior que imaginamos nesses tempos de aquecimento global e muitas crises econômicas e sociais. Há quase 20 anos, a ONU afirmou que "desenvolvimento sustentável" é o "atendimento das necessidades das gerações atuais, sem comprometer a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações futuras". O termo, que para muitos se refere apenas à gestão ambiental nas grandes empresas, tomou outras proporções ao também indicar uma gestão responsável não apenas do meio ambiente, mas com as pessoas e tudo o que se refere ao social. “Sustentabilidade” ganhou uma conotação muito mais holística no século XXI, adquirindo notoriedade como referência aos projetos ambientais das grandes organizações quando pressionadas pela sociedade a fazerem uma gestão sustentável sobre seus resíduos de produção, tornou-se um termo muito mais sistêmico e engloba não apenas a ecologia externa, mas também a ecologia interna, seja das pessoas, seja das empresas.

Como aplicar a sustentabilidade nas empresas modernas?
A consciência de uma empresa nasce em seus valores, que são os sustentáculos da cultura organizacional – o estilo de comunicação, o tipo de pessoas que recrutará e o padrão de liderança dos gestores. Por isso, para trabalharmos com o conceito de sustentabilidade temos primeiro que trabalhar com a cultura da empresa, seus valores, missão, visão. No meu livro Sustentabilidade nos Negócios - Valores, Comportamentos e Relações Humanas no Trabalho (Ed. Qualitymark), falo do uso dos valores humanos para a construção de uma empresa mais solidária e consciente, o que poderá ajudar a tornar a vida melhor na sociedade em que vivemos. Nisso, "sustentabilidade" passa a representar não apenas um modelo de gestão ecológica do meio ambiente, mas um modelo de gestão da ecologia interna que norteia as políticas de gestão de pessoas e suas estratégias de negócios. Existe um valor humano que considero ideal para a prática da gestão sustentável, que é a boa vontade. Este valor é uma das bases da mudança comportamental que devemos alcançar para termos sustentabilidades nas ações futuras. Boa vontade significa uma atitude de cooperação que transforma o amor em ação concreta. A boa vontade estimula a justiça e a honestidade nas pessoas, por isso é considerado um dos valores mais importantes para a sociedade humana contemporânea.

Sabemos que a liderança tem um papel fundamental no processo de conscientização para a sustentabilidade. Como os líderes das organizações que desejam aderir à sustentabilidade podem mobilizar os demais colaboradores para participar do processo?
Primeiramente, os líderes precisam se conscientizar da importância de uma gestão de pessoas sustentável, porque fazemos negócios com pessoas e para pessoas. Assim, a educação interna para uma mudança de valores é o princípio. Mesmo porque a visão sustentável não é uma técnica, é uma consciência. Segundo, para uma organização sobreviver e se desenvolver, necessita de inovações constantes para se revitalizar. O processo de revitalização acontece quando trabalhamos regularmente a cultura organizacional. Podemos revitalizar uma empresa mexendo em seus valores, alterando sua cultura. E como já disse antes, isso não é fácil porque sugere uma mudança de consciência. E todos nós sabemos da grande resistência para mudarmos. No entanto, valores como respeito ao próximo, compaixão, solidariedade, simplicidade, amor e tantos outros importantes para a boa convivência humana são fundamentais para a saúde biopsicossocial da empresa. Os líderes devem ser treinados para usar esses valores.

Qual o papel da comunicação nesse processo?

Nossa sociedade atual é baseada na informação, na comunicação de ideias. Mas informação não é formação. Dessa maneira, acho que a comunicação tem um grande desafio que é encontrar um modelo de informação mais substancial em tempos de urgências, onde as pessoas não mais leem e querem tudo muito rápido. Conscientizar as pessoas sobre a necessidade de um novo modelo econômico, social e ambiental que traga sustentação aos recursos naturais globais e qualidade de vida para todos no planeta é fundamental. Todo mundo sabe o quanto o modelo de produção das grandes empresas está sendo questionado nos últimos anos, em termo de “ecoeficiência”. Ou seja, a preocupação com questões como a emissão de menos poluentes, a redução da produção de lixo industrial, o menor gasto de energia, entre outras, é discutida em busca de soluções urgentes para a poluição que está ameaçando o planeta e as futuras gerações. A comunicação, seja em veículos da mídia ou internamente na empresa, é uma das principais ferramentas de conscientização das pessoas neste século, sobre todos estes assuntos.

Você considera que as organizações de hoje estão verdadeiramente voltadas para a importância da sustentabilidade, como diferencial no mercado?
Não. A maioria das empresas ainda não adotou verdadeiras práticas sustentáveis. Os projetos nessa área ainda são muito tímidos diante da urgência em nos encontramos. A maioria adota práticas superficiais, projetos para venderem sua imagem à sociedade. Existe muito mais propaganda do que verdade nos projetos que conheço. Claro que existem empresas conscientes e preocupadas com o meio ambiente, com as pessoas, com a sua comunidade. Mas, infelizmente, ainda são poucas… Acredito que ainda não existe a verdadeira consciência por parte das empresas por falta de uma mudança na mentalidade dos lideres em relação aos negócios. A urgência dos resultados financeiros, dos lucros, ainda impera. Mas agora não se trata mais de “marketing”, se trata de sobrevivência mesmo! Sobrevivência não apenas do planeta, mas dos negócios, afinal os consumidores estão cada vez mais antenados e exigentes quanto à responsabilidade das empresas em sua comunidade e com o meio ambiente. E em nossa sociedade da informação, ninguém esconde mais nada. Assim, atenção senhores gestores, sejam verdadeiros em seus discursos. O cliente não perdoa ser enganado!

Diante da grande demanda do mercado por empresas cada vez mais voltadas para práticas sustentáveis, o que as ações sustentáveis podem representar no resultado final das empresas?
Os resultados para uma empresa que tem uma visão sustentável são enormes! Creio que a prática sustentável já é um modo de vida, ainda não totalmente vivenciado por todos, mas a velocidade e a intensidade das mudanças ocorridas nos últimos anos são surpreendentes. Assim, embora as ações sustentáveis da maioria das empresas ainda sejam tímidas, elas estão procurando se adaptar ao mundo dos negócios globalizados e ecologicamente corretos, um cenário que exige uma visão competitiva aliada a um comportamento cooperativo. Essa realidade mostra a necessidade das empresas de buscarem formas criativas e alternativas de negociação para obterem lucratividade. Práticas de negociações ilícitas como as que detonaram a recente crise no mercado americano que varreu o globo não serão mais aceitas. Por isso já se fala muito em mudanças radicais no modelo econômico vigente.

Fazendo-se um comparativo com as organizações de países desenvolvidos, o marketing socioambiental no Brasil apresenta características agregadoras, independente da demanda do mercado, ou ainda é visto como ação corretiva para a ampliação de mercado das empresas?
O Brasil tem uma cultura agregadora. O pensamento de sustentabilidade nos negócios visa aliar o lucro com a responsabilidade social e ambiental. E para isso a atenção aos recursos humanos e naturais como forma de gerar lucro é o desafio das empresas que buscam prosperar e construir uma boa imagem para os seus clientes, sem deixar de serem responsáveis pelo futuro das próximas gerações. A questão agora é uma mudança verdadeira de consciência por parte das empresas, que no século passado foram mestras na produção de bens diversificados e criaram o marketing para incorporar fatores como preço, qualidade, serviços e inovação tecnológica ao consumidor, numa corrida maluca para ganhar o cliente. Essa mentalidade fortaleceu a cultura da competição extremamente agressiva e predatória, onde todos os valores morais foram postos em cheque, principalmente com o cuidado no trato com a vida, com as pessoas, com o planeta. A competição, centrada na lógica financeira de lucros crescentes, negou totalmente as conseqüências negativas para o meio ambiente, e, consequentemente, para a vida como um todo.

No seu livro você fala sobre a “desmassificação da produção de consumo”. O que isso significa e qual a influência da sustentabilidade nisso?
A transformação da mentalidade consumista de nossa sociedade é fundamental para colocarmos novamente a vida no centro de tudo. E isso é um paradoxo complexo, porque a nossa economia capitalista sobrevive do consumo: o que acontecerá com ela se pararmos de consumir? Esta pergunta também tem uma resposta complexa. Acho que tem a ver com a busca por um consumo com qualidade e não mais por quantidade. "Desmassificar" é uma nova consciência, de um consumo menos predatório. A solução é a mudança de valores gananciosos e totalmente voltados para o “ter mais dinheiro do que podemos gastar”. No livro, falo sobre o lucro acumulado pelas grandes empresas, que é exagerado e mal distribuído, fazendo do mundo um lugar desigual -- uns com muito, outros com tão pouco. Dessa forma, fazer uma empresa prosperar não é torná-la "a mais rica". Isso não passa de uma crença de que “quanto mais dinheiro tenho, mais forte serei”. A última crise econômica mundial provou que isso não é exatamente verdadeiro, afinal, as primeiras empresas a afundarem eram aparentemente ricas e sólidas! Acredito que desmassificar o consumo é a busca por algo mais intangível que os produtos comprados, como os valores humanos, o bem-estar social e a preservação do ambiente.

Geralmente vemos a aplicação de ações sustentáveis no ambiente externo
à empresa. E quanto ao ambiente interno, como a sustentabilidade pode ser aplicada?

O problema é que alguns empresários ainda fazem confusão com essa denominação. Eles acham que o termo "sustentabilidade" designa algo estanque, individualizado, do tipo "sustentabilidade econômica é gerar lucros", "sustentabilidade ambiental é proteger o meio ambiente" ou "sustentabilidade social é melhorar a vida das pessoas". Falta-lhes uma visão sistêmica. De um modo geral, podemos dizer que só é sustentável aquilo que se desenvolve contínua e sistemicamente. Por isso, uma gestão sistêmica é a base da Sustentabilidade Corporativa, uma vez que engloba vários aspectos do modelo de negócio a ser adotado, que vão do econômico ao social, do humano ao ambiental. É uma gestão sistemicamente integrada, onde as práticas da empresa compactuam com o planejamento estratégico, integrando objetivos, formas de produção, características dos produtos e relacionamento com todos os seus stakeholders.

Que dicas você daria para as pessoas que desejam levar o conceito de sustentabilidade para ser discutido e aplicado nas empresas onde trabalham?
Neste meu livro tem uma passagem onde falo que tudo é uma questão de valores internos e educação para a busca da paz, um sentimento que nos deixa solidário(a)s e capazes de usar a política de sustentabilidade: “Ao educarmos nossa mente e emoções para a tranquilidade, menos hostilidade, serenidade de espírito, harmonia interior e conciliação, estaremos nos educando para a paz. Esse processo pode começar no que alguns chamam de Pedagogia da Cooperação, uma prática baseada em três movimentos:
1. Convivência: vivenciar o compartilhar é fundamental para a aprendizagem social. É preciso entender o Outro para nos reconhecermos neste Outro;
2. Consciência: ao criarmos um clima de cumplicidade com os outros, podemos refletir sobre a importância da convivência e sobre as possibilidades de modificar nossos comportamentos e relacionamentos;
3. Transcendência: é a disposição para dialogar, decidir em consenso, experimentar as mudanças propostas e integrar nossa vida, que provoca as transformações interiores desejadas.
Na visão holística da vida, as evoluções ocorrem de dentro para fora, sempre do pequeno para o maior, ou do indivíduo para a sociedade. Assim, o processo de aprendizado de novos valores indispensáveis para um ambiente de cooperação e paz começa em nós mesmo(a)s. Da mesma forma que aprendemos a correr, a andar, falar, escrever, podemos aprender a cooperar. Mas esse aprendizado não é intelectual: somente praticando a cooperação em diferentes condições -- no cotidiano pessoal, grupal, social, profissional -- é que aprenderemos a nos relacionar de forma cooperativa. Essa é a verdadeira revolução no ambiente de trabalho.” (fim da passagem do livro).

E quais as dicas para que as pessoas apliquem a sustentabilidade em suas vidas particulares?
Para temos sustentabilidade na vida, temos que ter ações coerentes com a nossa missão pessoal. Dessa maneira, devemos nos conhecer melhor para podermos realmente alinhar o nosso Sentir aos nossos Pensar e Agir. Ou seja, normalmente nós sentimos de uma forma, pensamos de outra e agimos, muitas vezes, totalmente em desarmonia com o que sentimos e pensamos. Resolver isso é fundamental para trabalharmos o nosso todo de forma integral: corpo/mente/emoções/espírito. Olhar a vida de forma integral requer uma mudança de valores, pois isso nos traz a consciência que de que somos todo(a)s interligado(a)s, o que eu faço ao Outro retorna, de alguma forma, para mim. E aí não há nada de misticismo! É Física Quântica… Tá, eu sei que a maioria acha isso tudo uma bobagem, mas reconhecer a importância de um bom relacionamento é vital para a nossa natureza humana. Sempre afirmo que um relacionamento ético e afetivo é a base do equilíbrio para a nossa existência, e não apenas um ideal de vida: devemos nos espelhar nos grandes filósofos e pensadores, em Mestres da Humanidade como Cristo, Buda, Confúcio e muitos outros, que mostraram que a correta relação entre os seres humanos traz paz e saúde integral para todo(a)s -- as pessoas e o Planeta Terra.

*A psicoterapeuta, coach, palestrante e consultora em Desenvolvimento de Pessoas Isa Magalhães é formada em História, Psicologia Transpessoal e Coach pelo Integrated Coaching Institute, com pós-graduação em Gestão de Pessoas pela FIA / USP. Seu foco profissional inclui treinamentos comportamentais nas áreas do Autoconhecimento, Relacionamento Interpessoal, Criatividade, Negociação, Liderança e Motivação. Desenvolve projetos em RH Estratégico e Qualidade de Vida no Trabalho com a visão biopsicossocial nas organizações, tendo entre seus clientes empresas como Correios, Oi, SEBRAE, Petrobras, Porto Seguro e Avon, entre outras. Autora dos livros “Psiu, o síndico pode estar ouvindo" (contos) e “Manual de sobrevivência ao medo” (Ed. Universalista), “Gestão holística de pessoas – Qualidade de vida e bem-estar no trabalho” (Ed. Flora Nativa), além do volume acima citado, teve publicada esta sua entrevista inicialmente em www.pontomarketing.com

SAIBA MAIS
http://isamagalhaes.com.br

28 junho 2010

POESIA EM PRANTO SECO

O recifense José Almino*


Feita de palavras “arrancadas do que passa e não importa”, a poesia de A estrela fria canta o longínquo, presentificado por lampejos de uma “saudade de pedra” que “jaz no fundo do poço”, mesmo sob o “azul do mais azul dos sóis a pino”.

Da saudade, seja ela de um amigo morto ou da própria infância, José Almino constrói uma “vida a retalho”, feita de centelhas do passado que se manifesta, por epifanias, embora seja ausência que “inundará minha alma”. Os estímulos do dia, por mais passageiros ou ínfimos – como a “carícia da poeira” –, “trazem a eternidade da infância esfacelada”.

Ainda há lugar para a "saudade" na poesia? Como mera manifestação da função emotiva da linguagem, pode-se dizer que não. Mas quando se leem os poemas de Almino, a nostalgia que os impregna parece partir-se em reflexos de um eu multiplicado (ou dividido), em muitos eus que não encontram seu lugar e o buscam num tempo de passagem, a unir lembranças que adquiram sua permanência não nos seres, mas nas palavras.

Não há mais coisas, porque estas se vão, se foram; as palavras são apenas "sombra das coisas", mas há o recurso de torná-las coisas para que as recordações se concretizem em novo mosaico feito e desfeito: “A infância se esfacela brutal/ diante dos olhos passados e adiante, no poema”.

Se a “água fria” lambe “nossos dias”, a lembrança será árida: biografia “inóspita como um bife malpassado”. Luta-se, sim, contra a saudade: “limpa, limpa/ limpa/ a puta/ desta nostalgia”; há, porém, a persistência dos momentos acumulados por teimosia: “Humilhado,/ triste, velho e burro./ Haja relho,/ haja orgulho.”

Como a infância no Recife, que teima em perdurar em palavra, mesmo quando se afirma o contrário (“um domingo enxuto,/ sem infância”), o tempo no exílio, vivido pelo poeta, resta-lhe como motor de sua melancolia seca, que se indigna com a própria existência, como na “Canção do exilado”, a evocar, em reverso, o Salmo 137.

A poesia de Almino, feita em versos livres, parece oscilar entre a prosa cotidiana eternizada e a poesia absorvida, enxuta; incorpora citações, faz suas as vozes que ecoam na memória, encaixando-as em ocos reservados nos próprios versos.

Mas há também, na forma, “citação” de medidas – um dos pontos altos desta poesia que entende o amor como “um longínquo solilóquio” são estes versos heptassílabos: “E a tua boca é um traço,/ no mesmo prumo do riso,/ no mesmo desembaraço/ do teu olhar, sempre oblíquo,/ punhal aflito em ferida,/ sangrando bem na medida/ dessa saudade tão rara.”


*Natural de Tietê/SP, Marcelo Tápia é escritor, tradutor, ensaísta e editor. Por vezes solta a voz em canções celtas e promove o Bloomsday em São Paulo. A resenha acima foi publicada originalmente no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, sob o título "Poeta canta a saudade em retalhos".

07 junho 2010

ODE À SUSTENTHABILIDADE

Questão de lucro*



A onda agora é "sustentabilidade", depois de "qualidade total", "foco no cliente", "parceria", "inovação", "responsabilidade social" e etc. Todo mundo fala em sustentabilidade, as propagandas informam como as empresas estão interessadas no assunto e grandes debates, como o da hidrelétrica de Belo Monte, têm o tema em suas raízes.

O conceito é muito bom e foi usado pela primeira vez em 1987, por uma política e médica norueguesa chamada Gro Harlem Brundtland. Ela escreveu num documento da ONU mais ou menos o seguinte:

"Sustentabilidade é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades."

Muito bom mesmo, não é? Atuar no presente, cientes do nosso impacto e influência no futuro. Pois é. Então lembrei-me de que escrevi, anos atrás, um texto chamado "Coração empresarial", no qual eu dizia:

"Nas minhas andanças pelos EUA no começo dos anos 1990, em toda sala encontrei um quadrinho que falava da importância da diversidade (que é a necessidade de integrar as minorias -- negros, asiáticos, latinos etc., ao mundo dos brancos anglo-saxões). Fiquei encantado:

-- Puxa, as empresas estão entendendo que todo mundo é igual, que as diferenças de sexo, raça ou credo não tornam as pessoas mais ou menos dignas ou humanas.

Até que um alto executivo me explicou:

-- No futuro, aqui nos EUA, vamos ter muito mais negros, latinos e asiáticos. E essa gente só vai comprar produtos de empresas que empreguem gente igual a eles. E, se não começarmos a integrar essa gente, então no futuro não vamos conseguir vender para eles...

-- Ué, mas não é uma questão de valores humanitários, de entender que todos os homens são iguais, de não ter preconceitos?

-- Não. É uma questão de lucro."

Aquilo foi uma porrada! Eu era apenas um pobre jovem executivo idealista brasileiro, cheio de boa-vontade, sendo exposto à dura realidade: na briga dos valores morais com o lucro, quem se ferra é a moral.

Pois então... Sabe o que mudou desde que escrevi aquele texto? Só os modismos. E sustentabilidade é o modismo da hora.

Fazemos discursos maravilhosos, especialmente quando envolvem valores morais, mas apenas somos capazes de adotar pequenas ações táticas focadas na eficiência e que tenham resultados mensuráveis no curto prazo.

Coleta seletiva, uso de papel reciclado, economia de água, economia de energia... Essas ações são mais do que boas, são necessárias. E é ótimo que cada vez mais gente adote esses procedimentos, mas...

Sustentabilidade é muito mais que pequenas ações táticas. Sustentabilidade não pode ser comprada. Não é um modismo. Não é "invenção dos caras do meio ambiente".

Sustentabilidade, assim como a liberdade, não é uma "coisa", é uma relação. E a maioria das pessoas não está preparada para ela.

É sobre isso que falei no dia 18 de maio em São Paulo, na palestra "SustentHABILIDADE", realizada gratuitamente para convidados. Quis e quero provocar uma reflexão sobre nossa capacidade de fazer com que esse novo modismo não seja apenas mais um modismo.

Mais informações em www.istoelider.com.br


*Luciano Pires é jornalista, escritor, cartunista e palestrante


SAIBA MAIS
www.lucianopires.com.br