09 fevereiro 2017

ORDENANDO O SENTIDO


Adivinhar é preciso*



Confiar no Facebook não é uma rima, tampouco uma solução. Mas, por incrível que pareça, tem funcionado. Se não para o longo prazo, ao menos para o dia seguinte. Quando Mark Zuckerberg diz que vai chover e sugere que tenha cuidado para não me molhar, chove e me molho. 

Como ontem. Fazia sol quando acordei. Desci para comprar frutas. Na volta, tomei chuva. Cheguei encharcado em casa. Ou antes de ontem, quando desisti de sair porque, contrariando o que dizia o FB, achei que choveria. Fez sol, e perdi um dia de passeio na praia.

Como quase tudo, a previsão climática é uma atividade inexata. Diz-se ciência para melhor passar, como os livros de autoficção que se fingem de vida real para atenuar tudo que carregam de invenção e turbinar suas vendas. Entretanto, dependemos dela, dessa casualidade. 

Calculamos nossas chances de sucesso ou fracasso a partir de seus prognósticos. Confiamos em seus algoritmos. Apostamos as fichas nessa roleta randômica. E perdemos. Ou ganhamos. Chove. Faz sol.

Cotejam-se variáveis e, dentro de um conjunto já suficientemente heterogêneo, outras variáveis, como uma matrioska. De modo que, se qualquer uma dessas pequenas peças muda de lugar, todo o quadro se altera. Daí a confusão. 

Vale pras nuvens e pra chuva. Vale pra vida também. Quando um tijolo sai do canto, o muro se desloca. Mesmo a imobilidade se transmuta. As dunas não se contentam com a quietude. Passeiam, e, nessa passagem, se desfazem. Remontam-se novas noutra geografia.

Para além de todo esse lugar-comum, porém, há algo nas previsões que se aproxima da poesia: nada é suficientemente claro até que aconteça. Nada prepara para a mudança, sobretudo a que não se anuncia. 

Uma hora, a gente olha pra trás e o que vê já é passado. Não o passado morto e enterrado. Mas um passado vivo, que nos interroga de volta e sentencia: impossível qualquer retorno. Para quem tenta a fuga, o passado é a pior escolha.

Então viajamos sempre para frente, nunca para trás. Fazemos isso amparados em previsões cujas bases movediças não disfarçam o seu caráter de truque. Não falo do trabalho respeitoso que é perscrutar o comportamento dos mares e ventos e depois anunciar se vai chover ou fazer sol. 

Me refiro à adivinhação da vida nova nas pequenezas do cotidiano. Mais ou menos como os profetas da chuva quando pelejam com o exercício da antecipação. Quando futuram, são mais poetas que profetas.

O que fazem? Leem a natureza. Plantas, animais, sombras. Interpretam os rastros do orgânico no que cerca. Veem sinais onde antes havia apenas o pouso da ave. São ordenadores de sentido. 

E, ainda que não decifrem letras e números, enxergam tudo como um grande texto, que inclui o quintal, a casa, o amor, o mundo. Praticam uma ciência imprecisa de trazer para perto de si o que é possível. Namoram a hipótese, mas com pé no chão.

É bonito o trabalho de um profeta da chuva. É bonita toda sorte de malabarismo que fazemos – com palavras e gestos – para habitarmos um tempo que ainda não chegou. Melhor ainda é quando esse tempo chega. 

Porque, correspondendo ou não ao que um dia foi previsão, tem uma qualidade que nenhum outro tempo tem: é presente. Goste-se ou não, está aqui. É agora. Se chover, tomaremos chuva. Se fizer sol, faremos um passeio.




*Henrique Araújo é jornalista.

(conteúdo publicado em www.opovo.com.br)
(imagem em www.pexels.com)

25 janeiro 2017

TALENTO AUTODIDATA


Cartunista cearense recebe Prêmio Angelo Agostini como “Melhor de 2016



    Em ação na redação do jornal O Povo em Fortaleza

O cartunista Carlos Henrique Santos da Costa, que assina sua produção como “Guabiras”, foi indicado pelo voto popular ao 33.º prêmio Ângelo Agostini, promovido pela AQC-Associação dos Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo, como “Melhor cartunista de 2016”.

Ele deve ir ao auditório do Memorial da América Latina na capital paulista neste dia 28, representando o jornal O Povo do Ceará -- onde trabalha como ilustrador há quase 20 anos --, para a cerimônia de entrega do prêmio, que nesta edição destaca o quadrinhista de origem argentina Rodolfo Zalla, falecido em junho passado.

Zalla fundou em São Paulo, com o também quadrinhista Eugenio Colonnese, a editora D-Arte, lançando vários artistas e títulos do gênero “terror nacional” no mercado local, entre 1967 e o início dos anos 1990.

Guabiras, que na categoria “Criação Gráfica” recebeu um Prêmio Esso em 2015 e tem se destacado por suas charges e cartuns, publicados em seu blog independente e em periódicos como a versão brasileira da revista Mad e o jornal norte-americano Extra, festejou a homenagem recebida como “um evento muito importante para a minha carreira”.

O pioneiro quadrinhista Angelo Agostini, que no Brasil de 1869 lançou "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte", dá nome ao prêmio que, desde 1984, presta reconhecimento aos profissionais da área, visando “o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional”.

Segue a lista dos premiados:

Melhor Desenhista – Mary Cagnin
Melhor Roteirista – Alex Mir
Melhor Cartunista – Carlos Henrique Guabiras
Melhor Lançamento – “Spectrus – Paralisia do Sono”, de Thiago Spyked
Melhor Lançamento Independente – “Protocolo: A Ordem” (Diversos autores)
Melhor Web Quadrinho – “Marco e Seus Amigos”, de Tako X Melhor Fanzine – “Café Ilustrado”
Prêmio Jayme Cortez – Ivan Freitas da Costa (Chiaroscuro Studios)
Mestres do Quadrinho Nacional – Arthur Garcia, Gualberto Costa, Sérgio Graciano (MSP) e Sidney L. Salustre (MSP)


20 janeiro 2017

MARAVILHOSA "PEACH PALM"


Pupunheiras estão entre as primeiras plantas domesticadas pelos indígenas
(conteúdo publicado por Evaldo Ferreira:
19.01.17, em http://portalamazonia.com)
 Foto: Divulgação
A pupunha é um poderoso antioxidante, devido aos carotenoides e selênio que há em sua composição



Todo início de ano é a mesma coisa. Como um presente dos deuses da floresta, o mercado Adolpho Lisboa, a feira da Manaus Moderna, as demais feiras e os vendedores das esquinas enchem a cidade de belos cachos de pupunha (Bactris gasipaes), com seus frutos verdes, amarelos ou vermelhos. Quem resiste a pupunhas cozidas no café da manhã? E a tradição vai longe, mesmo que a princípio seu uso primeiro fosse a extração da madeira. 

Segundo pesquisas realizadas por Margaret Cymerys e Charles Clement do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), indicam que as pupunheiras estão entre as primeiras plantas domesticadas pelos indígenas, há milhares de anos, mas seu uso como alimento é muito tardio.

Eles não sabiam o que estavam perdendo. Aliás, o palmito da pupunha, rico em nutrientes e vitaminas, atualmente é bastante requisitado por chefs de restaurantes renomados do Sul do país. Em comparação a outros palmitos, o da pupunha tem a vantagem comercial de se formar mais rapidamente. Já o fruto é um poderoso antioxidante, devido aos carotenoides e selênio que possui em sua composição, o que auxilia no combate o envelhecimento da pele. 

A pupunha pode ainda ser utilizada na fabricação de pães, bolos e muito mais, conta a nutricionista do Inpa, Dionísia Nagahama. "São preparações culinárias saudáveis com alimentos encontrados na região, de baixo custo, utilizando as partes geralmente desprezadas desses alimentos, como talos, cascas e sementes", explicou Dionísia que pesquisa a culinária a partir das pancs (plantas alimentícias não convencionais), como o tucupi de cubiu. No caso da pupunha, ela usa a polpa. E ainda tem o óleo, que corresponde de 2% a 30% do fruto, e pode substituir o azeite de oliva. 

Rica em nutrientes
As cores amarelas, laranjas e vermelhas da pupunha são resultado do caroteno (70 ml por cada 100 gramas de polpa), explicou Margaret Cymerys. "Quanto mais vermelha a polpa, mais vitamina A ela possui, contribuindo para a saúde dos olhos, cabelos, unhas e pele. A polpa de pupunha também oferece cálcio, ferro e fósforo", escreveu Margaret. Outro estudo, sob a coordenação de Helyde Marinho, também do Inpa, pesquisa quatro produtos à base dos óleos da pupunha e do buriti: sabonetes líquido e sólido, emulsão evanescente e creme antioxidante. Todos patenteados e prontos para serem industrializados.

500 cachos/dia
A família de Mel Gbson Dantas (que não é o ator australiano), trabalha há mais de 15 anos na Manaus Moderna. "Quando inicia dezembro começam a chegar os cachos de pupunha, vindos de Coari, onde temos um sítio. Até março as remessas diárias não param" disse o comerciante da feira da Banana. No sítio a família produz açaí, macaxeira, mandioca, guaraná, abacaxi e pupunha, tudo vendido a seu tempo na feira, em Manaus. 

Por dia, a banca, onde trabalham Gelcineide Dantas, tia de Mel, e mais quatro ajudantes, recebe 400 cachos de pupunha. "Mas vendemos cerca de 500 cachos. Esses 100 a mais, compramos de outros produtores que trazem a fruta do distrito de Caviana (na BR 174), de Fonte Boa e até de Boa Vista (RR). Não é porque é nossa, não, mas a pupunha de nosso sítio é melhor que as outras, pois dura mais e chega aqui fresquinha", garantiu.

As embarcações saem de Coari, do sítio dos Dantas, diariamente, e levam um dia para chegar a Manaus. "Para baratear o frete, as pupunhas vêm em pencas com três cachos e pagamos R$ 1, pela penca. Se viessem os cachos separados, pagaríamos R$ 1 por cacho", disse. Na banca da família os cachos custam de R$ 5, a R$ 35, "dependendo da aparência dos frutos", revelou o feirante. 

De 5 a 26 cachos
A pupunheira alcança 25 metros de altura e cada tronco atinge de 10 a 25 cm de diâmetro. A planta forma uma touceira com até 15 troncos espinhosos. Há muitas variações na cor da casca do fruto (verde, vermelha, amarela, laranja), no teor de óleo (de 2% a 30% do peso fresco) e no tamanho do fruto (de 10 a 200 gramas). Além disso, existem frutos sem sementes.

A pupunheira floresce entre agosto e outubro e frutifica entre dezembro e março, raramente até abril. Porém, existem indivíduos que reproduzem fora dessa safra, especialmente em anos de chuvas abundantes e em solos mais ricos em nutrientes. Quando está com flores, a pupunheira é visitada por milhares de gorgulhos e outros besouros polinizadores.

Cada pupunheira produz de cinco a dez cachos por ano. No entanto, há palmeiras que chegam a produzir 25 cachos em apenas um ano chuvoso, em solo bom. Cada cacho de pupunha pesa entre dois e doze quilos e contém aproximadamente 100 frutos, podendo atingir até 400 frutos por cacho. 

Uma pupunheira pode produzir de 10 a 120 quilos de frutos. A colheita de um hectare pode variar de quatro a dez toneladas por ano. Às vezes, ocorre baixa produção por causa da polinização insuficiente, falta de chuva, falta de matéria orgânica ou solos compactados.

Festa da Pupunha 
As tribos indígenas do alto dos rios Solimões e Negro, no Amazonas, fazem uma festa durante a safra da pupunha. A festa é regada por caissuma e por comidas feitas com os frutos cozidos e farinha. Caissuma é uma bebida fermentada de pupunha e tem aroma de pêssego maduro. Por isso o geógrafo, naturalista e explorador nascido na Prússia (atual Alemanha) Alexander Von Humboldt criou, em sua passagem pelo Amazonas no século 19, os nomes europeus para a pupunha: "palmeira de pêssego" (Portugal), "palmera de melacotón" (Espanha) e "peach palm" (Inglaterra).

Palmito de pupunha 
As vantagens do palmito da pupunheira em relação às outras espécies do seu gênero é o pouco tempo para a formação do palmito, o seu sistema de perfilhamento e as qualidades químicas do próprio palmito. Ao cortar o primeiro palmito da palmeira (mãe), depois de 12 a 18 meses no campo, o perfilho já está bem crescido e dará seu palmito em mais 6 a 9 meses.

Bons para a saúde
Em Manaus, os frutos são frequentemente consumidos depois de cozidos em água e sal e têm várias qualidades. Valor nutricional: são uma excelente fonte de fibra alimentar, proteína e alguns minerais, tais como ferro, zinco, cobre, manganês, magnésio, cálcio, fósforo e potássio. 

Benefício na prevenção de doenças degenerativas: as cores vivas do fruto não são à toa: os tons que variam do amarelo para o vermelho indicam alta concentração de carotenoides, substâncias ricas em antioxidantes e que estão associadas à prevenção de doenças degenerativas.

Benefício para a pele: para quem deseja combater o envelhecimento precoce, um dos principais benefícios do fruto é sua grande quantidade de antioxidantes. Além de deixar a pele mais firme, beneficia a visão, o sistema imunológico e os ossos, que são fortalecidos.

Benefício para a digestão: o palmito da pupunha é um alimento pobre em gorduras e rico em fibras.


15 dezembro 2016

SALVEMO-NOS COMO PUDERAM-NOS


Mensagens otimistas para 2017*





Que possamos continuar comendo todos os animais como se não houvesse  amanhã. (Assim não haverá mesmo!).
*
Que o ar que respiramos continue sendo de graça e cada vez mais cheio de nossa fumaça. Ele conta com o nosso apoio, de carros e cigarros.
*
Que a água que bebemos continue sendo sólida, saborosa e colorida. E jorre farta e purificada, já em garrafinhas plásticas.
*
Que os políticos continuem aprimorando um governo de todos se ferrando para benefícios de poucos. E que os bichos e as plantas não atrapalhem o progresso.
*
Que a Medicina continue acessível em suas curas e tratamentos modernos. Exceto para aquela gentinha ingrata e ignorante que insiste em ter saúde sem enfiar a mão no bolso. E que animal, lembremos, nem gentinha é.
*
Que a Amazônia continue queimando sozinha sem incomodar ninguém. Temos problemas mais sérios para nos preocupar, como a expansão agropecuária!
*
Que os esquerdinhas continuem a defender a riqueza; e os direitinhas, a socializar a pobreza. E que os porcos garantam a mortadela para uns e os peixes garantam o caviar para outros.
*
Que o Deus em que acreditamos continue enchendo a sacolinha por aqui. E que lá no Oriente Médio encha os altares do sangue dos bichos em seu louvor.
*
Que o peru do Natal continue sem mandar Papai Noel tomar na rima certa.
*
Que o consumismo continue sendo nossa felicidade e glória sem estourar nosso cartão de crédito. E que na crise nossos animais domésticos aceitem ser jogados nas ruas para cortar gastos.
*
Que a natureza continue sendo nosso depósito de lixo e pare de mimimi. Limpemos sem culpa só o nosso lado da calçada!
*
Que a humanidade continue reconhecendo o valor do Eu e que cada um possa tirar o Seu da Nossa reta. Flora e fauna estão aí para nos servir.
*
Que os traficantes e torturadores de animais continuem punidos com cestas básicas, coitados.
*

Que o boi peide à vontade igual nós fazemos depois de comer um boi. Aquecimento global provocado por peidos humanos é só história pra boi dormir.


*Ulisses Tavares também tem mensagens
pessimistas para 2017 — mas, em respeito
à atual ordem natural, deixou-as para
os governantes do mundo as
comunicarem a todo(a)s.
Coisas de poeta.


Foto em: 
www.correiobraziliense.com.br
Obs.:  é o caso de uma rês que virou gata! Explico: a matéria,
de 27/11/15, teve a manchete "Vídeo de vaquinha chorando 

antes do abate viraliza e quebra a internet". O nome dela era
Emma. Lia-se também: "Emma, no entanto, foi resgatada e vive
 feliz em um santuário". Que tenhamos esse tipo de sorte em 2017!




23 novembro 2016

TRAGÉDIA HUMANA


A terra queima*





Eu vejo o sertão ardendo e o diabo montado num redemoinho, tocando fogo no mundo. A terra está ressequida, agonizando na sua lição de pedra. A caatinga semimorta hiberna seivas e segredos da vida, para vencer a vastidão da morte. Os açudes são poças de lama ou chão rachado, os peixes expostos ao sol parecem mumificados. 

Ao meio-dia, os animais sobreviventes (só couro e ossos) estão escondidos nas sombras, nos buracos, nas frestas, nas locas das pedras, e espiam com seus olhos frios — onde guardam os segredos das origens das espécies, inclusive da espécie humana (são nossos ancestrais). As carcaças dos bois, de brancuras reluzentes, esperam a noite para refletir o brilho das estrelas e a prata da lua.

Olhando a insuportável beleza dessa paisagem, lembrei-me de Josué de Castro, autor de "A Geografia da Fome", que via na caatinga retorcida, em agonia cósmica, erguer-se um palco para a representação da tragédia humana. 

Essa condenação do homem poderia ser até castigo de Deus (como numa tragédia grega), se não fosse toda essa miséria também provocada, durante séculos, por uma elite perversa, desde as sesmarias até os latifúndios, e, destes, aos currais neoliberais e pós-modernos. 

Neste império de injustiças, a água é um tesouro, e dele se apossam os poderosos. Não há limite para essa ambição. Como disse o poeta Patativa do Assaré, se o rico pudesse, ficaria com a brisa e daria ao pobre o furacão!

Deus deve estar ausente. Diz uma canção dos Tuaregs, do deserto do Saara, que Deus fez os lugares férteis, com montanhas, árvore e rios, para neles Ele habitar e teria feito os desertos para que neles os homens procurassem a sua alma. Aqui estou, nesse sertão sem-fim, em busca da minha alma, com o corpo queimando ao sol. 

Num momento de desvario, pensei até em olhar para o sol em busca de Deus, mas o céu límpido de nuvens escassas, dominado pela intensa luminosidade, proíbe o meu olhar, sob o risco de que minhas retinas sejam queimadas e eu fique cego de tanta luz. 

Padre Ibiapina, Antonio Conselheiro e Padre Cícero, santos cearenses que tiveram os couros curtidos pela luz desse sertão, talvez possam interceder por nós junto à insondável vontade divina, enquanto nos preparamos para a luta, pois correm boatos e notícias de que o governo quer privatizar a água. 

Se isso acontecer, será possível ler, nos portais dos sertões, a frase que Dante determinou para o portal do inferno: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”.

No entanto, não será tão fácil a consumação desse crime. Nesta terra, onde os horizontes se derramam no sem-fim, os homens do sertão resistem como gigantes. O DNOCS, mesmo sucateado, sobrevive, e a Cagece resiste bravamente. 

Com certeza, as populações se levantarão contra as tentativas governamentais de privatizar a água. O povo cearense, vítima secular das secas, mas sobretudo das elites perversas e do capitalismo desumano, não deixará que tal hecatombe aconteça. 

A água é um direito inalienável do homem, assim como ar, a vida e a liberdade. 




*Rosemberg Cariry é cineasta e escritor.
Conteúdo publicado em www.opovo.com.br.

Imagem em https://commons.wikimedia.org


18 outubro 2016

AGOSTO, MÊS DO... OVERSHOOT!


O Dia da Sobrecarga da Terra*


Em 2016, mais uma vez ultrapassamos o limite de recursos naturais gerados pelo planeta. Dados de 2014 mostraram que o consumo do brasileiro correspondeu a 50% a mais do que a capacidade da Terra. 

Naquele longínquo 2014, demorou menos de oito meses para a humanidade usar todos os recursos naturais do planeta disponíveis para o ano. Em 19 de agosto daquele ano, o Planeta Azul entrou no vermelho: foi o Dia da Sobrecarga da Terra (em inglês, Overshoot Day). 

Pelo resto do ano, mantivemos o nosso déficit ecológico, já que reduzimos nossas reservas e aumentamos ainda mais a quantidade de CO² produzidos na atmosfera. O cálculo é feito anualmente pela Global Footprint Network, uma organização internacional pela sustentabilidade, parceira global da Rede WWF. 

Em 2015, o Overshoot Day deu-se em 13 de agosto. De novo, foram menos de oito meses para que a humanidade utilizasse todos os recursos naturais existentes para aquele ano inteiro. A data marcou a demanda humana anual sobre a natureza, que foi além do que o planeta poderia regenerar durante um ano.

E mais: desde 2000, esta data surge cada vez mais cedo: de 1.º de outubro em 2000 a 13 de agosto em 2015.

É uma data sem motivo algum para comemoração. Os custos para a população mundial ultrapassar os limites do planeta se tornam mais evidentes, ano após ano e dia após dia. 

Incêndios, desmatamento, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade e o aumento de CO² na nossa atmosfera fazem crescer ainda mais a nossa dívida ecológica e trazem prejuízos humanos e econômicos. 

Os governos que seguirem ignorando os limites dos recursos renováveis no processo de tomada de decisão de políticas públicas vão pôr em risco a performance econômica a longo prazo.

"O uso dos recursos naturais acima da capacidade da Terra está se tornando um dos principais desafios do século 21. É um problema tanto ecológico quanto econômico. Países com déficits de recursos e baixa renda são ainda mais vulneráveis. Até mesmo países de renda per capita alta, que têm a vantagem financeira de se bloquearem dos impactos mais diretos da dependência de recursos, precisam saber que uma solução a longo prazo deve abordar essas dependências antes que a coisa se transforme numa situação de crise econômica", afirmou Mathis Wackernagel, presidente da Global Footprint Network.

Àquela altura, 85% da população mundial vivia em países que demandavam mais da natureza do que os seus ecossistemas podiam renovar. De acordo com os cálculos da GFN, seriam necessários 1,5 planeta para produzir os recursos ecológicos necessários para suportar a pegada ecológica mundial de então (mais informações abaixo). 

Projeções sobre a população, o uso de energia e a produção de alimentos sugerem que a humanidade vai precisar usufruir da biocapacidade de três planetas bem antes da metade do século. Isso pode ser fisicamente impossível.

No caso do Brasil, o consumo médio de recursos ecológicos equivale a 1,6 planeta — bem próximo à média mundial. Mesmo assim, estamos consumindo acima de 50% da capacidade anual da Terra.

Para evitar um colapso dos recursos naturais, que são a nossa fonte de sobrevivência, precisamos avaliar e repensar nossos hábitos de consumo. E adotar uma postura mais responsável, de forma que possamos viver de acordo com a capacidade ecológica do nosso mundo. 

De acordo com a CEO do WWF-Brasil, Maria Cecilia Wey de Brito, todos os setores — sociedade civil, poder público e empresas — precisam estar envolvidos no processo de redução dos impactos.

"Temos que entender que tudo isso afeta diretamente o meio ambiente e também a vida das pessoas, de cada um de nós. O cidadão pode fazer a sua parte adotando uma postura crítica e melhorando os seus hábitos de consumo. 

O poder público, por sua vez, é responsável por planejar e implementar políticas públicas de mitigação, como transporte público menos poluente, instalação de ciclovias e planejamento ambiental

Na outra ponta, as empresas têm o papel de melhorar suas cadeias produtivas e oferecer aos consumidores produtos mais sustentáveis", explicou ela.

O WWF-Brasil atua com a Pegada Ecológica, buscando mobilizar e incentivar as pessoas a repensar hábitos de consumo e a adotar práticas mais sustentáveis no seu dia a dia. Além de utilizá-la como uma forma de mobilização e de conscientização, iniciou já em 2009 um trabalho pioneiro no Brasil com a realização de cálculos em cidades como Campo Grande (MS), Rio Branco (AC) e São Paulo (estado e capital). 

Há cerca de dois anos, lançou o concurso de vídeos Fest Curteco (Festival de Curtas Ecológicos) que premia o autor do vídeo mais criativo contendo atitudes responsáveis do cotidiano para estimular outros cidadãos brasileiros através do exemplo positivo.

Além do trabalho com a Pegada Ecológica, a rede WWF também é parceira da GFN na edição do Relatório Planeta Vivo, publicado a cada dois anos. 

Pegada Ecológica 
 É uma metodologia que permite avaliar a demanda humana por recursos naturais, com a capacidade regenerativa do planeta. A Pegada Ecológica de uma pessoa, cidade, país ou região corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar necessárias para gerar produtos, bens e serviços que utilizamos no nosso dia a dia. 


É uma forma de traduzir, em hectares (ha), a extensão de território que uma pessoa ou toda uma sociedade utiliza, em média, para se sustentar.

Ela mede a quantidade de recursos naturais biológicos renováveis (grãos, vegetais, carne, peixes, madeira e fibra, energia renovável entre outros), que estamos utilizando para manter nosso estilo de vida. 

E se esse consumo está dentro da capacidade ecológica do planeta, ou seja, da biocapacidade (eficiência dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano).

O cálculo é feito somando-se as áreas necessárias para fornecer os recursos renováveis utilizados, com as que são ocupadas por infraestrutura (pelas cidades, por exemplo) e as áreas necessárias para a absorção de resíduos. Para realizar o cálculo, é utilizada uma unidade de medida: o hectare global (gha), que representa a média mundial para terras e águas produtivas em um ano.

SAIBA MAIS
www.wwf.org.br

(*conteúdo publicado em www.revistaecologico.com.br)
(imagem em www.ecobrasilia.com.br)

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28 setembro 2016

PROJETO DE UNIVERSALIDADE


Reflexões sobre o tema "sertão"*




Nos sertões, deu-se o encontro/desencontro de mundos; nações, povos e culturas se enfrentaram e se misturaram. Os africanos e ameríndios (escravizados), os senhores colonizadores católicos portugueses e ainda os aventureiros chegados de toda a Europa (cristãos, cristãos novos, judeus, calvinistas, mouros, ciganos...) fizeram o caldo étnico cultural formador da brasilidade. 

A cultura do sertão nordestino é formada pelas principais vertentes das culturas ocidentais/orientais que viriam mesclar-se e sincretizar-se com a imensa diversidade das culturas indígenas e afro-brasileiras. 

O antropólogo Darcy Ribeiro refere-se à cultura nascida desse enfrentamento como sendo uma “cultura herdeira de todas as taras e talentos da humanidade”, grande contribuição de originalidade do Brasil ao mundo.

A compreensão da palavra sertão é bem vasta. Os primeiros colonizadores disseram: "desertão", "matão", "certão", "sartagem", "sartaem", "sartan", "sartãa", "sartan", "sertã" (feminino de "sertão"?), "sartã"... Como quem diz Deus e diz satã. 

O sertão é terra dos confins, lá pra dentro, bem fundo, onde moram os mitos, as utopias... E as feras.

Não existe um Sertão apenas, mas tantos sertões quanto as almas dos homens. Guimarães Rosa abriu todas as porteiras do sertão e o estendeu até as areias do Saara, até as estepes russas, até os desertões da Andaluzia, até o deserto de Gobi, até o “dentro da alma”, onde a memória se junta com a imaginação do futuro. 

Estava fundado o Grande Sertão: Veredas: “Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é o mais forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado”. 

O sertão nasce assim, na alma e também na carne, no sangue. Antes de ser o lugar da morte, o sertão é gênese – o território do sonho. O País de São Saruê que ainda começa a ser imaginado. A Bandeira do Divino bem à frente, tremulando.

O sertão atravessa os séculos, as raças, as nações, os regimes e as ideologias; funde culturas e nacionalidades, reinventa o arcaico em contemporâneo, porque só sabe fertilizar-se e constrói-se no presente, projetando-se sempre para o futuro. 

O homem do sertão brasileiro, quando mergulha no abismo do ser, emerge como homem novo e reinventa-se em um novo projeto de universalidade.

É por isso que a maioria das mudanças mais profundas, radicais e ousadas das artes brasileiras andaram bebendo nos inesgotáveis poços das culturas dos sertões, apesar das secas. 

Os acervos das culturas, das artes e das literaturas dos sertões são multiculturais, multirraciais e transacionais, são heranças que se constroem em direção ao futuro.


Quando falamos em "sertão", por qual sertão perguntamos? Pelo do escritor urbano que o reinventa sob a fluidez e as artimanhas da memória? Pelo do vaqueiro? O do camponês? O do homem migrante nos grandes centros urbanos? O sertão da África? O sertão da Amazônia? O sertão dos pampas? O sertão do Magreb? São muitos os sertões do mundo. 
 Com certeza, falamos do sertão imemorial, que atravessa os tempos, desde a pré-história até a contemporaneidade. O sertão “sem-porteiras”, que engoliu todos os outros sertões. 
Sertão de secas e de invernadas, de misérias e de farturas, do diabo e de Deus, de trevas e de luz. O sertão profundo das polifonias perdidas, dos segredos indecifráveis, de orientes mágicos, de romanidades tardias, de desertos onde os profetas do Velho Testamento ainda pregam as suas iras e profecias. 
O sertão da antiga Grécia, com seus rapsodos e tragédias. O sertão de areias, onde se levantou Maomé com suas tribos e marchou sobre o norte da África, até dominar o Mediterrâneo e conquistar a Península Ibérica; com seus guerreiros, seus marinheiros, seus astrólogos, seus filósofos, seus músicos, suas dançarinas, seus poetas, seus cantores, seus pastores aboiadores. 
O sertão de Santo Antão, o anacoreta do deserto egípcio, atentado pelo demônio. O sertão de São Jorge da Capadócia, todo vestido de couro e lança em riste para lutar contra os dragões de todas as maldades. 
O sertão de Nossa Senhora do Belo Amor, dos romeiros de Juazeiro do Norte, do Padre Ibiapina, do Padre Cícero e dos beatos Antônio Conselheiro e José Lourenço... O sertão de todos os santos do povo e também dos seus demônios: Lucas da Feira, Corisco e Lampião... 
Também dos cavaleiros andantes e defensores da honra: Jesuíno Brilhante e Capitão Lamarca... O sertão cristão, sefardita, moçárabe, mouro, messiânico, tocado pelas profecias da Terceira Era do Espírito Santo, pelo sebastianismo e pelo V Império profetizado pelo Padre Antonio Vieira. 
Quiçá do sertão Tapuia, de língua travada, ou Tupi-Guarani de língua Nheengatu, de festas do caju e do Toré. O sertão nascido da alquimia de todas as transmutações, até à Pedra Filosofal da sabedoria que se esconde na alma. 
Um sertão transbarroco e transnacional, em suas etnias transmutadas e símbolos cotidianamente revitalizados e ressignificados nas obras dos grandes artistas brasileiros.
Sei que existem os preconceitos daqueles que veem o sertão como o lugar do atraso. 

Todos esses preconceitos, no entanto, não valem um grão do pó da areia que o vento sopra no sertão. Muitas vezes esse grão de areia, nas asas do vento, atravessa o Atlântico, vindo do Saara (outro sertão), só para lembrar-nos que somos herdeiros do mundo. 

Os sertões são múltiplos, arcaicos e contemporâneos, regionais e universais, ao mesmo tempo. Em sendo lugar, o sertão é onde o homem encontra a alma. 

*Rosemberg Cariry é cineasta e escritor.
(conteúdo publicado em www.opovo.com.br)
(imagem por Rosângela Borges em www.artmajeur.com)

15 setembro 2016

"VAZIO" BUDISTA


Desapegue e terá o universo*



O jovem Keisuke Matsumoto resolveu escrever um livro sobre os hábitos de faxina diária dos monges e virou um autor de sucesso. Seu Manual de Limpeza de um Monge Budista, publicado no Brasil pela Editora Planeta, entrou na lista dos mais vendidos no Japão, na Espanha e na Itália.

Foi um dos livros mais delicados que li nos últimos tempos. Parece auto-ajuda, mas chega perto da poesia. Sua força está concentrada na crença budista de que fazer faxina remove a sujeira do espírito.

A orelha do livro já anuncia: "Um dos discípulos de Buda encontrou o nirvana enquanto estava varrendo". Simples e profundo, Keisuke Matsumoto explica aos poucos a relação entre o ambiente e o espírito.

Por exemplo: ele aconselha "lavar imediatamente cada louça suja", da mesma forma que devemos expulsar todo pensamento ruim assim que ele chega, para que em nós não encontre morada.

Acumular louça na pia e coisas por arrumar na casa só torna as tarefas mais pesadas pelo volume de trabalho e perturba o espírito. A rotina de limpeza dos monges é de um pouco por dia. “Cada segundo de faxina é de pleno significado”, ele diz. E justifica, com tranquilidade, página por página.

O que impressiona nesse livro tão delicado é que ele nos leva a um estado de paz de espírito ao longo da leitura. Quase uma meditação. Logo no começo, ele sugere que as janelas sejam sempre abertas pela manhã para que o ar puro limpe a casa com o frescor de cada estação.

A descrição é tão bonita que é quase possível sentir uma lufada de vento japonês no rosto. A relação com os objetos ao redor também merece atenção do autor. O minimalismo é levado a sério.

Ele sugere que tenhamos apenas “objetos de qualidade excelente feitos mediante tempo e esforço. Ao tocar algo assim, toda energia concentrada na sua manufatura percorre o corpo e chega ao coração”.

Lembrei imediatamente das rendas, do linho e dos bordados, das peças feitas com a força de uma tradição e que já estão deixando de existir, pouco a pouco, porque não cabem mais na pressa da vida ocidental.

O minimalismo que ele prega está centrado na crença de que precisamos de muito pouco para viver. Uma casa com menos objetos é mais fácil de limpar. Uma vida com excessos torna-se mais pesada. “Desapegue e terá o universo. É o 'vazio' budista”.

Há tempos, venho pensando no resultado de sermos uma sociedade com tantas marcas de um regime escravocrata, acostumados a pensar nos serviços de casa como algo a ser feito somente por empregadas domésticas, como se limpar a própria casa diminuísse o valor de alguém.

Associar a limpeza do ambiente com a cura do espírito faz absoluto sentido. Por muitas vezes, tive inspiração para novos livros enquanto lavava louça ou fazia outra atividade doméstica.

O efeito desse texto é quase literário porque tem o poder de transporte para uma vida em outro ritmo, tão diferente da nossa correria habitual, acumulando obrigações, objetos, cansaço. Assim, o Manual de Limpeza de um Monge Budista é, sobretudo, uma pausa.

E uma forma de enxergar a rotina diária como possibilidade de meditação ou de iluminação, a depender da alma de cada um.


*Socorro Acioli é escritora. Conteúdo publicado em www.opovo.com.br





24 agosto 2016

BRAZIU-ZIU-ZIU !!!


Impeachment Tabajara*

:
Num gentil oferecimento das "Organizações Tabajara", vai começar
a parte final do impeachment da presidente Dilma
Reza a legislação brasileira que cabe à acusação o ônus da prova.

Mas, como se trata de um "impeachment Tabajara", a acusação até agora não provou que houve crime de responsabilidade da presidente; a defesa é que tem se desdobrado para demonstrar que não houve crime algum.

E, mesmo assim, a presidente foi afastada em maio, foi declarada ré em julho e o impeachment seguiu em frente.

Reza, também, a legislação brasileira, que "in dubio pro reu". Mas no "impeachment Tabajara", embora as dúvidas abundem, prevalece o "in dubio contra reu".
E, mesmo assim, o impeachment prosperou.

Em qualquer julgamento (inclusive os de bons filmes de Hollywood) os jurados ficam incomunicáveis alguns dias antes a fim de não serem influenciados e poder julgar com total isenção. O que também acontece em qualquer Tribunal do Júri brasileiro.

Mas, como se trata de um "impeachment Tabajara", as testemunhas é que vão ficar confinadas no quarto de hotel, sem TV ou jornal, como participantes de qualquer Big Brother e os jurados, que são os 81 senadores, vão continuar expostos a todo tipo de pressão, influência, negociação e ainda com total liberdade para cabalar votos de colegas.

Em qualquer julgamento de verdade os jurados têm direito a votar de acordo com a sua consciência e não em função de interesses das partes envolvidas.
Mas, como se trata de um "julgamento Tabajara", o PMDB ameaça expulsar de seus quadros a senadora Kátia Abreu se ela votar contra o impeachment.

Jurados que têm interesse direto no resultado do julgamento são afastados de qualquer júri minimamente sério.

Mas, num "julgamento Tabajara", suplentes de senadores que viraram ministros não são impedidos de votar, apesar da evidência de que, se o impeachment não passar, o titular voltaria ao Senado e o suplente para sua casa.

Em qualquer julgamento minimamente ético, as partes envolvidas não se pronunciam antes do resultado final.

Mas, como este é um "impeachment Tabajara", o super-ministro Eliseu Padilha não se constrange em anunciar publicamente que conta com ao menos 60 votos.

Em qualquer julgamento minimamente sério, jurados não podem declarar seus votos antes que ele se inicie.
Mas, como se trata de um "julgamento Tabajara", 48 senadores não titubearam em alardear ao jornal Folha de S.Paulo que vão votar contra a presidente Dilma.

O resultado de um julgamento minimamente sério realizado nessas condições seria anulado por um juiz minimamente sério.

Mas um "julgamento Tabajara" não corre esse risco. Senão, não seria "Tabajara".

(*conteúdo publicado em www.brasil247.com por Alex Solnik, 
jornalista e autor de 13 livros, entre eles "Porque não deu certo", 
"O cofre do Adhemar", "A guerra do apagão", "O domador de 
sonhos" e "Dragonfly", a ser lançado neste setembro)