06 junho 2013

RESOLVENDO PROBLEMAS


Empreendedorismo
social decola no Japão




Após duas décadas de crise, cada vez mais japoneses querem fazer
negócios para o bem da sociedade e não apenas por dinheiro

Após duas décadas de paralisia econômica e desastres naturais em série, cada vez mais japoneses acreditam que o empreendimento social é a melhor maneira de reconstruir sua sociedade. Masami Komatsu, de 37 anos, é um deles. Fundou sua companhia de investimentos Music Securities em 2001, poucos anos depois da crise bancária japonesa de 1998. “Não havia mais investimentos em setores vulneráveis como música, artesanato ou produção de saquê”, a bebida tradicional japonesa, disse à IPS.

Então, “fizemos o possível para que as pessoas começassem a investir no que pessoalmente eu considerava importante e que deveria ser mantido vivo”, descreveu Komatsu. No entanto, a Music Securities não funciona com doações. É um fundo de investimento com retornos que atualmente ficam entre os de melhor desempenho do país, manejando cerca de 33 bilhões de ienes (US$ 352,5 milhões) de aproximadamente 50 mil acionistas, entre eles algumas das empresas mais ricas do Japão.

Em 2009, Komatsu criou o primeiro fundo de microfinanças do Japão, que permitiu às pessoas investirem em projetos de microcréditos no Camboja. Atualmente, a Music Securities é a maior financiadora privada das empresas de reconstrução que sofreram perdas devido ao terremoto e ao tsunami de 11 de março de 2011.

“Um mês depois da catástrofe, visitamos a área e sugerimos nosso plano aos líderes das empresas locais”, contou Komatsu. “Tivemos a sensação de que tínhamos de fazer algo. Não nos oferecemos como voluntários, mas sim usar nossa empresa já existente para resolver os problemas das áreas danificadas”, explicou. Até agora, mais de 25 mil pessoas investiram no total mais de US$ 1 bilhão no fundo do tsunami.

A Music Securites se adiantou ao seu tempo. Somente em 2005 a Universidade Keio, de Tóquio, uma das mais antigas do Japão, começou a usar o conceito de empreendimento social, um negócio gerador de ganhos cujo objetivo não é o lucro pessoal, mas o cumprimento de um objetivo social. E nos últimos anos o fenômeno parece ter ganho impulso rapidamente.

Em 2011, Fukuoka, na ilha japonesa de Kyushu, foi a segunda cidade do mundo a ser nomeada “cidade de empresas sociais” por difundir o conceito do empreendimento social em todo o continente asiático. Em Bangladesh, Mohammad Yunus, prêmio Nobel que desenvolveu a ideia do empreendedorismo social, inaugurou o primeiro centro mundial de empresas sociais na sede da Universidade de Kyushu.

Segundo o Ministério da Economia do Japão, a quantidade de empresas sociais passou praticamente de zero em 2000 para mais de oito mil em 2008, que no conjunto empregam cerca de 320 mil pessoas. Não há dados sobre o número atual, mas tudo indica que o fenômeno aumentou ainda mais desde então. Por exemplo, na Escola NEC-ETIC de Empreendimento Social de Tóquio, o número de candidatos cresceu cinco vezes desde 2010.

Desde o começo, Nana Watanabe foi uma das forças motoras do empreendedorismo social no país. Por intermédio de seu trabalho como jornalista e fotógrafa independente, entre 2000 e 2005 apresentou ao público japonês mais de cem empreendedores sociais mediante várias publicações. “O Japão ficou sem modelos para seguir após o estouro da bolha econômica. Isso levou a um estado geral de depressão. O país não sabia o que fazer”, contou.

Em 1999, “descobri a nova onda do empreendedorismo social, que surgia entre os estudantes de elite nos Estados Unidos. Imediatamente pensei: é disto que precisamos”, explicou Watanabe à IPS. Em 2011, ela fundou o capítulo japonês da Ashoka, uma organização não governamental internacional que apoia o trabalho de aproximadamente dois mil empreendedores sociais em 60 países.

“O empreendedorismo social é, definitivamente, um fenômeno emergente, e o motivo é simples: as pessoas estão cada vez mais decepcionadas com as grandes empresas do Japão. Os jovens de agora viram seus pais sacrificarem suas vidas em troca da promessa de um emprego por toda a vida, só que foram demitidos nos últimos anos”, afirmou Watanabe. Cada vez mais jovens preferem iniciar um negócio por conta própria, acrescentou.

“O mito da eficiência do governo japonês ruiu”, declarou Toshi Nakamura, líder do Kopernik, um site que oferece soluções tecnológicas para problemas em comunidades rurais de nações em desenvolvimento. “Até meados da década de 1990, as pessoas tinham fé nos tecnocratas do governo para conduzir a economia e proporcionar serviços sociais”, pontuou à IPS. “Mas isto já não acontece, e a população se deu conta de que vários assuntos sociais têm que – e podem – ser abordados pelos cidadãos comuns”, acrescentou Nakamura.

Não é apenas a desilusão com as empresas tradicionais ou o governo que inspira os japoneses a participarem das empresas sociais. “Depois da crise financeira, vimos uma volta aos valores tradicionais”, opinou o analista empresarial Kumi Fujisawa. “As pessoas não buscam lucro no curto prazo, preferem se concentrar em perspectivas de longo prazo. Há um regresso ao idealismo, as pessoas querem contribuir novamente com a sociedade”, ressaltou.

Pesquisas encomendadas pelo governo indicam que o valor do trabalho começou a ser reconsiderado no Japão desde o começo da crise financeira. A quantidade de pessoas que responderam que desejam trabalhar “para contribuir com a sociedade” aumentou drasticamente depois do estouro da bolha acionária, passando de 46% para 64% em 1991. Esse índice atualmente supera os 65%. “Este é o resultado de uma nova atitude de olhar para dentro”, afirmou Hirofumi Yokoi, presidente da Fundação Akira, uma das organizações mais influentes do país, que desde 2009 incentiva o empreendedorismo social.

“A crescente incerteza e ansiedade em relação ao futuro levou a uma mudança de comportamento. Para muitos jovens japoneses, o empreendimento social não é apenas uma maneira de solucionar problemas econômicos, sociais e ambientais. Também é uma maneira de enfrentar desafios pessoais”, afirmou Yokoi. “Terão de trabalhar como parte de uma comunidade e desenvolver a confiança em si mesmos, a amizade, a concentração, a autorrealização e a inclusão social”, acrescentou.

Watanabe disse à IPS que “é verdade que as pessoas começam a reconsiderar o valor do trabalho, mas a maioria ainda carece da coragem para agir a respeito. O empreendedorismo social, definitivamente, está decolando, mas temos que ser cautelosos e não superestimar seu êxito”. E acrescentou que, “primeiro é preciso que as pessoas sejam muito criativas. Depois, neste momento está muito na moda dizer que alguém iniciou uma empresa social. Mas, no fim, a maioria ainda busca segurança e dinheiro”, concluiu a fotógrafa. 



*Daan Bauwens é repórter do IPS-Inter Press Service / Envolverde 
(conteúdo publicado em http://envolverde.com.br)

22 maio 2013

OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA NÃO!


"É imprescindível mudar 
a consciência social e o 
modelo econômico que 
no dia a dia nos arruína"

A sociedade tem uma "batata fervente" nas mãos
não usufrui do verdeiro sentido dos conceitos de
  "liberdade", "sustentabilidade" e "democracia"




"Temos que consumir somente aquilo de que precisamos e pagá-lo com o dinheiro de que dispomos" é o atual mais bem-acabado brado de ecointeligência, convivência cidadã e libelo pela salvaguarda plena dos direitos humanos.


LEIA MAIS
http://forum.outerspace.terra.com.br/index.php?threads%2Fespanhol-%C3%A9-amea%C3%A7ado-de-morte-por-criar-l%C3%A2mpada-que-n%C3%A3o-queima.332943%2F



20 maio 2013

68% DOS BRASILEIROS USAM



Genéricos*






As primeiras experiências médicas escritas encontram-se nos seis papiros egípcios. Os remédios (do latim, remedium-ii) foram inicialmente mencionados no papiro de Ebers, redigido em 1550 a.C., descoberto (em 1862) em Tebas (antigo Egito), por Georg Ebers, e atualmente guardado em Leipzig. É o mais extenso, mais completo e mais bem preservado. 

Mas pulemos para 1999, quando os remédios genéricos foram oficializados no Brasil. 


Seriam remédios tomados genericamente inespecíficos? Abrangeriam várias doenças? Seria um tipo (gênero) especial de produção de medicamentos? 

Carlos Drummond de Andrade dizia ser vã a luta com as palavras. Discordo e creio até ser fascinante com elas lutar. No caso destes símplices (drogas que compõem medicamentos), sobressai a impropriedade do termo, pois exato seria chamá-los "específicos". 

Ou próprios ou antiácidos ou antialérgicos etc. Genéricos aqui são cópias de remédios cujas patentes expiraram 20 anos após sua concessão. Custam em média 35% menos porque não implicariam mais pesquisas onerosas previas à sua liberação oficial para uso in anima nobilis (humanos). 

São comprados por 68% da população brasileira. Há três tipos: autogenéricos, similares, ou “assimiláveis”. Os primeiros devem ser cópias verdadeiras do princípio ativo (medicamento de referência), com a mesma forma galênica, mesma dosagem, e mesmos excipientes. Estes lhes conferem consistência, gosto e cor.

Os similares são idênticos mas com excipientes diferentes. Nos “assimiláveis”, o princípio ativo tem outra forma química daquela marca, embora com a mesma dosagem. Nestes também são outras as substâncias inertes incorporadas. 

Devem ter, comprovadas, idênticas equivalência farmacêutica, e biodisponibilidade, i.e., semelhantes tempos de absorção e eliminação. Serão igualmente intercambiáveis pelos remédios de marca.

Os ingredientes de base na composição do princípio ativo – elementos fundamentais da prescrição – proveem, em 80% dos casos, da Índia, da China ou do Brasil. Os demais originam-se da França e outros países europeus.

No Brasil, a Lei dos Genéricos foi efetivada durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo então ministro (leigo) da saúde, também antinordestino José Serra, mercê da Lei 9.787, de 10 de fevereiro de 1999. 

Simultaneamente, a mesma foi regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo esta, 10 anos após aquela providência legislativa, 83 laboratórios produziam genéricos de 104 classes terapêuticas, empregando 337 substâncias ativas.

Para alguns médicos franceses, em hebdomadário (semanal) recente (abril, 2013), sua eficácia nem sempre equivale àquela do original. Será? Seria? E por que uma paciente nossa, com retocolite ulcerativa, nos disse melhorar muito mais com os genéricos?

Como toda medicação, esta só deve ser prescrita por médicos, e só os doutores podem eventualmente substituí-los, ou farmacêuticos, mas nunca os balconistas. Curiosamente, os gregos usavam a palavra pharmacon para designar "remédio" -- a qual também significa veneno!

Talvez os leitores apreciem estas considerações genéricas, sobre drogas, algo diferente.


*Pedro Henrique Saraiva Leão é médico e 
secretário-geral da Academia Cearense de Letras.
Conteúdo publicado em www.opovo.com.br


17 maio 2013

MENOS ÁRVORES, MENOS ÁGUA


Desmatamento ameaça 

energia de Belo Monte

Se a perda de vegetação nativa atingir 40% da Amazônia, em 2050
a capacidade de produção de energia em Belo Monte cairá para 25%

Em plena mudança do clima global, o valor das florestas para o equilíbrio do planeta ainda é contestado. Mas um estudo publicado nesta semana por pesquisadores brasileiros na revista americana PNAS demonstra que, sem as matas tropicais, nem mesmo a produção de energia elétrica pode se sustentar.

A pesquisa comprova que, quanto mais floresta, maior será o potencial de usinas hidrelétricas localizadas na região amazônica. Isso porque a relação entre as florestas e a chuva é dinâmica: as árvores liberam vapor d’água, aumentando a precipitação. Menos árvores, menos água para gerar energia.
Focado na usina de Belo Monte, o trabalho considerou a influência que a floresta tem na produção de chuva e como o desmatamento pode reduzir esse potencial. Nos níveis atuais de perda florestal, o volume de chuva é entre 6 e 7% menor do que com a cobertura florestal completa.
Num cenário ainda pior, onde a perda de vegetação nativa atinja 40% do bioma, em 2050, o volume de chuva seria reduzido de 11 a 15%, fazendo com que a capacidade de produção de energia em Belo Monte caia a 25% da capacidade máxima da planta ou a 40% das próprias projeções da usina.
Por outro lado, se houvesse uma recuperação de tudo o que já foi desmatado na Amazônia, a produção de Belo Monte chegaria à sua capacidade máxima instalada, de 11,2 mil megawatts. Belo Monte foi projetada para ser a terceira maior usina do mundo e suprir 40% do crescimento do Brasil em produção de eletricidade até 2019.
“Acabar com o desmatamento deveria ser visto como uma questão de segurança energética nacional”, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo um dos autores do trabalho, Daniel Nepstad, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).


(conteúdo publicado por Nathália Clark em www.greenpeace.org)
(foto: Daniel Beltrá / Greenpeace)

Entre para a Liga das Florestas


13 maio 2013

RASCUNHO DA ONU


10 Objetivos para 
Desenvolvimento
Sustentável


 Proposta ficará aberta para
consulta pública até 22 de maio




Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) apresentaram um documento que define os dez Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O texto ainda é um rascunho de metas que devem ser alcançadas a partir de 2015.

A proposta foi desenhada por um grupo internacional de especialistas de diversas áreas e ficará aberta para consulta pública até o dia 22 no site www.unsdsn.org/resources/draft-report-public-consultation.

As sugestões poderão ser incorporadas em um texto que será analisado pela Assembleia Geral da ONU, em setembro deste ano.

A definição dessas metas era esperada como resultado da conferência promovida no Rio de Janeiro no ano passado. O documento parte das diretrizes do texto da Rio+20 e, assim como ele, traz objetivos bem genéricos.

Os objetivos devem entrar em vigor a partir de 2015, quando termina o prazo para serem atingidos os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU.

Eis os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável sugeridos pelos especialistas:

1 – Fim da pobreza extrema e da fome Erradicar a pobreza e dar poder aos cidadãos para que sejam produtivos; reduzir a desigualdade, aumentar a renda e a nutrição de pessoas mais pobres; reduzir a pressão ambiental que, em parte, é impulsionada pela pobreza;

2 – Alcançar o desenvolvimento global Auxiliar todos os países no desenvolvimento econômico; oferecer oportunidades de crescimento e investimento às nações pobres e fortalecer a inclusão social; promover a sustentabilidade ambiental, aliada ao “direito de se desenvolver” dos países;

3 – Garantir um aprendizado eficaz às crianças e jovens – Criar oportunidades de trabalho e subsistência a pessoas de todas as idades; elevar o ensino sobre o desenvolvimento sustentável, para criar uma geração de líderes inovadores e que pensem nas causas ambientais;

4 – Alcançar a igualdade de gêneros, inclusão social e direitos humanos  Mobilizar e dar poder a todos os membros da sociedade para que ocorra o desenvolvimento econômico; incluir as populações que vivem em florestas e que, devido à exclusão delas na sociedade, acabam causando danos ambientais;

5 – Alcançar o bem-estar e garantir a saúde em todas as idades São pré-requisitos para alcançar a erradicação da pobreza e o desenvolvimento econômico; são temas centrais para promover a igualdade social e de gêneros; são garantidos por meio de ações políticas que combatem a poluição do ar, da água e agentes resultantes do desenvolvimento sustentável;

6 – Melhorar os sistemas agrícolas e aumentar a prosperidade rural  Elevar o uso de técnicas agrícolas para reduzir a pobreza e o combate à fome, além de promover o crescimento econômico; melhorar a vida dos pequenos agricultores; reduzir a pressão de sistemas agrícolas em ecossistemas, reduzir as emissões de gases-estufa e as altas taxas dos ciclos de nitrogênio e fósforo provenientes da agricultura;

7 – Capacitar as cidades, tornando-as inclusivas, produtivas e resistentes Acelerar o uso de tecnologias nas cidades, produzindo empregos e reduzindo a pobreza; aumentar a inclusão social nas áreas urbanas com a redução de moradores de favelas e criação de empregos decentes; equipar as cidades para manter o ar e a água limpos, usar de forma eficiente o solo, e aumentar a prevenção contra desastres naturais;

8 – Controlar a mudança climática e garantir energia limpa a todos – Aumentar investimentos a curto prazo e procurar oportunidades de “crescimento econômico verde” – incluindo a implantação de matrizes energéticas renováveis; evitar danos às populações que ainda vivem na pobreza;

9 – Serviços ambientais, biodiversidade e gerenciamento dos recursos naturais – Valorar serviços ambientais, aliando a proteção do meio ambiente e a manutenção do crescimento econômico; evitar o colapso ambiental, que pode afetar a vida dos mais pobres;

10 – Transformar a governança para o desenvolvimento sustentável – Adequar o poder público e a iniciativa privada ao desenvolvimento sustentável; adequar o desenvolvimento financeiro para erradicar a pobreza extrema; transformar políticas públicas para beneficiar o clima e a questão ambiental.

(conteúdo publicado em www.conass.org.br)

SAIBA MAIS
www.unsdsn.org/resources/draft-report-public-consultation



25 abril 2013

BLÁ-BLÁ-BLÁ BRASIL


No calor da emoção*




No Brasil, após cada crime horrível sempre aparece uma autoridade rodeada de microfones para dizer: “Não podemos tomar decisões no calor da emoção.” É batata. Basta que a opinião pública emocionada comece a bradar por um endurecimento nas leis e lá vêm eles com a argumentação de sempre, o blá-blá-blá que atrasa as discussões e empurra com a barriga as mudanças. Até o próximo crime horroroso, quando a grita começa novamente.

Conforme o Mapa da Violência, desde 1997 a quantidade de homicídios no Brasil supera os 40 mil por ano, chegando ao pico de 51.434 em 2009. Mas números tão grandes não significam muita coisa, não é? Não dá pra dimensionar 50 mil homicídios por ano. Então vou ajudar a melhorar a perspectiva, olha só: são 4.166 mortos por mês, 960 por semana, 137 por dia, 6 por hora. Ou uma pessoa assassinada a cada 10 minutos. Deu pra entender?

Enquanto você está lendo este texto, alguém está sendo assassinado no Brasil.

Um país que carrega nas costas 50 mil assassinatos por ano, ou quase 30 a cada 100 mil habitantes, não tem muita moral para pregar regras. Deveria pedir falência social e humildemente aprender com os países onde se mata uma fração disso. Todos sabemos o que precisa ser feito, não há segredos. E se não sabemos, copiemos!

Maioridade penal por exemplo. No Brasil, Colômbia e Peru é de 18 anos. E nos outros países? Portugal, 16; Alemanha, 14; Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia, 15; Espanha, 14; França, 13; Itália, 14; Polônia, 12; Inglaterra, 10; Escócia, 8; Bélgica, 16; Rússia, 14; Ucrânia, 10; Hungria 12-14; Suíça, 10. Canadá, 12; Estados Unidos, 6-12 (conforme o estado); México, 6-12 (idem); Argentina, 16-18. África do Sul, 10; Argélia, 13; Egito, 15; Etiópia, 15; Marrocos, 12; Quênia, 8; Sudão, 7; Tanzânia, 7; Uganda, 12. Irã, 9-15; Turquia, 11. Japão, 12; China, 14; Singapura, 7; Coréia do Sul. 12; Filipinas, 9; Índia, 7; Nepal, 10; Paquistão, 7; Tailândia, 7; Uzbequistão, 13; Vietnam, 14; Nova Zelândia, 10; Austrália, 10.

Mas no Brasil do blá-blá-blá, enquanto discutimos a filosofia da maioridade penal à procura de uma solução brasileira, mais um é morto. E outro. E mais um. E outro...

Chega de mudanças incrementais, cosméticas e marqueteiras na gestão da segurança pública brasileira. Chegou a hora de um choque de gestão, de competência. Um choque de coragem.

É claro que a solução não está numa ação tática isolada, como é o caso de baixar a maioridade penal. Isso por si só não resolverá o problema, mas é um começo de ação que, no mínimo, mostra que algo está sendo feito na busca por resultados diferentes.  É o somatório de pequenas ações táticas de curto, médio e longo prazos, alinhadas a uma estratégia, que mudará o cenário. Mas aqui no Brasil transformamos o que deveria ser uma discussão técnica num embate político-ideológico. Em blá-blá-blá.

Enquanto isso, morre mais um. E outro. E no final do ano serão 50 mil. Já nos conformamos com isso e nos contentamos em viver na esperança de que um dia isso vai mudar. Mas esperança nunca foi estratégia.

Algo precisa ser feito. Se não no calor da emoção, quando?


*publicado por Luciano Pires em www.portalcafebrasil.com.br

28 março 2013

SALVE O VERDE!


Árvores podem ajudar a reduzir

o crime nas grandes cidades*




Um estudo da Universidade de Temple, nos EUA, indica que, além de melhorar a qualidade do ar e deixar a paisagem urbana mais agradável, as árvores também podem combater a criminalidade nas grandes cidades -- reduzindo, principalmente, o número de casos de agressão, furto e roubo.

Segundo os cientistas da Universidade, localizada na Pensilvânia, árvores, arbustos, praças e parques com a vegetação bem cuidada incentivam a interação social e a ocupação da comunidade nos espaços públicos, coibindo práticas violentas. Além disso, as áreas verdes costumam transmitir calma à maior parte das pessoas, eliminando comportamentos que poderiam levá-las à violência ou a práticas criminosas.

Porém, nem todo mundo acredita que a pesquisa seja viável. Muitas pessoas não consideram as áreas verdes das metrópoles como locais seguros, uma vez que existe a ideia de que a vegetação possa encobrir e aumentar o consumo e o tráfico de drogas, além de propiciar atividades criminosas como estupros e homicídios.

Para as pessoas que não acreditam na pesquisa serem contrariadas, as autoridades responsáveis devem investir não apenas na segurança destas áreas de convivência, mas também nas condições da vegetação, que precisa de estudos e planejamentos que levem em conta os aspectos geográficos e sociais de cada região.

“Isso só vem reiterar a necessidade das autoridades públicas levarem mais a sério o paisagismo urbano. O aumento de áreas de vegetação nas cidades não só melhora os indicadores ambientais e a qualidade de vida, como também pode ajudar a reduzir os níveis de criminalidade”, afirma Jeremy Mennis, professor associado de estudos de Geografia Urbana da Universidade de Temple. 

(*conteúdo publicado em http://ciclovivo.com.br)

11 março 2013

SUSTENTABILIDADE BRAZUCA


Brasil desenvolve 
plástico solar*


Mediante uma técnica já existente, as células orgânicas solares,
mas graças à sua própria fórmula secreta, cientistas 

brasileiros criaram painéis fotovoltaicos plásticos


Tiago Maranhão Alves mostra um pedaço de plástico solar

Pesquisadores brasileiros desenvolveram painéis plásticos capazes de gerar eletricidade a partir da luz do Sol. A descoberta é parte de uma tendência em alta no Brasil: o desenvolvimento e a inserção de tecnologias verdes. O plástico é fino e flexível, com aparência bastante comum, mas trata-se de um painel de geração de energia fotovoltaica. 

O material, que em nada se parece com as pesadas e caras placas de silício que imaginamos ao pensar nesta fonte de eletricidade, foi criado por cientistas do CSEM Brasil, instituto com sede em Minas Gerais. A sigla é da empresa Centre Suisse d'Electronique et de Microtechnique S.A.

Composto por polímeros comuns, aos quais são incorporadas células fotovoltaicas orgânicas, este material é transparente, com pequenas faixas nas quais estão impressos os polímeros orgânicos à base de carbono. 

A tecnologia para produzir estas células já era conhecida na Europa e nos Estados Unidos, e agora também o é no Brasil. O “plástico solar” pode representar, afirmaram seus inventores, uma pequena revolução na forma de gerar energia limpa a partir do Sol.

“Embora a capacidade de geração seja bastante parecida, por seu pequeno tamanho pode ter usos quase impossíveis para as placas de silício”, disse o presidente do CSEM Brasil, Tiago Maranhão Alves, engenheiro físico que participou diretamente das pesquisas. 

Esta técnica pode ser empregada para fazer funcionar componentes elétricos dos automóveis, em dispositivos eletrônicos como telefones celulares, mouses de computadores e teclados sem fio.

Porém, os brasileiros estão concentrados em desenvolver painéis solares, que podem revestir superfícies mais ou menos extensas, como janelas. “Um painel de dois ou três metros quadrados pode ser suficiente para gerar energia em uma casa onde vive uma família de quatro pessoas”, explicou Alves. 

“Como a relação custo-benefício é boa, pode ser uma opção para levar energia a áreas remotas que não têm serviço elétrico. No Brasil, com mais de 192 milhões de habitantes, há cerca de um milhão de lugares nessas condições”, acrescentou o cientista.

A facilidade do transporte é sua principal vantagem em relação às placas de silício. “Como é simples transportá-las, os custos logísticos são baixos. Além disso, a pessoa pode levar com ela quando mudar de casa”, destacou Alves. 

O plástico pode ser usado ainda para revestir prédios e recintos como aeroportos ou estádios esportivos, evitando a necessidade de reservar uma área para instalar os painéis solares.

Para alcançar a fórmula que tem o material brasileiro, foram investidos US$ 10 milhões e se prevê que o investimento duplicará no próximo ano. “Agora vamos estudar a melhor forma de dar escala ao produto. No estado atual já é possível comercializá-lo, mas o preço deve ser analisado caso a caso”, explicou Alves. 

Os recursos investidos, que também possibilitaram a criação do CSEM Brasil, procedem de uma sociedade entre a administradora de investimentos FIR Capital e o Centre Suisse d’Electronique et de Microtechnique. Além disso, o projeto obteve apoio da Fundação de Fomento à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

O projeto ainda é mantido reservado, pois está sujeito a segredo comercial. “Este é um mercado de milhares de milhões de dólares, e muitos centros estão atrás desta tecnologia”, pontuou o engenheiro. O anúncio dos pesquisadores de Minas faz parte de uma tendência crescente no Brasil: os investimentos em tecnologias limpas. 

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa estatal vinculada do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, implantou no ano passado o Programa Brasil Sustentável, que distribuirá o equivalente a US$ 10 milhões em linhas de crédito para iniciativas que considerarem a preservação dos recursos naturais.

Segundo a Finep, o programa responde a uma demanda percebida pela instituição, que nos últimos anos destinou US$ 2,3 milhões a 480 projetos com alguma característica verde, 25% deles concebidos para geração de energias limpas. 

Para o professor e Doutor em Administração de Empresas André Pereira de Carvalho, o aumento de recursos para este tipo de pesquisa se deve a que tanto os fundos privados de investimento como as instituições públicas perceberam que esta é uma área lucrativa.

“Estas organizações avaliam principalmente se o produto é bom, possui uma fórmula difícil de ser copiada e tem potencial para ser produzido em escala. Isto vale para qualquer versão, seja uma empresa de tecnologias da informação ou de tecnologias verdes”, explicou Carvalho, que coordena estudos sobre inovação para a sustentabilidade.

No entanto, se comparado com Estados Unidos, Japão ou Alemanha, o Brasil está nas fraldas em matéria de negócios verdes, mas promete aprender a caminhar a grande velocidade. “Há alguns anos, o empreendedor que queria investir neste setor encontrava muitas dificuldades. Hoje ainda existe a desconfiança de olhá-lo como um mercado mais caro e de nicho, mas já é mais simples obter financiamento”, ressaltou Carvalho. 


* por Alice Marcondes, correspondente do IPS-Inter Press Service. 

(conteúdo publicado em http://envolverde.com.br)
(foto: 
CSEM Brasil / Rafael Motta / Agência Nitro)



06 março 2013

PROBLEMA GLOBAL

Relatório da ONU diz que 
substâncias psicoativas 
ameaçam saúde pública*

Segundo a JIFE-Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, 
o problema pode ser visto em emergências de hospitais; somente na 
Europa, uma nova substância é descoberta a cada semana



Informação à população e preparo de pessoal da área médica são paliativos recomendados


As chamadas "drogas legais" ou "designer drugs" estão representando crescente e impactante ameaça à saúde pública. A constatação é de um relatório das Nações Unidas, divulgado nesta terça-feira (05/03) em Viena, na Áustria

De acordo com um estudo da JIFE-Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, realizado em 2012, o mundo está sofrendo com a proliferação de substâncias psicoativas, que têm levado a um aumento do número de ocorrências em emergências hospitalares e outros centros de tratamento.

Tranquilizantes
A JIFE também ressalta o que chamou de "abuso de medicamentos e farmacêuticos", como tranquilizantes e estimulantes. Somente na Europa, uma nova substância é descoberta a cada semana. A compra é facilmente realizada pela internet, e o número de sites que vendem psicoativos mais que quadruplicou em dois anos na União Europeia.

De acordo com a JIFE, os países precisam estruturar uma ação coordenada para impedir a produção, uso e tráfico dessas substâncias.

Em entrevista à Rádio ONU, da Costa Rica, o especialista da Agência Mundial Antidoping (WADA) no Brasil, Eduardo de Rose, falou sobre o envolvimento das policias federais e ministérios de Saúde no controle de vendas pela internet:

"O risco é de saúde pública. Deve haver um controle pelo Estado da venda desse tipo de substâncias para a população. A venda pela internet é de área internacional, ilegal e deve estar controlada pelo Estado. Como para pessoas físicas ou instituições de Direito não governamental é muito difícil fazer o controle desse tipo de venda, às vezes a questão  também entra numa área de drogas sociais proibidas", referiu Rose.

De acordo com o relatório, em alguns países pesquisados mais de 6% de alunos do Segundo Grau já tomaram tranquilizantes. Para a JIFE, é preciso agir preparando pessoal da área médica e informando a população sobre os perigos que este tipo de droga representa.


Inexiste controle efetivo sobre a venda de diversas substâncias 


Riscos
Os riscos são variados, incluindo doenças como HIV e hepatites B e C, no caso de uso de drogas injetáveis.

O titular da JIFE, Raymond Yans, disse que este é um problema global, que deve ser combatido de forma partilhada pela comunidade internacional. Segundo ele, é hora de agir em todos os níveis, incluindo o comunitário, para reduzir o sofrimento de todos.

Ao abordar a situação das drogas por regiões, o estudo da JIFE lembra que, na América do Sul, o consumo de cocaína, por exemplo, se manteve estável, com uma média de consumo por adultos de 0,7%. Já no Brasil, esta média é mais do que o dobro, atingindo 2%.

México, 60 mil mortos
O tráfico de drogas também está afetando a segurança regional, com o aumento da violência relacionada à distribuição ilegal de várias substâncias.

No México, por exemplo, mais de 60 mil pessoas foram assassinadas desde 2006 por causa do tráfico de drogas.

A América do Norte continua sendo o maior mercado de drogas ilícitas no mundo. Uma em cada 20 mortes de pessoas entre 15 e 64 anos na América do Norte tem a ver com o abuso de drogas.

Brasil
Segundo o relatório, o Brasil -- ao lado de outros países como Argentina, Índia, Grã-Bretanha e Paquistão -- teria perdido o prazo de entrega dos dados estatísticos sobre substâncias psicotrópicas em 2011. Os especialistas lembraram que esses países são importantes produtores, exportadores e importadores de drogas.


Cocaína apreendida


Cocaína apreendida
Ainda em 2011, nove das grandes 14 apreensões de cocaína foram feitas no oeste da África. Quase metade da cocaína escondida em contêineres, transportados pelo mar, era proveniente do Brasil.

Segundo a JIFE, devido à posição geográfica com um litoral extenso, o Brasil tem dificuldade para implementar e fortalecer as leis contra o tráfico de drogas. Porém, a entidade aponta que o governo brasileiro tem se esforçado para combater o tráfico, utilizando aeronaves de segurança, contêineres e scanners.

Reabilitação
Os especialistas da ONU notaram ainda os esforços brasileiros para prevenir o uso de entorpecentes e estabelecer redes de reabilitação e tratamento. A Junta afirmou que os programas devem ser levados também ao sistema prisional. E lembrou que o País tem um problema grave com o abuso do crack.

As apreensões no Brasil da chamada cannabis herbácea aumentaram 12% no ano passado, se comparadas às operações de 2011. No total, foram 174 toneladas.

Já as apreensões de cocaína, em forma de sais, caíram em vários países sul-americanos, incluindo o Brasil.  A polícia brasileira apreendeu no ano passado 24,5 toneladas de cocaína em forma de sais e base, e mais da metade vinha da vizinha Bolívia. No geral, a prevalência do uso de cocaína na América do Sul permaneceu estável, em torno de 0,7%. Já no Brasil, esta média sobe para 2%.


Combate ao tráfico ilegal de drogas

Drogas Sintéticas
O UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) está preocupado com o aumento de drogas sintéticas em toda a América do Sul. Somente no ano passado, o Brasil apreendeu 259 mil comprimidos de ecstasy, 170 mil anfetaminas e 48 mil metanfetaminas.

O abuso de produtos farmacêuticos, tipo tranquilizantes e estimulantes, é classificado como um problema pelos especialistas. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo mostra que 7% dos brasileiros entre 19 e 59 anos já fumou maconha pelo menos uma vez, e mais de 60% deles antes de completarem 18 anos. 

Dos usuários de cannabis, 37% são considerados viciados. A legalização da maconha continua recebendo a oposição de três quartos da população brasileira.

Ainda na região, a JIFE mostrou-se preocupada com a notícia veiculada em agosto passado, de que o governo do Uruguai havia apresentado um projeto de lei ao Congresso para legalizar a produção e venda de cannabis no país, e o governo, neste caso, se encarregaria de regular as atividades de produção, venda e importação.

*por Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York


(apresentação de áudio: Edgard Júnior)
(fotos: UNODC; PNUD /Brain Sokol)
(conteúdo publicado em www.unmultimedia.org)



22 fevereiro 2013

POR FALA DOCE

Um pouco mais 
de delicadeza*



  
Lá em casa teve briga de cachorro. Duas fêmeas que estão em conflito, querendo cada uma dominar o território. Dentes e unhas de fora e eu no aperreio de apartar a briga, com cuidado para não sobrar pra mim. 

Elas são disciplinadas, obedecem aos comandos. Só que as duas querem ser Alfa. O cão Alfa é o líder da matilha, é o poderoso da história. É a referência para os outros cães do grupo, que obedecem e acolhem sua supremacia. 

Nem sempre a gente se dá conta da nossa animalidade. Nós, os animais humanos. Fomos metodicamente educados para a vida em sociedade e controlamos a exibição de nossas unhas e dentes para funcionarem como estandartes de esmaltes e sorrisos. 

E quando dá vontade de soltar os bichos presos? Partir pra cima do desafeto, como fazem os outros animais que nem são tão vorazes assim quanto os humanos?

Para isso, usamos as palavras e os silêncios. Quando as palavras têm como fonte um impulso raivoso e, se a pessoa não consegue filtrar o sentimento, a palavra é parida como insulto.

Ontem presenciei uma briga de trânsito. Um animal fechou a passagem do outro. O ofendido com a atitude Alfa saltou do carro, gritando seus insultos e os dois, em um piscar de olhos, estavam atracados num tear mais complexo de separar do que o dos cães. 

Segui meu rumo com a sensação de que só não presenciei uma tragédia porque felizmente nenhum deles portava arma de fogo.

Lembro que li uma referência sobre o primeiro homem a proferir um insulto contra seu inimigo, no estudo Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, de Sigmund Freud. Ao utilizar a agressão das palavras em substituição a agressão física, esse homem teria fundado a civilização. 

Como corre a vida, vou pedindo: um pouco mais de delicadeza, por favor. Avançamos tanto em tecnologia, dominamos o mundo de fora e desabitamos o mundo de dentro. Não conseguimos ainda governar a nós mesmos. 

Podemos recomeçar lapidando as palavras. Delicadas, polidas, fiéis, generosas, corajosas, gratas, justas, doces, amorosas palavras.

*Ana Valeska Maia Magalhães é professora universitária
(imagem em http://media.mercola.com)

18 fevereiro 2013

RESILIÊNCIA NATIVA

Jovens indígenas ajudam 
a proteger suas raízes*

Indígenas de Chiquimula trabalham na elaboração de uma corda extraída do agave



Jovens de diversos povoados indígenas se envolvem em iniciativas para evitar que suas respectivas comunidades sigam pelo caminho do desaparecimento e para coexistirem com outras culturas em um mundo cada vez mais globalizado. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima em 370 milhões o número de indígenas vivendo em comunidades, localizadas em centros urbanos, reservas ou no meio do caminho entre ambos.

Estes povos sofrem os mesmos problemas que outras comunidades carentes de direitos, como pobreza, falta de educação básica, elevado desemprego, altas taxas de criminalidade e falta geral de acesso aos serviços públicos e a recursos. Mas há outros assuntos que são únicos da experiência indígena, como separação forçada de suas terras ancestrais, perda de sua língua e histórias de injustiça, exclusão social e violência que levaram à sua marginalização.

Em 2000, foi criado o Fórum Permanente para as Questões Indígenas, no qual um comitê de especialistas, designados por governos e organizações indígenas da sociedade civil, discute os assuntos fundamentais e recomenda ações ao sistema das Nações Unidas. Este ano o Fórum destaca o papel dos jovens indígenas como líderes comunitários e já houve em janeiro um encontro entre representantes de sete regiões para compartilhar sua visão com membros desse órgão e organizações relacionadas.

Os sete jovens coincidiram em sua preocupação pelo rápido desaparecimento das línguas indígenas, vitais para a unidade cultural. O Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que no mundo desaparece uma língua a cada duas semanas. Os sistemas educacionais têm um papel histórico no desaparecimento das línguas indígenas, às vezes forçando sua extinção por meio de castigos e humilhações severos contra meninos e meninas por falarem sua língua-mãe, ou por expressar de alguma forma sua identidade étnica.

Na tribo anishinaabe de Andrea Landry, no Canadá, só resta uma anciã que fala fluentemente sua língua ancestral. Aos 80 anos ainda não superou a vergonha por falar seu idioma, que lhe foi inculcada quando menina, o que deixou mais complicado compartilhá-la com as gerações mais jovens. Landry, representante da América do Norte, coincidiu com muitos de seus companheiros no encontro quanto à responsabilidade do Estado em ter oferecido uma educação bilíngue nas escolas onde havia crianças indígenas, mas que a quantidade de línguas dificultou a implantação da medida.

Implantar programas no âmbito comunitário por meio de organizações da sociedade civil seria uma boa alternativa, sugeriram os jovens. Também se mostraram todos preocupados pela falta de consciência e pela tergiversação de sua história, cultura, e situação atual. Todos concordaram que os sistemas educacionais deveriam ensinar sua história e a diversidade social com mais cuidado e exatidão.

Landry contou à IPS que, quando fazia seu mestrado em comunicação e justiça social, ficou surpresa pela falta de material sobre questões indígenas. Tentou preencher as falhas com material complementar, mas argumentou: “Não sou eu quem tem de ensinar estas coisas”. Steven Brown, representante das nações tribais bundjalung e yuin, na Austrália, expôs sua preocupação pelos estereótipos negativos que são difundidos em lugar de uma compreensão real dos povos indígenas.

Em algumas comunidades, onde muitas pessoas só falam sua língua ancestral, ocorrem outros problemas: acesso à informação importante sobre cuidados com a saúde, oportunidades de emprego, direitos legais e serviços públicos. O representante da tribo de caçadores-coletores batwa, em Uganda, Niwamanya Rodgers Matuna, deu um exemplo à IPS sobre como a falta de informação sobre os medicamentos e seu uso adequado na língua materna de seu povo fez seus membros não confiarem em remédios que não os seus tradicionais e rapidamente parecem perder eficácia.

O uso inadequado e a má qualidade dos antibióticos fizeram com que as doenças desenvolvessem resistência, fenômeno que se torno problemático em países pobres, mas que pode ser combatido com a melhoria do acesso à informação dos destinatários dos medicamentos. A representante da Ásia, Meenakshi Munda, da comunidade munda, na Índia, disse que não quer que seu povo se torne dependente da ajuda estatal, nem da internacional.

Os indígenas, e em especial os mais jovens, sabem que aprender outras línguas é uma necessidade para colaborar com pessoas de outros meios em ambientes acadêmicos e profissionais. Muitos deles, na verdade, se beneficiaram por saber muitas línguas e dos intercâmbios com outras pessoas. Porém, acreditam que esse processo de aprendizagem pode e dever ser um intercâmbio entre iguais e não necessitar da subjugação de um povo ou a eliminação de sua cultura ou história.

O mundo tem muito que aprender sobre o estilo de vida dos povos indígenas. Apesar de haver uma grande diversidade entre eles, compartilham ideias centrais que a maioria das sociedades modernas não tem. A ideia mais significativa talvez seja o enorme respeito que têm pela terra e a profunda ligação com o território onde vivem. “Temos uma relação com a terra, é um ser vivente. Não se trata de tomar, tomar, tomar. Damos à terra e ela nos dá”, explicou Landry.

Além disso, os povos indígenas conservam um enorme respeito pelas pessoas mais velhas e por tudo o que possui a sabedoria do tempo. Para alguns é difícil compreender a importância de proteger as culturas indígenas enquanto ancestrais das civilizações modernas. No entanto, Matuna, citando um provérbio africano, diz: “Um rio que esquece sua fonte, logo seca”. 


*por Marzieh Goudarzi / IPS. Foto: Danilo Valladares / IPS
(conteúdo publicado em http://mercadoetico.terra.com.br)