14 novembro 2007

ECOSSOCIALISMO

Ecologismo dos Pobres?


“Do ponto de vista de uma formação socioeconômica mais avançada, a propriedade privada dos indivíduos na Terra parecerá tão absurda como a propriedade de um homem sobre outros homens. Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou mesmo todas as sociedades existentes num dado momento, em conjunto, não são donos da Terra. São simplesmente os seus possuidores, os seus beneficiários, e têm que a legar, num estado melhorado, para as gerações seguintes, como boni patri familias (bons pais de família).” Karl Marx, em O Capital


John Bellamy Foster, autor de um dos livros mais importantes para os ecossocialistas (A ecologia de Marx, materialismo e natureza, Civilização Brasileira), em artigo recente, intitulado A ecologia da destruição, chama-nos a atenção para o fato de que “é uma característica da nossa época que a devastação global pareça sobrepor-se a todos os outros problemas, ameaçando a sobrevivência da Terra como a conhecemos”.

A grande repercussão do quarto relatório do IPCC-sigla em inglês do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU-Organização das Nações Unidas, em que milhares de cientistas de quase todo o planeta não só constataram a relação direta entre fenômenos climáticos intensos decorrentes do aquecimento global — com a emissão dos chamados GEE-gases de efeito estufa pelas atividades industriais, energéticas e agrícolas —, mas também apontaram projeções catastróficas para este século caso não haja drástica mudança na matriz energética e no padrão de consumo, deu foros de cientificidade ao documentário Uma verdade inconveniente, do ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, que recebeu o Oscar em 2007 e também, juntamente com o próprio IPCC, o prêmio Nobel da Paz.

Portanto, com exceção da minoria dos chamados “céticos”, entre os quais figuram cientistas sérios como o brasileiro Aziz Ab'Saber e organizações bancadas pelo governo Bush e pelas grandes indústrias de petróleo e carvão mineral no mundo, há uma ampla maioria de representantes da comunidade científica (e aqui perfilam-se brasileiros como José Goldenberg, Carlos Nobre e Luis Pinguelli Rosa), dos movimentos ambientalistas, de governos e até de setores empresariais que, a partir dos dados do IPCC, procuram encontrar saídas para a crise planetária, manifestada hoje pelo aquecimento global que ameaça a vida na Terra.

Abram-se aqui parênteses para aduzir que a aposta que os céticos — em sua versão séria e não comprometida com os interesses do capital petroleiro e mineiro — fazem é uma aposta perdida, em suas duas possibilidades: se eles estiverem errados (quando afirmam que o fenômeno do superaquecimento é natural e que as previsões do IPCC estão equivocadas), podem, de forma involuntária, estarem contribuindo com o lobby das grandes corporações petrolíferas e mineiras, impedindo a mudança do padrão energético para as fontes renováveis e serem co-responsáveis pela catástrofe que se prenuncia. Por outro lado, se estiverem certos (contrariando o amplo consenso científico alcançado depois de quase 20 anos de IPCC), estão atrasando a nossa evolução para a despoluição do planeta.

Ou seja, ainda que, numa hipótese quase absurda, não esteja ocorrendo o aquecimento provocado pelas atividades humanas, o alerta do IPCC, no mínimo, questiona o modo de produção e o modo de vida humana no planeta e nos induz a mudanças profundas e necessárias.

Vou apenas listar, em parte, o extenso e impactante elenco de fenômenos climáticos e suas resultantes sobre a vida no planeta, já amplamente divulgados na imprensa, como o acréscimo da temperatura média da Terra, o derretimento das geleiras e calotas polares, a desaparição de espécies, a subida do nível do mar, a desertificação e seus impactos sobre a humanidade, que poderá conviver — aliás, já está convivendo — com os chamados “refugiados ambientais”, vítimas de enchentes, tornados, secas, furacões, que, nos últimos tempos, têm atingido populações tão diversas como as asiáticas, as das pequenas ilhas do Pacífico ou, mesmo, nas terras do império americano, com o furacão Katrina, em New Orleans, e o incêndio que devastou a Califórnia nos últimos dias.

Em nosso País — quarto maior emissor de GEE, em face das queimadas e desmatamentos de nossas florestas —, o que se prenuncia é gravíssimo. Se, em todo o planeta, no próximo século, ultrapassarmos a linha perigosa de acréscimo de 2ºC na temperatura média da terra, metade de nossa Floresta Amazônica (a mais importante cobertura vegetal tropical do planeta) se transformará em savana, causando profundo impacto não só à temperatura da Terra, como no regime de chuvas em todo o Hemisfério Sul. Para o Nordeste brasileiro, as previsões não são menos sombrias. Nosso semi-árido, que, mais uma vez, convive com uma estiagem prolongada, se transformaria em região árida, num quase deserto, sem água e sem produção agrícola.

Estaríamos diante do Apocalipse? Paulo Artaxo, um dos cientistas brasileiros do IPCC, tenta nos tranqüilizar: “O aquecimento global não é o fim do mundo, de jeito nenhum”, mas adverte: “Um dos pontos cruciais do relatório do IPCC é a urgência da diminuição da emissão dos gases do efeito estufa. Se não fizermos isso, a temperatura pode subir de forma a trazer danos para os ecossistemas e zonas costeiras sem precedentes na História da Humanidade”. Para ele – e o IPCC – esse corte deveria ser em torno de 50% a 70%. (revista Caros Amigos, edição especial: Aquecimento global, a busca de soluções)

Ora, a necessidade imperiosa da redução na emissão de GEE na escala de 50% a 70% torna o Protocolo de Kyoto (que, todos sabemos, não foi assinado nem pelos EUA, primeiro ou segundo maior emissor de CO2, nem pela Austrália, uma das maiores exploradoras de carvão mineral) uma iniciativa absolutamente obsoleta e inócua. Recordemos: Kyoto propõe, apenas para os países em desenvolvimento (principais responsáveis pelo aquecimento), o corte de somente 5% (nos níveis de 1990) para até 2012. Brasil, Índia e China, entre outros — que, dado seu crescimento econômico vertiginoso já teria ultrapassado os EUA e que tem na base de sua matriz energética o combustível de maior poluição, que é o carvão mineral — não são obrigados a cumprir metas de redução.

Todo este debate não se refere, por óbvio, apenas a números. Aqui trata-se , em primeiro lugar, da tentativa de se compatibilizar a urgência urgentíssima na diminuição drástica de emissão de CO2 e outros GEE para a atmosfera, com o direito e a necessidade de países pobres se desenvolverem e atenderem aos direitos e necessidades de sua população.

Como atender tais necessidades sem tocar no padrão de vida e consumo das classes médias e altas tanto no Hemisfério Norte (onde são majoritárias) como no Hemisfério Sul (onde são minoritárias)? Já gastamos 25% a mais do "capital natural" da Terra e seria preciso que tivéssemos pelo menos quatro planetas Terra para que todos alcançassem o nível de vida do chamado American way of life. Uma nova “utopia” — sustentabilidade ambiental, igualdade social e desenvolvimento econômico em escala planetária — seria possível na atual configuração geopolítica mundial, onde o poder destrutivo da indústria armamentista, petrolífera e minerária materializa-se em governos como o de Bush, senhor das guerras no mundo?

É possível superar a atual crise nos marcos do sistema capitalista? Nas palavras, mais uma vez, de Foster: “Como é que isto se relaciona com as causas sociais e que soluções sociais podem ser oferecidas em resposta tornaram-se as questões mais urgentes com que a humanidade se defronta”. Este debate situa-se, portanto, no campo da chamada “Ecologia Política”, — que, na compreensão de Joan Martinez Alier, estuda “os conflitos ecológicos distributivos — isto é, os conflitos pelos recursos ou serviços ambientais, comercializados ou não”. Para ele, a Ecologia Política é “um novo campo nascido a partir dos estudos de caso locais pela Geografia e Antropologia rural, hoje estendidos aos níveis nacional e internacional”, afirma em O ecologismo dos pobres (Editora Contexto). Só a Ecologia Política, juntamente com a Economia Ecológica, para nos desvendar as causas da crise e apontar as soluções acima reclamadas por Foster.

Carlos Walter Porto-Gonçalves, um dos mais atilados ecologistas políticos da atualidade, nos situa, de forma ainda mais precisa, na atual crise planetária, quando afirma que “o desafio ambiental coloca-se no centro do debate geopolítico contemporâneo, enquanto questão territorial, na medida em que põe em questão a própria relação da sociedade com a natureza, ou melhor, a relação da humanidade, na sua diversidade, com o planeta, nas suas diferentes qualidades”. (em O desafio ambiental, Editora Record)

Para ele, há contradições profundas entre a economia capitalista e a dinâmica ambiental. A separação — “a mais radical possível”, em suas palavras — entre homens e mulheres, de um lado, e a natureza, de outro; a apropriação privada dos recursos ambientais, em que tudo é transformado em mercadoria; o “princípio da escassez”, pelo qual um “bem só tem valor econômico se é escasso”, são absolutamente contraditórios com a visão ecológico-ambientalista de riqueza natural. Vejamos, em suas próprias palavras:

"Os economistas modernos vão fundar a economia no conceito de escassez, que, paradoxalmente, é o contrário da riqueza. Tanto é assim que os bens abundantes — idéia central da riqueza — não são considerados como bens econômicos e, sim, como naturais (...) Somente à medida que água e ar se tornam escassos — com a poluição, por exemplo — é que a economia passa a se interessar em incorporá-los como bens no sentido econômico moderno, isto é, mercantil”.

Esta distinção entre riqueza natural — objetivo maior de todos os movimentos ecológicos — e riqueza material — que advém da escassez e, para deleite do sistema mercantil, transforma os bens ambientais em mercadoria — também é tratada por Foster, em outro belo texto, chamado Revolução ecológica, onde se vale do filósofo grego Epicuro, que declarava: "Quando medido pelo propósito natural da vida, a pobreza é uma grande riqueza, e a riqueza ilimitada é uma grande pobreza".

Portanto, para Foster, “o livre desenvolvimento humano, surgindo num clima de limitação e sustentabilidade naturais, é a verdadeira base da riqueza, de uma riqueza para a existência multilateral. A busca sem limites de riqueza é a fonte primária do empobrecimento e sofrimento humanos. É desnecessário dizer que tal preocupação com o bem-estar natural, em oposição a necessidades e estímulos artificiais, é a antítese da sociedade capitalista e a pré-condição de uma comunidade humana sustentável”.

Assim, é plenamente justificável afirmar que, sob o capitalismo, não há possibilidade de superação da atual crise planetária, o que nos permitiria atualizar, como quer Michel Löwy, outro grande expoente atual do Ecossocialismo, a consigna de Rosa Luxemburgo para Ecossocialismo ou barbárie.

Ora, afirmar esta contradição fundamental entre o sistema capitalista e uma nova forma de organização sócio-político-econômica fundada na sustentabilidade e justiça ambiental, na igualdade social e, também, claro, na democracia política em suas formas mais avançadas de participação popular não é suficiente, por si só, para os ecossocialistas. Diz Löwy: “É preciso começar a construir esse futuro desde já. É necessário participar de todas as lutas, inclusive das mais modestas, como, por exemplo, a de uma comunidade que se defende contra uma empresa poluidora ou a defesa de uma parte da natureza que esteja ameaçada por um projeto comercial destrutivo. É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns.” (em Ecologia e socialismo)

É este campo, o das lutas sócio-ambientais, que reclama a presença dos ecossocialistas. Aqui no Brasil, e no Ceará, poderíamos listar as lutas das comunidades costeiras contra o turismo predatório e a criação de camarões em cativeiro, a resistência contra os grande projetos hidrelétricos dos atingidos por barragens, o movimento que reúne os sem-terra, agroecologistas, defensores de consumidores e ambientalistas contra a adoção de sementes transgênicas, a luta de populações locais contra a ampliação das usinas nucleares, a resistência de índios e pequenos agricultores no embate contra a transposição das águas do Rio São Francisco, a articulação dos povos da floresta — índios, quilombolas, seringueiros e ribeirinhos — contra o avanço do agronegócio do gado e da soja na Amazônia Brasileira, a luta das mulheres camponesas contra o exército verde da monocultura do eucalipto, o enfrentamento dos ecologistas e urbanistas com a especulação imobiliária nas grandes metrópoles etc.

Aqui, estamos diante do que Martinez Alier denomina de “ecologismo dos pobres” ou “ecologismo popular”, que, nas palavras do autor, tem como eixo fundamental o interesse pelo meio ambiente como “fonte de condição para a subsistência” e como fundamento ético “a demanda por justiça social (e ambiental, acrescentaria) contemporânea entre os humanos”. Esta corrente do movimento ambientalista, por lutar “contra os impactos ambientais que ameaçam os pobres, ampla maioria da população em muitos países” tem uma presença muito forte nos países do Hemisfério Sul (no antigamente denominado Terceiro Mundo).

As lutas com tais características — sócio-ambientais, do ecologismo popular — têm importância fundamental não só para os ecossocialistas, mas para o futuro do planeta. Há nelas uma resistência que, partindo da luta concreta por direitos humanos básicos de moradia, cultura, de modo de vida e de produção, e, também, pelo ambiente saudável, questiona os fundamentos não só do atual modelo econômico, mas, em última análise, investe contra as bases do próprio modo de apropriação privada do sistema capitalista, responsável pelo atual estágio de degradação do ambiente planetário. Nessas comunidades, contrapõem-se não só interesses materiais, mas formas de vida e produção antagônicas.

Portanto, neste momento (mesmo que ainda de forma não-articulada), podem se estar forjando, além das alianças sociais fundamentais para esse processo de transformação urgente e necessário — a Revolução Ecológica —, também as bases sócio-econômico-ecológico-cultural-ético-políticas de uma nova sociedade, que se qualifique para poder superar a atual crise ambiental global para se tornar, a um só tempo, ecologicamente sustentável, socialmente justa e igualitária, cultural e etnicamente diversa, e política e radicalmente democrática: a sociedade ecossocialista.

Estaremos à altura deste imenso desafio?


*João Alfredo Telles Melo é advogado, professor de Direito Ambiental e consultor de Políticas Públicas do Greenpeace


(a imagem acima retrata os Cavaleiros do Apocalipse: Fome, Guerra, Morte e Dor, como apresentada em www.gnosisonline.org/Fim_dos_Tempos/images/apocalipse1.gif )


SAIBA MAIS
www.greenpeace.org.br/transgenicos/?conteudo_id=3232&sub_campanha=0

27 outubro 2007

INSCRIÇÕES ABERTAS

O empresário



Quando garoto em Bauru/SP, eu ia com meus pais aos eventos sociais e sempre admirava os amigos deles. Um era médico. O outro advogado. Outro era juiz. Tinha o professor, o industrial e o engenheiro. Mas tinha uma categoria que me deixava curioso: o empresário.

O termo “empresário”, para mim, sempre teve uma conotação positiva. Nunca foi substantivo, sempre foi adjetivo. Dava a entender que a pessoa era séria, tinha responsabilidades, fazia acontecer. Eu nunca entendi o que seria exatamente um empresário, mas em minha cabeça de garoto a definição acabou sendo simples: "— Ele tem uma firma".

Uma firma! Então empresário era o "dono da firma". E assim cresci, sonhando em um dia ser um empresário, ter a minha firma. A vida acabou me levando para outros caminhos e construí minha carreira como executivo de uma multinacional. Não virei empresário, mas tenho vários amigos que o são. A definição de empresário é: "Indivíduo que estabelece seu próprio negócio, assumindo os riscos e tendo como objetivo a obtenção de lucros".

No Código Civil, encontramos a definição no Artigo 966: "Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços." Portanto, a princípio qualquer um pode ser empresário. O negócio pode ser uma lanchonete. Uma casa de tolerância. Um templo. Uma lavanderia. Um serviço de acompanhantes. Uma boca de fumo. Qualquer negócio dá ao dono o rótulo de "empresário".

Outro dia encontrei um dos meus amigos empresários, o Raul, em plena crise existencial. O Raul enchia a boca dizendo que fazia parte de uma das categorias responsáveis por levar o Brasil pra frente, criando empregos, pagando impostos, movimentando a economia. E isso o enchia de orgulho. Quando chegava aos hotéis, preenchia a ficha de entrada com capricho, escrevendo "empresário" com letras maiúsculas. Mas um dia o Raul começou a prestar atenção às notícias.

Viu o Fred Godoy, aquele secretário do Lula. É empresário. O Silvinho “Land Rover”. Empresário. O Marcos Valério, empresário. Renan Calheiros, em sua versão vaqueira, é empresário. O Lulinha é empresário. O Oscar Maroni Filho, dono do Bahamas, é empresário. Uns pastores aí são empresários.E, pra piorar, um curioso movimento começou a incomodá-lo.

Os empresários verdadeiros começaram a ser considerados exploradores, sonegadores, aproveitadores. E o xingamento supremo chegou: "elite". No Brasil de hoje, ou “nestepaíz”, ser empresário é quase-crime. Principalmente se o sujeito é um empresário bem-sucedido. Lucro é sinônimo de butim... Pronto. O Raul entrou em crise. Passou a ter vergonha de ser identificado como empresário.

Está inconformado. Não quer mais ser empresário. Seu sucesso agora é uma mancha. Sua categoria virou rótulo de bandido. Sente-se persona non grata. Não quer ser colocado no mesmo saco daqueles outros “empresários”. Está sofrendo uma crise de identidade. E me disse, tristonho: — Pô, devia ter vestibular pra empresário.

Pois para ajudá-lo, lançarei a “EmpreZONA”, uma certificação para classificar empresários. A EmpreZONA terá quatro categorias:
1) O empresário-de-ouro, para os que cumprem suas obrigações, causam impacto positivo na sociedade e têm consciência da influência que exercem sobre a comunidade onde atuam;
2) O empresário-de-prata, para os que cumprem as obrigações e têm bom desempenho, dentro do esperado;
3) O empresário-de-bronze para os que estão organizados e empenhados em contribuir, mas apenas começando. E por fim...
4) Os empresários-de-merda. Não precisa explicar, né?

Para concorrer às três primeiras categorias, mande-me um e-mail candidatando-se. Mas para concorrer à quarta categoria tem que pegar senha. A procura será grande...


*Luciano Pires é um profissional de Comunicação: jornalista, escritor, palestrante e cartunista
luciano@lucianopires.com.br

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http://www.lucianopires.com.br/

LIDERANÇA DE EMPRESAS EXTRAORDINÁRIAS (3)

Lembrando Canudos


O objetivo desta série de artigos é responder a duas perguntas: o que é uma "empresa extraordinária" e se o Brasil tem lideranças habilitadas a conduzir esta vitoriosa organização. Desta vez, abordarei alguns fundamentos de sua construção. Indiscutivelmente, um dos primeiros tijolos (o mais importante) na arquitetura deste tipo de empresa é dispor de uma elite de liderança e gestão. Empresa ou grupo empresarial possuidor de um quadro diretivo de altíssima categoria não quebra, a não ser por surpresas totalmente imprevisíveis.

Com um comando competente, tem a possibiçlidade de continuar e até se perpetuar na sociedade e no mercado. O conceito de elite de gestão nada tem a ver, porém, com o nível social, econômico, acadêmico ou de titulação — e sim com o talento de personalidades do gestor.

Ampliando este conceito, feliz a nação possuidora de uma governança corporativa integrada por indivíduos possuidores de características pesoais notáveis, apresentando uma elevada performance. Infelizmente, a governança corporativa no Brasil, com exceção, está se transformando num ajuntamento de amigos, cupinchas, curriola, recrutados em função dos laços de amizade, de experiências passadas, quando um dos fatores prioritários é a independência destes homens e a sua profunda formação intelectual, cultural, ética e de sabedoria de vida, enfim, que sejam verdadeiros estadistas na liderança do empreendimento.

Para reforçar as distorções das governanças corporativas, inexistem no Brasil centros de excelência formando e desenvolvendo esse imprescindível segmento de condução do negócio, enquanto pontificam uns cursinhos superficiais caça-níqueis. O País revela ainda um baixíssimo nível de escolaridade. Idem de leitura, como demonstraram pesquisas relatadas na 19.ª Bienal Internacional do Livro realizada em São Paulo/SP: raros brasileiros lendo mais de dois livros/ano, enquanto em Paris a média de leitura anual é de 15 a 20 livros.

Ademais, é ínfima a atividade cultural, quase toda concentrada no eixo RJ-SP. E, quanto às experiências dos conselheiros, predominam as do cotidiano das organizações, mesmo porque o brasileiro tem resistências em circular pelo mundo, internalizando vivências de vida. Talvez até por condicionantes geográficos, tem uma vocação de se voltar para dentro de si mesmo, enterrado nas fronteiras nacionais.

Esses indicadores negativos se refletem prejudicialmente nas empresas, daí a precariedade das governanças corporativas, que vão beirando o fracasso total, mesmo sendo estas um dos pilares importantíssimos na edificação e, principalmente, na liderança das empresas extraordinárias.

Outros ingredientes deste tipo de organização são doutrina e estratégia. A doutrina compõe um conjunto de crenças, valores e ideologias sedimentadas ao longo dos anos que, proporcionando à organização uma orientação ideológica institucionalizada, dá ao empreendimento uma personalidade adulta e permite ao negócio andar com os próprios pés.

Uma empresa sem doutrina tem vida curta e se conduz de forma desorientada, ao sabor das circunstâncias. No Brasil, essa doutrina repousa pobremente na cabeça dos acionistas, dos donos do poder, tornando-se algo personalista. Diferentemente do que ocorre, por exemplo, no âmbito da Igreja Católica, dotada de uma doutrina responsável pela sua trajetória de milhares de anos na Terra, apesar de determinadas falhas de gestão.

A empresa, ao usufruir de uma doutrina, chega ao ponto de dispensar os gestores tradicionais concentrados nas coisinhas, controlando a força de trabalho para executar tarefas e atribuições. A doutrina, por sua vez, gera uma cultura, ambas contribuindo para a organização ter uma personalidade mais definida.

Quando isso ocorre, o empreendimento torna-se mais sólido. A Al-Qaeda, organização terrorista liderada por Bin Laden, espalha-se por vários países e funciona normalmente e com eficácia sem necessitar de ser cutucada pelos dirigentes.

A estratégia (não confundir com os obsoletos planejamentos estratégicos) são caminhos inteligentes formulados pela cúpula da organização, visando objetivos de longo prazo. No Brasil, predominam as reuniões de fim de ano, cuidando do orçamento, do dinheiro disponível no caixa para a empresa operar no ano seguinte. Não é inerente à cultura nacional a postura estratégica.

Nem o Ministério do Planejamento apresenta uma proposta estratégica para o Brasil sequer a médio prazo, isto dito a mim por um ex-ministro. A estratégia aqui ressaltada seria como na China, onde o falecido Deng Xiaoping, genial arquiteto do progresso chinês, costurou metas ambiciosas de 100 anos à frente. Em torno desta arquitetura futura, antes de morrer o líder Deng conseguiu mobilizar a sociedade chinesa na busca de construir sua invejável caminhada, definindo habilmente o destino daquele país.

Como o Brasil não cultiva o hábito de se direcionar sob uma roupagem estratégica, uma das resultantes desta distorção é o parque empresarial ser tocado ao sabor das instabilidades, tornando-se passivo de ser punido pela História e pelas circunstâncias, evidenciando a carência local de um projeto de futuro.

A estrutura organizacional é outro degrau na construção de empresas extraordinárias, como meio de implantar a arquitetura estratégica. No entanto, não se pode confundi-la com os ridículos e folclóricos organogramas.

A estrutura por mim sonhada lembra a de Canudos. Um grupo de pessoas motivadas, sob a liderança talentosa de Antonio Conselheiro, enfrentou quatro vezes gloriosamente o treinado Exército por meio de uma estrutura ancorada em valores compartilhados dos conselheiristas, gente humilde e analfabeta mas imbuídos da defesa de uma causa maior. A estrutura brotou da cultura, do contexto onde eles existiam e sintonizada com a época e com os desideratos estratégicos do mencionado movimento.

Outro exemplo é o Sendero Luminoso, movimento terrorista peruano. Seu fundador, Abimael Guzmán, brilhante professor de Filosofia da secular Universidad Nacional Mayor de San Marcos, ao ser preso pela polícia do então presidente Alberto Fujimori, disse: "Vocês estão me prendendo, mas não conseguem trancafiar a causa do nosso movimento".

Outra ilustração de estruturas organizacionais eficazes são as escolas de samba, responsáveis pelo maior evento diversional do mundo, o Carnaval. Não é do meu conhecimento que essas escolas tenham organogramas, muito menos os inúteis departamentos de Recursos Humanos ou gerências de Treinamento.

As escolas de samba, espontaneamante, treinam o ano todo, diariamente, e vão ao asfalto no período momino sem chefias martelando os sambistas e, mesmo assim, dão um show de desempenho superior a muitas empresas multinacionais.

Enquanto isso, é usual a existência de milhares de empresas escoradas em pomposos organogramas, em áreas custosas de departamentos de RH, palco de muitos treinamentos em variados atributos ultrapassados das escolas clássicas de Administração. São fracassadas e no mínimo exibem condutas sofríveis.


*O Dr. Cleber Pinheiro de Aquino é professor da USP-Universidade de São Paulo, consultor de alta gestão e coordenador dos 6 volumes de História empresarial vivida – Depoimentos de empresários brasileiros bem-sucedidos (Editora Gazeta Mercantil, 1986)
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REFLEXÕES LÍQUIDAS

Nem tão metafísicas



Na minha aldeia tem um rio, que se chama Pacoti. Rio que me chama, com seu corpo de águas, a gerar os frutos do mar. A ser útero, que tece a vida para nutrir os filhos da Terra com seus peixes, ostras, caranguejos, siris... brotados do seu mangue.

O rio me ensina a compaixão pelos homens, para os quais, mesmo maculando o seu viver, ele continua a doar o que ainda lhe ocorre de dádivas, até à exaustão do seu poder de fazer-se alimento e hóstia para saciar-lhes a fome (as fomes, já que o rio também alimenta a alma com sua beleza, mistério e encanto de um ser urdido da trama das águas e das algas), a aliviar a secura do mundo, a aliviar a sede do meu ser que busca mistérios para construir sua trajetória no caminho das artes, a cumprir um chamado — em mim tão profundo e amplo como o rio na Terra faz sua morada.

Diante do rio tenho um sentir, que o recebe em mim e me faz reconhecer um vínculo que existe entre nós: dois seres cósmicos que se buscam, se conectam e se nutrem... E estamos energeticamente unidos desde sempre e para sempre (somos filhos do mesmo plasma).

O que disso capto, com minha sensitividade, não pode ficar silencioso em mim. Mesmo que, em silêncio, tenha sido gerado, deve nascer para o mundo e a ele ser revelado, pois lhe pertence, como ao rio os peixes, o mangue... a vida.

Certa tarde, a contemplar o rio, refleti (senti): qual seria a minha função enquanto artista, diante de toda essa complexidade cósmica?...

Frente a toda essa grandeza, sentido algum teria o(a) artista existir apenas para criar arte do substrato do seu próprio umbigo, desvinculado(a) do Todo e sem compromisso algum com a evolução do planeta. Uma arte que seria então medíocre, aliciadora de vaidades rasteiras, que não atingiria níveis mais amplos da teia cósmica da qual fazemos parte.

"Seria o(a) artista um filósofo da vida?", pensei. "Não só", concluí. O(A) artista vai além disso, pois pensa, repensa, pressente, sente, ressente, recria e transfigura o mundo e os seres, com a sua criação artística. O(A) artista é antena que capta o sentir do mundo e o codifica, como assim fazem os médiuns, em sua vocação de sondar e escutar os espíritos dos homens desencarnados, sendo para eles um canal de comunicação.
O(A) artista sonda e perscruta não só o espírito dos homens (desencarnados ou não), mas sim o de todos os seres do mundo (dos mundos): perscruta o espírito e a carne do rio, do mangue, dos peixes, das ostras, o espírito e a carne da Terra (hoje em tempos apocalípticos) a sentir dores de parto para (desejamos) parir-se, renovada.

Nós, artistas, devemos nos abrir para que seja revelada em nós a verdadeira e real função norteadora da nossa vocação de xamãs, magos, bruxos, alquimistas catalisadores dos mundos, pois é isso que somos.

E por isso, devemos lapidar nossos corpos (instrumentos-canais) para captarmos o substrato plasmador da Arte. E, desta forma, ampliar nosso alcance, para podermos sair do nosso restrito mundinho egóico e alcançarmos dimensões mais amplas, capazes de nos fazer comungar com o Todo. E perscrutar não só o corpo, nem só o espírito, mas corpo e espírito fundidos. Atingindo, assim, energias cada vez mais elevadas, portentosas e cósmicas, capazes de trazer à Terra a música dos anjos, o léxico dos deuses e espalhar, aqui, a boa-nova que nos venha esclarecer que somos todos um só corpo e um só espírito.

Corpo-Espírito que ora se transforma, transmutando feridas-dores, para alcançar a cura e se transportar para um novo tempo, onde o rio não mais seja maculado pelos homens e sim respeitado, como um ser cósmico que equilibra, alimenta e salva todo o planeta — e, também por isso, não deve ser atingido por nada que viole a integridade de sua vida.
Onde a vida de um filhote de gatinho pé-duro e a de um filhote de homem-pobre não seja menos respeitada, cuidada e protegida do que a vida de um filhote de homem rico.
Um novo tempo, onde já seja realidade a boa-nova de uma Terra onde não haverá mais ricos nem pobres, pois a energia da abundância já será manipulada por todos... A boa-nova, que (nos) diz termos o direito de sermos alegres e felizes, e que a alegria de cada ser, somada uma a uma, gera a alegria do mundo e irradia a grandeza do divino que em nós habita e pulsa.
A boa-nova, que nos vem libertar de limitações e culpas, impostas por crenças erradas em um deus cruel que nos castiga, quando na verdade cada um de nós é co-criador com Ele. Então, criamos cada realidade do que somos e de tudo o que nos rodeia.

Assim sendo, temos o poder de criar toda a boa ou má ventura, conforme a escolhemos. Esta escolha está em nossas mãos...


*Fabiana Rocha Guimarães é poetisa e vive à beira-rio: Pacoti é o seu nome

22 setembro 2007

O QUE SERÁ, SERÁ?

Já parou pra pensar?



Será que é motivo, será que é pretexto?

Você só está vivo ou pertence ao contexto?

Se o que você chama de amor for doença,
Se o que você prega é menor que sua crença,
Será que é racismo ou será preconceito?

Será que é altruísmo ou só mais um defeito?

Se o que você acha que vem da infância
Controla sua vida ou não tem relevância,
Será que é certeza ou somente vaidade?

Será que é riqueza ou é felicidade?

Será que é sentença ou seu ponto de vista?

Se o que você pensa equivale à conquista,
Já parou pra pensar, já parou pra pensar, já pensou... ? (refrão)

Será sentimento ou será que é só sexo?

Se o seu sofrimento é uma dor que tem nexo,
Será que é malícia ou é só distração?

Será que é polícia ou será que é ladrão?

Será que é sincero ou é só fingimento?

Será que o que eu quero é só nesse momento?

Será que é desejo ou será que é vontade?

Se tudo o que eu vejo é a mais pura verdade,
Será que é tristeza ou é só depressão?

Será que é da natureza ou da situação?












*David Duarte é compositor, instrumentista e intérprete de sua época


DAPRAIA FUNNY PAGES

Hora de relaxar


Tudo de uma vez ao mesmo tempo agora (lá em casa!)






por Guabiras

Anderson Lauro







por Denilson Albano

O que foi que o papai ensinou?















por Jefferson Portela





VEJA MAIS
www.guabiras.theblog.com.br/inicial.html

http://fotolog.terra.com.br/denilsonalbano

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FLOR DE MACAXEIRA

Muito além da ilustração


A inusitada caricatura de Drummond criada por Carlus Campos para ilustrar a matéria O poeta gauche de sete faces (publicada em 12 de agosto deste ano no caderno Vida & Arte Cultura do jornal O Povo de Fortaleza) conquistou o primeiro lugar da categoria no 9.º Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco.

Leigos poderiam avaliá-la como uma simples caricatura, tradicional e com a esperada ênfase exagerada nas características físicas de Drummond. Mas o olhar especializado do júri do FIHQ 2007 não teve a menor dúvida em premiá-la, entre mais de 700 trabalhos de artistas de 28 países, com o primeiro lugar da categoria Caricatura do Salão, cuja exposição fica em cartaz até 7 de outubro nas dependências da Torre Malakoff, em Recife (PE).

Quem assina a imagem é Francisco Carlus Campos, o Carlus (ou Carlão, como é conhecido na redação do jornal em que trabalha). Para conseguir o resultado final, o ilustrador e caricaturista resolveu pôr a mão na massa — ou melhor, na macaxeira. Sim, a cabeça de Drummond, na imagem, foi esculpida a partir daquele rizoma também conhecido, Brasil afora, como aipim.

A caixa que guarda a peça recebeu texturas de tinta acrílica, assim como o inusitado "Drummond". Depois, o próprio Carlus fotografou a peça e, no computador, fez as interferências necessárias com o software Photoshop. "Confesso que, quando terminei, ela (a caricatura) me surpreendeu. Aproveitei esse trabalho e mandei-o pro Salão. E aí venceu, né?", conta Carlus, revelando a timidez e poupando predicados à própria arte.

Quem vê tanta humildade numa resposta com certeza se impressiona com o currículo do artista. Carlus Campos já faturou o primeiro prêmio no mesmo Salão, em 2002, também na categoria Caricatura. Este ano, foi finalista com outras três peças inscritas na modalidade Ilustrações Editoriais. Em outras edições do FIQH, recebeu menções honrosas e já obteve destaque em eventos nacionais e internacionais — como o Salão Nacional de Humor de Lajeado (2002) e Le Salon International du Dessin de Presse et d'Humour Saint-Just-Le-Martel (França, 1994).

O sucesso das caricaturas e ilustrações de Carlus deve-se, principalmente, à ousadia do artista, que gosta de sair do trivial na hora de desenhar. "Ultimamente estou experimentando sair um pouco do traço e do papel e começando a usar fotografia. Faço a foto e faço interferências com desenho. É uma procura que a gente faz de sair do senso comum da caricatura, da simples distorção. Procuro levar um caminho mais para a arte. É um diferencial", detalha.

A construção artística de Carlus segue uma tendência de inovação na composição das imagens caricaturais. Ultimamente, nos salões internacionais de humor de Piracicaba e de Pernambuco, alguns dos mais importante do País, os primeiros lugares foram justamente para os trabalhos que buscaram esse tipo de viés surpreendente. O artista toma esta idéia para si por ela romper as barreiras que delimitam o que é um ilustrador e o que é um artista plástico.

"De repente você é um caricaturista tradicional, que só trabalha com bico de pena, mas de repente você é um artista plástico, de outra área, mas que tem uma sacada de um trabalho que é das duas áreas", explica. Na conquista desse primeiro lugar, Carlus Campos faturou R$ 6.000, quantia que já tem destino certo. "Vou sair do vermelho, né? Quem sabe comprar um computador novo?". Para quem quer seguir a carreira de caricaturista e ilustrador, vai aí a dica preciosa do vencedor: "O segredo do caricaturista, do ilustrador de humor, é estar antenado com o que está rolando, tanto em termos de arte como de fatos. Isso é fácil porque a gente tem um mundo na Internet, mas tem que estar sempre descobrindo técnicas, se reciclando", conclui.

PRIMEIROS TRAÇOS
Todo artista mostra que é da área logo na infância. Com Carlus Campos não foi diferente: o artista começou a revelar-se ainda pequeno em Russas, no interior do Ceará. "As lembranças mais remotas que tenho são debaixo de um pé de tamarindo que ficava em frente lá de casa. Quando chovia, ficava aquele chão úmido. Então eu começava a reproduzir monstros de seriados de TV que eu via naquela época", lembra.

Autodidata, Carlus praticou desenho durante toda a infância e adolescência. Profissionalmente, mesmo, ele começou só em 1997, quando chegou ao jornal O Povo como estagiário e, por sua competência, acabou ficando. Atualmente, Carlus estuda Jornalismo. Sem revelar pretensões de ser repórter, mas crendo que o curso pode ajudá-lo a aperfeiçoar o ofício, ele dá um passo além na vida profissional. "Quero que seja algo que venha a acrescentar à minha carreira de artista. Se vou escrever, acho que isso será uma conseqüência, mas, no momento, eu quero é pegar essas informações que estou tendo na faculdade e colocá-las no meu trabalho como artista".


*matéria especial publicada por Guilherme Cavalcante no jornal O Povo


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CRIATIVA E PRODUTIVA

Produção orgânica vertical


Há pessoas que desejam muito cultivar uma horta em casa — ou até na na empresa —, mas não sabem como fazer isso. Nas casas em geral, um espaço que poderia ser destinado à horta acaba sendo revestido com piso de cerâmica ou concreto, não restando terra sequer para um canteiro. Quem mora em apartamento, então, conta com outra dificuldade, além da área restrita: a falta de insolação adequada.

Bem, certamente é possível plantar hortaliças em vasos cerâmicos ou potes de plástico, mas estes recipientes têm o inconveniente de ocupar muito espaço e dispor de pouca profundidade, o que impede o desenvolvimento das mudas. Os vasos de barro, por exemplo, não servem, pois são pesados, trincam e quebram-se com facilidade. Já os vasos de plástico preto, além do custo mais alto, esquentam demais, mostrando-se inadequados para esse tipo de cultivo.

Refletindo sobre estas e outras particularidades, o administrador de empresas Eduardo Walter de Oliveira Borges (foto) e sua esposa, Regina, criaram uma técnica inédita a partir de características inusitadas: a combinação de um espaço vertical com o plantio em vários níveis, utilizando para isso tambores e outros recipientes de plástico reutilizáveis (como bombonas e até garrafas PET).

A primeira experiência realizada na residência do casal, em Jundiaí (SP), resultou na montagem de uma prática horta vertical em uma área de apenas 16 m² (4 m x 4 m) de piso de concreto. Foi o suficiente para produzir e satisfazer o consumo diário de hortaliças de sua família, com seis pessoas.

“No decorrer de algum tempo, fazendo várias experiências, aprendemos a ter sucesso”, diz Borges. Ao divulgar os resultados, o casal percebeu que o número de pessoas interessadas no cultivo de uma horta era maior do que imaginavam. "E elas sempre esbarravam nestas mesmas dificuldades: falta de terra para uma horta tradicional e falta de idéias para resolver o problema de outro jeito”, conta o administrador. Resultado: o invento deles tornou-se marca registrada.

Sem dúvida, a Horta Vertical Orgânica pode ser uma solução prática e eficiente até para quem tem apenas a sacada do próprio apartamento, por exemplo, e quer produzir e consumir suas próprias hortaliças. Porém, mais importante do que a satisfação de um desejo talvez seja a constatação de que este sistema pode solucionar um dos grandes problemas contemporâneos — a incerteza da procedência e qualidade dos vegetais adquiridos nas feiras, mercados e supermercados.

Os que aprenderam a técnica estão se abastecendo com legumes, verduras e temperos tenros e saborosos, livres de quaisquer agrotóxico, composto químico ou bactérias nocivas. E os benefícios de sua adoção não se restringem apenas aos frutos de uma alimentação mais saudável, mas tornam possível inclusive o aspecto terapêutico de uma prática extremamente agradável, quase em desuso na região urbana, que consiste em lidar com a terra, produzir e colher seus próprios alimentos.

A seguir, mais sobre o funcionamento da Horta Vertical Orgânica:

ESPAÇO OCUPADO E RENDIMENTO
A unidade produtora (foto) mede 1 m de altura por 40 cm de diâmetro e permite a produção de até 25 pés de hortaliças — o suficientes para o consumo mensal de uma pessoa, desde que novas mudas sejam replantadas imediatamente após a colheita para consumo.

TEMPO DISPENDIDO
O tempo necessário para a manutenção de uma horta já implantada, para uma família de seis pessoas, é de no máximo 20 min diários, em média, para regar, colher, semear, transplantar e cuidar da compostagem (adubo). Agora, apreciar e mostrar aos amigos — isso demora um pouco mais!

IMPLANTAÇÃO
Cada unidade produtora igual à da foto tem um custo inicial de montagem aproximado de R$ 50, mas poderá ser reaproveitada indefinidamente. Outros tipos de unidades têm custos menores.

CUSTO DE MANUTENÇÃO
Após a implantação, os custos passam a ser mínimos, em média R$ 8 por mês para uma horta que abastece uma família de seis pessoas.

CONSUMO DE ÁGUA
Uma das vantagens da Horta Vertical é a economia de água — apenas o suficiente para manter a terra úmida. A perda pela evaporação é muito menor do que em uma horta convencional.

FAZ SUJEIRA?
Após a montagem das unidades não haverá sujeira.

A COMPOSTAGEM CHEIRA MAL?
A compostagem, quando realizada conforme as instruções, não deverá produzir qualquer mau cheiro e pode ser realizada no ambiente doméstico.

O QUE PODE SER CULTIVADO?
Alface, chicória, rúcula, agrião, almeirão, tomate, beterraba, berinjela, couve, salsa, salsinha, escarola, pimentão, cenoura, brócolis, orégano, hortelã, sálvia, poejo, manjerona, manjericão, tomilho, rabanete, mostarda, morango, maracujá, uva etc.

MANUAL DE INSTRUÇÕES
Pode-se adquirir o Manual da Horta Vertical ® Orgânica completo pelo e-mail contato@hortavertical.com.br. Nas versões impressa ou digitalizada, apresenta fotos coloridas e todas as instruções para a montagem e cuidados de uma horta. Os responsáveis por escolas ou projetos comunitários que atendem pessoas carentes, quando devidamente identificados, podem receber o Manual gratuitamente por e-mail.

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11 setembro 2007

SEM ROLHA

Enochatos


No mundo dos vinhos distinguimos, entre as diversas pessoas ligadas ao vinho, o enólogo — que estuda, entende e normalmente é um profissional do vinho trabalhando na sua produção —, o enófilo — que é o amante do vinho, degustador e apreciador, com conhecimentos ou não sobre o assunto —, e o sommelier — que também é um profissional do vinho, encontrando seu lugar nos restaurantes, onde ajuda-nos a escolher o melhor rótulo para uma perfeita harmonização entre seu cardápio e sua carta de vinhos. Mais recentemente, estão aparecendo em profusão os enochatos. Não é difícil identificá-los...

Cada vez mais, este novo termo circula entre os amantes do vinho, designando um espécime em aparecimento que promete grande proliferação no nosso meio. O enochato é um sujeito que toma vinhos com a gente mas abusa, quando tenta mostrar seus conhecimentos adquiridos recentemente, em cursos não muito fidedignos, ou em leituras de revistas especializadas. Com estas munições, aproveita todas as oportunidades para vomitar determinados jargões com pose de expert, prejudicando todo o ambiente simples e agradável que deve ser uma sessão de (degustação de) vinhos.

Você, com certeza, conhece alguns. São facilmente identificáveis e quando falam de vinhos, o fazem de maneira sofisticada, arrogante, demonstrando pouco conteúdo e muita chatice. Nestas demonstrações, saem afirmações pedantes, principalmente quando se referem ao aroma dos vinhos: “Lembra couro de sela”, “Sabe a rabo de raposa molhado”, “Tem algo de suor de cavalo”, “Parece grama cortada” e por aí vai esta seqüência de jóias pedantes e esdrúxulas. Quando falam dos processos de produção do vinho, utilizam expressões tais como: “fermentação malolática”, “maceração carbônica”, “chaptalização” “micro-oxigenação”, “batonage” e outros jargões muito técnicos e pouco entendidos pelos companheiros de mesa. O enochato é um chato mesmo.

Acho que antes de ser um enochato, ele já era chato por natureza em qualquer assunto, querendo ser "o" professor ou "o" entendido — e, no fundo, todo mundo sabe que não sabe nada, pois os que sabem alguma coisa são humildes e modestos. Nesta nova fase dos chatos, em que começaram a gostar de vinho, houve apenas uma ampliação no espectro das suas chatices. São esnobes por natureza, existem com diversas roupagens e deixam-se facilmente identificar. Numa mesa, são eles que vão contradizer os conhecedores de vinho presentes. Além disso, pelos aromas e cores do vinho, são capazes de identificar não apenas a região e a vinícola, mas até a cor da roupa que o vinicultor usava na ocasião em que as uvas foram colhidas e o tamanho do pé do pisoteador das uvas... São além de chatos, esnobes, predicados estes que os transformam também em bobos.

Os leitores que me perdoem este assunto chato, mas é que me deparei outro dia com um espécime desta natureza e não sei ficar calado, principalmente quando acho que posso ajudar um companheiro de vinhos a conviver melhor em suas reuniões enogastronômicas, onde eu também estiver presente.

Mas deixemos os enochatos de lado — eles que vão espalhar chatices em outras plagas! — e vamos nos deliciar com os autênticos prazeres da boa mesa (como vinhos, comidas, harmonizações perfeitas e bons papos, prenúncios de grandes prazeres para depois da mesa — como licores, cognacs, charutos e outros que tais). Saudações vínicas!


*Jorge Cals Coelho é enogastrônomo e escreve aos sábados a coluna Boa mesa (jornal O Povo de Fortaleza/CE)


SAIBA MAIS
http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/boamesa

27 agosto 2007

QUARTA CAPITAL

Fortaleza: cidade de risco


Fortaleza é uma cidade sem lei. Sua forma urbana comprova esta assertiva com ruas e avenidas implantadas sem obediência de plantas oficiais. Assim, crescem edificações em locais impróprios ou "proibidos". Do ruído excessivo e destruição acelerada da natureza, nem se fala. É fácil constatar essas agressões na orla da cidade, no aterro de lagoas e várzeas e muitas construções irregulares. Tudo isso faz de Fortaleza uma cidade em situação de risco. O que fazer para minorar ou corrigir essas e outras irregularidades que comprometem o bem-estar e a qualidade de vida?

Na América Latina, especialmente no Brasil, as cidades cresceram muito, em proporções descomunais. No início, os especialistas denominaram de "inchaço" esse crescimento desmesurado das cidades. Não era só a forma urbana que se modificava: cidade é feita de gente. Gente que trabalha, come, bebe, estuda, se movimenta, se diverte, gera conflitos, contrai doenças. Toda a dinâmica da vida está presente nas cidades. Com uma enorme gama de problemas, a cidade espelha também a realidade da região ou país onde ela está inserida.

A falta de terra no campo para plantar, associada à ausência ou insuficiência de políticas públicas de apoio aos pequenos produtores tem ocasionado um intenso fluxo demográfico do campo para as cidades. No caso brasileiro, mais de 82% da população do País vive em cidades — e Fortaleza é uma delas. O crescimento urbano não seria problema, se as cidades fossem capazes de atender à demanda dos que partem em sua direção.

Muitos se deslocam à procura de serviços não-oferecidos no interior. Saúde, educação e comércio são os principais. Parte expressiva da população que chega à cidade, permanece nela. Mesmo não sendo devidamente acolhida, busca acomodar-se a seu modo, fazendo de sua solução mais um problema urbano. A cidade, quando equipada e organizada, oferece condições excelentes para a reprodução da vida.

Não é o caso de Fortaleza. Nossa cidade apresenta um elevado nível de carência no que tange ao atendimento de demandas coletivas e ao conforto urbano. Este quadro de carências, tão presentes em nossas cidades, cria situações delicadas — como as do eufemismo que diferencia as favelas das áreas de risco. Ambas são carentes. Acrescentem-se a prepotência dos ricos, certos de que podem fazer o que querem no uso do solo urbano, além das extensas áreas periféricas, ocupadas de forma indevida por loteamentos clandestinos, não submetidos às normas exigidas pelos órgãos competentes da gestão municipal.

Este quadro catastrófico também advém da negligência de gestores, da forte pressão de grupos corporativos e/ou da corrupção. São inúmeros os riscos a que fica submetida a população. A ciência contemporânea, face aos inúmeros problemas que afetam a sociedade, desenvolveu um campo específico denominado Gestão de Riscos. Na cidade, os riscos estão intimamente ligados às relações travadas entre sociedade e natureza.

O descontrole urbano revela o conteúdo social do crescimento da cidade. A gestão de riscos na perspectiva de identificação de problemas e adoção de políticas públicas envolve vários sujeitos sociais, especialmente técnicos, estudiosos, sociedade civil e governos. Nas cidades, os riscos podem ser provocados por catástrofes naturais, violência, colapsos econômicos, empobrecimento em demasia da população, ocupação indevida, excesso de emissão de gases tóxicos, acidentes industriais. A elaboração do Plano Diretor Urbano é um momento privilegiado para o estabelecimento de políticas públicas de gestão de riscos.

O caos urbano tem que ser encarado como socialmente produzido. Vai longe o tempo em que catástrofes e situações calamitosas eram encaradas como castigo divino. Deus, e não a sociedade, era culpado por tudo. Em seu livro Os riscos, a geógrafa francesa Yvette Veyret afirma que, na França, a origem da idéia de "riscos" data de 1775 e que a preocupação inicial foi a grande catástrofe que destruiu parte expressiva de Lisboa.

Diante dessa calamidade, o filósofo Jean-Jacques Rousseau afirmou que, se foram tantos os mortos pelo terremoto, maremoto e incêndio ocorridos naquele ano, a culpa foi dos homens e não de Deus. Foram eles que se instalaram onde a terra tremeu. Dizia ainda que, se o terremoto tivesse acontecido no deserto, não haveria vítimas.

Como não vivemos num deserto, o que fazer para reduzir os riscos em Fortaleza?


*José Borzacchiello da Silva é Doutor em Geografia e professor do Curso de Geografia da UFC-Universidade Federal do Ceará


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15 agosto 2007

COTIDIANO AMARO

Somente a lama


Se quiser fumar, eu fumo
Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém
Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-choro de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua ela pode ver o movimento dentro da igreja, os pastores já no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar. Na entrada, uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que toca. Então ele surge.

Bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se 10 anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa ao lado e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também
"Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!!" A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com o bolero. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume da música mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. "Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens junto com elas para o Inferno!!!"

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar
Ele era um garoto quando ela o conheceu. A paixão foi instantânea, mútua... e avassaladora. Semanas depois seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no Centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado dos seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios — que não eram poucos — enganaram, roubaram e assaltaram. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas.

Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar
Foram 8 anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser dele, apenas dele, durante toda a vida. No fim da noite, ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar com os amigos, bebendo e jogando. Uma noite, porém, não o encontrou lá.

Procurou-o pelas ruas, mas lá ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez mas, nos autos, consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranqüila e cantarolando um bolero. Ao lado dos dois corpos ensanguentados.

Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também
Quinze anos depois, foi libertada. Quinze anos no inferno. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava. Depois de muito perguntar foi que soube onde ele estava. Rumou para lá. Era uma modesta igreja, que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão.

Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do final ela levantou-se, interrompendo o culto e, de dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles 15 anos. Quinze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Sequer lhe escrevera um mísero bilhete. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis e de sua esposa, todo o seu passado sombrio.

Quando ela fez uma pausa ele aproveitou e disse, em voz alta, para todos ouvirem, que ela estava possuída por Satanás. Nesse instante os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela gritou e se debateu, mas foi inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em 15 anos não chorara, enquanto os fiéis louvavam a glória do Senhor Jesus.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém
Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, loucamente, mas a outra simplesmente não conseguia perdoá-lo. Durante 40 dias e 40 noites amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. O inferno do presídio era pouco, perto daquela eternidade inimaginável de torturas. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo.

E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa-nova que soprava alegre em seu espírito, feito uma brisa de Verão. Mas quando chegou à porta do salão, foi enxotada pelos próprios fiéis que, ajudados pelos seguranças, levaram-na para fora e, no beco ao lado, a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu aproxima-se, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: "Pra mim você já morreu".

Se eu errei, se pequei
Pouco importa
A voz do garçom chega novamente, misturando-se às lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre clientes indo embora, 10 anos se passam rapidamente em sua mente, 10 anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente essa noite. Nesse instante um casal entra, observa o interior do recinto, dá meia-volta e sai, com jeito de assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha mais e vai embora.

Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também
*Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra — a 3.ª pedra do Sol
A música “Lama” (letra usada no texto) é de autoria de Aylce Chaves e Paulo Marques, na interpretação de Núbia Lafayette


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05 agosto 2007

MISTÉRIOS EXISTENCIAIS

Sobre o "cuidado de si"


O filósofo e professor francês Michel Foucault (15/10/26 — 26/06/84, foto) legou-nos uma das mais belas profecias sobre o "cuidado de si", compondo uma ética política sobre a história da sexualidade — incluída a morte. A problemática da governamentalidade fôra retomada em seu Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1984): "Gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante 10 anos".

Foucault veio a falecer em 25 de junho de 1984, quando seu estado de saúde não mais lhe permitia prepará-los. Salvo engano, nenhum sistema de pensamento obteve, em tão pouco tempo, repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de racionalidade simbólica, a partir de temas como a crítica da razão governamental, a analítica do poder, sobre as relações "espaço-tempo" e "poder-saber", a "estética da existência" e o "experimento moral", e mesmo entre o "império do olhar" e a "arte de ver". É também impossível esquecer a tese segundo a qual "a visibilidade é uma armadilha", numa sociedade que "canceriza" a vista através do poder disciplinar.

O estudo dedicado ao "cuidado de si" teve como referência Alcebíades (451-404 a.C.) — general grego retratado em 1865 pelo pintor, desenhista e escritor brasileiro Pedro Américo (1843-1905). Nele, as questões dizem respeito ao "cuidado de si" com a política, com a pedagogia e com o conhecimento de si próprio. Sócrates recomendava a Alcebíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois "com 50 anos, seria tarde demais". Isso, numa relação que diz respeito talvez ao "enamoramento" (na acepção do sociólogo italiano Francesco Alberoni) e que não pode "ocupar-se de si" sem a ajuda do Outro.

Contudo, é no discurso dedicado à formação da "hermenêutica de si" (1981-1982) que Foucault pretendeu estudá-lo "não somente em suas formulações teóricas, mas analisá-lo em relação ao conjunto de práticas que tiveram uma grande importância na Antigüidade clássica ou tardia". Certamente porque, para ele, estes princípios de "ocupar-se de si", de "cuidar-se a si mesmo" estão associados.

O exercício da morte, tal como evocado pelo filósofo estóico Sêneca (Lucius Annaeus Seneca, nascido em Córdoba, Espanha, em 4 a.C.), consiste em viver a longa duração da vida como se esta fosse tão curta quanto um dia e viver cada dia como se a vida inteira coubesse nele: todas as manhãs, deve-se estar na infância da vida, mas deve-se viver toda a duração do dia como se a noite fosse o momento da morte. "Na hora de ir dormir", afirma Sêneca em sua Carta 12, "digamos com alegria e com um sorriso: 'eu vivi'."

Isto quer dizer que, através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a askesis (ascese, a disciplina de contenção da luxúria) necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca-nos a questão da verdade — da verdade do que se é, do que se faz e do que se é capaz de fazer — no cerne da constituição do sujeito moral.

E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é, ainda e sempre, definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo, embora tal soberania amplie-se numa experiência onde a relação consigo mesmo assume a forma, não somente de uma dominação, "mas de um gozo sem desejo e sem perturbação".

Neste lento desenvolvimento da arte de viver sob o signo do "cuidado de si", os dois primeiros séculos da época imperial podem ser considerados como o ápice de uma curva, uma espécie de Idade de Ouro na cultura de si — sendo subentendido, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais, bem limitados em número, que eram portadores de cultura e para os quais uma techne tou biou (uma "arte da vida") podia ter um sentido e uma realidade — ou seja, "aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar".

Ademais, é conhecida a amplitude tomada em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar às outras ocupações. O indivíduo poderia, desse modo, tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de todo um vocabulário para designar as diferentes formas que o cuidado de si deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. "Apressa-te, pois, para o objetivo, dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível".

Portanto, é possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Dizia Epicuro (Epicuro de Samos, filósofo grego do período helenístico que propunha uma vida de contínuo prazer como chave para a felicidade): "Nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para ocupar-se com a própria alma". De sorte que devem filosofar o jovem e o velho — este para que, ao envelhecer, seja jovem em bens pela gratidão ao que foi, e o outro para que, jovem, seja ao mesmo tempo ancião pela ausência de temor pelo futuro.

"Aprender a viver a vida inteira" era um aforismo citado por Sêneca que nos convida a transformar a existência numa espécie de exercício permanente. E mesmo que seja bom começar cedo, é importante jamais relaxar, mas há uma advertência: "É preciso tempo para isso". É um dos grandes problemas dessa cultura de si o fixar, no decorrer do dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas diversas: podem-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de recolhimento para o exame daquilo que se fez, para a memorização de certos princípios úteis, para o exame do dia transcorrido.

O exame matinal e vesperal dos pitagóricos encontra-se, sem dúvida com conteúdos diferentes, nos estóicos. Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio* fazem referência a esses momentos que se devem consagrar ao "voltar-se para si mesmo". Pode-se também interromper, de tempos em tempos, as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Musonius (Musonius Rufus, filosófo estóico romano que viveu no Primeiro Século), dentre outros, recomendava vivamente: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida e familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional.

É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, ao trabalho filosófico (ou, como Spurima, belo jovem romano citado no Filocolo de Giovanni Boccaccio que desfigura a própria face para não ser conspurcado pelo mundo) na calma de uma existência agradável, "à posse de si próprio".

Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação — tão medida quanto possível —, as necessidades. Existem ainda as meditações, as leituras, as anotações que se tomam sobre livros ou conversações ouvidas — e que mais tarde serão relidas —, a rememoração das verdades que já se sabem, mas das quais convém apropriar-se ainda melhor.

Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de "anacorese em si próprio": trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se aqui um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo, que não constitui um exercício da solidão, mas sim uma verdadeira prática social. E isso, em vários sentidos.

Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma. Tal iniciativa encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a um Outro, o qual adivinha-se que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito. E é também um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a um Outro — ou quando se recebem, com gratidão, as lições que ele nos pode dar.

Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do Outro inserir-se em relações preexistentes, às quais dá uma nova coloração e um calor maior. O cuidado de si — ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos — aparece então como uma intensificação das relações sociais. Neste particular, Sêneca dedica um consolo à sua mãe no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores.

O "cuidado de si" aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de "serviço da alma" que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o Outro e de um sistema de obrigações recíprocas.


*Ubiracy de Souza Braga é sociólogo, cientista político e professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE)


*Marco Aurélio Antonino (121-180) pertenceu a uma família de aristocratas e muito cedo perdeu os pais. Foi então adotado pelo tio, Aurélio Antonino, que mais tarde tornou-se imperador, nomeando-o seu sucessor. Aos 11 anos, conheceu o estoicismo e adotou hábitos de vida austera. Após sua formação, passou a colaborar intimamente com o imperador, seu pai adotivo, ocupando o cargo de cônsul por três vezes. Em 161, Aurélio Antonino morre e Marco Aurélio torna-se imperador.

O governo de Marco Aurélio, que se estendeu por quase 20 anos (até sua morte), foi perturbado por guerras sangrentas e prolongadas, com as conseqüentes dificuldades internas. Ele conseguiu enfrentar todas as dificuldades, tendo sido excelente guerreiro e administrador e, ao mesmo tempo, humanizando profundamente o exercício do poder. Nos poucos momentos livres que lhe permitiam os encargos de governo, recolhia-se à reflexão filosófica e escrevia seus pensamentos em língua grega. Com isso, tornou-se o terceiro e último expoente do estoicismo romano.

O conteúdo de suas Meditações (como ficaram conhecidos seus pensamentos), é a filosofia estóica, mas um estoicismo distante das doutrinas de Zenão (Zenão de Eléia — 495 a.C.-430 a.C. — nasceu em Eléia, Itália. Discípulo de Parmênides, defendeu de modo apaixonado a filosofia do mestre. Seu método consistia na elaboração de paradoxos. Deste modo, não pretendia refutar diretamente as teses que combatia, mas sim mostrar os absurdos nelas expressos e, portanto, sua falsidade. Acredita-se que Zenão tenha criado cerca de 40 destes paradoxos — todos contra a multiplicidade, a divisibilidade e o movimento, que nada mais são que ilusões, segundo a escola eleática. Aristóteles o considera o criador da dialética).

As especulações físicas e lógicas cedem lugar ao caráter prático dos romanos e ao aconselhamento moral. Em Marco Aurélio, como também nas máximas de Epicteto, a questão central da filosofia é o problema de como se deve encarar a vida para que se possa viver bem. Este tema é tratado com grande esforço e interesse por Marco Aurélio, homem religioso e pouco interessado na investigação científica. Em seus pensamentos, são bem visíveis as tendências ecléticas. Ele não hesita em acolher posições de sabedoria, que vêm até mesmo de Epicuro.

Uma das características que mais impressiona o leitor de suas Meditações é a insistência com a qual é tematizada e afirmada a "caducidade" das coisas: "Quão rapidamente, num segundo, desvanecem todas as coisas, os corpos no espaço, e a memória desses no tempo! E o que são todas as coisas sensíveis e, especialmente, as que nos seduzem com a voluptuosidade ou nos amedrontam com a dor ou são exaltadas pelos homens! Quão vis são, desprezíveis, horríveis, corrompidas, mortas!".

Marco Aurélio também rompe com o antigo Pórtico — a palavra estóico vem do grego stoá, que significa pórtico — quando distingue no homem o corpo, que é carne, a alma, que é sopro ou pneuma (ar) e, superior à própria alma, o intelecto ou mente. Enquanto o antigo Pórtico identificava o princípio dirigente do homem com a parte mais elevada da alma, Marco Aurélio o põe fora da alma e identifica-o com o intelecto. Por essa razão, o estoicismo de Marco Aurélio freqüentemente apresenta discrepância em relação às suas origens gregas. Por certo, a verdadeira chave para a compreensão das oscilações de Marco Aurélio deve ser procurada menos em suas características psicológicas do que nas circunstâncias históricas em que viveu. E, embora sua colaboração tenha sido de grande importância, ele não chegou a ser um pensador original.


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(Cena de 300, filme inspirado na graphic novel épica do norte-americano Frank Miller que aborda romanceadamente a estóica resistência de Esparta às hostes do imperador persa Xerxes, aqui derramando-se sobre o abismo)

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