09 dezembro 2015

ETERNO TEMPLO DE FÉ


Adeste Fideles*




Cântico religioso natalino composto por John Reading (1677-1746), organista em Winchester, Inglaterra: “Vinde, fiéis”. 

Vinde adorar o Deus-menino, a salvo dos Herodes e demais demos, ancorado na praia.
Vinde juntar-se aos refugiados a palmilhar o chão, da Síria aos Inhamuns, buscando a salvação. É o povo refazendo as trilhas dos missionários, hoje infestadas por mercenários e assoldadados outros, a serviço dos anticristos.

“Adeste Fideles”, vinde integrar esta turma de sobreviventes, orar pelos que nasceram para não ser, e morreram de fome, de frio, no mar, ou na lama de Mariana. Ignoremos as vozes dos algozes e ouçamos os vagidos vindos daquela manjedoura. 

Fechai-lhes, Pai, os ouvidos ao ribombar das metralhadoras daqueles que fazem da morte um meio de vida. Deploremos o que vaticinou (profetizou) o filósofo genebrês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em seu “Discurso sobre Ciências e Artes”: “quanto mais civilizados ficamos, mais corruptos nos tornamos”. E bárbaros! Tempos insanos estes.

Dias da ira, irônicos tempos. Assaltantes matam cardiologista com bala no coração, alpinista morre abalroado em rodovia. Estaríamos assistindo a um ensaio de outro apocalipse? Sonho, pesadelo ou realidade? 

Mas, como apregoam os africanos, a água da chuva não é tão preta como aparentam as nuvens. Festejemos o infante Jesus, em mais este Natal nosso, das luzes, dos sinos, nos presépios de palha e nos berços dourados, nas senzalas e nas casas grandes.

Natal das juras veladas, promessas não cumpridas, palavras que esquecemos de dizer, graças obtidas sem nosso reconhecimento. Penitenciemo-nos. Nessa noite, na consoada (ceia natalina ou de Ano Novo) recordemos quem partiu sem se despedir. Acorram! 

É tempo de colher a nova safra de esperança. Natal é Cristo de novo, um eterno templo de fé. Contrariemos o ódio e uma das “Odes” (1,1,8) do poeta e filósofo romano Quintus Horatius Flaccus (65 – 8 a.C.) em suas “Carmina”: “Carpe diem, quam minimum credula postero”, i.e., aproveita o dia (ou o momento fugaz) confiando o mínimo no futuro.

Esqueçamos este Horácio e pensemos com confiança. O Natal está dobrando a esquina. Exultemos, ao jeito de crianças esperando Papai Noel. O essencial é a espera. O resto é só alegria. Acreditemos no futuro que a Deus pertence, porquanto ele é nosso também.
Aleluia! Feliz Natal!


(*) Pedro Henrique Saraiva Leão é professor
Emérito da UFC, titular das academias Cearense 
de  Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Publicado em www.opovo.com.br
Imagem em www.musicalion.com

(N. do E., com adendos da Wikipedia): O tema natalício Adeste fideles ganhou o nome Portuguese Hymn (ou Hino 
Português) em várias publicações inglesas, por ser esta composição 
cantada na capela da Embaixada de Portugal em Londres. Até a 
legalização do culto católico na Inglaterra, com a promulgação da Acta de 
Ajuda Católica de 1829, era um dos únicos locais em que sua 
celebração ocorria no território britânico. 

Vincent Novello (1781–1861), que foi a partir de 1797 "Mestre de Capela 

e Organista" da Capela Portuguesa, publicou em 1811 a coletânea intitulada 
"A Collection of Sacred Music, as Performed at the Royal Portuguese Chapel in London",
obra 
muito influente na constituição de um repertório católico inglês, e como “Adeste 

fideles” estava nela incluída, passou a ser conhecida como o "Hino Português".

Peça composta em harmonia funcional inteiramente tonal, com acompanhamento 

de baixo contínuo, num estilo, segundo alguns estudiosos, incompatível com a prática
musical do tempo do rei D. João IV de Portugal — que morreu em 1656 —, o Adeste fideles 

não deixa certeza absoluta sobre quem foi seu autor. Por sua natureza,  
não poderia ter sido composta antes do último quarto do século XVII

Vincent Novello, ao publicar o seu arranjo desta obra,
atribuiu-a a John Reading, organista do Winchester College morto em 1692, mas
a primeira versão conhecida é a de John Francis Wade (1711–1786). Sendo Reading
protestante e Wade um católico assumido, exilado no Continente por lealdade à
causa do Pretendente Stuart, seria mais natural que a Capela da Embaixada
Portuguesa adotasse uma obra sua do que uma composta por um anglicano.


Assim, embora a autoria desta cantiga de Natal seja contestada
na atualidade, popularmente — atendendo ao fato do rei D. João IV
de Portugal ser autor nascido em data mais antiga — a mesma
é considerada criação do primeiro monarca da Dinastia de Bragança.






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