09 agosto 2012

HORA DE BRIO

Nosso lugar no pódio*



Escrevo emocionado do estádio de Wembley, uma das grandes catedrais do mundo, como a de Notre-Dame ou a de São Pedro. Até uma anta futebolística como eu sente o peso do lugar, que, mesmo reformado como o Maracanã, será sempre o histórico Wembley.

Tudo numa Olimpíada é carregado de significado. A glória e a derrota: entramos na história e saímos dela, em fração de segundos.

Ver Michael Phelps conquistar a 18.ª medalha de ouro é estar num momento do século que não passará. E há muito de shakespeariano no choro de Rebecca Adlington [nadadora britânica que faturou dois ouros nos Olympic Games de 2008, nos 400 m e nos 800 m, quebrando um recorde  estabelecido há 19 anos por Janet Evans nos 800 m (N. do Ed.)], de quem a Inglaterra esperava mais ouro neste ano e que terá de remoer seus bronzes pela vida inteira. 

A trama era digna de Glória Perez: a feia e simpática inglesa disputando com uma italiana sensual que posou nua para a Vogue. Só que Lady Gold virou as costas para as duas favoritas, num enredo superado apenas por Carminha e Nina.

Esporte é novela, teledramaturgia pura, reality show de alto nível.

Rezo apenas para que o Brasil -- nosso povo, nossos governantes em todos os níveis, nossos empresários grandes, médios e pequenos -- entenda que agora é a nossa hora.

A mais difícil e a mais bela. Como diria Churchill, "our finest hour".

Terei 56 anos na nossa Copa e 58 na Olimpíada. Os dois eventos formam oportunidade única de o Brasil assumir o lugar que já é dele. A questão desses tempos é ser e não ser. Não basta ser, você tem de ser percebido.

O Brasil melhorou muito nos últimos três governos. Mas nossa história não pode ser contada pelos mercados e por seus interesses. Ela tem de ser contada por nós, "we, the people", como lindamente escreve a Carta americana.

Temos de cuidar de nossos interesses e de como nossos filhos, nossas empresas, nossos produtos, nossos livros e nossa arte são percebidos no mundo neste século. E este século pode ser nosso.

Digo isso não por megalomania. Não precisamos dominar o mundo, mas podemos encantá-lo. O Brasil tem tudo para ser a potência soft do século. O que não pode acontecer agora é a montanha parir um rato. Nestes próximos quatro anos, todos os olhos do mundo estarão voltados para nós. Não é hora de fazer forfait. É hora de brio, de amor próprio, de sangue nos olhos.

É preciso ter senso de história. A velhinha inglesa que se despede de nós depois de um dia de sol e de um anoitecer gelado tem isso no seu dedicado sorriso de voluntária da Olimpíada. A Inglaterra, que de história entende bem, até escalou sua rainha de 86 anos para brilhar como "Bond girl" neste mundo midiático.

A discussão sobre ser o dinheiro da Copa ou da Olimpíada mais bem usado na saúde ou na educação é uma discussão mal posta. Dinheiro mal usado é mal usado em qualquer lugar. Se usarmos esse dinheiro apenas para sediar dois eventos, sem dúvida o custo será maior que o benefício. Mas o Rio de Janeiro, o Estado e a cidade, já está usando a Olimpíada para se posicionar como marca, lugar de negócios, sociedade e destino.

Estou em Londres a convite de um dos patrocinadores da Olimpíada, a revista Fortune, que realizou um dos muitos eventos empresariais paralelos. Tudo foi bancado com o dinheiro chinês da municipalidade de Changdun, onde ocorrerá o próximo fórum global da revista, com a presença do líder chinês e dos maiores empresários do mundo, ou seja, enquanto a bola ou o cronômetro correm, a grana corre também.

É um jogo grande, e o Brasil entrou nele por conta própria. Volto feliz do evento sob a lua cheia de Londres, e o dean da Harvard Business School, que participou do fórum da Fortune, com sorriso maroto e cabeça brilhante, me diz: "It's you guys, in four years", e todos os olhos do ônibus se dirigem a mim.

Meus amigos e inimigos, ninguém mais é uma pessoa. Agora somos todos um País. Se um de nós em Santa Catarina ou na Bahia atropelar um ciclista francês, o Brasil terá atropelado um ciclista francês. Os olhos do mundo estarão postos em nós. Cheios de curiosidade, de preconceito e de inveja.

Não é hora de amarelar nem de ser soberbo. Nem de vir com burrice, achando que se trata de jogo de futebol ou de vôlei. O que está em jogo é a evolução do País, das commodities para o valor agregado.



*o publicitário baiano Nizan Guanaes comanda o Grupo ABC
e
escreve na Folha de S.Paulo quinzenalmente, às terças-feiras.

(imagem: Thiago Pereira com a medalha de ouro após a prova dos 200 metros
medley, nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, México [19/10/2011],
em
 http://veja.abril.com.br 
 / Mike Ehrmann / Getty Images)




31 julho 2012

PREOCUPAÇÃO GOVERNAMENTAL

Pesquisadores brasileiros buscam 
novas fontes de energia renovável

pesquisadores Pesquisadores brasileiros buscam novas fontes de energia renovável
Termoverde Salvador é a primeira termelétrica movida a biogás de aterro sanitário do Nordeste 


Apesar de ter conquistado uma matriz energética equilibrada entre fontes de energia renováveis e tradicionais, o governo brasileiro tem se empenhado para manter essa relação diante de um cenário projetado pelo aumento do consumo de energia. 
Além de garantir a manutenção de sistemas, como o de produção de energia eólica e solar, os pesquisadores buscam novas fontes que poderiam complementar essa oferta para atender a crescente demanda do setor.
A principal motivação do governo para manter esse equilíbrio de fontes na matriz energética é o cumprimento da meta de redução das emissões de gases de efeito estufa. 
Durante a 15.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), realizada em dezembro de 2009 em Copenhague, o Brasil se comprometeu a reduzir essas emissões entre 36,1% a 38,9% até 2020, em relação ao que emitia em 1990. Entre os setores estratégicos da economia, a energia está sob a mira dos órgãos que se debruçam sobre o problema.
“O setor energético representa a segunda maior preocupação do governo no quesito das emissões de gases de efeito estufa, perdendo apenas para o desmatamento e agropecuária [apontados como os vilões responsáveis por 70% das emissões], explicou Ana Lúcia Doladela , diretora da secretaria de mudanças climáticas e qualidade ambiental do MMA-Ministério do Meio Ambiente. 


O setor energético, desde a produção até o consumo, responde por cerca de 23% dessas emissões. “Uma das formas de reduzir esse impacto é renovar nossa matriz e aumentar nossa eficiência energética”, acrescentou.
Uma das estratégias adotadas pelo Brasil é a aproximação com especialistas europeus. O interesse nas experiências do Velho Continente explica-se pelos esforços e investimentos em pesquisa e produção de fontes alternativas de energia. Ana Lúcia Doladela ressaltou que os técnicos brasileiros têm absorvido conhecimentos e tecnologias europeias e acredita que essa relação pode resultar em parcerias estratégicas para o desenvolvimento do setor, ainda em crescimento no Brasil.
“A energia eólica foi estabelecida de forma competitiva. Mas a fotovoltaica ainda é cara e precisa de incentivos para se estabelecer. O ministério têm acompanhado as pesquisas e o governo vem adotando medidas como o estímulo ao uso da fonte solar térmica para aquecimento de água”, pontuou. 


A diretora do MMA ainda acrescentou que o país também precisa amadurecer tecnologicamente nas pesquisas sobre energia a partir dos oceanos. “Temos três fontes que são as ondas, mares e correntes marítimas. Ainda precisamos muito investimento em tecnologia”, explicou.
Potencial do biogás Em relação às fontes renováveis a partir da biomassa, como o etanol e o biodiesel, o Brasil assumiu uma posição de liderança no cenário internacional. Como a tendência é de aumento do consumo de energia no país, pesquisadores brasileiros buscam novas fontes que poderiam complementar essa matriz.
Em Concórdia, Santa Catarina, experimentos com o biogás produzido a partir de resíduos de suínos mostraram, segundo técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o potencial do produto tanto para a geração de energia demandada pelas propriedades rurais quanto como fator de agregação de valor à cadeia produtiva.
“Os dados já mostram que o biogás pode se tornar um dos três grandes combustíveis do Brasil. O importante é termos mais fontes, promover o setor e o uso dos resíduos das cadeias produtivas, o que poderia agregar valor a essas produções e atender a demanda crescente por energia no país”, disse Manoel Teixeira Souza Júnior, chefe-geral da Embrapa Agroenergia.

*por Agência Brasil.
Imagem: 
Rafael Martins/Agecom-BA, 
em www.ecodesenvolvimento.org

12 junho 2012

PEDRO, UM PIONEIRO

O Imperador visionário*



Participantes da conferência carioca deveriam inspirar-se em Dom Pedro II.
Ao recuperar a Floresta da Tijuca no século XIX, ele se tornou
um dos pioneiros do desenvolvimento sustentável






Vinte anos depois da Eco 92, os representantes de 170 nações vão se encontrar à sombra da Tijuca, uma das maiores áreas verdes urbanas do mundo. O simbolismo é muito forte. Em meados do século XIX, o imperador dom Pedro II reconheceu a importância do que chamamos hoje de serviços de ecossistema, as funções ambientais úteis aos seres humanos e que tanto necessitam de cuidados. 


O imperador não precisou de ciência sofisticada ou de análises econômicas para chegar a tal conclusão. Foi o seu senso prático que o levou a perceber como o reflorestamento da área, encravada no coração da cidade, era essencial para recuperar a atividade da frágil bacia hidrográfica do Rio de Janeiro. O Brasil foi um dos pioneiros do desenvolvimento sustentável, muito antes de o termo ser cunhado pela ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland, em 1987.


 A Eco 92 resultou em enormes avanços na abordagem das questões ambientais. Duas convenções internacionais foram criadas: uma relacionada à mudança climática e outra, à diversidade biológica. A Agenda 21, desenhada nos encontros cariocas, elaborou uma série de posturas concretas para o desenvolvimento sustentável como fora definido pela Comissão Brundtland, em 1987, da qual participou o brasileiro Paulo Nogueira Neto, secretário especial do Meio Ambiente entre 1973 e 1985, nas presidências de Ernesto Geisel e João Figueiredo. Foram listadas, então, áreas prioritárias – oceanos, atmosfera, energia, água e financiamento – para que países e empresas buscassem melhorias ambientais.


Cinco anos depois da Eco 92, quando uma reunião relativamente informal, a Rio+5, foi realizada, mais uma vez à sombra da Tijuca, os governos ainda trabalhavam para implementar as convenções e a agenda de desenvolvimento sustentável em seus três pilares – o social, o econômico e o ambiental. Na ocasião da Rio+10, em Johannesburgo, o aspecto ambiental foi praticamente ignorado. A meta de aumentar o desenvolvimento como forma de estímulo à sustentabilidade tinha evaporado.


Agora, uma década depois, emerge uma repetição perturbadora. As autoridades brasileiras advertem, novamente, que a reunião é sobre o desenvolvimento, não sobre o ambiente. É uma postura delicada. Dessa forma, ignora-se a observação, citada com frequência, de que a economia é a subsidiária integral da natureza. É como voltar as costas para a própria definição de desenvolvimento sustentável. 


Se bem analisada, a questão principal recai sobre a qualidade de vida humana, gravemente ameaçada, e sobre o desenvolvimento verdadeiramente sustentável em escala, a única solução possível para o problema. Não é algo que a humanidade pode se dar ao luxo de passar algum tempo analisando: o desafio acontece aqui e agora e exige nossa máxima atenção e empenho.


A agenda Rio+20, em si, à margem da postura do Brasil, parece mais encorajadora. Trata do desenvolvimento sustentável em sua abertura, inclui metas energéticas cruciais (Energia Sustentável para Todos) e se debruça sobre as economias verdes, levando em conta valores ambientais para a tomada de decisões econômicas. Essa agenda lida com as chamadas questões de governança global. E com um bom motivo. Nenhum país atingiu as metas estabelecidas pela convenção de biodiversidade na reunião em Nagoia, em 2010. 


A agenda da convenção de mudança climática tem sido encolhida por um jogo míope de dança das cadeiras entre os Estados Unidos, a Índia e a China. Basicamente, o debate é sobre quem vai reagir primeiro e reduzir suas emissões de carbono, atitude que parece zombar da própria definição de liderança. Potencialmente promissora é a ideia de Metas de Desenvolvimento Sustentável. Similar às Metas de Desenvolvimento do Milênio, elas poderiam – ao contrário das primeiras – conter elementos ambientais fortes.


Conforme as negociações prosseguem, qualquer análise perspicaz mostrará que, apesar das conquistas reais, a humanidade não foi capaz de resolver os grandes problemas ambientais na escala necessária.


As negociações sobre o clima estipulam a interrupção do aumento da temperatura global em 2 graus. Para que haja essa interrupção, as emissões globais de gases do efeito estufa devem atingir o pico em 2016 – e, a partir de então, não mais crescer. Há provas abundantes de que 2 graus significam muita coisa. 


Tal elevação seria desastrosa para os ecossistemas e eliminaria os recifes de corais tropicais. Da última vez em que o mundo esteve 2 graus mais quente, os oceanos subiram entre 4 e 6 metros. Hoje esse aumento na temperatura inundaria a maior parte do Rio. O que mais precisamos saber para soar o alarme?


Além da mudança climática, duas outras fronteiras planetárias foram ultrapassadas. Uma é a importância do uso do nitrogênio, principalmente, mas não exclusivamente, na agricultura. Os níveis atuais de nitrogênio biologicamente ativo são o dobro do normal, o que causa prejuízos enormes. O principal deles é o aumento das zonas costeiras mortas, que, desprovidas de oxigênio e peixes, têm dobrado de tamanho a cada dez anos ao longo das últimas quatro décadas.


A fronteira mais agressivamente ultrapassada é a da biodiversidade. Não é surpresa, pois todos os problemas ambientais afetam os sistemas vivos. Hoje, algumas taxas de desaparecimento de espécies crescem de maneira vertiginosa, o que acarreta consequências profundas para a humanidade. Os recursos biológicos são vitais para nós como seres vivos por causa de suas múltiplas funções, saudáveis, executadas pelos ecossistemas (como o da Floresta da Tijuca). 


Mais do que isso, a diversidade de espécies constitui uma riqueza de possibilidades biológicas testadas pela evolução. Essa variedade tem o potencial de transformar seguidamente a agricultura e a medicina, algo crucial no momento em que mais 2 bilhões de pessoas se juntarem aos 7 bilhões de habitantes do planeta. Soluções e oportunidades essenciais podem ser encontradas na diversidade biológica, desde que consigamos cuidar dela de forma adequada. Índices de extinção ascendentes equivalem à queima de livros em escala global.


Evidentemente, o tempo está se esgotando para que consigamos evitar deixar como herança para as próximas gerações um planeta degradado. Não se trata apenas de olhar para o futuro longínquo. Muitas pessoas nascidas nesta década estarão vivas até o fim do século para vivenciar as consequências do sucesso ou do fracasso dos nossos esforços. Quanto mais esperarmos, mais duras e menos numerosas serão as escolhas.


Os protagonistas de hoje são diferentes daqueles de vinte anos atrás. A liderança dos Estados Unidos na questão ambiental foi anulada pela falta de propósito nacional, de interesse e pelas disputas partidárias que parecem ignorar a relevância da preservação e de uma economia de baixo consumo de carbono. 


A Europa está limitada pela grave crise que se abateu sobre a zona do euro. A China, a Índia e muitos outros países continuam queimando combustíveis fósseis como se não houvesse amanhã. Alguns líderes de países ricos não participarão da Rio+20, indicação chocante do desrespeito à urgência da agenda, o que pode prejudicar tanto pobres quanto ricos.


O Brasil, nesse jogo, tem uma posição especial, com sua economia grande e vibrante, um setor de energia de baixo carbono e uma posição de credibilidade junto às velhas potências industriais e ao Grupo dos 77, que reúne 132 nações em desenvolvimento. O país também é provido de capacidade técnica e científica vigorosas, além de ter um povo capaz de compreender a importância da preservação ambiental – ainda que esteja na infância dessa compreensão. Nas palavras do embaixador Rubens Ricupero, ser a “potência ambiental” é o destino do Brasil.


Seria extraordinário ter o país nessa condição de liderança, relevante e decisivo em um planeta ainda riquíssimo, porém fragilizado. Quatro bilhões de anos de evolução produziram uma diversidade impressionante de plantas, animais e organismos lindos, intricados e fundamentais para o desenvolvimento sustentável. 


Não devemos virar nossas costas para ele, mas sim celebrá-lo e protegê-lo com toda a inventividade que possuirmos. Devemos empreender de forma consciente a administração do planeta como o sistema integrado físico e biológico que é. Isso significa administrar a nós mesmos, controlar nossos impulsos de consumo e exploração da natureza, reconhecendo a poderosa mensagem da Tijuca reflorestada por dom Pedro II.


Enquanto isso, de maneira preocupante, concentrações de dióxido de carbono de 400 ppm (partes por milhão) são registradas no Ártico, algo nunca visto em 800000 anos. São as contradições que precisam ser enfrentadas durante a Rio+20.


*Thomas Lovejoy estuda a biodiversidade brasileira e da Amazônia desde 1965.
Doutor pela Universidade Yale (EUA), é titular da cátedra de Biodiversidade
do Centro Heinz para Ciências, Economia e Meio Ambiente.
Publicado em 
http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx

LEIA MAIS
http://pt.calameo.com/read/000958877ec38bd88e2d7







05 junho 2012

INTENÇÕES PARA O FUTURO

O que esperar da Rio+20*


c5 300x200 O que se pode esperar da Rio+20 A Rio+20 pode dar bons resultados. Mas esses resultados não corresponderão às expectativas. O que ela pode fazer é criar uma base suficientemente sólida para que se construa no futuro a arquitetura desejada para o desenvolvimento sustentável — baseado em uma economia de baixo carbono e com menor pegada ecológica.
Não existe a possibilidade de uma reunião como a Rio+20 adotar decisões que enquadrem os países, antes que eles estejam preparados para adotar as políticas correspondentes. O modelo de decisão “de cima para baixo” não funciona. Um marco global adequado para o desenvolvimento sustentável virá da consolidação das escolhas que os países farão internamente, “de baixo para cima”.

Um fórum tão amplo, com grande  número de temas e uma variedade enorme de países, desde produtores de petróleo a importadores de petróleo, de nações super-ricas a nações super-pobres, de potências maduras a potências emergentes produz uma rede complexa e densa de conflitos de visões, perspectivas e interesses. Alguns impasses são absolutamente insolúveis nesse modelo de decisão por consenso de uma assembleia geral de países.
O que se pode esperar, então, da Rio+20 que vá além de uma declaração vazia de intenções? Duas coisas. Primeiro, que ela não reabra questões já fechadas em outros fóruns. Segundo, que ela defina um piso mínimo a partir do qual se possa construir o edifício da sustentabilidade global, à medida que os países vão avançando em suas políticas próprias de sustentabilidade. Pressões internas e a dinâmica da economia verde emergente – que está ganhando escala em alguns países e gerando empregos – farão com que alguns países avancem mais rápido. Esses países de vanguarda terão benefícios competitivos mais adiante. Essas vantagens terminarão por convencer os demais a se atualizar.
A transição para uma economia de baixo carbono é inexorável, porque os custos da economia marrom serão crescentes e os rendimentos decrescentes nas próximas décadas. Os fragmentos de economia verde já existentes, principalmente no setor de energias renováveis não convencionais, de tecnologias limpas para a logística e agricultura sustentáveis, terão custos decrescentes e rendimentos crescentes. Mas isso não significa que a transição será automática, nem na velocidade necessária. Só a combinação de uma estrutura adequada de incentivos à economia verde e desincentivos à economia marrom, com regulação mais eficaz das emissões de gases estufa, dos resíduos sólidos, da poluição e dos danos ambientais, pode acelerar esse processo.
Uma revisão das discussões sobre o documento que contém as resoluções da Rio+20 o ‘Draft Zero’ (Rascunho Zero), que a essa altura já é, no mínimo, o ‘Draft 3’ (Rascunho 3), dá uma boa ideia da amplitude tratar de temas dessa reunião, que é a sua marca de singularidade. O primeiro tinha 19 páginas. O segundo inchou para quase 300 páginas. O atual emagreceu para 80 páginas, mas é praticamente só colchetes, isto é, frases não aprovadas e redações diferentes apoiadas por grupos distintos de países.
Ele trata de praticamente todos os temas econômicos, sociais, ambientais e climáticos que outros fóruns e outras reuniões da ONU vêm tratando há anos. Entre a Rio-92 e a Rio+20 houve um grande desenvolvimento de instituições tratando de temas significativos para o avanço civilizatório da humanidade e para a sustentabilidade do planeta. A começar pelas Convenções do Clima e da Biodiversidade, que nasceram na Rio-92. Houve progresso, também, no conhecimento e na legislação a respeito de praticamente todos os tópicos que estão sendo discutidos no documento da Rio+20.
O documento em discussão refere-se a essas questões, para reafirmá-las como parte do conceito de ‘desenvolvimento’. A confusão já se instala nessas preliminares. São muitos países, com modelos políticos e econômicos e níveis de desenvolvimento econômico, social, ambiental e político muito distintos. Há democracias, regimes autoritários e tiranias fechadas. Qualquer item da pauta gera diferentes visões, propostas mais ousadas e reações defensivas. Alguns países tentam reabrir questões que foram fechadas em outros fóruns, sob outro marco internacional de referência legal. Tudo dá divergência.
Por exemplo, a questão dos direitos humanos está regulada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, existem na ONU a Comissão sobre Direitos Humanos, o Alto Comissariado para Direitos Humanos e vários outros organismos criados sob o estatuto da ONU ou por várias convenções internacionais. O documento da Rio+20 reafirma a importância da liberdade, da paz, da segurança e do respeito a todos os direitos humanos. Parece uma questão evidente em si mesma e pacífica. Pois ela dá discussão. A China demandou que se cortasse a expressão ‘adequada’ da frase sobre o direito à alimentação. O EUA pediu que o documento falasse de ‘direito a um padrão de vida adequado, inclusive alimentação’. Na frase que reafirma a ‘igualdade entre os gêneros’, a Santa Sé quer que se diga “igualdade entre homens e mulheres”. E por aí a discussão vai se perdendo, antes de chegar nos temas que a Rio+20 deve resolver.
Essa necessidade de atender às preferências idiossincráticas de cada país ou interlocutor – como a Santa Sé – reflete, na verdade, questões políticas ou ideológicas associadas ao regime de governança de cada um. Ela impede que se chegue a um acordo com a amplitude e a profundidade que os tempos que vivemos e viveremos demandam. O máximo que dá para esperar é que os delegados cheguem a um acordo que defina um piso mínimo, uma base, a partir da qual, se evolua gradualmente para uma arquitetura mais sólida e mais adequada aos desafios do século. Não é o resultado necessário, dadas as urgências que vivemos. Mas é o resultado possível. Isso não significa que as demandas e as pressões devam ser pelo mínimo. Devem ser pelo máximo possível. Dessa forma, há uma chance de que o piso não seja tão baixo como está parecendo que será e se consiga eleva-lo um pouco mais.
Mas a pressão maior deve ser sobre os governos nacionais, para que avancem mais no entendimento e da regulação dos temas da sustentabilidade. Se olharmos para nossa própria casa, veremos que um governo que emite uma medida provisória como a do Código Florestal; que reduz áreas de reservas para fazer hidrelétricas discutíveis do ponto de vista econômico e energético; que incentiva o uso de combustíveis fósseis e o consumo de automóveis, sem qualquer exigência de aumento de eficiência energética; entre outras tantas medidas recentes pioram a insustentabilidade de nossa economia, não está preparado para ser avançado na transição para a economia verde.
O caso do estímulo recente à compra de automóveis é exemplar. Havia pelo menos uma condição lógica e evidente a fazer: exigir motores flex mais eficientes quando rodam com álcool, para eliminar a disparidade de custo/benefício entre álcool e gasolina (subsidiada), que faz com que a maioria dos carros flex rode com gasolina a maior parte do ano. Mas o governo jamais pensa em questões de sustentabilidade quanto toma suas decisões. Tem um quadro mental fixado no desenvolvimentismo dos anos 1950 e 1970. No entanto, a mídia e os políticos têm mais facilidade em criticar os países desenvolvidos e a China por seus erros no campo da sustentabilidade, do que o governo brasileiro.
Em resumo, há conflito em relação a menções introdutórias a temas já regulados por outras convenções, tratados, protocolos e resoluções. Duas questões são centrais para a Rio+20: a transição para a economia verde e o sistema de governança multilateral para a sustentabilidade. Discute-se tanto o acessório que não se consegue tempo e dedicação suficientes para discutir o que é central. Não é que as outras questões não sejam relevantes. Elas são de grande importância, mas estão sendo tratadas em seus espaços próprios.

O único caminho para o sucesso da Rio+20 é tomar como dadas essas questões e se concentrar nos dois temas principais. Nas metas de desenvolvimento sustentável, que indicarão o caminho para o início da transição para a economia verde. Na estrutura institucional de governança que permitirá a implementação das metas, o monitoramento e verificação do progresso dos países no alcance dessas metas no prazo determinado.
*por Sérgio Abranches, blogueiro, escritor, analista ecopolítico e comentarista de rádio.
Para ouvir as opiniões do autor na rádio CBN clique aqui

Conteúdo disponível originalmente em www.ecopolitica.com.br.
Imagem em 
http://envolverde.com.br

25 maio 2012

ORGULHO NERD

Eles estão entre nós (faz tempo)*

Jornal O Povo, de Fortaleza/CE, antecipa comemoração do
Dia do Orgulho Nerd e traz entrevista exclusiva com autores
da Enciclonérdia, Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios

Rosana Rios e Luís Flávio Fernandes, os autores: "Caminhamos em direção
a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus..."









Talvez você nem saiba, mas no dia 25 de maio é comemorado  internacionalmente o Dia do Orgulho Nerd. A data, que não foi escolhida de forma aleatória, presta homenagem à estreia do primeiro filme da série Star wars (em 25 de maio de 1977), e também ao Dia da Toalha para os aficionados pela trilogia O guia do mochileiro das galáxias. Estas e outras informações do gênero passam batidas entre não-nerds, mas são fundamentais para aqueles que se identificam como integrantes desta "tribo" urbana.
Este é o tipo de informação que você encontra no livro Enciclinérdia - Almanaque de Cultura Nerd, escrito a quatro mãos pelo especialista em software, e nerd assumido, Luís Flávio Fernandes e pela escritora de literatura fantástica Rosana Rios. Em entrevista exclusiva, eles explicam como o mundo se “nerdificou” e como os que antes eram rotulados de "esquisitos" hoje estão no comando.
O Povo - Como surgiu a ideia de escrever a Enciclonérdia?
 Rosana Rios - Estávamos escrevendo um outro livro, uma aventura juvenil de mistério. E vivíamos colocando referências nerds nos diálogos dos personagens... Aí, tivemos a ideia de escrever um livro juntando todas essas referências. Ora, a “nerdice” não tem fim! Quando começamos a relacionar e a pesquisar livros, filmes, seriados, frases, conteúdos de tecnologia e ciência que são apreciados pelo público nerd, quase ficamos loucos! E o resultado dessa loucura toda foi a Enciclonérdia.
O- Existe diferença entre nerd e geek?
 Rosana - Em essência, nerd e geek significam a mesma coisa. Mas a palavra geek acabou tendo um sentido mais ligado à tecnologia. Então, normalmente considera-se que um(a) nerd é uma pessoa inteligente, curiosa e que aprecia a faceta nerd da cultura - literatura, cinema, seriados, games, alta ciência, etc. A palavra geek passou a ser mais usada para definir o nerd que, especificamente, entende de tecnologia, física quântica, T.I. etc.
OP - Em que momento histórico o nerd vira o jogo, deixa de ser um defeito e passa a ser uma qualidade? A que se deve essa mudança?
 Rosana - Antigamente, o nerd era o CDF, a pessoa inadequada socialmente, tímida, retraída. Hoje, a “nerdice” é uma qualidade porque, com a mudança ocorrida no mundo, após a popularização dos computadores e da Internet, as sociedades perceberam que só tem sucesso acadêmico e profissional quem está acostumado a lidar com tecnologia, trabalhar em modo multitarefa, decodificar linguagens, ler muito... e todas essas características descrevem um nerd. Logo, o nerd passou a ser valorizado por sua inteligência , criatividade e curiosidade, enquanto os não-nerds precisam se “nerdificar” se quiserem fazer parte do século XXI...
 Luís Flávio Fernandes - Acho que a grande virada dos nerds acontece no momento em que surge uma verdadeira revolução tecnológica, com a popularização dos computadores pessoais e o advento da Internet, nas últimas décadas do século XX. É quando surgem também ícones nerds do sucesso econômico e pessoal, dos quais os mais famosos são Bill Gates e Steve Jobs. A partir daí, as pessoas começaram a perceber que ser nerd não é uma coisa negativa, mas é eventualmente um fator de sucesso.
O- O que caracteriza, nos dias de hoje, um nerd?
Rosana - Há vários tipos de “nerdice” hoje em dia. Não existe apenas um tipo particular de nerd: há aqueles que se especializam em informática, os cientistas (e há nerds em todos os campos da ciência), os escritores e apreciadores de literatura, os gamemaníacos... A lista é infinita. O que todos eles têm em comum é aquilo que já citamos: inteligência, curiosidade e capacidade de mergulhar em uma vasta gama de assuntos. E um nerd sempre pode se tornar mais nerd ao encontrar outro nerd e ambos trocarem figurinhas!
 Luís Flávio - Atualmente, a cultura nerd é muito mais valorizada, o que facilita que as pessoas se identifiquem com ela. Prova disso é a popularidade, principalmente entre os jovens, dos videogames, quadrinhos, filmes e livros de fantasia e ficção científica, que antigamente eram quase que restritos aos nerds mais hardcore. Por exemplo, há 40 anos, não acredito que um filme sobre heróis de quadrinhos, como os Avengers, pudesse bater todos os recordes de bilheteria. Acho até que, nos dias de hoje, e principalmente, nas gerações futuras, os nerds estão deixando de ser uma minoria.
OP - Ser nerd está ligado a alguma faixa etária ou transcende limites de idade? 
 Rosana - Não há limites de idade. Há crianças que já nascem com tendências nerds; e se conferirem a Enciclonérdia, verão que já existiam nerds em todos os períodos da História, só que a palavra para defini-los ainda não existia. Temos encontrado nerds dos 2 aos 100 anos... e, se observarem as crianças que nascem nos dias de hoje, concluirão, como nós, que caminhamos em direção a uma nova espécie: o Homo sapiens está se tornando o Homo nerdus...
 Luís Flávio - Concordo com a Rosana. Acho que o futuro da humanidade está nas mãos dos nerds, que estão em toda parte, independente de idade, sexo, ou qualquer outra categorização. O que deve tornar o mundo no mínimo muito mais divertido do que é hoje.

SERVIÇO  
 Enciclonérdia – Almanaque de Cultura Nerd,
 de Luís Flávio Fernandes e Rosana Rios (248 páginas)
 Preço:
R$ 39,90


 *Émerson Maranhão é editor da página  
Tendências e titular da coluna Cena G
em 
www.opovo.com.br



21 maio 2012

ADÃO & MIRIAN

Sem pecado e sem juízo*


Sexo, corpo, traição e risadas conduzem o bem-humorado livro lançado pela antropóloga Mirian Goldenberg, ilustrado pelo cartunista gaúcho Adão Iturrusgarai.

Pedalando no calçadão de Ipanema em 2006, Adão abordou a antropóloga e lhe disse ter ideias que afinavam com temas estudados por ela: sexo, relacionamento, corpo, infidelidade...

Os dois nunca mais se cruzaram, até que, cinco anos depois, Mirian escreveu ao cartunista propondo enfim consumar a parceria. O resultado é o livro Tudo o que você não queria saber sobre sexo, que acaba de sair pela editora Record.


Baseado em pesquisas da antenadíssima antropóloga, professora da UFRJ e colunista do caderno "Equilíbrio", da Folha de S.Paulo, Adão, que também colabora no jornal, desenhou cartuns e tiras coloridos para o volume.


São três os estudos de Mirian, realizados com homens e mulheres do Rio de Janeiro: um sobre infidelidade, casamento e sexualidade; outro dedicado à risada; e o terceiro, centrado em questões que abordam corpo, felicidade e envelhecimento (só este último tema ficou fora do livro).


Os desenhos de Adão por vezes refletem os resultados das pesquisas, noutras são licenças criativas que se mesclam a ilustrações com gráficos que reproduzem mais diretamente os questionários (exemplo: 60% dos homens já foram infiéis, contra 47% das mulheres).


"Descobri, no meu trabalho, que o humor mobiliza e faz as pessoas pensarem mais do que se estivessem diante de um texto analítico pesado. Este livro coroa essa tendência", explica Mirian.


Uma boa sacada de edição foi reproduzir a troca de e-mails entre os autores, descrevendo as brincadeiras e o processo de construção conjunta do trabalho.


Ali ficamos sabendo também que, com o dinheiro das vendas do livro, Adão sonha comprar uma casa maior, enquanto Mirian quer um belo massagista.


"Espero que consigamos atingir nossos objetivos: minha mansão com barco e seu massagista com cérebro", escreve Adão em uma mensagem. Ao que Mirian responde: "Quem disse que precisa ter cérebro?".


Confira algumas tiras:


















(*com edição de conteúdo publicado em www1.folha.uol.com.br)


11 maio 2012

PAISAGEM EM REDE

Tudo pelo social*




Você e sua empresa não precisam mais decidir se e como entrarão nas redes sociais: vocês já estão dentro delas.

A esta altura do jogo, as redes já estão falando de você, da sua marca, dos seus produtos. Ouvi-las tem que fazer parte do seu negócio. Pesquisá-las tem que fazer parte do seu negócio. Mas o que você mais precisa mesmo é de uma estratégia.

E não é uma estratégia de defesa, mas de ataque, e estratégia não só para o que dizer, mas também para o que ser. Porque só existe uma coisa mais social do que uma pessoa: uma empresa.

 
Quem não agregar esse valor da comunicação total ao seu negócio terá desvantagem competitiva diante das empresas que já fazem ou farão isso bem.

Há um potencial social natural em toda empresa — que agora terá de ser mais acessado e desenvolvido, sob o custo da obsolescência. Olhe para a sua atividade e pense como a capacidade de comunicação total pode transformá-la, para dentro e para fora. 


É preciso encontrar esse ângulo, que certamente está lá e será necessário, neste mundo com a velocidade do último chip.

Não é fácil, não tem histórico, mas é intenso e rápido, muito rápido. Fortes emoções estão garantidas.

 
As marcas agora devem ter sua personalidade, sua integridade e sua opinião.

Antes era um monólogo, agora é uma conversação, mais dissonante que consonante, e muito mais democrática do que antes. Impossível de entender pensando pequeno, criando limites.
Para começar, social não é uma mídia, é um espírito. Um espírito animal. Tudo o que poderia um dia ser social, agora será.

Música pode ser social. Leitura pode ser social. Fotografia pode ser social. TV pode ser social. Comprar pode ser social. Viajar, se informar, estudar, encontrar um emprego, um(a) namorado(a) são todas atividades que podem ser sociais e por isso se organizam e se organizarão cada vez mais em torno de redes como Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e outras que virão e irão.

 
Você não precisa se tornar um especialista nessas novas ferramentas, até porque elas passam.

 
Mas seja — sim! — um especialista em comportamento, entenda a suprema tecnologia humana, aquilo que chamamos de alma.
 
Aliás, é bom lembrar que as redes sociais sempre foram dominantes e determinantes — das associações mercantis da Idade Média aos fluxos de migração global. Foi com essa capacidade de organização social que vencemos tantos desafios.
 
No Coliseu romano, a plateia já usava o dedão para cima ou para baixo, como fazemos hoje no Facebook, para mostrar aprovação.
  
As redes sociais estão com tudo, mas elas não têm uma regra fixa. O que já sabemos: não basta anunciar, é preciso comunicar; não é só oferta, é relacionamento; não fique indiferente.


Mais do que a mensagem e do que o meio, agora é o modo. O modo social.
Mas é preciso tomar cuidados.
 
O sujeito entrou cabisbaixo no consultório do psiquiatra e explicou:
 
"Doutor, não sei o que está acontecendo comigo. Só ando com a cabeça baixa, olhando na direção do chão, não falo com ninguém, não ouço ninguém, não consigo ter longas conversas, manter o foco. Minhas mãos doem, meu pescoço dói. Doutor, o que eu tenho?".
"Um Blackberry."

Piada é uma das maneiras mais fáceis de contar verdades. O perigo das redes é o da alienação, do distanciamento pela proximidade superficial. É preciso equilíbrio e coerência. O que se faz na rede deve-se fazer fora da rede. Quanto mais o "on" estiver junto com o "off", mais força as duas bandas dessa nova realidade terão.
 
E não podemos confundir conexão com conversação. Afinal, fãs não são próximos e seguidores não são amigos.
 
O brasileiro é um ser social por definição e criação. As redes aqui avançam com rapidez maior do que na maioria dos lugares, e ficamos conectados mais tempo do que os outros.

 Isso só vai aumentar. Você não pode ficar de fora. Você já está dentro. Acomode-se. Incomode-se. Comunique-se.
 
E não digite com os dedos, digite com a alma
 

*Nizan Guanaes é publicitário e presidente do Grupo ABC.
Imagem em FredCavazza.net


04 maio 2012

EM TORNO DA MARCA

Criando uma comunidade
de experiência e interesse*
 



Cada vez menos as pessoas curtem e seguem as marcas nas redes sociais. Com tanta coisa para fazer e descobrir, será que ainda temos tempo para segui-las? Será que elas estão sabendo como impactar, envolver e engajar de forma consistente seus fãs? 

Ainda estamos aprendendo a desenvolver essas comunidades de marca em torno de novos
tastespaces e a utilizar as novíssimas ferramentas em um meio tão complexo e dinâmico.

Mas estrategistas e marcas presentes nas redes sociais já sabem da importância de dialogar, envolver e se relacionar com seus públicos de interesse. O modelo B2C agora funciona muito mais na contramão: de fora para dentro. Invertendo-se o binômio: C2B e tornando os canais de comunicação vias de mão dupla.

Os tastespaces de marca são criados quando elas ouvem os feedbacks e as conversas de suas comunidades e são capazes de fazer curadorias de conteúdo relevantes e criativas. 
Cabe às marcas entender as práticas, atitudes e temas de interesse dos seus públicos, para criar uma comunidade por nexos de experiência e gostos compartilhados.

As comunidades de marca são plataformas coletivas, interativas e colaborativas, onde os diálogos são sempre horizontais, líquidos e amarrados aos temas de interesse dos diversos membros do grupo. Um bom estudo de caso é o da fanpage da Coca-Cola, entre outros inúmeros casos de sucesso. Estes tastespaces funcionam como um espaço interativo e colaborativo, on ou offline, que constitui um clube social ou um meeting point, onde podemos conhecer e trocar ideias com pessoas com os mesmos gostos e práticas.

Além de reforçar o posicionamento da marca, estas comunidades nos ajudam a dizer quem somos e a nos identificar com outras pessoas em um universo digital cada vez mais massivo e indistinto.


O papel das marcas é prever e antecipar, criar e oferecer valor através de uma eficiente gestão de conteúdos de interesse, informar, entreter e divertir, gerar fóruns de discussão, estabelecer nexos de filiação e diálogo entre as partes, orientar sobre os temas de interesse, selecionar e apresentar de forma atraente vídeos, imagens e textos que nos permitam conhecer mais do universo e do contexto em que a marca e seus fãs estão inseridos.

Não é ponto de venda e nem tampouco de promoção de seus atributos. É um espaço de socialização e interação, de troca de conteúdos e opiniões.
Alguns autores tentam explicar a razão que leva um grande número de consumidores a participar destas comunidades e tastespaces patrocinados por empresas e marcas nos mais diversos segmentos: Cova, 2002, Tapscott, 2006; Turner, 2006; Zwick, 2008, Kozinets, 2008, Anderson, 2009.

Muitas razões subjetivas e comportamentais são elencadas: por envolvimento com a marca; por busca de notoriedade, reconhecimento social no grupo ou capital social na rede; por serem entusiastas declarados de temas, interesses e gostos compartilhados; por pura diversão e passatempo.

Muitos se envolvem por algum tipo de recompensa material e objetiva: em forma de descontos, prêmios e amostras, convites para eventos; participando de concursos e competições ou pela possibilidade de ser contratado para o quadro interno da empresa ou ganhar expressão dentro de sua área de atuação.


Uma leitura mais antropológica nos mostraria talvez uma busca por diferenciação e pertencimento, ou quiçá, por uma busca ainda mais subjetiva de "sentidos da vida" ou construção de projetos de identidade e sociabilidade em um mundo esvaziado de significado e sentido.

Muitos desses consumidores que interagem nas comunidades de marca são os antigos participantes das tribos urbanas, que reaparecem em uma outra dimensão da realidade, num processo facilitado pela experiência de interação das redes sociais, para se reorganizarem como tribos de consumo ou comunidades de marca.


Os tastespaces de marcas e consumidores são uma tendência crescente nas mídias sociais: comunidades, fanpages, aplicativos, vlogs, flogs e blogs. Os brand lovers e os evangelistas das marcas e tribos de consumo, as comunidades de lead users e experts cooperativos, as crowds, swarms, hives e mobs de Kozinets, mas também os grupos de resistência e movimentos e coletivos de consumo ético, não consumo e consumo emancipado, estão cada vez mais presentes e ativos nas redes e comunidades de marca.

Este engajamento desses consumidores na rede e a busca por capital social dentro de suas comunidades são um sinal de que vivemos em uma época na qual o consumo, mais do que nunca, articula as relações entre os indivíduos e se tornou a principal forma de afirmação identitária, seja para negar ou afirmar pertencimentos a grupos ou se diferenciar buscando a afirmação de um estilo pessoal e de uma autoexpressão marcante.

Podemos entender esse modelo sociologicamente, a partir da lógica durkheiminiana: o incremento dos processos colaborativos vem aumentar o grau de interdependência entre os agentes, articulando novas formas de "solidariedade orgânica". Nesse sentido, as marcas constroem-se a partir da lógica dialógica com seus grupos de consumidores e estes se ressocializam a partir de práticas e ações dentro destes tastespaces

O branding de relacionamento é um facilitador social, cria e promove um novo campo de interações e diálogos em torno de interesses e práticas de estilos de vida e consumo, que movimentam e fortalecem as relações entre as pessoas.


*Sérgio Lage Carvalho é Mestre em Sociologia e Publicidade
pela USP e Consultor e Professor de Comportamento do
Consumidor dos cursos de MBA e Pós-Graduação da FIA,
ESPM, Rio Branco, FIT E IED. Artigo publicado
em 
http://mundodomarketing.com.br. Imagem em