24 maio 2010

TIPOS DE TEMPO

O intruso da casa*



Um tortuoso hábito de reflexões me pôs a pensar nos objetos que detestamos, mas que por alguma razão somos obrigados a possuir. Pois, de todos os pertences impostos, o mais antipático talvez seja o relógio.

Provavelmente a infância acaba no momento em que se aprende as horas. Na mais tenra idade, uma criança tem a liberdade de acordar pela manhã sabendo apenas isso: que é manhã.

Não precisa, como os adultos, saber que são 6h15min, que é preciso tomar o café durante três minutos, depois um banho de, no máximo, 10 minutos, para perder sabe-se lá quanto tempo rumo a um destino previamente agendado.

Argumentem que a culpa não é dos relógios, mas do sistema de obrigações que nos força a atividades cronometradas. Esse raciocínio com certeza é lógico, mas não me convence.

Para mim, o instante em que se posta um filho diante do grande relógio da sala, a lhe ensinar os mistérios do tempo, é decisivo. Instalar a noção abstrata (e absurda) de que cada espaço entre um risco e outro representa cinco minutos, força um amadurecimento repentino.

Algo interrompe todo o fluxo imaginário que permitia à criança associar aquele instrumento com um círculo contendo dois bracinhos, rascunho de boneco ou brinquedo secreto. A perda desse potencial imaginativo ocorre em paralelo com uma redução do próprio conceito de "dia".

Se antes esse período significava uma passagem suave entre as palavras "manhã", "tarde" e "noite", depois do aprendizado a criança resume o dia em números, de acordo com as horas. Viver regulado(a) por algarismos, e não mais por imagens, é a grande perda nesse processo.

O abandono da infância acontece com essa aceitação do tempo como algo calculável. No instante em que negamos as outras possibilidades -- tão mais belas e criativas -- para sentir a passagem de uma existência, viramos coisas previsíveis e funcionais, tão monótonas quanto um tic-tac.

Tive dificuldade em aprender as horas. Talvez já adivinhasse que esse tipo de iniciação me roubaria a inocência. Até os 11, 12 anos, tinha de usar relógio digital para evitar o vexame, se alguém me perguntasse o horário.

E mesmo assim, usava com má-vontade aquela pulseira -- sentia o seu caráter de algema: o tempo me carregava pela mão, me obrigava a seguir a trilha dele. Por isso é que, ainda hoje, a primeira providência que tomo quando chego em casa é me soltar do relógio de pulso, para sentir as batidas cardíacas liberadas.

Sim, admito que sou um pouco dramática. Reconhecer essa característica me faz flexível, e acabo seguindo as velhas convenções. Embora não concorde com a escravização que o tempo -- assim representado por um mero objeto -- ordena, obedeço a ela, chegando pontualmente a meus compromissos.

Já em casa, território que considero único, tenho três relógios, e cada qual indica um horário um pouco diferente do outro. Para confundi-los, gosto de atrasar a hora de um, adiantar a do outro... É o meu modo de mostrar (para eles e para mim mesma) que não sou totalmente submissa e que conheço também outros tipos de tempo.


* Tércia Montenegro é escritora, fotógrafa e professora da UFC-Universidade Federal do Ceará (image by Ossi -- "Generations in the course of time")

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http://literatercia.blogspot.com

03 maio 2010

SUPERIORIDADE FEMININA

Intimidade íntima*



Nos últimos meses, tenho debatido com meus alunos e amigos uma ideia que tem me chamado a atenção: o fato de as mulheres reclamarem de que não conseguem ter intimidade com os respectivos maridos ou namorados.

No entanto, quando pergunto o mesmo para os homens, eles acham que têm, sim, intimidade com suas parceiras — com quem compartilham momentos que consideram muito íntimos, como fazer sexo, beijar, carinhos, ficar nu.

Para eles, a intimidade é da ordem do corporal, do toque, da visão. É uma intimidade sexual. É uma intimidade física.

Elas reagem: esta não é a verdadeira intimidade, não é uma intimidade íntima. Intimidade, para elas, é um tipo muito particular de estar juntos, de conversar, de escutar, de compartilhar o silêncio, um nível mais profundo de comunicação psicológica. É uma intimidade emocional.

Para eles, a intimidade tem gradações, níveis, escalas. Eles podem ter mais ou menos intimidade, pouca ou muita intimidade, falar de um problema com alguns familiares e de outro com amigos.

Eles hierarquizam e medem a intimidade que têm com as pessoas, e classificam com quem podem (ou não) falar sobre mulheres, trabalho, futebol, política etc. É uma intimidade repartida, partida.

Para alguns homens, a intimidade é da ordem do segredo, do que pode ser dito apenas para aqueles em quem confiam (pais, irmãos, esposa, namorada, amigos) ou do que não pode ser dito para ninguém: "É algo só meu, do meu interesse".

Muitos disseram que só têm intimidade total consigo mesmos: que existem coisas que só podem e devem ser ditas para si próprios. Coisas que não interessam a mais ninguém, que devem ser guardadas, reservadas, protegidas.

Alguns homens me disseram que, quando estão com problemas no trabalho ou com a mulher, desabafam com o amigo, que diz: "Vamos beber". Consideram que, assim, conseguem esquecer o problema — o qual, efetiva e eventualmente, passa.

Já as mulheres, ruminam, por muito tempo, os seus problemas. Repetem exaustivamente a arquitetura dos mesmos conflitos, sem buscarem uma solução. Nenhuma me disse que adota a tática do "Vai passar! Vamos beber e esquecer!"...

Pois é, os homens querem esquecer, e as mulheres relembram incessantemente. Eles querem resolver o problema, de preferência muito rapidamente. Elas querem refletir sobre o problema, sem necessariamente resolvê-lo.

Os familiares e amigos íntimos são fundamentais para reforçar tanto a postura de resolver como a de refletir sobre os problemas. Os homens têm uma visão prática da intimidade. É uma intimidade objetiva. Já as mulheres têm uma percepção reflexiva da intimidade. É uma intimidade subjetiva.

Para as mulheres, a intimidade parece estar relacionada a uma forma específica de conversar, não ao seu conteúdo. É uma intimidade sem gradação, nível, escala. Ou se tem, ou não se tem intimidade. É uma intimidade única.

É um jeito de falar sobre si, e de ser escutada pelo Outro. Sem interferências, sem medo de ser julgada, de ser rejeitada, criticada, ironizada. É um tipo de conversa especial, de entrega singular, de quem fala e de quem escuta.

É uma conversa em que existe aceitação, respeito, troca, apoio. Em que os dois podem ser vulneráveis e revelar suas fragilidades e medos. Pode ser uma intimidade silenciosa.

O importante é que não exista ruptura, ruído, atrito, neste tipo de encontro. Uma intimidade singular, especial, a dois. Que não necessita de um tópico especial ou de um segredo.

É um jeito muito particular e valorizado de falar e, principalmente, de ser escutado(a). O Outro deve ser maleável, flexível, adaptável, para saber como ser passivo, e simplesmente escutar sem interferir, ou, quando necessário, ser ativo e dar algum tipo de resposta.

Um nível profundo e psicológico de comunicação e de reciprocidade. É a intimidade íntima. Coisa que — elas dizem —, os homens são incapazes de compreender.

É possível perceber que as mulheres falam de si mesmas como se fossem superiores aos homens, neste domínio tão valorizado por elas e tão pouco elaborado na vida deles. Elas se consideram mais sensíveis, maduras e profundas do que eles, que são vistos como mais carnais, físicos, sexuais.

A intimidade íntima parece ser um privilégio e, também, um poder feminino. O que mostra que as mulheres podem exercer dominação exatamente nos domínios em que constroem e hierarquizam diferenças de gênero. Domínio em que os homens são esmagados pela superioridade feminina.

É interessante pensar que esta onipresença da ideia de intimidade nas minhas pesquisas pode ser parte de um discurso de dominação, que legitima o poder feminino em tudo o que se relaciona ao mundo privado, ao mundo das emoções, dos sentimentos e das relações entre os gêneros.



*Mirian Goldenberg é antropóloga, professora da UFRJ e autora de "Infiel: notas de uma antropóloga" (Ed. Record)

29 abril 2010

NÃO VALE UM CIBAZOL

Desprezada cidadania*



Abri a janela de par em par, com uma solenidade exuberante e magnificente. E foi então, nesse instante exato, preciso, que se abateu sobre mim uma clareza estonteante e assustadora a respeito de tudo, uma clarividente lucidez que se poderia chamar de obscena.

Afinal, quase sessenta e um anos no mundo, quase sessenta e um anos de batente, de janela, de praia. Se eu ainda não conseguisse sacar nada da vida que vivo e que vivemos, eu nada mais seria do que o mais profundo poço de obtusidade.

Porém, claro que aprendi alguma coisa sobre mim e sobre a vida. Ah, como difícil é, estonteante até, desesperador (posso dizer) a gente sobreviver em um valhacouto continental de saqueadores eméritos do dinheiro público, de bucaneiros de nossa desprezada cidadania.

Também, o que desejar de um país, de uma nação em que a vida de um cidadão não vale um velho Cibazol? O povo brasileiro me parece sofrer de uma vocação inenarrável e retumbante para ser órfão ou vítima do poder em todas as esferas, sejam oficiais ou marginais.

Nesse ínterim, só para não perder o embalo, sempre é bom lembrar que o funcionário público, de um modo geral, vai virando um bicho de uma espécie em extinção, coitadinho. Sim, por que hei de negar uma verdade irrefutável e dolorosa?

O funcionalismo público, de calças na mão, o cinto apertado até o último buraco, de corda no pescoço, ajoelhado num tamborete perneta e se afogando de remorsos mil e tardios por não haver se rebelado a tempo.

Cada dia mais me convenço de que não existe nada no mundo comparável ao desamparo do cidadão a esta triste altura, embora uma ciranda de lantejoulas enfeitada, engalanada. O povo é o pior cego, o que não quer ver nada além de suas desgraças, de suas ilusões perdidas e traídas.

Ponho Miles Davis na vitrola, acendo um cigarro imaginário e chego à conclusão de que o jazz possui a milagrosa capacidade de atenuar-me as tensões do corpo e da mente, de suavizar as minhas angústias ou de aguçá-las de um modo insuportavelmente belo, belo.

Fico olhando velhas fotografias amareladas de meus desdobramentos celulares e descubro que meus filhos cresceram rápido demais, como todos os filhos, e me fazem perguntas demais sobre como fazer para viver num país melhor, sem a saída do exílio.

E cada vez mais descubro que menos vou sabendo respondê-las.


*Médico psiquiatra e escritor, Airton Monte é cronista de sua época, um colunista do Jornal da Praia desde a década de 1980. O Cibazol, antigo remédio para aliviar a dor, foi retirado de circulação pelo Ministério da Saúde



06 abril 2010

MODA SUSTENTÁVEL

Têxteis com origem ética*



Sabe aquela camiseta de algodão natural guardada no seu armário, que traz uma mensagem amigável, insígnia de banda de rock ou opinião política?

Na verdade, essa camiseta pode ser a roupa mais ambientalmente tóxica que você possui. Só para começar, lembremo-nos de que, no Brasil, são produzidas cerca de 450 milhões de peças de camisetas por ano.

De acordo com um estudo do IISD-Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, para confeccionar na China uma camiseta de 250 gramas utiliza-se, em média, 160 gramas de agrotóxicos.

Uma pesquisa do Departamento Agrícola dos Estados Unidos aponta ainda que cerca de um terço dos pesticidas e fertilizantes produzidos no mundo são pulverizados sobre o algodão.

A OMS-Organização Mundial de Saúde afirma que 25% dos inseticidas produzidos mundialmente são utilizados na plantação do algodão -- e quase metade deles são extremamente tóxicos.

O Aldicarbe (ou Temik 150) é, por exemplo, o segundo pesticida mais utilizado na produção de algodão mundial. Apenas uma gota dele, absorvida pela pele, é suficiente para matar um adulto.

Um levantamento do IISD, realizado em conjunto com o Centro para o Desenvolvimento Sustentável e o Meio Ambiente da Academia Chinesa das Ciências Sociais de Beijing, revela que o algodão está no topo da lista de produtos que precisam de controle ambiental.

Com isso, chegamos enfim a concluir que a água e os agrotóxicos utilizados no cultivo de algodão, os resíduos deixados nos rios e os restos despejados em aterros fazem com que o ciclo de vida da sua humilde camiseta de algodão tenha deixado um gigantesco rastro ecológico.

É por isso que celebridades, como o compositor/cantor Jason Mraz, apareceram na entrega dos Grammys usando ternos de plástico reciclado. Mas o movimento de "ecologização" da indústria da moda levanta uma pergunta ainda mais relevante: o que seria a moda sustentável?

Para encontrar respostas coerentes e práticas, é necessária a opinião de profissionais do lado menos atraente da indústria da moda, como pesquisadores ambientais e engenheiros de produção especializados na fabricação de tecidos, envolvidos em estudos de impacto ambiental.

No desenvolvimento de uma peça de roupa verdadeiramente orgânica, que não seja financeiramente exorbitante, designers, estilistas e consumidores de moda precisam trabalhar em conjunto com profissionais especializados em gestão de sustentabilidade.

No entanto, para ser qualificado como orgânico, o algodão ou lã devem passar por inspeções e processos sofisticados, de forma a que não sejam contaminados por produtos químicos e substâncias tóxicas.

Porém, a indústria têxtil mundial ainda encontra grande dificuldade para definir os padrões de qualidade mínimos necessários à criação de um produto realmente orgânico e sustentável.

No Brasil, diversos produtores da Paraíba já trabalham com a IFOAM-International Federation of Organic Agriculture Movements, visando atender à legislação referente a produtos orgânicos da Comunidade Européia e dos Estados Unidos.

Em 2007, cerca de 7,5 mil hectares nos Estados Unidos foram dedicados à safra de algodão orgânico. E programas como o “North American Organic Fiber Processing Standards” já estão se popularizando junto à indústria da moda.

De acordo com projeções do site DataMonitor, o mercado varejista de vestuário no bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) deverá chegar a US$ 253,6 bilhões em 2013. Por ser o principal produtor e importador de algodão cru e o maior exportador de tecidos de algodão e vestuário acabado do mundo, a indústria têxtil chinesa tem grandes interesses neste novo cenário.

Sendo assim, a China já está se organizando para estabelecer os requisitos necessários à obtenção de escala na cadeia de produção de roupas orgânicas. Vale lembrar que sua cadeia produtiva já passou por problemas que precisam antes ser resolvidos.

O avanço do vasto deserto de Taklimakan, por exemplo, cujas dunas engoliram cidades inteiras, apavorando os moradores dos subúrbios de Beijing, tem sido associado à produção industrial do algodão em larga escala na província árida de Xinjiang ocidental.

Para além da indústria têxtil, o universo da moda também está se mobilizando. No mês passado, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em Genebra, Suíça, realizou a EcoChic: um desfile de moda sustentável, em que conhecidos designers criaram peças a partir de fibras naturais fabricadas de forma mais sustentável.

Em fevereiro de 2010, na Fashion Week de Londres, a exposição “Estethica” foi dedicada à moda ecologicamente sustentável. Em março de 2010, o Fashion Institute of Technology, em Nova York, uniu forças com a Universidade de Delaware e com a escola Parsons de design para montar uma exposição de moda sustentável, intitulada "Passion for Sustainable Fashion", na qual os estudantes criaram roupas com matérias de origem ética e matérias-primas ecologicamente neutras.

Outra alternativa seria o processo de reaproveitamento de produtos descartados, como o Upcycling, do qual o terno de Jason Mraz é um bom exemplar. O problema é descobrir como fazer o Upcycling em escala comercial.

Em tudo isso, o mais importante é a conscientização de que "sustentabilidade" não se trata de modismos passageiros e sim de um assunto que deve ser abordado de forma séria e coerente.

*Carolina Cabral Murphy é pesquisadora da Columbia University e fundadora da MicroEmpowering.Org, sediada em Nova York (EUA)

**Imagem do Taklimakan -- o "deserto de onde não se volta" --, postada na web por Lilian Hellmann: 350 mil km2 de areias escaldantes




24 março 2010

"NÃO!" À RENDIÇÃO

Crise civilizatória*



As relações políticas são regidas por uma natureza especial, que é a conquista do poder. Nesse particular, diferem bastante das relações humanas comuns -- que são geridas pelos impulsos da paixão.

A política no mundo capitalista moderno tem se movido destruindo as bases que sustentavam as teorias políticas prevalecentes até o crepúsculo do século passado. O século XX foi um retrato da decadência dos pilares em que se estruturava a dinâmica e a evolução do progresso humano e político.

Ao mesmo tempo em que se valorizavam os princípios democráticos, na busca de eternizá-los e torná-los universais, desmanchavam-se pelas mãos invisíveis dos macrointeresses das corporações mundiais as partículas e os núcleos genéticos do fazer e realizar a política.

Daí a decadência dos partidos políticos e a mutação social advinda do crescente enfraquecimento da classe operária, desenraizada da vanguarda revolucionária, derivado dos avanços tecnológicos. O novo mosaico apagou o papel imaginado de força inata revolucionária, que tanto adubou o pensamento científico e utópico libertário de muitas gerações.

O mundo mudou de rotação e os velhos pensamentos pereceram pelos (des)caminhos inusitados da História. A crise mais retumbante é a da paralisia do pensamento intelectual acerca da complexa realidade.

Os utensílios conceituais que confortavam os intelectuais são hoje peças obsoletas, geradoras de perplexidade diante da marcha insensata dos acontecimentos. Há um sentimento de solidão no mundo, uma busca de refúgio nos esconderijos do individualismo. E, quando muito, uma tendência a se deleitar nas catedrais da distração do consumo.

As coisas banais da vida passam a ganhar relevo, tomando o precioso tempo da engenhosidade humana de compreender e transformar o mundo. Vivemos dos pequenos ódios, das alegrias fabricadas e da sede inconsequente de levar vantagem em tudo.

É uma crise civilizatória que atinge de cheio a nossa capacidade de raciocínio e imaginação. Há um vazio pairando no ar, que nos paralisa diante da bestialidade dos debates públicos e das mediocridades da vida privada.

A afetividade das relações pessoais se esfacela, gerando falta de generosidade e humanismo. Existe algo estranho dominando o comportamento humano, fazendo definhar a amizade, o carinho e a família.

Tudo parece ter virado um grande balcão de negócios, no pulsar egocêntrico do universo público e da intimidade. Talvez seja o apogeu da crise dos valores éticos e da decadência humana para enfrentar os grandes desafios históricos e das relações sociais.

Os parlamentos não mais traduzem os anseios coletivos, os partidos políticos viraram isopor, sem cheiro e sem sabor, boiando numa galáxia de interesses de corporações econômicas danosas. Discute-se o nada, propõe-se o inexistente e adiam-se as grandes decisões.

Não obstante, é tempo de repensar os passos, as instituições e a constituição de lideranças legítimas e enraizadas por esses novos eflúvios da contemporaneidade.

Antes, é preciso organizar o sentimento de perplexidade e apatia diante do caos que domina os destinos da humanidade. É insuficiente a crítica improdutiva e a fuga da salvação pessoal e da banalização dos afetos.

Os seres humanos não podem perder sua essência gregária. Não podemos nos render ao processo de desumanização, que só interessa às máfias bélicas e da guerra e ao mercado das drogas, que hoje avançam no domínio do poder.

*Fernando Cartaxo é sociólogo e jornalista




12 março 2010

BRASILEIRO TEM CABEÇA?

Pesquisa(s) e análise(s) (!)



Muito polêmicas são as conclusões brandidas no livro A cabeça do brasileiro, lançado em 2007 pelo sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida, e que representa, tomando-se as palavras do próprio autor, “um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta”.

Este — a quem o sociólogo, em primeiro lugar, dedica sua obra —, é exaltado como sendo "o Tocqueville brasileiro". Alexis de Tocqueville (Charles-Alexis Clérel de Tocqueville, 1805-1859), pensador e político liberal, foi um dos observadores mais lúcidos das transformações produzidas, em sua época, pela revolução liberal.

Este intelectual francês analisou a democracia na América igualitária, enquanto que DaMatta revela no Brasil uma sociedade tremendamente hierarquizada. E, o que nos interessa, Almeida nos mostra que pessoas de escolaridade baixa têm menos propensão a expressar os valores democráticos e igualitários, enquanto que “pessoas mais educadas tendem a se afastar da autoridade superior e a rejeitar as relações sociais verticais, em benefício de relações de poder mais horizontais”.

O trabalho de Almeida e suas conclusões realizaram-se através da aplicação de 2.363 entrevistas feitas nas cinco regiões do País, cujos questionários foram confeccionados a partir da teoria antropológica de DaMatta.

Os temas investigados na pesquisa, apresentados nos 11 capítulos do livro, variam entre racismo, o "jeitinho" brasileiro, hierarquia, relações parentais, sexualidade, a presença do Estado, o público e a lei na sociedade brasileira, entre outros.

No bojo de diversas observações, Almeida concluiu que, quanto menor o grau de instrução dos entrevistados, maior o índice de aprovação da quebra das regras sociais patrocinadas pelo “jeitinho brasileiro”. “Entre esta população de baixa escolaridade, há também uma tendência em mostrar-se tolerante com a corrupção”, afirma o autor.

O ponto que mais gerou polêmica em seu trabalho é que a pesquisa retira o véu religioso, que no Brasil encobre o discurso acerca da pobreza e dos menos instruídos, do cotidiano da nação.

Tradicionalmente, o governo e a igreja sempre se encarregaram de “cuidar” dos pobres e dos analfabetos. Sobre eles, historicamente, foi depositada uma película de comiseração ideológica acerca de qualquer crítica que, por acaso, se pudesse fazer aos pobres ou iletrados.

Outro aspecto impactante da pesquisa é a revelação de que a escolaridade baixa é a causa principal dos problemas brasileiros, num País — uma observação que não é do autor — onde o Presidente orgulha-se de não ter precisado de diploma para chegar ao cargo mais alto do Executivo.

Para o autor, “é a educação que comanda a mentalidade”. A pesquisa mostra que a população de baixa escolaridade tende a aprovar mais a censura e a intervenção do Estado, entre outras coisas. Por exemplo, 17% da população aprovam o nepotismo nos cargos públicos.

Esta faixa populacional também comanda um índice maior de aprovação no que se refere ao tão famoso "jeitinho" brasileiro. Estas práticas sociais agravam-se mais ainda, porque o "jeitinho" — o da pechincha, o da lábia, o da ginga, o das manobras políticas e o dos favores pessoais — acaba sendo a porta de entrada da corrupção.

Mas, tragicamente, a pesquisa revela que “o favor ainda é concebido pela população como algo legítimo na esfera pública”. Basta o leitor ouvir dos nossos políticos o número de vezes que estes se utilizam da palavra "negociação" quando deveriam se referir à palavra "discussão".

É sabido que o "favor" e o "jeitinho" sempre foram as práticas políticas mais convencionais da nossa história passada. Porém, daquela "sala-de-visitas", o governo atual passou definitivamente para o âmbito seguinte: o "espaço das negociações".

O governo, portanto, torna-se o lugar onde se fazem negócios — o que equivale a dizer que os brasileiros transformaram a política em compras e vendas de votos, projetos e medidas provisórias. Pior, as pessoas sequer dão-se conta do significado trágico desta semântica forçada.

Eu perguntaria, ao leitor esclarecido: esse tipo de política relacional feita na Casa do Povo entre parentes, amigos e amantes, é da ordem do "jeitinho", do favor ou da corrupção? Afinal, trata-se de uma "questão de ordem, Excelência!”.


*Gilberto Gnoato é psicólogo, mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência, professor do Curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e coordenador do Projeto Gincana de Morretes/PR


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www.estadao.com.br/estadaodehoje/20070826/not_imp41133,0.php

www.estadao.com.br/noticias/suplementos,como-anda-o-prazer,133357,0.htm

www.veja.abril.com.br/220807/p_086.shtml




17 fevereiro 2010

TRANSCICLAR É PRECISO

Arte revalorizadora


O documentário Lixo Extraordinário (Waste Land) recebeu dois prêmios em sua participação no 60.º Berlinale - Festival de Berlim: foi eleito pelo público, entre mais de 50 filmes, como Melhor Documentário da Mostra Panorama e ainda levou o prêmio independente concedido pela Organização de Defesa dos Direitos Humanos da AI-Anistia Internacional.

O longa-metragem mostra o desenvolvimento do trabalho do artista plástico Vik Muniz, tendo como cenário o Jardim Gramacho (foto) -- um dos maiores aterros sanitários do mundo.

Co-produzido pela O2 Filmes e pela inglesa Almega Projects, Lixo Extraordinário (Waste Land) já havia conquistado o prêmio do público como Melhor Documentário Internacional no Festival Sundance 2010.

Em Berlim, de 11 a 21 de fevereiro, Waste Land integrou a Mostra Panorama, paralela à disputa pelo Urso de Ouro -- seção do festival que se propõe a ser uma vitrine da produção mundial. Sua primeira exibição, no sábado 13, trouxe à metrópole alemã o co-diretor João Jardim e o produtor Hank Levine, que vieram acompanhar as sessões.

João Jardim, que dirigiu Janela da Alma e Pro dia Nascer Feliz, colabora em Waste Land com a cineasta Karen Harley e a documentarista inglesa Lucy Walker. Assinam a produção executiva os brasileiros Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro.

Com esta equipe, Lucy Walker propõe-nos um de seus mais elaborados projetos — uma instalação num imenso depósito de lixo, onde vivem os mais necessitados entre os desvalidos. Ali, muitos sobrevivem apenas dos descartes que encontram, reciclando-os de várias formas. Conhecidos como "catadores" ou "pluckers", alguns deles colaboram com Vik Muniz em seus experimentos de transcriação.

Um deles é Tiao, carismático sonhador que fundou uma cooperativa de catadores. Outro é o "traça" Zumbi, que devora livros como um genuíno intelectual. Há também a jovem Suelen, que com 18 anos já é mãe de duas crianças. Grávida de uma terceira, ela trabalha no lixão desde os 7 anos e tem orgulho de afirmar que nunca teve que se prostituir para viver.

Conduzidas por Vik Muniz, tais personagens transcriam-se em extraordinárias obras de arte. No processo, fotos dos catadores são ampliadas e reconstituídas com sucata, debris e outros descartes, sendo a seguir fotografadas para, por fim, retornarem transcicladas ao mercado.

Neste percurso, as personagens reciclam também a faina que inclui a transformação de si próprias, na constante ida e volta do aterro: o trabalho de Vik mexeu não somente com a visão que estas pessoas tinham de si mesmas, mas também alterou a forma de olharem para o mundo que habitam.

Em resumo, o documentário emoldura uma possível trajetória do lixo dispensado no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina, situado na periferia de Duque de Caxias (RJ) -- a de ser transmutado pelo artista plástico Vik Muniz, que após registrá-lo em fotografia o faz seguir rumo a prestigiadas casas de leilões internacionais.

Algumas destas obras inclusive retornam ao Rio de Janeiro, para compor as paredes da alta sociedade carioca. A estreia mundial do documentário Lixo Extraordinário, nos EUA, deixou o público do Sundance emocionado e perplexo, a ponto de aplaudir de pé o filme. "O instante em que uma coisa se transforma em outra é o mais belo de todos", sentencia Muniz.

“É surpreendente encontrar tamanha beleza no meio de tanto lixo, descaso e esquecimento. O trabalho do Vik funciona como um bálsamo no meio disso”, comemora Andrea Barata Ribeiro, co-produtora executiva do longa.



FICHA TÉCNICA
Waste Land* (Brasil/EUA/Londres - 2009), O2 Filmes & Almega Projects
Duração: 90 minutos
Ano de Produção: 2009
Diretores: João Jardim, Karen Harley, Lucy Walker
Produtores: Angus Aynsley e Hank Levine
Produtor Executivo: Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro
Fotografia: Duda Miranda
Patrocínio: BB Seguros, Brasilveículos, Brasilcap, Eletrobrás

*Viabilizado pela Lei do Incentivo ao Audiovisual (Art. 1.º A)


SAIBA MAIS
http://www.vikmuniz.net/

http://www.wastelandmovie.com/

29 janeiro 2010

DESGLÓRIAS VÍVIDAS

Antes que a chuva*



(I - Da Temporada 2010)
Férias, sol, suor e cerveja: alegria na cidade! Está aberta a nova temporada de caça ao turista.

O taxista engrena três meninas novas no pedaço, combinam porcentagens, discutem locais... o porteiro do hotel da Beira-Mar, do motel da Parangaba e da quitinete no Centro concordam com os índices. Os pais das meninas também.

Os restaurantes confeccionam novos cardápios, sempre com alguns números a mais.

Os meninos doiradinhos de sol descem o morro, canelas secas e ligeiras atrás do "gringo velho" que desapareceu no Novo México -- e, dizem, reapareceu em Iracema.

Os sujeitos das vans caçam vítimas: "Atenção, senhor! Três praias por 80 réis..."

Buggies assassinos esperam novas vítimas. Enquanto isso, cavalos, burros e jumentos cagam na onda branquinha.

O paredão de som ameaça com o "mais novo sucesso" da axé music e do forró eletrônico.

Três novos garçons foram contratados na barraca. Os olhos vermelhos miram câmeras e celulares.

No velho teatro, pseudo-humoristas desenferrujam velhas piadas, bufônicas, histriônicas e carregadas de preconceitos. Sacaneiam o carequinha, o gordito, o branquelo... arrancam o riso a fórceps.

Fecham o velho turismo nosso dos "três PPP": Praia, Prostituição Infantil e Piada de Mau Gosto.

"Está aberta, senhores, a nova temporada de caça aos turistas. Mas por favor, não os assustem, para que voltem! Vivos!"


(II - De paradidáticos)
E depois da famigerada corrida às compras de Natal e Ano Novo, os esfomeados comerciantes já afiam novamente suas garras, por trás dos mil livros escolares...

Além, os primos-pobres ensaiam sadismos, entre as árvores da Praça dos Leões.

— Olha aqui, freguês! Me mostra sua lista! Aqui a gramática novinha, já com o novo acordo ortográfico... Não tá riscada!... Custa 80 paus na livraria...

O "freguês" se esquiva do vendedor, do trombadinha e vai atrás do Papai Noel, que cortou a barba e é especialista em paradidáticos...

Quando se sente segura, telefona para o marido. "É melhor comprar no colégio, dividido em seis vezes..." Não chegam a um acordo e ela sai apressada, arrastando o menino e três sacolas cheias na direção do Passeio Público.


(III - De Pré-Carnavais)
Ano bom que se preze só se inicia depois do Carnaval, o meu apenas após a Semana Santa. E olhem lá!!!

E uma das desculpas preferidas do cearense é a de que "o Carnaval não, mas o Pré-Carnaval aqui é ótimo". Lenda urbana, igual à da Perna Cabeluda (que é de Recife), a Loira do Banheiro e a recente "Railux Preta".

(Aliás, somos pródigos em lendas urbanas, as mais variadas e nocivas possíveis: a de que o turismo beneficia a todos, a de que temos por aqui futebol, a de que a cidade é bela... e outras mil mais.)

Pois bem, se o Carnaval em três dias (?) já incomoda meio-mundo, imaginem os diversos pré-carnavais em cada canto desta nossa desvalida loirinha desvirginada pelo sol.

Do Periquito da Madame ao Vai dar o Carlito, do Cachorra Magra ao Rosca de Chifre do Zé Walter, do Num Ispaia senão Ienche, do Luxo da Aldeia ao finado Quem é de Bem Fica.

E tomem marchinhas mal-tocadas pelos ouvidos afora, e tomem fedor de mijo pelas calçadas semana adentro, e tomem cerveja quente pelo fígado alheio, e tomem "saidinhas" de blocos pelas ruas adjacentes...

E tomemos nós, insossos fortalezenses, barulhos sem-fim pelo mês de janeiro em diante...

E tomemos, nesse andor todos nós, no...



*Pedro Salgueiro constroi contos e crônicas e enreda palavras (de amor) à capital cearense como só ele sabe


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www.revista.agulha.nom.br/psalgueiro6.html

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20 janeiro 2010

A TERRA & A HUMANIDADE

Comunidade de destino*



Temos que começar o ano com esperança: urge fazer frente ao clima de revolta e frustração que significou a COP 15 de Copenhague.

Seguramente, o aquecimento global comporta graves consequências. Numa perspectiva mais filosófica, o fenômeno não se destinaria a destruir o projeto planetário humano. Mas, vem, porém, obrigá-lo a elevar-se a um patamar mais alto, existir concretamente: do local ao global e do nacional ao planetário.

Se olharmos para trás, para o processo da antropogênese, podemos seguramente dizer: a crise atual -- como as anteriores --, não nos levará à morte, mas a uma integração necessária da Terra com a Humanidade.

Será a geossociedade. Neste caso estaríamos, então, face a um sol nascente e não a um sol poente.

Tal fato objetivo comporta um dado subjetivo: a irrupção da consciência planetária com a percepção de que formamos uma única espécie, ocupando uma casa comum com a qual formamos uma comunidade de destino.

Isso nunca ocorreu antes e constitui o novo da atual fase histórica.

Inegavelmente, há um processo em curso que já tem bilhões de anos: a ascensão rumo à consciência. A partir de geosfera (Terra) surgiu a hidrosfera (água), em seguida a litosfera (continentes), posteriormente a biosfera (vida), a antroposfera (ser humano) -- e, para os cristãos, a cristosfera (Cristo).

Agora, estaríamos na iminência de outro salto na evolução: a irrupção da noosfera, que supõe o encontro de todos os povos num único lugar -- vale dizer, no planeta Terra -- e com a consciência planetária comum.

Noosfera, como a palavra sugere (nous em grego significa mente e inteligência), expressa a convergência de mentes e de corações que dá origem a uma unidade mais alta e complexa.

O que, entretanto, nos falta é uma Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade, que coordene as consciências e faça convergir as diferentes políticas.

Até agora nos limitávamos a pensar no bem comum de cada país. Alargamos o horizonte, ao propor uma Carta dos Direitos Humanos. Esta foi a grande luta cultural do século XX.

No entanto emerge, premente, a preocupação pela Humanidade como um todo e pela Terra, entendida não como algo inerte, mas como um superorganismo vivo, do qual nós, humanos, somos sua expressão consciente.

Como garantir os direitos da Terra junto com os da Humanidade? A Carta da Terra, surgida nos inícios do século XXI, procura atender a esta demanda.


*Leonardo Boff é teólogo, escritor e professor universitário

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www.cartadaterrabrasil.org/prt/text.html

http://blogs.opovo.com.br/yoga/categoria/ecologia-e-paz

12 janeiro 2010

VIVENDO E (DES)APRENDENDO

Trogloditas corporativos*



Décio, um leitor antigo, me escreve desconsolado. Não aguenta mais o ambiente de trabalho. Tem 28 anos, um espírito criativo e uma inquietação próprios de pessoas que gostam de fazer acontecer.

Quando saiu da Universidade tinha planos de tornar-se executivo de uma grande empresa, o que acabou conseguindo. Trabalha numa multinacional de serviços.

Cresceu praticamente do zero, pois começou na empresa sete anos atrás, como estagiário. E aprendeu e realizou muito, até atingir o cargo de gerente, quando os problemas começaram.

Repentinamente viu-se retirado de um grupo de pessoas que passa o dia fazendo acontecer e foi transferido para outro grupo, o das chefias. Onde fazer política é mais importante que fazer acontecer.

E do dia para a noite, ele — que era um funcionário badalado e sempre motivado pelos chefes — viu-se jogado num mundo onde a lógica, a motivação e o "pensar pelo bem de todos" perdeu o sentido.

Décio repentinamente descobriu que estava lidando com um tipo de gente diferente, os que não fazem e não deixam fazer.

Suas argumentações técnicas deixaram de ter sentido diante do "sempre foi assim", "não se aplica ao nosso negócio", "para o bem dos acionistas" e outras frases prontas destinadas a torpedear qualquer idéia ou projeto que intimide os que preferem a zona do conforto.

Numa das reuniões, Décio viu-se aos brados com um diretor comercial que não queria a implementação de um projeto que ajudaria a área comercial. O argumento era um "isso não serve" vazio, apoiado no "achismo"...

Décio não demorou a transformar sua irritação em desilusão. Sua idéia havia sido bombardeada não pelos méritos técnicos ou incapacidade de inovar e trazer benefícios para a empresa, mas pelos interesses políticos que ela ameaçava. Era uma excelente idéia, mas vinha de "outro". Portanto, não era possível "deixar fazer".

Pois a situação do Décio é muito mais comum do que ele, eu ou você imaginamos. Eu topo todo o tempo com gente que "não faz e não deixa fazer". São "trogloditas corporativos", os piores males que qualquer empresa pode ter. São inimigos internos, gente que aparentemente está imbuída das melhores intenções mas, no fundo, apenas luta pela manutenção de suas posições de poder.

Para essa gente, qualquer idéia vinda de outra área é uma ameaça que precisa ser destruída. Afinal, pode dar certo e projetar o autor a um nível igual ou superior ao do ameaçado. É o jogo político corporativo, a verdadeira razão da maioria dos problemas que afligem as empresas.

Tem gente que diz que é ego. Outros dizem que é incompetência. Tem quem jure que é saudável e necessário.

Pois eu acho burro. Mas compreendo que esse jogo deve ter se iniciado dentro de uma caverna, milhares de anos atrás.

O mundo evoluiu, mas os trogloditas corporativos continuam sua missão de não fazer e não deixar fazer.

Pobre Décio.


*Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.



06 janeiro 2010

VACILOS E CAMELOS

O buraco da agulha*



Noite de 31 de dezembro. O telejornal saía do ar por alguns instantes para dar espaço ao intervalo comercial. A última imagem era a de dois garis que, abraçados, olhavam para a câmera da reportagem e desejavam a todos um "Feliz Ano Novo".

Por um descuido técnico, desses que já derrubaram ministros no auge do prestígio, o microfone do âncora permaneceu ligado. Enquanto a vinheta de passagem se movimentava na tela, em milhões de lares ouviu-se o comentário jocoso do repórter: "Que merda, dois garis, a escala mais baixa de trabalho, desejando felicidade!" -- foi o que disse Bóris Casoy.

Não foi um deslize ético porque o profissional não teve a intenção de se manifestar no ar, publicamente, mas o comentário é muito revelador sobre a visão de mundo de muitos que, absortos numa vida pautada por valores materialistas, se alienam do sentido essencial da vida.

Para pessoas como o repórter, só um alienado seria capaz de sentir alegria e cultivar esperanças vivendo nas condições modestas em que vivem os garis. Há quem, isolado pelos muros do conforto, mimado em seu universo de luxo excedente, perca a capacidade de perceber a beleza das coisas pequenas.

Aquele gari deve ter filhos, por exemplo, e a alegria de revê-los em casa, após uma jornada extenuante de trabalho, justifica existencialmente pelo menos uma parte de suas privações. Quem sabe a métrica com que se mede o amor? Não tenho motivos para considerar aquela uma alegria menor do que as minhas, que ganho o meu sustento de modo menos árduo.

Como eu, como você, aquele senhor que limpa as ruas torce por um time de futebol, visita seus pais aos domingos, tem amigos na rua onde mora e todos aqueles vínculos simbólicos e afetivos que aliviam o fardo da existência e alimentam o espírito -- com um significado sempre renovado para esse mistério que se chama Vida.

Extrair prazer das coisas simples é o tesouro dos pobres. Há neles uma demanda de realização humana que, de tão reprimida e negada, se mobiliza ao menor indício de gozo. Por isso, é tão fácil se perder desses vínculos gratuitos com a graça quando se alcançam as distrações do conforto.

É o "buraco da agulha", na metáfora do profeta nazareno.


*Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Imagem: Needle's Eye -- formação rochosa do Custer State Park, South Dakota, USA, em www.gdargaud.net --, sob a qual espreme-se o fio da Needle's Highway

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22 dezembro 2009

TUDO AO REDOR

Natal com Cristo



Seríamos todos verdadeiramente felizes se passássemos o Natal com Cristo. Preferimos inventar, no entanto, umas bobagens e enchemos a imaginação de nossos filhos com Papai Noel, veados, renas, trenós fantásticos, Polo Norte imaginado.

Escondemos a realidade que construímos em redor de nós, com seres humanos vivendo nas favelas em situações as mais indignas e humilhantes.

Sabe qual é o Papai Noel que mais admiro? Ele existe de verdade e não faz a barba, porque não tem dinheiro para comprar qualquer tipo de barbeador. Quando ele passa, segurando um cordão com seis caixas de sapatos, sem sapatos, para mim é o Papai Noel mais importante do mundo.

O mais galante. As senhoras o adoram quando ele deixa uma caixa vazia em frente às suas casas, na favela. Durante alguns dias, vão viver como seres humanos e não como bichos -- para falar melhor a verdade, como gatos.

No caminhão de lixo, ninguém jamais abre as caixas: "É o esgoto dos pobres" -- explicam os lixeiros veteranos aos funcionários novos.

No Brasil atual, brincamos com Democracia e Cristianismo. Não levamos os dois a sério. Os políticos em Brasília piedosamente deram-se as mãos e rezaram o Pai-Nosso pelo presente de Natal que a Democracia Brasileira lhes deu: as verbas roubadas.

Tempo de Natal! A Liturgia católica recomenda ler, neste ano, o evangelho de São Mateus. Você, católico relaxado, vai mesmo morrer sem jamais ter lido um evangelho da primeira à última página? São tão poucas folhas!...

Somente umas vinte! Não tenha a Eternidade para se arrepender...

Com Cristo, tenham todxs um feliz Natal de verdade. Contado por Mateus!


*O professor Roberto de Carvalho Rocha é diretor da Faculdade Christus em Fortaleza

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www.christus.com.br