13 junho 2011

UM DIA, UMA LAGARTA...

Amostra sonora




No quase findar dos anos 1960, reverberando os movimentos que ocorriam na Califórnia, a "Borboleta de Ferro" começava a sair da crisálida e a deixar sua marca. Chamavam a atenção as texturas de teclados e as guitarras, emoldurando letras de temática um tanto quanto transcendental.

As músicas do grupo retorciam-se por sonoridades progressivas — uma refinada pesquisa de acordes psicomiméticos —, entrecortados por viradas rítmicas equalizadas através de (pioneiramente para a época?) recursos de phaser junto à característica voz de Doug Ingle, que transformou "In the Garden of Eden" no hino hard / acid "In-a-Gadda-da-Vida".




WATCH AND ENJOY

(In the Time of our Lives)


(In-a-Gadda-da-Vida com imagens interessantes da banda, em versão editada mais curta)


(In-a-Gadda-da-Vida Full Version, com edição psicodélica de imagens, diferente da versão acima)


(In-a-Gadda-da-Vida versão definitiva (LP original), com excelente qualidade de áudio: coisas da web) 

10 junho 2011

DE LIVROS E FOFOCAS

Geração T*

Meu amigo Patrick é francês e vive no Brasil há anos. Tem uma visão crítica da forma de ser do brasileiro em comparação a outros povos, especialmente aos europeus. E eu me divirto com ele. 

Recentemente, presente a um desses eventos badalados que tratam de redes sociais, ele me ligou para descrever o público. 

Jovens, muito jovens, com seus iPads e iPhones, tuitando furiosamente enquanto assistiam às palestras de dezenas de especialistas. Ao final da palestra, invariavelmente o apresentador dizia:

- Alguma pergunta?

Silêncio. Ninguém. Nada. E assim foi, de palestra em palestra. Ninguém nunca perguntava nada. 

O Patrick então disse que aquela era a Geração T. "Tê" de testemunha: “Sou testemunha de tudo, mas não tenho opinião sobre nada.” 

É isso mesmo que tenho visto por aí: a Geração T dominando os espaços e dedicando-se à única coisa que consegue fazer: contar para os outros o que viu. Ou no máximo, repetir a opinião de terceiros, enquanto permanece incapaz de analisar, comparar, julgar e de emitir opiniões.

Mas sabe o que é mais louco? A “Geração T”, diferente das outras gerações, parece não ter um período definido. Não é composta exclusivamente de gente que nasceu entre o ano x e o ano y... É claro que a quantidade de jovens é muito grande, mas ela generosamente engloba gente nascida desde 1950... 

Em minha palestra Quem não se comunica, se estrumbica falo de um estudo que mostra que, nos 40 mil anos que se passaram desde o momento em que o homem desceu das árvores até inventar a internet, a humanidade produziu 12 bilhões de gigabytes de informação, algo como 54 trilhões de livros com 200 páginas cada. 

Agora veja esta: somente no ano de 2002 produzimos os mesmos 12 bilhões de gigas! Geramos num ano o mesmo que em 40 mil anos... Em 2007 foram mais de 100 bilhões de gigas! E em 2012 serão alguns trilhões!

Produzimos informação numa velocidade cada vez maior, enquanto inventamos traquitanas que tornam cada vez mais fácil acessar essas informações. Mas de que adianta ter acesso às informações se não temos repertório para dar um sentido à realidade?

O resultado é a Geração T, que sabe tudo o que acontece, mas não tem ideia do por que tudo acontece. Entrega-se à tecnologia de corpo e alma, como se fossem vending machines, aquelas máquinas automáticas de vender refrigerantes em lata, sabe? 

Existem como distribuidoras de conteúdo de terceiros — focados no processo de distribuição mas sem qualquer compromisso com o conteúdo distribuído.

Nada a estranhar, afinal. Querer que as gerações que saem do nosso falido sistema educacional conheçam questões conceituais, paradoxos, tradições, estilos de comunicação, relações de causa e efeito, encadeamento lógico dos argumentos e significados, para poderem exercer o senso crítico é demais, não? 

É mais fácil e menos comprometedor simplesmente contar para os outros aquilo que ficamos sabendo.

A Geração T não consegue praticar a curiosidade intelectual, só a curiosidade social. Tentei achar um nome para esse fenômeno e acabei concluindo que só pode ser um: fofoca.

A Geração T é a geração dos fofoqueiros. E você é testemunha.


*Luciano Pires é jornalista, escritor e palestrante
SAIBA MAIS
www2.lucianopires.com.br



LEIA MAIS
>> publicado em 1978 pela Summus Editorial,
o livro Tratado Geral Sobre a Fofoca - uma
análise da desconfiança humana
, do
psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, é
oportunamente atual















VEJA MAIS
www.metacafe.com/watch/1973293/gaiarsa_fofoca

www.metacafe.com/watch/1980593/jose_angelo_gaiarsa_1_de_3


www.metacafe.com/watch/1980885/jose_angelo_gaiarsa_2_de_3

www.metacafe.com/watch/1980889/jos_angelo_gaiarsa_3_de_3






24 maio 2011

MINISTÉRIO DA DESEDUCAÇÃO

Pobre flor do Lácio*



Ah, pobre de mim, que ainda sou capaz de acreditar na seriedade e nas boas intenções das instituições brasileiras. E que elas foram e são criadas para cumprir à risca as funções para as quais supostamente se destinam, segundo os meandros da burocracia governamental. 

Devido a essa minha patriótica credulidade, quando menos espero percebo que fui enganado, ludibriado, e que estou fazendo papel de bobo, pois cara de palhaço, pinta de palhaço foi o que sobrou pra mim. 

É, parece que não tem mesmo jeito de sustar essa vocação circense há séculos incrustada no modelo institucional brasileiro e na cabeça de quem porventura o comanda, dando-nos a indecorosa pecha de sermos tudo, menos um país sério. 

E ainda temos a cara lisa de nos sentirmos feridos em nossos brios quando nos expomos à galhofa internacional pelas palhaçadas e momices várias que cometemos com o aval das autoridades ditas competentes. É ou não é, Seu Zé?

Em minha santa ingenuidade, cheguei mesmo a pensar que o nosso Ministério da Educação tinha como papel precípuo educar o povo, fomentar a cultura, o conhecimento, levando-os aos mais distantes rincões da nação, reduzindo de modo drástico a ignorância que grassa ancestralmente nessa terrinha abençoada por Deus e bonita por natureza.

Que nada, necas de pitibiriba. Mais uma vez caí na esparrela, feito um patinho bobo. Com tanto tempo de janela, culpa minha não haver aprendido que algumas instituições não são realmente o que aparentam ser aos nossos incautos olhos e se tornam exímias especialistas em fazer justamente o contrário do que deviam, pouco ligando para a opinião pública. 

Seus mandatários fazem o que bem querem, inclusive perpetrando piramidais atentados contra a inteligência alheia com a desculpa furada, manjada de que agem em nome da modernidade, do progresso, da civilização.

Quem, dentre nós, mesmo aquele dotado de uma mente poderosamente criativa, de uma fertilidade espantosa, poderia sequer imaginar que o nosso Ministério da Educação tivesse a suprema coragem e ousadia de adotar um livro destinado ao ensino da língua portuguesa para jovens e adultos, repleto de crassos erros gramaticais da primeira à última página?

E o que é pior, tal nefanda obra vai ser distribuída impunemente por quase todas as escolas existentes no brasílico território. Para mostrar que não estou exagerando na dose, cito aqui, de maneira literal, algumas frases contidas no almanaque do besteirol: ”Os livro mais interessante estão tudo emprestado”; “Os menino pega o peixe”; e outras preciosidades de igual quilate. 

Num gesto de boa vontade, também desejo colaborar com a publicação, inserindo mais algumas pérolas de concordância verbal: ” Nós escreve bem”; “Vocês faça o favor de trazer alguma coisa pra mim fazer”; “Fui, fui, fui e acabei fondo”.

Os insignes autores defendem ardorosamente o seu aleijão, garantindo que sua intenção é acostumar o indefeso aluno com a linguagem popular — e não ensinar errado o Português. Além de proteger os estudantes de preconceito linguístico, por falarem e escreverem de modo errôneo. 

O importante, de acordo com tais “puristas”, é que a ideia de correto e incorreto ao usar a língua seja substituída pela ideia, inteligentíssima, por sinal, de uso adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa. Vocês entenderam alguma coisa? Nem eu. 

Falaram tanta água que daria pra encher todos os açudes. Estes deseducadores não passam de umas bestas quadradas de quatrocentas patas. Nelson Rodrigues dizia que só tinha inveja de uma coisa na vida. Da burrice, porque é eterna. 

Coitada da nossa Flor do Lácio tão maltratada, tão espezinhada, coitadinha. O Ministério da Educação, por aceitar tamanha aleivosia, merece ser chamado, daqui em diante, de Ministério da Deseducação e Promoção do Analfabetismo.


*Médico-psiquiatra, escritor, cronista e colunista do Jornal da Praia desde a década de 1980, Antônio Airton Machado Monte é um legítimo repórter da nossa época



13 maio 2011

PALAVRA, A PÁ QUE LAVRA

Relatividades presentes*




Existem coisas que mais claramente nos deixam ver, e existem coisas das quais estamos tão perto que nos confundem o pensamento, atordoam-nos a alma e não nos trazem serenidade para saber com clareza o que fazer.

Assim como existem aqueles que, mesmo distantes, fazem-se presentes; outros há que, mesmo na ausência, presentes estão: e há presenças que nem contam, de tão ausentes.

Há coisas que há muito deveríamos ter conhecido; há outras que melhor teria sido nunca ter tido. 

Há coisas pelas quais buscamos, procuramos, por elas tudo apostamos e, mais do que delas esperávamos, elas nos oferecem quando ali estamos.


Há coisas para as quais todo o preparo que já tivemos, suficente nunca foi, e tampouco o será para o espaço, dimensão que elas ocupam em nossas vidas, quando delas ou com elas viermos a nos deparar.


E novamente a mesma questão volta a se colocar: se tu não souberes bem te administrar, não saberás tampouco nenhuma situação administrar; se tu não souberes contigo mesmo lidar.

Os teus pontos fracos ou fortes, tendo-os bem conhecidos, poderão te ajudar ou atrapalhar quando tiveres que decidir, arguir, quando uma solução urgente para determinado problema tiveres que apresentar.

Há coisas em relação às quais tu precisas te distanciar, para melhor enxergar, e há coisas que, somente estando perto poderás, afinal de contas, ver descoberto o que, antes, não poderias nem sequer imaginar.

Em qualquer situação, que sejas tu o(a) senhor(a) e não um(a) cativo(a) deste sentimento ou daquela emoção.

Age com equilíbrio, com equidade e, contigo, sempre por perto estará a sabedoria, que jamais te deixará à revelia.

Há coisas que somente de perto é possível melhor enxergar, e há coisas para as quais é preciso haver certa distância, para melhor poder-se avaliar e avaliar-se.


*Pernambucano de São José do Egito, Pe. Airton Freire de Lima é psicólogo, escritor
(56 livros publicados) e criador de grupos de oração (os Grupos da Terra, apoiados
pelos IPA-Institutos Padre Airton no Ceará, Piauí, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco,
França e Inglaterra). Pós-graduado em Paulo Freire pela UECE-Universidade Estadual do Ceará,
gravou CDs com músicas autorais e preside há 26 anos a Fundação Terra, entidade
mantida por doações devotada à saúde, educação e moradia para cerca de 2.000 pessoas.


11 maio 2011

SOLOS E ALIMENTOS

Freio à invasão estrangeira*





Os governos de Brasil, Argentina e Uruguai começam a propor leis para pôr fim à avidez estrangeira por suas cobiçadas e extensas terras aptas para a produção de alimentos. 

No geral, estas medidas são tímidas. Nenhum dos três sócios do Mercosul, juntamente com o Paraguai, propõe uma rejeição à aquisição de terras por parte de capitais privados e estatais estrangeiros, não fixam regulamentações sobre uso do solo, nem revisam o que já foi vendido. 

Na verdade, procuram pôr limites ao avanço sobre estas propriedades agropecuárias por parte de países que as cobiçam para facilitar o abastecimento de seus próprios mercados de alimentos ou como instrumento de investimento especulativo.

O Brasil já limita a compra de terras por estrangeiros e empresas brasileiras com capital estrangeiro, enquanto na Argentina e no Uruguai estão em estudo projetos que seguem na mesma direção.

Em todos os casos, o alerta foi dado pela crescente compra de terras registradas nestes países nos últimos anos devido ao aumento dos preços internacionais dos alimentos e da falta de alternativas de investimento financeiro.
Um estudo apresentado em 2008 pela organização não governamental internacional Grain, que trabalha a favor de camponeses e pequenos produtores rurais, já havia alertado para este processo e mostrado casos concretos.

China, Egito, Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Índia, Bahrein, Kuwait, Omã, Catar e Emirados Árabes Unidos estão adquirindo ou arrendando terras férteis em outros países onde nem sempre os alimentos abundam, afirma a ONG.
A investigação mostra que o Camboja, que recebe ajuda do Programa Mundial de Alimentos, arrenda campos de arroz no Catar e no Kuwait, enquanto Uganda cede campos de trigo e milho para o Egito, e às Filipinas chegam interessados da Arábia e dos Emirados. 
Este avanço não só procura garantir o fornecimento de alimentos, conmo também há compras de terras com fins especulativos por parte de bancos e financeiras no Brasil, Paraguai, Senegal, Ucrânia, Nigéria e Rússia, afirma o documento.
Em entrevista à IPS, o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), José Pedro Stédile, disse que no Brasil foi percebida esta presença cada vez mais importante de capitais especulativos no setor. Compraram terras, usinas de álcool e represas, entre outros investimentos, afirmou.
 “O MST está preocupado porque isto coloca em risco a soberania e causa mais insegurança alimentar”, alertou. O INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária informou que há cerca de 4,5 milhões de hectares em mãos de estrangeiros, mas o governo admite que isto não reflete a realidade e que o total pode ser mais que o dobro.
Stédile aplaude a norma aprovada em setembro, que limita a compra ou o arrendamento de áreas acima de um tamanho mínimo a estrangeiros e fixa em 25% o limite da superfície de um mesmo município que podem adquirir. “A prioridade do uso da terra deve ser produzir alimentos para o nosso povo e as empresas estrangeiras compram terras para especular, para proteger seus patrimônios, e plantam o que lhes dá mais lucro”, assegurou.
Na Argentina, o governo federal enviou ao parlamento, em abril, um projeto de lei fixando em 20% o limite para titularidade de estrangeiros em território nacional e não lhes permite comprar mais do que mil hectares em áreas produtivas. No entanto, não limita, como no Brasil, a participação de estrangeiros em fundos de investimento, nem tampouco revisa o que já está vendido.
As autoridades argentinas estimam que haja sete milhões de hectares em mãos estrangeiras, mas a Auditoria Geral da Nação fixou em 17 milhões essa propriedade, o que representa 10% do território ou mais da metade da área plantada. Apenas o magnata italiano Luciano Benetton possui quase um milhão de hectares de terras na região da Patagônia.
A iniciativa governamental reivindica a terra como recurso natural não renovável e baseia-se em uma análise do contexto global no qual se destaca o constante aumento da população mundial e a crescente deterioração das terras cultiváveis. A Federação Agrária Argentina, que reúne produtores em pequena escala, pedia uma norma desse tipo desde 2002, e por isso comemorou o projeto. No entanto, alerta que também é preciso uma lei de arrendamentos.
Nessa lei deveriam ser estabelecidos critérios sobre o que se produz em terras arrendadas. A objeção aponta, por exemplo, para uma polêmica surgida em Rio Negro, província da Patagônia. O governo rionegrense assinou convênio de cooperação com um grupo de empresas chinesas para arrendar 240 mil hectares destinados à produção de soja nos próximos 50 anos, com opção de renovação automática do contrato.
O engenheiro agrônomo argentino Walter Pengue, do Grupo de Ecologia da Paisagem e do Meio Ambiente, da estatal Universidade de Buenos Aires, disse à IPS que se a iniciativa não revisar o que já foi vendido nem regular o uso do solo terá sérias limitações. “O projeto é ótimo, mas me preocupa porque no mundo acadêmico internacional se discute a disponibilidade da terra, e para 2020 se prevê que haverá cerca de 15 países com terras produtivas, entre eles a Argentina”, afirmou. 

Pengue questiona o acordo do governo de Rio Negro. “Não vendem a terra, mas a arrendam e ali se produz o que o locatário deseja, então, a pegada ecológica de outros países fica para sempre em nosso território”, ressaltou.

No Uruguai, a tentativa do governo de Tabaré Vázquez (2005-2010) de aprovar uma lei que limite a estrangeirização não foi possível de se concretizar, mas a Frente Ampla espera concretizá-la este ano, graças à maioria absoluta que tem no parlamento em seu segundo governo, agora encabeçado por José Mujica. 
O censo de 2000 indicou que 17% da terra desse país estava em mãos de capitais externos, disse à IPS o geógrafo Marcel Ashkar, da Faculdade de Ciências. Porém, hoje se estima que já cobre entre 20% e 30% das terras aptas para a agricultura.
O Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca informou que, entre 2000 e 2009, foram comercializados mais de seis milhões de hectares e que mais da metade foi adquirida por estrangeiros, principalmente brasileiros e argentinos. 
O peso da soja, do arroz e do reflorestamento em grande escala atrai capital, além dos de seus dois vizinhos, também da Espanha, Finlândia e do Chile, que aumentam suas posses no Uruguai de mãos dadas com grandes complexos industriais de produção de celulose. 

* por Marcela Valente, da IPS.
Colaboraram
Fabiana Frayssinet (Rio de Janeiro) e Raúl Pierri (Montevidéu)

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05 maio 2011

COMEÇAR & CONCLUIR

União faz a força*



Este texto equivale a um teste de personalidade que poderá alterar a sua vida.

Portanto, preste muita atenção! I
niciativa é a capacidade que todos nós temos de criar, iniciar projetos e conceber novas ideias. Algumas pessoas têm muita iniciativa e outras têm pouca.

Acabativa é um neologismo que significa a capacidade que algumas pessoas possuem de terminar aquilo que iniciaram ou concluir o que outros começaram.

É a capacidade de colocar em prática uma ideia e levá-la até o fim.

Os seres humanos podem ser divididos em três grupos, dependendo do grau de iniciativa e acabativa de cada um: os empreendedores, os iniciativos e os acabativos — sem contar os burocratas.

Empreendedores são aqueles que têm iniciativa e acabativa. Um seleto grupo, que não se contenta em ficar na ideia e vai a campo implantá-la.

Iniciativos são criativos, têm mil ideias, mas abominam a rotina necessária para colocá-las em prática. São filósofos, cientistas, professores, intelectuais e a maioria dos economistas.

São famosas as histórias de economistas que nunca assinaram uma promissória... A acabativa é o ponto fraco desse grupo.

Acabativos são aqueles que gostam de implantar projetos. Sua atenção vai mais para o detalhe do que para a teoria. Não se preocupam com o imenso tédio da repetição do dia-a-dia e não desanimam com as inúmeras frustrações da implantação.

Nesse grupo está a maioria dos executivos, empresários, administradores e engenheiros.

Essa singela classificação explica muitas das contradições do mundo moderno. Empresários descobrem rapidamente que ficar implantando suas próprias ideias é coisa de empreendedor egoísta. Limita o crescimento.

Existem mais pessoas com excelentes ideias do que pessoas capazes de implantá-las. É por isso que empresários ficam ricos e intelectuais, professores — entre os quais me incluo —  morrem pobres.

Se Bill Gates tivesse se restringido a implantar  suas próprias ideias teria parado no Basic. Ele fez fortuna porque foi hábil em implantar as ideias dos outros — dizem as más línguas que até copiou algumas.

Esta classificação explica porque intelectual normalmente odeia empresário, e vice-versa. Há uma enorme injustiça na medida em que os lucros fluem para quem implantou uma ideia, e não para quem a teve. 

Uma ideia somente no papel é letra morta, inútil para a sociedade como um todo.

Um dos problemas do Brasil é justamente a eterna predominância, em cargos de ministérios, de professores brilhantes e com iniciativa, mas com pouca ou nenhuma acabativa.

Para o Brasil começar a dar certo, precisamos procurar valorizar mais os brasileiros com a capacidade de implantar nossas ideias. 

Tendemos a encarar o acabativo, o administrador, o executivo, o empresário como sendo parte do problema, quando na realidade eles são parte da solução.

Iniciativo almeja ser famoso, acabativo quer ser útil.

Mas a verdade é que a maioria dos intelectuais e iniciativos não tem o estômago para devotar uma vida inteira para fazer, dia após dia, digamos bicicletas.

iniciativo vive mudando, testando, procurando coisas novas, e acaba tendo uma vida muito mais rica, mesmo que seja menos rentável.

Por isso, a esquerda intelectual e a direita neoliberal conviverão às turras, quando deveriam unir-se.

Se você tem iniciativa mas não tem acabativa, faça correndo um curso de administração ou tenha como  sócio um acabativo

Há um ditado chinês: "Quem sabe e não faz, no fundo, não sabe", muito apropriado para os dias de hoje.

Se você tem acabativa mas não tem iniciativa, faça um curso de criatividade, estude um pouco de teoria. Empresário que se vangloria de nunca ter estudado não serve de modelo.

No fundo, a esquerda precisa da acabativa da direita, e a direita precisa das iniciativas da esquerda.

Finalmente, se você não tem iniciativa nem tampouco acabativa, só podemos lhe dizer uma coisa: meus pêsames.


*Stephen Kanitz é administrador por Harvard. Imagem "puzzle" em www.sleuthedit.com  





26 abril 2011

AQUARELA DO BRASIL


Ninguém sabe, ninguém viu?*




Pois é. Parece que passou despercebida a insigne data do Descobrimento do Brasil, tanto pela mídia como por grande parte dos brasileiros.

Talvez porque o dia 22 de abril tenha caído bem no meio dos feriados da Semana Santa?

Ah, como é frágil a nossa brasílica memória! Esquecemo-nos do que, por suposto, deveria ser inesquecível.

Afinal, apenas quinhentos e onze anos (!) se passaram desde que a frota de Pedro Álvares Cabral aportou em nosso paraíso tropical.

A não ser uma notinha aqui e ali no pé de página dos jornais, nada de maior significância foi dito ou até modestamente comemorado. Nem sequer os políticos, que adoram um discurso patriótico, se pronunciaram sobre o fato do alto das tribunas.

Os intelectuais também silenciaram, como se a data nenhuma relevância possuísse. O mutismo e a indiferença foi geral. Pois é: vai ver, todos estão perfeitamente certos, ao darem de ombros para o histórico acontecimento.

Quem sabe, o Brasil realmente nunca tenha sido descoberto coisa nenhuma. Nem em 1500 ou em 2011. E que permaneça sendo, para nós, brasileiros, um país de certo modo fictício e uma grande incógnita.

E o dia do seu descobrimento veramente mereça ser exilado de nossa lembrança. Eu mesmo só não passei batido por haver casualmente lido sobre o assunto em uma mensagem eletrônica enviada por um amigo, cultivador contumaz de um patriotismo renitente, por muitos considerado ultrapassado, inclusive por mim.

Pelo pouco que conheço da minha tribo de botocudos, o brasileiro somente vira um ferrenho patriota de quatro em quatro anos, durante a Copa do Mundo. Fora isso, esquecemo-nos completamente da nossa pátria, como se ela jamais houvesse existido — quanto mais descoberta por nossos irmãozinhos portugueses!

Além do mais, tornou-se um ancestral e arraigado hábito, entre os habitantes desta Taba de Tupã, colocar sobre os ombros dos nossos lusitanos colonizadores a culpa de todas as nossas mazelas e dos nossos piores defeitos.

Costumamos justificar tal abalizada opinião citando, a título de exemplo, os Estados Unidos — que foram descobertos apenas oito aninhos antes de nós e findaram por tornar-se a maior nação do mundo, graças à colonização inglesa.

Claro ser uma límpida verdade o fato de que os navegadores britânicos tinham como seu principal objetivo a fundação de uma nova sociedade nas terras do Novo Mundo anunciado por Colombo.

Já os portugueses por aqui se abancaram unicamente com o intuito pirata de saquear nossas riquezas e retornar o mais breve possível a Portugal, carregados de ouro, e viver à tripa-forra em sua terrinha de nascença, dignos merecedores de um brasão de nobreza.

Dizem que, se os holandeses houvessem nos conquistado, tomando na marra o Brasil dos portugueses, a nossa história teria um final bastante diferente e melhor. Não sei, não. Tenho cá as minhas dúvidas a respeito de tal falácia.

Talvez por jamais olvidar que não é simplesmente a História que faz o homem, mas é o homem quem faz a História, quem verdadeiramente constrói o vir-a-ser. O Brasil é o que é pela simples razão de que o fizemos do nosso jeito e da nossa maneira.

Se o olharmos com a devida atenção e profundidade, veremos que este País não passa do reflexo do que somos, sem mistificações, sem desculpas obsoletas, sem razão de ser.

No dia 22 de abril, deveríamos era sair cantando em bloco pelas ruas os versos da imorredoura canção de Ary Barroso, Aquarela do Brasil, nosso mais autêntico hino nacional: "Brasil / Meu Brasil brasileiro...", e dar-nos por muito satisfeitos.

É o que, em verdade, merecemos.

*Médico-psiquiatra, escritor, cronista do jornal O Povo e colunista do Jornal da Praia desde
a década de 1980,
Antônio Airton Machado Monte é um autêntico repórter da nossa época



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24 abril 2011

MEXA ESSA BUNDA GORDA

Fazendo (alguma) diferença


Há exatos 10 anos, depois de retornar de uma viagem transformadora ao Everest e observar o nosso cenário político, social e cultural, concluí que o Brasil estava emburrecendo.

E decidi resistir. Minha causa passou a ser o que chamei de “despocotização do Brasil"*.

Escrevi centenas de artigos, lancei livros, sites e palestras. Passei a comentar no rádio. E aos 52 anos deixei um sólido emprego para mergulhar na aventura de ser um empreendedor cultural brasileiro.


Não é fácil, viu? Todo dia é uma luta, mas acordo de manhã com uma coisa preciosa que havia perdido: tesão. O tesão de saber que estou lutando por algo que vale a pena, muito maior que simplesmente ganhar algum dinheiro.

A causa que defendo, meu propósito, me anima, me motiva, me deixa disposto a seguir em frente. Deixa-me louco por brigar. Tira-me da inércia.


Isaac Newton escreveu que “um objeto que está em repouso ficará em repouso até que uma força desequilibradora atue sobre ele.” É a Lei da Inércia, que se aplica a nossas vidas: quando encontramos uma zona de conforto, é lá que, inertes, permanecemos. 


O curioso é que a maioria das pessoas nem percebe que está inerte.

Olha só: a coisa que você mais faz em seu dia a dia é repetir o que você fez no dia anterior. Você acorda igual, toma café igual, se veste igual, vai pro trabalho ou para a escola pelo mesmo caminho, almoça nos mesmos lugares.

A maior parte de sua vida é consumida com repetições, até que uma força desequilibradora tira você desse ciclo. Uma demissão. Uma promoção. Uma desilusão amorosa. Uma tragédia.


Enquanto a força não surge, ficamos ali repetindo, repetindo, repetindo...


Para quebrar esse ciclo por iniciativa própria só tem um jeito: encontrar uma causa, um propósito. E agir com disciplina.


Comece por avaliar cada atividade importante que você pratica no dia a dia. Quanta satisfação (e sensação de que você está defendendo uma causa) essa atividade proporciona? Por exemplo, indo pro trabalho.


Você toma um ônibus e fica dentro dele durante uma hora e meia. Quanto de satisfação e de sensação de que isso ajuda a defender uma causa você tem? Nenhuma? Pô, ficar 90 minutos dentro do ônibus é um tempo perdido, não é?


Pois é. Mas a simples constatação da contribuição nula que esse processo fundamental — o transporte de casa para o trabalho e vice-versa — traz para a sua causa, já vai colocar você na posição incômoda de ter que fazer algo a respeito. Ajudará você a começar a superar a inércia.


Oras, se vou ficar 90 minutos dentro de um ônibus, vou ler um livro. Ou então comprarei um tocador de mp3 pra ir ouvindo uma aula de Inglês! Ou, melhor ainda, pra ouvir o podcast Café Brasil do Luciano Pires!

Em noventa minutos eu ouço três programas e faço com que aquele tempo até hoje perdido sirva para alguma coisa...


Sacou? Se você não avaliar cada processo que consome seu tempo de vida, em relação à causa que você defende, acabará se acostumando com eles. 


E permanecerá inerte, fazendo aquilo que é a nossa natureza: repetir hoje o que fizemos ontem. Até morrer.


Uma causa. Um propósito. Qual é o seu?



*Referência a uma certa "eguinha Pocotó" que angariou (algum) Ibope
há poucos anos e que absolutamente serve como referência anticultural e antieducacional

** Luciano Pires é jornalista, escritor e palestrante


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22 abril 2011

SOMENTE O NECESSÁRIO

Excesso, mais prejudicial que a falta 





Embora as pessoas reclamem com imensa frequência daquilo que não possuem, existe outra questão que merece toda a nossa atenção: aquilo que possuímos em excesso.

Aliás, os excessos costumam ser mais prejudiciais que as faltas, mas demoram mais para serem percebidos. As faltas nós notamos imediatamente, os excessos só quando despertam a nossa consciência.

Comemos em excesso (observe você mesmo/a), trabalhamos em excesso (anda cansado/a, não é?), guardamos coisas em excesso (dê uma olhada em suas gavetas), nos importamos em excesso com a opinião dos outros...

Há um excesso de preocupações e "acúmulo de gorduras” em diversas áreas de nossas vidas.

Em geral, possuímos mais do que necessitamos para sermos felizes, mas continuamos insistindo na desculpa de que "não somos felizes porque nos falta alguma coisa". E, de fato, falta: falta assumirmos um estilo de vida mais franco, sincero e liberto.

Tudo o que temos em excesso demanda tempo e energia para ser administrado. Roupas demais, CDs demais, bagunça demais, lembranças demais (fique com as que valem a pena, pelo aprendizado ou felicidade que trouxeram), compromissos demais, pressa demais.

Todos nos beneficiaremos com a prática de determinado nível de minimalismo (sem excessos, porque isso também pode ser demais e o problema é o mesmo, porém ao contrário). 

Podemos reinventar nossa maneira de viver, para viver com o necessário. Não precisa ser o mínimo necessário, podem haver algumas sobras, mas sem os exageros de costume.

Viver melhor com menos traz uma sensação de leveza e felicidade tão maravilhosa que todos devemos, ao menos, experimentar. Na melhor das hipóteses, aprendemos algo e adotamos um novo estilo de vida.

Quem está em processo de mudança, reconhece rápido o quanto acumulou de coisas em excesso, e aprende que pode viver tão bem, ou melhor, com muito menos.

Se vamos acampar, somos felizes apenas com uma mochila...

Liberte-se dos excessos de todo tipo: excesso de informação (aliás, muita coisa é só ruído, nem mereceria a sua atenção); excesso de produtos e serviços (consumismo é uma válvula de escape para não olharmos para a nossa própria existência e para o vazio que buscamos inutilmente preencher com compras); excesso de relacionamentos (nem todos valem a pena, não é verdade?). 

Viva mais com menos, experimente algum nível de minimalismo. Permita-se sentir-se livre dos acúmulos e excessos.

Nada é mais gratificante que a liberdade — a sensação de que você se basta, sem precisar de um arsenal de coisas, sons e cores ao seu redor. Dedique-se a experimentar essa libertadora sensação. 

Quem sabe viver com pouco, sempre saberá viver em quaisquer situações, mas aqueles que só sabem viver com muito, nas mínimas provações e ausências sofrem e se desesperam. Esses últimos se confundiram com seus excessos... e na falta deles, não se reconhecem.

Nunca sabemos se viveremos com o que temos, com mais ou menos no dia de amanhã, mas se aprendermos a viver com o que é essencial, provavelmente viveremos sempre bem.

Todo excesso é energia acumulada em local inapropriado, estagnando o fluxo da vida. Excesso de excessos corresponde à falta de si mesmo(a). E se o que lhe falta é você, nada poderá preencher esse vazio...


*Carlos Hilsdorf é economista, pós-graduado em Marketing (FGV), consultor corporativo, pesquisador do comportamento humano e palestrante. Autor de Atitudes Vencedoras (na 8.ª edição pela Ed. SENAC), é também conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida




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