25 outubro 2013

SILÊNCIO POLÍTICO


Biografias inacabadas*




Na cadeia se diz: aqui o filho chora e a mãe não ouve. Na política, a expressão é outra: a situação está de vaca não reconhecer o bezerro. Ambas denotam uma crise, pela suspensão do amor materno, e revelam um certo desamparo, um mundo de ponta-cabeça.

Às vezes a atmosfera político-cultural do Brasil, neste longo período de dominação do PT, transmite essa sensação, mais evidente nas ruas, onde quase toda manifestação termina em violência, mesmo quando sua bandeira é a defesa dos animais.

Marina Silva lançou a ideia de salvar Dilma Rousseff dos políticos fisiológicos, evitando que deles se torne refém. Não ficou muito claro para mim. Passa a ideia de uma donzela imaculada assediada por experientes chantagistas, como se o governo não fosse também um fator decisivo nesse processo. Onde a proposta de Marina sugere dependência, vejo uma interdependência. Se consideramos o governo refém da fisiologia, é preciso reescrever a história do mensalão, isentando o partido do governo de sua maior responsabilidade.

Também não entendi, no front político-cultural, a defesa da autorização prévia de biografias. Tantas pessoas queridas, entre elas Caetano Veloso – a quem tenho gratidão – embarcam num equívoco por falta de um debate mais amplo.

Para começar, a importância das biografias em nossa formação. Pela trilogia de Isaac Deutscher sobre Trotsky muito se aprendeu sobre a Revolução Russa e os bolcheviques. Sem Rüdiger Safranski não teríamos uma história equilibrada da vida de Martin Heidegger, sem Robert Skidelsky não conheceríamos a vida de lorde Keynes. É um território delicado, pois sem as biografias não conheceríamos a vida de Mao Tsé-tung, nem os pecados dos nossos políticos – que certamente iriam aproveitar-se desses dois artigos inconstitucionais que determinam autorização prévia para publicação de biografias.

Os argumentos também foram defendidos de forma ambivalente. Na maioria das vezes, falava-se em defesa da privacidade. Mas, em outras, surgia a questão do dinheiro, da falsa suposição de que biografias no Brasil rendem fortunas. O artigo de Mário Magalhães contando suas dificuldades para biografar Carlos Marighella é muito mais próximo da realidade, pois revela como ele gastou dinheiro do próprio bolso para completar o seu livro.

Quando surgem de um mesmo núcleo a defesa da privacidade e demandas financeiras, cria-se a falsa impressão de que são intercambiáveis. Quanto custariam, por exemplo, os detalhes da relação com a cunhada numa biografia de Sigmund Freud?

De um ponto de vista existencial, os admiradores dos grandes artistas que participam do movimento ficam preocupados com um debate biográfico. Ainda esperamos deles tantas canções, tantos espetáculos, tantas aventuras políticas, tantos amores… Quem sabe o melhor não virá nos últimos capítulos, nos anos ainda não vividos?

Nas ruas, os black blocs de uma certa forma conseguiram propagar a violência. Isso só é possível por falta de uma certa cartilagem tecida pela política. Tudo vai direto ao osso, termina em incêndio e pancadaria.

Historicamente, essas ondas de violência levam a leis mais rígidas e mais repressão. Quem vem de longe tem o dever de lembrar isso. Mas leis mais rígidas não resolvem sozinhas. O sistema político no Brasil precisa recuperar o mínimo de credibilidade e o sistema repressivo, desenvolver o mínimo de inteligência e capacidade de análise.

No passado os políticos metiam-se no meio dos conflitos com a disposição de atenuá-los. Hoje fogem dos conflito com medo justificado de apanhar da multidão. O Congresso foi incapaz de produzir um debate sobre a violência nas ruas. A sensação é de que as raposas políticas aceitam a explosão de violência porque sabem que ela os ameaça menos que os grandes protestos de massa. Na verdade, ao inibir potenciais manifestações pacíficas os black blocs criam uma camada de proteção útil ao político que se aproveita da confusão para seguir sendo o que é.

O mundo está mesmo virado. Os black blocs consideram-se revolucionários. E no momento em que poderosos instrumentos internacionais devassam a privacidade de bilhões de pessoas, nosso tema central é a biografia de pessoas famosas.

A defesa do aumento do consumo como o único valor político moral nos levou a esse abismo. A gente não quer só comida. Os artistas têm um grande papel na superação dessas ruínas, sobretudo as de Brasília. Grandes momentos nos esperam e Chico Buarque foi bastante simples ao dizer: “Se a lei é esta, perdi”.

A lei é a Constituição. Se não for essa, teremos perdido nós. Não deixarei de lamentar uma contradição tão explícita entre a sentença e um dos seus artigos essenciais: o que prevê a ampla liberdade de expressão.

No momento, o filho chora e a mãe não ouve, a vaca não reconhece o bezerro. É a crise. Suspensa a presença materna, temos de enfrentar uma certa solidão na busca pela saída. O caminho será encontrado via diálogo, mas sem a ilusão de considerar o governo refém da picaretagem. Foi o governo, em sua estreiteza e seu materialismo vulgar, que acabou provocando essa crise: a galinha aterrissou do voo econômico e só cacareja no chão suas previsões otimistas.

Estamo-nos acostumando com as chamas urbanas. Uma pedrada aqui, um coquetel molotov ali, produzimos uma rotina burocrática, sintonizada com o pântano político. Nos fronts político, social e cultural o alarme está soando há algum tempo. Conseguimos sobreviver a uma longa ditadura militar. Será que vamos capitular diante de um governo que distribui cestas básicas e Bolsas Família?

O País foi moralmente arrasado pela experiência petista e de todos os cafajestes que o governo conseguiu alinhar. Predadores oficiais e predadores de rua se encontram nessa encruzilhada em que um profundo silêncio político se abate sobre nós, com exceção de vozes isoladas.

Precisamos reaprender a conversar, reafirmar valores políticos que não se resumem a casa e comida. Precisamos viver a vida, cuidar mais da bio que da grafia. Precisamos sair dessa maré.

*Fernando Gabeira é escritor, jornalista e político, co-fundador do Partido Verde
(conteúdo publicado em www.estadao.com.br)



03 setembro 2013

ESPIONAGEM


Um soldado
embaixo da
sua cama*




Diferentemente da maioria das pessoas, não me surpreendi quando estourou a denúncia do técnico da CIA (agência de espionagem americana) Edward Snowden, informando que os Estados Unidos grampeavam deus e o mundo, com ajuda das grandes empresas da internet, como Google e Facebook.

A reportagem do jornalista Gleen Greenwald, para o jornal britânico The Guardian, apenas confirmava o que eu já lera no livro Cypherpunks, escrito por Julian Assange (WikiLeaks), em parceria com outros militantes da internet livre, Jacob Appelbaun, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmerman.

No livro, a reprodução de uma conversa entre os autores, Assange equipara a vigilância via internet a uma “ocupação militar”. Chegou a tal ponto, diz ele, que é como se cada um de nós tivesse “um soldado embaixo da cama”. Para Assange, “todos nós vivemos sob uma lei marcial no que diz respeito às nossas comunicações: "só não conseguimos enxergar os tanques, mas eles estão lá”.

Müller-Maguhn afirma que atualmente é mais eficiente para os governos “pegar tudo” o que trafega na rede e nos telefones para “esmiuçar depois”. Justamente o que faz o governo americano, como mostrou o programa Fantástico, na edição de domingo. Assange chega a fazer piada, dizendo que o celular “é um dispositivo de monitoramento que também faz ligações”.

GOOGLE E FACEBOOK: EXTENSÃO DAS AGÊNCIAS DE ESPIONAGEM
Jérémie Zimmermann destaca a vigilância sobre as pessoas comuns: “Se você for um usuário padrão, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, o que está pesquisando e, possivelmente, sua preferência sexual, sua religião e suas crenças filosóficas”. Para Zimmermann, Facebook e Google podem ser considerados “extensões” das agências de espionagem americanas”. (Exatamente o que Snowden denunciou.)

Jacob Appelbaun afirma que os governos ocidentais agem de forma parecida com países de governos ditatoriais. Appelbaun dá o próprio exemplo: pesquisador do Tor Project, sistema online que possibilita contornar a censura e a vigilância na internet, ele diz que é detido para “averiguação” a cada vez que tem de sair (ou entrar) nas fronteiras de seu próprio país: os Estados Unidos.

BRASIL
Dito isso, seria muita ingenuidade acreditar na explicação da Casa Branca, dizendo que coletava apenas os “metadados” (no caso, a lista de quem escrevia ou falava com quem, tempo de ligação, etc.), sem ter acesso ao conteúdo das conversas ou dos emails. É muito óbvio que se apoderando dos metadados, era só dar mais um passo para chegar aos dados em si. E, tendo a posse dos dados, quem resistiria a dar uma espiadinha? Nada inocente, diga-se.

A espionagem americana não tinha o objetivo de "tornar o mundo mais seguro", conforme disse Obama (risos). Conforme revelou a reportagem do Fantástico, tinha a ver com o temor americano pela ascensão dos países “pobres”, que poderiam abalar o poder do Império, além de assuntos mais prosaicos como obter vantagens para os seus negociantes.

Com as provas apresentadas, parece muito difícil que a Casa Branca tenha uma explicação “satisfatória” -- como quer o Brasil -- para o que aconteceu. A presidente Dilma Rousseff disse estar “muito irritada” e “indignada” com o atrevimento dos Estados Unidos, mas reação oficial tem de ir muito além disso. Devido à gravidade da situação, é preciso resposta vigorosa do Palácio do Planalto. A espionagem não atacou um governo específico: é uma ofensa à soberania brasileira.

Sugestão: o governo brasileiro poderia conceder asilo político a Edward Snowden. Creio que nada deixaria Barack Obama mais “irritado” e “indignado” do que isso. Dilma estaria pagando com a mesma moeda.

A PROPÓSITO
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (1.º/9/2013), o professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, Richard Sennett, 70 anos, afirmou que “ser progressista hoje é lutar pelo desmembramento do Google”. Sennet é considerado um dos mais famosos sociólogos do mundo. 

Ele entende que o governo americano deve acabar com o monopólio das gigantes empresas da internet. Mas, vamos ligar os pontos: por que o governo americano agiria assim, se ele controla a internet, e tem o beneplácito do Google e do Facebook para violar a correspondência alheia?

P.S.: No meu blog (http://blog.opovo.com.br/pliniobortolotti/) venho fazendo postagens sobre o perigo que representa o monopólio das gigantes da internet. Este texto foi baseado em alguns desses posts. Quem se interessar, pode pôr na pesquisa do blog palavras como “assange” ou “internet”, e terá acesso a alguns posts sobre o assunto.



*o jornalista Plínio Bortolotti é diretor
Institucional 
do Grupo de Comunicação O Povo. 
Charge (por Clayton) publicada em www.opovo.com.br

02 setembro 2013

VIVER CONECTADO É ISSO


Mudança de hábitos faz 
com que despesas
de um casal sejam 
inferiores a R$ 15 / mês*



O casal usou a adversidade e as dificuldades para
repensar o modelo de vida que estavam levando antes

É sempre o mesmo dilema: entre o final de um mês e o início de outro as contas chegam, o salário "pinga" na conta, mas a equação não fecha. Geralmente, gastamos mais do que ganhamos, não é mesmo? Mas será que isso ocorre apenas por culpa da inflação (este monstro enorme) somada as baixas remunerações?

Pois saiba que um casal inglês consegue viver com menos de R$ 15 por mês. Detalhe: sem miséria. Apaixonados por jardinagem, Steven Lucas e Yvonne são adeptos de estilos de vida sustentáveis. Tudo começou quando Steven foi despedido do seu emprego (era engenheiro eletrônico) em 2010. A partir de então, a vida dele e da esposa sofreu uma reviravolta, segundo relatou o site Hypeness.

Depois de terem instalado painéis solares em 1992, Yvonne e Steven aumentaram a produção própria de alimentos e passaram a coletar água da chuva para a cozinha e banheiro.

Aproveitando as cortesias da natureza, eles passaram a plantar alimentos em seu terreno de seis hectares em Basingstoke, Hampshire (ING), onde ainda incluem um galinheiro com galinhas poedeiras e várias colmeias.

Eles contam ainda duas estufas para produção de legumes, ervas e flores, além de 15 árvores. O cultivo atinge níveis bem altos e o excesso é aproveitado para fazer geleias e compotas. Assim o casal vive de forma ecológica e atinge um valor de despesa mensal quase impensável na Inglaterra.


Yvonne e Steven aumentaram a produção própria
de alimentos e passaram a coletar água da chuva

O casal usou a adversidade e as dificuldades para repensar o modelo de vida que estavam levando antes. Uma ótima forma de transformar algo que parecia negativo em algo extremamente positivo.

É sempre o mesmo dilema: entre o final de um mês e o início de outro as contas chegam, o salário "pinga" na conta, mas a equação não fecha. Geralmente, gastamos mais do que ganhamos, não é mesmo? Mas será que isso ocorre apenas por culpa da inflação (este monstro enorme) somada as baixas remunerações?

Pois saiba que um casal inglês consegue viver com menos de R$ 15 por mês. Detalhe: sem miséria. Apaixonados por jardinagem, Steven Lucas e Yvonne são adeptos de estilos de vida sustentáveis. Tudo começou quando Steven foi despedido do seu emprego (era engenheiro eletrônico) em 2010. A partir de então, a vida dele e da esposa sofreu uma reviravolta, segundo relatou o site Hypeness.

Depois de terem instalado painéis solares em 1992, Yvonne e Steven aumentaram a produção própria de alimentos e passaram a coletar água da chuva para a cozinha e banheiro.

Aproveitando as cortesias da natureza, eles passaram a plantar alimentos em seu terreno de seis hectares em Basingstoke, Hampshire (ING), onde ainda incluem um galinheiro com galinhas poedeiras e várias colmeias.

Eles contam ainda duas estufas para produção de legumes, ervas e flores, além de 15 árvores. O cultivo atinge níveis bem altos e o excesso é aproveitado para fazer geleias e compotas. Assim o casal vive de forma ecológica e atingiu um valor de despesas mensais quase impensável na Inglaterra.


Foi uma ótima forma de transformar algo que parecia negativo
em algo extremamente positivo e coerente com a necessidade




(*conteúdo publicado em www.ecodesenvolvimento.org)
(fotos: Divulgação e Lucas2-ecod)

01 setembro 2013

LIMITES DA ESFERA DE INFLUÊNCIA



Vida de princesa
nos relatórios de
sustentabilidade*




Empresas ainda não entendem o motivo de seus relatórios de sustentabilidade não serem objeto de leitura dos seus stakeholders. Produzido no tradicional modelo top-down de comunicação, ainda não se deram conta que esse produto deve ter seus temas escolhidos não por eles, mas pelos seus públicos, num processo de diálogo que deve se dar ao longo do ano. Mas isso pode estar prestes a mudar e você deveria ser parte disso.

No mês passado participamos de um dia onde foram apresentadas e dialogadas as novidades do G4 Sustainability Reporting Guidelines. Na formação (apesar de achar que o tema está muito cru para chamarmos de curso) estavam empresas, consultores e representantes de entidades/federações.

Os dois aspectos mais marcantes da nova versão -- que passam a valer a partir de Janeiro de 2016 (1) -- são a obrigatoriedade de ter uma matriz de materialidade e de demonstrar que a empresa tem conhecimento dos impactos dentro e fora dela, colocando na pauta o tema cadeia de fornecimento. Na pesquisa Materialidade Brasil, elaborada pela consultoria Report Sustentabilidade, foi constatado que 85% das empresas publicaram quais são os temas materiais, mas apenas 61% publicou sua matriz de materialidade. Um número menor ainda (45%) publicou metas atreladas aos temas materiais (ou seja, apesar de material, 55% das empresas entendeu que ainda não era o momento de atribuir metas).

Algumas lacunas ainda são imperdoáveis no G4. Nenhum avanço na proposição de metodologia para se fazer um processo de materialidade e em como equilibrar os aspectos trazidos pelos stakeholders internos x externos. A Takao Consultoria elaborou um Manual para Implementação de Engajamento com Stakeholders. O documento propõe matrizes de priorização e perfil de partes interessadas e também exemplifica uma matriz de priorização de temas em relação aos critérios internos e externos. 

Pode ser um ótimo modelo a ser seguido, mas quando lemos um relatório de sustentabilidade muitas vezes não está explícito como foi feita a seleção e priorização dos públicos a serem consultados, se todos participaram juntos ou não, se os temas foram dados ou abriu-se a opções para temas que emergiram no processo e como se chegou a priorização dos temas.

Outro ponto é que a materialidade deve envolver stakeholders, mas não obriga a participação de determinadas partes interessadas. Dá para ficar apenas com os funcionários ou até mesmo não incluí-los.
Fonte: Pesquisa Materialidade Brasil - Report Sustentabilidade


A nova versão, apesar de falar muito em cadeia de fornecimento, ainda está longe de propor um olhar mais sistêmico, amplo, envolvendo toda a cadeia de valor da organização (que contemple também a distribuição, clientes e consumidores). Ou seja, a empresa tem que ficar atenta de quem ela compra, onde estão estes fornecedores e onde estão localizados os impactos na cadeia de fornecimento. Contudo, ainda está livre para vender para quem quiser! Levaram o conceito de esfera de influência da Norma ISO 26000 apenas para parte da cadeia.

"Esfera de influência: amplitude/extensão de relações políticas, contratuais, econômicas ou outras relações por meio das quais uma organização tem a capacidade de afetar as decisões ou atividades de indivíduos ou organizações. - Norma ISO 26000"
Com isso, ficam de fora as preocupações da empresa com a comercialização de seus produtos ou serviços para, por exemplo, países que têm graves violações dos direitos humanos ou que estejam em guerra civil; organizações envolvidas em corrupção ou lavagem de dinheiro; empresas que desmatam, têm trabalho infantil ou análogo ao escravo em sua operação ou na sua cadeia, etc.

As organizações presentes na formação da qual participamos também questionaram se a GRI tem alguma sinalização sobre como tornar os relatórios mais atrativos, mais lidos. Bem, não entendemos que isso seja uma missão da GRI, mas sim, em primeira instância, das próprias empresas.


O relatório será interessante pela qualidade e relevância das informações ali colocadas. Isso nos remete aos motivos de alguém "curtir" no Facebook a página oficial de uma empresa quando há interesse genuíno, e não quando é feito para participar de uma oferta comercial. Nós seguimos várias organizações e o que elas nos oferecem é informação de qualidade, independentemente do seu produto ou serviço.

O blog Testando os Limites da Sustentabilidade (um tipo de watchdog) lê e analisa relatórios de sustentabilidade das empresas e depois disso encaminha perguntas sobre informações incompletas ou imprecisas, apontando lacunas de temas que deveriam ser abordados conforme o negócio da empresa. Muitas respondem ao blog e deveriam ver os questionamentos feitos com bons olhos: afinal alguém está lendo seu relatório!

Contudo, há uma grande lacuna deixada por stakeholders imprescindíveis 
para a melhoria da qualidade das informações e da transparência do setor privado no Brasil, como organizações da sociedade civil, imprensa, academia, consultorias, organizações think tank, coletivos e formadores de opinião em geral. Céticos quanto ao conteúdo publicado nos relatos -- em alguma medida, com razão --, esses públicos deixam de prestar um enorme serviço à sociedade ao não fazer leituras e análises críticas às informações dos relatórios de sustentabilidade, um dos poucos, se não os únicos, instrumentos de consulta de como as corporações contam estar conduzindo os negócios das empresas por aqui. 

Acreditamos que existe um grande espaço para exercitar diferentes formas de se fazer a leitura desse tipo de documento. Esses stakeholders têm condições técnicas e informações complementares para "mastigar" o conteúdo dos relatórios e fazer cruzamentos com a real atuação da empresa, com o que a GRI determina, com práticas de outras empresas do mesmo setor, com políticas públicas, com Pactos e Compromissos voluntários, comparar com informações e práticas da matriz na busca por um duplo padrão (2), dentre outras dezenas de olhares possíveis. 

Analisar as informações públicas do setor privado -- ou evidenciar a falta delas -- ajuda na geração de conhecimento crítico que pode ser um impulsionador de novas práticas por parte das empresas. É o caso do estudo Sustentabilidade do Setor Automotivo, produzido pela Tistu para o UniEthos, que vem sendo utilizado por uma montadora na sua estratégia de sustentabilidade.

Por isso, o que realmente importa nos relatórios são os dados relevantes para quem lê, não para quem escreve. Entretanto, as informações ainda vêm embaladas num pacote desnecessário de frases de efeito que dizem pouco, ou quase nada, e não agregam no momento da análise, repetindo histórias ano após ano sem demonstrar ou deixar clara qual foi a real evolução frente ao ano anterior. 


Daí a importância da análise crítica de formadores de opinião. Enquanto as empresas não avançam neste aspecto, iniciativas que capturem os dados e "limpem" as informações dos excessos, serão úteis para aumentar o conhecimento sobre os aspectos de sustentabilidade que as empresas estão colocando na sua cesta de prioridades.

Em tempo de manifestações onde cartazes levantam bandeiras como saúde (a ser melhorada), corrupção (a ser combatida), transporte (como forma de inclusão) e acesso à cidade (como forma de promoção da igualdade), quem não gostaria de saber quais empresas estão antenadas com essas necessidades e trabalham em convergência com as políticas públicas? Não passa pela nossa cabeça abrir o relatório da Siemens no ano que vem e não ver a questão da corrupção e cartel. 

Ou ler o relatório da Samsung e não encontrar nada sobre as condições degradantes dos trabalhadores. Mas não estamos falando daqueles textos sobre o quanto valorizam os processos, como os sistemas funcionam etc. Queremos saber justamente o contrário. 

Quais foram as lições aprendidas, onde estava o furo, quais desafios que entendem que estão longe de superar? As empresas são feitas de pessoas e portanto são cheias de falhas, inconsistências, dilemas. E é isso que falta aparecer nos seus relatos de vida de princesa.

Talvez esta deva ser a tendência dos relatos das empresas. Criar visões por assuntos de interesse pela ótica de quem busca a informação, com construções e atualizações dinâmicas (entenda aqui que elas não serão feitas de forma unilateral, apenas pelas empresas), com muito menos filtros e fotos de banco de imagens.

Mais Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) para os relatórios de sustentabilidade têm o potencial de torná-los muito mais interessantes e vivos. Se as empresas não fizerem, alguém vai fazer.



(1) Ou seja, o último ano de relato na versão G3 ou G3.1 
será 2014, sendo que 2015 já será relatado na nova versão.


(2) Esta é uma metodologia que a Tistu vem adotando em alguns 
estudos. Isolar alguns assuntos e procurar por práticas e
 posicionamento na matriz e na operação do Brasil.
Quando há divergência (i.e. a matriz tem políticas, 
programas ou é estratégico e aqui nem é citado)
 ocorre o que denominamos de "Duplo Padrão".



*Carla Stoicov é mestranda em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-SP.
Sócia da Tistu, 
atua como consultora em projetos para o Desenvolvimento
Sustentável e de Responsabilidade Social Empresarial. Ex-coordenadora do
Programa Tear do Instituto Ethos, é especialista do UniEthos.


*Wilson Bispo é jornalista e desde 2005 trabalha na cobertura de temas socioambientais 
e de RSE. Sócio da Tistu, foi produtor do Repórter Eco da TV Cultura de SP, editor
do portal e agência 
Envolverde e consultor na Report Sustentabilidade.



(conteúdo publicado em http://www.tistu.net)




29 julho 2013

TECNOLOGIA SEM CONSENSO


Transgênicos:
está tudo legal?



Plantação de soja em Não-Me-Toque,
nordeste do Estado do Rio Grande do Sul

Os organismos geneticamente modificados avançam a passo firme no Brasil, país onde convivem as variedades das corporações globais e os desenvolvimentos da ciência nacional.

 Há dez anos o Brasil legalizou cultivos de soja transgênica, cedendo à pressão da agroindústria. Hoje é o segundo maior produtor de organismos vegetais geneticamente modificados, atrás dos Estados Unidos. Os transgênicos eram cultivados clandestinamente no Brasil desde a segunda metade da década de 1990.

O ano de 2003 representou um marco, com o decreto 4.680 que regulamentou a rotulagem de alimentos que contivessem pelo menos 1% de organismos transgênicos. E, sobretudo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) deu um passo definitivo ao autorizar com sucessivas medidas provisórias o cultivo de soja modificada, diante do fato consumado de plantações ilegais no sul do país com sementes contrabandeadas da Argentina.

Em 2005, a Lei de Biossegurança estabeleceu o contexto normativo definitivo, ao criar a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, encarregada de estudar, aprovar e recusar os pedidos de plantio e comercialização de transgênicos. Dois anos depois, outra lei criou o Comitê Nacional de Biotecnologia, para coordenar e implantar uma política geral de desenvolvimento biotecnológico.

Pragas, problemas fitossanitários e espécies invasoras são as principais razões das perdas financeiras na agricultura, sobretudo pela dificuldade de monitorá-las e controlá-las, segundo o engenheiro agrônomo João Sebastião Araújo, do Instituto de Agronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Neste contexto, em 1996 teve início uma nova tecnologia, a transgênese, com uma variedade de milho que continha a expressão proteica da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt)”, de propriedades inseticidas, explicou Araújo. “Se converteu em uma das tecnologias mais empregadas na agricultura norte-americana, e alcançou rapidamente a maior porcentagem das plantações de milho no país”, acrescentou.

A partir desta tecnologia, ocorre uma nova intensificação no uso de fertilizantes, novas variedades, máquinas agrícolas e introdução de moléculas de agrotóxicos. “Tudo destinado a obter maiores rendimentos”, resumiu Araújo. Este novo pacote tecnológico passou a ser difundido pelas corporações transnacionais em países como o Brasil, que configura “um mercado excepcional” por suas áreas de plantação de soja, milho e algodão, ressaltou o agrônomo. Nestas condições, ocorreram as pressões empresariais para que as autoridades liberassem o uso da transgênese, com a promessa de eficiência e baixo custo.

Segundo a consultoria Céleres, especializada em informação para o agronegócio, os transgênicos ocupam 37,1 milhões de hectares no ano agrícola 2012-2013, o que implica crescimento de 14% (4,6 milhões de hectares) em relação à safra anterior. A soja lidera, com 24,4 milhões de hectares plantados em 2012, ou 88,8% do total desse cultivo.

A colheita de inverno de milho mostra que os transgênicos ocupam 87,8% (6,9 milhões de hectares) das plantações. E no milho de verão as variedades modificadas cobrem 64,8% das superfícies plantadas, equivalentes a 5,3 milhões de hectares. Por sua vez, o algodão geneticamente modificado constitui pouco mais de 50% (547 mil hectares) do total previsto para a safra 2012-2013, segundo a consultoria.

Araújo afirmou que o Brasil é muito competente em pesquisas agrícolas e seus cientistas conseguem “resultados excepcionais”, contribuindo para implantar semeaduras e rendimentos não imagináveis no passado. Contudo, sem negar o avanço tecnológico, ainda não há respostas suficientes para uma série de alertas sobre os transgênicos, advertiu. 

“Deve-se ter cautela para não usar esta tecnologia sem o necessário critério. Hoje, a Europa está convencida de que seus impactos vão muito longe. Estamos falando de uma técnica muito recente. No Brasil existe apenas há dez anos, na Europa 13 e nos Estados Unidos 17”, ressaltou.

O presidente da estatal Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), Maurício Lopes, destaca outro aspecto. Os trópicos são a região do planeta mais desafiadora para a agricultura, devido às manifestações das mudanças climáticas e à necessidade de reduzir a emissão de gases-estufa gerados por essa atividade humana, afirmou.

“Devemos lançar mão de todo o arsenal tecnológico que dispomos. Cremos que são importantes a moderna biotecnologia, a nanotecnologia, as novas ciências e os novos modelos. O Brasil não pode dizer não a essas técnicas, porque os desafios atuais são enormes”, disse Lopes. 

Para ele, o balanço destes dez anos é positivo, mas há a necessidade de um uso inteligente, planejado e cuidadoso destas novas ferramentas. “Somos favoráveis à transgênese. Entendemos que há uma estrutura de métodos e procedimentos para empregá-la de forma segura”, acrescentou Lopes. Mas, sobretudo, critica o fato de a biotecnologia permanecer sob controle de uns poucos atores globais, como as corporações agroalimentares.

A Embrapa agora aposta no desenvolvimento de novas variedades de feijão, tomate e papaia. “Estamos testando um feijão transgênico resistente a uma doença terrível, o vírus do mosaico dourado, transmitido por um inseto. Este produto já foi desenvolvido pela Embrapa e agora está na fase de testes”, detalhou Lopes. A próxima fronteira são as hortaliças. Os cientistas brasileiros já obtiveram alface modificada contendo grandes concentrações de ácido fólico.

“O ácido fólico é um componente fundamental na dieta das mulheres grávidas, por sua importância na formação do sistema nervoso do feto. Estamos testando e deve passar por uma longa bateria de avaliações. No entanto, é um produto que, talvez no futuro, esteja em nossa mesa”, previu Lopes.

Enquanto os defensores dos transgênicos alegam que estes podem ser uma ferramenta para abater a fome e o uso de herbicidas, pesticidas, fungicidas e microfertilizantes, os ecologistas apontam os riscos que têm para a biodiversidade agrícola. A organização Greenpeace insiste em afirmar que sua liberação na natureza pode causar a perda de plantas e sementes que constituem um patrimônio genético da humanidade.

“Defendemos o modelo de agricultura baseado na biodiversidade agrícola e que não empregue produtos tóxicos, por entendermos que só assim teremos agricultura para sempre”, afirmou o Greenpeace em um comunicado. Além disso, a organização destacou que não existe consenso na comunidade científica sobre a segurança dos transgênicos para a saúde humana e o meio ambiente. 


(Fabíola Ortiz em http://envolverde.com.br)
(foto: Nilson Konrad / Inter Press Service)


25 julho 2013

CIÊNCIA & TECNOLOGIA



Região amazônica
terá plano, diz Raupp





O governo federal prepara um Plano de Ciência e Tecnologia para a região amazônica. Prevista para ser lançada em setembro, a medida foi anunciada pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Marco Antonio Raupp, durante a 65.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

“A proposta é um plano de desenvolvimento sustentável da região amazônica com a utilização de seus recursos naturais. [O plano é construído] com a participação de instituições de ciência e tecnologia da região, governos estaduais e federal”, descreveu Raupp.

Segundo o presidente do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), órgão ligado ao MCTI e responsável pela coordenação do plano, Mariano Laplane, a proposta foi elaborada de forma colaborativa, com estrito enfoque nas necessidades locais. “O plano é arrojado, e parte de uma pergunta básica: como é que ciência, tecnologia e a inovação devem se estruturar, orientar seus esforços para promover o desenvolvimento da região amazônica?”.

A iniciativa é baseada em três eixos: perfis de pesquisadores mais adequados para o trabalho na região, infraestrutura de laboratórios e ambientes de inovação. “Procuramos respostas em três questões fundamentais, como a necessidade de recursos humanos, qual a quantidade e o perfil que a ciência brasileira deve mobilizar na região. Quais as áreas de conhecimento devemos concentrar nossos esforços para alavancar o desenvolvimento sustentável e quais são os recursos laboratoriais, a infraesturura, que junto com o esforço humano vai conseguir fazer com que o conhecimento avance”, aponta Laplane.

O presidente do CGEE explica que o ministério ainda está definindo os recursos que serão aplicados e quantos pesquisadores serão contratados para implementação da iniciativa. Outro plano voltado para a Região Nordeste já começou a ser construído, com a mesma filosofia adotada para a região amazônica, mas ainda não tem previsão para ser lançado.
  
“A região [amazônica] tem uma vocação muito forte com sua biodiversidade. O que falta é um instrumento de desenvolvimento pensando na sustentabilidade. Temos que fugir do pensamento que é preciso destruir a natureza para conseguir riqueza e o contrário também não é verdadeiro. Não é suficiente gerar conhecimento, ele deve chegar à sociedade, à população, às empresas para se transformar em riqueza, gerar bem-estar”, concluiu Lapane.

Em outro anúncio, o ministro Marco Antonio Raupp divulgou a aquisição do navio de pesquisas hidroceanográficas para ampliar a presença da ciência nacional no Atlântico Sul e Tropical. 

A embarcação faz parte do projeto do Instituto Nacional de Pesquisas Oceanográficas e Hidroviárias (INPOH), que prevê uma série de ações em áreas como a conservação da biodiversidade marinha, a melhoria de processos associados à pesca, proteção e adaptação de zonas costeiras para as mudanças climáticas, realização de estudos sobre vias fluviais, hidráulica fluvial e portuária, além de formação de recursos humanos para o setor.

De acordo com o ministério, a compra, no valor de R$ 162 milhões, é resultado de um acordo de cooperação entre a pasta, a Marinha, Petrobras e a empresa Vale. O navio terá capacidade para 146 tripulantes, dos quais 60 pesquisadores, e contribuirá para o avanço de pesquisas nas áreas de química, geologia, biologia e de física marinha.



(Heloisa Cristaldo, em http://agenciabrasil.ebc.com.br)
(edição: Carolina Pimentel)



23 julho 2013

TAPETE VERDE


Sistema "Nourishmat"
é alternativa fácil
para ter (e manter)
uma horta em casa



As esteiras usam uma técnica de metro quadrado de jardinagem que
maximiza o espaço quando comparada às tradicionais linhas de plantio

Ter uma horta em casa pode parecer uma tarefa difícil para quem tem pouco conhecimento de jardinagem, além de falta de tempo e espaço. Foi pensando nessas dificuldades que a empresa norte-americana Earth Starter criou o Nourishmat, um sistema que ensina o passo a passo de como plantar e cuidar de uma horta.






O guia de plantio consiste em uma espécie de tapete feito de polipropileno reciclável que age como barreira de plantas daninhas. Ele vem enrolado e com instruções impressas em tinta não tóxica. Para usar basta desenrolá-lo, instalá-lo onde desejar e colocar as sementes, já envoltas numa massa de adubo, nos furos indicados. Pronto! Até a rega não é necessária, uma vez que ele vem com um sistema automático de irrigação.






O Nourishmat acompanha 19 variedades de plantas, como cebolinha, hortelã, salsa, cenoura, entre outras, sob a forma de 82 bolas de sementes, a fim de se ter uma abundância de vegetais.






As esteiras usam uma técnica de metro quadrado de jardinagem, que maximiza o espaço quando comparada às tradicionais linhas de plantio. Elas estão disponíveis em dois tamanhos, 4x6 e 2x6 metros, ambos adequados para espaços pequenos e tem duração de 3 a 5 anos.






O produto ainda está em fase de produção, e aguardando investimentos através do Kickstarter, um site de financiamento coletivo que irá ajudar a centralizar as operações em um só lugar.


Segundo os criadores o tapete será vendido por aproximadamente US$ 65 (cerca de R$ 140,00) sem irrigação e US$ 80 (R$ 170,00) com irrigação - um preço que poderia colocar o produto na gama de projetos de jardinagem escola. Mas quem já quer ter um Nourishmat pode contribuir com US$ 55 ou mais para a campanha Kickstarter e receber o produto em casa.

(conteúdo publicado em www.ecodesenvolvimento.org)

16 julho 2013

O BOM EXEMPLO


Geração Peter Pan 
precisa é crescer




A geração a que me refiro, infelizmente, não é essa, atual, que rouba e mata sem noção. É a minha, aquela que, quando jovem, acreditou em muitas tolices bem-intencionadas. O Partido dos Trabalhadores, por exemplo.

Lembro-me bem do entusiasmo com que nós, artistas e intelectuais da Vila Madalena, pintávamos a nascente estrelinha vermelha em tampas metálicas de garrafa, para vendermos. Deu no que deu: a classe proletária foi ao paraíso e, uma vez lá, fez o que achava certo. A vingança do povão: roubar, se divertir, virar mais burguês que os piores burgueses. A coisa pública para eles, ex-pobres, agora ricaços, é privada. Literalmente. Cagam e andam para leis, democracia, ética, o escambau.

Outra bobagem de que nós, jovens idealistas da década de 1970 e 1980, nos arrependemos muito é o Partido Verde. Abraçamos a Lagoa Rodrigo de Freitas, no RJ, e erguemos nosso sonho libertário em torno da sunga de crochê do Fernando Gabeira. 

O resultado está aí: o Partido Verde amarelou, se tornou uma espécie de legenda de aluguel, nem o Código Florestal discutem mais. Os fundadores íntegros pularam fora a tempo, mas o PV continua na moita enquanto o desmatamento avança. O MDB só foi oposição na campanha das Diretas, depois ganhou um P e as chaves do cofre da Viúva. Os crentes andavam pacificamente com suas Bíblias, até descobrirem a força do deus-Mercado. 

Acompanhamos e lutamos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse mesmo, que se tornou um aval para a bandidagem mirim. Nem precisava terminar com ele, como a sociedade parece querer: basta mudar um item e lembrar que, independente da idade, sociopata perde o manto da proteção e tem de ficar fora de ação. Simples assim.

Introduzimos as noções revolucionárias de Reich, o psiquiatra maldito, no Brasil. O pessoal finalmente aceitou, mas entendeu tudo errado: orgasmo e vitalidade corporal eram para dar prazer, não para exibir em academias de malhação.

Presos políticos, alguns de nós, candidamente, passamos noções de organização para colegas presos comuns. Enquanto levávamos uma surra brava da ditadura, os coleguinhas malacas montaram as bem-sucedidas holdings do crime: PCC, A.D.A., e muitos filhotes a dominar, e lucrar, nos presídios e nas comunidades. 

As mulheres da minha geração foram feministas, sim. Lutaram e garantiram seus prazeres e o uso de seus corpos. Mas muitas exageraram e liberaram demais as filhinhas, que andam por aí exibindo gravidez precoce e amor incondicional aos funkeiros.

Está mais do que na hora da minha geração crescer, fazer seu mea culpa, ou culpa inteira, e dar a volta por cima, saindo debaixo dessa cumplicidade indecente. Os velhinhos idealistas de ontem precisam dar o bom exemplo que já tentaram dar antes.



*Ulisses Tavares, 63 anos, poeta, participou ativamente de movimentos 
de cidadania no Brasil nas últimas décadas. Ajudou a fundar partidos, 
mas nunca se filiou a nenhum deles e anda se sentindo bem sozinho 
na batalha. É autor de alguns livros, entre eles Hic!stórias – Os maiores 
porres da história da humanidade e A maravilhosa sabedoria das coisas.
O poeta Ulisses Tavares declama nu no palco do Sesc Pompéia, em São 
Paulo, nos anos 1980. Imagem em www.revistadacultura.com.br 




15 julho 2013

ACABOU A BRINCADEIRA


Evo viu a uva
e virou o jogo!!!


Quem deve a quem? Evo explica a verdadeira dívida externa


Com linguagem simples, que era transmitida em tradução simultânea a mais de uma centena de Chefes de Estado e dignitários da Comunidade Européia, o Presidente Evo Morales conseguiu inquietar sua audiência quando disse:

"Aqui eu, Evo Morales, vim encontrar aqueles que participam da reunião.

Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos.

Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa.

O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. 

O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me.

O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. 

Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros.

Consta no Archivo de Indias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento.

Expoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão!

Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das Indias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos!

Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. 

O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata destes valores, mas também uma indenização pelas destruições e prejuízos. Não.

Eu, Evo Morales, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses: tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano 'Marshall-Tezuma’ para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e de outras conquistas da civilização.

Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indoamericano Internacional?

Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal.

Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para o seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar.

Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico de juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos estes valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra.

Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue?

Alegar que a Europa, em meio milênio, não pôde gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo.

Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os indoamericanos. Mas exigimos, sim, a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir os seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que se nos entreguem-na inteira, como primeiro pagamento desta dívida histórica..."

*Exposição do Presidente da Bolívia Evo Morales ante reunião de Chefes de Estado da Comunidade Europeia

(conteúdo publicado em http://cms.onic.org.co)


14 junho 2013

EMPAPUÇADOS DE TECNOLOGIA


Até mesmo profissionais 

estão deixando em casa 
seus gadgets eletrônicos*




Robin Sloan, 32, de San Francisco, de repente pode ser imaginado como um tecnófobo, incapaz de dominar tecnologias novas. Sloan possui um telefone Nokia -- um modelo bem antigo -- com apenas uma função principal: realizar chamadas telefônicas. Para fazer suas anotações, ele está usando papel e caneta, e normalmente lê livros impressos em papel.

Porém, Sloan está longe de ser um "ermitão". Ele já trabalhou para o Twitter como gerente de mídias, ensinando veículos noticiosos a usar as mais modernas ferramentas das mídias sociais. Antes disso, foi estrategista on-line da Current TV.

Mesmo assim, no ano passado, quando começou a escrever seu primeiro livro, Mr. Penumbra's 24-Hour Bookstore, Sloan percebeu que seu iPhone e outras tecnologias que utilizava estavam interferindo em sua produtividade -- e rapidamente livrou-se deles. 

"Descobri que, para mim, era mais importante e mais produtivo passar o dia pensando e anotando ideias", explicou. "Eu precisava de meus minutos de ócio -- e não de ficar checando meu e-mail e tuítes -- para contribuir com o texto que estava escrevendo." Sloan não é o único entre muitos a se sentir assim, mesmo no Vale do Silício.

Ocorre que, à medida em que nossas vidas vão se tornando hiperconectadas em todos seus aspectos, algumas pessoas na vanguarda da tecnologia vêm se esforçando para fugir um pouco disso. Assim, elas guardam seus telefones nos bolsos, desligam o Wi-Fi de suas casas à noite ou nos fins de semana e leem livros feitos de papel, não de pixels.

Eu também venho sentindo essa tendência. Dois anos atrás, quando a popularidade do iPhone e do iPad estava no auge, lembro-me de ter jantado com outros blogueiros e repórteres de tecnologia. Costumávamos passar nossos telefones a todos os presentes ao redor da mesa, comentando um aplicativo ou algum clipe divertido no YouTube. 

Hoje, ainda que nossos aparelhos tenham capacidade para conter mais aplicativos e exibir vídeos mais rapidamente, costumamos fazer um jogo diferente: os presentes colocam seus smartphones numa pilha no centro da mesa, e a primeira pessoa a tocar em seu telefone tem que pagar a conta de todos.

Alguns casais que trabalham com tecnologia estão entre os que mais querem se afastar dela. "Pelo menos uma vez por mês, minha mulher e eu entramos no carro e dirigimos até algum lugar onde não haja sinal (sim, isso é possível), para passar um fim de semana ocupados com coisas analógicas", conta Evan Sharp, um dos fundadores do Pinterest. "Lemos, fazemos caminhadas nas montanhas, cozinhamos e visitamos pessoas que não trabalham com tecnologia."

Outros casais já me falaram da regra que proíbe eletrônicos no quarto (às vezes o Kindle é uma exceção). Há quem deixe seus telefones em casa quando sai para o brunch dominical. Ao invés de fazerem uma foto dos ovos e bacon que vão comer e postá-la no Instagram, podem curtir a companhia um do outro e praticar aquela atividade hoje quase estranha, conhecida como "conversar".

É até possível que exista um modelo de negócios com produtos que nos incentivem a nos afastar de nossas engenhocas. O livro The Pocket Scavenger, publicado recentemente, incentiva o leitor a sair numa caça ao tesouro incomum, recolhendo objetos aleatórios, desenhando e anotando coisas nas páginas do livro e então documentando o que foi feito com um smartphone.

"Não vamos nos livrar da tecnologia", comentou a autora do livro, Keri Smith. "Sinto que estamos deixando de notar cheiros e sensações táteis. Eu quis apenas oferecer algum tipo de antídoto ao que se vê por aí." Sloan, que já publicou seu livro, conta que seu afastamento da tecnologia foi um sucesso. Claro, ele ainda lê seus e-mails, mas não quando está tomando um café, caminhando ou conversando com alguém.

"Parece bobagem, porque costumávamos fazer isso o tempo todo. Mas hoje, depois de me livrar do meu smartphone, me sinto muito mais à vontade quando saio de casa sem ele. Sinto que reaprendi muita coisa -- e pode crer que eu faria o mesmo se tivesse agora à mão um smartphone zerado, cheio de novidades", garante.


*Nick Bilton é colunista do NYTimes, professor da NYU e 
blogueiro do Bits Blog, cobrindo tecnologia, negócios e cultura. 
(Conteúdo publicado em www1.folha.uol.com.br/fsp)
(imagem em
www.salon.com)