30 junho 2008

SONHO DIFÍCIL

Brasileiras da vida



Para realizar seu trabalho de graduação, Carine Carvalho Arruda passou muitas noites acompanhando o percurso de prostitutas brasileiras nas ruas de Lausanne (Suíça). Seu curso de Ciências Sociais representou muito mais do que um aprendizado sobre o que significa sobreviver numa zona de prostituição.

Sua mais importante descoberta conclui que a maioria das mulheres escolheu o meretrício para fugir da precariedade do mercado de trabalho no Brasil e como forma de concretizar seus sonhos. Porém, muitas vezes eles não se concretizam... A história já é nossa velha conhecida. A menina chega à Suíça com a expectativa de arrumar um bom emprego de garçonete e ajudar financeiramente a família que ficou no Brasil. No aeroporto, seu passaporte é confiscado e ela é levada a um bordel, trancada em um quarto e passa a vegetar numa triste existência como escrava sexual.

"Observei uma relação muito forte entre a precariedade do trabalho feminino no Brasil e a decisão de imigrar e entrar na prostituição", conta Carine ao jornalista da Swissinfo que assina esta matéria, durante o encontro que tiveram em um café de Lausanne (foto). Ela sabe o que diz: aos 25 anos, esta jovem brasileira acaba de formar-se em Ciências Sociais pela Universidade de Lausanne.

O problema é sério e existe, ninguém nega. Os vários inquéritos realizados pela polícia helvética e os registros nas ONGs de proteção à mulher podem testemunhá-lo. Porém, o mundo do meretrício é muito mais complexo do que parece à primeira vista. De fato, milhares de estrangeiras vêm à Europa já sabendo que irão exercer a profissão mais antiga do mundo. Elas apenas querem uma alternativa para a situação econômica que existe em seus países de origem.

Como pesquisa de campo para o trabalho de graduação, Carine detalhou o percurso de sete prostitutas brasileiras com idades entre 25 e 52 anos. "A idéia do meu projeto de graduação era acompanhar as trabalhadoras do sexo brasileiras que migraram para o cantão de Vaud e tentar entender porque imigraram e porque entraram na prostituição", explica. O titulo da tese dela já diz tudo: A difícil vida fácil.

Nascida em Fortaleza, Estado do Ceará, Carine chegou aos 17 anos à Suíça em fevereiro de 2000, acompanhada pela irmã gêmea e pela mãe, que havia se casado com um suíço. A família foi viver na pequena comuna de Daillens, com apenas 700 habitantes, no cantão de Vaud (região Oeste do país). Em pouco tempo Carine aprendeu o Francês e integrou-se à sociedade suíça. Depois de concluir o ensino secundário, com as melhores notas — ela e sua irmã até receberam um prêmio de integração —, Carine decidiu estudar Ciências Sociais. A outra gêmea, Ciências Políticas.

O interesse por questões feministas teve a inspiração da mãe, que havia sido líder sindical em Fortaleza, e também foi motivado pelo choque vivido ao descobrir como a mulher brasileira era vista na Suíça. "Lembro-me de que o chefe de um ex-namorado perguntou-lhe, brincando, se ele havia checado entre as minhas pernas para ver se eu era realmente uma mulher", conta indignada. Na memória, há também piadas e comentários, todos relacionados à imagem supostamente erótica e submissa da mulher brasileira.

Logo ao chegar à Universidade, Carine iniciou sua pesquisa sobre o tema. Durante uma palestra, ela conheceu a Fleur de Pavé ("Flor da Calçada"), uma ONG suíça integrada por pessoas que vivem da prostituição ou já a abandonaram, além de assistentes sociais e voluntárias, cujo principal objetivo é ajudar mulheres que estão na profissão do meretrício.

Além de acompanhar as trabalhadoras do sexo nas repartições públicas, hospitais e centros sociais, a ONG também mantém um ônibus nas ruas da zona de prostituição de Lausanne, onde as mulheres podem entrar para receber material descartável, tomar um café e obter informações sobre questões ligadas à saúde, à segurança e ao sistema social vigente. O ônibus também funciona como correio, devido ao fato de muitas prostitutas se encontrarem em situação ilegal no país e não terem um endereço fixo.

Carine é há três anos voluntária na Fleur de Pavé. No início, ela tentou simplesmente acompanhar as prostitutas nas ruas, mas percebeu que era mais fácil ter contato com elas através da ONG. "Fico duas vezes por mês no ônibus e participo também de uma reunião mensal", descreve. A experiência também mostrou-se fundamental para o seu trabalho de graduação. "Foi lá que consegui conquistar a confiança dessas pessoas. A grande surpresa para mim foi encontrar tantas brasileiras, muitas delas com a minha idade. Com o tempo, eu já conhecia a história pessoal de cada uma", lembra-se.

A primeira constatação que fez foi de que os clichês — a impressão de que toda mulher é forçada a se prostituir — tinham que ser relativizados. O meretrício não é uma via de uma só mão. "Existem várias modalidades de se prostituir na Suíça, o que existe em comum em todas elas é a mobilidade. As pessoas podem começar a prostituição e parar depois de um tempo para fazer outros trabalhos, podem trabalhar um dia num tipo de estrutura como cabarés, salões de massagens e depois voltar às ruas. O que as caracteriza a todas é a precariedade e a ilegalidade", analisa Carine.

Como percebeu a cientista social, a maioria das prostitutas brasileiras vem à Suíça como turistas e trabalham de forma ilegal, para juntar o máximo de dinheiro possível. Como as batidas policiais nas ruas de Lausanne são freqüentes, quando pegas, elas são geralmente expulsas do país. Porém, muitas retornam depois de algum tempo. "Elas acabam criando uma espécie de rede social, que trazem outras como elas para cá. Uma passa a experiência à outra", revela a recém-formada cientista. E acrescenta: "O medo marca a experiência delas".

Cafetões? Carine afirma que nunca escutou, durante seu trabalho, que as brasileiras tivessem alguém que vivesse da sua prostituição, explorando-as ou atuando como "dono" de prostíbulo. "Elas trabalham, em grande parte, de forma independente". Mas as condições de vida na Suíça acabam surpreendendo muitas delas. "As trabalhadoras do sexo brasileiras vêm para cá achando que irão ganhar muito dinheiro, porém descobrem rapidamente que o custo de vida aqui é altíssimo e que têm que pagar pela moradia, alimentação e para se manterem bonitas. O resultado é que precisam 'trabalhar' ainda mais", resume.

Outros fatores fundamentais para explicar a condição das prostitutas brasileiras, segundo Carine, é a situação familiar. "Quase todas têm filhos que ficaram no Brasil com suas famílias. Dar uma vida digna a eles é o que mais as motiva a agüentar essa situação. Ao mesmo tempo, existe uma pressão muito grande sobre essas mulheres para que elas enviem dinheiro para casa. Algumas até perdem o contato quando não conseguem mandar o suficiente", descreve.

Uma grande surpresa para Carine no seu trabalho com as prostitutas brasileiras foi descobrir os códigos sociais que imperam no meio. Em primeiro lugar, o silêncio velado das famílias no Brasil. "Elas não falam abertamente sobre o que seus parentes estão fazendo na Suíça, mas eles sabem do que se trata, e dependem, muitas vezes, desse dinheiro", diz.

Acreditar que as brasileiras associam sua situação pessoal a aviltamento, desonra ou rebaixamento também é errôneo. "O status da prostituta é muito ambíguo: se por um lado elas têm vergonha do que fazem, por outro consideram que estão exercendo um trabalho como outro qualquer e que são profissionais no que fazem. A prostituição é uma estratégia para alcançar seus objetivos", sintetiza Carine.

Segundo ela, pessoas com as mais variadas profissões vêm a Lausanne tentar sua sorte nas ruas. "Já encontrei pessoas bem humildes, mas também outras com profissão definida, como uma cabeleireira e até mesmo uma advogada", recorda-se. A idéia de todas é economizar dinheiro e retornar ao Brasil para montar um negócio próprio.

Carine concluiu sua tese e está com o diploma embaixo do braço. Algumas associações de brasileiros na Suíça têm convidado a jovem para dar palestras e explicar o que descobriu ao escrever A difícil vida fácil. Assim, ela agora trabalha como colaboradora científica na Universidade de Lausanne e também no escritório de igualdade de sexos. Sua meta é prosseguir os estudos e obter um Mestrado. O tema não seria diferente: "Se possível, gostaria agora de entender como as trabalhadores do sexo brasileiras vivem a sua situação de mães e como é o relacionamento com seus filhos", antecipa.

Entre a vida profissional e a pessoal, Carine ainda encontra tempo para passar as madrugadas no ônibus da ONG Fleur de Pavé. Com sua experiência, a cientista social cultiva a impressão de ter descoberto o que motiva tantas compatriotas a permanecerem nas ruas de Lausanne, uma constatação que tem também algo de trágico. "A grande conclusão do trabalho é que, acima de tudo, elas não são vítimas, mas pessoas que têm um projeto de vida e fazem tudo para alcançá-lo. A estratégia que elas elaboraram para isso foi entrar na prostituição e emigrar", finaliza.


*por Alexander Thoele para o portal Swissinfo (texto e imagens)
www.swissinfo.org/por/swissinfo.html

SAIBA MAIS
www.iswface.org/sexworkerorgs.html

28 junho 2008

CRÔNICAS DA CIDADE

A bailarina da fé




Conheci Renata em 1992, quando ela passava férias em Fortaleza. Fiquei encantado com aquela sagitariana bonita, graciosa e de gênio forte e logo estávamos namorando. Ela era uma pessoa alegre e reluzente mas o que me encantou mesmo foi a firmeza de sua fé, fé em seus ideais, em sua arte, em seguir seu caminho verdadeiro. Uma fé inabalável na vida.

Renata seguiu seu caminho com muita coragem. Ainda adolescente, pegou suas sapatilhas e se mandou, deixando sua terra e sua família, foi sozinha pro Rio de Janeiro viver sua arte bailarina. Era muito nova mas já parecia intuir que, por mais difícil que seja o caminho, mais difícil será sempre a frustração de não haver tentado.

Ela tentou. Morava num quarto-e-sala pequenino no Catete, dividindo dificuldades, alegrias e esperanças com outra amiga bailarina, enquanto seguia seu aprendizado na academia de dança, sonhando com os palcos e a carreira de atriz. Durante meses nosso namoro se segurou entre cartas, telefonemas e as idas e vindas entre as duas cidades. Durante esse tempo tive o privilégio de conviver com seus sonhos e aprendi bastante com a força de sua fé.

Uma noite, quando já havíamos terminado o namoro e vivíamos aquele clima de volta-não-volta, ela me ligou chamando pra ir se divertir na Praia de Iracema. Renata curtia novamente suas férias em Fortaleza, com toda aquela energia de uma garota de 20 anos. Mas era uma segunda-feira, eu tinha muito trabalho no dia seguinte, e respondi que não podia, mas que no outro dia nos veríamos.

Não houve outro dia. De manhã cedo acordei com a notícia de que Renata estava morta, fôra assassinada por um desses dementes que andam armados por aí e que acham que podem resolver tudo na base da bala.

Já se foram 15 anos. Pra nós, a família e os amigos de Renata Maria Braga de Carvalho, sua ausência é uma sensação diária de estar amputado. Uma dor sem qualquer remédio possível, como se faltasse uma parte da alma. Mataram Renata e nos condenaram à pena perpétua dessa dor.

O assassino, porém, continua solto e faceiro por aí. Sua família, de Brasília, soube educá-lo com dinheiro, carro importado e um revólver, muito útil pra discussões no trânsito. Como ele, há muitos outros Wladimir Lopes Magalhães Porto aí pelas ruas, todos clientes da impunidade -- esta senhora discreta e eficiente, que tão bem serve aos que lhe fazem as honras no escurinho dos escritórios e gabinetes.

De todas as violências, a impunidade é a maior. Se queremos uma sociedade mais justa e mais pacífica, não podemos ser complacentes com essa senhora! É preciso não se conformar e protestar, denunciar, chamar a imprensa, o bispo, a corte internacional! Embora às vezes, eu admito, nos dê um desânimo danado, parece que estamos nadando, nadando e não saímos do lugar. E a impunidade ali, zombando dos nossos esforços...

Nesses momentos, então, eu me lembro da família de Renata e de todas as outras famílias vítimas da violência e da impunidade, todas elas lutando por justiça. E aí não posso desanimar, tenho que fazer a minha parte, uma pequena parte, é verdade, afinal sou apenas um escritor.

Mas se as palavras servem, infelizmente, pra deixar impunes os criminosos, servem também pra manter acesa a fé das pessoas num mundo melhor. A mesma fé que Renata tinha na vida.


*O escritor e roteirista cearense Ricardo Kelmer hoje mora em São Paulo


24 junho 2008

BOM DEMAIS

Quinta musical 19/06...



O guitarrista e violonista Fabrício Scaff acompanha a cantora Caliandra Paim em momentos clássicos e contemporâneos da música brasileira, no Happy Hour Bom Demais, em show que revive compositores como Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Os intérpretes também passeiam por composições de Rita Lee, Lenine, Djavan e Marina, entre outros. Scaff estudou na ULM-Universidade Livre de Música Tom Jobim, em São Paulo/SP, com o maestro Waltel Branco e com o conceituado guitarrista Olmir Stocker.

Em 2003, participou do grupo Aura Tropical, com quem gravou e produziu CD lançado no Brasil e na Itália. Também em São Paulo/SP, atuou nos grupos instrumentais Blue Bossa e Big-Band Swinging Sounds.

Recém-chegado à Capital Federal, Scaff vem se destacando em apresentações nos bares da cidade, cafés e restaurantes. Além disso, atua como monitor em aulas de prática de conjunto na EMB-Escola de Música de Brasília.

Caliandra Paim estudou piano erudito e atualmente é aluna de canto popular na EMB-Escola de Música de Brasília, com professores como Maria de Barros, Myrlla Muniz e Alysson Takaki.


PARA CONFERIR
Fabrício Scaff e Caliandra Paim apresentam Clássicos e Contemporâneos da MPB
Happy Hour Bom Demais
Na quinta-feira, de 18h às 21h
Couvert artístico: R$ 8,00


O Bistrô Bom Demais fica no CCBB Centro Cultural Banco do Brasil – Brasília/DF
SCES, Trecho 2, Conjunto 22 - Térreo (em frente ao Clube de Golfe)
Reservas e informações: (61) 3310-9478 e (61) 8402-7438

19 junho 2008

SACI PRA MASCOTE

Brasil 2014


Começa a circular entre os "saciólogos" uma campanha para lançar o saci-pererê como símbolo da Copa do Mundo de 2014, quando o evento acontecerá no Brasil. A idéia visa, com isso, divulgar para todo o planeta a imagem do mais expressivo mito nacional e, assim, provocar o interesse de povos do mundo inteiro sobre a cultura popular brasileira.

Tudo começou como tudo que é bom começa: conversa vai, conversa vem e o jornalista mineiro Mouzar Benedito comenta em uma reunião da Sociedade dos Observadores de Saci — a SOSACI —, que certamente os marqueteiros inventarão um mascote besta para a Copa, a exemplo do já esquecido "Cauê" dos Jogos Panamericanos.

A observação foi suficiente para dar o apito inicial da campanha. Não é preciso esperar quem vai em uma perna e volta na outra para saber que o saci é uma síntese do povo brasileiro, de domínio público, conhecido em todo o território nacional, brincalhão, gozador e que gosta de dar alguns sustos também.

O saci é um ser fantástico das matas que foi colocado no terreiro das crenças indígenas, amamentado pelas mães-pretas e coroado com o gorro da liberdade trazido pelos imigrantes. Mouzar diz com irreverência sacizística que até nas comemorações do Centenário da Imigração Japonesa tem aparecido Saci de olhinhos puxados, respondendo pelo nome de "Sashimi"...

O escritor santista José Roberto Torero gostou tanto da idéia do saci como mascote para a Copa de 2014 que fez logo um texto para o caderno de esportes da Folha de S. Paulo (10/6/2008) defendendo o danisco, por sua força de simbolizar o Brasil e de permanecer na memória dos torcedores, como algo originário da cultura brasileira. Torero convoca seus leitores a se unirem nessa cruzada de vivas ao saci.

Tomando o entusiasmo de Mouzar e de Torero, também para mim entro aos pulos e assobios nessa campanha de fortalecimento dos valores positivos da brasilidade. O saci é uma figura rica em variantes e, por isso, mesmo correndo o risco de ter sua imagem massificada como mascote, a consistência do seu composto simbólico dará sempre para combinar com os modos locais de interação com o seu significado.

Por estar lastreada em atributos extraordinários de estado puro e amalgamada por materiais sensíveis da miscigenação, a intensificação da popularização do Saci é um meio de informarmos para nós e para o mundo que nos reconhecemos em nosso imaginário. Como mascote, ele estará além dos tradicionais bonequinhos, normalmente destituídos de alma coletiva pelas referências lógicas comerciais.

Precisamos ver a Copa do Mundo como o grande evento desportivo que ela é, mas precisamos encará-la também como plataforma de canal invertido de transmissão cultural. Temos poucas chances de enviar para o mundo algo das nossas manifestações autênticas — e esta será uma delas. O mascote do saci servirá de êmulo no contrafluxo simbólico a tudo o que apenas recebemos no cenário de assimetria das relações culturais internacionais.

O saci tem a vantagem de ser um denominador comum para crianças e adultos. Chamá-lo a participar do jogo é um ganho para a memória nacional e uma elevação de ânimos da brasileirice. Fico imaginando-o com a bandeira brasileira no coração, no gorro, com a faixa verde-amarela de capitão, rodopiando em pequenas hastes dos camelôs à venda nas entradas dos estádios...

Mas fico imaginando mesmo é o desenho-animado do mascote Saci, em dribles mágicos com sua perna invisível. Sei que em um primeiro momento muita gente deve se perguntar que sentido faz um personagem que "só tem uma perna" ser o símbolo de uma Copa de Futebol, esporte fundamentado na habilidade humana de conduzir a bola com os pés até atingir o gol do adversário.

Engana-se quem pensar que o saci só tem uma perna. Quando ele era apenas uma lenda indígena, ele tinha duas patas. Depois foi que surgiu a história de que ele era um menino-escravo que preferiu perder uma perna a ficar preso aos grilhões das senzalas. Mas a perna arrancada na fuga do saci nunca foi encontrada, não há vestígios dela. Por isso, prefiro acreditar que ela ficou encantada: tão encantada que nem rastro deixa por onde passa.

Gostaria muito de saber explicar melhor o que chamo de perna invisível do saci, a perna invisível da cultura brasileira. Ela está nos passos de frevo, nos lances de capoeira e nos dribles dos grandes craques de futebol. O Dener dizia que um drible é mais importante do que um gol. De Garrincha a Ronaldinho Gaúcho, a perna encantada do saci pode ter sido a responsável por tantas jogadas desconcertantes na história do nosso futebol.

A gente praticamente não vê como ela ludibria os adversários em manifestações estéticas de grande emoção. É, sem dúvida, uma representação da alegria do futebol. Quando o Rivelino derrubava o adversário com uma rápida e invisível passagem de perna sobre a bola, ele estava fazendo as vezes de saci. Exemplos da atuação dessa incrível perna invisível estão aos montes na história de Pelé, Tostão, Sócrates, Romário, Denílson e nas pedaladas de Robinho.

No plano político, a perna invisível do saci-pererê é uma ótima alternativa à mão invisível do mercado. Ela representa a popularização do auto-pronunciamento das forças das culturas regionais, diante do poder destrutivo da lógica instrumental da economia, da idolatria da técnica e da redução de Deus à condição de objeto no comércio da fé.

Essa história de mão invisível do mercado vem do tempo da Revolução Industrial, quando o pensador escocês Adam Smith (1723 – 1790) criou os fundamentos do liberalismo. Ele partiu do pressuposto de que o ser humano é antes de tudo um egoísta, para chegar à tese de que a soma das defesas das vantagens econômicas individuais levaria ao bem comum.

Na segunda metade do século passado, a lógica de Smith ganhou novos contornos, com o neoliberalismo reduzindo a noção do bem comum ao extremo usufruto dos poucos que conseguissem ser competitivos o suficiente ao ponto de eliminar os mais lentos e os mais fracos. Com isso, chegamos a uma situação insuportável nas relações humanas — e a uma condição insustentável no que se refere à preservação da natureza.

A escolha do saci como mascote para a Copa do Mundo no Brasil tem um ar de respeito à vida, ao meio ambiente e à diversidade cultural, por meio do que temos de mais humanamente distinto, que é o nosso imaginário. É como se o saci fizesse frente aos mascotes virtuais que têm sido induzidos aos cuidados infantis, como se fossem seres vivos de verdade, como se expressassem sentimentos e necessitassem de afeto para sobreviver.

De tanto propalar os benefícios da "saciologia" já fui questionado por leitores se não seria o caso de pensarmos em um herói menos mutilado e mais viril, menos marginal e mais vencedor, para utilizar como modelo brasileiro de busca da excelência nacional (como é o caso do Super-Homem, do Capitão América, do Homem de Ferro e de outros super-heróis das histórias em quadrinhos), criados como esforço de comunicação de supremacia.

O saci é um anti-herói. Está mais próximo do Osaín, mito iorubá que brotou da terra com a vegetação e teve seu corpo partido pela metade por um raio inimigo. A diferença é que, enquanto Osaín prepara as ervas e a água medicinal para as cerimônias de comunicação humana com os orixás, o saci aproveita os ventos contrários para sair redemoinhando a sempre surpreendente ligação da cultura com a natureza. Com o Saci de mascote na Copa de 2014, mais do que um duende libertário daremos ao mundo uma prova de grandeza e de soberania cultural.

*O cearense Flávio Paiva é jornalista e escritor


(Imagens: o Pererê do Ziraldo bate um bolão nos quadrinhos desde meados da década de 1960. Agora, em qual time ele joga... Já quem trouxe o saci à boca — e à lembrança — do povo foi o escritor Monteiro Lobato)


www.flaviopaiva.com.br

http://coisasdesaci.wordpress.com/2006/09/14/22-de-agosto-dia-do-folclore

16 junho 2008

AUTOCONFIANÇA

Mitos da sedução


Para quem passou o Dia dos Namorados sozinho(a), talvez seja a hora de rever certos conceitos como "O melhor é virar amigo primeiro" ou "Para conseguir mulher bonita só sendo bonito ou rico". Muitas pessoas repetem estas e outras frases como um mantra durante a conquista.

Mas será que esse é o melhor caminho? Segundo os palestrantes Plínio de Souza e Armando Moucachen, que ministram o curso Sedução e auto-estima, tais frases podem destruir qualquer chance de relacionamento. Por isso, a dica é evitar pensamentos como: "O negócio é ser o bonzão, ter razão em tudo"; "As pessoas têm que gostar do jeito que eu sou"; "Ser bonzinho e fazer tudo o que o Outro quiser garantirá que ele te queira"; "Se mostrar respeitável ocultando o seu interesse sexual facilita que o outro te queira."

“O sucesso na sedução depende da autoconfiança e das estratégias usadas no processo, que podem ser desenvolvidas por meio de Programação Neurolingüística, Hipnose Ericksoniana, Psicanálise e da Linguagem Corporal”, explica Plínio de Souza, psicólogo, ator, sócio da Ápice Desenvolvimento Humano e palestrante.

Segundo Armando Moucachen, consultor pessoal em Programação Neurolinguística, ator e palestrante, quanto mais se entende as regras do jogo, mais há chances de conquistar quem se deseja. “Após o curso Sedução e auto-estima, os participantes compreendem como as pessoas reagem e lidam umas com as outras durante processos eficientes de sedução, aumentando sua percepção, identificando com mais facilidade o momento certo para agir e elegendo estratégias para seduzir diferentes tipos de pessoas em diferentes contextos”, completa.

O curso Sedução e auto-estima, ministrado pelos consultores da Ápice Desenvolvimento Humano, terá início em São Paulo/SP no dia 16 de junho para as mulheres e no dia 18 de junho para os homens. Durante um período de 2 meses, os participantes terão aulas práticas e, em muitos momentos, os grupos de mulheres e homens terão aulas em conjunto.

A Ápice Desenvolvimento Humano, empresa criada pelos sócios Plínio de Souza e Renata Gobbi, é focada em mudanças comportamentais breves e oferece às pessoas produtos e serviços como: Consultoria Pessoal em Programação Neurolingüística (PNL), Coaching de Vida, Formação em PNL, Workshops e Seminários – Saúde Financeira, Desinibição Intensiva, Desestruturando a Obesidade, Desmistificando a Sedução etc.

Para as empresas, os principais produtos e serviços incluem Coaching Executivo, Consultoria em Treinamento e Desenvolvimento Humano e palestras in company com os temas: Competência Emocional, Sucesso em Vendas com PNL, Administração do Estresse e Qualidade de Vida, Educação Financeira, entre outros.


PALESTRANTES
Plínio de Souza é ator profissional, consultor pessoal e empresarial, terapeuta, trainer em Programação Neurolinguística, Bacharel em Psicologia, hipnólogo, coach, formado em Constelação Familiar e Terapia da Linha do Tempo e Armando Moucachen é ator profissional, consultor pessoal e empresarial, Master em Programação Neurolinguística, Especialista em Psicanálise, com formação em Hipnose Ericksoniana, físico formado pela USP.


SAIBA MAIS
Ápice Desenvolvimento Humano
Tel.: (11) 3284-2651

10 junho 2008

AFIRMAR OU NEGAR?

Eu sabe que vai te amar


"Quando um homem cria um mundo próprio, transforma-se
num corpo estranho contra o qual se voltam todas as leis:
a gravidade, a compreensão, a rejeição, o aniquilamento."
(Joseph Brodsky)


Eu se questiona, se debate. Melancólico e fragilizado, Eu vê-se perdido — de amor e rejeição pela cidade que o abriga. Perdão, se compreensivos leitores, perdão...

Se Eu muitas vezes insiste em definhar o senso de alegria, transformando a vida numa alegoria infeliz, perversa, alterada, denegada, saberia Eu que, a reboque desta estratégia paranóica, a felicidade ousa se excluir, despistando mesmo o que de mais real existe em sua vida (ou seja, o torto amor pelo lugar que o atura)?

Do mesmo lado dessa dúvida, uma constatação criva-se no âmago da insensatez: Eu seria apenas os fragmentos de um espelho quebrado, a refletir as várias faces do que podemos ou pudemos ser. Tanto vário ou uno, Eu é apenas a sobra do que se imagina — ou, quem sabe, a reprodução dos tantos espalhados por aí.

Sem pestanejar, estas idéias foram se instalando no pensamento de Eu. E qual teria sido a razão propulsora dessa contundência, desse bom ferimento da alma? Simples: nada mais, nada menos que a surpreendente franqueza do jornalista Marcos Sá em diversa manhã etílica, no Raimundo El Tricolor. Retrucou ele que Eu não seria mais quem ele pensa ser: Eu tornara-se um anônimo multiplicado pelas memórias de quem o esbarrasse. E pronto. Xeque-mate.

Por conta disso, Eu, perdido, largou-se em sua rede cor-de-vinho, enrolou-se nas franjas e deixou-se estar, paralisado. O mundo pareceu momentaneamente fechar-se para que somente duas preciosas pérolas passassem a incrustar-se em seu pensamento...

Primeira pérola: por que Eu não aceita o espaço a seu redor? Por que não se deixa apaixonar por essa Fortaleza de tantos vislumbres, de tantos escombros; de tantos alumbramentos, de tantos sustos; de tantos belos delírios, de tantos estranhos pesadelos...? Antítese da realidade, dialética ao vento, Eu bem que poderia aceitar os burgueses maquiados, mascarados, ou a surpreendente ignorância mágica dos desconhecidos do povo, uma vez que todos apenas representam uma maneira de ser e estar no mundo.

Da mesma forma, Eu bem que poderia conviver e assimilar o desregramento de uma juventude em busca de suas verdadeiras aparências, jogadas nas coxias dos shoppings ou das lojas de conveniência ou nas esquinas perdidas, ou aceitar simplesmente a superficialidade dos grupinhos a deflorar a bondade do mundo.

Fortaleza tosca que Eu deve encarar, mas tanto grotesca quanto a sua própria identidade a caminhar intranqüilamente pelos lugares do Centro, da Aldeota, da Barra do Ceará, do Antônio Bezerra, do Siqueira e de alhures. Eu se desafiaria... assim, Eu se desfiaria...

Segunda pérola: por qual motivo Eu mostra-se tão tenso diante de si próprio — invadindo a dor, a angústia e o silêncio? Por qual motivo se identifica com o resto do mundo e se multiplica, quanto mais se individualiza?

Eu está mesmo reproduzido em todos os lugares: nas ruínas da praça 31 de Março, nos deslimites do Morro Santa Terezinha, nos labirintos do Conjunto Ceará, nas ruelas do Bairro Ellery. Privado de qualquer sensatez, Eu confronta-se nos deslimites da incerteza. É apenas a sombra de uma linha fina a insistir em tentativas de passar pela fenda de uma agulha, ansioso por coser a história dos lugares.

Assim, antes de aceitar qualquer amor pelo lugar onde vive e a multiplicidade de tantos encontros e desencontros consigo mesmo e com as verdadeiras personagens de sua história, Eu carrega o silêncio nos ombros. E a Fortaleza que se avoluma o assusta, mesmo resgatando sentimentos diversos. Eu balança-se na rede cor-de-vinho.

Uma brisa brisa. A canção soa. No céu, um pássaro rodopia e pousa na antena parabólica no alto do edifício ao lado. A tarde tarda. Talvez seja impróprio inventar o mundo, reinventar a identidade, ou até mesmo meditar. Certo ou errado, a única opção viável é aparentar frieza. Fugir da toca, rasgar o peito e deixar à vista o coração fragilizado, mostrar-se arrependido ou exposto ao que possa confundir-se com o supostamente ridículo.

Afinal, o lugar é este, Fortaleza, e Eu é apenas uma conseqüência humana. Dizer, pois, que amar é mais que uma simples palavra, é falsear a verdade. Por qual motivo, então, não expressar somente seu amor pela cidade que o acolheu? Eu se desafiaria... assim, Eu se desfiaria?


*Jorge Pieiro, um menor que Eu... é escritor e editor da revista Caos Portátil


A imagem acima (go get your English dictionary): Allegorical Portrait of an Artist, painting from about 1680-85 attributed to Michiel van Musscher (Dutch, 1645-1705) but also known (or mistaken by) as Vermeer's Lost Self-Portrait. Comments include: "Seated before fruits and flowers, the raw material that her skill transforms into art, the skill and reputation of this female painter is trumpeted by the figure of Fame who appears overhead. At the same time, a cherub crowns her with a laurel wreath, symbol of victory. Attributes of the liberal arts rest on the table beside her, while in the background stands a statue of Minerva, the mythological patroness of the arts. The identity of the painter is unknown, and even the recent discovery of the flower still life sitting on the easel has done little to solve this mystery. Interestingly, The Netherlands, unlike most of Europe in the seventeenth century, could boast of a number of successful and innovative female artists."



LOAS AO COLUNISTA
jorgepieiro@secrel.com.br

27 maio 2008

DO JAPÃO AO BRASIL

Contrato avalizou viagem



No Japão, os eventos que marcaram o início das comemorações relativas ao Centenário da imigração japonesa ao Brasil não tiveram o grande apelo popular visto nas cerimônias promovidas em nosso País, restringindo-se à realização de discursos e à promoção de coquetéis para as autoridades. Nas cidades Tóquio e Kobe, fizeram-se presentes membros da família imperial e do governo japonês. Menos de 400 pessoas participaram do coquetel presidido pelo príncipe-herdeiro Naruhito em Kobe — de onde partiu há 100 anos o navio Kasato-Maru, que trouxe até Santos os primeiros 781 imigrantes japoneses.

Assim, o dia 18 de junho celebrou o Centenário da imigração japonesa no Brasil. A saga nipo-brasileira começou no início do século passado, quando a nossa república — recente e contando apenas 20 anos da abolição de seus escravos — adotava uma economia fortemente agropastoril, necessitando de mão-de-obra barata para as lavouras. Os imigrantes europeus, não adaptados à lida extensiva nos campos, buscavam outros meios de subsistência.

O Japão, por sua vez, experimentava forte explosão populacional com sua economia em recessão, devido à passagem da economia feudal para a capitalista. Mais ainda, os nipônicos não tinham espaço nos Estados Unidos, Europa e Austrália, que proibiam a imigração. O Brasil despontou como solução, e um acordo entre os dois países celebrado em 1895 — o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação — autorizou a viagem dos imigrantes japoneses. Saindo do porto de Kobe a bordo do vapor Kasato-Maru, no dia 18 de junho de 1908 aportou em Santos (SP - foto) a primeira leva organizada de trabalhadores do país do Sol Nascente, contando 781 pessoas, após uma viagem de 52 dias.

Em 6 de novembro de 1907, o governo de São Paulo firmou contrato com a Empire Emigration Company (Kokoku Shokumin Kaisha), estipulando que seriam introduzidos três mil agricultores, em levas não superiores a mil pessoas. Poderiam vir pedreiros, carpinteiros e ferreiros em número não superior a 5% do total. Para a maioria dos imigrantes japoneses, a vida no Brasil começou nas fazendas, colhendo e cuidando dos pés de café que nem imaginavam existir. Apanhar, peneirar, capinar — a rotina dessa faina ia sendo aprendida por eles. O problema era na hora de acertar as contas: na caderneta, as despesas sempre eram maiores que o saldo.

Nos primeiros 10 anos, a imigração foi tímida: 15 mil pioneiros japoneses chegaram ao País, cheios de esperança e sonhos de prosperidade, num País de costumes, língua, clima e tradições completamente diferentes. O número aumentou consideravelmente com a Primeira Guerra Mundial (1914-1818), chegando ao ápice em 1940, quando cerca de 160 mil japoneses chegaram a São Paulo, Paraná, Amazonas, Pará e Espírito Santo.

A língua, os costumes e o preconceito foram as principais barreiras à integração dos japoneses no Brasil. Muitas famílias tentaram voltar ao Japão, mas o contrato de trabalho com os fazendeiros previa normas que impediam sua rescisão. O período mais difícil desta adaptação ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): o Brasil entrou no conflito junto aos aliados, declarando guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A imigração japonesa foi proibida e seus descendentes prejudicados por vários atos governamentais — não podiam usar seu idioma nem manifestar costumes culturais ou religiosos.

Com o fim do conflito, os atos foram desfeitos e a imigração voltou a crescer. Os japoneses diversificaram suas áreas de atuação para a indústria, comércio e serviços. Atualmente, o Brasil é o país com a maior quantidade de japoneses fora do Japão: a comunidade nipo-brasileira conta mais de 1,5 milhão de indivíduos, segundo o Centro de Estudos Nipo-Brasileiros em São Paulo (SP). Atualmente, 75% destes descendentes estão concentrados naquele Estado, 15% no Sul do Brasil e os 10% restantes em outros Estados da Federação.

Os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão denominam-se nikkei, sendo os filhos nissei, os netos sansei, os bisnetos yonsei e os nipo-brasileiros que foram trabalhar no Japão a partir do fim dos anos 80 são chamados dekasseguis. Estima-se que, hoje, 10 % dos brasileiros filhos e netos de japoneses saibam falar o idioma japonês. Também é cada vez mais comum o casamento fora da colônia japonesa e, atualmente, cerca de 30% dos nipo-brasileiros são filhos de um relacionamento entre um japonês e um não-japonês.


CEARÁ DE OLHOS PUXADOS
No dia 16 de maio de 1960 chegaram ao Ceará os primeiros imigrantes japoneses. Eram 43 pessoas que pertenciam a uma família oriunda da província de Kagoshima e a mais outras 9 de Nagano, que atraíram a atenção dos moradores da cidade de Guaiúba (Região Metropolitana de Fortaleza) ao desembarcarem na estação ferroviária local.

O grupo partira também de Kobe, no navio Santos-Maru, tendo viajado por 43 dias até chegar a Recife (PE). Após uma noite de descanso, o caminho foi retomado em um trem. O destino era definido: a fazenda São Jerônimo, depois renomeada como Colônia Pio XII, instalada na área adquirida pelo INIC-Instituto Nacional de Imigração e Colonização, órgão governamental que promoveu o traslado e o assentamento dos nipônicos para um projeto agrícola em terras do Brasil.

A vinda dos japoneses foi acertada quando a JICA-Japan International Cooperation Agency, baseada no Rio de Janeiro, solicitou de suas sedes localizadas em províncias do Japão a convocação de agricultores daquele país para o cultivo de frutas e verduras no Ceará, com o aval do governo federal. Inicialmente destinando sua produção ao mercado de Fortaleza, a seguir a comunidade deveria difundir aos cearenses as técnicas agrícolas empregadas.

Muito em breve tornaram-se disponíveis a melancia e o melão resultantes das primeiras tentativas de aclimatação, ambos de excelente qualidade e até o presente ainda cultivados em Guaiúba. A obtenção de sementes selecionadas destes e de outros frutos, bem como de pepino, pimentão e abóbora é creditada a Shinzo Ohama, representante da igreja japonesa Tenrikyô (Ensinamento da Razão Divina), já então radicado no Brasil. Seu apoio foi essencial para a adaptação daquela colônia de imigrantes e para a evolução do seu experimento agrícola, que desenvolveu variedades de verduras e frutas muito bem aceitas pelo mercado.

Ao completar 48 anos de existência, a colônia hoje compõe-se de apenas três famílias, cujos isseis (imigrantes de primeira geração) encontram-se na Terceira Idade. Estas pessoas foram homenageadas com o respeitoso título subarashi (“magnífico”, “esplêndido”, “grandioso”), em referência à sua capacidade de superação — demonstrada desde a mudança da terra natal até à conquista das barreiras representadas pelo clima, pela cultura, pelos costumes e pelo idioma encontrados.

Segundo Yuka Ito, do Curso de Mestrado em Lingüística Aplicada da UECE-Universidade Estadual do Ceará, os atuais representantes destas três famílias em Guaiúba são os senhores Koichi Fijiwara, Daisuke Tsuchiya e Motoyuki Okura, homenageados junto aos seus conterrâneos que vivem no Estado com a entrega de placas comemorativas pelo Centenário da Imigração Japonesa no Plenário 13 de Maio da Assembléia Legislativa, no último dia 7, pelos esforços e contribuições prestados à sociedade brasileira.


ENTRE OS PIONEIROS
Conforme estima o Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará, há cerca de 2 mil nikkeis no Estado, espalhados principalmente em Fortaleza, Cascavel e Guaiúba, com 500 famílias cadastradas na entidade. Criado em 1971 e inoperante durante 10 anos, o instituto foi reativado em 2006 por iniciativa dos nikkeis cearenses e voltou a promover encontros comunitários e a incentivar ações ligadas à tradição japonesa (como o evento Lanternas pela Paz, realizado anualmente no Ceará, reunindo os nikkeis locais e fortalecendo os laços entre os dois países, e o apoio dado ao curso de Língua Japonesa do Núcleo de Línguas da UECE-Universidade Estadual do Ceará). O empresário da construção civil João Batista Fujita é o atual presidente do instituto.

Jusaku Fujita, o pai de João Batista, chegou ao Ceará em 1923. Rebatizado como Francisco Guilherme Fujita, antes de se estabelecer definitivamente em Fortaleza ele viveu no Peru, no Chile e na Bolívia. Depois de passar por Crateús, ao chegar à capital cearense o imigrante fixou residência na Moitinga (hoje Maraponga), onde ocupou-se da horticultura e seu comércio numa banca do Mercado Central. O clã Fujita emergiu do casamento de Jusaku com a cearense Cosma Moreira (alcunhada Neném). Da união nasceram 14 filhos (apenas seis chegaram à idade adulta): Luzia (dentista), Edmar (médico, já falecido), Francisco (dentista, já falecido), João Batista (empresário), Nisabro (engenheiro) e Maria José (professora). Hoje, os Fujita somam cerca de 50 integrantes, entre filhos, netos e bisnetos.


100 ANOS
No último dia 6, o presidente do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará João Batista Fujita deu início, ao lado do cônsul-geral do Japão no Brasil, Toshio Watanabe, às comemorações locais do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil.

João e sua esposa Rejane anfitrionaram 200 convidados no buffet La Maison Dunas, na Praia do Futuro em Fortaleza. Do menu — assinado pelo chef Élcio Nagano, do premiado Kingyo Restaurant — constaram (como entradas) minisushis especiais com ovas de masago (capelin), harumaki (rolinhos de alga kombu) recheados com carne bovina, acompanhados de cogumelos shiitake e nasu (beringela japonesa) e (como prato principal) Yakissakana Sirigado (sirigado grelhado) ao molho sumiso de maracujá, acompanhado de Yakimeshi (arroz) de cogumelos shimeji. Como sobremesa, Nagano criou a Sunrise (“sol nascente”, em homenagem aos seus ancestrais): salada de frutas (kiwi, lichia, morango, manga e mamão) com gelatinas kanten (de algas e saquê), acompanhada por sorvete (de creme e baunilha) e espetinho quente de harumaki (rolinho Primavera) de maçã, cortada bem fininho. Foi tal o sucesso da sobremesa que ela já integra o cardápio do Kingyo.

No restaurante também pode-se degustar o bife de Kobe, exótico e caro, que demorou décadas para chegar ao Brasil. "A iguaria está entre as 10 mais exóticas do mundo", afirma Nagano, que é também o vice-presidente do Instituto Cultural Nipo-Brasileiro no Ceará. "Equipara-se ao foie gras, ao caviar, à trufa branca, entre outras raridades da culinária universal", complementa.

Em Kobe, no Japão, o bezerro da raça wagyu é criado em um ambiente cercado de cuidados e mordomias para evitar qualquer estresse, sendo alimentado à base de cevada e cerveja, para manter sua carne macia e suculenta. É massageado diariamente, o que estimula a migração das gorduras para dentro das fibras e, modernamente, até ouve música clássica. Lenda ou verdade, sua carne é reconhecida como a mais nobre do mundo: no Japão, uma refeição à base do bife de Kobe pode custar ao redor de R$ 350.

Nagano, que gosta muito de pesquisar e combinar tradição com inovação, inspirou-se para criar o Ishi Kobe, que serve fatias cruas de filé de Kobe, trazendo no prato uma pedra (de rio) aquecida que assa as finíssimas fatias de carne, que podem ser embebidas nos molhos teppan e sumiso, ao custo de R$ 29. A culinária japonesa é apreciada hoje no mundo inteiro por vários fatores, como o apelo à saúde: tem baixo colesterol nocivo, é rica em colesterol “bom”, saborosa, leve, refrescante e combina com o clima tropical. “No entanto, preparar sushis, por exemplo, requer cuidados e critérios higiênicos e de qualidade dos materiais e ingredientes que devem ser necessariamente observados”, aponta o chef do Kingyo.


TRANSCULTURALIDADES
Tokyo, Kyoto, Hiroshima, Otome Toge, Tsuwano e Nagasaki são as seis cidades japonesas pelas quais passou um grupo de brasileiros em peregrinação ao Japão.Os peregrinos da Pastoral Nipo-Brasileira (PANIB) viajaram entre os dias 27 de março e 10 de abril, numa iniciativa que integra os eventos do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Na programação, missas e palestras, numa promoção da Pastoral Nipo-Brasileira, ligada às Pastorais da Mobilidade Humana da CNBB-Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.

Enquanto isso, a atriz Daniele Suzuki — que interpreta a personagem Alice na novela Ciranda de Pedra da Rede Globo de televisão — foge aos estereótipos. Em entrevista, ela revela: “Não me olho no espelho e fico dizendo: ´Caraca, sou muito japonesa!´. Estou integrada ao meio, vou pra samba, pro forró, não me visto a caráter, não tenho uma cultura em casa, minha comida é arroz, feijão e farofa. Quando alguém me chama de ‘japa’, nem ligo, não é comigo”. Daniele confessa ainda ser uma garota de muita, muita fé: “No meu altar, ficam o jardim japonês, o gatinho, o Buda, uma imagem de Nossa Senhora, do Padre Cícero e do Dalai Lama. Quando o negócio aperta, corro pro meu Padim Ciço, Jesus Cristo e Nossa Senhora”, declara.

Na atualidade, palavras origem japonesa como saquê, sushi, sashimi, yakisoba (culinária), karate, ju-jitsu, ju-do (artes marciais), mangá, anime (histórias em quadrinhos e desenhos animados), Toshiba, Samsung, Sony (marcas de eletro-eletrônicos), Toyota, Honda e Suzuki (veículos), entre muitas outras, encontram-se fortemente incorporadas à cultura brasileira.

Nas últimas décadas, a penetração da influência nipônica no cotidiano das cidades brasileiras expandiu-se tanto que, em muitos casos, tornou-se modismo. É o que se passa, por exemplo, com a sua admirável culinária, que segue conquistando admiradores, seja pela harmonia dos arranjos de seus ingredientes, seja pela extrema sensibilidade e riqueza de detalhes com que são servidos e apresentados os pratos.As histórias em quadrinhos e os desenhos animados japoneses — mangás e animes —, granjeiam cada vez mais fãs no Brasil. O fato é notório em eventos que reúnem milhares de jovens apaixonados pelo Japão.

Em Fortaleza, o SANA FEST, promovido dias 19 e 20 de janeiro passado no Centro de Convenções Edson Queiroz, atraiu mais de 10 mil adolescentes. O evento abriu a seu modo, no Ceará, as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (1908-2008), realizando uma eliminatória do WCS-World Cosplay Summit (em que os fãs fantasiam-se de personagens) e anunciou atrações para o novo evento do gênero, a ser realizado em julho em Fortaleza.

Neste tipo de “celebração coletiva” a idolatria é acentuada e o “espírito da coisa” entre os jovens é vestir-se com cópias das roupas usadas pelos personagens de games, animes e mangás. Seus participantes denominam-se otakus — termo usado no Japão para designar quem é fanático por alguma temática qualquer, significando também pessoas gordas, rosadas, cheias de espinhas na cara (às vezes no corpo todo) e que vivem num “mundo paralelo”...

Em cena, dubladores de personagens de animações do cinema (como Rei Leão, Sailor Moon, Cavalo de Fogo), palestras sobre estes temas e sessões de autógrafos que reúnem centenas de otakus atentos às curiosidades do mundo da dublagem e com grandes expectativas de ouvir as frases ditas por seus personagens favoritos.

Junto às exibições, ocorreu a apresentação de trailers com as atrações internacionais deste ano (mostrando intérpretes de animesongs adorados como Pegasus Fantasy e Chikiugy) e no concurso de fantasias, Iara e Natália, ambas de 20 anos, saíram vencedoras como cosplayers de personagens do anime Sakura Card Captors. Por fim, os alunos de Japonês da UECE fizeram uma divertida apresentação de danças tradicionais. Além de tudo isso, os jovens presentes divertiram-se com bandas de j-music (como X-Metal, Akatsuki, Yakisoba) e animekê, games, card games e nas salas de exibição, como membros de uma tribo para quem tudo é virtual e uma grande brincadeira.

Em São Paulo, capital, foi eleita a Miss Centenário Brasil-Japão, em evento promovido no Ginásio do Ibirapuera. A cirurgiã-dentista e bancária Karina Eiko Nakahara, de 26 anos, estreante em concursos de beleza, foi a escolhida, disputando o título com cerca de outras 500 moças de vários Estados, depois de ser eleita Miss Centenário Alto Tietê (foto). Mato Grosso, Paraná e São Paulo, respectivamente, forneceram o maior número de participantes ao evento, devido à grande quantidade de imigrantes de ascendência nipônica nessas regiões.

Paulista e neta de japoneses, a morena de 1,76m e 56Kg teve o incentivo dos pais. “Eles viram o anúncio na televisão e falaram para eu me inscrever”, conta a miss — que, além do reconhecimento e do carro de cerca de R$ 35 mil que ganhou, que fazer um pouco mais para que sua comunidade receba ainda mais carinho dos demais brasileiros.

Conciliando seus empregos com os novos compromissos, Karina reflete a trajetória de seus antecessores: depois daqueles primeiros 781 lavradores destinados às fazendas de café, os cerca de 230 mil japoneses de todas as idades que chegaram ao País até a década de 1950 pouco a pouco deixaram o campo em direção às cidades, sob o incentivo de interesses políticos, econômicos e culturais.

No ano passado, as exportações cearenses para o Japão alcançaram US$ 10,1 milhões. As importações, por sua vez, somaram US$ 9,7 milhões. No Brasil, as vendas para o mercado japonês chegaram a US$ 4,3 bilhões em 2007, enquanto as importações representaram US$ 4,6 bilhões, conforme o Centro de Negócios da FIEC-Federação das Indústrias do Estado do Ceará. Porém, estas relações comerciais têm um grande potencial de crescimento e podem envolver cifras ainda maiores. "Estamos falando de negócios em trilhões de dólares", afirmou o economista e professor Paulo Yokota em sua palestra sobre "O atual intercâmbio Brasil-Japão" proferida dia 14 passado, na sede da FIEC em Fortaleza.

Yokota, um ex-diretor do Banco Central, esteve recentemente no Japão e explica que há grande entusiasmo das autoridades e empresários daquele país com relação ao nosso. "A situação do Brasil melhorou muito. A economia melhorou, temos mais petróleo, somos a noiva do mundo", enfatiza. O Japão, segundo ele, é um bom pretendente, pois trabalha com contratos de longo prazo, financiamento barato e ainda compra a produção.

Entre os interesses do mercado japonês, o economista cita o etanol e os biocombustíveis. "O Japão precisa de energia, eles estão investindo nisso", revela. Segundo ele, o Japão está de olho também em tecnologias que dominamos, como a da exploração de petróleo em águas profundas e softwares (programas e sistemas) diversos, especialmente aqueles ligados à fabricação de aeronaves. "Nosso software já está entrando (no Japão). Eles são bons em hardware (máquinas), mas em software o Brasil é muito mais criativo", acredita.

Sucos de fruta, produtos orgânicos, artesanato, moda e design são também nichos apontados como de grande potencial de comércio com o Japão. Em todos os casos, no entanto, é preciso estar atento para que o mercado deseja e adequar os produtos a estas necessidades. "A mulher japonesa é diferente da brasileira na moda, por exemplo. Tem que produzir para o mercado", observa. Para conseguir espaço no comércio nipo-brasileiro, Yokota aconselha também que o empresariado busque atender aos padrões de exigência internacionais, por meio de certificações que atestem sua qualidade. "Aqui no Ceará, por exemplo, a participação ainda é muito modesta. Precisamos fazer um controle de qualidade para entrar neste mercado, certificar os produtos", ensina.

Trabalhar exportação e importação é outro conselho dado pelo economista: assim fica mais fácil compensar as flutuações da moeda americana. A palestra de Paulo Yokota fez parte das comemorações ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil e foi promovida pela FIEC, junto ao Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará.


COMISSÃO NACIONAL
O Centenário da Imigração Japonesa está sendo comemorado com diversos eventos País afora. No âmbito nacional, foi instalada a Comissão Nacional Organizadora das Comemorações. Para executar a tarefa, sete grupos de trabalho foram formados: 1) agricultura; 2) energia e desenvolvimento sustentável; 3) oportunidades de comércio; 4) comunidade brasileira no Japão; 5) comunicação, logística e meios; 6) cultura, turismo e esporte; e 7) educação e ciência.

O Brasil e o Japão atualmente têm diversos interesses em comum, como a conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a associação no processo da TV digital e o comércio bilateral. Em 2006, as exportações brasileiras para o mercado japonês somaram US$ 3,884 bilhões e as importações US$ 3,839 bilhões.Estão presentes no Brasil mais de 200 companhias japonesas. Recentemente houve novos investimentos importantes na área de siderurgia, como na Usiminas e também na Cenibra, na área de celulose. Toyota e Honda ampliam suas fábricas no Brasil. Os investimentos estão crescendo.


PROGRAMAÇÃO
O Instituto Cultural Nipo-Brasileiro do Ceará desenvolve programação comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Junto a ela, seguem alguns eventos:

>> 31 de maio a 1.º de junhoTokyo 2008, exibição de animes, tokusatsus (séries filmadas como Godzilla, National Kid, Ultraman, Ultraseven, Spectreman, Jaspion, Changeman, Jiraiya etc.), j-dramas, Radio Tokyo.tube, j-clips, workshop de origami, para-para (dança japonesa popular solo), artes marciais, concursos e campeonatos de cosplay e Tokyo Cosplay Book, menino e menina Kawaii, animeknow, animekê, AMV (nível nacional), animequiz, Batalha Medieval, fan-art, roteiro, arena RPG, fotografia e desenho, Tokyogames (Nintendo wii, Playstation 2, Gamecube, fliperamas, Nintendo-DS (in-game) e bandas (Cry of Soul, Kakattekoi etc.), das 9h às 19h30 na Faculdade Marista Católica do Ceará (Av. Duque de Caxias, 101)

>> 10 de junho — palestra da pesquisadora Celina Midori Murasse Mizuta sobre A educação japonesa na Era Meiji (1868-1912), no auditório da UNIFOR-Universidade de Fortaleza;

>> 17 de junho — sessão solene na Câmara Municipal de Fortaleza em homenagem à Colônia Japonesa do Ceará, destacando a trajetória de Jusaku Fujita;

>> 18 de junho — o príncipe-herdeiro da coroa japonesa, Naruhito, de 48 anos, chega a Brasília após fazer escala em Nova York. A princesa Masako não acompanhará o marido na viagem, pois está em tratamento médico devido a um "transtorno adaptativo". Naruhito quer conhecer descendentes de japoneses que moram no Brasil e "ouvir o que eles têm a dizer, ver seu compromisso com a comunidade brasileira e as dificuldades que tiveram que enfrentar". O príncipe discursará em Brasília em ato comemorativo alusivo ao Centenário da Imigração Japonesa comandado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e depois se dirigirá a São Paulo, onde visitará memorial dos pioneiros japoneses. Naruhito já esteve no Brasil em 1982. Desta vez, ele também visitará Maringá (PR) e Rio de Janeiro (RJ) antes de retornar ao Japão no dia 27, após escala em Los Angeles (EUA). Na foto, Naruhito com as princesas Aiko e Masako.

>> junho (até o presente a data ainda não se confirmou) — lançamento da Pedra Fundamental da Praça Jardim Japonês na Beira Mar (na Volta da Jurema, em frente ao edifício Granville) pela Prefeitura de Fortaleza;

>> de 7 a 11 de julho — 8.ª SANA-SuperMostra Nacional de Animes

>> de 11 a 13 de julho — 1.º SANA Fashion by Sugai Cosplay, concurso Garota Yume, desfile Cosplay, apresentação de Cute Project (o evento atraiu milhares de adolescentes, identificados com o ideário dos otakus)


LIBERDADE EM SP
São Paulo é hoje a maior cidade japonesa fora do Japão: são mais de um milhão de japoneses e seus descendentes, já aclimatados à “Terra da Garoa”. O bairro da Liberdade é um tradicional bairro japonês, com restaurantes e comércios em geral ligados à cultura nipônica. A formação da primeira colônia japonesa na capital paulista teve início em 1912, em um aglomerado na ladeira íngreme onde passava um riacho e existia uma área de mangue, na rua Conde de Sarzedas.

O comércio começou a aflorar — primeiro uma hospedaria, depois um empório, docerias, agenciadoras de empregos —, formando assim a “rua dos japoneses”. Em 1915, foi fundada a Taisho Shogakko (Escola Primária Taisho), que ajudou na educação dos filhos dos imigrantes. Em 1932, eram 2 mil nipônicos em São Paulo.
Porém, no dia 6 de setembro de 1941, como conseqüência da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro decretou a expulsão dos japoneses residentes nas ruas Conde de Sarzedas e Estudantes. Somente em 1945, após a rendição do Japão, é que a situação voltou à normalidade na região.

Na década de 1960, a Liberdade passou a ser um local de visita obrigatória dos turistas e, na década de 1970, deixou de ser um reduto exclusivo dos japoneses: o bairro passou a ser procurado também por chineses e coreanos. Nas décadas de 1980 e 1990, as casas noturnas foram sendo substituídas por karaokês, a nova mania que tomava conta do Japão e do Brasil.


DE VOLTA À PÁTRIA
A palavra dekassegui nomeia o migrante que sai de sua terra natal para trabalhar, mas alimenta o desejo de retornar às suas origens. Este era o sentimento dos primeiros japoneses que aportaram no Brasil há 100 anos, mas a maioria jamais voltou. Na década de 1980, teve início o fenômeno inverso — a ida de nipo-brasileiros para a Terra do Sol Nascente, em busca de oportunidades de emprego. As razões foram bem parecidas com as que motivaram os japoneses a virem para o Brasil: o peso da questão econômica.

Naquela década, o Brasil experienciava uma hiperinflação e desemprego galopante. O Japão, por sua vez, oferecia milhares de empregos e altos salários e recrutava trabalhadores japoneses e de dupla nacionalidade. As vagas surgiam em empresas de pequeno e médio porte, na área automobilística e de eletro-eletrônicos. Os dekasseguis viajavam com o intuito de retornar depois para sua terra natal, no caso o Brasil, com recursos para dar início a investimentos.

Os primeiros dekasseguis eram homens, de idade média avançada, casados, chefes de família e que falavam japonês. Como não podiam permanecer muito tempo no Japão, acabavam trabalhando ilegalmente.Atualmente há no Japão aproximadamente 300 mil dekasseguis, que remetem para o Brasil cerca de US$ 2,5 bilhões anuais. Já quando retornam, cada dekassegui traz, em média, cerca de US$ 70 mil para investir em algum tipo de negócio. Eles se concentram nas cidades de Aichi, Shizuoka, Mie, Nagano, Gifu, Gunma, Saitama, Kanagawa, Shiga e Ibaraki, conforme o quadro a seguir, que relaciona o nome da província ao número de dekasseguis que lá estão:


Aichi — 63.335 dekasseguis
Shizuoka — 44.248 dekasseguis
Mie — 18.157 dekasseguis
Nagano — 17.758 dekasseguis
Gifu — 17.596 dekasseguis
Gunma — 16.455 dekasseguis
Saitama — 14.030 dekasseguis
Kanagawa — 13.860 dekasseguis



SAIBA MAIS
www.nikkeyweb.com.br

www.tenrikyo.com.br

www.japao100.com.br

www.culturajaponesa.com.br

www.portalsana.com.br/sanafest

www.opovo.com.br/opovo/economia/788911.html

26 maio 2008

DAPRAIA FUNNY PAGES

Humor Dapraia


Tudo de uma vez ao mesmo tempo agora









por Guabiras


Mungu, o palhacinho fela












por Jefferson Portela (directly from Portugal)


Eu, por mim mesmo e mais ninguém









por Denilson Albano

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16.ª VEZ EM CANNES

Palma d'Ouro à paulistana


A atriz Sandra Corveloni, que estréia em longas-metragens com o filme Linha de passe, conquistou a Palma de Ouro de Melhor Atriz no 61.º Festival de Cannes. O prêmio foi recebido pelos diretores Walter Salles e Daniela Thomas. Sandra Corveloni interpreta Cleuza, empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos e está grávida novamente de mais um pai desconhecido. (foto de Paula Prandini)

De Cannes, Walter Salles e Daniela Thomas comentaram a premiação: "Foi uma surpresa maravilhosa. Cleuza (a personagem de Sandra) foi o pilar da história, o ponto de intercessão de cada um dos destinos do filme e Sandra trouxe a ela densidade e ao mesmo tempo uma luminosidade que acabou se irradiando por todo o filme".

Sandra, que nasceu em São Paulo, em 1965, formou-se no curso de Teatro Avançado do TUCA-Teatro da PUCSP-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A seguir, entrou para o grupo Tapa, onde, além de atuar, é professora e assistente de direção. Seus principais trabalhos no teatro são As viúvas, de Arthur Azevedo, Contos de sedução, de Guy de Maupassant, e Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes.

No cinema, ela atuou nos curtas Flores ímpares (1992), de Sung Sfai, e Amor (1993), de José Roberto Torero. No teatro, seu próximo projeto é o espetáculo Amargo Siciliano, inspirado em contos de Luigi Pirandello, em que é assistente de direção de Eduardo Tolentino.


SINOPSE
São Paulo, 22 milhões de habitantes, 200 quilômetros de engarrafamentos, 300 mil motoboys. No coração da cidade em transe, quatro irmãos tentam se reinventar. Em Linha de passe, Reginaldo — o mais novo e único negro na família — procura seu pai obsessivamente. Dario sonha com uma carreira de jogador de futebol, mas, aos 18 anos, vê-se cada vez mais distante dela.

Dinho refugia-se na religião e o mais velho, Dênis, pai involuntário de um menino, enfrenta dificuldades para se manter. Sua mãe, Cleuza, empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos, está grávida novamente, de mais um pai desconhecido.

O futebol e as transformações religiosas pelas quais o Brasil passa, o exército de reserva de trabalhadores que alimenta a cidade, a questão da identidade e da ausência paterna estão no coração da história de Linha de passe — novo filme dos mesmos diretores de Terra estrangeira, Central do Brasil e Diários de motocicleta.


SAIBA MAIS

19 maio 2008

A CHEGADA DA CORTE

Muito mais que um enredo



Para quem não viu os desfiles de escolas de samba que comemoraram o Bicentenário da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, talvez fiquem em branco os erros históricos que repetiriam, mais uma vez, o espírito do “Samba do Crioulo Doido”. A vinda da Família Real presta-se a equívocos. O que menos conta é o que talvez mais valha para a própria história do Carnaval.

Ainda hoje, a porta-bandeira e o mestre-sala são um par fundamental em todas as escolas de samba: suas indumentárias luxuosas do princípio do século XIX pretendem, certamente, imitar o fausto que foi a chegada da Família Real portuguesa, com suas vestes desconhecidas até ali no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, capital da Colônia.

Não havia nada de carnavalesco na comitiva de D. João VI, mas o povo incorporou a chegada da comitiva no seu faz-de-conta. Numa certa medida, confirma-se Karl Marx, que dizia que a História se repete sempre como farsa.

No entanto, a Independência brasileira nasceu justamente da fuga dos Braganças de Portugal para o Brasil. Talvez pudesse ser este o tema do desfile e dos sambas-enredo que celebraram a chegada da Família Real. O historiador Evaldo Cabral de Mello, de Pernambuco, assinala que, não obstante tudo o que se diz do “moleirão” que teria sido D. João VI, foi ele o único rei que manteve a coroa na Europa continental, apesar das investidas de Napoleão.

Digamos que ele tivesse para onde fugir, e que, afinal, sua inteligência foi ter sabido qual a sua rota de fuga, é uma das leituras que os brasileiros fazemos. Assim também em relação à Independência, que se deu não através de um movimento de massas, mas pelo gesto de um príncipe luso. Ao que parece, a “piada de português” nasceu aí: para não concedermos que até a nossa independência veio como dádiva dos “patrícios”, inventamos que eles seriam “burros”.

À dominação portuguesa, opusemos-lhe o riso. Não deixa de ser uma resposta a qualquer opressão. Quanto ao mais, porém, as guerras napoleônicas, a fuga de D. João e a posterior derrota de Napoleão ter-se-iam encarregado de facilitar.

O que quase não se diz, a propósito, é que quando D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil ele tinha atrás de si a boa-vontade de toda a Europa — como aconteceu em anos recentes com o fim da URSS, em que, como se pregava, o mundo seria redimido sem os socialismos do tipo bolchevique. Após o fim da era napoleônica, as antigas monarquias esperavam que o republicanismo da Revolução Francesa se extinguisse para sempre.

Ou seja, para voltar ao Brasil: ninguém mais confiável à Europa restaurada do que um príncipe a reger um país de dimensões “continentais”. A história de que D. João VI teria adivinhado que o Brasil seria independente e que teria, assim, recomendado a seu filho que precipitasse o inevitável, antes que um “aventureiro” o fizesse, numa certa medida era já a intuição de que a Europa preferiria que o Brasil fosse um império e não uma república.

Sugere-se, em cima disso, que o primeiro imperador brasileiro, apesar de seu liberalismo, talvez cedesse à tentação de enredar o Brasil nas contas de Portugal. Dom Pedro teria abdicado por não convencer de que uma eventual reunião de Portugal e Brasil não poria a perder a independência brasileira.

Seja ou não essa a verdade, uma coisa é certa: ao contrário dos republicanos latino-americanos que tinham em Napoleão o seu herói e o seu exemplo, Dom Pedro seria, por suas origens, o representante da antiga ordem — aquela que acabaria sendo restaurada após a derrota de Napoleão em Waterloo. Para a Inglaterra, a Áustria e a Rússia, as grandes vencedoras das guerras napoleônicas na Europa, D. Pedro I seria, em princípio, mais confiável aos seus interesses do que os republicanos como Washington e, principalmente, Simon Bolívar e José San Martín (Argentina).

Para dizer tudo, os tais sambas-enredo teriam de dizer da vinda de D. João VI que começava, então, uma outra História do Brasil: não só a dos grandes faustos das escolas-de-samba, com tudo o que isto significou para a cultura popular brasileira, mas para o que acabou como irremediável sob o ponto de vista econômico e político — a submissão do Brasil, logo na seqüência, aos interesses da Inglaterra.

Foi ela que avalizou o Grito do Ipiranga: a conta viria em seguida e não há, enfim, do que reclamar, posto que a História é irreversível...

Mas a chegada da Família Real portuguesa parece ter sido bem mais que um choque político ou mesmo econômico: a porta-bandeira e o mestre-sala figuram encarnar um aparato que se amplificaria para a cultura brasileira em muitos sentidos. Mais além, os acadêmicos gostam muito de falar da “carnavalização” do Brasil como um dado relevante do nosso processo cultural.

No entanto, talvez se devesse falar da “operatização” do Carnaval. Parece ser bem mais como espécies de óperas o que os carnavais de rua e suas escolas de samba prodigalizam nas avenidas. A partir da chegada da corte lusa ao Brasil, teríamos passado a “operatizar” nossos festejos como conseqüência do que foi o “maravilhoso” desfile da chegada do rei com sua comitiva de milhares de pessoas: eles se vestiam e se tratavam de uma maneira nunca vista pela embasbacada e pouco cultivada população do Brasil-Colônia.

Quanto a D. Pedro I, porém, fica difícil discuti-lo no papel de porta-estandarte das monarquias restauradas. Ao contrário do que esperavam dele os reinos europeus, Dom Pedro não aceitou a fantasia, o modelito, de rei absolutista: era autoritário, sem dúvida — mas destituiu manu militari seu irmão Miguel, que pretendeu impor uma monarquia absolutista em Portugal.

Enquanto Fernando VI, da Espanha, esfalfou-se em perseguição aos liberais que desejavam uma monarquia constitucional, o que provocou a fuga de intelectuais da Espanha, após a queda de Napoleão (o pintor Goya foi um dos que se exilaram na França), D. Pedro I — IV, em Portugal — deu um pinote para as monarquias absolutistas.

É provável que o quisessem como “cantor” de um samba-enredo escrito algures, nos salões das mais altas cortes européias. Não o fez. Não se amoldou à farsa que foi o absolutismo na Espanha, onde até a Inquisição “pediu passagem”, tendo se instalado no reino espanhol com tudo o que era de sua antiga usança: perseguições religiosas, intolerância, racismos etc. No Brasil e em Portugal não foi assim.

Tudo, de fato, parece mesmo ter começado com o desembarque da Família Imperial ao nosso País. O lado prosaico da coisa — as comilanças de D. João, a vida galante e algo degradada de D. Pedro, seus desregramentos, enfim — parece bem se compor com o Carnaval. Mas não se sugere também que, por causa disso, o Brasil passou a ser conhecido como “o País do Carnaval”. Afigura-se, neste caso, que a coisa está mesmo mais para ópera do que para desfiles de escolas-de-samba. Nas óperas, os finais podem até ser trágicos ou felizes, porém muito dificilmente terminam como farsa.


*Ênio Squeff é jornalista, crítico de música, ilustrador e artista plástico

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www.squeff.com

07 maio 2008

CONSUMISMO DESENFREADO

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06 maio 2008

O VENTRE LUNAR

Mistérios, segredos e ocultações


A sua alma pulsa — em sensibilidade, emoção e receptividade.

Conforta, alimenta, nutre. De tal modo que, em todos os seres da natureza, encontra-se a sua representação.

O aconchego, a proteção, a segurança: eis a mãe que (o rebento já dentro de seu ventre) fornece ao protegido carinho, consolo, dedicação. E, mesmo após seu fruto sair de seu abrigo, continua a protegê-lo — em seu leite materno, no calor de seus braços, em constantes afagos de mãe.

A Lua, no seu envolvimento de dama astrológica, é o corpo celeste simétrico ao maternal: ilumina a noite, inspira os poetas, instiga os apaixonados.

Eis nosso ponto de apoio, o caminho a percorrer quando sentir-se indefeso, desprotegido, na iminente vontade de lacrimejar.

Na infância, no processo de aprendizagem e descobrimento, a mãe se faz presente, levantando-nos no cair dos primeiros passos, colocando-nos no colo, conduzindo-nos ao seu seio quando famintos.

A partir de então, percebe-se a dependência, a necessidade da aprovação — os aplausos dos primeiros passos e das primeiras sílabas soltas ao ar.

Crescemos, tornamo-nos adultos, mas a figura materna continua patente, fazendo-se presente nos recônditos de nosso ser.

Aquela vontade de correr para os braços de nossa mãe, chorar e agarrar no sono, sabendo que ali encontra-se a real guarida.

Ao nos casarmos, acabamos por procurar no cônjuge um espelho, um reflexo daquela que representa conforto. Uns irão procurar quem lhes indique o caminho, quem os guie. Outros resistirão ao sair do seio de sua mãe, na tentativa de encontrar-se abrigados.

Enganam-se.Tornam-se filhotes indefesos, em constante necessidade de proteção.

Aprender a cortar o cordão umbilical, expressando assim a sua individualidade, torna-se vital para criar e fortalecer a responsabilidade pelo próprio caminhar.

Necessita-se estar atento, pois um dia esse corte será feito. E, na maior delonga, mais difícil se torna.




*Fábio Silva faz o seu mapa astral e perscruta os astros para você ver melhor a vida