14 novembro 2009

TRAÇOS, ESBOÇOS

Imagens das Segundas



Acendo mais um cigarro dentro da noite veloz, como quem conversa com um velho amigo e lhe faz confidências que não mais faria a ninguém. Faz pouco, fui beber um gole de café e a xícara escapou-me das mãos e espatifou-se dentro da pia.

Por incrível que pareça, quase na mesma hora lembrei-me de um verso de Carlos Drummond de Andrade, poeta que venho relendo com uma certa frequência: "Os cacos da vida, colados / Formam uma estranha xícara / Sem uso / Ela nos espia do aparador".

Creio que a minha vida anda assim, um tanto quanto parecida com esta xícara de café que acabei de quebrar por puro descuido.

Escrevo numa segunda-feira, seis horas da noite e as segundas-feiras para mim são um arremedo de dia, uma infeliz brincadeira de mau-gosto do tempo. Eu sei que elas jamais podem deixar de existir e que sempre seriam segundas-feiras, mesmo que lhes mudássemos o nome.

"As segundas-feiras estão atravancadas de pormenores inúteis / a vida parece um romance malfeito", como bem o disse o poeta Mário Quintana.

Não faz muito, um bom amigo telefonou para saber como está meu pai e me fala, em tom carinhoso, que todos estão muito preocupados comigo, se estou comendo direito, dormindo direito. Respondo que não há motivo para preocupações e que a vida segue seu curso.

Ando meio triste, devo confessar, contudo não estou tão desesperado ainda. Simplesmente continuo, prossigo vivendo do jeito que dá e que posso. Claro que deixei, por esses dias, de ser aquele sujeito brincalhão, sempre fazendo brincadeiras, com a gargalhada prestes a ser desatada a qualquer piada.

Mas também não ando chorando pelos cantos, exibindo com ar funéreo as minhas penas. Há dias melhores, há dias piores no carrossel do meu existir. Por vezes, penso que estou vivendo um pesadelo do qual despertarei em qualquer próxima manhã radiante de sol, perfumada de flores e de pássaros.

Giovanni Papini costumava dizer que a vida não é sonho, mas a urdidura dos sonhos pode iluminar e embelezar a trama da vida. E eu concordo completamente com ele.

Somos tão frágeis, tão fracos, tão egoístas que só conseguimos pensar em torno do nosso mundinho como se as outras pessoas também não tivessem lá a sua cota de sofrimentos e pesares.

Não sou o único a seguir o meu solitário Calvário. Pego da caneta e escrevo o que ainda consigo escrever. Ah, como eu gostaria que fossem palavras bonitas, frases irretocáveis. No entanto, só me saem estes garranchos espinhosos e urtigas.


*O cronista Airton Monte, que é nas horas vagas psiquiatra, redige impressões do viver para o Jornal da Praia desde a década de 1980

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http://opovo.uol.com.br/opovo/colunas/airtonmonte

13 novembro 2009

EUFEMISMO INDIGESTO

"Abate humanitário"?!?!?



Conforme certa definição, "abate humanitário" é o "conjunto de procedimentos" que "garantem o bem-estar dos animais que serão abatidos", desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorífico.

"Humanitário" . . . "bem-estar" . . . são palavras muito fortes, que não refletem o que realmente querem dizer. Termos como “humanitário” e “bem-estar” deveriam ser aplicados apenas nos casos em que buscamos o bem do indivíduo, e não para as situações em que procuramos matá-lo de alguma forma.

Quando enviamos ajuda humanitária à Africa, não estamos enviando recursos para que os africanos possam se matar de uma forma mais rápida e menos dolorosa. Não estamos pensando: “Bem, aquele continente vive na miséria, cheio de fome, doenças e guerras, vamos resolver isso matando-os”. Ajuda humanitária significa alimentos, água, remédios, cobertores — ou seja, intervenções realmente em benefício daqueles indivíduos.

Quando falamos em "bem-estar social", "bem-estar do idoso", "bem-estar da criança", não estamos pensando em outra coisa senão proporcionar o bem a essas pessoas. Jamais pensamos em métodos de "matá-los com menos sofrimento", porque isso seria o contrário de bem-estar, seria o contrário do que consideramos humanitário.

Por isso, quando escutamos alguém falar em “abate humanitário”, isso soa como um contrassenso. A primeira palavra representa algo que vai contra os interesses do indivíduo e a segunda encerra um significado que atende aos seus interesses.

Igualmente, a idéia de “bem-estar de animais de produção” é um contrassenso, pois a preocupação com o bem-estar implica em preocupar-se com a vida, e não visar sua morte ou exploração de alguma forma.

Essas duas ideias — "abate" e "humanitário" — só se harmonizam quando a morte do animal atende aos seus próprios interesses, como no caso em que o animal padece de uma enfermidade grave e incurável e a continuidade de sua vida representa um sofrimento. Nesses casos a eutanásia, ou dar fim a uma vida seguindo uma técnica menos dolorosa, pode ser classificada como humanitária, e uma preocupação com o bem-estar.

As organizações e campanhas que pregam pelo "abate humanitário" alegam que esse é "um modo de evitar o sofrimento desnecessário dos animais que precisam ser abatidos". Mas o que é o “sofrimento necessário” e o que diz que animais “precisam ser abatidos”?

O abate de animais para consumo não é, de forma alguma, uma necessidade. As pessoas podem até comer carne porque querem, porque gostam ou porque sentem ser necessário, mas ninguém pode alegar que isso seja uma necessidade orgânica do ser humano.

Porém, se comer carne é hoje uma opção, não comê-la também o é. Se uma pessoa sinceramente sente que animais não devem sofrer para servir de alimento para os seres humanos, seria mais lógico que essa pessoa adotasse o vegetarianismo, ao invés de ficar inventando subterfúgios para continuar comendo animais sob a alegação de que esses não sofreram.

A insensibilização que antecede o abate não assegura que o processo todo seja livre de crueldades, especialmente porque o sofrimento não pode ser quantificado com base em contusões e mugidos de dor. Qualquer que seja o método, os animais perdem a vida e isso por si só já é cruel.

Caso todo o problema inerente ao abate de uma criatura sensível se resumisse à dor perceptível, matar um ser humano por essa mesma técnica não deveria ser considerado um crime. Caso o conceito de "abate humanitário" fizesse sentido, atordoar um ser humano com uma marretada na cabeça antes de sangrá-lo e desmembrá-lo não seria um crime — e menos ainda matá-lo com um tiro certeiro na cabeça.

Está claro que a idéia de "abate humanitário" não cabe, e nem atende aos interesses dos animais. Mas se não atende aos interesses dos animais, ao interesse de quem ela atende?

A questão é bastante complexa, porque envolve ideologias, forças do mercado, psicologia do consumidor e política, entre outras facetas. O conceito de "abate humanitário" atende aos interesses de diferentes grupos (pecuaristas, grupos auto-intitulados “protetores de animais”, políticos etc.), não necessariamente integrados entre si.

Pecuaristas têm interesse no chamado "abate humanitário" porque ele não implica em gastos para o produtor, mas investimentos que se revertem em lucros. A carne de animais abatidos “humanitariamente” tem um valor agregado. O consumidor paga um preço diferenciado por acreditar que está consumindo um produto diferenciado.

Possuir um selo de “humanidade” em sua carne significa acesso a mercados mais exigentes, como o europeu. Além disso, verificou-se cientificamente que o manejo menos truculento dos animais reflete positivamente na qualidade do produto final, e, portanto, mudanças nesse manejo atendem aos interesses do pecuarista pois melhoram a produção e agregam valor ao produto.

Os chamados protetores de animais têm interesses no abate humanitário, mas não porque este é condizente com o interesse dos animais. Em verdade, esses “protetores“ não se preocupam com animais — talvez, sim, com cães e gatos, mas não com animais ditos “de produção”. Esses “protetores de animais” não os protegem: eles os criam, depois os matam e depois os comem. Eles podem não criá-los nem matá-los, mas certamente os comem e mesmo quando não o fazem por algum motivo, não se opõem a que outros o façam.

“Protetores de animais” lucram com o conceito de "abate humanitário", pois isso lhes rende a possibilidade de fazerem parte do mercado. Há entidades de “proteção” animal que se especializaram em matar animais. Sob a pretensão de estarem ajudando aos animais, elas mantêm fazendas-modelo onde pecuaristas podem aprender de que forma melhorar sua produção de carne, leite e ovos e de que forma matar animais de uma maneira mais aceitável pelo ponto de vista do consumidor comum. Podem também lucrar, servindo como consultores em frigoríficos.

Simultaneamente, essas entidades fazem propaganda no sentido de convencer o consumidor de que todo o problema relacionado ao consumo de carne encontra-se na procedência da carne, na forma como os animais são mortos, e não no fato de que eles são mortos em si. A fórmula é muito bem-sucedida, pois essas entidades acabam gozando de bom prestígio entre pecuaristas e consumidores comuns, não se opondo a quase ninguém. Políticos vêem na aliança com essas entidades a certeza de reeleição, e por isso elas contam também com seu apoio.

Exercendo seu poder para educar as pessoas ao “consumo responsável” de carne, essas entidades não pedem que as pessoas façam nada diferente do que já faziam. Elas não propõem uma mudança, de fato, em favor dos animais, pois os padrões de consumo da população mantêm-se os mesmos e os animais continuam a ser explorados.

A diferença está no fato de que essas campanhas colocam a entidade em evidência: a tal entidade se promove, deixando a impressão de que faz algo de realmente importante em nome de uma boa causa. Dessa forma, as pessoas realizam doações e manifestam seu apoio, ainda que sem saberem ao certo o que estão apoiando.

Com a carne abatida de forma “humanitária”, o consumidor se sente mais à vontade para continuar consumindo carne, pois o incômodo gerado pela ideia de que é errado matar animais para comer é encoberta pela idéia de que, naqueles casos, os animais "não sofreram para morrer". E o pecuarista lucra mais, porque pode cobrar um preço maior por seus produtos, bem como colocar seus produtos em mercados mais exigentes.

De toda forma, os interesses desses grupos não coincidem com os interesses dos animais, e por esse motivo não faz sentido que esses grupos utilizem nomenclaturas tais como como "bem-estar" e "humanitário", que podem vir a dar essa impressão.

Entidades que promovem o "abate humanitário" não protegem animais, mas sim promovem sua exploração. Elas estão alinhadas com os setores produtivos, que exploram os animais, e não com os animais. Se elas protegessem animais, trabalhariam pelo melhor de seus interesses. Seriam, eles mesmos, vegetarianos — e não consumidores de carne. No entanto, adotando sua postura e sua retórica, não desagradam a praticamente ninguém, e dessa maneira enriquecem e ganham influência.

Entidades que realmente promovem o bem dos animais esforçam-se em ensinar às pessoas que animais jamais devem ser usados para atender às nossas vontades. Elas devem se posicionar de forma clara a mostrar que comer animais não é uma opção ética, e que não importa que métodos utilizemos de criação e abate, isso não mudará a realidade de que animais não são produtos e que o problema de sua exploração não se limita à forma como o fazemos.

Ainda que uma campanha pelo vegetarianismo provavelmente conte com menos popularidade e menor adesão da população, até porque isso demanda uma mudança verdadeira na vida das pessoas, certamente uma campanha nesse sentido atende ao interesse real dos animais.

Ainda que reconhecendo que abater animais com menos crueldade é menos ruim do que abatê-los com mais crueldade, repudiamos que o abate que envolve menor crueldade seja objeto de incentivo. Esses "métodos" não deveriam ser incentivados, premiados, promovidos ou elogiados, porque "um pouco menos cruel" não é sinônimo de "sem crueldade", e só porque é algo um pouco mais controlado não quer dizer que seja certo ou correto.


* O biólogo da UNICAMP Sérgio Greif é mestre em Alimentos e Nutrição, co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável".


O AUTOR
sergio_greif@yahoo.com

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www.sentiens.net

www.anda.jor.br/?p=3086

10 novembro 2009

CRIMINÍNDIOS DESTERRADOS

Cancelamento de reserva



Uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados prevê o cancelamento da propriedade de terras indígenas onde ocorrerem crimes ambientais — como venda ilegal de madeira ou tráfico de animais. A ideia, segundo o autor do projeto, o deputado Dr. Ubiali (Marco Aurélio Ubiali, do PSB-SP), é que os próprios índios se fiscalizem. “O objetivo maior não é puni-los, mas que eles sejam responsabilizados por atividades para as quais hoje se faz vista grossa”, afirma o parlamentar.

Pelo projeto de lei, qualquer condenação em última instância — depois que são apresentados todos os recursos — por um crime ambiental cometido em uma terra indígena faria com que essa reserva fosse cancelada, e todas as pessoas que morassem ali perdessem o direito de viver no local. “Se você tiver uma exploração ilegal em uma área de uma determinada tribo, é quase certo que isso é do conhecimento de todos, e se eles ignoram, são coniventes”, diz Ubiali.

Um mapa do Imazon mostra as terras indígenas (em laranja) e pontos da devastação ocorrida em setembro (em vermelho). Segundo o instituto, apenas 3% do desmatamento desse período ocorreu dentro de reservas indígenas, apesar delas ocuparem 21,6% da Amazônia.

Puorém, para a advogada Paula Souto Maior, do ISA-Instituto Socioambiental, o projeto fere a Constituição, pois estabelece uma punição coletiva aos indígenas. “A pena não pode passar para a família da pessoa que cometeu o ato ilegal”, afirma.

Segundo Ubiali, contudo, a punição à comunidade toda pode ser aplicada no caso dos índios. “É uma punição coletiva porque o crime é coletivo. Na tribo, você não tem um indivíduo cometendo um ilícito. Não há a figura do indivíduo dentro de uma tribo. A tribo tem um comportamento como um todo”, argumenta o deputado.

O líder indígena Aílton Krenak, conhecido por defender a Amazônia junto com Chico Mendes na década de 1980, discorda do deputado. Segundo ele, cada pessoa deve ser tratada separadamente e a própria legislação brasileira já prevê punição individual para índios que cometem crimes. “Como se pode dizer que crianças, velhos e outras pessoas da comunidade devam responder por quem cometeu um crime?”, questiona.

No conjunto dos fatos, apesar de haver problemas ambientais dentro de terras indígenas, esse é o tipo de reserva em que há menos desmatamento. Segundo os dados de devastação de setembro de 2009, publicados pela ONG Imazon-Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, houve 216 km² de desmatamento nesse mês e apenas 5 km² (3%) teriam ocorrido dentro de terras indígenas — apesar desses territórios ocuparem 21,6% da Amazônia brasileira. Os parques e reservas estaduais, por sua vez, sofreram 15 km² de desmatamento, e ocupam 20% da Amazônia.

“As terras indígenas têm se mostrado mais eficazes para a conservação da floresta do que as unidades de conservação — parques e reservas — que se beneficiam do aparato do Ibama, das secretarias de meio ambiente dos estados, e que têm gente trabalhando fazendo a manutenção e monitoramento dessas unidades”, aponta Krenak.

Questionado sobre a possibilidade de seu projeto ser aplicado também a propriedades privadas, Ubiali afirma que pretende apresentar uma emenda para que donos de terra também possam perder suas fazendas. De acordo com ele, a ideia será apresentada durante as discussões na Câmara para alterar o Código Florestal — lei que define, entre outras coisas, o quanto deve ser preservado dentro de cada terreno rural.

A proposta sobre terras indígenas tramita na Comissão de Meio Ambiente e, caso seja aprovada por essa e outras comissões, não precisará ir para votação no plenário para seguir ao Senado.

Desmatamentos, queimadas e notícias sobre toda a Amazônia Legal podem ser encontradas no mapa interativo Amazônia.vc, que também possibilita aos internautas protestar contra a destruição da floresta. O aplicativo Amazônia.vc foi desenvolvido em parceria com o INPE-Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, pelo programa Fantástico e Globo.com e traz mapa interativo com queimadas e desmatamento da região, permitindo a sua participação. Participe.

*por Iberê Thenório, em www.portaldomeioambiente.org.br (imagem: alguns Karitiana em pib.socioambiental.org)


VEJA MAPAS
www.imazon.org.br

22 outubro 2009

VELHA CIVILIZAÇÃO, NOVOS MODELOS

Momento decisivo


Os modelos de produção agrícola, de uso do solo e de aproveitamento dos recursos naturais que caracterizaram o século 20 não são sustentáveis — e trouxeram uma crise de abastecimento hídrico, graves alterações climáticas, escassez de matérias-primas e de fontes de energia tradicionais, entre outros problemas. O mundo — e o Brasil em particular — vive atualmente um momento decisivo para a escolha de novos modelos de civilização.

Em síntese, esta é a análise que pesquisadores em diversas áreas, reunidos terça-feira (20/10) em São Paulo, fizeram durante o seminário Desafios socioambientais para o século 21, realizado pelo IEA-Instituto de Estudos Avançados da USP-Universidade de São Paulo, que homenageou o geógrafo e ambientalista Aziz Ab'Saber (foto).

O evento foi promovido em conjunto por diversas entidades nas quais Ab’Saber atuou: IEA, SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, AGB-Associação dos Geógrafos Brasileiros e o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH) da USP.

“Há muitos anos venho refletindo sobre o Brasil e posso afirmar que um dos maiores problemas da nossa terra é a dificuldade que temos na socialização do conhecimento. Os políticos, de modo geral, não querem ouvir os cientistas e não estão interessados em usar o conhecimento para transformar a realidade. Os geógrafos não têm conseguido mostrar a eles a originalidade do conjunto do País, de sua territorialidade e de seus recursos fantásticos”, afirmou Ab’Saber durante a sessão em sua homenagem.

De acordo com o coordenador do seminário, Wagner Costa Ribeiro, pesquisador do IEA e professor do Departamento de Geografia da USP, o evento foi concebido com o objetivo de resgatar aspectos da trajetória de Ab’Saber, analisando e discutindo o tema dos desafios socioambientais.

“Entre tantas virtudes do professor Ab’Saber, uma das maiores é a profunda capacidade de projetar e analisar cenários. Por isso, achamos que a homenagem ideal a ele seria propor uma reflexão sobre a condição contemporânea, projetando cenários futuros e mostrando como a obra dele continua influenciando a busca de alternativas que resultem em maior inclusão social e resolução de problemas ambientais”, contou Ribeiro à Agência FAPESP.

Segundo Ribeiro, a necessidade de optar por novos modelos agrícolas e energéticos motivou a realização do seminário. “É um momento propício para a discussão e proposição de alternativas e modelos. A sociedade brasileira precisa ter consciência de que ainda é possível pensar em modelos de desenvolvimento que sejam mais adequados às condições socioambientais do País. Mas, para isso, é importante pensar de maneira integrada — como sempre propôs Ab’Saber”, explicou ele.

Durante o seminário, Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas e coordenador do Programa Biota-FAPESP, apresentou palestra sobre o tema “Biodiversidade e mudanças climáticas: de Copenhague a Nagoya”. Para Joly, no Brasil as questões da conservação da biodiversidade e das mudanças climáticas estão fortemente associadas, já que a principal fonte de emissão de dióxido de carbono no País é o desmatamento e a queima de florestas.

“Estamos contribuindo com o aquecimento, enquanto poderíamos estar ajudando a reduzi-lo significativamente. Se diminuirmos em 50% o desmatamento de forma sustentável, isso significaria redução total de 35% dos gases de efeito estufa. Por isso, acho que a posição de negociação do Brasil na Convenção de Mudanças Climáticas tem sido muito tímida”, disse o pesquisador à Agência FAPESP.

Para Joly, o Brasil deveria estar na liderança das negociações sobre mudanças climáticas, principalmente porque o País tem boa matriz energética hidrelétrica e dispõe de um combustível renovável, que é o etanol. E, segundo ele, a redução brasileira de emissões de gases do efeito estufa não configura um impedimento para o desenvolvimento econômico.

“Em 2010 vamos ter a COP10 da Biodiversidade em Nagoya, no Japão, onde os países terão que demonstrar que cumpriram os compromissos assumidos em 2002 na convenção realizada na Holanda, como a redução da perda de biodiversidade. Se não mudarmos o modelo que está derrubando florestas para transformá-las em áreas de pecuária, não vamos chegar nem perto de cumprir essas metas”, advertiu Joly.

Segundo ele, se o governo brasileiro assumir — na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), que será realizada em dezembro — metas internacionais da ordem de 40% de redução de emissão de gases do efeito estufa, este patamar ainda permitiria que o País continuasse com taxas de crescimento de 4,5% a 5% para a próxima década.

Paisagens diferentes
Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, professora do Instituto de Biociências da USP, apresentou a palestra Serviços ambientais, agricultura e conservação no Brasil. Segundo ela, o uso inadequado da terra para fins agrícolas tem causado grandes impactos na conservação da biodiversidade.

“Temos trabalhos científicos que mostram como, no Mato Grosso, houve, entre 2002 e 2005, um grande surto de desmatamento. Quase um terço do cerrado no Estado foi consumido para o agronegócio nesse período. Foi uma expansão fantástica dos negócios, mas não conseguimos conciliar a agricultura com uma paisagem sustentável. Temos que trabalhar em um novo modelo agrícola e de conservação. Mas, por enquanto, o modelo que temos à disposição baseia-se em grandes extensões de plantio”, criticou ela.

De acordo com Vera Lúcia, o conjunto dos estudos mostra que é preciso desenhar uma nova paisagem agrícola, mantendo áreas conservadas junto às plantações a fim de garantir a manutenção de serviços ambientais como a polinização. “Observamos casos como o do açaí, que, ao ganhar importância econômica, estimulou pequenos agricultores de certas áreas da Amazônia a derrubar a floresta para plantá-lo. No entanto, com isso desapareceram as abelhas presentes nessas florestas, que eram responsáveis pela polinização do próprio açaí. A própria produção dependia do serviço ambiental prestado pelas abelhas”, completou.

José Roberto Moreira, do IEE-Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, falou sobre Desafios ambientais: a questão da energia e dos recursos hídricos. O executivo alertou para um grave problema de política internacional que envolve a questão ambiental e a produção de biocombustíveis — em particular o etanol e o biodiesel.
“As nações ricas não têm possibilidade de produzir o etanol a partir da cana-de-açúcar, que é sem dúvida a melhor a fonte de produção de energia, a mais sustentável, que cria menos problemas sociais e ambientais. Esses países, portanto, estão criando barreiras técnicas para justificar e poder limitar a importação deste produto de países tropicais”, concluiu ele.

Moreira apresentou estudos que vêm sendo realizados nos EUA e na União Europeia, voltados a embasar a criação de um protocolo de certificação de produtos derivados da biomassa para exportação. “Esse protocolo, observado até um determinado grau de complexidade, ajuda e estimula a produção de bioenergia, melhorando suas condições e até mesmo trazendo vantagens para o Brasil. Mas, a partir de certo ponto, ele cria custos excessivos, que podem impedir a competição internacional. Estamos preocupados em relação a essa certificação”, apontou.

Segundo informou Moreira, a certificação exigirá demonstração rigorosa dos impactos ambientais e sociais, com provas de que haverá retorno econômico para as populações de baixa renda. “Isso é bom a princípio, mas eles estão imaginando que o fato de substituir um combustível por outro será suficiente para acabar com a miséria do mundo. Trata-se de um ponto de vista extremamente infantil: na realidade, esses países estão usando argumentos ditos 'técnicos' para criar barreiras aos nossos produtos”, alertou.

Participaram ainda do seminário o diretor do IEA, César Ades, Claudio Antonio Di Mauro, da Universidade Federal de Uberlândia, Nabil Bonduki, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e Odette Seabra, José Bueno Conti e Elvio Rodrigues Martins, os três da FFLCH-USP, que veicularam os temas Metrópole paulistana: qualidade de vida e proteção ambiental e Transformação da paisagem brasileira.

*Texto assinado pelo editor da Agência FAPESP, Fábio de Castro

A Agência FAPESP, uma agência de notícias eletrônica gratuita, é um serviço da FAPESP-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que através do site www.agencia.fapesp.br e de boletins diários distribuídos por e-mail, atinge um público formado por pesquisadores, dirigentes de órgãos de fomento, universidades e institutos de pesquisa do País, políticos, jornalistas e outros interessados em ciência e tecnologia, veiculando notícias, entrevistas e reportagens especiais sobre assuntos concernentes à política científica e tecnológica e à divulgação dos resultados de pesquisas desenvolvidas no Brasil e no exterior.

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Aziz_Ab'S%C3%A1ber

13 outubro 2009

INFÂNCIA É 100%

Espírito olímpico


Vejam vocês, caríssimos leitores meus, quantas vezes e tantas o velho destino acaba escrevendo certo por linhas tortas -- ou, então, por linhas mais certas ainda, que a gente nem é capaz de imaginar!

Do contrário, como eu poderia explicar haver sido o velho Monteiro Lobato quem me despertou a fascinação pela mitologia grega?

Eu, quando pequeno, contumaz frequentador do Sítio do Picapau Amarelo, não pude deixar de ler os maravilhosos Os Doze Trabalhos de Hércules, que certamente foi a minha ponte para chegar ao resto dos habitantes do Olimpo.

Assim aprendi que os deuses gregos possuíam a alma igualzinha à nossa, cheia de mesquinharias e grandezas. Os gregos deram também aos seus deuses uma forma humana porque, como bem disse Fídias, o maior escultor grego da Grécia Antiga, o povo heleno desconhecia uma forma mais perfeita existente nesse mundo.

E, assim, nasceram os Jogos Olímpicos, criados para celebrar a beleza e preparar os olímpicos atletas competidores para as futuras porfias nos campos de batalha, como bem convinha a um povo guerreiro como eram os gregos.

O mais interessante é que os competidores se batiam completamente pelados, nus, em nome dos honrados Zeus e Apolo, homenageando o poder e a inteligência, agradando a gregos e troianos. Ao invés de receberem medalhas folheadas a ouro, os vencedores tinham a fronte ornada apoteoticamente por uma coroa de louros.

Além do mais, as Olimpíadas também serviam para quebrar o galho dos helênicos artistas de todas as formas de arte, que tinham assim a ocasião de garantir uns trocados respeitáveis se apresentando em público.

Pintores, escultores, poetas, oradores, dramaturgos, acrobatas e até os filósofos faziam a sua feira em meio à multidão de pessoas presentes aos jogos. Para mim, as Olimpíadas jamais perderam a aura poética, por mais que tenham sido submetidas, ao longo de sua história, a um processo de comercialização.

Isso porque acredito piamente que em cada atleta olímpico ainda resta um brilho, ainda arde uma pequena pira da mais puríssima paixão -- a paixão do desafio, a paixão de vencer os seus próprios limites.

Vencer ou vencer -- eis o único, o verdadeiro espírito olímpico. Simplesmente porque os simples competidores comuns não sobem ao pódio nem entram para a História.


*O psiquiatra e cronista Airton Monte -- aqui no traço do cartunista Lobo (DN) -- escreve para o Jornal da Praia desde a década de 1980

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www.revista.agulha.nom.br/airtonmonte2.html

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=275231

24 setembro 2009

REGGAE DESDE O BERÇO

Sons e dreadlocks



Na estrada há cinco anos, o Faculdade Mental começou tocando em pequenos eventos, calouradas e bares da região do Benfica, bairro de Fortaleza/CE em que se situa um campus da UFC-Universidade Federal do Ceará, outro da UECE-Universidade do Estado do Ceará e o CEFET-Centro Federal de Tecnologia do Ceará (hoje IFET-Instituto Federal de Tecnologia etc.)

Pela qualidade de sua performance, a banda logo conseguiu obter visualização entre os circuitos que movimentam o reggae na cidade, expandindo as oportunidades de apresentação para as barracas das praias do Futuro e do Icaraí e as casas noturnas da Praia de Iracema. Nesse percurso, abriram para bandas de maior renome, tocaram em cidades praianas como Canoa Quebrada, Jericoacoara, Caponga, Paracuru, Taíba e fizeram-se ouvir até no vizinho Rio Grande do Norte.

Seguindo nessa estrada sonora chegaram ao Cariri, tocando em Juazeiro do Norte e Crato e também na "Serração", festival realizado na região da Ibiapaba. Nos shows, um setlist sempre composto por músicas autorais e alguns covers indispensáveis, que são considerados as "pedras" do reggae.

Pilotando o vocal e a guitarra-base, o estudante de Filosofia Ciro Luís pilota o processo criativo da banda, dando asas a uma paixão, segundo ele, que existe desde menino -- quando sentiu-se conquistado pela batida contagiante e começou a assistir a um show atrás do outro e a se enturmar com o universo da música reggae.

Assim embarcou nessa "viagem", que para ele representa "uma odisséia sem limites", encontrando no nome que criou para construir a sua identidade de trabalho todos os sentidos importantes, ou seja, conforme o termo foi dicionarizado, "faculdade" é a "capacidade ou poder de fazer alguma coisa; dom", "liberdade de ação, consentimento, licença, permissão" e ainda "direito, privilégio" e "escola de nível superior".

Já o vocábulo "mental" traz em sua origem latina mentalis a acepção "do espírito", conectado a mens, mentis, "atividade do espírito, intenção", "pensamento, inteligência". Movimentando todo este mistério das palavras, o grupo vem aos palcos associando um fino cuidado com os climas musicais ao seu curioso -- e crescentemente popular, vale ressaltar -- nome.

Tanto é que os integrantes sofreram um instigante upgrade e passaram a ter novo sobrenome: Ciromental, Silasmental, Danielmental... e por aí devem chegar a irmanar-se todos os seus músicos e inclusive os fãs, que já formam fileira e crowdeiam o gargarejo.

Em sua comunidade no Orkut (com vários perfis) a banda anuncia as datas e locais de seus shows, sendo que o dia 12 de setembro marcou concorrida noite no Reggae Club (Praia de Iracema): quem comprou ingresso antecipado se deu bem e ainda ganhou o novo CD (capas aqui reproduzidas).

"Que muitos possam aproveitar o que o reggae oferece, fazendo o seu dia-a-dia cada vez melhor com magia, arte, dança, canto e amor", mandou Ciro. Salve Jah!!!




18 setembro 2009

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

Novas fronteiras do Ser


No livro QS - Inteligência Espiritual, a fí­sica e filósofa norte-americana Danah Zohar aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência — além da inteligência intelectual e da emocional — que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida.

Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas.

O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Afirma Danah: "A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".

Aos 57 anos, Danah vive na Inglaterra com seu marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e dois filhos adolescentes. Formada em Fí­sica pela Universidade de Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualmente leciona na universidade inglesa de Oxford.

Com pós-graduação em Filosofia, Religião e Psycologia na Universidade de Harvard, ela é a autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para o Português. QS - Inteligência Espiritual já foi editado em 27 idiomas, incluindo o português (no Brasil, pela Record).

Danah tem sido procurada por grandes companhias interessadas em desenvolver o quociente espiritual de seus funcionários e dar mais sentido ao seu trabalho. Ela falou à revista Exame em Porto Alegre durante o 300.º Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO), organização fundada na Suécia em 1971 que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo. Aqui, alguns trechos da entrevista:

O que é inteligência espiritual?
É uma "terceira" inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o potencial espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.

De que modo essas pesquisas confirmam suas ideias sobre a terceira inteligência?
Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas, ligados à experiência espiritual. Tudo o que influencia a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais: um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico, dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual; outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou quociente de inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.

Qual a diferença entre QE e QS?
É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como eu reajo a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na História da humanidade. No iní­cio do século 20, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Em meados da década de 1990, a descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um gênio, se não soubesse lidar com as emoções. A ciência começa o novo milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

Em suas concepções, Danah Zohar identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Segundo ela, essas pessoas:

1. praticam e estimulam o autoconhecimento profundo;

2. são levadas por valores. São idealistas;

3. têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade;

4. são holísticas;

5. celebram a diversidade;

6. têm independência;

7. perguntam sempre "por quê?";

8. têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo;

9. têm espontaneidade;

10.têm compaixão.



*Danah Zohar atualmente escreve um novo livro — Total Intelligence: Achieving lifelong peak performance — que segundo ela representa o ápice do trabalho realizado em toda a sua vida





SOCIALISMO FRACASSOU, CAPITALISMO QUEBROU

O que vem a seguir?



A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. A prioridade não é o aumento do lucro e do consumo, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Isso significa iniciativa pública não baseada na busca de lucro. Decisões públicas dirigidas a melhorias sociais coletivas, com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.

Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da História. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais — em realidade, todas as economias —, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.

Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos os sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado, isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930.

Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas, nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como?

Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda. Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais.

Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.

Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado à sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados, sem nenhum exagero, como "Thatchers com calças". O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos.

A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa. Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata.

Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que, se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização. Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global.

O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e também o que terá a recuperação mais difícil.

É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí, à nossa disposição — inclusive a nacionalização —, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar. No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim.

Por um lado, não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões, na esperança de encontrar o caminho da saída.

Por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas. Por acaso se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas? Ou de que a organização e a contabilidade empresariais deveriam ser os modelos inclusive da função pública, da educação e da pesquisa?

Ou de que o crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais — exceto uma minoria de pobres — estejam um pouquinho melhor? Ou de que o que um país necessita, em qualquer caso, é um máximo de crescimento econômico e de competitividade comercial? Não creio que tenham superado tudo isso.

No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.

Tomemos o caso de Londres. É evidente que importa a todos nós que a economia de Londres floresça. Mas a prova de fogo da enorme riqueza gerada em algumas partes da capital não é que tenha contribuído com 20% ou 30% do PIB britânico, mas sim como afetou a vida de milhões de pessoas que ali vivem e trabalham. A que tipo de vida têm direito? Podem se permitir viver ali? Se não podem, não é nenhuma compensação que Londres seja um paraíso dos muito ricos.

Podem conseguir empregos remunerados decentemente ou qualquer tipo de emprego? Se não podem, de que serve jactar-se de ter restaurantes com três estrelas Michelin, com alguns chefs convertidos eles mesmos em estrelas? Podem levar seus filhos à escola? A falta de escolas adequadas não é compensada pelo fato de que as universidades de Londres podem montar uma equipe de futebol com os seus professores ganhadores de prêmios Nobel.

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa — ou deveria significar — iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada.

TRata-se da tomada de decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas, com as quais todos sairiam ganhando: esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal. Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico.

E, levando-se em conta a gravidade da crise econômica, este deveria ser um deslocamento rápido: definitivamente, o tempo não está do nosso lado.


*Artigo do historiador britânico Eric Hobsbawm publicado originalmente no jornal britânico The Guardian (Agência Carta Maior)

APROFUNDE A CRÍTICA
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27 agosto 2009

DROGAS: UMA DROGA!

LIBERAR OU REPRIMIR?



Quando me perguntam, durante as poucas palestras que profiro, se eu já usei algum tipo de droga na longínqua juventude, digo sinceramente que sim, porque não vejo nenhuma razão para negar certos fatos ou certos excessos cometidos no passado. Afinal de contas, todos nós temos uma vida pregressa e garanto, com toda a pureza d’alma, que não fui nenhum santinho do pau oco.

Fiz lá as minhas juvenis presepadas, perpetrei besteiras piramidais e cometi erros crassos — alguns dos quais eu até preferiria esquecer, se assim me permitisse o meu senso de honestidade comigo mesmo. O que fiz está feito e não tenho mais jeito de voltar atrás.

Sim, usei vários tipos de drogas, tanto lícitas como ilícitas, só não experimentei as injetáveis por morrer de medo de injeção. Algumas pessoas se espantam ou até mesmo ficam chocadas com as minhas revelações, enquanto outras costumam dizer que sou bastante corajoso por confessar tais pecadilhos. No que me diz respeito, as drogas simplesmente representaram uma faceta do meu longo aprendizado da vida e de mim mesmo. Nada mais que isso.

As drogas jamais tiveram uma demasiada importância em meu existir, porém, já do álcool e do cigarro não posso dizer o mesmo, tanto que bebo e fumo até os dias de hoje. Contudo, quando me perguntam se eu sou a favor ou contra a liberação geral e irrestrita do uso de drogas, penso que a conversa é outra e o buraco é mais embaixo.

Como trabalho em hospital psiquiátrico, posso ver bem de perto o estrago que o crack, por exemplo, vem fazendo com a nossa estudiosa juventude de todas as classes sociais. É uma coisa nada bonita de se ver.

Convivo com o drama de famílias destruídas, com pais e mães desesperados na excruciante agonia de tentar salvar os filhos desta droga, cujo consumo hoje é, na minha modesta opinião, uma das mais graves tragédias nacionais.

Entretanto, dois dos mais importantes defensores da liberação das drogas são Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia, já falecido, e o nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No contexto, a ONU estima que cinco em cada cem adultos usaram alguma espécie de droga ilícita nos últimos doze meses.

Os defensores da liberação afirmam que os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio de drogas. Além de arrancar o poder dos traficantes, o dinheiro arrecadado financiaria o tratamento dos dependentes.

Os que são contra, têm medo da banalização e do aumento do uso. Eu, particularmente, defendo a primeira hipótese, mas creio que esta discussão mal começou e não há nenhuma solução simples à vista.


*O cronista Airton Monte é psiquiatra, fumante inveterado e colaborador do Jornal da Praia há mais de 20 anos. Sua renda como escritor ajuda-o a financiar "a cervejinha das crianças"...


21 agosto 2009

SOLUÇÃO DO INSOLÚVEL

Lamentar ou resolver?



"Na economia as soluções rendem mais do que os problemas; na política, os problemas valem muito mais que as soluções", explicou o economista e político soviético Nikolai Bukharin (1888-1938). De acordo com esta reflexão, na agricultura latinoamericana deveríamos, aparentemente, dedicar-nos muito mais à economia que à política.

Deveríamos descartar imediatamente aquelas pseudo-soluções utópicas que apenas contribuem para confundir os agricultores e para perpetuar os problemas do setor agropecuário. Porque a angustiada classe rural está necessitando soluções de verdade, perduráveis no tempo — isto é, medidas que, graças à sua viabilidade e realismo, possam efetivamente ser concretizadas, por mais adversas que sejam as condições atuais dos produtores rurais e de seus respectivos governos.

Nas atuais circunstâncias, já não tem muito sentido continuar afirmando aos agricultores que seus problemas deverão ser resolvidos pelos governos, através de créditos abundantes e baratos, da aquisição, refinanciamento e perdão das suas dívidas, da concessão de subsídios internos, do aumento do valor do dólar, da redução dos impostos e dos pedágios e da proteção contra a importação de produtos agrícolas, nem e continuar afirmando-lhes que nossos governos deveriam exigir a eliminação das barreiras externas e dos subsídios com os quais os países ricos protegem seus agricultores.

Por mais desejadas e atraentes que sejam, no curto e médio prazos, estas propostas não serão adotadas; entre outros motivos, porque os endividados e debilitados governos dos países latinoamericanos, mesmo que quisessem não reuniriam as condições econômicas nem políticas para adotá-las. No âmbito interno, por insuficiência de recursos para perpetuar no tempo estes mecanismos "perenizadores" de dependências e, no âmbito externo, porque não possuem a força política para impedir que os países desenvolvidos continuem subsidiando e protegendo seus agricultores.

A adoção das referidas medidas é tão improvável que não vale a pena perder tempo com utopias que geralmente se inspiram na ingenuidade ou, o que é muito mais grave, em repudiáveis propósitos demagógico-eleitorais. Além disso, não é esta a principal causa da crise do setor agropecuário e sim as distorções descritas a seguir, as quais, com humildade, deveremos reconhecer e, com competência, deveremos eliminar. Assim, ao considerar as ineficiências do negócio agrícola, cabe perguntar: devemos compensar suas consequências ou eliminar suas
causas?

Na América Latina, o caminho cômodo e simplista de querer aliviar as consequências de uma agricultura ineficiente, através de artificialismos compensatórios, está esgotado. Ante esta situação, só nos resta a alternativa realista de eliminar as causas mais profundas da falta de rentabilidade e de competitividade e, através desta medida, prescindir dos subsídios que, de antemão, sabemos que não serão outorgados por nossos governos.

Entre estas causas elimináveis pelos próprios agricultores, com a única condição de que estejam capacitados e organizados, estão as seguintes distorções e ineficiências que ocorrem na grande maioria das propriedades e comunidades rurais:

>> 1a. ineficiência: Baixíssimos rendimentos por hectare e por animal, muito mais pela falta de conhecimentos adequados que de políticas agrícolas generosas. Na América Latina, os rendimentos médios em quilos por hectare são os seguintes: arroz, 3189; feijão, 712; milho, 3288; batata inglesa, 13561; soja, 2472; trigo, 2090. Na pecuária bovina, menos de 4 litros de leite/vaca/dia; primeiro parto aos 42 meses, podendo ocorrer antes dos 28 meses de vida; intervalo entre parições de 22 meses, o qual poderia ser de 13 meses; desfrute de 19%; produção de 60 kgs de carne por hectare/ano.

Estes baixísimos rendimentos são o claro reflexo de erros, muitas vezes primários, que ocorrem no processo produtivo. Para corrigí-los, geralmente se necessita apenas adotar, de forma correta e gradativa, tecnologias simples que requerem muito mais conhecimentos adequados que créditos abundantes, porque sua correção depende muito mais de "como fazer" do que "com que fazer". No caso do feijão, ao dividir os 712.000 gramas pelas 225.000 plantas que deveria ter um hectare, conclue-se que cada feijoeiro produz aproximadamente 3 gramas — que correspondem a uma vagem com 8 a 12 grãos.

Isto, geralmente, é consequência de que a maioria dos plantadores de feijão utiliza sementes geneticamente erodidas e contaminadas com patógenos, não regula a semeadora, não semeia na época adquada e com espaçamento e profundidade corretos, não elimina as ervas daninhas no momento oportuno, não faz rotação de culturas e sofre consideráveis perdas antes e durante a colheita. Neste caso, com exceção das sementes, todas as demais correções dependem apenas de que os produtores sejam conscientizados e capacitados; em outras palavras, as correções dependem muito mais de insumos intelectuais que de insumos materiais.

Neste cultivo não se pode atribuir a culpa aos subsídios outorgados pelos países europeus, porque eles não exportam feijão subsidiado. Tampouco no caso do café, do cacau, da mandioca e de outros produtos que não são favorecidos pelas tesourarias dos países ricos e, no entanto, neles também temos problemas de falta de rentabilidade.

Se não podemos aumentar os preços, deveremos diminuir os custos de produção e de transação. Não estamos ignorando que vários países desenvolvidos, com os quais temos que competir, subsidiam seus produtores, porém não podemos ignorar que uma outra causa importantíssima de nossa falta de competitividade é que as vacas daqueles países desenvolvidos produzem, em média nacional, mais de 20 litros de leite por dia, que cada hectare das suas terras produz quase 8.000 kgs de trigo, 10.000 kgs de milho e até 49.000 kgs de batata inglesa.

Enquanto os nossos governos não puderem outorgar subsídios nem impedir que os países ricos o continuem fazendo, só nos resta o caminho realista de corrigir nossas próprias ineficiências. Se o fizermos, nos tornaremos menos dependentes dos inexistentes subsídios internos e menos vulneráveis aos excessivos subsídios externos. É com este espírito de objetividade e de pragmatismo que os agricultores eficientes e bem-sucedidos estão sobrevivendo dentro desta nova globalização e até obtendo proveito das vantagens que ela oferece. Eles estão "acendendo a lâmpada ao invés de continuar criticando a escuridão".

>> 2a. ineficiência: Os procedimentos distorcidos que os agricultores adotam na aquisição dos insumos e na venda das suas colheitas. Em ambas estas etapas, os produtores rurais fazem exatamente o contrário do que lhes seria conveniente fazer, porque compram os insumos no varejo, com alto valor agregado e do último elo de intermediação — porém, quando vendem os seus excedentes, ocorre um giro de 180 graus e o fazem no atacado, sem valor agregado e ao primeiro elo da cadeia de intermediação... Ambas as distorções são elimináveis através da capacitação e da organização dos agricultores com propósitos empresariais, e, não necessariamente, através de nostálgicos e ineficientes intervencionismos do Estado na comercialização. A propriedade diversificada pode ser a "agência de desenvolvimento" da família rural.

>> 3a. ineficiência: A falta de diversificação produtiva que, além de tornar os agricultores excessivamente dependentes do crédito rural, os expõe a desnecessários riscos e vulnerabilidades de clima, pragas e mercados. Para diversificar a produção agropecuária se requer muito mais capacitação do que complexos mecanismos de intervenção estatal, cujas frondosas burocracias acabam consumindo os escassos recursos destinados à operação de tais
mecanismos.

Se os governos não estão em condições de oferecer crédito rural, seguro agrícola e insumos a todos os produtores, a eficiente diversificação e verticalização da atividade agropecuária deveria ser o "seguro agrícola" do produtor, sua "agencia de crédito", sua "fábrica de alguns insumos", seu "supermercado", sua "agroindústria", a "agência de empregos" para todos os membros da familia durante os 365 dias do ano. A diversificação e a gradualidade tecnológica, horizontal ou vertical, são medidas endógenas que liberam as familias rurais da dependência de várias soluções exógenas, geralmente inacessíveis, muito especialmente do crédito — que é cada vez mais caro e escasso.

>> 4a. ineficiência: A ocorrência de superdimensionamentos e ociosidades de investimentos que, nas atuais circunstâncias de alto endividamento e baixa rentabilidade, economicamente não se justifica realizá-los de forma individual ou mantê-los subutilizados. Nas propriedades rurais, é muito frequente encontrar tratores e implementos que trabalham poucas horas ao ano, terras ociosas ou com baixíssima produtividade, elevados investimentos em irrigação que não se traduzem em altos rendimentos em virtude de graves erros tecnológicos na condução dos cultivos e nas tecnologias de irrigação empregadas, juntas de bois que comem o ano inteiro porém passam mais dias descansando que trabalhando, animais de elevado potencial genético cujos baixos rendimentos são provocados principalmente por falta de alimentos que poderiam ser produzidos nas propriedades, inadequada relação reprodutores/matrizes etc.

Por exemplo, se em uma comunidade existem 10 produtores com 5 vacas leiteiras cada um, economicamente não se justifica a existência de 10 reprodutores, 10 estábulos, 10 máquinas de ordenhar, 10 picadoras de forragem, 10 enfardadeiras de feno, 10 esfriadores de leite. Os baixos preços do leite dificilmente poderão remunerar estes altos investimentos quando eles são feitos de forma individual. O associativismo para obter economia de escala, reduzir custos, incorporar valor às colheitas, comprar e vender com menor intermediação é o caminho mais realista quando os governos não estão em condições de outorgar subsídios.

Se nos últimos tempos, até os gigantes entre os bancos, entre os meios de comunicação, os da indústria químico-farmacêutica e da agroquímica estão promovendo fusões e formando enormes conglomerados, como estratégia para poder sobreviver no mercado, com maior razão deverão fazê-lo os minúsculos e frágeis produtores rurais.

>> 5a. ineficiência: Os agricultores pobres costumam cultivar espécies que, coincidentemente, são adquiridas pelos consumidores pobres das cidades (mandioca, batata inglesa, milho, feijão, abóbora, arroz, batata-doce etc.). Se, além de produzir espécies pouco rentáveis, são afetados pelas distorções descritas nos 4 itens anteriores, fazem excessivas aplicações de agroquímicos e sofrem desnecessárias perdas pós-colheita, é evidente que não podem viabilizar-se economicamente.

Promover uma substituição progressiva de espécies com maior densidade econômica depende muito mais de conhecimentos técnico-gerenciais que de sofisticadas formulações de políticas agrícolas. Além disso, diagnósticos equivocados e terapêuticas demagógicas estão paralizando o setor agropecuário.

Depois de efetuar esta crua descrição das distorções que, com reconhecidas exceções, infelizmente estão generalizadas na América Latina, impõem-se algumas perguntas:

>> Serão os agricultores os culpados de tão graves ineficiências? Ou será que nosso disfuncional sistema educacional não desenvolveu neles a autoconfiança, a criatividade e a capacidade de poderem corrigir suas ineficiências e de solucionar os seus próprios problemas?

>> Será que é a falta de políticas (creditícias, cambiais, tributárias, tarifárias etc.), descritas no primeiro parágrafo deste artigo, a principal culpada de que não consigamos superar este arcaísmo tecnológico, gerencial e organizacional? Ou será que faltam às famílias rurais uma adequada formação valórica e conhecimentos mais funcionais e instrumentais, que eles possam aplicar e utilizar na formulação de soluções mais autônomas, e conseqüentemente tornarem-se menos dependentes das referidas políticas?

>> Será que deveremos continuar priorizando infrutíferas reivindicações dirigidas ao Congresso Nacional, ao Ministério da Economia/Fazenda, ao Banco Central/Rural/Agrícola para pedir paliativos inacessíveis, ineficazes e perpetuadores de dependências? Ou será que deveremos buscar soluções emancipadoras nas escolas fundamentais rurais (do 1.° ao 8.° ano), nas escolas agrotécnicas e nas faculdades de ciências agrárias, além de apoiá-las como corresponde, porém exigir delas uma educação muito mais pragmática, objetiva, funcional, realista e prática, de modo que dessas instituições educativas egressem agricultores e extensionistas com real capacidade de corrigir as ineficiências do negócio agrícola?

>> Será que todos os governos dos países da América Latina, os atuais e os das décadas anteriores, são e foram insensíveis aos problemas dos agricultores e não tiveram a vontade política para solucioná-los? Ou será que, em virtude do modelo paternalista e da insuficiência de recursos, não podem e não puderam ofrecer todos os ingredientes da "receita" perpetuadora de dependências a todos os agricultores sempre? Se a referida "receita" não funcionou, quando as instituições estatais tinham mais poder e mais recursos, como esperar que funcione na atualidade, quando os governos estão debilitados e endividados?

>> Como explicar que, depois de mais de 50 anos de aplicações milionárias de recursos em crédito rural, na geração e difusão de tecnologias, na formação de técnicos, na manutenção de estruturas estatais de comercialização e em obras de irrigação, não tenhamos sido capazes de incrementar estes modestos rendimentos e de superar as demais ineficiências aqui analisadas? (Com o agravante de que alguns dos importantes êxitos obtidos pelo setor agropecuário latinoamericano ocorreram mais como consequência de produtores progressistas, do setor privado e de estímulos governamentais "de arranque", que dos clássicos e permanentes instrumentos estatais perpetuadores de dependências).

Como exemplos, poderíamos mencionar a avicultura industrial, o plantio direto, os sistemas integrados entre agricultores e agroindústrias (de aves, suínos, tomate, tabaco etc.), a fruticultura e a floricultura de exportação, o aspargo no Perú, a criação de salmões no Chile, a produção de maçãs em Santa Catarina e a citricultura em São Paulo, ambas no Brasil etc.

Definitivamente, o intervencionismo estatal perenizador de dependências, de cima para baixo, deverá ser substituido pelo protagonismo emancipador dos agricultores, de baixo para cima. No entanto, esta reversão exige a ação de um Estado que, graças à excelência, pragmatismo e relevância/pertinência dos conteúdos curriculares das suas instituições educativas, tenha como principal objetivo estratégico desenvolver as potencialidades que estão latentes nas pessoas e instituições relacionadas com o setor agropecuário.

Os solucionadores potenciais dos nossos problemas agropecuários estão em cada família, propriedade e comunidade rural, em cada escola fundamental rural, escritório de extensão rural, estação experimental, prefeitura, escola agrotécnica, faculdade de ciências agrárias. Falta apenas transformá-los de solucionadores potenciais a solucionadores reais.

Na construção da agricultura do mundo globalizado, o sistema educativo rural — os três níveis da educação formal/escolarizada e os serviços públicos e privados de extensão rural — necessitam receber um claro e decidido apoio do Estado, do setor privado e da sociedade. Em contrapartida, o referido sistema deve reconhecer a necessidade de submeter-se a uma profunda e radical transformação, a fim de que possa assumir o compromisso e a responsabilidade de formar, capacitar e organizar uma nova geração de agricultores profissionalisados, mais autoconfiantes e tecnicamente mais competentes.

Agricultores que sejam capazes de assumir, como sua, uma crescente responsabilidade na correção das suas próprias ineficiências e de protagonizar a solução dos seus problemas. Este é o único caminho possível para uma América Latina cujos governos não dispõem de recursos para fazer tudo pelos seus cidadãos, sempre. Entre outros motivos, porque estão dedicados a combater nas cidades os efeitos do subdesenvolvimento rural, em vez de eliminar suas causas diretamente no campo e, mais especificamente, nas desfinanciadas, esquecidas e abandonadas escolas fundamentais rurais.

Observação: caso você considere que algum ou mais destes conceitos é adaptável à realidade de seu município, estado ou país, por favor não hesite em utilizar, melhorar e difundir estas propostas. Oxalá você considere conveniente realizar — em sua própria instituição ou jurisdição — alguma atividade destinada a difundir, criticar, melhorar e adaptar estas proposições às suas respectivas realidades.


FAÇA A SUA PARTE
Críticas a este artigo e pedidos de documentos gratuitos — que ampliam e fundamentam tecnicamente a viabilidade desta proposta — serão bem-vindos ao e-mail polan.lacki@fao.org, bem como pelo telefone (562) 337-2205, fax (56 2) 337-2101, Casilla 10095, Santiago, Chile.


REFLEXÃO FINAL
As mulheres representam mais de 50% da população rural. A adoção desta proposta terá maior impacto e eficácia se forem eliminadas as discriminações que atualmente estão impedindo que elas desenvolvam e manifestem as suas enormes potencialidades como produtoras de alimentos e geradoras de renda. O(a)s interessado(a)s no tema "Mulheres no desenvolvimento rural" poderão dirigir-se ao e-mail marcela.ballara@fao.org ou visitar a home page da FAO-Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação: www.rlc.fao.org/mujer


SAIBA MAIS
Sobre o engenheiro agrônomo Polan Lakmi em www.polanlacki.com.br/quem.htm

31 julho 2009

MEMÓRIA VIVA

A casa paterna


O Benfica é o bairro. Dom Jerônimo, a rua. A residência atende pelo número 1054. Pois foi justamente lá onde nasci, no dia 16 de maio do benvindo Ano da Graça de 1949, vindo à luz no vetusto Solar dos Monte, no quarto da frente, na mesma cama em que fui feito.

Meu pai me conta que era de madrugada, chovia às escâncaras, trovões ensurdeciam os céus alencarinos, relâmpagos incendiavam o ar e no firmamento não havia sequer uma tímida e humilde estrela a me abençoar a vinda, feito o Menino Jesus estampado nas gravuras douradas dos livros antigos.

Muito embora o veloz autor dos meus dias saísse num pé e voltasse noutro com a tão esperada parteira, nem mais preciso foi. Eu já tinha adentrado os portais deste mundo por minha própria conta e risco e quase que morro estrangulado pelo traiçoeiro cordão umbilical a me apertar os gorgomilhos.

Salvaram-me os vastos conhecimentos de minha tia Stela Machado, acostumada a aparar menino. Por isso mesmo, por ser o primogênito, me deram o nome de Antônio — que era pra evitar que eu morresse afogado um dia. Sou o bendito fruto do primeiro amor ou do primeiro descuido, como costumava falar a senhora minha mãe com laivos de ironia.

Há na velha casa paterna a presença quase física das gerações antigas. Na sala de visitas, o retrato de vovó Valdenora parece-me até mais bonito do que o da Monalisa. O avô Moacir guarda e traz no rosto grave e magro a sisudez hierática dos patriarcas. No quintal, sinto saudades do pé de goiabeira onde eu brincava de Tarzan, o filho das selvas.

A casa paterna é do tempo em que no subúrbio ainda havia oitões, jardins, quintais e muitas plantas, um reinado do verde. Me sinto tão parte dela quanto os seus tijolos, seus alicerces, suas paredes. Por vezes, e não raras, chego mesmo a perder a noção de quem pertence a quem.

A janela do meu quarto de solteiro, a minha cúmplice de fugas antigas, silenciosas, nas madrugadas furtivas por onde eu escapava para as primeiras noites de esbórnia. A casa paterna é a moradia pessoal e intransferível de todos os ícones de minha mitologia existencial.

Não sei como é nem descrever o que sinto toda vez que lá estou. Só sei que ainda sou feliz por poder dizer, quando me perguntam onde vou aos sábados de manhã, que vou pra casa. Só isso, como quem regressa à Terra Prometida ou à Terra do Nunca, onde continuo sendo um eterno Peter Pan.


*Airton Monte é psiquiatra, escritor e colunista

27 junho 2009

PAPO DE BUGRE

Idioma brasileiro


No Brasil dos paradoxos, acontecem coisas em que a mais fértil imaginação não teria condição de acreditar. O retrato da identidade nacional é composto por um branco, um índio e um negro e, obviamente, falamos um idioma formado por palavras oriundas destas três fontes lingüísticas. No entanto, temos a coragem de dizer que "no Brasil, fala-se o Português". Ledo engano.

No Brasil fala-se um idioma que só se fala no Brasil -- e em nenhum lugar mais. Aliás, somos a única ex-colônia portuguesa que não fala com sotaque português. E isto deve-se à influência da língua tupi, pois seja, o Nheengatú -- ou, como quer o presidente, ao nhén-nhén-nhén... Esta espinha dorsal lingüística brasileira está um tanto desbotada diante de tantas "lavagens culturais" a que foi submetida ultimamente, pelos estrangeirismos que empesteiam o nosso idioma.

A língua portuguesa original trazida para o Brasil continha 140 mil verbetes ou palavras. O Português, esta "língua de marinheiro", contém hoje 260 mil verbetes, fato que o torna a mais rica língua em sinonímica do mundo. Os 120 mil verbetes excedentes em nosso idioma falado, ficam por conta das culturas africanas e tupi-guarani.

Portanto, a tão alardeada "unificação ortográfica e gramatical" torna-se impossível a partir da própria conseqüência lingüística que este idioma adquiriu no Brasil. Isto porque o significado de milhares de palavras oriundas do Tupi, falados diariamente, são completamente desconhecidos por todos indistintamente. E isto, ainda, sem mencionarmos, obviamente, a contribuição lingüística africana.

As três línguas que formam o idioma brasílico têm um sentido e uma objetividade declaradamente importante: o africano nos deu verbetes com os quais nos expressamos na forma espiritual, culinária, lazer, gíria e glotologias. Exemplos: bunda, xodó, bizú, gogó, tijolo, zureta, muvuca, mumunha, maluco, garfo e por aí vai, aos milhares também.

O Tupi nos deu verbetes que permitem-nos ir e vir no real sentido locativo e toponímico. O Português nos deu verbetes que nos fornecem condições jurídicas, políticas e didáticas. Tornar-se-ia impossível a um brasileiro fazer tudo que faz diariamente usando apenas o recurso da língua portuguesa. Daí que....

É IMPOSSÍVEL UMA UNIFICAÇÃO ORTOGRÁFICA COM OS DEMAIS PAÍSES DE "LÍNGUA PORTUGUESA"!

Corrigir a injustiça histórica secular para com a cultura ameríndia brasílica, origem da formação nacional e espírito latente de insubmissão à dominação estrangeira, deve ser o objetivo de todos aqueles que lidam com a Educação e Cultura deste País e que tenham um pouco de amor ao verde-e-amarelo. Antes, devemos propiciar aos milhões de brasileiros que diariamente expressam-se na língua tupi a oportunidade de saberem o significado dessas palavras e, sabendo-o, terem condições de conhecer a história da grande nação Tupi, fato que gerará o inevitável espírito nacionalista e a responsabilidade por sua preservação.

A conseqüência imediata desta providência será a expansão, para além das nossas fronteiras, da verdadeira epopéia da estruturação brasileira, permitindo ainda que as demais nações, por intermédio dos milhares de turistas que pisam o território nacional, saibam, em seu próprio idioma, o significado dos nomes e palavras tão comuns nos logradouros públicos, locais e cidades mundialmente famosas, e, cujos nomes em Tupi não têm, até a presente data, tradução literal e significação, uma vez que os próprios brasileiros não o sabem.

Apenas como informação, longe de ser alguma língua morta e sem origem, o Tupi ou Nhengatú possui uma gramática expositiva dividida em quatro partes -- exatamente como a língua portuguesa: Fonologia, Morfologia, Taxonomia e Sintaxe.

Estamos, portanto, diante de uma prova de que os milhares de nomes toponímicos que descrevem e definem lugares, cidades, praças, ruas, produtos, objetos ou fenômenos da Terra, não foram jogados ao vento "por um caboclo brejeiro qualquer", como quer a explicação até hoje passada nas escolas do País, mas sim fazem parte do aspecto topográfico local, traduzido pelo idioma brasílico, genuíno irmão lingüístico do Português.

Se observarmos apenas algumas das palavras que pronunciamos diariamente, já teremos uma pequena idéia da nossa ignorância e da nossa conseqüente responsabilidade para com o futuro: jacarepaguá é "lago do jacaré"; andaraí é "água do morcego"; aracaju é "tempo de caju"; tijuca é "barro mole"; pará é "mar"; paraná é "rio afluente"; paraguai é "rio do papagaio"; paraíba é "rio ruivo" ou "encachoeirado"; pirapora é "peixe que salta"; pindorama é "país das palmeiras"; sergipe é "rio dos siris"; goiás é "gente da mesma raça"; piratininga é "seca peixe"; curitiba é "barro branco"; mogi-mirim é "riacho das cobras"; carioca é "casa de branco"; anhangabaú é "buraco do diabo"; e ipanema é "água suja".

Estas são apenas algumas das milhares de palavras do idioma tupi faladas e escritas diariamente e que, identificando locais e cidades nacional e internacionalmente conhecidas, fazem parte do nosso vocabulário diário. Porém, as suas traduções ou significados são desconhecidos por todos.

Os padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega dedicaram suas vidas ao estudo e codificação da língua tupi-guarani, bem como os usos, costumes, história e origem antropológica desta grande nação cujo sangue corre em nossas veias, direta ou indiretamente.

Centenas de outros jesuítas sucederam-se aos pioneiros na continuidade deste trabalho, legando-nos verdadeiros tratados acerca de tal assunto, vez que, já àquela época, previam a necessidade das futuras gerações acerca do conhecimento da língua brasílica que faria parte da nossa existência como nação. Mas a leviandade, o preconceito e o racismo de alguns "intelectualóides de beira de jardim" que se revezaram durante anos no controle da educação e da cultura, desprezariam por completo o trabalho destes jesuítas, preferindo dar cunho oficial aos anglicanismos, galicismos e outros estrangeirismos que corroem o nosso idioma e alteram o nosso comportamento.

De tal maneira desafiaram o conceito de "nação" que hoje, nas faculdades, ninguém sabe gramática portuguesa e muito menos gramática tupi-guarani. Só para exemplificar, aí vai um texto que prova a importância da cultura indígena na nossa vida:

"Aí, o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu do palácio às margens do Lago do Paranoá, observou uma siriema que ciscava no Palácio do Jaburu e chegou ao seu gabinete, sendo recebido pelo mordomo Peri. Lembrou um assessor sobre as comemorações da Batalha do Humaitá, convocou o ministro do Itamaraty e o governador de Goiás, que visitava seu colega no Palácio do Buriti, e, uma vez juntos, tomaram um suco de maracujá, comentaram sobre as reformas do estádio do Maracanã e as recentes obras no Vale do Anhangabaú, riram de um antigo comentário do Barão de Itararé sobre obras públicas, e, abrindo uma agenda confeccionada em pele de jacaré, passaram, a decidir sobre o carvão de Criciúma, os suínos de Chapecó e a safra de arroz de Unaí."

Viram, falaram, beberam e escreveram em Tupi e não se aperceberam disto. O embaraço maior seria se tivessem que traduzir todas estas palavras para o chanceler francês que visitava o Brasil.

E já que é assim, por que não inserir em todas as placas de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias, monumentos e locais cujos nomes sejam originalmente em língua tupi, o significado em Português, o qual, via de regra, poderá ser traduzido para qualquer idioma estrangeiro?

E por que não explicar nas escolas primárias e secundárias esta fusão da língua portuguesa com a língua tupi-guarani e seus fenômenos toponímicos e gramaticais, usados no cotidiano desde a tenra idade?

Achamos esta saída ideal para um problema que tem gerado situações embaraçosas a brasileiros no Exterior, quando alguém pergunta o significado da palavra ipanema ou, dentro do seu próprio País, quando um filho ou uma filha pergunta: "...Papai, o que quer dizer 'carioca'?"

Diante do desconhecimento total por parte dos brasileiros acerca desta cultura e herança, corremos os riscos de permitir que as gerações futuras pensem que tais palavras, hábitos e costumes, fazem parte da cultura e da língua portuguesas, porém, sem significado e explicação. É o máximo!

E, caso algum especialista em educação e cultura ache que é possível viver sem esta influência lingüística, poderá começar por retirar todas as palavras em Tupi do nosso vocabulário. Inicialmente, terá que trocar o nome de dez estados e sete capitais brasileiras, cujos nomes são em Tupi. Ao depois, trocar os nomes de centenas de municípios, milhões de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias e localidades topográficas cujos nomes também são originários da língua tupi. E finalmente, terá que mudar milhares de nomes próprios e palavras comuns do nosso dia-a-dia, que são verbetes da língua tupi. Aí verá que a comunicação e a locomoção tornar-se-ão impossíveis.

Já que esta terra era propriedade de uma raça tão importante -- que mesmo dizimada, nos legou um tratado lingüístico e antropológico de beleza ímpar --, nada melhor do que repetir a célebre frase de Aimberê, o cacique-comandante da Confederação dos Tamoios no Rio de Janeiro: "Nhandê coive ore retama!" -- ou seja, "Esta terra é nossa!"...

Por esta razão, me considero um legítimo Tupinambá... mesmo porque, no Brasil, TODO DIA É DIA DE ÍNDIO!



*o carioca Eduardo Fonseca Jr. é jornalista e escritor, autor do livro Zumbi dos Palmares -- a História do Brasil que não foi contada e diretor da Sociedade Yorubana Teológica de Cultura Afro-brasileira