15 junho 2009

FRUTAS E VERDURAS

A dieta do câncer



A FAO-Food and Agriculture Organization of the United Nations tem proclamado em seus boletins de saúde: “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e, também, o terceiro do ranking em mortalidade por câncer”.

Até os anos 60, o câncer era uma doença de escassa frequência em nosso País, com cerca de 2% de óbitos. Todavia, a partir dos anos 90, sua incidência tem crescido de foma vertiginosa, em mais de 5.000%.

Causa e efeito, justo em um período de 10 anos (1976 a 1985), crescia em mais de 600% o consumo de agrotóxicos em nossas lavouras. O crescimento destes — implicado em hortaliças, frutas e gêneros alimentícios envenenados — demandou uma preocupante assiduidade da enfermidade.

Câncer e agrovenenos são números ainda crescentes, em alarmante paralelismo. Ignorantes ou indiferentes a essa assertiva, médicos e nutricionistas — estes por excelência — continuam a prescrever dietas à base de frutas e hortaliças.

Tudo bem que o façam, desde que advirtam para o consumo de vegetais saudáveis, oriundos da agricultura orgânica. Lavar frutas e verduras envenenadas em vinagre ou água corrente corrente carece de qualquer validade: eis que os modernos agrotóxicos são sistêmicos, incorporam-se à seiva das plantas.

O fato é que, em quase todas as famílias, chora-se a perda de um ou mais entes queridos, vitimados pelo câncer. Curioso é que, amiúde, o goveno enceta campanha contra o álcool e o tabagismo, mas nunca contra os agrotóxicos, embora estes vitimem gradativamente a quase totalidade da população, enquanto o álcool e o fumo resumem-se a menos de 15%.

Ocorre que as multinacionais dos agrovenenos são poderosíssimas. Tomate, batata, repolho e folhosas em geral, trigo, morango, uva, citros, melão, soja, maçã, pêra e mamão alinham-se entre as culturas mais identificadas com os agrotóxicos.

É inaceitável que pesquisadores e agrônomos, vinculados a instituições governamentais (universidadades, Embrapa, Emater etc.) continuem a pesquisar e a recomendar agrotóxicos. Por quê?

Só sei que, em represália à minha luta contra tais venenos, cassaram-me a bolsa do CNPq que eu detinha há 20 anos. Igual destino teve a minha bolsa da Funcap.


*José Júlio da Ponte é presidente da ACECI-Academia Cearense de Ciências, professor Emérito da UFC, professor Visitante da UECE, livre-Docente de Fitopatologia, membro da New York Academy of Sciences e detentor de uma Medalha de Ouro de Fitopatologia. Lançou recentemente A Manipueira em Quadrinhos, com produção de sua esposa Maria Erbene Góis da Ponte e traços de Zhelio

SAIBA MAIS
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05 junho 2009

HÁ CRESCIMENTO?

MITO ECONÔMICO


Com o costumeiro alarde, há algum tempo foi apresentado à sociedade brasileira o PAC–Programa de Aceleração do Crescimento. Se o retorno a algo de planejamento público é fato positivo, não devemos pôr todas as apostas no mero crescimento econômico. A finalidade da argumentação (quase uma nota técnica) que se segue, é apenas qualificar (ou desmitificar) a crença no crescimento, demasiadamente repetida com ares de verdade absoluta.

Por exemplo, na edição de O Povo de 31.10.2006, lia-se: “O que o País precisa é de crescimento econômico, um fator que não tem componente ideológico...” Sabiamente, o colunista acrescentou: “Unindo-se ao crescimento das políticas de combate às desigualdades...” Repensou melhor, ou seja, pensou em desenvolvimento.

Como todo discurso, o das Ciências Sociais pode ser traiçoeiro, tornando-as facilmente atacáveis por um vírus inarredável, muito bem disfarçado (até inconscientemente) e conhecido pelo nome de “ideologia”. Por exemplo, a taxa anual de crescimento do produto (renda) total parece ser um simples número estatístico-contábil. Uma percentagem, número puro sem dimensão, sobretudo ideológica. Mas... não é.

Num antigo e excelente livro-texto, introdutório à teoria do desenvolvimento, o professor Michael Todaro faz um esclarecedor exercício, ademais muito simples, por utilizar Matemática elementar. Examina a taxa anual de crescimento (aumento da renda dividido pela renda inicial) e revela três situações: regressiva, em que o crescimento tende a aumentar a desigualdade; status quo, em que a desigualdade tende a permanecer a mesma; e progressiva, ou seja, desenvolvimento, em que há crescimento com tendência à diminuição das desigualdades sociais.

Assim, tudo depende das prioridades (pesos) que sejam dadas aos ricos e aos pobres. Isto é importante. Desta forma, numa abstração simples, divide-se a sociedade em duas classes: ricos e pobres. Todaro demonstra matematicamente que a taxa de crescimento da renda total é uma média aritmética ponderada da taxa de crescimento da renda dos ricos e da taxa de crescimento da renda dos pobres.

Aquela citada nas estatísticas oficiais e na imprensa é referente à situação regressiva: seus pesos são a percentagem da renda auferida pelos ricos (que tende a ser alta) e a percentagem da renda que cabe aos pobres (que tende a ser baixa). Então, os ricos valem mais do que os pobres — eis a ideologia sub-reptícia e os interesses absconsos dos que enfatizam apenas o crescimento econômico.

Situação regressiva: quando eu estudava em Berkeley, no início dos anos 1970, o professor e brasilianista Albert Fishlow comparou o período entre os dois Censos brasileiros de 1960 e 1970. Tornou-se aqui persona non grata, ao concluir que a renda dos ricos aumentara em 80% e a dos pobres em 8%.

Simplificando o presente exercício, consideremos (aritmeticamente) 8% e 0,8% ao ano; e tomemos as rendas do trabalho como renda dos “pobres” e as rendas do capital como renda dos “ricos”. Recentemente (2002), foram obtidas as seguintes estimativas: rendas do capital, 44%; do trabalho, 31%; do governo, 25%. Dividamos (conservadoramente) as rendas do Governo em 15% para os “ricos” e 10% para os “pobres”.

Obteremos a seguinte taxa de crescimento: 8% x 59% + 0,8% x 41% = 4,72% + 0,33% = 5,05%. Vemos que a taxa de crescimento da renda total (5,05%) é dominada pela importância da renda dos ricos (4,72%). O que indica, da parte dos mais aquinhoados, o interesse pelo crescimento e, de outro lado, o aumento da desigualdade relativa. Não há desenvolvimento.

Situação do status quo: utilizemos a tal média ponderada, adotando, porém, como pesos, as percentagens da população, distribuída entre ricos e pobres. Digamos que, no Brasil, há 20% de “ricos” e 80% de “pobres”. A nova taxa de crescimento apresentar-se-á como: 8% x 20% + 0,8% x 80% = 1,6% + 0,64 = 2,24%.

Com as mesmas taxas anteriores de crescimento das rendas dos “ricos” e dos “pobres”, a taxa de crescimento total é, agora, muito inferior (2,24% status quo ou a manutenção das desigualdades.

Situação progressiva: na Ciência Econômica convencional, não há uma teoria macroeconômica da distribuição da renda. A Teoria Econômica, ut sic, trata de alocação e eficiência econômicas e não de distribuição ou justiça. A distribuição é questão política, com pesos para cada classe social decididos politicamente.

Para diminuirmos as desigualdades na distribuição da renda (fluxos), os pesos para os pobres devem ser maiores do que sua proporção demográfica. E nem estamos falando de distribuição da riqueza (estoques)... Conservando as taxas de crescimento da renda das duas classes socioeconômicas, demos politicamente pesos de 10% para os “ricos” e de 90% para os “pobres”.

O resultado será: 8% x 10% + 0,8% x 90% = 0,8% + 0,72% = 1,52%. Pelo presente exercício, a importância das duas classes tornou-se praticamente igual (0,8% e 0,72%), no crescimento da renda total (1,52%). Somente com um peso, para os pobres, maior do que sua proporção na população (e uma maior taxa de crescimento de sua renda), serão diminuídas as desigualdades na distribuição da renda (não, ainda, da riqueza). Eis o significado de “políticas de combate às desigualdades”.

De qualquer modo, chama a atenção (em nosso exercício) o fato de que, à proporção em que fomos melhorando a distribuição, a taxa de crescimento da renda total apresentou-se como menor (5,05%, 2,24% e 1,52%). Enfatizemos, porém, que nos três exemplos não variaram as extremadas taxas de crescimento da renda de cada classe (8% e 0,8%).

Temos dois pontos: 1) a taxa de crescimento global diminuiu, mas as desigualdades também; 2) se conseguirmos aumentar significativamente a taxa de crescimento da renda dos pobres, reverteremos o decréscimo da taxa global e diminuiremos muito mais as desigualdades. É o que buscam os Programas Sociais.

Como o Presidente Lula argumentou, em um dos debates da campanha eleitoral, já tivemos períodos de elevadas taxas de crescimento da renda, concomitantemente com a das desigualdades (o “Milagre” brasileiro). Era a velha teoria ideológica do “crescimento do bolo”, a crença nos efeitos de gotejamento (trickle-down effects) ou transbordamento (spill-over effects).

A experiência nos mostra que nem o crescimento, nem o mercado sozinhos distribuem com justiça os fluxos econômicos. As iniqüidades sociais não podem então diminuir, sobretudo em um País que, em sua formação histórica, não repartiu entre todos os cidadãos os estoques da riqueza. Torna-se necessária a “opção preferencial pelos pobres”, enunciada pela Igreja católica na América Latina. A questão é política.

Temos que decidir que tipo de sociedade construiremos: será iníqua, desequilibrada, violenta, autoritária, “a Sociedade do Mal-estar”, ou será justa, decente, pacífica, democrática, “a Sociedade do Bem-estar”? (Ser ou não ser, eis a questão. Ou, o desenvolvimento é o novo nome da paz).

Por tudo isso, é preciso ter cuidado com a palavra “crescimento”, desbragadamente utilizada. Mas, além disso, nem introduzimos aqui as qualificações adicionais que levanta a nova ciência da Economia Ecológica. Por exemplo, estudos da Pegada Ecológica indicam que, se toda a população mundial buscasse atingir o padrão de vida do norte-americano médio, teríamos necessidade de 5,2 planetas Terra!.. Mais do que o crescimento, o que importa é a qualidade de vida. Há panos para muitos outros artigos...
(imagem: The Rich Jew and the Poor Jew: www.galerea.com)

*Osório Viana é Livre-docente em Desenvolvimento Sustentável, aposentado da UFC (PRODEMA) e do BNB (ETENE)


04 junho 2009

A INFLUÊNCIA DOS ASTROS

Cotidiano de estrelas


O Museu do Eclipse, em Sobral, foi fundado em 1999 em comemoração aos 80 anos da comprovação da Teoria da Relatividade. O espaço, climatizado, é dotado de um moderno observatório onde os visitantes podem conferir uma exposição de registros obtidos por luneta e fotos originais utilizadas para comprovar a Teoria de Einstein, além das fotos que registraram a presença de sua expedição científica a Sobral.

Além de imagens de galáxias e planetas, o primeiro mapa lunar do Brasil e o jornal The New York Times que noticiou a comprovação da Teoria, um simulador elétrico de eclipses e réplicas movimentadas do Sistema Solar traduzem, de modo virtual, as experiências das expedições astronômicas.

O Museu está localizado na Praça do Patrocínio, ponto da observação do eclipse de 1919. Para compor o complexo, há ainda um monumento erguido em 1974 em homenagem ao eclipse. O Museu do Eclipse é filiado à Associação Mundial de Astronomia.

Além de programação para visitantes com acompanhamento guiado, o museu também oferece cursos de capacitação para professores. Pelo menos uma vez por semana são realizadas palestras de divulgação científica para o público leigo sobre Astronomia, Cosmologia e História da Ciência.

No período noturno, quando as condições atmosféricas permitem, são realizadas observações detalhadas de corpos celestes de maior visibilidade, como a Lua e alguns planetas.

O Museu do Eclipse em Sobral ajuda também a demonstrar que muitas aplicações da Astronomia estão no dia-a-dia das pessoas. Esta ciência contribuiu para obtermos a nossa organização do tempo e do espaço, assim como na medição da duração do dia, das estações do ano, e na navegação.

Está presente também na vida atual quando, por meio de satélites, faz-se a transmissão de informações por telefone, via televisão, estudos sobre a desertificação, localização de bacias petrolíferas, prevenção de incêndios. São inúmeras as contribuições da Astronomia, inclusive no estudo de novos medicamentos.

Sua influência cultural é outro exemplo, que ampliou o conhecimento do homem sobre si mesmo. O presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia (SBAA) e diretor do Planetário Rubens de Azevedo em Fortaleza, Dermeval Carneiro, observa que a Astronomia parece abstrata, mas não é. “Ela está presente no nosso dia-dia de várias maneiras, pois na produção de alimentos e na agropecuária estão envolvidas questões relativas ao clima, vegetação e incidência dos raios solares”.

Ele acrescenta que tudo isso interfere na economia. Carneiro, que há 35 anos se dedica à Astronomia, ressalta que a iniciativa da ONU de eleger 2009 como o Ano Internacional da Astronomia (AIA), é uma maneira de estimular os países que fazem parte da organização a divulgarem mais esta ciência.

Afinal, foi a Astronomia que forneceu as ferramentas conceituais para a Astronáutica, bem como possibilitou chegar-se à análise espectral da luz e à fusão nuclear. Segundo o pesquisador, não obstante todas estas contribuições durante muitos anos a Astronomia foi considerada, no Brasil, como uma ciência que se limitava a observar as estrelas.

O estudante Cláudio Henrique, 12, afirma que se interessa pela Astronomia como um todo, principalmente quando se trata de sua parte prática, acrescentando que, além de ler sobre o assunto, gosta dos estudos em laboratório e no observatório.

Já Dennis Weaver, diretor do Observatório do Colégio Christus (também na capital cearense), aponta que estão previstas, como parte da programação do AIA, observações telescópicas em espaços públicos. As metas desta iniciativa incluem tornar as descobertas astronômicas mais presentes na vida diária das pessoas, por meio de sua divulgação em documentários de TV, rádio, jornais e exposições.

Os países que participam da programação do AIA vão relatar à coordenação internacional do evento a participação da sociedade e as atividades realizadas. Com a avaliação, os organizadores querem pesquisar o número de pessoas leigas, especialmente jovens e crianças, que viram o céu por meio de telescópio. “Entre as propostas do AIA está a difusão e a popularização da Astronomia”, ressalta o professor de Física e Astronomia Heliomarzio Rodrigues Moreira.
(do jornal O POVO)


O ECLIPSE DE 1919

Uma das observações científicas mais importantes de toda a história da Astronomia foi realizada no Brasil, em Sobral (CE), por astrônomos da Royal Astronomical Society de Londres, durante o eclipse total do Sol de 1919.

Segundo a Teoria Geral da Relatividade, publicada por Einstein em 1915, a matéria (massa) "distorce" o espaço e o tempo em suas proximidades. Como conseqüência desta distorção, um feixe de luz, ao passar próximo de uma grande massa, deve ser desviado (mudança em sua direção de propagação) por uma quantidade maior do que previa a Teoria da Gravitação formulada por Isaac Newton no século XVII e até então inquestionável.

A luz de uma estrela ao passar próxima ao Sol deveria ser desviada, segundo Einstein, por 1,75 segundos de arco, desvio esse duas vezes maior do que o previsto pela teoria de Newton. Em 1913, Einstein comunica a um astrônomo a sua nova teoria.

O astrônomo Arthur Eddington, da Universidade de Cambridge, rapidamente reconheceu a importância do que teoricamente afirmava Einstein e o fato de poder ser verificada tal teoria durante a totalidade de um eclipse solar — quando podemos ver estrelas que, naquele momento, se encontram quase atrás do Sol.

As posições dessas estrelas, nesse momento, seriam vistas deslocadas pela quantidade prevista por Einstein? O eclipse de 29 de maio de 1919 ofereceria as condições ideais para essa verificação, quando o Sol eclipsado ficaria, visto da Terra, bem próximo a estrelas relativamente brilhantes. (foto: Einstein e Eddington em Cambridge)

Duas expedições foram então organizadas pela Royal Astronomical Society para observar esse fenômeno. Uma delas, chefiada pelo astrônomo Andrew Crommelin, veio para Sobral (CE), cidade, à época, com 2 mil habitantes. Uma outra, chefiada pelo próprio Eddington, dirigiu-se para a Ilha do Príncipe na costa atlântica africana (proximidades da Guiné Equatorial): estes eram os locais apontados pelos cálculos astronômicos como os que apresentariam as melhores condições para comprovar ou refutar a teoria formulada por Einstein.

Na Ilha do Príncipe, o mau tempo prejudicou o trabalho. Na hora do eclipse o céu estava nublado, permitindo que apenas duas das várias fotografias efetuadas apresentassem imagens de estrelas. Porém, Sobral apresentou condições meteorológicas muito melhores, e assim foram obtidas sete boas imagens do fenômeno. No início de novembro daquele ano, a Royal Astronomical Society anunciou que os resultados obtidos confirmavam a teoria de Einstein.
(leia além em www.observatorio.ufmg.br)


SAIBA MAIS

Metas AIA 2009 :
>> Difundir na sociedade uma mentalidade científica;
>> Promover acesso a novos conhecimentos e experiências observacionais;
>> Promover comunidades astronômicas em países em desenvolvimento;
>> Promover e melhorar o ensino formal e informal da ciência;
>> Fornecer uma imagem moderna da ciência e do cientista;
>> Criar novas redes e fortalecer as já existentes;
>> Ampliar a mentalidade científica entre o público geral com a comunicação de resultados científicos na Astronomia;
>> Promover comunidades astronômicas em países em desenvolvimento por meio de colaborações internacionais;
>> Apoiar e melhorar o ensino formal e informal de ciências em escolas, centros de ciências, museus e planetários.


NAVEGUE
AIA-Ano Internacional da Astronomia 2009
www.astronomia2009.org

SAB-Sociedade Astronômica Brasileira
www.sab.org.br

SBAA-Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia
www.sbaa.com.br




04 maio 2009

É FRIA: SOBRANDO PRA NÓS, CERTAMENTE

Epidemia de lucro


A epidemia de gripe suína que — dia-a-dia — ameaça expandir-se por mais regiões do mundo não é um fenômeno isolado. É parte da crise generalizada e tem suas raízes no sistema de criação industrial de animais, dominado pelas grandes empresas transnacionais.

No México, as grandes empresas de criação de aves e suínos têm proliferado amplamente nas águas (sujas) do Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Um exemplo é a Granja Carroll, em Veracruz, propriedade da Smithfield Foods, a maior empresa de criação de porcos e processamento de produtos suínos no mundo, com filiais nos EUA, na Europa e na China.

Em sua sede de Perote começou há algumas semanas uma virulenta epidemia de enfermidades respiratórias que atingiu 60% da população de La Gloria, fato informado por La Jornada (primeiro jornal online em Espanhol) em várias oportunidades, a partir das denúncias dos habitantes do lugar.

Eles, há uns anos, travam uma dura luta contra a contaminação causada pela empresa e têm sofrido, inclusive, repressão das autoridades por denunciar. A Granjas Carroll declarou que não está relacionada nem é a origem da atual epidemia, alegando que a população tinha uma gripe "comum". Não foram feitas análises para saber exatamente de que vírus se tratava.

Em contraste, as conclusões do painel Pew Commission on Industrial Farm Animal Prodution (Comissão Pew sobre a Produção Animal Industrial), publicadas em 2008, afirmam que as condições de criação e confinamento da produção industrial, sobretudo em suínos, criam um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas.

Inclusive, mencionam o perigo de recombinação da gripe aviária e da suína e como finalmente isto pode chegar a recombinar em vírus que afetem e sejam transmitidos entre humanos. Mencionam também que por muitas vias, incluindo a contaminação das águas, pode chegar a localidades longínquas, sem aparente contato direto.

Um exemplo do que devemos aprender é o processo de surgimento da gripe aviária — ver, por exemplo, o relatório de Grain, que ilustra como a indústria avícola criou a gripe aviária: www.grain.org.

Porém, as respostas oficiais diante da crise atual, além de tardias — esperaram que os EUA anunciassem primeiro o surgimento do novo vírus, perdendo dias preciosos para combater a epidemia — parecem ignorar as causas reais e mais contundentes.

Mais do que enviar cepas de vírus para seu seqüenciamento genômico a cientistas, como Craig Venter, que enriqueceu com a privatização da pesquisa e seus resultados (seqüenciamento que, com certeza, já foi feito por pesquisadores públicos do Centro de Prevenção de Enfermidades em Atlanta/EUA), o que se necessita é entender que esse fenômeno vai continuar repetindo-se enquanto existam os criadores dessas enfermidades.

Já na epidemia, são também transnacionais as que mais lucram: as empresas biotecnológicas e farmacêuticas que monopolizam as vacinas e os antivirais. O governo anunciou que tinham um milhão de doses de antígenos para atacar a nova variedade de gripe suína; porém, nunca informou a que custo.

Os únicos antivirais que ainda têm ação contra o novo vírus estão patenteados na maior parte do mundo e são de propriedade de duas grandes empresas farmacêuticas: o zanamivir, com nome comercial Relenza, comercializado pela GlaxoSmithKline, e o oseltamivir, cuja marca comercial é Tamiflu, patenteado pela Gilead Sciencies, licenciado de forma exclusiva pela Roche.

Glaxo e Roche são, respectivamente, a segunda e a quarta empresas farmacêuticas em escala mundial e, igualmente como no restante de seus remédios, as epidemias são suas melhores oportunidades de negócio.

Com a gripe aviária, todas elas lucraram centenas ou milhões de dólares. Com o anúncio da nova epidemia no México, as ações da Gilead subiram 3%, as da Roche 4% e as da Glaxo 6%; e isso é somente o começo.

Outra empresa que persegue esse lucrativo negócio é a Baxter, outra farmacêutica global (ocupa o 22.º lugar), e que teve um "acidente" em sua fábrica na Áustria, em fevereiro de 2009. Enviou um produto contra a gripe para a Alemanha, Eslovênia e República Tcheca contaminado com vírus da gripe aviária. Segundo a empresa, "foram erros humanos e problemas no processo", do qual não pode dar detalhes, "porque teria que revelar processos patenteados".

Tanto mais grave é que não necessitamos enfrentar somente a epidemia da gripe, mas temos que necessariamente enfrentar também a epidemia do lucro.
(Publicado em La Jornada, México e traduzido por A. de Tal)

*Silvia Ribeiro é pesquisadora do grupo ETC, que realiza estudos sócio-econômicos e ecológicos

SAIBA MAIS
www.etcgroup.org

A gripe dos porcos e a mentira dos homens
O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Gloria, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods.

La Gloria é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso.

Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Gloria, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente. Os moradores de La Gloria — alguns deles trabalhadores da Carroll — não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano.

Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Gloria, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos.

A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou.

Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país.

É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata. Assim, o episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão.

A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala — no nível da exploração familiar — tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.

Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos EUA, embora os porcos não comam peixe na natureza (!). De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos.

Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.

As Granjas Carroll — como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos — mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade.

A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam — como ocorre, no Brasil, com a Daslu — argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.

O governo mexicano pressionou, e a OMS-Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Gloria, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína.

O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll — com a cumplicidade da OMS. No Brasil, com certeza não é diferente.

*Mauro Santayana é colunista da Agência de Notícias "Carta Maior"

SAIBA MAIS

www.releituras.com/msantayana_menu.asp

OUÇA SOBRE O FUTURO QUE QUEREMOS
www.youtube.com/watch?v=4xjPODksI08

20 abril 2009

ATÉ QUE NÃO ME SEJA MAIS POSSÍVEL

Bombas na tevê


Hoje, a tarde é gris. Grisalhas são as nuvens parcas, pairando sobre minha cabeça como se fossem chover. Na cozinha, a geladeira é um clarão azul, recém-pintada, contrastando com o agressivo branco dos azulejos das paredes.

Em ouro líquido derrama-se o refresco de manga no copo prateado de alumínio. Meu cachorro resplandece de um retumbante negro e amarelo. E assim de loucos desejos, feito cores variegadas, sou feito à minha própria imagem e semelhança.

O mar tem a cor da imaginação dos olhos de quem o vê, menos a cor do desespero. Já a minha tristeza é avermelhada como as brasas do fogão de lenha de minha avó, no tempo das grandes inocências. Minha alegria é um arco-íris de uma timidez sem par.

Acendo um cigarro, penso na vida que estou levando e tudo no mundo volta ao normal. Sou um cara teimoso e, como diria Otto Lara Resende, sei que intelectual no Brasil não passa de um bostinha e o saber torna-se uma condenação ao ostracismo.

No Brasil, somente os cretinos fundamentais são considerados felizes e a mediocridade se transforma numa milagrosa bênção. Algumas pessoas odeiam de morte os intelectuais, mas se não lhes custasse demasiado caro, decerto possuiriam um de estimação, pra fazer bonito na sala de visitas quando dessem uma festa para puxar o saco do patrão ou do cacique político.

Meus raros dissidentes afetivos dizem de mim que sou um poço sem fundo de vaidade indevida. Vai ver estão todos absolutamente certos ou esquecem que sou míope e míope é mesmo uma gentinha que não se enxerga.

As bombas terroristas explodem vez em quando na tevê e eu vejo, banhada em sangue, a pomba da paz crucificada em minha janela. Tenho tanta coisa séria para pensar hoje, porém só consigo pensar em mim mesmo — e em como a existência cotidiana anda difícil nesses tempos tão bicudos.

Aporrinhações, aperreios, aflições, falta de dinheiro e até mesmo de um pouco de esperança. Portanto, se faz necessário imediatamente uma pitada de bom-humor, senão onde me restaria um pingo de fugidia esperança?

Esperança. Por vezes, me pergunto se não seria mais sadio riscar esta palavra do meu dicionário. Como sou teimoso, insisto em acreditar nela até que não me seja mais possível acreditar em mais nada.

*Airton Monte é psiquiatra, escritor e colunista do Jornal da Praia há pelo menos 20 anos




15 abril 2009

LEITURA EMBRIAGANTE

Relatório alcoólico


Amigo(a): Sentimos sua falta na festa de lançamento do Hic!stórias - Os maiores porres da história da Humanidade de Ulisses Tavares, na Livraria da Villa semana passada. Mas a festa continua e você pode participar sem sair de casa — viva o mundo web!

"Dia 17 de abril, sexta-feira, tem vídeochat com o autor Ulisses Tavares no site do IG, das 17 às 18 horas. Participe, pergunte, provoque!", informa Nathália Lippi, a assistente editorial do escritor.

Voltando ao livro, nele o(a) leitor(a) vai conhecer o mais completo, maluco, divertido, humano e bizarro relatório sobre os bêbados e as bebedeiras que marcaram época: imagine só toda a humanidade duas doses acima do normal, com personagens reais, famosos e históricos?!?

Trata-se de uma embriagante viagem, onde qualquer fato não é mera coincidência. Tem macacos se embriagando com frutas, patriarca bíblico dormindo bêbado com as filhas, conquistador e guerreiro tomando todas e matando até seu melhor amigo, índios comendo carne humana com cachaça, papas em orgias e porres homéricos, uma guerra fratricida por um barril de pinga, artistas de Hollywood bebendo de cair na sarjeta, escritores alucinados por bebida e sexo, religiosos se entregando ao álcool e perdendo o controle, presidentes bebuns de carteirinha, milionária bebendo a fortuna até a última gota, cantoras apanhando de maridos bebuns, americano construíndo um império com doses de martini, serial killers curtindo bebedeiras mortais, receitas para se curar ou morrer com gim e reis, rainhas, ministros de Estado, senhores e senhoras envolvidos em escândalos alcóolicos.

É uma extensa antropologia dos botecos e tudo o mais que ninguém ainda contou, nem em delirium tremens. Se não beber, não leia. Ou não: não dá mesmo para confiar em quem não bebe. Ou dá? Leia o depoimento:

"Parei uma semana, depois de uma duríssima negociação com o médico, e esse texto quase não sai. Tentei cerveja sem álcool, para ver se enganava os neurônios que me restam... e nada feito. É, amigos, não foi fácil para este escriba boêmio que escreve socialmente.

Ao fim da eternidade dos sete dias, a água se fez vinho, e eu reli Hic!stórias sob tragos divinos, como um pecador bêbado de Sodoma ou de Gomorra. Sim, amigos, as grandes saideiras começam lá no Antigo Testamento, como nos conta o confiabilíssimo Ulisses Tavares nesta bíblia sagrada dos bebedores.

Ora, ora, se Oxalá estava bêbado ao criar os homens — um dos tantos belos achados deste livro — por que devemos estar sóbrios a essa altura? Assim cambaleia a 'humanidadis', como diria Mussum, ilustre personagem da galeria bêbada aqui retratada.

Na minha leitura sóbria, muita coisa importante passou batido, confesso. Na leitura embriagada, amigos, foi um bacanal dos sentidos. Era como se eu estivesse viajando pelas tabernas do mundo inteiro.

Uma bebedeira ali com o velho Hemingway, um porre no coelho do Simenon... Com Edgar Allan Poe foi um delírio, até o gato preto e mal-assombrado saiu de dentro das paredes e entornou uma genebra.

Aqui no grande bar universal de Ulisses Tavares, o chegado bebe com os vivos e os mortos, dá um rolê na velha Lapa com Madame Satã, treina a arte de chutar tampinhas com João Antônio e vê os cães do infortúnio a lamber a lua na sarjeta com os grandes poetas.

Ih, já ia me esquecendo de que as mulheres também bebem (que porco chauvinista!): como esquecer a alma engarrafada de Billie Holiday, como esquecer que Luz Del Fuego não carecia beber para tirar a roupa, mas uma vez despida bebia todas?", resenhou (antes ou depois da ressaca?) o jornalista cabeça-chata Xico Sá.


SABEMOS O QUE COLHER

Ao conhecer as sementes


Caminhando pelos campos do passado distante, encontrei alguém esperando por mim. Era um homem que dormia à beira de um riacho, confortavelmente deitado sobre a relva fresca, embalado pela brisa suave e pela música perfeita dos pássaros.

O homem sonhava e, no seu sonho, encontrava-se com alguém em um tempo e lugar estranhos: encontrava-se comigo. Caminhávamos sobre a areia do deserto, sob o sol escaldante.

Buscávamos água para saciar nossa sede, para banhar nossos corpos. Nenhuma brisa, nenhuma ave para mostrar-nos o caminho, somente o céu, o deserto e a areia sob nossos pés. A noite chegou, o deserto tornou-se frio e adormecemos.

Sonhei com o tempo, milhões de anos se passando, as guerras e divindades se sobrepondo, uma a uma, formando camadas, sedimentos da existência humana.

Sonhei com risos e gritos, dor e alegria, desespero e êxtase numa cadeia de horas, dias, anos e milênios, onde cada fato dava sentido ao próximo, perdendo o próprio sentido.

Despertei. A brisa beijava suavemente o meu rosto e a música perfeita da água do riacho era entrecortada pelo canto suave dos pássaros. Olhei para minhas mãos, repletas de relva e me descobri velho, tão velho quanto meu avô, quando o conheci aos quatro anos.

E assim é o nosso planeta, a casa das nossas sucessões, dos campos, dos desertos, do tempo correndo como o riacho, na dimensão que conhecemos.

Não há resposta que já não esteja escrita, código que não tenha sido decifrado, passado que já não tenha sido futuro, como uma imagem fantástica que percorre minha lembrança através de um filme, do grande cinema, do mestre Ingmar Bergman: O sétimo selo.

Após dez anos de lutas, um cavaleiro retorna das Cruzadas e encontra o país assolado pela peste negra. Mergulha em crise existencial, passando a questionar sua fé e o próprio significado da vida. A Morte surge, na figura lúgubre de um homem com o firme propósito de levá-lo, pois era chegada a sua hora. O cavaleiro quer um pouco mais de tempo e convida-a para uma partida de xadrez. Se ele ganhar fica, se perder partirá com a Morte — que naturalmente aceita o desafio, pois nunca perde.

Século XIV é a época onde transcorre a narrativa de O sétimo selo. Representa o ápice da crise do sistema feudal, através da combinação de "guerra, peste e fome" que, junto com a morte, simbolizam os "quatro cavaleiros do Apocalipse" ao final da Idade Média.

A decadência do feudalismo tem início já no século XI e resulta de problemas estruturais, quando a elevada densidade demográfica na Europa determinou a necessidade de crescimento da produção de alimentos, levando os senhores feudais a aumentarem a exploração sobre os servos, que por sua vez iniciaram uma série de revoltas e fugas, agravando a crise já existente.

As cruzadas entre os séculos XI e XIII representaram outro golpe para o sistema feudal, já que os seus objetivos mais imediatos não foram alcançados: Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos, o cristianismo não foi reunificado e a crise feudal não foi sequer minimizada, já que a reabertura do Mediterrâneo promoveu o Renascimento comercial e urbano — já sinalizando o "pré-capitalismo" na passagem da Idade Média para a Moderna.

“Guerra, peste e fome", marcas do século XIV, afetaram tanto o feudalismo decadente como o capitalismo nascente.

A guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra devastou grande parte da Europa ocidental, enquanto a "peste negra" eliminou cerca de 1/3 da população européia. A destruição dos campos, assolando plantações e rebanhos, trouxe a fome e a morte.

Nesse contexto de transição do feudalismo para o capitalismo, além do desenvolvimento do comércio monetário surgiram transformações sociais, com a projeção da burguesia, políticas, resultantes da formação das monarquias nacionais, culturais com o antropocentrismo e racionalismo renascentistas, e até religiosas com a Reforma Protestante e a Contrarreforma.

“Sabemos o que colheremos quando conhecermos as sementes” é a moral da “História”. Não há resposta que já não esteja escrita, código que não tenha sido decifrado, passado que já não tenha sido futuro.

Pois não é o planeta Terra que pede socorro — somos nós, filhos desgarrados, que perdemos o caminho de casa.

Vivemos em uma eterna adolescência existencial, apesar de tanta história sob nossos travesseiros. Precisamos evoluir, adquirir responsabilidade sobre o que praticamos.

O aquecimento global é nada se comparado ao congelamento dos nossos corações.

A noção de humanidade foi corrompida pela primeira esmola que se deu, pela primeira bala perdida no tempo.

O instinto de autopreservação foi ultrajado com a primeira floresta derrubada, com a primeira queimada.

Verde que te quero matas, amarelo que te quero ouro (para todos!), branco que te quero paz, azul que te quero céu, céu que te quero mar, mar que te quero rios, Ordem que te quero nova e Progresso que te quero humano.

*o arquiteto e paisagista Laccy Silva também toca o projeto Zou Cultural no Del Paseo


SAIBA MAIS
http://folhaspoeticas.blogspot.com

07 abril 2009

MAIS QUE UM TROCADO

Leitores desentocados


Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi. A cada livro oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto. "Dinheiro não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?"

Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário do seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas da revista NovaEscola: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse e conferiria as reações.

Para começar, acomodei 45 obras variadas — do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier — em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar.

Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais. Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram.

Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vítor (os nomes foram trocados para preservar as pessoas), 20 anos, vendedor de balas.

Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.

Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vítor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro — "Esse do castelo, que deve ser de mistério" — para presentear a mulher que o esperava na calçada.

Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela (nome trocado), 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da Prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a R$ 1 uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da Avenida Tiradentes, no Centro. Fiz a pergunta de sempre.

E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura? — provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico (nome fictício), 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro.

- Sabe ler?, perguntei.
- Não... — disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.

- Em que ano você está?
- Na 4.ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.

Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela Avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.

Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura.

Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...

- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.

Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria (nome... já se sabe). Carregava a pequena Vitória (precisa repetir?), 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.

*editor da revista Nova Escola e mestrando em Educação, Rodrigo Ratier fez a leitura rodar



30 março 2009

ACABOU-SE A ILUSÃO

Intocáveis e invencíveis



Não tenho mais nenhuma ilusão de um dia ver algum desses criminosos travestidos de parlamentares atrás das grades e devolvendo o que nos roubou. Eles são muitos, e invencíveis.

Sob fogo cruzado de denúncias, juntam-se para se defender — como fizeram PT e PMDB no Senado —, embora digam sempre que é pela instituição, a mesma que eles aviltam e apequenam com seus atos.

O dinheiro roubado de nossos impostos, teoricamente, pode até ser recuperado, mas o crime de desmoralizar uma instituição democrática não tem preço.

O que nos resta? Confiar na Justiça? Na Polícia? No ladrão? Com Sarney e Renan comandando o Senado e espantados com a descoberta das 181 diretorias? A maior parte foi criada pelos dois. O resto, por Jader, ACM e Lobão. E pior. Foram criadas por resoluções da Mesa e ninguém reclamou. E mesmo se reclamasse não adiantaria nada. Tudo dentro da lei, na liturgia do cargo.

Seria um exagero comparar as disputas pelo poder no Congresso com as guerras de quadrilhas pelos pontos de venda de drogas nas favelas cariocas? Só porque uns vendem crack e cocaína e outros, privilégios e ilegalidades?

Guerra é guerra, vale tudo na disputa pelos pontos de poder. Se um tiroteio é de balas, o outro é de números e nomes, mas sempre sobram balas perdidas. Mas, quando o cerco aperta, os dois bandos acertam um armistício: o verdadeiro inimigo é a polícia.

Ou, no caso do Senado, a opinião pública. Porque eles não temem a polícia. Nem a Justiça. Eles só têm medo de perder eleição.

Diante do pacto de não-agressão entre os dois bandos, resta-nos confiar nos ódios, nas invejas e nos ressentimentos das legiões de apadrinhados que estão perdendo a boca e se vingando de seus traidores. Que muitas falas perdidas encontrem seus alvos.

Diante da certeza de que eles vencerão, de que jamais pagarão por seus crimes, de que continuarão ricos e corruptos, e até mesmo respeitáveis, resta-nos ridicularizar suas figuras toscas, seus figurinos grotescos, seus cabelos tingidos, suas caras botocadas.

Para que suas esposas e amantes leiam, e seus filhos se envergonhem deles no colégio. Como nós nos envergonhamos todo dia.

*O jornalista Nelson Motta explica tudo também em seu programa (virtual) de rádio
(foto: museudatv.com.br)



QUEM SERÁ POR NÓS?

Candidato potencial


Um movimento sutil — mas nem mais tão subterrâneo assim — está levando de roldão os corações e mentes dos habitantes das periferias brasileiras: o lançamento do rapper carioca MV Bill a uma postulação ao Senado Federal da República.

Tudo começou quando, no show que comemorou o aniversário (444 anos) da cidade do Rio de Janeiro, realizado na Cidade de Deus, o músico Caetano Veloso instigou a massa sugerindo que MV Bill assumisse ser o senador das favelas. A festa virou um delírio. E Bill ainda não respondeu.

A partir daí a CUFA-Central Única das Favelas, entidade que promove atividades nas áreas cultural, esportiva e educacional direcionadas a jovens em situação de risco (em todo o Brasil e em outros países) começou a receber mensagens de adesão à protoproposta. Apartidária, porém, a CUFA não quer saber de comprometimento político, tendo se transformado em uma entidade representativa justamente por causa deste seu saudável afastamento da desacreditada cena “chapa branca” nacional.

No entanto, indiscutivelmente Bill é uma expressiva liderança entre os despossuídos urbanos, que percorre de ponta a ponta o País para inaugurar escolas de basquete, e nessas lançou a Poesia Negra dos Intelectuais do Povo e o CD Falcão – O bagulho é doido, apoiando ainda os jogos promovidos pela LIBBRA-Liga Brasileira de Basquete de Rua.

Também divulgou em todo canto seus livros Cabeça de Porco e Falcão - Mulheres e o tráfico, no projeto que virou documentário e ganhou os cinemas, a partir do livro Falcão - Meninos do tráfico, inclusive nas prisões, virando referencial e mostrando o que é a invisibilidade.

O rapper aprovou também, em diversas Câmaras Municipais, o dia 4 de novembro como Dia da Favela (Lei n.° 4.383/2006). No campo da música, gravou o videoclipe O bagulho é doido, além de deixar sua colaboração em CDs ainda inéditos.

Ao dirigir-se à população dos lugares por onde passou, expôs projetos pioneiros capazes, à primeira vista, de consolidar alternativas para minimizar a violência e as tantas desigualdades, apontando uma oportunidade para que os adolescentes de hoje possam transformar suas vidas.

Tais projetos são os que a sociedade quer ver em prática, ao invés de permitir que a mídia — especialmente a TV e os jornais — falem por ela. Enquanto isso, as pessoas se trancam em casa atrás de blindagens, cercas elétricas, altos muros, câmeras de vigilância e uma aura de terror.

Segundo Bill, a valorização da educação e da saúde, além das oportunidades de trabalho digno, são o começo de novas saídas para a ordem econômica e social, agregando a ressignificação do indivíduo, da família e das comunidades. Todo mundo sabe qual é o bonde.

O rapper, que cresceu numa favela carioca, percebeu ao descobrir o hip hop que poderia jogar com este dado e as emoções para mudar algumas coisas da realidade onde vivia, usando a música — capaz de levar informação e conscientizar as pessoas — para fazer quem não tinha se ligado que qualquer um(a) pode agir para mudar o mundo ao seu redor.

Por fim, Bill esteve dia desses no Haiti, onde filmou a vida das pessoas nas cidades e trouxe contundentes impressões de como as coisas estão por lá, testemunhando a população local receber o apoio do Exército brasileiro e de outros países, numa ação da ONU.

Ao dividir o palco com Caetano Veloso, MV Bill foi surpreendido pelo baiano. “Quero fazer um pedido ao Bill e ao Brasil: que a gente comece a pensar em MV Bill como futuro senador da República”, disse Veloso, sem mais, ao microfone. Enquanto a platéia ia à loucura, a ideia começou a repercutir em toda parte onde houvessem pessoas pobres e pretas, pessoas brancas oprimidas, índios e até mesmo um grupo de ricos insatisfeitos com o status quo deprimente estrelado pelos nossos parlamentares de plantão.

Diversas questões cruciais aguardam soluções urgentes nas aglomerações urbanas de todo o País. No dia-a-dia, tudo é mais ou menos escasso — menos o perigo do dengue, do tráfico de drogas, do aliciamento de menores para a prostituição e da violência gratuita, que aumenta como fruto da criminalidade aquisitiva (voltada ao consumo do crack).

No Nordeste rural, a seca é ainda um temeroso flagelo e muitas decisões relativas ao meio ambiente ainda estão por ser tomadas, ao passo que o conjunto de ações do sistema avança e se apropria como pode do patrimônio natural. Já no âmbito da organização formal, em todos os estados o nível dos profissionais da educação e da saúde, bem como o de seus salários, são motivo de assombro e enfrentamentos com a administração pública. E agora, Josés?

As demandas do Brasil para o rapper, que mostrou saber enxergar as feridas causadas por séculos de atividade das elites e as trágicas consequências que resultaram na saga dos desprivilegiados de toda ordem, tiveram eco na CUFA Ceará. A entidade promoveu em Fortaleza (novembro de 2008) o seminário Selva de pedra – A Fortaleza noiada, discutindo com lideranças comunitárias, universitários e autoridades da área da Segurança Pública a assustadora ameaça do crack aos jovens. Um contundente documentário de 50 minutos sobre o tema vem aí, pelo final de abril, e a deixa é integrar a área de Saúde ao debate.

A sugestão da candidatura de MV Bill feita por Caetano chega assim, para muitos, como um clarão da mais genuína esperança, junto aos requisitos para a sugestão bombar em 2010:

1. Bill conhece a realidade do povo humilde do Brasil: nasceu e mora na favela Cidade de Deus, no Rio de Janeiro;
2. Sua militância e ações desenvolvidas falam só de coisas que ele realmente viveu, representando a aflição de milhões de brasileiros;
3. Seu trabalho é voltado para o enfrentamento da violência e da discriminação, sempre buscando a promoção da cidadania;
4. Como cantor, Bill é hoje, provavelmente, o rapper mais influente em todo o País;
5. Sua música aponta a realidade crua do cotidiano da periferia — de todas elas;
6. Bill escreveu livros importantes, mostrando o mundo do tráfico no Brasil;
7. Bill é militante ativista do movimento negro e social;
8. Pela sua atuação, Bill recebeu o Prêmio UNESCO - Categoria Juventude;
9. Pelo trabalho em defesa da vida, recebeu o Prêmio de Direitos Humanos, concedido pelo Ministério da Justiça;
10. Seu trabalho ganhou repercussão mundial, dando a ele o Prêmio Cidadão do Mundo da ONU;
11. Bill tem maturidade e conhecimento como poucos para representar o real Brasil no Senado;
12. Bill será uma voz ativa na defesa dos interesses dos trabalhadores;
13. Bill atuará com consciência e justiça, pois tem origem nítida — e quem sabe de onde vem, e aonde quer chegar, não muda de lado;
14. MV Bill está certamente atento aos apelos do meio ambiente, da família, da comunidade e da nação para uma vida cidadã mais digna.

“Como ajudar? Simples, faça cada pessoa do seu convívio saber deste projeto, que não é do Bill, não é da CUFA, não é do Rio de Janeiro, mas é um projeto da massa, que começou há anos e chega agora a mais uma etapa. Bill deverá estar no alto da pirâmide, com uma corda para ser alçada para a massa subir e alcançar o topo. A pirâmide existe, a corda também, só que ao longo desses anos vem sendo utilizada para enforcar o nosso povo, a nossa gente. Bill não é a salvação de nada, se a massa é como se fosse o general, Bill é simplesmente o nosso soldado: soldado do morro. E segue a vida”, aponta Celso Athayde, secretário-geral da CUFA Brasil.

E na rede virtual da entidade, Rebeca Tárique complementa: “Sem sombra de dúvidas, a figura do Bill é a legitima representação do homem negro/favelado que luta à frente do combate à marginalidade (hoje um dos grandes problemas sociais que atinge maciçamente a camada da população que é negra — leia-se a nossa juventude). Ele faz a defesa da teoria: ‘Troque as armas pelo microfone, pois ele é o poder. Troque o tráfico pelos livros, pois a educação é o caminho’... Sobretudo, ele traz veementemente a dura realidade que muitas vezes nos deixa sem muitas opções de escolha — e aí, meu irmão, a bandidagem acaba sendo a ‘tábua de salvação’ (não é apologia), salvação esta que estrategicamente mata, extermina a nossa juventude. Mas aí, como justificar essa limpeza étnica? Simples assim: os pretinhos estão na bandidagem, estão no tráfico... O que podemos fazer? Eles se envolvem com o mundo cão, que roubam, que mentem, que matam... Não é nossa culpa, eles mesmos se matam... Fácil, né? Mas é assim que o nosso governo se porta em relação a esta problemática. O que me preocupa não é quando o artista Caetano — que, com Gil, cantou que ‘o Haiti não é aqui’ — lança a candidatura de Bill, mas sim as estruturas que estão por trás dele. Isso sim me preocupa, tenho realmente medo de sermos mais uma vez engolidos, cooptados por elas. Esse é o X da questão”, finaliza Tárique, que é diretora nacional de Juventude do Coletivo de Entidades Negras da Bahia.
(foto José Leomar)

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05 março 2009

REFLEXÕES FLUIDAS

Momento pré-satoriano



Diz-se (num belo recanto do blog da Neli) que, mesmo antes de um rio cair no oceano, ele "treme de medo".

Olha para trás, tentando assenhorar-se da memória de toda a jornada que teve.

Observa os cumes das montanhas, lembra-se dos vales percorridos, do longo caminho sinuoso adivinhado através das florestas, através dos povoados — e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais parece ser do que desaparecer para sempre.

Mas não há outra maneira.

O rio não pode mais voltar.

Ninguém pode voltar.

Voltar não é possível, na existência.

Como o rio, você pode apenas ir.

O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.

E somente quando se despeja nele é que o rio percebe que o medo desaparece, porque apenas então saberá que não se trata de, simplesmente, "sumir" no oceano.

Mas de tornar-se oceano também...



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www.eopensamentovoa.blogspot.com

03 março 2009

DAPRAIA FUNNY PAGES

Insólito, o humor


Tudo de uma vez ao mesmo tempo agora









por Guabiras
Eu por mim mesmo e mais ninguém







por Denilson


Mungu, o palhacinho fela