18 setembro 2009

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

Novas fronteiras do Ser


No livro QS - Inteligência Espiritual, a fí­sica e filósofa norte-americana Danah Zohar aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência — além da inteligência intelectual e da emocional — que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida.

Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas.

O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Afirma Danah: "A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".

Aos 57 anos, Danah vive na Inglaterra com seu marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e dois filhos adolescentes. Formada em Fí­sica pela Universidade de Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualmente leciona na universidade inglesa de Oxford.

Com pós-graduação em Filosofia, Religião e Psycologia na Universidade de Harvard, ela é a autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para o Português. QS - Inteligência Espiritual já foi editado em 27 idiomas, incluindo o português (no Brasil, pela Record).

Danah tem sido procurada por grandes companhias interessadas em desenvolver o quociente espiritual de seus funcionários e dar mais sentido ao seu trabalho. Ela falou à revista Exame em Porto Alegre durante o 300.º Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO), organização fundada na Suécia em 1971 que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo. Aqui, alguns trechos da entrevista:

O que é inteligência espiritual?
É uma "terceira" inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o potencial espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.

De que modo essas pesquisas confirmam suas ideias sobre a terceira inteligência?
Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas, ligados à experiência espiritual. Tudo o que influencia a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais: um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico, dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual; outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou quociente de inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.

Qual a diferença entre QE e QS?
É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como eu reajo a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na História da humanidade. No iní­cio do século 20, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Em meados da década de 1990, a descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um gênio, se não soubesse lidar com as emoções. A ciência começa o novo milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

Em suas concepções, Danah Zohar identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Segundo ela, essas pessoas:

1. praticam e estimulam o autoconhecimento profundo;

2. são levadas por valores. São idealistas;

3. têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade;

4. são holísticas;

5. celebram a diversidade;

6. têm independência;

7. perguntam sempre "por quê?";

8. têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo;

9. têm espontaneidade;

10.têm compaixão.



*Danah Zohar atualmente escreve um novo livro — Total Intelligence: Achieving lifelong peak performance — que segundo ela representa o ápice do trabalho realizado em toda a sua vida





SOCIALISMO FRACASSOU, CAPITALISMO QUEBROU

O que vem a seguir?



A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. A prioridade não é o aumento do lucro e do consumo, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Isso significa iniciativa pública não baseada na busca de lucro. Decisões públicas dirigidas a melhorias sociais coletivas, com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.

Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da História. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais — em realidade, todas as economias —, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.

Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos os sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado, isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930.

Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas, nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como?

Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda. Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais.

Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.

Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado à sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados, sem nenhum exagero, como "Thatchers com calças". O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos.

A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa. Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata.

Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que, se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização. Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global.

O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e também o que terá a recuperação mais difícil.

É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí, à nossa disposição — inclusive a nacionalização —, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar. No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim.

Por um lado, não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões, na esperança de encontrar o caminho da saída.

Por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas. Por acaso se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas? Ou de que a organização e a contabilidade empresariais deveriam ser os modelos inclusive da função pública, da educação e da pesquisa?

Ou de que o crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais — exceto uma minoria de pobres — estejam um pouquinho melhor? Ou de que o que um país necessita, em qualquer caso, é um máximo de crescimento econômico e de competitividade comercial? Não creio que tenham superado tudo isso.

No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.

Tomemos o caso de Londres. É evidente que importa a todos nós que a economia de Londres floresça. Mas a prova de fogo da enorme riqueza gerada em algumas partes da capital não é que tenha contribuído com 20% ou 30% do PIB britânico, mas sim como afetou a vida de milhões de pessoas que ali vivem e trabalham. A que tipo de vida têm direito? Podem se permitir viver ali? Se não podem, não é nenhuma compensação que Londres seja um paraíso dos muito ricos.

Podem conseguir empregos remunerados decentemente ou qualquer tipo de emprego? Se não podem, de que serve jactar-se de ter restaurantes com três estrelas Michelin, com alguns chefs convertidos eles mesmos em estrelas? Podem levar seus filhos à escola? A falta de escolas adequadas não é compensada pelo fato de que as universidades de Londres podem montar uma equipe de futebol com os seus professores ganhadores de prêmios Nobel.

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa — ou deveria significar — iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada.

TRata-se da tomada de decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas, com as quais todos sairiam ganhando: esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal. Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico.

E, levando-se em conta a gravidade da crise econômica, este deveria ser um deslocamento rápido: definitivamente, o tempo não está do nosso lado.


*Artigo do historiador britânico Eric Hobsbawm publicado originalmente no jornal britânico The Guardian (Agência Carta Maior)

APROFUNDE A CRÍTICA
http://movaut.ning.com/profiles/blogs/a-magica-de-hobsbawn-ou-um

27 agosto 2009

DROGAS: UMA DROGA!

LIBERAR OU REPRIMIR?



Quando me perguntam, durante as poucas palestras que profiro, se eu já usei algum tipo de droga na longínqua juventude, digo sinceramente que sim, porque não vejo nenhuma razão para negar certos fatos ou certos excessos cometidos no passado. Afinal de contas, todos nós temos uma vida pregressa e garanto, com toda a pureza d’alma, que não fui nenhum santinho do pau oco.

Fiz lá as minhas juvenis presepadas, perpetrei besteiras piramidais e cometi erros crassos — alguns dos quais eu até preferiria esquecer, se assim me permitisse o meu senso de honestidade comigo mesmo. O que fiz está feito e não tenho mais jeito de voltar atrás.

Sim, usei vários tipos de drogas, tanto lícitas como ilícitas, só não experimentei as injetáveis por morrer de medo de injeção. Algumas pessoas se espantam ou até mesmo ficam chocadas com as minhas revelações, enquanto outras costumam dizer que sou bastante corajoso por confessar tais pecadilhos. No que me diz respeito, as drogas simplesmente representaram uma faceta do meu longo aprendizado da vida e de mim mesmo. Nada mais que isso.

As drogas jamais tiveram uma demasiada importância em meu existir, porém, já do álcool e do cigarro não posso dizer o mesmo, tanto que bebo e fumo até os dias de hoje. Contudo, quando me perguntam se eu sou a favor ou contra a liberação geral e irrestrita do uso de drogas, penso que a conversa é outra e o buraco é mais embaixo.

Como trabalho em hospital psiquiátrico, posso ver bem de perto o estrago que o crack, por exemplo, vem fazendo com a nossa estudiosa juventude de todas as classes sociais. É uma coisa nada bonita de se ver.

Convivo com o drama de famílias destruídas, com pais e mães desesperados na excruciante agonia de tentar salvar os filhos desta droga, cujo consumo hoje é, na minha modesta opinião, uma das mais graves tragédias nacionais.

Entretanto, dois dos mais importantes defensores da liberação das drogas são Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia, já falecido, e o nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No contexto, a ONU estima que cinco em cada cem adultos usaram alguma espécie de droga ilícita nos últimos doze meses.

Os defensores da liberação afirmam que os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio de drogas. Além de arrancar o poder dos traficantes, o dinheiro arrecadado financiaria o tratamento dos dependentes.

Os que são contra, têm medo da banalização e do aumento do uso. Eu, particularmente, defendo a primeira hipótese, mas creio que esta discussão mal começou e não há nenhuma solução simples à vista.


*O cronista Airton Monte é psiquiatra, fumante inveterado e colaborador do Jornal da Praia há mais de 20 anos. Sua renda como escritor ajuda-o a financiar "a cervejinha das crianças"...


21 agosto 2009

SOLUÇÃO DO INSOLÚVEL

Lamentar ou resolver?



"Na economia as soluções rendem mais do que os problemas; na política, os problemas valem muito mais que as soluções", explicou o economista e político soviético Nikolai Bukharin (1888-1938). De acordo com esta reflexão, na agricultura latinoamericana deveríamos, aparentemente, dedicar-nos muito mais à economia que à política.

Deveríamos descartar imediatamente aquelas pseudo-soluções utópicas que apenas contribuem para confundir os agricultores e para perpetuar os problemas do setor agropecuário. Porque a angustiada classe rural está necessitando soluções de verdade, perduráveis no tempo — isto é, medidas que, graças à sua viabilidade e realismo, possam efetivamente ser concretizadas, por mais adversas que sejam as condições atuais dos produtores rurais e de seus respectivos governos.

Nas atuais circunstâncias, já não tem muito sentido continuar afirmando aos agricultores que seus problemas deverão ser resolvidos pelos governos, através de créditos abundantes e baratos, da aquisição, refinanciamento e perdão das suas dívidas, da concessão de subsídios internos, do aumento do valor do dólar, da redução dos impostos e dos pedágios e da proteção contra a importação de produtos agrícolas, nem e continuar afirmando-lhes que nossos governos deveriam exigir a eliminação das barreiras externas e dos subsídios com os quais os países ricos protegem seus agricultores.

Por mais desejadas e atraentes que sejam, no curto e médio prazos, estas propostas não serão adotadas; entre outros motivos, porque os endividados e debilitados governos dos países latinoamericanos, mesmo que quisessem não reuniriam as condições econômicas nem políticas para adotá-las. No âmbito interno, por insuficiência de recursos para perpetuar no tempo estes mecanismos "perenizadores" de dependências e, no âmbito externo, porque não possuem a força política para impedir que os países desenvolvidos continuem subsidiando e protegendo seus agricultores.

A adoção das referidas medidas é tão improvável que não vale a pena perder tempo com utopias que geralmente se inspiram na ingenuidade ou, o que é muito mais grave, em repudiáveis propósitos demagógico-eleitorais. Além disso, não é esta a principal causa da crise do setor agropecuário e sim as distorções descritas a seguir, as quais, com humildade, deveremos reconhecer e, com competência, deveremos eliminar. Assim, ao considerar as ineficiências do negócio agrícola, cabe perguntar: devemos compensar suas consequências ou eliminar suas
causas?

Na América Latina, o caminho cômodo e simplista de querer aliviar as consequências de uma agricultura ineficiente, através de artificialismos compensatórios, está esgotado. Ante esta situação, só nos resta a alternativa realista de eliminar as causas mais profundas da falta de rentabilidade e de competitividade e, através desta medida, prescindir dos subsídios que, de antemão, sabemos que não serão outorgados por nossos governos.

Entre estas causas elimináveis pelos próprios agricultores, com a única condição de que estejam capacitados e organizados, estão as seguintes distorções e ineficiências que ocorrem na grande maioria das propriedades e comunidades rurais:

>> 1a. ineficiência: Baixíssimos rendimentos por hectare e por animal, muito mais pela falta de conhecimentos adequados que de políticas agrícolas generosas. Na América Latina, os rendimentos médios em quilos por hectare são os seguintes: arroz, 3189; feijão, 712; milho, 3288; batata inglesa, 13561; soja, 2472; trigo, 2090. Na pecuária bovina, menos de 4 litros de leite/vaca/dia; primeiro parto aos 42 meses, podendo ocorrer antes dos 28 meses de vida; intervalo entre parições de 22 meses, o qual poderia ser de 13 meses; desfrute de 19%; produção de 60 kgs de carne por hectare/ano.

Estes baixísimos rendimentos são o claro reflexo de erros, muitas vezes primários, que ocorrem no processo produtivo. Para corrigí-los, geralmente se necessita apenas adotar, de forma correta e gradativa, tecnologias simples que requerem muito mais conhecimentos adequados que créditos abundantes, porque sua correção depende muito mais de "como fazer" do que "com que fazer". No caso do feijão, ao dividir os 712.000 gramas pelas 225.000 plantas que deveria ter um hectare, conclue-se que cada feijoeiro produz aproximadamente 3 gramas — que correspondem a uma vagem com 8 a 12 grãos.

Isto, geralmente, é consequência de que a maioria dos plantadores de feijão utiliza sementes geneticamente erodidas e contaminadas com patógenos, não regula a semeadora, não semeia na época adquada e com espaçamento e profundidade corretos, não elimina as ervas daninhas no momento oportuno, não faz rotação de culturas e sofre consideráveis perdas antes e durante a colheita. Neste caso, com exceção das sementes, todas as demais correções dependem apenas de que os produtores sejam conscientizados e capacitados; em outras palavras, as correções dependem muito mais de insumos intelectuais que de insumos materiais.

Neste cultivo não se pode atribuir a culpa aos subsídios outorgados pelos países europeus, porque eles não exportam feijão subsidiado. Tampouco no caso do café, do cacau, da mandioca e de outros produtos que não são favorecidos pelas tesourarias dos países ricos e, no entanto, neles também temos problemas de falta de rentabilidade.

Se não podemos aumentar os preços, deveremos diminuir os custos de produção e de transação. Não estamos ignorando que vários países desenvolvidos, com os quais temos que competir, subsidiam seus produtores, porém não podemos ignorar que uma outra causa importantíssima de nossa falta de competitividade é que as vacas daqueles países desenvolvidos produzem, em média nacional, mais de 20 litros de leite por dia, que cada hectare das suas terras produz quase 8.000 kgs de trigo, 10.000 kgs de milho e até 49.000 kgs de batata inglesa.

Enquanto os nossos governos não puderem outorgar subsídios nem impedir que os países ricos o continuem fazendo, só nos resta o caminho realista de corrigir nossas próprias ineficiências. Se o fizermos, nos tornaremos menos dependentes dos inexistentes subsídios internos e menos vulneráveis aos excessivos subsídios externos. É com este espírito de objetividade e de pragmatismo que os agricultores eficientes e bem-sucedidos estão sobrevivendo dentro desta nova globalização e até obtendo proveito das vantagens que ela oferece. Eles estão "acendendo a lâmpada ao invés de continuar criticando a escuridão".

>> 2a. ineficiência: Os procedimentos distorcidos que os agricultores adotam na aquisição dos insumos e na venda das suas colheitas. Em ambas estas etapas, os produtores rurais fazem exatamente o contrário do que lhes seria conveniente fazer, porque compram os insumos no varejo, com alto valor agregado e do último elo de intermediação — porém, quando vendem os seus excedentes, ocorre um giro de 180 graus e o fazem no atacado, sem valor agregado e ao primeiro elo da cadeia de intermediação... Ambas as distorções são elimináveis através da capacitação e da organização dos agricultores com propósitos empresariais, e, não necessariamente, através de nostálgicos e ineficientes intervencionismos do Estado na comercialização. A propriedade diversificada pode ser a "agência de desenvolvimento" da família rural.

>> 3a. ineficiência: A falta de diversificação produtiva que, além de tornar os agricultores excessivamente dependentes do crédito rural, os expõe a desnecessários riscos e vulnerabilidades de clima, pragas e mercados. Para diversificar a produção agropecuária se requer muito mais capacitação do que complexos mecanismos de intervenção estatal, cujas frondosas burocracias acabam consumindo os escassos recursos destinados à operação de tais
mecanismos.

Se os governos não estão em condições de oferecer crédito rural, seguro agrícola e insumos a todos os produtores, a eficiente diversificação e verticalização da atividade agropecuária deveria ser o "seguro agrícola" do produtor, sua "agencia de crédito", sua "fábrica de alguns insumos", seu "supermercado", sua "agroindústria", a "agência de empregos" para todos os membros da familia durante os 365 dias do ano. A diversificação e a gradualidade tecnológica, horizontal ou vertical, são medidas endógenas que liberam as familias rurais da dependência de várias soluções exógenas, geralmente inacessíveis, muito especialmente do crédito — que é cada vez mais caro e escasso.

>> 4a. ineficiência: A ocorrência de superdimensionamentos e ociosidades de investimentos que, nas atuais circunstâncias de alto endividamento e baixa rentabilidade, economicamente não se justifica realizá-los de forma individual ou mantê-los subutilizados. Nas propriedades rurais, é muito frequente encontrar tratores e implementos que trabalham poucas horas ao ano, terras ociosas ou com baixíssima produtividade, elevados investimentos em irrigação que não se traduzem em altos rendimentos em virtude de graves erros tecnológicos na condução dos cultivos e nas tecnologias de irrigação empregadas, juntas de bois que comem o ano inteiro porém passam mais dias descansando que trabalhando, animais de elevado potencial genético cujos baixos rendimentos são provocados principalmente por falta de alimentos que poderiam ser produzidos nas propriedades, inadequada relação reprodutores/matrizes etc.

Por exemplo, se em uma comunidade existem 10 produtores com 5 vacas leiteiras cada um, economicamente não se justifica a existência de 10 reprodutores, 10 estábulos, 10 máquinas de ordenhar, 10 picadoras de forragem, 10 enfardadeiras de feno, 10 esfriadores de leite. Os baixos preços do leite dificilmente poderão remunerar estes altos investimentos quando eles são feitos de forma individual. O associativismo para obter economia de escala, reduzir custos, incorporar valor às colheitas, comprar e vender com menor intermediação é o caminho mais realista quando os governos não estão em condições de outorgar subsídios.

Se nos últimos tempos, até os gigantes entre os bancos, entre os meios de comunicação, os da indústria químico-farmacêutica e da agroquímica estão promovendo fusões e formando enormes conglomerados, como estratégia para poder sobreviver no mercado, com maior razão deverão fazê-lo os minúsculos e frágeis produtores rurais.

>> 5a. ineficiência: Os agricultores pobres costumam cultivar espécies que, coincidentemente, são adquiridas pelos consumidores pobres das cidades (mandioca, batata inglesa, milho, feijão, abóbora, arroz, batata-doce etc.). Se, além de produzir espécies pouco rentáveis, são afetados pelas distorções descritas nos 4 itens anteriores, fazem excessivas aplicações de agroquímicos e sofrem desnecessárias perdas pós-colheita, é evidente que não podem viabilizar-se economicamente.

Promover uma substituição progressiva de espécies com maior densidade econômica depende muito mais de conhecimentos técnico-gerenciais que de sofisticadas formulações de políticas agrícolas. Além disso, diagnósticos equivocados e terapêuticas demagógicas estão paralizando o setor agropecuário.

Depois de efetuar esta crua descrição das distorções que, com reconhecidas exceções, infelizmente estão generalizadas na América Latina, impõem-se algumas perguntas:

>> Serão os agricultores os culpados de tão graves ineficiências? Ou será que nosso disfuncional sistema educacional não desenvolveu neles a autoconfiança, a criatividade e a capacidade de poderem corrigir suas ineficiências e de solucionar os seus próprios problemas?

>> Será que é a falta de políticas (creditícias, cambiais, tributárias, tarifárias etc.), descritas no primeiro parágrafo deste artigo, a principal culpada de que não consigamos superar este arcaísmo tecnológico, gerencial e organizacional? Ou será que faltam às famílias rurais uma adequada formação valórica e conhecimentos mais funcionais e instrumentais, que eles possam aplicar e utilizar na formulação de soluções mais autônomas, e conseqüentemente tornarem-se menos dependentes das referidas políticas?

>> Será que deveremos continuar priorizando infrutíferas reivindicações dirigidas ao Congresso Nacional, ao Ministério da Economia/Fazenda, ao Banco Central/Rural/Agrícola para pedir paliativos inacessíveis, ineficazes e perpetuadores de dependências? Ou será que deveremos buscar soluções emancipadoras nas escolas fundamentais rurais (do 1.° ao 8.° ano), nas escolas agrotécnicas e nas faculdades de ciências agrárias, além de apoiá-las como corresponde, porém exigir delas uma educação muito mais pragmática, objetiva, funcional, realista e prática, de modo que dessas instituições educativas egressem agricultores e extensionistas com real capacidade de corrigir as ineficiências do negócio agrícola?

>> Será que todos os governos dos países da América Latina, os atuais e os das décadas anteriores, são e foram insensíveis aos problemas dos agricultores e não tiveram a vontade política para solucioná-los? Ou será que, em virtude do modelo paternalista e da insuficiência de recursos, não podem e não puderam ofrecer todos os ingredientes da "receita" perpetuadora de dependências a todos os agricultores sempre? Se a referida "receita" não funcionou, quando as instituições estatais tinham mais poder e mais recursos, como esperar que funcione na atualidade, quando os governos estão debilitados e endividados?

>> Como explicar que, depois de mais de 50 anos de aplicações milionárias de recursos em crédito rural, na geração e difusão de tecnologias, na formação de técnicos, na manutenção de estruturas estatais de comercialização e em obras de irrigação, não tenhamos sido capazes de incrementar estes modestos rendimentos e de superar as demais ineficiências aqui analisadas? (Com o agravante de que alguns dos importantes êxitos obtidos pelo setor agropecuário latinoamericano ocorreram mais como consequência de produtores progressistas, do setor privado e de estímulos governamentais "de arranque", que dos clássicos e permanentes instrumentos estatais perpetuadores de dependências).

Como exemplos, poderíamos mencionar a avicultura industrial, o plantio direto, os sistemas integrados entre agricultores e agroindústrias (de aves, suínos, tomate, tabaco etc.), a fruticultura e a floricultura de exportação, o aspargo no Perú, a criação de salmões no Chile, a produção de maçãs em Santa Catarina e a citricultura em São Paulo, ambas no Brasil etc.

Definitivamente, o intervencionismo estatal perenizador de dependências, de cima para baixo, deverá ser substituido pelo protagonismo emancipador dos agricultores, de baixo para cima. No entanto, esta reversão exige a ação de um Estado que, graças à excelência, pragmatismo e relevância/pertinência dos conteúdos curriculares das suas instituições educativas, tenha como principal objetivo estratégico desenvolver as potencialidades que estão latentes nas pessoas e instituições relacionadas com o setor agropecuário.

Os solucionadores potenciais dos nossos problemas agropecuários estão em cada família, propriedade e comunidade rural, em cada escola fundamental rural, escritório de extensão rural, estação experimental, prefeitura, escola agrotécnica, faculdade de ciências agrárias. Falta apenas transformá-los de solucionadores potenciais a solucionadores reais.

Na construção da agricultura do mundo globalizado, o sistema educativo rural — os três níveis da educação formal/escolarizada e os serviços públicos e privados de extensão rural — necessitam receber um claro e decidido apoio do Estado, do setor privado e da sociedade. Em contrapartida, o referido sistema deve reconhecer a necessidade de submeter-se a uma profunda e radical transformação, a fim de que possa assumir o compromisso e a responsabilidade de formar, capacitar e organizar uma nova geração de agricultores profissionalisados, mais autoconfiantes e tecnicamente mais competentes.

Agricultores que sejam capazes de assumir, como sua, uma crescente responsabilidade na correção das suas próprias ineficiências e de protagonizar a solução dos seus problemas. Este é o único caminho possível para uma América Latina cujos governos não dispõem de recursos para fazer tudo pelos seus cidadãos, sempre. Entre outros motivos, porque estão dedicados a combater nas cidades os efeitos do subdesenvolvimento rural, em vez de eliminar suas causas diretamente no campo e, mais especificamente, nas desfinanciadas, esquecidas e abandonadas escolas fundamentais rurais.

Observação: caso você considere que algum ou mais destes conceitos é adaptável à realidade de seu município, estado ou país, por favor não hesite em utilizar, melhorar e difundir estas propostas. Oxalá você considere conveniente realizar — em sua própria instituição ou jurisdição — alguma atividade destinada a difundir, criticar, melhorar e adaptar estas proposições às suas respectivas realidades.


FAÇA A SUA PARTE
Críticas a este artigo e pedidos de documentos gratuitos — que ampliam e fundamentam tecnicamente a viabilidade desta proposta — serão bem-vindos ao e-mail polan.lacki@fao.org, bem como pelo telefone (562) 337-2205, fax (56 2) 337-2101, Casilla 10095, Santiago, Chile.


REFLEXÃO FINAL
As mulheres representam mais de 50% da população rural. A adoção desta proposta terá maior impacto e eficácia se forem eliminadas as discriminações que atualmente estão impedindo que elas desenvolvam e manifestem as suas enormes potencialidades como produtoras de alimentos e geradoras de renda. O(a)s interessado(a)s no tema "Mulheres no desenvolvimento rural" poderão dirigir-se ao e-mail marcela.ballara@fao.org ou visitar a home page da FAO-Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação: www.rlc.fao.org/mujer


SAIBA MAIS
Sobre o engenheiro agrônomo Polan Lakmi em www.polanlacki.com.br/quem.htm

31 julho 2009

MEMÓRIA VIVA

A casa paterna


O Benfica é o bairro. Dom Jerônimo, a rua. A residência atende pelo número 1054. Pois foi justamente lá onde nasci, no dia 16 de maio do benvindo Ano da Graça de 1949, vindo à luz no vetusto Solar dos Monte, no quarto da frente, na mesma cama em que fui feito.

Meu pai me conta que era de madrugada, chovia às escâncaras, trovões ensurdeciam os céus alencarinos, relâmpagos incendiavam o ar e no firmamento não havia sequer uma tímida e humilde estrela a me abençoar a vinda, feito o Menino Jesus estampado nas gravuras douradas dos livros antigos.

Muito embora o veloz autor dos meus dias saísse num pé e voltasse noutro com a tão esperada parteira, nem mais preciso foi. Eu já tinha adentrado os portais deste mundo por minha própria conta e risco e quase que morro estrangulado pelo traiçoeiro cordão umbilical a me apertar os gorgomilhos.

Salvaram-me os vastos conhecimentos de minha tia Stela Machado, acostumada a aparar menino. Por isso mesmo, por ser o primogênito, me deram o nome de Antônio — que era pra evitar que eu morresse afogado um dia. Sou o bendito fruto do primeiro amor ou do primeiro descuido, como costumava falar a senhora minha mãe com laivos de ironia.

Há na velha casa paterna a presença quase física das gerações antigas. Na sala de visitas, o retrato de vovó Valdenora parece-me até mais bonito do que o da Monalisa. O avô Moacir guarda e traz no rosto grave e magro a sisudez hierática dos patriarcas. No quintal, sinto saudades do pé de goiabeira onde eu brincava de Tarzan, o filho das selvas.

A casa paterna é do tempo em que no subúrbio ainda havia oitões, jardins, quintais e muitas plantas, um reinado do verde. Me sinto tão parte dela quanto os seus tijolos, seus alicerces, suas paredes. Por vezes, e não raras, chego mesmo a perder a noção de quem pertence a quem.

A janela do meu quarto de solteiro, a minha cúmplice de fugas antigas, silenciosas, nas madrugadas furtivas por onde eu escapava para as primeiras noites de esbórnia. A casa paterna é a moradia pessoal e intransferível de todos os ícones de minha mitologia existencial.

Não sei como é nem descrever o que sinto toda vez que lá estou. Só sei que ainda sou feliz por poder dizer, quando me perguntam onde vou aos sábados de manhã, que vou pra casa. Só isso, como quem regressa à Terra Prometida ou à Terra do Nunca, onde continuo sendo um eterno Peter Pan.


*Airton Monte é psiquiatra, escritor e colunista

27 junho 2009

PAPO DE BUGRE

Idioma brasileiro


No Brasil dos paradoxos, acontecem coisas em que a mais fértil imaginação não teria condição de acreditar. O retrato da identidade nacional é composto por um branco, um índio e um negro e, obviamente, falamos um idioma formado por palavras oriundas destas três fontes lingüísticas. No entanto, temos a coragem de dizer que "no Brasil, fala-se o Português". Ledo engano.

No Brasil fala-se um idioma que só se fala no Brasil -- e em nenhum lugar mais. Aliás, somos a única ex-colônia portuguesa que não fala com sotaque português. E isto deve-se à influência da língua tupi, pois seja, o Nheengatú -- ou, como quer o presidente, ao nhén-nhén-nhén... Esta espinha dorsal lingüística brasileira está um tanto desbotada diante de tantas "lavagens culturais" a que foi submetida ultimamente, pelos estrangeirismos que empesteiam o nosso idioma.

A língua portuguesa original trazida para o Brasil continha 140 mil verbetes ou palavras. O Português, esta "língua de marinheiro", contém hoje 260 mil verbetes, fato que o torna a mais rica língua em sinonímica do mundo. Os 120 mil verbetes excedentes em nosso idioma falado, ficam por conta das culturas africanas e tupi-guarani.

Portanto, a tão alardeada "unificação ortográfica e gramatical" torna-se impossível a partir da própria conseqüência lingüística que este idioma adquiriu no Brasil. Isto porque o significado de milhares de palavras oriundas do Tupi, falados diariamente, são completamente desconhecidos por todos indistintamente. E isto, ainda, sem mencionarmos, obviamente, a contribuição lingüística africana.

As três línguas que formam o idioma brasílico têm um sentido e uma objetividade declaradamente importante: o africano nos deu verbetes com os quais nos expressamos na forma espiritual, culinária, lazer, gíria e glotologias. Exemplos: bunda, xodó, bizú, gogó, tijolo, zureta, muvuca, mumunha, maluco, garfo e por aí vai, aos milhares também.

O Tupi nos deu verbetes que permitem-nos ir e vir no real sentido locativo e toponímico. O Português nos deu verbetes que nos fornecem condições jurídicas, políticas e didáticas. Tornar-se-ia impossível a um brasileiro fazer tudo que faz diariamente usando apenas o recurso da língua portuguesa. Daí que....

É IMPOSSÍVEL UMA UNIFICAÇÃO ORTOGRÁFICA COM OS DEMAIS PAÍSES DE "LÍNGUA PORTUGUESA"!

Corrigir a injustiça histórica secular para com a cultura ameríndia brasílica, origem da formação nacional e espírito latente de insubmissão à dominação estrangeira, deve ser o objetivo de todos aqueles que lidam com a Educação e Cultura deste País e que tenham um pouco de amor ao verde-e-amarelo. Antes, devemos propiciar aos milhões de brasileiros que diariamente expressam-se na língua tupi a oportunidade de saberem o significado dessas palavras e, sabendo-o, terem condições de conhecer a história da grande nação Tupi, fato que gerará o inevitável espírito nacionalista e a responsabilidade por sua preservação.

A conseqüência imediata desta providência será a expansão, para além das nossas fronteiras, da verdadeira epopéia da estruturação brasileira, permitindo ainda que as demais nações, por intermédio dos milhares de turistas que pisam o território nacional, saibam, em seu próprio idioma, o significado dos nomes e palavras tão comuns nos logradouros públicos, locais e cidades mundialmente famosas, e, cujos nomes em Tupi não têm, até a presente data, tradução literal e significação, uma vez que os próprios brasileiros não o sabem.

Apenas como informação, longe de ser alguma língua morta e sem origem, o Tupi ou Nhengatú possui uma gramática expositiva dividida em quatro partes -- exatamente como a língua portuguesa: Fonologia, Morfologia, Taxonomia e Sintaxe.

Estamos, portanto, diante de uma prova de que os milhares de nomes toponímicos que descrevem e definem lugares, cidades, praças, ruas, produtos, objetos ou fenômenos da Terra, não foram jogados ao vento "por um caboclo brejeiro qualquer", como quer a explicação até hoje passada nas escolas do País, mas sim fazem parte do aspecto topográfico local, traduzido pelo idioma brasílico, genuíno irmão lingüístico do Português.

Se observarmos apenas algumas das palavras que pronunciamos diariamente, já teremos uma pequena idéia da nossa ignorância e da nossa conseqüente responsabilidade para com o futuro: jacarepaguá é "lago do jacaré"; andaraí é "água do morcego"; aracaju é "tempo de caju"; tijuca é "barro mole"; pará é "mar"; paraná é "rio afluente"; paraguai é "rio do papagaio"; paraíba é "rio ruivo" ou "encachoeirado"; pirapora é "peixe que salta"; pindorama é "país das palmeiras"; sergipe é "rio dos siris"; goiás é "gente da mesma raça"; piratininga é "seca peixe"; curitiba é "barro branco"; mogi-mirim é "riacho das cobras"; carioca é "casa de branco"; anhangabaú é "buraco do diabo"; e ipanema é "água suja".

Estas são apenas algumas das milhares de palavras do idioma tupi faladas e escritas diariamente e que, identificando locais e cidades nacional e internacionalmente conhecidas, fazem parte do nosso vocabulário diário. Porém, as suas traduções ou significados são desconhecidos por todos.

Os padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega dedicaram suas vidas ao estudo e codificação da língua tupi-guarani, bem como os usos, costumes, história e origem antropológica desta grande nação cujo sangue corre em nossas veias, direta ou indiretamente.

Centenas de outros jesuítas sucederam-se aos pioneiros na continuidade deste trabalho, legando-nos verdadeiros tratados acerca de tal assunto, vez que, já àquela época, previam a necessidade das futuras gerações acerca do conhecimento da língua brasílica que faria parte da nossa existência como nação. Mas a leviandade, o preconceito e o racismo de alguns "intelectualóides de beira de jardim" que se revezaram durante anos no controle da educação e da cultura, desprezariam por completo o trabalho destes jesuítas, preferindo dar cunho oficial aos anglicanismos, galicismos e outros estrangeirismos que corroem o nosso idioma e alteram o nosso comportamento.

De tal maneira desafiaram o conceito de "nação" que hoje, nas faculdades, ninguém sabe gramática portuguesa e muito menos gramática tupi-guarani. Só para exemplificar, aí vai um texto que prova a importância da cultura indígena na nossa vida:

"Aí, o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu do palácio às margens do Lago do Paranoá, observou uma siriema que ciscava no Palácio do Jaburu e chegou ao seu gabinete, sendo recebido pelo mordomo Peri. Lembrou um assessor sobre as comemorações da Batalha do Humaitá, convocou o ministro do Itamaraty e o governador de Goiás, que visitava seu colega no Palácio do Buriti, e, uma vez juntos, tomaram um suco de maracujá, comentaram sobre as reformas do estádio do Maracanã e as recentes obras no Vale do Anhangabaú, riram de um antigo comentário do Barão de Itararé sobre obras públicas, e, abrindo uma agenda confeccionada em pele de jacaré, passaram, a decidir sobre o carvão de Criciúma, os suínos de Chapecó e a safra de arroz de Unaí."

Viram, falaram, beberam e escreveram em Tupi e não se aperceberam disto. O embaraço maior seria se tivessem que traduzir todas estas palavras para o chanceler francês que visitava o Brasil.

E já que é assim, por que não inserir em todas as placas de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias, monumentos e locais cujos nomes sejam originalmente em língua tupi, o significado em Português, o qual, via de regra, poderá ser traduzido para qualquer idioma estrangeiro?

E por que não explicar nas escolas primárias e secundárias esta fusão da língua portuguesa com a língua tupi-guarani e seus fenômenos toponímicos e gramaticais, usados no cotidiano desde a tenra idade?

Achamos esta saída ideal para um problema que tem gerado situações embaraçosas a brasileiros no Exterior, quando alguém pergunta o significado da palavra ipanema ou, dentro do seu próprio País, quando um filho ou uma filha pergunta: "...Papai, o que quer dizer 'carioca'?"

Diante do desconhecimento total por parte dos brasileiros acerca desta cultura e herança, corremos os riscos de permitir que as gerações futuras pensem que tais palavras, hábitos e costumes, fazem parte da cultura e da língua portuguesas, porém, sem significado e explicação. É o máximo!

E, caso algum especialista em educação e cultura ache que é possível viver sem esta influência lingüística, poderá começar por retirar todas as palavras em Tupi do nosso vocabulário. Inicialmente, terá que trocar o nome de dez estados e sete capitais brasileiras, cujos nomes são em Tupi. Ao depois, trocar os nomes de centenas de municípios, milhões de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias e localidades topográficas cujos nomes também são originários da língua tupi. E finalmente, terá que mudar milhares de nomes próprios e palavras comuns do nosso dia-a-dia, que são verbetes da língua tupi. Aí verá que a comunicação e a locomoção tornar-se-ão impossíveis.

Já que esta terra era propriedade de uma raça tão importante -- que mesmo dizimada, nos legou um tratado lingüístico e antropológico de beleza ímpar --, nada melhor do que repetir a célebre frase de Aimberê, o cacique-comandante da Confederação dos Tamoios no Rio de Janeiro: "Nhandê coive ore retama!" -- ou seja, "Esta terra é nossa!"...

Por esta razão, me considero um legítimo Tupinambá... mesmo porque, no Brasil, TODO DIA É DIA DE ÍNDIO!



*o carioca Eduardo Fonseca Jr. é jornalista e escritor, autor do livro Zumbi dos Palmares -- a História do Brasil que não foi contada e diretor da Sociedade Yorubana Teológica de Cultura Afro-brasileira



19 junho 2009

PSICOLOGIA NA WEB

Nova forma de comunicar


Pertencemos hoje a um mundo imediatista, em que a velocidade das informações tem impacto profundo, como nunca antes teve, na vida das pessoas e no destino das organizações. Graças às incessantes inovações tecnológicas promovidas pelo ser humano, profundas mudanças sociais vêm ocorrendo em todos os pontos do planeta.

Neste momento de grandes transformações que vivemos, em todos os campos, constatamos que as mudanças afetam também o campo de atuação da Psicologia -- que, ao inserir-se neste novo cenário, constrói o atendimento virtual.

No processo, novas formas de tratamento vêm responder às necessidades das pessoas, configurando o atendimento via web entre elas. Esta ferramenta, que dispõe as pessoas em contato com um especialista da Psicologia em tempo real, trabalha diferentes questões pessoais e profissionais, de forma breve e bastante construtiva.

Autoconhecimento, relacionamentos afetivos em conflito, angústia, somatizações, perdas, interpretação de sonhos, baixa auto-estima etc. são alguns exemplos do desempenho do atendimento via web no âmbito pessoal.

Para as pessoas que buscam desenvolver as competências no trabalho, este tipo de atendimento é uma opção que oferece o conhecimento necessário para debater e desenvolver liderança, proatividade, comunicação, relacionamento interpessoal, mudanças de paradigma, resolução de conflitos, estímulo à criatividade e à inovação, tomadas de decisão, apresentações em público, pré-aposentadoria etc...

A área organizacional também se beneficia desta nova abordagem comunicativa, principalmente os Recursos Humanos, campo em que pode-se contar com um consultor capacitado para implantar a Identidade Organizacional (Missão, Visão e Valores) nas empresas, visando alinhar suas equipes com os objetivos organizacionais. O custo torna-se bem mais acessível quando a orientação passa a ser realizada pela Internet e com a utilização de recursos como o Skype.

A web está, desta maneira, revolucionando o mundo, as pessoas e as organizações, na medida em que permite disponibilizar a informação em conexões infinitas de aprendizado.

Vale destacar que a Psicologia na web é reconhecida e aceita pelo CFP-Conselho Federal de Psioclogia, conforme a Resolução n.º 012/2005.


*a psicóloga Márcia H. Souto de Araújo (CRP 17590/06) está atenta às transformações tecnológicas e à evolução da comunicação via web

SAIBA MAIS
psicologanaweb@psicologanaweb.com.br
Skype: psicologanaweb

15 junho 2009

FRUTAS E VERDURAS

A dieta do câncer



A FAO-Food and Agriculture Organization of the United Nations tem proclamado em seus boletins de saúde: “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e, também, o terceiro do ranking em mortalidade por câncer”.

Até os anos 60, o câncer era uma doença de escassa frequência em nosso País, com cerca de 2% de óbitos. Todavia, a partir dos anos 90, sua incidência tem crescido de foma vertiginosa, em mais de 5.000%.

Causa e efeito, justo em um período de 10 anos (1976 a 1985), crescia em mais de 600% o consumo de agrotóxicos em nossas lavouras. O crescimento destes — implicado em hortaliças, frutas e gêneros alimentícios envenenados — demandou uma preocupante assiduidade da enfermidade.

Câncer e agrovenenos são números ainda crescentes, em alarmante paralelismo. Ignorantes ou indiferentes a essa assertiva, médicos e nutricionistas — estes por excelência — continuam a prescrever dietas à base de frutas e hortaliças.

Tudo bem que o façam, desde que advirtam para o consumo de vegetais saudáveis, oriundos da agricultura orgânica. Lavar frutas e verduras envenenadas em vinagre ou água corrente corrente carece de qualquer validade: eis que os modernos agrotóxicos são sistêmicos, incorporam-se à seiva das plantas.

O fato é que, em quase todas as famílias, chora-se a perda de um ou mais entes queridos, vitimados pelo câncer. Curioso é que, amiúde, o goveno enceta campanha contra o álcool e o tabagismo, mas nunca contra os agrotóxicos, embora estes vitimem gradativamente a quase totalidade da população, enquanto o álcool e o fumo resumem-se a menos de 15%.

Ocorre que as multinacionais dos agrovenenos são poderosíssimas. Tomate, batata, repolho e folhosas em geral, trigo, morango, uva, citros, melão, soja, maçã, pêra e mamão alinham-se entre as culturas mais identificadas com os agrotóxicos.

É inaceitável que pesquisadores e agrônomos, vinculados a instituições governamentais (universidadades, Embrapa, Emater etc.) continuem a pesquisar e a recomendar agrotóxicos. Por quê?

Só sei que, em represália à minha luta contra tais venenos, cassaram-me a bolsa do CNPq que eu detinha há 20 anos. Igual destino teve a minha bolsa da Funcap.


*José Júlio da Ponte é presidente da ACECI-Academia Cearense de Ciências, professor Emérito da UFC, professor Visitante da UECE, livre-Docente de Fitopatologia, membro da New York Academy of Sciences e detentor de uma Medalha de Ouro de Fitopatologia. Lançou recentemente A Manipueira em Quadrinhos, com produção de sua esposa Maria Erbene Góis da Ponte e traços de Zhelio

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www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=27482

05 junho 2009

HÁ CRESCIMENTO?

MITO ECONÔMICO


Com o costumeiro alarde, há algum tempo foi apresentado à sociedade brasileira o PAC–Programa de Aceleração do Crescimento. Se o retorno a algo de planejamento público é fato positivo, não devemos pôr todas as apostas no mero crescimento econômico. A finalidade da argumentação (quase uma nota técnica) que se segue, é apenas qualificar (ou desmitificar) a crença no crescimento, demasiadamente repetida com ares de verdade absoluta.

Por exemplo, na edição de O Povo de 31.10.2006, lia-se: “O que o País precisa é de crescimento econômico, um fator que não tem componente ideológico...” Sabiamente, o colunista acrescentou: “Unindo-se ao crescimento das políticas de combate às desigualdades...” Repensou melhor, ou seja, pensou em desenvolvimento.

Como todo discurso, o das Ciências Sociais pode ser traiçoeiro, tornando-as facilmente atacáveis por um vírus inarredável, muito bem disfarçado (até inconscientemente) e conhecido pelo nome de “ideologia”. Por exemplo, a taxa anual de crescimento do produto (renda) total parece ser um simples número estatístico-contábil. Uma percentagem, número puro sem dimensão, sobretudo ideológica. Mas... não é.

Num antigo e excelente livro-texto, introdutório à teoria do desenvolvimento, o professor Michael Todaro faz um esclarecedor exercício, ademais muito simples, por utilizar Matemática elementar. Examina a taxa anual de crescimento (aumento da renda dividido pela renda inicial) e revela três situações: regressiva, em que o crescimento tende a aumentar a desigualdade; status quo, em que a desigualdade tende a permanecer a mesma; e progressiva, ou seja, desenvolvimento, em que há crescimento com tendência à diminuição das desigualdades sociais.

Assim, tudo depende das prioridades (pesos) que sejam dadas aos ricos e aos pobres. Isto é importante. Desta forma, numa abstração simples, divide-se a sociedade em duas classes: ricos e pobres. Todaro demonstra matematicamente que a taxa de crescimento da renda total é uma média aritmética ponderada da taxa de crescimento da renda dos ricos e da taxa de crescimento da renda dos pobres.

Aquela citada nas estatísticas oficiais e na imprensa é referente à situação regressiva: seus pesos são a percentagem da renda auferida pelos ricos (que tende a ser alta) e a percentagem da renda que cabe aos pobres (que tende a ser baixa). Então, os ricos valem mais do que os pobres — eis a ideologia sub-reptícia e os interesses absconsos dos que enfatizam apenas o crescimento econômico.

Situação regressiva: quando eu estudava em Berkeley, no início dos anos 1970, o professor e brasilianista Albert Fishlow comparou o período entre os dois Censos brasileiros de 1960 e 1970. Tornou-se aqui persona non grata, ao concluir que a renda dos ricos aumentara em 80% e a dos pobres em 8%.

Simplificando o presente exercício, consideremos (aritmeticamente) 8% e 0,8% ao ano; e tomemos as rendas do trabalho como renda dos “pobres” e as rendas do capital como renda dos “ricos”. Recentemente (2002), foram obtidas as seguintes estimativas: rendas do capital, 44%; do trabalho, 31%; do governo, 25%. Dividamos (conservadoramente) as rendas do Governo em 15% para os “ricos” e 10% para os “pobres”.

Obteremos a seguinte taxa de crescimento: 8% x 59% + 0,8% x 41% = 4,72% + 0,33% = 5,05%. Vemos que a taxa de crescimento da renda total (5,05%) é dominada pela importância da renda dos ricos (4,72%). O que indica, da parte dos mais aquinhoados, o interesse pelo crescimento e, de outro lado, o aumento da desigualdade relativa. Não há desenvolvimento.

Situação do status quo: utilizemos a tal média ponderada, adotando, porém, como pesos, as percentagens da população, distribuída entre ricos e pobres. Digamos que, no Brasil, há 20% de “ricos” e 80% de “pobres”. A nova taxa de crescimento apresentar-se-á como: 8% x 20% + 0,8% x 80% = 1,6% + 0,64 = 2,24%.

Com as mesmas taxas anteriores de crescimento das rendas dos “ricos” e dos “pobres”, a taxa de crescimento total é, agora, muito inferior (2,24% status quo ou a manutenção das desigualdades.

Situação progressiva: na Ciência Econômica convencional, não há uma teoria macroeconômica da distribuição da renda. A Teoria Econômica, ut sic, trata de alocação e eficiência econômicas e não de distribuição ou justiça. A distribuição é questão política, com pesos para cada classe social decididos politicamente.

Para diminuirmos as desigualdades na distribuição da renda (fluxos), os pesos para os pobres devem ser maiores do que sua proporção demográfica. E nem estamos falando de distribuição da riqueza (estoques)... Conservando as taxas de crescimento da renda das duas classes socioeconômicas, demos politicamente pesos de 10% para os “ricos” e de 90% para os “pobres”.

O resultado será: 8% x 10% + 0,8% x 90% = 0,8% + 0,72% = 1,52%. Pelo presente exercício, a importância das duas classes tornou-se praticamente igual (0,8% e 0,72%), no crescimento da renda total (1,52%). Somente com um peso, para os pobres, maior do que sua proporção na população (e uma maior taxa de crescimento de sua renda), serão diminuídas as desigualdades na distribuição da renda (não, ainda, da riqueza). Eis o significado de “políticas de combate às desigualdades”.

De qualquer modo, chama a atenção (em nosso exercício) o fato de que, à proporção em que fomos melhorando a distribuição, a taxa de crescimento da renda total apresentou-se como menor (5,05%, 2,24% e 1,52%). Enfatizemos, porém, que nos três exemplos não variaram as extremadas taxas de crescimento da renda de cada classe (8% e 0,8%).

Temos dois pontos: 1) a taxa de crescimento global diminuiu, mas as desigualdades também; 2) se conseguirmos aumentar significativamente a taxa de crescimento da renda dos pobres, reverteremos o decréscimo da taxa global e diminuiremos muito mais as desigualdades. É o que buscam os Programas Sociais.

Como o Presidente Lula argumentou, em um dos debates da campanha eleitoral, já tivemos períodos de elevadas taxas de crescimento da renda, concomitantemente com a das desigualdades (o “Milagre” brasileiro). Era a velha teoria ideológica do “crescimento do bolo”, a crença nos efeitos de gotejamento (trickle-down effects) ou transbordamento (spill-over effects).

A experiência nos mostra que nem o crescimento, nem o mercado sozinhos distribuem com justiça os fluxos econômicos. As iniqüidades sociais não podem então diminuir, sobretudo em um País que, em sua formação histórica, não repartiu entre todos os cidadãos os estoques da riqueza. Torna-se necessária a “opção preferencial pelos pobres”, enunciada pela Igreja católica na América Latina. A questão é política.

Temos que decidir que tipo de sociedade construiremos: será iníqua, desequilibrada, violenta, autoritária, “a Sociedade do Mal-estar”, ou será justa, decente, pacífica, democrática, “a Sociedade do Bem-estar”? (Ser ou não ser, eis a questão. Ou, o desenvolvimento é o novo nome da paz).

Por tudo isso, é preciso ter cuidado com a palavra “crescimento”, desbragadamente utilizada. Mas, além disso, nem introduzimos aqui as qualificações adicionais que levanta a nova ciência da Economia Ecológica. Por exemplo, estudos da Pegada Ecológica indicam que, se toda a população mundial buscasse atingir o padrão de vida do norte-americano médio, teríamos necessidade de 5,2 planetas Terra!.. Mais do que o crescimento, o que importa é a qualidade de vida. Há panos para muitos outros artigos...
(imagem: The Rich Jew and the Poor Jew: www.galerea.com)

*Osório Viana é Livre-docente em Desenvolvimento Sustentável, aposentado da UFC (PRODEMA) e do BNB (ETENE)


04 junho 2009

A INFLUÊNCIA DOS ASTROS

Cotidiano de estrelas


O Museu do Eclipse, em Sobral, foi fundado em 1999 em comemoração aos 80 anos da comprovação da Teoria da Relatividade. O espaço, climatizado, é dotado de um moderno observatório onde os visitantes podem conferir uma exposição de registros obtidos por luneta e fotos originais utilizadas para comprovar a Teoria de Einstein, além das fotos que registraram a presença de sua expedição científica a Sobral.

Além de imagens de galáxias e planetas, o primeiro mapa lunar do Brasil e o jornal The New York Times que noticiou a comprovação da Teoria, um simulador elétrico de eclipses e réplicas movimentadas do Sistema Solar traduzem, de modo virtual, as experiências das expedições astronômicas.

O Museu está localizado na Praça do Patrocínio, ponto da observação do eclipse de 1919. Para compor o complexo, há ainda um monumento erguido em 1974 em homenagem ao eclipse. O Museu do Eclipse é filiado à Associação Mundial de Astronomia.

Além de programação para visitantes com acompanhamento guiado, o museu também oferece cursos de capacitação para professores. Pelo menos uma vez por semana são realizadas palestras de divulgação científica para o público leigo sobre Astronomia, Cosmologia e História da Ciência.

No período noturno, quando as condições atmosféricas permitem, são realizadas observações detalhadas de corpos celestes de maior visibilidade, como a Lua e alguns planetas.

O Museu do Eclipse em Sobral ajuda também a demonstrar que muitas aplicações da Astronomia estão no dia-a-dia das pessoas. Esta ciência contribuiu para obtermos a nossa organização do tempo e do espaço, assim como na medição da duração do dia, das estações do ano, e na navegação.

Está presente também na vida atual quando, por meio de satélites, faz-se a transmissão de informações por telefone, via televisão, estudos sobre a desertificação, localização de bacias petrolíferas, prevenção de incêndios. São inúmeras as contribuições da Astronomia, inclusive no estudo de novos medicamentos.

Sua influência cultural é outro exemplo, que ampliou o conhecimento do homem sobre si mesmo. O presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia (SBAA) e diretor do Planetário Rubens de Azevedo em Fortaleza, Dermeval Carneiro, observa que a Astronomia parece abstrata, mas não é. “Ela está presente no nosso dia-dia de várias maneiras, pois na produção de alimentos e na agropecuária estão envolvidas questões relativas ao clima, vegetação e incidência dos raios solares”.

Ele acrescenta que tudo isso interfere na economia. Carneiro, que há 35 anos se dedica à Astronomia, ressalta que a iniciativa da ONU de eleger 2009 como o Ano Internacional da Astronomia (AIA), é uma maneira de estimular os países que fazem parte da organização a divulgarem mais esta ciência.

Afinal, foi a Astronomia que forneceu as ferramentas conceituais para a Astronáutica, bem como possibilitou chegar-se à análise espectral da luz e à fusão nuclear. Segundo o pesquisador, não obstante todas estas contribuições durante muitos anos a Astronomia foi considerada, no Brasil, como uma ciência que se limitava a observar as estrelas.

O estudante Cláudio Henrique, 12, afirma que se interessa pela Astronomia como um todo, principalmente quando se trata de sua parte prática, acrescentando que, além de ler sobre o assunto, gosta dos estudos em laboratório e no observatório.

Já Dennis Weaver, diretor do Observatório do Colégio Christus (também na capital cearense), aponta que estão previstas, como parte da programação do AIA, observações telescópicas em espaços públicos. As metas desta iniciativa incluem tornar as descobertas astronômicas mais presentes na vida diária das pessoas, por meio de sua divulgação em documentários de TV, rádio, jornais e exposições.

Os países que participam da programação do AIA vão relatar à coordenação internacional do evento a participação da sociedade e as atividades realizadas. Com a avaliação, os organizadores querem pesquisar o número de pessoas leigas, especialmente jovens e crianças, que viram o céu por meio de telescópio. “Entre as propostas do AIA está a difusão e a popularização da Astronomia”, ressalta o professor de Física e Astronomia Heliomarzio Rodrigues Moreira.
(do jornal O POVO)


O ECLIPSE DE 1919

Uma das observações científicas mais importantes de toda a história da Astronomia foi realizada no Brasil, em Sobral (CE), por astrônomos da Royal Astronomical Society de Londres, durante o eclipse total do Sol de 1919.

Segundo a Teoria Geral da Relatividade, publicada por Einstein em 1915, a matéria (massa) "distorce" o espaço e o tempo em suas proximidades. Como conseqüência desta distorção, um feixe de luz, ao passar próximo de uma grande massa, deve ser desviado (mudança em sua direção de propagação) por uma quantidade maior do que previa a Teoria da Gravitação formulada por Isaac Newton no século XVII e até então inquestionável.

A luz de uma estrela ao passar próxima ao Sol deveria ser desviada, segundo Einstein, por 1,75 segundos de arco, desvio esse duas vezes maior do que o previsto pela teoria de Newton. Em 1913, Einstein comunica a um astrônomo a sua nova teoria.

O astrônomo Arthur Eddington, da Universidade de Cambridge, rapidamente reconheceu a importância do que teoricamente afirmava Einstein e o fato de poder ser verificada tal teoria durante a totalidade de um eclipse solar — quando podemos ver estrelas que, naquele momento, se encontram quase atrás do Sol.

As posições dessas estrelas, nesse momento, seriam vistas deslocadas pela quantidade prevista por Einstein? O eclipse de 29 de maio de 1919 ofereceria as condições ideais para essa verificação, quando o Sol eclipsado ficaria, visto da Terra, bem próximo a estrelas relativamente brilhantes. (foto: Einstein e Eddington em Cambridge)

Duas expedições foram então organizadas pela Royal Astronomical Society para observar esse fenômeno. Uma delas, chefiada pelo astrônomo Andrew Crommelin, veio para Sobral (CE), cidade, à época, com 2 mil habitantes. Uma outra, chefiada pelo próprio Eddington, dirigiu-se para a Ilha do Príncipe na costa atlântica africana (proximidades da Guiné Equatorial): estes eram os locais apontados pelos cálculos astronômicos como os que apresentariam as melhores condições para comprovar ou refutar a teoria formulada por Einstein.

Na Ilha do Príncipe, o mau tempo prejudicou o trabalho. Na hora do eclipse o céu estava nublado, permitindo que apenas duas das várias fotografias efetuadas apresentassem imagens de estrelas. Porém, Sobral apresentou condições meteorológicas muito melhores, e assim foram obtidas sete boas imagens do fenômeno. No início de novembro daquele ano, a Royal Astronomical Society anunciou que os resultados obtidos confirmavam a teoria de Einstein.
(leia além em www.observatorio.ufmg.br)


SAIBA MAIS

Metas AIA 2009 :
>> Difundir na sociedade uma mentalidade científica;
>> Promover acesso a novos conhecimentos e experiências observacionais;
>> Promover comunidades astronômicas em países em desenvolvimento;
>> Promover e melhorar o ensino formal e informal da ciência;
>> Fornecer uma imagem moderna da ciência e do cientista;
>> Criar novas redes e fortalecer as já existentes;
>> Ampliar a mentalidade científica entre o público geral com a comunicação de resultados científicos na Astronomia;
>> Promover comunidades astronômicas em países em desenvolvimento por meio de colaborações internacionais;
>> Apoiar e melhorar o ensino formal e informal de ciências em escolas, centros de ciências, museus e planetários.


NAVEGUE
AIA-Ano Internacional da Astronomia 2009
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SBAA-Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia
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04 maio 2009

É FRIA: SOBRANDO PRA NÓS, CERTAMENTE

Epidemia de lucro


A epidemia de gripe suína que — dia-a-dia — ameaça expandir-se por mais regiões do mundo não é um fenômeno isolado. É parte da crise generalizada e tem suas raízes no sistema de criação industrial de animais, dominado pelas grandes empresas transnacionais.

No México, as grandes empresas de criação de aves e suínos têm proliferado amplamente nas águas (sujas) do Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Um exemplo é a Granja Carroll, em Veracruz, propriedade da Smithfield Foods, a maior empresa de criação de porcos e processamento de produtos suínos no mundo, com filiais nos EUA, na Europa e na China.

Em sua sede de Perote começou há algumas semanas uma virulenta epidemia de enfermidades respiratórias que atingiu 60% da população de La Gloria, fato informado por La Jornada (primeiro jornal online em Espanhol) em várias oportunidades, a partir das denúncias dos habitantes do lugar.

Eles, há uns anos, travam uma dura luta contra a contaminação causada pela empresa e têm sofrido, inclusive, repressão das autoridades por denunciar. A Granjas Carroll declarou que não está relacionada nem é a origem da atual epidemia, alegando que a população tinha uma gripe "comum". Não foram feitas análises para saber exatamente de que vírus se tratava.

Em contraste, as conclusões do painel Pew Commission on Industrial Farm Animal Prodution (Comissão Pew sobre a Produção Animal Industrial), publicadas em 2008, afirmam que as condições de criação e confinamento da produção industrial, sobretudo em suínos, criam um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas.

Inclusive, mencionam o perigo de recombinação da gripe aviária e da suína e como finalmente isto pode chegar a recombinar em vírus que afetem e sejam transmitidos entre humanos. Mencionam também que por muitas vias, incluindo a contaminação das águas, pode chegar a localidades longínquas, sem aparente contato direto.

Um exemplo do que devemos aprender é o processo de surgimento da gripe aviária — ver, por exemplo, o relatório de Grain, que ilustra como a indústria avícola criou a gripe aviária: www.grain.org.

Porém, as respostas oficiais diante da crise atual, além de tardias — esperaram que os EUA anunciassem primeiro o surgimento do novo vírus, perdendo dias preciosos para combater a epidemia — parecem ignorar as causas reais e mais contundentes.

Mais do que enviar cepas de vírus para seu seqüenciamento genômico a cientistas, como Craig Venter, que enriqueceu com a privatização da pesquisa e seus resultados (seqüenciamento que, com certeza, já foi feito por pesquisadores públicos do Centro de Prevenção de Enfermidades em Atlanta/EUA), o que se necessita é entender que esse fenômeno vai continuar repetindo-se enquanto existam os criadores dessas enfermidades.

Já na epidemia, são também transnacionais as que mais lucram: as empresas biotecnológicas e farmacêuticas que monopolizam as vacinas e os antivirais. O governo anunciou que tinham um milhão de doses de antígenos para atacar a nova variedade de gripe suína; porém, nunca informou a que custo.

Os únicos antivirais que ainda têm ação contra o novo vírus estão patenteados na maior parte do mundo e são de propriedade de duas grandes empresas farmacêuticas: o zanamivir, com nome comercial Relenza, comercializado pela GlaxoSmithKline, e o oseltamivir, cuja marca comercial é Tamiflu, patenteado pela Gilead Sciencies, licenciado de forma exclusiva pela Roche.

Glaxo e Roche são, respectivamente, a segunda e a quarta empresas farmacêuticas em escala mundial e, igualmente como no restante de seus remédios, as epidemias são suas melhores oportunidades de negócio.

Com a gripe aviária, todas elas lucraram centenas ou milhões de dólares. Com o anúncio da nova epidemia no México, as ações da Gilead subiram 3%, as da Roche 4% e as da Glaxo 6%; e isso é somente o começo.

Outra empresa que persegue esse lucrativo negócio é a Baxter, outra farmacêutica global (ocupa o 22.º lugar), e que teve um "acidente" em sua fábrica na Áustria, em fevereiro de 2009. Enviou um produto contra a gripe para a Alemanha, Eslovênia e República Tcheca contaminado com vírus da gripe aviária. Segundo a empresa, "foram erros humanos e problemas no processo", do qual não pode dar detalhes, "porque teria que revelar processos patenteados".

Tanto mais grave é que não necessitamos enfrentar somente a epidemia da gripe, mas temos que necessariamente enfrentar também a epidemia do lucro.
(Publicado em La Jornada, México e traduzido por A. de Tal)

*Silvia Ribeiro é pesquisadora do grupo ETC, que realiza estudos sócio-econômicos e ecológicos

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www.etcgroup.org

A gripe dos porcos e a mentira dos homens
O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Gloria, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods.

La Gloria é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso.

Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Gloria, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente. Os moradores de La Gloria — alguns deles trabalhadores da Carroll — não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano.

Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Gloria, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos.

A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou.

Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país.

É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata. Assim, o episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão.

A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala — no nível da exploração familiar — tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.

Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos EUA, embora os porcos não comam peixe na natureza (!). De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos.

Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.

As Granjas Carroll — como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos — mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade.

A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam — como ocorre, no Brasil, com a Daslu — argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.

O governo mexicano pressionou, e a OMS-Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Gloria, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína.

O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll — com a cumplicidade da OMS. No Brasil, com certeza não é diferente.

*Mauro Santayana é colunista da Agência de Notícias "Carta Maior"

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www.releituras.com/msantayana_menu.asp

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20 abril 2009

ATÉ QUE NÃO ME SEJA MAIS POSSÍVEL

Bombas na tevê


Hoje, a tarde é gris. Grisalhas são as nuvens parcas, pairando sobre minha cabeça como se fossem chover. Na cozinha, a geladeira é um clarão azul, recém-pintada, contrastando com o agressivo branco dos azulejos das paredes.

Em ouro líquido derrama-se o refresco de manga no copo prateado de alumínio. Meu cachorro resplandece de um retumbante negro e amarelo. E assim de loucos desejos, feito cores variegadas, sou feito à minha própria imagem e semelhança.

O mar tem a cor da imaginação dos olhos de quem o vê, menos a cor do desespero. Já a minha tristeza é avermelhada como as brasas do fogão de lenha de minha avó, no tempo das grandes inocências. Minha alegria é um arco-íris de uma timidez sem par.

Acendo um cigarro, penso na vida que estou levando e tudo no mundo volta ao normal. Sou um cara teimoso e, como diria Otto Lara Resende, sei que intelectual no Brasil não passa de um bostinha e o saber torna-se uma condenação ao ostracismo.

No Brasil, somente os cretinos fundamentais são considerados felizes e a mediocridade se transforma numa milagrosa bênção. Algumas pessoas odeiam de morte os intelectuais, mas se não lhes custasse demasiado caro, decerto possuiriam um de estimação, pra fazer bonito na sala de visitas quando dessem uma festa para puxar o saco do patrão ou do cacique político.

Meus raros dissidentes afetivos dizem de mim que sou um poço sem fundo de vaidade indevida. Vai ver estão todos absolutamente certos ou esquecem que sou míope e míope é mesmo uma gentinha que não se enxerga.

As bombas terroristas explodem vez em quando na tevê e eu vejo, banhada em sangue, a pomba da paz crucificada em minha janela. Tenho tanta coisa séria para pensar hoje, porém só consigo pensar em mim mesmo — e em como a existência cotidiana anda difícil nesses tempos tão bicudos.

Aporrinhações, aperreios, aflições, falta de dinheiro e até mesmo de um pouco de esperança. Portanto, se faz necessário imediatamente uma pitada de bom-humor, senão onde me restaria um pingo de fugidia esperança?

Esperança. Por vezes, me pergunto se não seria mais sadio riscar esta palavra do meu dicionário. Como sou teimoso, insisto em acreditar nela até que não me seja mais possível acreditar em mais nada.

*Airton Monte é psiquiatra, escritor e colunista do Jornal da Praia há pelo menos 20 anos