17 janeiro 2021

Os afogados pelo Estado

  (conteúdo publicado por Juliana Diniz em 16/01/21 em https://mais.opovo.com.br/)


 Imagem em: www.luso-poemas.net/

Olá. Estamos nos equilibrando pelo dezesseis do um de vinte e um: nesse cenário mundial, o que as pessoas pensam? 

Dia “D”, hora “H”? O que seria isso? E o que eu penso? Com (e sem) meus botões? 

Pensando nisso, venho refletir o pensamento da professora Juliana Diniz, escrito à base de angústia, e que reflete com total rigor e verossimilhança a porra da realidade, tá ok?

“Eu senti muita dificuldade de dormir à noite depois de ouvir o relato de médicos, enfermeiros e familiares em Manaus, numa busca desesperada pelo oxigênio que permite aos doentes de Covid respirar. “Por favor, por favor, acabou o oxigênio”. “Façam alguma coisa, pelo amor de Deus”. Um diretor de hospital liga aos prantos para um procurador da República, que relata ao jornalista do jornal O Estado de S.Paulo o cenário inexplicável – as autoridades permitiram o colapso do sistema, ao deixar faltar um insumo fundamental: o ar. Pacientes de unidades inteiras, morrendo em agonia por asfixia. Sessenta bebês prematuros, à espera de transferência para outro Estado.

Uma tragédia previsível, e, por isso, evitável.

Tentar vislumbrar o que acontece no interior dos hospitais amazonenses é um convite ao assombro moral e ao desespero, e nos aproxima dos medos mais primitivos que alimentam o instinto de sobrevivência – o medo do fogo e da água. Porque a morte por asfixia por falta de oxigênio é como afogar-se, uma morte em sofrimento, testemunhada pela impotência dos que, ao lado, nada podem fazer senão chorar ou, num gesto igualmente desesperado, aplicar morfina para amansar a angústia da morte.

Como podemos dar conta do desespero de testemunhar uma tragédia humanitária de tamanha proporção? O que seria possível para nós, os impotentes, fazer diante do sofrimento imenso dos que padecem em Manaus?

Para responder a essa angústia, vou às linhas do escritor italiano Primo Levi, um dos sobreviventes do holocausto. Após ser libertado de um campo de concentração, Levi dedicou-se a escrever sobre a memória do horror, sobre o trauma da guerra. Um de seus livros mais pungentes tem por título Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades e nos apresenta o dever ético que tem uma testemunha da História, o dever de registrar e manter vivo o passado. É esse testemunho que nos permitirá elaborar responsabilidades.”

( Para continuar a ler o mais que oportuno texto “Os afogados pelo Estado” da Doutora em Direito e professora da UFC Juliana Diniz, acesse :
https://mais.opovo.com.br/jornal/opiniao/2021/01/16/juliana-diniz--os-afogados-pelo-estado.html -- sendo o mesmo "material" de “acesso exclusivo de assinantes” do jornal)

A leitura porém se impõe, pois acontece à autora contextualizar à perfeição o antedia em que a ANVISA “aprovou” a utilização emergencial de produtos para a vacinação dos brasileiros.

Pense.

E como o pensamento é uma rede que não descansa, e liga fios, ligou aqui também:

SUFOCO (soneto por Marlene / de Lisboa, Portugal)

Como me corrói este desejo,
Esta vontade de querer gritar,
De não conseguir mais suportar,
Sem dizer, sem contar o que vejo.

Como é que poderei alentar,
Ao participar neste cortejo,
Vestir-me de palhaço, parar,
Não ouço mais risos, não gracejo.

Como podes meu sangue despejar,
Corpo indigno, eu te antevejo,
Pairo, fico sem o bafo entrar!

Pescoço esguio, ar almejo!
Já não há soprar, para me poupar,
Um simples sufocar que traquejo...
                                   
                                                                                 Ghost
 (
Marlene)


Leia mais sonetos em: 
http://ghostofpoetry.blogspot.com


O que temos sobe a Terra? Além da esperança, a poesia... God bless us all...



14 janeiro 2021

The Gumps - sucesso editorial há mais de 100 anos

 


Concebida pelo cartunista americano Sidney Smith, nascido em Bloomington, Illinois, em 1877, a tira “Os Babaquaras” (uma possível tradução para “The Gumps”) estreou no diário Chicago Tribune em fevereiro de 1917, para rapidinho tornar-se um ícone de grande popularidade, adorada por milhões de leitores.

O conteúdo? Um molhe de singulares dramossátiras, no traço nervoso e exigente do autor, embalando questionamentos para situações hilariantes, comoventes e patéticas vividas nos desenhos (Smith pode ter sido inspirado por artistas como Bud Fisher [Mutt & Jeff, de 1907], Tad Dorgan [Judge Rummy, de 1910], George Herriman [Krazy Kat, de 1913] e Harry Tuthill [The Bungle Family, de 1918], e por sua vez certamente deixou sua marca na obra de Frank King [Gasoline Alley, de 1918], Harold Gray [Little Orphan Annie, de 1924] e Billy DeBeck [Barney Google, de 1919]).


Um diferencial nas tiras de Sid Smith é a farta quantidade de texto, onde ele expressa toda a sutileza das filosofias do século XX e precursores, enquanto retrata o como-se-vive em família e na vizinhança, da porta para fora, na sociedade e nas ruas; no país, enfim.





Mas há muito mais: o que em aparência era só uma coleção de gags pitoresca e divertida torna-se, genialmente, um debate político, uma investigação sociológica, uma demonstração de crença arraigada por gerações, um comentário preciso num contexto social de dúvida e desinformação, um jorro de críticas ao status quo, ou um punhado de bons conselhos ao cidadão, travestidos como muita, muita boa e velha fofoca, produzida e compartilhada por Andrew (Andy) Gump, sua família e personagens coadjuvantes.


Assim Smith exorciza sagazmente os fantasmas de sua época – muitos deles atualíssimos ainda na nossa. Esta compilação (The Saga of Mary Gold) é uma publicação de 2013 da Biblioteca Americana dos Quadrinhos Fundamentais da IDW Editora de San Diego, California, trazendo o episódio completo (maio de 1928 a maio de 1929).



Finalizando, IDW é sigla para "Idea and Design Works, LLC", fundada em 1999, quinta maior editora de quadrinhos nos EUA, atrás apenas da Marvel, DC, Dark Horse e Image Comics, e à frente de outras grandes do ramo como Archie, Boom!, Dynamite, Valiant e Oni Press. Além dos louváveis lançamentos da LOAC-Library of American Comics Essentials, a IDW também se destaca por suas adaptações de filmes, programas e séries de TV, videogames e desenhos animados para os quadrinhos. Bombando.



13 janeiro 2021

Horror no Celeiro Negro / GIDEON FALLS #4

 


Esta série traz a verve do multitalentoso Jeff Lemire num roteiro ameaçador e aterrorizante, em que o personagem Norton Sinclair busca desvendar um segredo para bloquear a ameaça de uma invasão do planeta por entidades maléficas habitantes do submundo do inferno, que anseiam por um império de morte e loucura no mundo.

A trama chega ao ápice neste número 4 (que saiu com um erro de impressão na pátria do Tio Sam, depois corrigido numa segunda edição) com a destruição do equipamento tecnológico criado para fomentar o horror sobre a Terra.

O assustador cenário avança em passos guiados com mão firme pelas ousadias gráficas do artista Andrea Sorrentino e as impactantes cores de Dave Stewart – ambos também bastante premiados como Lemire e que em Gideon Falls inauguraram para si uma nova aura de prestígio.

Iniciada em 2018 e tendo vendido bastante nos EUA, a série tem aqui uma versão de luxo da Editora Mino para os originais da Image Comics -- que se tudo der certo neste ano pandêmico deverá trazer aos leitores ainda mais dois volumes cheios de ansiedade, medo e suspense, até o seu desfecho. Brrr!


Leia também: 





10 janeiro 2021

JANE -- as inesperadas aventuras de uma babá heroica

 


JANE, edição em português da Panini, de Aline B. McKenna e Ramón K. Pérez, traz uma inusitada trama em que uma babá adolescente enfrenta dificuldades aparentemente intransponíveis na grande metrópole por amor a uma criança, na pressão de um roteiro emocionado, rápido e decidido.

Lançada em 2017 nos EUA, o capa-dura saiu aqui em 2019, sob direção editorial do Alexandre Callari (menciono-o porque o cara está fazendo um bom trabalho e merece ser reconhecido. Além disso... Callari já visitou ninguém menos que o "mago" Alan Moore, na casa dele em Londres, na maior cara de pau! Cheque na web. Merece.)



A história transcorre através de belos e modernos desenhos, imagens very clean que alguém já disse remeterem ao quadrinista, cartunista e animador canadense Darwyn Cooke, conhecido por seus trabalhos nos quadrinhos da Mulher-Gato/Catwoman (bem como autor da série DC: A Nova Fronteira e versões recentes de The Spirit), falecido em 2016.


O ônibus parte do interior (no alto à D) e chega à cidade grande (acima à D) em belos splashes. Esse é o ritmo


07 janeiro 2021

Batman Especial (leitura ainda do Ano Velho)

 




O personagem Batman comemorou 80 anos e a Panini lançou (em setembro de vinte-vinte) no Brasil este especial comemorativo de 48 páginas em cores, com tradução de Alexandre Callari (um dos heads da editora Pipoca&Nanquim).

O gibi (formato americano) é uma compilação de duas histórias: The Brave and the Mold com a participação do Monstro do Pântano (já publicada aqui em julho/2017) e Fear for Sale (idem, em fevereiro/1987) que traz o homem-morcego enfrentando o vilão Espantalho. 


Até quem não simpatiza com o cruzado de capa, mas sabe que ele representa a justiça para os cidadãos de Gotham City, vai apreciar sua aparição junto a estes coadjuvantes não tão comuns em suas aventuras. Então, bem, vale a pena conferir o que estaria acontecendo!


Além disso a edição traz os símiles de várias capas e um belo papo de fã com o editor da Panini Comics Levi Trindade sobre a data, para celebrar comme il faut o Batman Day 2020.  

Show.


17 dezembro 2020

TUDO BEM COM VOCÊ? por Mirian Goldenberg


Quando alguém me pergunta: “Tudo bem com você?”, não sei como responder. Não consigo dar a resposta esperada: 
                                     “Tudo ótimo. E você?” 

Também não posso dizer a verdade: 
“Estou péssima, deprimida, exausta, triste e angustiada com o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Tentando administrar o medo e a ansiedade sem tomar remédio. 

"Não consigo dormir.
Sofrendo com o ódio, violência e crueldade dos monstros criminosos que não estão fazendo o que deveriam fazer para salvar as vidas dos brasileiros. Cadê a vacina?

 "Não consigo entender como tanta gente perversa
apoia e se identifica com sociopatas assassinos.

"Nem aceitar que tantos egoístas e psicopatas consigam rir,
fazer festas e se vangloriar de não usar máscara".

Mas encontrei uma forma melhor de responder:
“Tudo bem com você?”

Sinceramente, ainda não sei como responder a essa pergunta.
Só consigo dizer: "Neste momento eu estou bem, neste momento as pessoas que eu mais amo estão bem."

"E você, como está?"




Imagem: © Krichanã Bros. no 303 do Jany VI circa 1997


22 setembro 2020

Indígena acreano da etnia Ashaninka está em campanha da ONU, junto com o Papa Francisco e a ativista adolescente sueca Greta Thunberg

  Conteúdo publicado por Sandra Assunção em 21/09/20 em www.ac24horas.com/






O que o Papa Francisco, o indígena Ashaninka Benki Piyãko e a ativista ambiental Greta Thunberg têm em comum? São protagonistas, junto com outras celebridades mundiais, de uma campanha através de um vídeo com um minuto de duração que deixa no ar a pergunta: que futuro você quer? A ideia é fazer essa pergunta para que as respostas circulem ao redor do mundo.

Benki Piyãko é índio Ashaninka do Rio Amônia de Marechal Thaumaturgo e é reconhecido como um dos mais importantes ativistas ambientais do mundo. O vídeo será exibido na cúpula da biodiversidade da Organização das Nações Unidas (ONU) e na da Assembleia Geral da ONU (TBC), que vai ocorrer de forma virtual, além de escolas e estações de rádio e TV do mundo, além de poder ser compartilhado por quem quiser.

Os diretores Tom Mustill e Alex Kiehl tiveram a ideia do vídeo na quarentena: um pequeno filme de um minuto, como uma espécie de meditação/visualização furtiva, onde figuras globais de todos os diferentes credos e origens leem uma espécie de exercício de visualização, onde o espectador é solicitado a pensar no que seria um futuro melhor, e depois a falar sobre ele. Cada um gravou de sua casa ou do lugar onde estava.

Eles esperam que o material seja visto no Twitter, TikTok e instagram. Esperam que as pessoas o vejam repetidamente, pensem sobre sua mensagem e falem sobre ele. “Foi projetado para ser pequeno o suficiente para ser transmitido como um anexo do que se pode esperar”, explica Tom.



08 fevereiro 2019

CURAS ANCESTRAIS



O Cachimbo da Paz 
no círculo restaurativo indígena

Foto: Romulo Baldez                                       

Cachimbo manufaturado pelo indianista Luiz Felipe Figueiredo, conhecido pelo nome indígena Tsiipré, autor do livro Uma jornada no tempo – das visões ao cachimbo sagrado”, em que relata como chegou a fazê-lo



Um cachimbo, fisicamente, divide-se em fornilho (recipiente onde se coloca o fumo) e tubo (por onde passa a fumaça para a boca). O simbolismo mostra-nos que o fornilho representa o aspecto feminino de todas as coisas vivas e o tubo é o símbolo do aspecto masculino de todas as formas de vida. A ação de colocar o fornilho no tubo significa união, criação e fertilidade.
 O Cachimbo da Paz é o que temos de mais significativo e marcante quando relacionamos indígenas e seus rituais de práticas referentes a cura de relacionamentos feridos ou rompidos. Os ancestrais de povos originários contam que receber o cachimbo em um círculo composto por parentes e outros convidados, permite às vezes, descobrir-se a união de todos. É aí que lembramo-nos da harmonia que pode ser alcançada através da união dos que nos cercam naquele momento. Simbolicamente, é com o cachimbo que nos esforçamos para dividir o nosso próprio espaço e a nossa experiência de vida.
O “portador do cachimbo” — conhecido pela maioria como sendo o Pajé —, possui seu encargo como sendo de muita honra e profunda vocação. Nos atuais círculos restaurativos, identificamo-lo como sendo “um facilitador”. Na tribo, sempre foi convocado para atuar em nascimentos, mortes, casamentos, ritos de passagem, acordos contratuais, conselhos e diversas outras cerimônias.
Na atualidade, olhamos a paz como sendo a ausência de guerra mas, a paz representa muito além que isto, em nosso modo originário de pensar. A paz transita pela forma de viver, criar, agir, saber, ouvir e falar. A paz surge do nosso interior e é resultante do nosso equilíbrio em reconhecer as polaridades; macho/fêmea; humildade/orgulho; ensino/aprendizagem e outros aspectos que possam contribuir com a harmonia.
Sempre que o “cachimbo da paz” é partilhado, os acordos feitos e as palavras ditas têm base na proposta indígena de honra, verdade e compreensão mútua que surgem da paz interior de cada um. A honra e a palavra se tornam tão sagradas que devem ser mantidas a qualquer custo.
O último censo do IBGE (2010), apontou um total 896.917 indígenas no país, o que nos leva a concluir que, após oito anos, essa totalização beira um milhão de indígenas. As terras já demarcadas e homologadas constituem perto de 13% do território brasileiro. Estados, como Roraima, têm quase 50% de seu território como sendo terra indígena. São Paulo possui 12.977 indígenas, um número bastante expressivo e desconhecido pelos brasileiros. A diversidade cultural existente entre os povos indígenas é muito grande, de forma que não devemos nos referir à cultura indígena como se fosse uma única. São povos diversos, com línguas, religiões e olhares diferentes para o universo. Um Guaraní de São Paulo não tem a mesma cultura que um Macuxi de Roraima, assim como um Fulni-ô de Pernambuco não tem o mesmo olhar para o mundo que um Yanomami da Amazônia ou um Kaingangue do Rio Grande do Sul.
Os sistemas de Justiça existentes nas estruturas sociais das etnias, quase sempre, nos foram invisíveis e desconhecidos. Na verdade, temos muito que aprender em se tratando de maneiras que os tornam eficientes no processo de resolução de conflitos. Mesmo considerando que grande parte dos povos indígenas perderam bastante da estrutura social original devido as influências e contatos com a comunidade a nível nacional. Grande número de comunidades indígenas mantém seus sistemas de aplicação de justiça como sempre foram, originalmente.
Na visão desses povos, os aplicadores da justiça retributiva (tradicional) sempre foram invasores que desconsideram as leis e mecanismos de aplicação das mesmas desenvolvidas por eles ao longo de milhares de anos. A imposição do sistema judicial retributivo não faz o menor sentido para os indígenas. As tentativas de utilizar-se das regras criadas dentro da cultura e sistema político dos não-indígenas, em povos que possuem meios de resolução de conflitos próprios, constantemente, mostram-se desastrosas. A desconsideração habitual quanto a existência de elaborados sistemas jurídicos próprios no seio das comunidades indígenas brasileiras promove a negação da eficiência e funcionabilidade para todos. É como se jogássemos por terra sofisticados mecanismos elaborados ao longo da existência ética e étnica destes povos, como excelente forma de resolução de conflitos e práticas da paz.
Os Ingarikó, povo que habita a região setentrional do Brasil, no norte da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, ao pé do Monte Roraima, não têm um código escrito, mas possuem normas que são transmitidas oralmente, de geração em geração. São regras de aplicação de justiça em conformidade com as suas próprias instituições. Quando regras da comunidade são quebradas, o sistema de resolução de conflitos próprio é acionado. 
Os Xukuru do Ororubá, localizados entre os municípios de Pesqueira e Poção, no estado de Pernambuco, chegaram a diminuir, significativamente suas demandas conflituosas junto às autoridades policiais e judiciais através da execução dos próprios meios de fazer justiça. Os Nambikwara foi a etnia que mais evidenciou os processos contidos em práticas restaurativas. Foram eles que se notabilizaram por estratégias que intermediavam a resolução de conflitos gerados por disputas. A resistência às inúmeras investidas de evangelização fez com que os Nambikwara mantivessem seus rituais de cura, de religiosidade e de justiça de maneira muito próxima da ancestralidade.
Os povos indígenas Maori, da Nova Zelândia, são um grande exemplo na história da justiça restaurativa. De como um modelo tribal ganhou visibilidade e legitimidade suficiente, a ponto de ser incorporado pela justiça tradicional neozelandesa. O modelo de justiça restaurativa oriundo das tribos Maori foi o resultado da insatisfação dos membros dessa tribo em ver os seus jovens institucionalizados no sistema repressivo tradicional neozelandês.
No Canadá, o modelo também é inspirado nas culturas indígenas. Os protagonistas sentam em círculo e utilizam um objeto que é passado de mão em mão representando a posse da palavra, no Brasil, utilizamos o cachimbo como sendo este objeto. A reunião tem como objetivo a convergência da percepção para a solução do conflito significando a realização de um círculo restaurativo. Nesse país a Constituição de 1982 e a edição do artigo 718.2(e) do Código Penal canadense fixaram os Princípios Básicos para a Utilização de Programas de Justiça Restaurativa em matéria criminal, sofrendo influências das tradições das populações autóctones, como são chamadas as nações indígenas e Inuit (os esquimós), pelos franco-canadenses.
Nas comunidades nativas de territórios colonizados, a presença de práticas restaurativas, devia-se, principalmente, da necessidade de uma justiça distinta da punição baseada essencialmente na privação de liberdade, bastante utilizada pelas sociedades modernas. A própria estrutura das comunidades, onde cada indivíduo exercia um papel significativo para o ordenamento social, favorecia as práticas restaurativas, considerando que os indivíduos que houvessem cometido alguma infração as leis da comunidade deveriam ser julgados com vistas a permanecer exercendo sua atividade social, evitando-se, assim, a ruptura dos seus vínculos comunitários.
O ressurgimento dos modelos restaurativos na sociedade atual, deveu-se, em grande parte, às reivindicações de povos indígenas que exigiram e os que continuam a exigir da justiça estatal, respeito a seus processos de resolução de conflitos: Justiça Restaurativa Indígena – uma iniciativa brasileira que veio para colaborar com as diversas comunidades indígenas, no resgate ao sistema de justiça próprio, oriundo dos seus ancestrais, totalmente amparada pela Constituição Federal e pela Convenção OIT 169,  entre outras legislações e procedimentos.
A justiça restaurativa instalada no poder judiciário brasileiro tem origem como sendo o sistema jurídico próprio dos povos indígenas. A Justiça Restaurativa Indígena é direito consuetudinário (habitual aos costumes de um povo). Por serem ágrafos (não possuem linguagem escrita), os povos ancestrais vieram resistindo aos ataques à sua cultura, mas mesmo assim muito se perdeu. Muitas pressões externas contribuíram para que as comunidades fossem impedidas de buscar soluções próprias para os seus próprios conflitos. Dessa forma, o Mato Grosso do Sul, possuindo a segunda maior população indígena do país, saiu na vanguarda e iniciou, oficialmente, o trabalho de resgate e implantação da JRI junto às comunidades indígenas brasileiras, de forma que, em breve, teremos povos indígenas praticando o seu próprio sistema de fazer justiça, com toda autonomia a que têm direito. É rápido, gratuito, justo e executado pela própria comunidade.

*Marco Aurélio Luz é escritor, pesquisador, fundador do Instituto 
de Práticas Restaurativas de MS e coordenador da implantação 
de Núcleos de Justiça Restaurativa Indígena em todo o Brasil.


29 dezembro 2017

"AGRO É - NEGÓCIO!"

Ideia falsa tá na Grobo


A propaganda é a alma de qualquer negócio, dizem. O que achar, então, da ofensiva publicitária maciça e bem produzida do setor agroindustrial – “tá na Globo!” – com que estamos sendo bombardeados há meses, de modo ininterrupto? O mero volume e variedade das peças exibidas já podem causar arrepios.

Não pelo que é mostrado, claro. Aí tudo é lindo e fascinante. Mas pelo não dito, pelo deliberadamente omitido ou ocultado. Um determinado modo de compreender a função da agricultura, o destino dos recursos naturais, o emprego da força humana e dos meios tecnológicos – um modo, no mínimo, complexo e ambivalente – é apresentado como verdadeira panaceia para o País. Aqui cabem considerações críticas.

"Agro" é "tech" – de “technology”. A opção propagandística por abreviações (do inglês) gera, certamente, a impressão de modernismo, inclusão global e jovialidade – mas, ao mesmo tempo, indica que algo permanece não dito. Quem diz “agro”, se envergonha do nome todo: "agronegócio". Por quê?

Porque recordaria a razão última de qualquer empreendimento capitalista: auferir lucro privado. Mas, voltemos ao"tech": poderia ainda derivar de “technocracy”, um modo de produção em que a lógica técnica comanda. De certo, não faz sentido – a partir de uma visão romântica da lavoura arcaica – lutar contra o emprego racional de meios técnicos para facilitar a labuta humana.

Mas não é honesto negar a contradição inerente ao processo de racionalização tecnológica: a de, ao mesmo tempo, eliminar o trabalho humano, tornado obsoleto. Onde a lógica vigente é a de custo/benefício para o investidor, a decisão sobre o que será plantado, mecanização da lavoura e uso de agrotóxicos obedece a um cálculo frio de rentabilidade, não a preocupações humanitárias.

E o produtor rural que recorre à mão de obra semiescrava? Não tá na Globo.

"Agro" é "pop" – de “popular”? Sério?! Antes, parece um esforço descomunal para enfiar o conceito goela abaixo, repetindo-o ad nauseam e associando-lhe belas imagens e efeitos sonoros.

E o que dizer de: "Agro é tudo?" Lançando mão de conteúdos educativos que provam, de fato, a onipresença de processos químicos, a campanha publicitária passa a ideia falsa de o agronegócio ser responsável por tudo de valor que se produz na natureza. Presunção deveras totalitária! Xô!

O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens [...] é o primeiro princípio de toda a ordem ético-social” (João Paulo II, 1981). Falou tudo, cara!

Carlo Tursi é professor e teólogo. 



06 setembro 2017

DOIS MIL E DEZESSETE

Cá estamos!

Em breve, traremos um novo encaminhamento ao material postado neste blog.

Pretendemos focar em apenas uma área da cultura. Apenas uma arte.

Assim, vamos resenhar algumas impressões pessoais, de forma a dar cor a opiniões e sugestões.

De todo modo, haverá sempre um mercado à espreita.

Que o mesmo se localize aqui, entre a água e a areia, e que vc, que desfruta e aprende com nossas postagens, curta-as ainda mais.

Consequentemente, adeus olhares genéricos sobre temáticas atuais e polêmicas populares.

E bem-vindos (assim mesmo, revisor!) aos insights acerca do que realmente vale (?) compartilhar.


(a) O Editor

09 fevereiro 2017

ORDENANDO O SENTIDO


Adivinhar é preciso*



Confiar no Facebook não é uma rima, tampouco uma solução. Mas, por incrível que pareça, tem funcionado. Se não para o longo prazo, ao menos para o dia seguinte. Quando Mark Zuckerberg diz que vai chover e sugere que tenha cuidado para não me molhar, chove e me molho. 

Como ontem. Fazia sol quando acordei. Desci para comprar frutas. Na volta, tomei chuva. Cheguei encharcado em casa. Ou antes de ontem, quando desisti de sair porque, contrariando o que dizia o FB, achei que choveria. Fez sol, e perdi um dia de passeio na praia.

Como quase tudo, a previsão climática é uma atividade inexata. Diz-se ciência para melhor passar, como os livros de autoficção que se fingem de vida real para atenuar tudo que carregam de invenção e turbinar suas vendas. Entretanto, dependemos dela, dessa casualidade. 

Calculamos nossas chances de sucesso ou fracasso a partir de seus prognósticos. Confiamos em seus algoritmos. Apostamos as fichas nessa roleta randômica. E perdemos. Ou ganhamos. Chove. Faz sol.

Cotejam-se variáveis e, dentro de um conjunto já suficientemente heterogêneo, outras variáveis, como uma matrioska. De modo que, se qualquer uma dessas pequenas peças muda de lugar, todo o quadro se altera. Daí a confusão. 

Vale pras nuvens e pra chuva. Vale pra vida também. Quando um tijolo sai do canto, o muro se desloca. Mesmo a imobilidade se transmuta. As dunas não se contentam com a quietude. Passeiam, e, nessa passagem, se desfazem. Remontam-se novas noutra geografia.

Para além de todo esse lugar-comum, porém, há algo nas previsões que se aproxima da poesia: nada é suficientemente claro até que aconteça. Nada prepara para a mudança, sobretudo a que não se anuncia. 

Uma hora, a gente olha pra trás e o que vê já é passado. Não o passado morto e enterrado. Mas um passado vivo, que nos interroga de volta e sentencia: impossível qualquer retorno. Para quem tenta a fuga, o passado é a pior escolha.

Então viajamos sempre para frente, nunca para trás. Fazemos isso amparados em previsões cujas bases movediças não disfarçam o seu caráter de truque. Não falo do trabalho respeitoso que é perscrutar o comportamento dos mares e ventos e depois anunciar se vai chover ou fazer sol. 

Me refiro à adivinhação da vida nova nas pequenezas do cotidiano. Mais ou menos como os profetas da chuva quando pelejam com o exercício da antecipação. Quando futuram, são mais poetas que profetas.

O que fazem? Leem a natureza. Plantas, animais, sombras. Interpretam os rastros do orgânico no que cerca. Veem sinais onde antes havia apenas o pouso da ave. São ordenadores de sentido. 

E, ainda que não decifrem letras e números, enxergam tudo como um grande texto, que inclui o quintal, a casa, o amor, o mundo. Praticam uma ciência imprecisa de trazer para perto de si o que é possível. Namoram a hipótese, mas com pé no chão.

É bonito o trabalho de um profeta da chuva. É bonita toda sorte de malabarismo que fazemos – com palavras e gestos – para habitarmos um tempo que ainda não chegou. Melhor ainda é quando esse tempo chega. 

Porque, correspondendo ou não ao que um dia foi previsão, tem uma qualidade que nenhum outro tempo tem: é presente. Goste-se ou não, está aqui. É agora. Se chover, tomaremos chuva. Se fizer sol, faremos um passeio.




*Henrique Araújo é jornalista.

(conteúdo publicado em www.opovo.com.br)
(imagem em www.pexels.com)

25 janeiro 2017

TALENTO AUTODIDATA


Cartunista cearense recebe Prêmio Angelo Agostini como “Melhor de 2016



    Em ação na redação do jornal O Povo em Fortaleza

O cartunista Carlos Henrique Santos da Costa, que assina sua produção como “Guabiras”, foi indicado pelo voto popular ao 33.º prêmio Ângelo Agostini, promovido pela AQC-Associação dos Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo, como “Melhor cartunista de 2016”.

Ele deve ir ao auditório do Memorial da América Latina na capital paulista neste dia 28, representando o jornal O Povo do Ceará -- onde trabalha como ilustrador há quase 20 anos --, para a cerimônia de entrega do prêmio, que nesta edição destaca o quadrinhista de origem argentina Rodolfo Zalla, falecido em junho passado.

Zalla fundou em São Paulo, com o também quadrinhista Eugenio Colonnese, a editora D-Arte, lançando vários artistas e títulos do gênero “terror nacional” no mercado local, entre 1967 e o início dos anos 1990.

Guabiras, que na categoria “Criação Gráfica” recebeu um Prêmio Esso em 2015 e tem se destacado por suas charges e cartuns, publicados em seu blog independente e em periódicos como a versão brasileira da revista Mad e o jornal norte-americano Extra, festejou a homenagem recebida como “um evento muito importante para a minha carreira”.

O pioneiro quadrinhista Angelo Agostini, que no Brasil de 1869 lançou "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte", dá nome ao prêmio que, desde 1984, presta reconhecimento aos profissionais da área, visando “o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional”.

Segue a lista dos premiados:

Melhor Desenhista – Mary Cagnin
Melhor Roteirista – Alex Mir
Melhor Cartunista – Carlos Henrique Guabiras
Melhor Lançamento – “Spectrus – Paralisia do Sono”, de Thiago Spyked
Melhor Lançamento Independente – “Protocolo: A Ordem” (Diversos autores)
Melhor Web Quadrinho – “Marco e Seus Amigos”, de Tako X Melhor Fanzine – “Café Ilustrado”
Prêmio Jayme Cortez – Ivan Freitas da Costa (Chiaroscuro Studios)
Mestres do Quadrinho Nacional – Arthur Garcia, Gualberto Costa, Sérgio Graciano (MSP) e Sidney L. Salustre (MSP)