18 fevereiro 2011

MILLÔR, ÚLTIMA INTELIGÊNCIA



Brasil de ágrafos

O jornalista Luciano Pires já afirmava que "qualquer coisa que Millôr se propõe a fazer, faz melhor que qualquer outro". E se declarava "fã de carteirinha dessa figura maravilhosa de ser humano pensante, homem, escritor, teatrólogo etc. etc. etc.!"

Feito o elogio, convidava-nos, ainda em 2005, a ler o que "esse deus das letras" escrevera, segundo ele, publicado pelo jornal La Insígnia, em 2 de setembro de 2005.



Foi uma visão porreta Sobre os livros — e aí nos lembramos da frase atribuída a Monteiro Lobato, de que um país se faz com homens e com livros. Faz-se ou não?




 Fato é que, como em tudo que fazia, Millôr sempre abusava da ironia, expunha feridas e tirava um grande sarro. Senão, leiamos:

SOBRE OS LIVROS

"Na deixa da virada do Milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, tecnologicamente chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas -- ou, resumidamente, L.I.V.R.O. 

"O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada e nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo! 

"Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua ordem correta.

"O uso intensivo do recurso TPA -- Tecnologia do Papel Opaco -- permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade! 

"Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. E sabem que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas.

"Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, fato que atrai críticas dos adeptos da portabilidade do sistema. 

"Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escameada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro.

"Lembramos que, quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.


"Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima pagina. 

"Assim, o L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, basta abri-lo. Ele nunca apresenta 'ERRO GERAL DE PROTEÇÃO', nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. 

"O comando 'broxe'* permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. 

"E mais: a maioria dos modelos de 
L.I.V.R.O. à venda vem com o equipamento 'índice' instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.


"Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na ultima utilização, mesmo que ele esteja fechado.

"A compatibilidade dos marcadores de página é total, e permite que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. 


"Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para o uso de marcadores coincide com o número de páginas.


"Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada — o L.A.P.I.S.. 


"Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. é apontado como o mais popular instrumento de entretenimento e cultura do futuro. 


"Por isso, milhares de programadores desse sistema continuam disponibilizando vários títulos e upgrades para utilização na plataforma L.I.V.R.O."

Pois é, Luciano Pires tem razão: Millôr é genial — e todo mundo sabe. Mas hoje, preocupa-nos.

Tudo porque, via twitter, a equipe do venerado desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor, que já conta 86 anos, divulgou no dia 16/02 que Millôr, internado na clínica São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio, estaria "melhorando lentamente".

Oras, nada foi dito sobre o seu estado de saúde. A pedido da família, não foi divulgada nem a data nem a razão da internação. Enquanto isso, diz-se que, em seu site no UOL, Millôr postou o seguinte texto:


"Há mais de cinco décadas escrevendo na imprensa, sempre me disseram, os que me disseram, que me admiravam, os que me admiravam, mas não me entendiam (quase todos). Admirado, no sentido de perplexo, procurei, centenas de vezes, descobrir quem eu era e o que fazia neste perfeito mundo profissional de vocês todos". 


A seguir, teria elencado frases intituladas como "(eis) algumas dessas tentativas de auto-entendimento — ou autotapeação." Bem, divirtamo-nos com sua verve e esperemos por sua saúde.



No blog da jornalista Lu Lacerda lê-se que o escritor, desenhista, dramaturgo e humorista Millôr Fernandes, "como sabido", está internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio, depois de um acidente vascular cerebral (AVC). "Millôr, inconsciente desde o começo de fevereiro, deixou a unidade intensiva nesta quinta-feira (17/02). Os três médicos que estão cuidando dele dizem que ele responde bem aos estímulos e supõem que seu estado neurológico seja bom. Quanto às eventuais postagens no Twitter, são de assistentes de Millôr."

Millôr, que participou da criação do combativo e brasileiríssimo Pasquim, é um dos principais tradutores de Shakespeare no País, além de cartunista, poeta, escritor, dramaturgo, jornalista  e uma das mais completas inteligências nacionais, também como pesquisador da semântica e das artes em diversos idiomas e suportes. 

Prova disso é que ele — sempre — recusou-se peremptoriamente a deixar-se dispor da intenção de que o fizessem participar da Academia Brasileira de Letras.

Porque seria? 


Pra saber, só mesmo perguntando ao Mestre!



*provável trocadilho com "browse", ação decorrente do
termo "browser" — "navegador", em Português do Brasil

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19 janeiro 2011

JORNADA COMO METÁFORA


Ir como se quer*

“Tenho proposta de outro palestrante por um terço do valor que você pediu!” — Era o comprador de uma grande empresa, durante concorrência para uma série de palestras que eles queriam contratar. Eu já havia esgotado meus argumentos lógicos e o que fiz foi corrigir o sujeito: 
- Meu caro, onde você disse “valor”, quis dizer “preço”. 
Em seguida, dei-lhe uma aula: 
“Valor e preço são coisas diferentes, quer ver? Após uma viagem acidentada e cansativa você chega ao aeroporto de Cumbica. Seu carro, é claro, está no aeroporto de Congonhas. Você tem algumas escolhas: pode, por exemplo, tomar um ônibus circular até o Tatuapé, de onde pegará outro para Congonhas. O preço é cerca de R$ 7,00 e o deslocamento levará no mínimo uma hora e meia. Você também pode optar pelo Airport Bus Service, direto de Cumbica para Congonhas. Gastará uns R$ 40,00 e levará 50 minutos. Se preferir um taxi, pagará no mínimo R$ 120,00 e levará uns 45 minutos. Mas você poderia alugar uma limusine pagando R$ 1.000,00. Levaria um pouco mais de tempo que o taxi, mas que conforto!"
Resumindo, dá pra fazer Cumbica - Congonhas gastando R$ 7,00, R$ 40,00, R$ 120,00 ou R$ 1.000, 00. 
Levar você de onde você não quer estar para onde você quer estar é a corrida, qualquer um faz, só varia o preço. E cá entre nós, uma corrida entre Cumbica e Congonhas não vale R$ 120,00, muito menos R$ 1.000,00. Mas você não está comprando só ‘uma corrida’. É o quanto de rapidez, conforto e segurança você deseja que determinará o valor da corrida. Para um mochileiro com pouco dinheiro, enfrentar várias paradas, ônibus sem conforto, carregar a bagagem e sujeitar-se a atrasos gastando apenas R$ 7,00 é um ótimo negócio. Mas para um empresário buscando rapidez, conforto e segurança, não. Dependendo das circunstâncias, R$ 120 ou até mesmo os R$ 1.000,00 podem ser aceitáveis.
Quem compra uma palestra apenas para preencher uma janela num evento ou entreter as pessoas enquanto não chega a hora do jantar, está comprando “uma corrida”, um serviço comum, sujeito a leilões. Dá para escolher o mais baratinho. E aí eu fico caro, pois não vendo palestras. 
O que eu vendo é a habilidade de transformar 17 anos de educação formal, 30 anos de experiência profissional, 54 anos de experiência de vida, centenas de livros lidos, cinco livros escritos, muitos sucessos e muitas quebradas de cara, viagens inusitadas e milhares de reuniões e reflexões, numa argumentação capaz de encantar a platéia e levá-la a agir de forma a atender aos objetivos de quem me contratou, trazendo resultados para seu negócio.

A palestra é apenas o processo de entrega. Uma corrida.
E finalizei: "Se você quer preço, experimente o ônibus comum. Se quer um pouco mais de conforto, experimente o Airport Bus Service. Mas se você busca algo criativo, excepcional, único e sensorial, que marque definitivamente, não tem jeito: tem que ser de limusine. E essa experiência eu vendo.”
Não ganhei a concorrência. O comprador só conseguia entender "preço".
Foi de ônibus.

*Luciano Pires é palestrante, executivo, comunicador, focado em despertar o pensamento crítico, lateral, com foco na solução de problemas. Imagem em glimboo.com

SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br 

11 janeiro 2011

TUMORES MALIGNOS

Lamentável Congresso*


Ganhar um bom salário é bom. Ganhar um ótimo salário é ótimo. Mas muito melhor do que isso é poder determinar o valor do próprio salário: que o digam os parlamentares brasileiros que, recentemente, deram-se um estrondoso aumento.

Fizeram isso despudoradamente, com a desculpa de que eles, os senadores, o Presidente, o vice e os ministros de Estado devem ganhar o mesmo que os juízes do STF, que recebem o salário máximo do funcionalismo público.

Foi um "aumentinho bobo", de 62%, quando a inflação acumulada desde o último aumento foi de 20%. Um "aumentinho besta", que elevará seus salários de R$ 16,5 mil para R$ 26,7 mil.

Um "aumentinho" que causará um efeito cascata, aumentando também os salários de vereadores e deputados estaduais.
Indignação, asco e revolta — é o que nos inspiram, cada vez mais, nossos deputados e senadores.

Enquanto o salário mínimo sua e sofre para acompanhar a inflação, os parlamentares presenteiam-se com estupendos salários, zombando dos idiotas que os elegeram. Eles, que deveriam ser representantes do povo, transformaram-se em tumores malignos da sociedade.

Louve-se a esperteza de Suas Excrescências: aprovaram o aumento, sorrateiramente, pouco antes do Natal, quando a atenção do País inteiro se volta para compras, férias, viagens e réveillon

Com isso, a partir de fevereiro um assalariado precisará de quatro anos para ganhar o que um parlamentar embolsa num único mês, e com a diferença de que este tem 14.º e 15.º salários, verbas extras a perder de vista e só trabalha três dias por semana. E ainda pode aumentar o próprio salário.

Há os que protestam, felizmente. Homenageado pelo Senado com a comenda Direitos Humanos Dom Helder Câmara, oferecida aos que se destacaram em favor dos Direitos Humanos, Dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo de Limoeiro do Norte, no Ceará, viajou a Brasília mas recusou a homenagem. 

Em discurso no Plenário da Casa, disse que o aumento era um atentado aos direitos humanos dos brasileiros. Falou por todos nós, os indignados.

O salário do tumores parlamentares é só um item. Incluindo todos os benefícios a que Suas Excrescências têm direito, cada um deles custará para nós, os eleitores idiotas, em média, R$ 140 mil mensais. 

É muita grana. Daria pra comprar meio milhão de ovos. Ou para manter um bandido em um presídio de segurança máxima por 29 dias.
Tirando uma mísera parcela que realmente trabalha pelo bem-estar do povo, nossos políticos usam o mandato apenas para legislar em nome de seus interesses pessoais.

Para esses pilantras, o voto obrigatório é vantajoso, pois mantém baixo o nível médio de senso crítico do eleitorado. Se não fosse obrigatório, só fariam questão de votar os que realmente sabem da importância de seu voto.

Infelizmente, o sistema eleitoral permite também que candidatos com menos votos sejam eleitos, graças a candidatos do mesmo partido ou coligação que receberam muitos votos. 

Isso faz com que o "voto de protesto" piore a situação: foi o que aconteceu com o palhaço Tiririca, que foi feito candidato somente para arrastar com ele alguns colegas menos votados.

Ao saber do aumento salarial, o palhaço mais votado do País comemorou, fazendo piada com o dinheiro alheio. Começou mal.

No site peticaopublica.com.br há um abaixo-assinado onde nós, os idiotas, podemos protestar contra o aumento. Não é isso, obviamente, que resolverá o problema, mas é o mínimo que um cidadão indignado deve fazer.

Ah, ia me esquecendo. Com o que gastamos todo mês com um desses tumores malignos de Brasília, daria para comprar 1.320 guilhotinas, tamanho grande. Bem afiadas.



LEIA MAIS

*o indignado escritor e roteirista Ricardo Kelmer mostra mais facetas de sua rotina em blogdokelmer.wordpress.com
.
Dos 318 deputados presentes à sessão de 15/dez, 35 se posicionaram contra a urgência para votar o projeto de aumento dos salários. Foram eles:
Henrique Afonso (PV-AC), Luiz Bassuma (PV-MG), Augusto Carvalho (PPS-DF), Magela (PT-DF), Capitão Assumção (PSB-ES), Lelo Coimbra (PMDB-ES), Sueli Vidigal (PDT-ES), Vander Loubet (PT-MS), Luiz Couto (PT-PB), Major Fábio (DEM-PB), Alfredo Kaefer (PSDB-PR), Assis do Couto (PT-PR), Gustavo Fruet (PSDB-PR), Marcelo Almeida (PMDB-PR), Reinhold Stephanes (PMDB-PR), Takayama (PSC-PR), Raul Jungmann (PPS-PE), Chico Alencar (PSOL-RJ), Cida Diogo (PT-RJ), Fernando Gabeira (PV-RJ), Luciana Genro (PSOL-RS), Paulo Pimenta (PT-RS), Eduardo Valverde (PT-RO), Ernandes Amorim (PTB-RO), Mauro Nazif (PSB-RO), Décio Lima (PT-SC), Dr. Talmir (PV-SP), Emanuel Fernandes (PSDB-SP), Fernando Chiarelli (PDT-SP), Ivan Valente (PSOL-SP), José C. Stangarlini (PSDB-SP), Luiza Erundina (PSB-SP), Paes de Lira (PTC-SP), Regis de Oliveira (PSC-SP) e Iran Barbosa (PT-SP).

SAIBA MAIS
>> Petição contra o aumento do salário de deputados e senadores assine em www.peticaopublica.com.br 

>> Assine a petiçãocontra a obrigatoriedade do voto -  https://votoobrigatorionao.com.br/index.php

>> Congresso em Foco: informações sobre as atividades dos parlamentares - http://congressoemfoco.uol.com.br

02 janeiro 2011

NORDESTE: SOPRAM OS VENTOS

Nova convenção desenvolvimentista*


O conceito de "convenção" utilizado no título deste artigo refere-se a uma expressão já consagrada nos textos que tratam do desenvolvimento econômico, significando o "conjunto de crenças compartilhado coletivamente, que tem um papel importante na mobilização da sociedade em torno dos objetivos do desenvolvimento".

É a isso que temos assistido mais recentemente no País — e, particularmente, no Nordeste —, quando o sentimento geral traduz a opção pelo crescimento econômico, impulsionado pelos maciços investimentos que vêm sendo conduzidos pelo Governo Federal e pelos Estados.

Os indicadores macroeconômicos revelam que o País segue um ciclo virtuoso, possibilitado pela conjunção de políticas públicas coerentes com a promoção do seu desenvolvimento. Como resultado dessas políticas, a taxa média de crescimento real anual do PIB-Produto Interno Bruto passou de 2,5%, no período 1994-2003, para 4,7%, entre 2004 e 2008.

O crédito teve papel importante para estimular essa expansão, uma vez que sua participação, em relação ao PIB, passou de 24,5% em 2004 para 45% em 2009. A contribuição dos bancos públicos para o crédito bancário representou 82%, destacando-se, principalmente, a contribuição deles no período pós-crise financeira internacional, para contrabalançar a significativa redução da disponibilidade de crédito privado para as empresas.

Na realidade, a política de desenvolvimento do Governo Federal tem sido direcionada para estimular investimentos com vistas a consolidar e expandir a liderança em setores estratégicos, como de petróleo e gás natural, bioetanol, carnes, mineração, papel e celulose, siderurgia e do complexo aeronáutico. E essas políticas, de caráter nacional, vêm tendo rebatimentos importantes nas regiões.

Ao lado disso, há também, ações federais de recorte regional, traduzidas pelos investimentos públicos para viabilização de grandes empreendimentos como a Transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina, as Refinarias e as duplicações de BRs, os quais deverão ser concluídos ao longo do próximo Governo Dilma, proporcionando mudanças estruturais em nossa economia.

Estes investimentos traduzem bem o esforço do Governo Federal para equacionar problemas históricos que afligem boa parte da população, principalmente os relacionados com a elevada pobreza e as desigualdades, tanto em termos pessoais, quanto espaciais.

Quando o Governo Federal prioriza o combate à pobreza e a redução das desigualdades regionais tende, naturalmente, a orientar suas ações para as regiões Norte e Nordeste. No Nordeste, de modo peculiar, tais políticas são fundamentais, pois têm estimulado o surgimento de subespaços, cuja dinâmica tem gerado encadeamentos produtivos, abrindo possibilidades para o desenvolvimento de novos setores vinculados às cadeias produtivas regionais, além de exporem os principais gargalos logísticos regionais, passando a requerer ações mais estratégicas da União para a inserção da região no contexto econômico nacional.

Daí a razão desses grandes investimentos estruturadores, como é o caso da Transnordestina — que vai ter um impacto importante na logística regional —, contribuindo, certamente, para a melhoria da competitividade da nossa economia.

Junto à ampliação e modernização dos portos de Itaqui, Suape e Pecém, cuja capacidade operacional irá demandar um maior volume de cargas provenientes de outras regiões do País, a Transnordestina vai ligar as áreas dinâmicas do interior do Nordeste, produtoras de grãos (Sul do Maranhão e Piauí e Oeste da Bahia), frutas (Vale do São Francisco) e gesso (Araripina/PE) com os portos de Pecém/CE e Suape/PE.

Além disso, a integração estratégica da Transnordestina com a ferrovia Norte-Sul vai viabilizar o escoamento da produção da riqueza produzida no Centro-Oeste do País através dos principais portos nordestinos, que apresentam condições operacionais bem melhores do que as de qualquer outro porto do Brasil, além da localização estratégica mais próxima aos mercados americano e europeu.

Na área de energia, além dos investimentos na complementação das linhas de transmissão de alta tensão e a multiplicação de projetos no âmbito do PROINFRA, implementando pequenas centrais hidrelétricas, o Nordeste apresenta também elevado potencial para o aproveitamento de energia eólica, fotovoltaica e de biomassa, garantindo uma matriz energética não poluidora, capaz de atender a qualquer acréscimo de demanda decorrente do crescimento econômico regional.

Finalmente, na área de infraestrutura, a integração de bacias no Nordeste, através da Transposição do Rio São Francisco, deverá resolver o problema secular de carência hídrica do semiárido nordestino, viabilizando a utilização dos recursos hídricos para fins econômicos e de consumo humano, dentro do princípio da sustentabilidade ambiental.

Portanto, as perspectivas de manutenção da atual convenção desenvolvimentista nos dão a certeza de que todos esses grandes empreendimentos deverão estar concluídos a curto ou médio prazos, o que nos permite estabelecer um cenário otimista quanto às possibilidades de continuarmos evoluindo em termos de melhoria das condições de vida da população nordestina, especialmente da residente no semiárido.


*Adriano Sarquis Bezerra de Menezes é economista, Doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia, Mestre em Economia, Especialista em Administração pelo MIT-Massachussets Institute of Technology e professor de Economia da UNIFOR-Universidade de Fortaleza (imagem: www.madphotoworld.com)



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Complementando o pensamento exposto, o leitor Ricardo Perdigão Pamplona comentou (em 03/01/2011 no jornal O Povo) que, "na verdade, a nova idéia de convenção aponta para novos paradigmas, onde o crescimento e o PIB dão lugar a desenvolvimento e IDH, conceitos ainda pouco ou mal utilizados no Brasil. Na visão convencional de desenvolvimento, supunha-se que, alcançando taxas significativas de crescimento econômico, o mesmo 'se derramaria' sobre os setores menos favorecidos, tirando-os da pobreza. Assim, o crescimento seria, ao mesmo tempo, desenvolvimento social. Essa teoria ficou conhecida como 'modelo de derrame', ou seja, não basta o crescimento para solucionar a pobreza.

"Dentro da agenda dominante da globalização, a formação de capital é frequentemente confundida com riqueza, assim como o crescimento é igualado ao desenvolvimento. De maneira inversa, a criação de riqueza é a geração de um pool holístico de recursos para o desenvolvimento, e não apenas para o crescimento, e que, por sua vez, poderia se tornar a base da regeneração de recursos. A crise do pensamento econômico convencional abre uma oportunidade para que, na busca de um modelo mais compreensivo, abrangente e integral do desenvolvimento, se incorporem de forma legítima as dimensões culturais do mesmo.

"Assim, o desenvolvimento é, hoje, entendido como 'desenvolvimento cultural', em cujo cerne se encontram a criação, a produção e o intercâmbio de sentidos e as apropriações individuais e sociais, entendidas como processos dinâmicos. Finalizando, e do ponto de vista prático, os economistas costumam admitir que existam efeitos diretos sobre o emprego e a renda, em produtos culturais tradicionais como o artesanato e o turismo cultural — infelizmente ainda pouco explorados entre nós."



E TEMOS AINDA o discurso de posse da Presidente Dilma Rousseff, que dia 1.º de janeiro focalizou a importância da cultura para o desenvolvimento do País:

“Pela primeira vez o Brasil se vê diante da oportunidade real de se tornar, de ser, uma nação desenvolvida. Uma nação com a marca inerente também da cultura e do estilo brasileiros – o amor, a generosidade, a criatividade e a tolerância.

(…)
Mas o caminho para uma nação desenvolvida não está somente no campo econômico ou no campo do desenvolvimento econômico pura e simplesmente. Ele pressupõe o avanço social e a valorização da nossa imensa diversidade cultural. A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade.

Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação de nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo.

Em suma: temos que combater a miséria, que é a forma mais trágica de atraso, e, ao mesmo tempo, avançar investindo fortemente nas áreas mais modernas e sofisticadas da invenção tecnológica, da criação intelectual e da produção artística e cultural. 

Justiça social, moralidade, conhecimento, invenção e criatividade devem ser, mais que nunca, conceitos vivos no dia a dia da nossa nação.”


25 dezembro 2010

DAPRAIA COMIC RELIEF

Tirinhas Dapraia


UNIÕES IMPROVÁVEIS — por Guabiras



ALERTA NATALINO —  por Denilson Albano




 ATIREM LOGO A PRIMEIRA PEDRA — por Jefferson Portela





















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http://blog.opovo.com.br/blogdoguabiras

http://fotolog.terra.com.br/denilsonalbano

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10 dezembro 2010

OS PREÇONHENTOS

Dimensões e comparações*


Alguns conhecidos meus foram — e voltaram da China impressionados. Um determinado produto, do qual o Brasil fabrica um milhão de unidades, uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões...

A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reação é impressionante. Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas... com preços que são uma fração dos praticados aqui.

Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: US$ 100. Um operário brasileiro equivalente ganha US$ 300, no mínimo.

São valores que, acrescidos de impostos e benefícios, representam quase US$ 600. Comparados com os US$ 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente zero benefícios...

Hora-extra? Na China? Esqueça. O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego (!), que trabalha horas-extras sabendo que nada vai receber...

Essa é a armadilha chinesa. Que não é uma estratégia comercial, mas de poder. Os chineses estão tirando proveito da atitude dos marqueteiros ocidentais, que preferem terceirizar a produção e ficar com o que “agrega valor”: a marca.

Dificilmente você adquire, nas grandes redes dos EUA, um produto feito nos EUA. É tudo “made in China”, com rótulo estadunidense. Empresas ganham rios de dinheiro comprando dos chineses por centavos e vendendo por centenas... Mesmo ao custo do fechamento de suas fábricas.

É o que chamo de “estratégia preçonhenta”.

Enquanto os ocidentais terceirizam as táticas e ganham no curto prazo, a China assimila as táticas para dominar no longo prazo. As grandes potências mercadológicas que fiquem com as marcas e com o design...

Os chineses ficarão com a produção, desmantelando aos poucos os parques industriais ocidentais. Em breve, por exemplo, não haverá mais fábricas de tênis pelo mundo. Só na China. Que então aumentará seus preços, produzindo um “choque da manufatura”, como foi o do petróleo.

E o mundo perceberá que reerguer suas fábricas terá custo proibitivo. Perceberá que tornou-se refém do dragão que ele mesmo alimentou. Dragão que aumentará ainda mais os preços, pois quem manda é ele — que tem fábricas, inventários e empregos... Uma inversão de jogo que terá o impacto de uma bomba atômica. Chinesa.

Nesse dia, os executivos “preçonhentos” tristemente olharão para os esqueletos de suas antigas fábricas, para os técnicos aposentados jogando bocha na esquina, para as sucatas de seus parques fabris desmontados.

E se lembrarão, com saudades, do tempo em que ganharam dinheiro comprando baratinho dos chineses e vendendo caro a seus conterrâneos...

E então, entristecidos, abrirão suas marmitas e almoçarão suas marcas.


*o colunista Luciano Pires é palestrante motivacional, escritor, jornalista, cartunista, executivo, radialista, comunicador multimídia, empresário e mantém ativa a luta contra a pocotização universal

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"O menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada e fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos." (Erico Veríssimo)

24 novembro 2010

REALIDADE TAL E QUAL

Profissão de fé*



Apesar dos pesares e de circunstanciais laivos de tristeza e amargor que, por vezes, deixo transparecer no que escrevo, talvez por não me levar sempre demasiado a sério, jamais fui de viver chorando a morte da bezerra ou aquilo que simplesmente poderia ter sido e que não foi.

Porque não faz parte da minha natureza cultivar o pessimismo profissional — mas também, por outro lado, não me considero aquele tipo de sujeito que pode ser classificado como um otimista delirante.

Humanamente, hei por bem confessar que não sou dotado de razão plausível para andar reclamando da maneira pela qual a vida vem me tratando ao longo do meu existir, embora haja sofrido algumas pernadas traiçoeiras do destino.

Outrossim, jamais fui seduzido pela ufanista ideia de me deixar ficar sentado, acomodadamente, sobre os poucos louros e os muitos fracassos por que passei, chocando ovo de jacaré só pra ver se nasce rouxinol.

Além do mais, ora pílulas, não se pode de forma alguma tentar negar que a realidade é a realidade tal e qual, sem subterfúgios, sem tirar nem por, e que se abate sobre todos nós de todas as maneiras possíveis e imagináveis e nem adianta coisa nenhuma tentar fugir dela usando qualquer anestésico, pois que senão é como tentar escafeder-se de si mesmo(a), mentindo descaradamente diante da nossa imagem refletida num espelho.

Só existe um modo de mudar a tal da realidade: unir a ação ao pensamento e ir à luta, com a solene disposição de matar um leão a cada dia.

Porque buscar inutilmente nos enganarmos? Não, a vida não é inimiga vocacional de seu ninguém, muito embora tenha lá algumas insondáveis predileções por alguns raros sortudos, que nascem com a bunda virada pra lua, como se diz no popular.


Eu, por exemplo, em matéria de PPB (Produto Pessoal Bruto), já me habituei ao inegável fato de que as minhas reservas cambiais nunca me foram por demais folgadas. Os ventos da monetária fortuna nunca se dignaram a enfunar generosamente as velas do meu boêmio barco.

Porém, de uma coisa tenho absoluta certeza (logo eu, homem de raras certezas): não posso me queixar da vida. Bem ou mal, com ou sem percalços, ainda consigo garantir a cervejinha sem álcool das crianças fazendo o que gosto.

De uma maneira ou de outra, sou o que sempre almejei ser: nem mais nem menos.

E à noite, antes de vencer a minha contumaz insônia, não resta em mim nem um tico de vergonha, ou de pejo, quando olho minhas sessentonas fuças ao espelho.

Posso até não dormir o sono dos justos, dos inocentes, dos sem-pecado, mas caio nos braços de Morfeu certo de que mal nenhum fiz a meus semelhantes, pelo menos de caso pensado.

O jovem idealista que um belo dia fui não se decepciona com o quase ancião que hoje sou. Não tenho medo do novo —afinal, o novo sempre vem, embora pelo simples fato de ser novo não significa compulsoriamente que seja bom.

E por isso mesmo, como sempre, estou aberto a novas experiências, principalmente porque o imprevisível jogo da vida é que nem o Cassino do Chacrinha, que só acaba quando termina.



*Escritor contumaz, médico-psiquiatra, colunista do Jornal da Praia desde os anos 1980, Antônio Airton Machado Monte é um dos mais legítimos cronistas da sua (nossa) época. Imagem por A. Britton (2002)


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www.opovo.com.br/colunas/airtonmonte

03 novembro 2010

SUGESTAS E SUGESTÕES

Nas entrelinhas*


As informações não transformam apenas o nosso pensamento e mudam nossa visão de mundo, mas transformam também os nossos sentimentos em relação a este mundo. Assim, o mundo não é feito apenas do que podemos ver e tocar, mas também das idéias e dos sentimentos que temos sobre ele.

Dizem que a imprensa se interessa mais por notícias ruins do que por boas. A imprensa e a publicidade sobrevivem de audiência, logo, não estariam divulgando mais más notícias do que boas, se não houvesse interesse do público. Então, fica difícil saber quem veio primeiro — se o interesse do público nas notícias ruins em vez das boas ou da imprensa em divulgá-las.

A razão para o especial interesse nas más notícias pode estar no fato de que o mal tem uma enorme capacidade de causar danos. Uma única bala perdida, ou um cochilo no trânsito ou na conduta moral, ou uma explosão de fúria, pode deixar alguém paraplégico, morto, corrupto ou assassino. De nada adiantará lembrar de todos os outros momentos em que este alguém foi uma pessoa boa, pacífica, honesta, cuidadosa.

Ela será, antes, medida e julgada por este único ato mau, e em raras ocasiões os seus atos bons poderão ser considerados para atenuar sua pena: se pedir com jeitinho e da maneira correta, Deus perdoa, mas os homens não. E, mesmo depois de cumprida a pena, permanecerá o preconceito, que marcará a pessoa que foi pega cometendo um ato mau como um carimbo na testa.

Considerando estes fatores, o que nos dizem as entrelinhas das notícias? Que informações nos passam sem dizer diretamente? Por exemplo, como nos sentimos quando recebemos notícias sobre a descoberta de mais um político ou policial corrupto?

E quando sabemos que esses corruptos, mesmo depois de descobertos, ainda assim permanecem ou retornam ao poder, por algum artifício legal ou por força de uma Justiça injusta, ou mesmo pelo voto do eleitor?

Uns podem sentir-se satisfeitos ao ver em tais divulgações um indicador do fortalecimento das instituições e da democracia e que os bons estão prevalecendo, conseguindo identificar e punir os maus, indicando o caminho que devemos seguir para uma boa vida em sociedade.

Outros podem sentir medo e desamparo, por acharem que, para cada corrupto violento e despreparado que é descoberto, existem outros que permanecem ocultos e que foram mais inteligentes e espertos e por isso conseguiram escapar, mas que continuam se passando por sérios e competentes, como os corruptos e despreparados eram antes de serem pegos.

Como um cidadão assim se sente, por exemplo, ao ser abordado numa blitz? Como saber se é falsa ou verdadeira? Como saber a diferença entre um policial honesto e um bandido de farda?

Os policiais vivem o mesmo dilema. Como saber se estão diante de um cidadão de bem ou de um bandido pronto para atacar? Como o policial pode diferenciar a legitima reclamação de um cidadão de bem, constrangido em seus direitos, de um bandido querendo criar tumulto para distrair os policiais a fim de sacar uma arma escondida?

Então, naturalmente, os policiais assumem uma atitude de prudência, que facilmente pode ser confundida, ou ser de fato, grosseria, arrogância, violência — agravada pelo fato de estar empunhando a arma pelo lado do gatilho.

Por instinto, o medo do desconhecido leva os cidadãos de bem a confiarem desconfiando de sua polícia, resultando na não colaboração, na sindrome do pânico, num surdo sentimento de medo e insegurança, por que "bandido é bandido", não há desconhecimento neste fato, e é para se ter medo mesmo, mas quem faz a polícia são servidores públicos, pagos com o dinheiro dos nossos impostos, e que deveriam passar aos cidadãos o sentimento de que estão seguros, pois eles, os policiais, tomaram para si esta responsabilidade!

Entretanto, bem ao contrário disso, alguns cidadãos se sentem reféns da própria cidade e de quem deveria lhes proteger.

E como nos sentimos diante de notícias sobre juízes corruptos ou que censuram a imprensa com condenações injustas, que obrigam o veículo a pagar indenizações, por ter publicado a verdade que atingiu algum poderoso ou a própria Justiça?

Como nos sentimos diante de notícias sobre a lentidão e ineficácia da Justiça e condenações pífias contra empresas poderosas?

Pessoas lesadas em seus direitos acharão que vale a pena recorrer à Justiça ou é melhor arder no prejuízo, para não sofrer (mais) perdas e ter aborrecimentos maiores depois?

Como se sentem os milhões de consumidores lesados por bancos, empresas de telefonia, energia, transporte e muitas outras, conduzidas por maus empresários, ávidos por lucros crescentes, que parecem adotar deliberadamente, como prática de negócio, a criação ou aumento de taxas, reajustes indevidos ou calculados erradamente, sempre para mais, juros e cobranças indevidas, servidos mal prestados etc., como estratégia para aumentarem seus lucros?

Estes maus empresários correm um risco calculado, lesando os consumidores aos milhares e reparando individualmente apenas os que reclamarem, e como a maioria silenciosa não recorre aos seus direitos porque não acredita na Justiça, os lucros compensam de sobra as perdas.

Contam com uma Justiça lenta, burocrática e comprometida com os poderosos, que considera "tentativa de enriquecimento indevido" a reclamação de penas maiores por um consumidor lesado, mas não acham indevido o enriquecimento de empresas que, deliberadamente, lesam os consumidores. Um simples desvio de centavos na conta de milhares de consumidores será quase imperceptível ao consumidor, mas significará muitos lucros a mais para as empresas.

Trata-se de problemas que não dizem respeito apenas aos cidadãos, mas também fomentam uma "dor moral" que afeta a todas as autoridades, juízes, policiais e empresários honestos que, em função dos desonestos, são vistos pelo público como desonestos também — até que provem o contrário.

A confiança na polícia e na Justiça está na base do pacto social, onde as pessoas decidiram abdicar das armas e de fazer justiça com as próprias mãos em troca de uma polícia e de uma Justiça que as representem.

Então, quando a sociedade passa a ter medo de sua polícia e a desacreditar de sua Justiça, ela se arma e começa a agir em sua própria defesa — e passa a contratar milícias para se proteger e a apoiar o poder paralelo do tráfico. Quando isso acontece, o Pacto Social que nos permite a vida em sociedade e nos faz cidadãos está ameaçado!

Resgatar a credibilidade da policia e da Justiça, junto aos olhos da população, é muito mais do que mera propaganda institucional. É resgatar os princípios básicos que orientam e estimulam a vida em sociedade.

Não conheço as soluções, mas consigo sentir e perceber o problema. Preocupa-me a idéia de mais polícia nas ruas, mais blitze, por que tais medidas só farão aumentar o medo das pessoas de bem que foram levadas a perder a confiança na sua polícia.

Pois bem, resgatar esta confiança me parece fundamental, pois não é com quantidade maior de policiais que se resgatará tal confiança, mas com maior qualidade — e isso requer melhor treinamento, melhores salários e melhores condições de trabalho para os policiais.

Talvez, se a comunidade conhecesse melhor seus policiais e sua Justiça, com uma polícia comunitária permanente e uma Justiça itinerante, nos bairros, aproximando a polícia e a Justiça da população. Entretanto, não uma polícia e Justiça arrogantes, onde todos são bandidos até que provem o contrário, mas uma polícia e uma Justiça humanizadas, preocupadas em informar e formar, antes de punir.

Talvez, com a criação de Códigos de Ética amplamente divulgados, feitos com a participação de todos os envolvidos e que incluam a participação e o controle da sociedade?

Talvez com o fortalecimento do disque-denúncia gratuito, que permita o acompanhamento pelo denunciante de forma anônima?

Talvez, com o fortalecimento e investimento em programas de educação e informação públicas, principalmente nas comunidades de baixa renda e nas comunidades escolares, apresentados pelos próprios policiais, juízes, promotores, defensores públicos e também por presidiários, sobre o papel da polícia e da Justiça para a sociedade?

Talvez, se os menores infratores pudessem participar de programas de reabilitação, em que presidiários falariam da vida na prisão e de quanto os caminhos do crime, das drogas e da violência os fez perder o melhor de suas vidas?

Talvez com sistemas de informação de amplo acesso do público e usando a internet, que assegurem transparência às ações da polícia e da Justiça?

Talvez com penas mais duras e milionárias, contra maus empresários acostumados a lesar ao consumidor como estratégia de negócio?

Estas não são soluções de curto prazo, porque fazem parte do fortalecimento da própria democracia e da consciência e cidadania da sociedade.

Entretanto, o fato de não vermos os resultados no curto prazo não significa que não devamos nos esforçar para mudar esta situação. Diz-se que, a longo prazo, todos nesta geração estarão mortos, mas podemos deixar construídos os alicerces de uma nova sociedade, para que as próximas gerações não tenham que começar do zero.


*editor da Revista do Meio Ambiente, o gaúcho Vilmar Sidnei Demamam Berna participou da fundação de várias organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, dedicadas à luta por um mundo melhor, mais ecológico, pacífico e democrático, contribuindo para a formação de uma nova consciência ambiental e na cidadania ambiental em nossa sociedade. Imagem por Kirwan em www.rense.com

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08 outubro 2010

ENTRANDO EM PÂNICO

Uma história dos Diabos*


Se o Diabo existisse, sua diabólica estratégia seria a de colocar as pessoas trabalhando em algo que não fosse a sua verdadeira vocação.

Epidauro foi uma cidade da Grécia Antiga, situada às margens do Mar Egeu, célebre pelo santuário dedicado a Esculápio, deus da Medicina. Em Epidauro estava situado o principal centro de saúde de toda a Grécia.

Contava-se que pessoas acometidas por várias enfermidades acorriam a Epidauro para se curarem. Lá, eram recebidas por sacerdotisas curandeiras e, assim que chegavam, depois de uma conversa preliminar e o reconhecimento do lugar, recebiam delas para beber uma poção com ervas medicinais, que as fazia dormir por dois ou três dias.

Quando acordavam, iniciavam um período de profunda reflexão e autocrítica, apoiadas por conversas com aquelas sacerdotisas, para identificarem o que estava errado em suas vidas.

Diferentemente da atualidade — em que problemas de saúde se resolvem com remédios e hospitais —, para os gregos a saúde física e mental estaria intrinsecamente relacionada aos hábitos de vida e, principalmente, ao grau de satisfação e amor que as pessoas nutriam por si e pelas demais.

Para terem saúde, que olhassem com mais carinho para si mesmas e, envolvidas com o seu próprio destino, colocassem em exercício constante os seus talentos, na luta para realizá-los plenamente no mundo.

Costumava-se dizer que as pessoas deveriam consultar seus Deimons, "gênios" interiores ou "luzes" profundas. Dizia-se que os chás medicinais de Epidauro colocavam as pessoas num estado de relaxamento que propiciava um encontro com as motivações profundas há muito esquecidas, armazenadas além dos ideais, ética e sonhos reprimidos pelas exigências do dia-a-dia.

O próprio Sócrates afirmou ser guiado por seu Deimon nos discursos que nos legou através de Platão. Mais tarde, sob a égide do Império Romano e do Catolicismo inicial, estas visões de mundo foram perseguidas como "seitas pagãs".

Depois da queda do Império Romano, em 476 dC, já sem a presença de um poder central autoritário e forte, estas crenças voltaram a existir. É justamente aí que começa a nossa história dos Diabos.

Mais ou menos no ano 1600, quando a Idade Média já começava a dar sinais de desfalecimento, o famoso astrônomo e matemático Johannes Kepler teve a sua idosa mãe curandeira presa e ameaçada de morte, justamente porque ela costumava receitar chás.

A acusação à senhora genitora do cientista foi baseada no fato de que os algozes da Inquisição encontraram na estante de Kepler um livro de infância, escrito por ele mesmo ainda menino, no qual afirmava, numa brincadeira, ter viajado à Lua, depois de tomar um chá feito por sua mãe.

Mesmo com as devidas explicações, a mãe de Kepler foi presa. Como o leitor deve saber, o termo "Inquisição" refere-se à eliminação das heresias e seitas pagãs. Assim, desde 1184 e até 1542, o condenado era responsabilizado pelas doenças e misérias sociais e entregue às autoridades do Estado para que fosse punido. As penas variavam do confisco de bens e perda da liberdade até a morte na fogueira.

O que estava acontecendo é que a instituição religiosa nascente não estava conseguindo fazer crescer o número dos seus adeptos, porque as pessoas insistiam em procurar os conselhos das idosas curandeiras que abundavam na Europa.

Depois de uma grande perseguição, estas senhoras foram chamadas de "bruxas" e condenadas à morte. Além disso, estas visões foram perseguidas com a acusação de que orientavam as pessoas na direção do Demônio (Deimon).

Quando o povo simples começou a perguntar-se qual seria a forma do tal Demônio, foi inventado pelas autoridades que o Demônio tinha a forma de uma famosa figura da Grécia antiga: o deus Pã.

Na Mitologia grega, "Pã era o deus dos bosques, dos rebanhos e dos pastores. Residia em cavernas e era representado com orelhas, chifres e pernas de bode. Amante da música, trazia consigo uma flauta. Era temido pelos que atravessavam florestas à noite, pois as trevas os predispunham a ter pavores súbitos, atribuídos a Pã; daí o nome pânico."

Com medo deste Pã, tornado assustador, sinistro e perigoso, as pessoas afastaram-se das curandeiras e dos seus conselhos. Aos poucos, foram se esquecendo também do mergulho em si mesmas e da necessidade de viverem por paixão pela vida.

Até mesmo o sentido da palavra paixão — pathos — viria, mais tarde, tornar-se sinônimo de doença: patologia. Desde então, tudo o que vinha das motivações interiores das pessoas foi associado ao pecado e à perdição. Mesmo o sorriso e a gargalhada foram banidos, durante séculos, dos contatos humanos.

As mulheres, que na Antiguidade eram símbolos de fertilidade e religiosidade, foram afastadas de suas funções sagradas pelos novos homens sacerdotes. E nós, facilmente manipulados pelos medos infiltrados em nossa consciência, iniciaríamos um período alienado que se estenderia até hoje, onde perdidos e desorbitados de nós mesmos, nos tornaríamos superficiais, vazios e assoberbados por pânicos e dogmas, além de um excesso de expectativas exteriores, alimentadas em nós por interesses "maiores".

Mais tarde, nos perderíamos num racionalismo abstrato, que nos deu esperteza bastante para colecionarmos justificativas e argumentos para não sermos o que somos. Assim, seríamos vítimas fáceis para a nascente época industrial, na qual nos tornamos discípulos dóceis e obedientes das máquinas e dos seus produtos.

Finalmente, nos tornamos serviçais resignados de um sistema econômico que nos manipula, submete, aliena e exaure sem dar tempo e oportunidades à maioria de nós para um verdadeiro e salutar encontro interior, verdadeira origem de um destino que nos realizaria de fato.

Lembro-me agora da inscrição no famoso templo grego de Delfos, sempre repetida pelo grande filósofo Sócrates: "Conhece a ti mesmo". No fim das contas, o demônio foi criado para nos afastarmos de nós mesmos.

*Dib Curi é editor do jornal Fórum Século XXI

01 outubro 2010

CONSUMO GLOBAL

Como e para onde vamos?*


O Instituto Akatu pelo consumo consciente e o WWI-Worldwatch Institute lançaram uma versão em Português do relatório Estado do Mundo 2010. Produzido pelo WWI, este relatório faz anualmente um balanço com números atualizados e reflexões sobre as questões ambientais.

Entre os muitos dados que mais chamam a atenção, há um que aponta que apenas um sexto da humanidade consome 78% de tudo que é produzido no mundo (!). E mais: segundo o relatório, na última década a humanidade aumentou seu consumo de bens e serviços em 28%. Óbvio que, para produzir tantos bens, é preciso usar cada vez mais recursos naturais.

Assim, entre 1950 e 2005 a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente -– enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população.

Além de excessivo, o consumo é desigual. Em 2006, os 65 países com maior renda, que somam 16% da população mundial, foram responsáveis por 78% dos gastos em bens e serviços. Somente os americanos, com apenas 5% da população mundial, abocanharam uma fatia de 32% do consumo global.

Ora, se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Atualmente, somos quase sete bilhões, e projetam-se nove bilhões para 2050. A pior notícia é quem nem mesmo um padrão de consumo médio, equivalente ao de países como Tailândia, seria suficiente para atender todos os habitantes do planeta.

A conclusão do relatório não deixa dúvidas: sem uma mudança cultural que valorize a sustentabilidade e não o consumismo, não haverá esforços governamentais ou avanços tecnológicos capazes de salvar a humanidade dos riscos ambientais e de mudanças climáticas.

Ainda segundo o relatório, a mídia é um forte indutor do processo do consumismo insustentável. Por meio de ações publicitárias globais, o setor de água engarrafada, por exemplo, ajudou a criar a impressão de que água na garrafinha é mais saudável, mais saborosa e está mais na moda do que a boa e velha água "torneiral", mesmo quando estudos demonstram que algumas marcas de água engarrafada são menos seguras do que água da rede e custam de 240 a 10 mil vezes mais.
Por fim, a indústria de água engarrafada movimenta hoje US$ 60 bilhões e vendeu 241 bilhões de litros de água em 2008, mais que o dobro da quantidade vendida em 2000. Convém observar o relatório e seguir o que o Akatu recomenda: refletir sobre o consumo consciente.


*o jornalista Edgard Patrício assina a coluna Ecologia no jornal O Povo
de Fortaleza/CE

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http://portal.opovo.com.br/app/colunas/ecologia/2010/07/10/inter_ecologia,2018551/estado-do-consumismo-no-mundo.shtml

www.akatu.org.br/consumo_consciente/dicas

www.worldwatch.org.br/estado_2010.pdf