16 abril 2008

O ALÔ DA PERIFERIA

Pacto para (g)estarmos aqui



O discutido Plano Diretor de Fortaleza se traduz como momento ímpar no debate sobre as políticas públicas de regularização e ordenamento da cidade e seu modelo de desenvolvimento. A proposta apresentada para o debate é avançada, centrada na utilização social do solo, na preservação dos mangues e APAs, regulamentando os espaços de interesse social em sua essência e contrariando a lógica de apropriação e acumulação do capital que seguia livremente em nossa cidade, sem intervenção do poder público.

Para as comunidades da periferia de Fortaleza, o Plano vem como um freio ao apartheid que se instalou na quarta maior capital do País. Essas comunidades são recorrentemente varridas do mapa pelos empreendimentos imobiliários, muito deles chancelados e financiados com recursos públicos. Como exemplo, basta observar o que ocorre no entorno das vias expressas e a remoção das populações pobres e pretas das proximidades dos bairros mais estruturados, tais como Aldeota, Meireles e Dionísio Torres, revelando uma política de limpeza étnica e social.

As comunidades históricas de Fortaleza sofrem com um Racismo Ambiental que as impede de ter espaços para manifestar suas crenças locais. Vivenciam um exílio compulsório, sem nunca terem saído da cidade. Os grandes grupos econômicos não entendem que progresso algum paga os recursos naturais e o território, tão fundamentais para essa populações garantirem sua história, sua identidade, seus vínculos afetivos e a reprodução de sua intensa vida social e cultural.

Esse apartheid é o mesmo que garante a derrubada dos barracos e destrói a natureza para a construção de campos de golfe ou resorts. É financiado em dólar, promete progresso e emprego, no entanto os sinais de sua fatura não condizem com suas promessas. Quem duvida, basta constatar o que foi feito na conhecida Praia de Iracema, onde a comunidade local teve seu espaço ocupado pela intelectualidade emergente e, em seguida, pela burguesia ascendente, sobressaindo-se um discurso de progresso e de urbanização que foi expulsando os pobres, até restar somente o rastro de latinhas perfuradas — sinalizando que ali o crack que reside não é mais o da bola.

Defender um Plano Diretor comprometido com a natureza e com a maioria da população é enfrentar um modelo de desenvolvimento insustentável, que necessita de mais de 20 mil homens da segurança privada para poder transitar e que tem, como resultado, a existência de mais de 700 favelas, que polui e destrói os recursos naturais, impossibilitando, inclusive, o povo de desfrutar dos privilégios e serviços ambientais que a natureza oferece.

Mesmo com todos os indicadores da crise, quando se propõe a discutir uma cidade a partir de suas características locais, comprometida com as demandas ambientais e sociais de Fortaleza, grandes grupos econômicos se levantam para continuar garantindo a manutenção desse apartheid.

Um alerta fica para as comunidades do lado Leste da cidade, onde ainda restam alguns recursos naturais e a presença de pobres e pretos é ainda bem expressiva em bairros como Água Fria, Edson Queiroz, Sapiranga e Sabiaguaba.

É preciso neste Plano selar um pacto comprometendo os vários setores da sociedade, em particular a Prefeitura, com um novo projeto para Fortaleza. Caso contrário, na medida em que não se dividam as riquezas e se pense um modelo diferenciado da relação homem-meio ambiente-economia, estaremos todos condenados às tragédias sociais e aos castigos da natureza.



*Preto Zezé é coordenador da CUFA-Central Única das Favelas do Ceará e membro do Conselho de Leitores do jornal O Povo.


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14 abril 2008

O GESTOR DO FUTURO

Vendas: novas configurações



Há algum tempo, o cenário do mercado de vendas era bem diferente deste que conhecemos hoje. Antigamente, o cliente não possuía informações sobre os produtos, havia poucas opções de escolha e ele não tinha consciência dos seus direitos. O cliente era tratado apenas como “mais um” e em alguns casos era um “mal necessário”. Hoje, já existe a consciência dos direitos do consumidor, e isso faz com que ele exija e tenha opções de produtos e serviços diferenciadas.

No passado, devido à elevada demanda e baixa concorrência, o setor de vendas atuava com profissionais pouco especializados. Não existia preocupação com a concorrência direta ou indireta e tampouco se faziam planejamentos estratégicos que projetassem a empresa no curto e médio prazos. A área de marketing — com o desafio de planejar, delinear e integrar — não existia. Era mero setor de propaganda, sendo necessária apenas alguma criatividade por parte dos seus profissionais.

Hoje, porém, as empresas devem estudar e conhecer profundamente a concorrência, partindo para a atuação cada vez mais focada em nichos e fugindo das commodities. Elas devem descobrir os pontos fracos e fortes da concorrência e, de posse dessas informações, traçar suas estratégias de atuação no mercado-alvo, preparando sua equipe de vendas.

Assim, o que se exigirá do vendedor no futuro é muito mais do que conhecer o produto: espera-se que o vendedor transforme a venda em uma experiência memorável para o cliente e consiga destacar o que realmente agregará valor para ele — "valor" não é o que o produto oferece, e sim o que o cliente percebe dele: este é o novo mundo, o das percepções.

Além disso, o vendedor deve ter elevada iniciativa, motivação, atenção, organização e atualização. No futuro, o vendedor deverá ser um gestor não só de seus resultados e carteira de clientes, mas também de sua capacidade produtiva, em todas as suas abordagens: certificações necessárias para atender determinado mercado, gestão de estoque, gestão ambiental e responsabilidade social, entre outros fatores que podem influenciar direta ou indiretamente o valor percebido pelo cliente em seu produto.

E para conhecer cada vez mais o produto da sua venda, a empresa deve investir em treinamento e desenvolvimento profissional. Para motivar seus profissionais de vendas, ela pode utilizar diversos recursos, inclusive a palestra — não aquela proferida por gurus hilariantes, e sim por profissionais comprometidos com a qualidade do conteúdo —, pois a palestra tem o papel de provocar e de estimular os profissionais a repensarem a forma e o conteúdo do seu trabalho, de fazê-los avaliar as necessidades de mudanças adaptando-se aos novos tempos.

A motivação deste gestor de vendas propiciará a busca incessante por novas oportunidades de negócios. Como disse Einstein: “Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa, dia após dia, e esperar resultados diferentes”.

A avaliação desse profissional do futuro também deverá ser diferenciada. A empresa não deve avaliar somente o resultado financeiro ou o volume de suas vendas, mas também resultados como a retenção de clientes, a captação de clientes que geram mais rentabilidade, a venda de soluções completas ou a integração de mais produtos aos que já se vendiam a um determinado cliente e a efetividade, entre outros.

A empresa do futuro deverá ter o foco do cliente, e não no cliente, e o profissional de vendas deverá ter cada vez mais o exato perfil da empresa que representa, ou ainda mais: o exato perfil do produto que comercializa, deixando de ser um simples "tirador de pedidos" para tornar-se um gestor da unidade de negócio sob a sua responsabilidade, além de um consultor amplo e interessado para atender o cliente.

Mais: este futuro do qual venho falando é hoje, agora: é preciso começar já.



*Cláudio Tomanini é palestrante, consultor e professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas, com mais de 20 anos de experiência nas áreas de Vendas e Marketing, tendo atuado em empresas como Johnson & Johnson, ADP Systems, Grupo Verdi e VR. Atualmente, é sócio diretor da New Marketing, empresa de estratégias e resultados de mercado. Tomanini possui uma peculiar visão do mercado, criando novos conceitos e desenvolvendo soluções, utilizadas e adaptadas por diversas empresas e outros consultores.


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www.tomanini.blogspot.com

27 março 2008

AUTO-ESTIMA A MIL

Descubra-se respirando



Existe inteligência e intenção fundamentando toda a criação. Portanto, não é por acaso que você é você.

Sob a liberdade de pensar o que quer, dizer o que deseja, fazer suas escolhas e trabalhar no que lhe dá prazer, reside o direito básico: saber quem e o quê você realmente é, desenvolver sua auto-estima de modo consistente e viver a partir de sua verdadeira essência.

Este embasamento vai lhe permitir desenvolver um saudável senso de si mesmo(a), porque você tem a oportunidade de descobrir o mistério que você representa e que o(a) faz tão único(a) — e, ao mesmo tempo, o(a) une indissoluvelmente a toda a família humana.

O Renascimento (ou Terapia da Respiração, como é mais conhecido no Brasil) é uma técnica fantástica, que pode ajudá-lo(a) a processar esta descoberta. Poderosa, mas de de aplicação simples e sem qualquer contra-indicação, baseia-se em respiração consciente e conectada, que cria um “movimento energético” capaz de dissolver tensões, angústia, medo, dor e tudo aquilo que é contrário à vida em sua plenitude.

No processo do Renascimento, o primeiro fruto a ser colhido é a aceitação de que a relação primordial de cada pessoa ocorre consigo mesma. Neste percurso, ao nos tornarmos responsáveis tanto pela busca quanto pelo encontro de nossa própria felicidade, a confiança emerge como sentimento dominante, um ingrediente essencial para uma vida mais plena, consciente e realizada.

Desde que nascemos (e às vezes até ainda dentro do útero), não somos exatamente incentivado(a)s a sermos totais e a nos expressarmos espontaneamente — muito pelo contrário, desde pequeno(a)s “aprendemos” que, se nos comportarmos “de certa maneira” e se ocultarmos o que somos e sentimos, seremos “melhor aceitos” —, por nossos pais, professores e/ou pelo(s) grupo(s) social(is) a que nos vinculamos. Como resultante, tudo aquilo que não expressamos vai sendo “contraído” e "fixado" em nosso próprio corpo (conforme inclusive demonstrou, entre outros, o psicólogo austríaco Wilhelm Reich).

Na década de 1970, o norte-americano Leonard Orr desenvolveu a técnica chamada Rebirthing (Renascimento), que se confirmou assaz eficiente para liberar estes bloqueios, tensões e contrações. Orr percebeu que cada ser humano respira de forma diferenciada, segundo os padrões pessoais de condicionamento desenvolvidos a partir do nascimento e da infância — fatores que se mostraram indicativos, com acuidade, dos bloqueios emocionais e das limitações relatadas ao comportamento e à expressão criativa.

“Embora muitas correntes terapêuticas de abordagem corporal tenham centrado suas pesquisas no ciclo respiratório, definindo sua importância como chave primordial na busca de maior equilíbrio e bem-estar na vida, o Renascimento é a técnica que experimentei e transformou minha vida, por isso resolvi me especializar nela: para mim, o Renascimento atua no sentido de propiciar uma transformação concreta na vida das pessoas que a experimentam”, explica a terapeuta curitibana A. Ramyata, que periodicamente promove grupos com a técnica em Fortaleza.

A “magia” do Renascimento está justamente em podermos entrar em contato com estes sentimentos limitantes e nos descontrairmos, liberarmos nossa individualidade. “Ao fazer isto, aperfeiçoamos cada vez mais o contato com o nosso ser profundo, com a nossa essência. Conseqüentemente, passamos a viver uma vida mais consciente, mais real, mais focada no aqui-e-agora”, descreve Ramyata.


*com formação em Psicologia, A. Ramyata é terapeuta holística especializada em Renascimento. Uma das fundadoras do Osho Centro de Renascimento, coordena há 17 anos a formação de Terapeutas Renascedores em nosso País. Credenciada pela Star’s Edge International, é Avatar Master desde 1993 e Líder do Projeto Internacional de Auto-Estima, coordenando workshops, grupos e treinamentos em cidades por todo o Brasil.


WORKSHOP
Quando:
28 (à noite), 29 e 30 de março (manhã e tarde)
Aonde: Hotel Sonata de Iracema – Av. Beira Mar, 848 – Fortaleza/CE
Informações: Clube do Renascimento de Fortaleza - (85) 8883-0450 (Cristina) / 9921-9797 (Gustavo) / 9619-3050 (Mairta) / 3459-2137 ou 6621-2870 (Ricardo)

25 março 2008

DIGESTÃO PREMIADA

Haja suco gástrico



O filme Estômago arrasou no XI Festival Internacional de Cinema de Punta del Este, recentemente encerrado no Uruguai, levando os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator — para o protagonista João Miguel. Concorreu com outras 16 produções vindas de Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Espanha, França, China, México e Venezuela, no evento em que foram projetados quase 100 títulos entre longas-metragens, documentários e curtas.

Estômago também deu-se bem em sua estréia internacional. Em Rotterdam, recebeu o prêmio Lions Award, dedicado ao melhor filme da seção Sturm und Drang do festival, e foi o segundo lugar no julgamento do público entre 196 filmes, atrás somente de um filme de animação. O filme teve suas quatro sessões completamente lotadas, tendo sido visto, apenas neste festival, por um público de aproximadamente 2 mil pessoas.

Estômago, seguindo sua exitosa trajetória além-mar, também compareceu à mostra de Cinema Culinário do Festival de Berlim, às mostras competitivas do Jameson Dublin Film Festival (Irlanda) e ao Miami International Film Festival (EUA).

Em outubro do ano passado, Estômago foi o grande vencedor do Festival do Rio 2007. O longa-metragem do diretor Marcos Jorge brilhou na noite da premiação: além de eleito o Melhor Filme segundo o público, recebeu os troféus de Melhor Direção, Ator (dado a João Miguel), e o Prêmio Menção Especial do Júri, entregue ao coadjuvante Babu Santana. A produção de Zencrane Filmes, Indiana Production e Downtown Filmes traz no elenco João Miguel (Raimundo Nonato / Alecrim), Babu Santana (Bujiú), Carlo Briani (Giovanni), Zeca Cenovicz (Zulmiro), Paulo Miklos (Etecétera), Jean Pierre Noher (Duque) e apresenta Fabiula Nascimento (Íria), entre outros novos craques da cena. É mais um "campeão" que entrou para a seleção do Programa Petrobras Cultural.

Produzido em 2007 no Brasil por Cláudia da Natividade (que também assina a produção executiva), Fabrizio Donvito e Marco Cohen, com roteiro de Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito (o argumento é de Lusa Silvestre e Marcos Jorge), Estômago tem direção de Fotografia de Toca Seabra, montagem de Luca Alverdi, direção de Arte de Jussara Perussolo e música assinada por Giovanni Venosta. Marisol Grossi responde pelo figurino e o colunista da revista Trip e ex-presidiário Luis Mendes Jr. foi o "consultor de Comportamento no Cárcere".

Já a consultoria de Comportamento na Cozinha teve o apuro de Geraldine Miraglia, sendo o agito todo livremente inspirado no conto Presos pelo estômago, escrito por Lusa Silvestre. O filme de 112 minutos recebeu da crítica excelentes notas, com expressões apaixonadas como “Belíssimo filme que sacia nossa fome de diversão inteligente” (Marcelo Janot em Críticos.com.br), “Diretor acerta a mão em fábula indigesta” (Marcos Dávila na Folha de S.Paulo) e “Muito original, muito inteligente e divertido... Promete virar uma das sensações do ano” (Luiz Carlos Merten n'O Estado de São Paulo). A jornalista Anna Accioly (ADois Comunicação) declarou: "Esse filme é maravilhoso! Meio felliniano, uma coisa! Quando o assisti no Festival do Rio, pensei: 'vai ganhar'. Ganhou os melhores prêmios!".

Sobre Estômago, assim se posicionou Jorge Jellinek, o diretor do Festival Internacional de Punta Del Este: “Em uma sociedade onde uns devoram e outros são devorados, o cozinheiro joga um papel decisivo, e pode decidir qual é o melhor bocado. Este é o ponto de partida de Marcos Jorge para lançar um olhar nada complacente sobre a realidade brasileira contemporânea. Sob a aparência de uma comédia satírica, o filme nos oferece uma aguda reflexão social, que atravessa os diferentes extratos sociais. No país do 'Fome Zero' e da 'cultura antropofágica' exposta por Glauber Rocha, a parábola traçada pelo diretor aponta para as entranhas de uma contraditória realidade”.

Já segundo Cléber Eduardo (Cinética), "é possível rir e se emocionar simultaneamente com as experiências entre as caricaturas, com a doce visão dos presidiários, com a relação entre Nonato e uma prostituta felliniana e até com a própria narração do protagonista. São forças geradas por detalhes, sutilezas, pela explosão verbal de um Babu, por um olhar de lado de João Miguel, por um resmungo, por pequenas modulações de expressões e vozes. Um filme de minúcias, de um conjunto poderoso, que merece transpor certo gueto de circulação".

Ao comentar Estômago para a Screen International, Denis Seguin explica que o filme é “uma mistura de comida, sexo e poder que não é vista no cinema desde O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, de Peter Greenaway. Assim, o filme de estréia de Marcos Jorge é um suspense surpreendente, um mistério que gira em torno não de 'quem fez?', mas sim de 'o que foi feito?'. Como uma deliciosa refeição em um clima estrangeiro, Estômago atravessa o paladar para oferecer um inesperado, mas apropriado final. Talvez nem todos os clientes saiam satisfeitos da sala de projeção, mas é impossível assistir ao filme sem ficar com fome.”

Há muitas outras loas mais cantadas a Estômago, valendo tratar de conferir porque: a história da ascensão e queda de Raimundo Nonato, um cozinheiro com dotes muito especiais, abarca dois temas universais: a comida e o poder. Mais especificamente, focaliza a comida como meio de adquirir poder, podendo também ser adequadamente definido como “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e culinária”.

Em sua estréia européia, no Festival Internacional de Roterdã (Holanda), em que recebeu o Lions Award, Estômago foi o segundo colocado — entre 200 longas — na preferência do público. Em sua participação especial no Festival de Berlim 2008, houve até jantar inspirado nos pratos do filme. Como adendo, vários filmes e vídeos do diretor Marcos Jorge — que estreou com Estômago na direção de longas-metragens —, já venceram mais de 50 prêmios nacionais e internacionais.

As filmagens do longa aconteceram durante cinco semanas em Curitiba e São Paulo, em fins de 2006, e toda a finalização foi realizada na Itália (Milão e Roma), em meados de 2007. Isto se justifica: Marcos Jorge viveu por lá durante a década de 90. Assim, Estômago tornou-se a primeira co-produção cinematográfica realizada a partir do acordo de co-produção bilateral Brasil-Itália, assinado no início dos anos 1970. Trata-se de um filme de dupla nacionalidade — brasileiro para o Brasil e italiano para a Itália.

Na telona, desponta o ator baiano João Miguel como protagonista, junto à curitibana Fabiula Nascimento (em sua estréia no cinema) e aos cariocas Babu Santana e Alexander Sil, bem como o italiano Carlo Briani e o rocker paulista Paulo Miklos (um dos Titãs). Seu ambiente musical tem o carisma do compositor Giovanni Venosta, que criou premiadas trilhas sonoras de vários filmes italianos: Pão e tulipas (2000), Queimando ao vento (2002) e Ágata e a tempestade (2004).

Como grande parte da história se passa dentro de uma cela de cadeia, Luis Mendes Jr. — que entrou semi-analfabeto na prisão aos 19 anos e saiu 30 anos depois como escritor e cronista, com o apoio recebido do editor da Trip Magazine, o radialista Paulo Anis Lima — atuou como consultor de vida e comportamento no presídio.

Estômago foi ainda vencedor do Prêmio de Produção de Filmes de Baixo Orçamento do MINC e seu roteiro participou do prestigioso seminário de co-produção internacional Produire au Sud, financiado pelo governo francês.

O protagonista é um dos muitos migrantes que partem em direção à cidade grande na esperança de conseguir uma vida que lhe permita, no mesmo dia, almoçar e jantar. Contratado como faxineiro em um bar, Raimundo Nonato logo descobre seu talento nato para a cozinha e, com suas coxinhas, transforma o boteco em um local de grande sucesso. É Giovanni, o dono de um conhecido restaurante italiano da região, quem primeiro intui os dotes de cozinheiro de Nonato e muda sua vida, contratando-o como ajudante de cozinheiro.

Assim acontece para Nonato a descoberta da cozinha italiana, das receitas, dos sabores — e, como não poderia deixar de ser, do vinho. Sua vida muda, e inicia-se a sua afirmação no mundo: uma casa, roupas, relacionamentos sociais — e, sobretudo, o amor de uma mulher, a prostituta de bom apetite Íria, com a qual estabelece uma ancestral relação de sexo em troca de comida.

O talento de Nonato na cozinha também é rapidamente descoberto por seus companheiros de cela. Para eles e seu violento chefe, Bujiú, a chegada do novo companheiro na cela é a salvação, pois logo o miserável rancho da cadeia logo se transforma em pratos exóticos. Nonato, à sua revelia, passa então a ser conhecido como Alecrim, e com esse apelido começa também a sua escalada ao poder.

Como e porque Nonato acabou na cadeia, isto não sabemos. Esta é uma pergunta que será respondida apenas no final da história, quando se descobrirá o delito cometido por este homem e se completará o seu aprendizado. Pois Nonato, apesar de sua ingenuidade e simplicidade, rapidamente aprende as regras da sociedade dos que devoram ou são devorados. Regras que ele usa a seu favor, porque mesmo os cozinheiros têm direito a comer sua parte — e eles sabem, mais do que ninguém, qual é a parte melhor.

Neste mês de julho, Estômago estará sendo apresentado em três festivais internacionais. O longa-metragem, que já tem nove eventos desse quilate no currículo, abre a Mostra Premiére Brazil no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), participa do 25.º Festival de Cinema de Jerusalém (Israel) e será visto no Festival Internacional de Cinema de Durban (África do Sul).


17 março 2008

DOMINGOS SÃO FERIADOS

O descanso é divino



Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica, um conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção inspirado no descanso divino — ao sétimo dia da Criação.
Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.

A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue. Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar torna-se uma necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de "pausa" é preenchido por diversão e alienação. O "lazer" não é feito de descanso, mas de ocupações "para não nos ocuparmos". A própria palavra "entretenimento" indica o desejo de "não parar". E a incapacidade de parar é uma forma de depressão.

O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas, fim de dia com gosto de vazio, um "divertido" que não é nem bom nem ruim.

Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo... Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.

Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado...

Nossos namorados querem "ficar", trocando o "ser" pelo "estar". Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI — um dia seremos, talvez, nossos?

Quem tem tempo não é "sério", quem não tem tempo é "importante". Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos... Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.

O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair — literalmente, ficar desatento(a). É um dia de atenção, de ser atencioso(a) consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é "o que vamos fazer hoje?" — já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando nem sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

Quem "ganha" tempo, por definição, perde. Quem "mata" tempo, fere-se mortalmente. É este o grande "radical livre" que envelhece nossa alegria — o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.

Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada seja dá-lo como concluído.




*Com seu destacado background, Nilton Bonder — que foi Rabino da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro — é Rabino da Congregação Judaica do Brasil desde 1990

SAIBA MAIS




"A única maneira de trazer Paz à Terra é
trazê-la, primeiro, a nós mesmo(a)s."
(BUDA)

06 março 2008

BEM-ESTAR CORPORAL

Modelagem humana










O Instituto Philippe Souchard, do fisioterapeuta francês que criou o método RPG-Reeducação Postural Global, chega ao Rio de Janeiro. O tratamento fisioterapêutico revolucionário criado por Souchard conta atualmente com mais de 8 mil especialistas atuando em vários países, entre eles França, Suíça, Portugal, Espanha, Itália, Bélgica, Luxemburgo, Canadá, Argentina, Venezuela, Uruguai, Peru, Chile e Brasil.

A sede carioca da entidade será inaugurada dia 07 de março, sexta-feira, em um prédio de 1934 localizado no Jardim Botânico, aonde serão realizados cursos e atendimentos.

"Uma modelagem humana". Com esta simples descrição, o físico e fisioterapeuta francês Philippe Souchard definiu o conceito da RPG, método criado por ele nos anos 1980 e que conta hoje com metade de seus especialistas formados no Brasil — um dos países, segundo ele, onde o método mais se desenvolveu.

"Acho que isso se deve ao modo de trabalhar do brasileiro, que tem grande facilidade para o aspecto manual", caracteriza Souchard, que arrisca sua visão com grande conhecimento do País. Casado com a carioca Sonia Pardellas Souchard, também fisioterapeuta e monitora da UIPTM-Université Internationale Permanente de Therapie Manuelle, Souchard vem ao Brasil habitualmente para ministrar cursos voltados a fisioterapeutas, em diversos estados.

Em 2005, ele inaugurou o Instituto Philippe Souchard de Reeducação Postural Global em São Paulo, voltado para difusão da RPG e formação de profissionais. A sede de São Paulo e a do Rio de Janeiro são os únicos centros, além da sede da França, que ele mesmo administra. Nos outros países onde o Instituto está presente, os centros localizam-se em universidades e associações.

"Depois de ter criado em São Paulo o primeiro instituto, ficou evidente que, se fosse possível, teria que ser aberto um outro na Cidade Maravilhosa. Esta sede no Rio de Janeiro me deixa muito feliz e é também uma homenagem à Sonia, carioca da gema, que me assiste há anos, e também às minhas queridas assistentes Rita Menezes, Mônica Rodrigues, Soraia Guerra e Julieta Rubinetti", detalha Souchard, acrescentando uma conotação sentimental à inauguração do dia 7 de março.



Philippe Souchard é também o autor de mais de 15 títulos publicados, entre eles O Campo fechado, bases da Reeducação Postural Global, livro que difundiu o método mundo afora.

O RPG consiste em um método indicado para todas as patologias tratadas pela Fisioterapia. é assim que problemas morfológicos, articulares, neurológicos, traumáticos, respiratórios e até esportivos podem ser trabalhados, a partir de um dos diferenciais da RPG, que é a revalorização da função estática dos músculos.



Solicitados em permanência, eles podem encurtar-se e perder sua flexibilidade, freando os movimentos e deformando o corpo. Assim, um dos princípios do RPG consiste em identificar e alongar os músculos responsáveis pela alteração postural.


Por outro lado, os músculos são organizados de forma coerente em "cadeias musculares" e que, consequentemente, toda tentativa de alongamento acarreta compensações. O método propõe que o paciente seja tratado como um todo, com alongamentos feitos de maneira global, em atendimentos individuais que duram cerca de uma hora. A Reeducação Postural Global une ainda conceitos de individualidade (as pessoas não são iguais), causalidade (busca as causas do sintoma) e globalidade (trata o doente e não a doença).

Hoje, a marca RPG, criada por Philippe Souchard, é reconhecida e respeitada pelos órgãos oficiais da Fisioterapia nos países onde está implantada e representa um tratamento de ponta, utilizado nos melhores hospitais, clinicas e consultórios. As formações ministradas e supervisionadas pela equipe Souchard não são apenas um curso. Trata-se de uma qualificação profissional, reservada a fisioterapeutas graduados, com duração de cinco semanas, num total de 300 horas-aula, teóricas e práticas. Os fisioterapeutas formados em RPG original em todo o mundo podem atualizar-se gratuitamente e têm acesso a formações avançadas sobre temas específicos, atingindo uma carga horária total de mais de 600 horas.

E, se a marca RPG conquistou fama para o método, ao lado de outros grandes métodos fisioterápicos respeitados, é porque funciona. Mas o profissional que o utiliza, que reconhece o valor desse método, que investe tempo e dinheiro para aperfeiçoar-se, deve ser formado adequadamente pelo próprio autor e sua equipe, para aprendê-lo na sua forma original, autêntica e integral, tendo a garantia de poder aplicar perfeitamente o método nas patologias mais complexas e obter resultados à sua altura do seu esforço.


SAIBA MAIS
Instituto Philippe Souchard no RJ
Inauguração: dia 07 de março, sexta-feira, às 19 horas
Rua Getúlio das Neves, 19 - Jardim Botânico, Rio de Janeiro/RJ
Tel.: (21) 2508-8900 (A Dois Comunicação)

http://www.rpgsouchardinst.com.br

TRAZ A PIPOCA

Tem cinema em casa



De 15 a 24 de março, a Rede Telecine estará com sinal aberto para todos os assinantes da Net e da Sky. Mesmo quem não tiver em seus pacotes os canais Telecine poderá ver a programação de filmes do Premium, Action, Light, Pipoca e Cult.

Na Net, os cinco canais Telecine estarão com o sinal aberto no próprio canal, em diferentes horários, no canal 37 e também na Revista Eletrônica nas praças que pertenciam à Vivax.

Entre os destaques estão as estréias de "Por Água Abaixo", animação indicada ao prêmio BAFTA, e a comédia "Deu a Louca em Hollywood", que satiriza grandes produções como "A Fantástica Fábrica de Chocolate" e "O Código Da Vinci", no Telecine Premium.

Outra atração é o festival "Santo Chaplin", com nove filmes de Charles Chaplin, que será exibido no Telecine Cult.

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO:

>> Deu a Louca em Hollywood
15/03, às 22h – Telecine Premium
16/03, às 20h – Telecine Pipoca (dublado)

Sinopse: o filme é uma sátira às grandes produções hollywoodianas. Na comédia, quatro órfãos que cresceram em diferentes partes do mundo são chamados para conhecer uma fábrica de chocolate. Lá, eles encontram um guarda-roupa mágico que os transporta para a terra de Gnárnia.

>> Por Água Abaixo
22/03, às 22h – Telecine Premium
23/03, às 20h – Telecine Pipoca (dublado)

Sinopse: Roddy é um rato de estimação que vive uma vida cercada de luxo e conforto. Tudo muda quando um rato de rua invade seu espaço. Para se livrar dele, Roddy tenta convencê-lo de que a privada é uma banheira, mas é o próprio ratinho chique que acaba sendo sugado pela descarga. Depois de ir por água abaixo, ele chega à Ratópolis, cidade dos ratos no esgoto. Lá, Roddy conhece a rata Rita e o vilão Toad e se mete em grandes aventuras e confusões.

>> Festival Santo Chaplin
de 18/03 a 23/03 – Telecine Cult

Homenagem a um dos maiores ícones do cinema mundial, com a exibição de 9 de seus filmes. A programação inclui clássicos como Vida de Cachorro (dia 18/03, às 18h), Luzes da Ribalta (dia 22/03, às 18h) e O Grande Ditador (dia 23/03, às 17h35).



ALTO ASTRAL

Novo formato da Lua Nova



Imagine-se em busca de relaxamento mental / físico e recarga das energias, numa chácara afastada do burburinho urbano, com um Buddha Hall bem montado, alojamentos para participantes e um mínimo de instalações básicas e necessárias para tornar-se um pólo de atração de interessado(a)s em programas de meditação e grupos de crescimento. Imagine um espaço terapêutico criado para o autoconhecimento, para a meditação e momentos de relaxamento, que trata da produção de bem-estar pela mobilização de técnicas anti-estresse.

Mais do que tudo isso, a energia do lugar mostra-se perfeita. O local revela-se um ambiente acolhedor, amoroso e descontraído para os participantes das vivências promovidas e compartilhadas. Emana um desejável clima em que meditação e celebração andam de mãos dadas e onde as pessoas sentem-se à vontade para, simplesmente, serem felizes.

Os coordenadores do centro, o Ashara e a Juhi, informam que o espaço de crescimento utiliza diversas terapias e meditações em absoluta sintonia com a mensagem de Osho, com o objetivo de permitir a aprendizagem de um viver de forma mais plena e saudável. O slogan escolhido por eles — Aprendendo a viver plenamente — abre-se à proposta de uma programação voltada a questões simples, porém essenciais da vida de qualquer um de nós.

Questões que perpassam por relacionamentos, filhos, saúde, amor, riso, choro, dança, brincadeira — enfim, tudo o que é humano. Através da abordagem desses temas, goteja o autoconhecimento que é a base da felicidade, o bem maior que todos desejamos. Ao invés de apenas apresentar um discurso, como tantos que temos ouvido, Ashara e a Juhi estão sabendo despertar o respeito e o reconhecimento de parceiros de jornada e admiração pela obra de Osho.

Ashara tornou-se sannyasin em 1984, quando esteve na comunidade de Osho no Estado de Oregon (EUA). Formado em Economia, trabalhou 14 anos no Banco do Nordeste do Brasil, para tomar em 1990 a decisão de abandonar esse trabalho, vender o que possuía e seguir, com Juhi e o filho, para Poona, Índia, com a intenção de lá viverem indefinidamente. Então se aprofundaram no que os iniciados chamam genericamente de "trabalho terapêutico segundo a visão de Osho".

Segundo o também sannyasin Champak, Ashara e Juhi atuaram em diversos departamentos da comunidade e formaram-se como Osho Terapeutas, trabalharam na Multiversity e ainda hoje fazem parte da equipe de terapeutas do Osho International Meditation Resort. Desta forma, garantem que o uso da terapia segundo a visão de Osho ocorre sob sua coordenação com competência e responsabilidade.

Ashara tem se especializado em trabalhos com os chakras, em Terapia da Respiração e em Constelação Familiar. É terapeuta há 20 anos e já ministrou cursos de terapia em todo o Brasil. Juhi é pedagoga, com 30 anos de experiência na área educacional, especialização em Psicopedagogia e Psicodrama. Professora universitária, há 10 anos atua como terapeuta e vem se aprofundando nas questões referentes aos relacionamentos, com formação em Dinâmicas de Grupo e em terapia de Osho Co-dependência, com os seus criadores Krishnananda e Amana.

Desde 1987 Ashara e Juhi têm estado à frente de Centros de Meditação de Osho, como o antigo Osho Premadhara, passando pelo Osho Tazeen, e agora com o Osho Estação Zen. O projeto que estão desenvolvendo para expandir os trabalhos oferecidos no espaço levou Champak a declarar: "Foi exatamente nesse ponto que senti total identificação com um meu antigo sonho. Percebi que aqui era o lugar onde poderia colocar minha força, minhas habilidades, minha vontade e ajudar estes meus amigos e construir um sonho que também é meu: dispormos no Brasil de um espaço onde claramente a mensagem do Osho seja não apenas proclamada, mas também vivenciada em programas residenciais, com um suporte terapêutico e amoroso segundo sua visão, e com um mínimo de condições satisfatórias de hospedagem para receber pessoas de todo o País e mesmo do exterior", complementa.

O aprofundamento de vivências, representado por um mergulho em programas residenciais é, muitas vezes, fundamental para o processo de transformação interior. Em abril do ano passado, o centro realizou o Osho Saúde Total, um programa que objetivou oferecer ferramentas simples e eficientes para se alcançar o bem-estar físico, mental, emocional e espiritual. Compreendeu os quatro níveis de relaxamento descritos por Osho — 1) Relaxando o Corpo Físico: dissolvendo as armaduras impregnadas no corpo e mobilizando as energias estagnadas; 2) Relaxando a Mente: limpando as confusões da mente e alcançando um espaço de paz e silêncio interior; 3) Relaxando as Emoções: utilizando a compreensão para transformar as emoções de forma positiva e consciente: e 4) Relaxando o Ser: expressando nossa essência mais profunda através do riso, da dança e da brincadeira.

Em novo formato este ano, para a Celebração da Lua Nova o centro convidou a pedagoga Fátima Limaverde, diretora da Escola Vila, fundada em 1981 em Fortaleza, para colaborar nas vivências. Segue a programação.

Dia 7, sexta: Celebração da Lua Nova (Fátima Limaverde com Danças Circulares)

Dias 8 e 9, sábado e domingo: Reiki - Nível II (com Revati Ma Dhyan)

Dias 20 a 23, quinta a domingo (Semana Santa): A arte do Encontro (com Juhi e Ashara)
Dia 29, sábado: Oficina de Constelação Familiar (08h30, com Ashara)

Dia 30, Domingo: Vivência Meditativa (07h30 às 18h00 - pré-requisito para Escola de Mistérios)

Sessões individuais: com hora marcada.




"Não há nenhum caminho, nenhum lugar para se ir, nenhum conselheiro, nenhum professor, nenhum mestre. Você é o que a existência quer que você seja. Então, relaxe."

(Osho Rajneesh)



AFINE-SE
Estação Zen
Rua Lima de Oliveira, 180 - Mangabeira - Eusébio/CE

Tels.: (85) 3229-8511 / 8867-8511 / 8883-8511

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28 fevereiro 2008

PLATÉIA & PALCO

SISTEMA NERVOSO



Após receber um duro golpe na ponta do queixo, um lutador cai nocauteado na lona. Após tanta violência, seu sistema nervoso não entende o que está acontecendo — e então, tudo se interrompe por cerca de alguns segundos. É como se houvesse um corte súbito de energia.

Durante a contagem de 10 segundos feita pelo juiz, ele tenta recuperar sua consciência. Sem conseguir diferenciar sonho de realidade e correndo risco de morte, o lutador é bombardeado por emoções e questionamentos sobre sua vida, sua saúde, sua força e seus medos. No teatro, um encontro urgente do ator e da platéia com a vida.

Trata-se de um espetáculo muito alegre e afirmativo, que trata o cidadão como um ser potencializador e único. É uma peça de muita energia, que prende a atenção pelo tema que aborda e pela movimentação baseada na estética das histórias em quadrinhos.

É uma tragicomédia que traz a linguagem da Mímica Total e uma proposta poética de romper a distância entre ficção e a realidade. Combinando um intenso estudo filosófico e científico sobre o tema com diversas improvisações e trabalhos corporais, o material de pesquisa converge em linguagem poética.

Nesta primeira fase é gerado um grande leque de cenas e partituras corporais. Na segunda fase, o material é selecionado e investigado. Este rico material é organizado por meio de composições de partituras de ação física e vocal.

A dramaturgia é finalizada com o mapeamento do pensamento na ação física, isto é, a dramaturgia do corpo. Somente nesta fase o texto escrito é finalizado. A movimentação é baseada nas técnicas extra-cotidianas da mímica, onde o corpo não é simplesmente um corpo, mas uma mídia primária, podendo incorporar objetos, emoções e abstrações.

O espaço é pintado e desenhado, visando a construção de ilusões mímicas. A voz aparece integrada ao corpo, tendo grande utilização da mímica vocal, com a corporificação de sons onomatopaicos, línguas inventadas (gromelô) e defacetação das palavras.



FICHA TÉCNICA

Direção, criação e atuação: Luis Louis e André Capuano

Figurino: Fause Haten

Sonoplastia: Fernando Mastrocolla

Criação de luz: Luis Louis e Vanderlei Conte

Vídeos: Beto de Faria

Realização: Estúdio Luis Louis & Cooperativa Paulista de Teatro



ONDE & QUANDO
Centro Cultural São Paulo - Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso - São Paulo/SP
Sala Jardel Filho, de 16/02 a 22/03 (aos sábados, 21h)

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AMOR E DOR

Clube dos corações machucados


Aprisionado. Encurralado pelos próprios sentimentos, cobria a cabeça com o travesseiro. Mas eles sempre o encontravam. Ligava o som, a música bem alto, "vamo lá, cara, esquece essa mulher..." Os sentimentos, porém, gritavam mais alto ainda. Como fugir de algo dentro dele mesmo?

Na hora de comer tentava se concentrar nos detalhes, toda a atenção do mundo... Mas então lembrava-se dela tomando café, linda em sua beleza matinal, o café que ele mesmo levava para ela na cama. E as lágrimas caíam, misturando-se à comida. Inútil fugir, inútil.

Quando a solidão tornou-se insuportável, quando os pensamentos já eram sombras gigantescas, quando os sentimentos iam explodir o peito, ligou para o amigo. A primeira pessoa de quem lembrou, o amigo, 20 anos de amizade, 30 de porres homéricos. Alguém para falar, por favor. Por favor...

E ligou. E começou falando bobagens, inventou assuntos. O amigo trabalhando, o tom da voz meio distante. Então ele confessou: precisava conversar, podiam se encontrar à noite? O amigo respondeu "sim, claro, algum problema?" Ele disse "nada demais", apenas se sentia um pouco só, "eu... eu..." E não pôde prosseguir. Do peito de repente subiu um engasgo tão forte que a voz se calou. E começou a chorar, sem controle.

Foi pegá-lo em casa, o amigo. No percurso falaram de amenidades, ele meio envergonhado do choro ao telefone. Mas pelo menos não passaria a noite sozinho com seus demônios. Conversaria, dividiria a angústia, isso far-lhe-ia bem. É por isso que as mulheres gostavam de conversar, falar de sentimentos? Então era por isso. Chegaram e o amigo serviu uísque, salgadinhos e sentaram na varanda. "Um brinde à nossa velha amizade, quantos anos, 20, tudo isso? Tamo ficando velho. Velho, não, vivido." Tim-tim.

Amizade é bom, mas não pode esquecer do futebol: o time precisa de reforço no meio-campo. Nem das mulheres: "aquela cliente dá em cima de mim direto, qualquer dia eu perco a cabeça." Trabalho: "se eu conseguir o terreno, mando o banco pra putaquipariu". Ele escutava o amigo falar e se divertia. Sentia-se melhor, menos sufocado, os demônios indo embora com o vento que soprava na varanda.

O amigo serviu outra dose, relaxou na cadeira, estava cansado, andava trabalhando muito. Futebol de novo: o jogo de domingo, aquele pênalti não marcado, a partida tomaria outro rumo. "Sim, é verdade", ele concordava. Trabalho de novo: o chefe do setor andava de marcação com ele... Mulheres de novo: aquela atriz, "dizem que o cachê é dois mil por uma noite, é mole?" Ele ria do amigo, ria gostosamente, mas...

A razão de estar ali, falar de seus sentimentos, até o momento nada, os assuntos passando sempre ao largo. Tentou uma vez: "pô, eu ainda gosto dela, tô arrependido do que fiz..." mas logo o papo voltou para o trabalho. Tentou outra vez: "tu acha que eu devia ir atrás dela?" Olhou para o amigo e viu que ele bocejava. "Hein?, ah, acho sim, quer dizer, você devia esquecer essa mulher, tanta gata por aí, vai mais uma dose?"

Acabou desistindo. O amigo, arriado na cadeira, dormia e acordava. Três horas de papo e não falou do que realmente queria, tanta coisa para dizer, botar para fora. Bem, pelo menos se sentia melhor, a alma já não pesava tanto no peito. O amigo olhou o relógio, precisava dormir, amanhã tinha muito trabalho, "tu pode dormir no outro quarto, preparei tua cama, tem lençol, se precisar de algo..."

Ficou mais um pouco na varanda, sozinho, olhando as luzes da cidade. Respirou fundo, afastando a pena de si mesmo. Ele era apenas um cara sofrendo, só isso. Mas por que os homens não gostavam de falar das coisas do coração? Por que fugiam dos próprios sentimentos? Doía pensar, pois os pensamentos o levavam de volta a ela, que tanto queria esquecer, não, não queria esquecer, apenas a queria de volta, só isso, ou não?...

No quarto, já deitado, sorriu lembrando do amigo. Não podia culpá-lo. Ele fora generoso, a seu modo atrapalhado, travado, evitando falar de sentimentos. Sentimentos. Essa coisa tão feminina... Tão feminina? Como assim? Sofrer por amor era exclusivo das mulheres? Se era, então que elas lhe dessem licença, ele agora fazia parte do clubinho. Sem nenhuma vergonha.

Então desligou o abajur. Mas o abajur ligou novamente: era um último demônio, insistente, olhando para ele. Ele sorriu e puxou a tomada da parede. E se ajeitou sob o lençol. Amanhã seria um novo tempo.


*Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3.ª Pedra do Sol


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27 fevereiro 2008

O MILHO E O FUBÁ

Mentalidade adolescente



Minha filha adolescente dá um trabalho...

Tira notas baixas na escola e quando vou reclamar ela diz, com todas as letras: "Todo mundo foi mal, até mais do que eu."

Reclamo que ela não estuda, que fica tempo demais na internet. E ela é infalível: “Os outros alunos também ficam.”

No final de semana, sai com as amigas. E eu fico "na orelha" para que ela não ande no carro dos amigos mais jovens, que ainda não têm noção do perigo e que bebem nas festinhas. “Ah, pai, todo mundo anda!”

Quer festa de aniversário, vai convidar os amigos. Menores. Digo que não vou deixar servir bebidas alcoólicas. Lá vem bomba: “Mas em todas as festas que eu vou eles servem!”

Aí chegam as provas de final de ano. Resultado: dependência. As malditas “depês”. Pulo na garganta dela, só para ouvir: “Os outros também ficaram.”

E quando ela vem com suas desculpas de adolescente, mando o velho "Quando você vai com o milho, já voltei com o fubá".

E assim levo a vida, em constante atrito com a "aborrescente". Até ela amadurecer e entender que existe uma coisa chamada “responsabilidade”, e que não deve usar o comportamento da maioria de seus amigos como justificativa para seus erros e omissões.

Este talvez seja o maior desafio dos pais: desenvolver o senso de responsabilidade nos filhos. E também o de ensinar como utilizar a prática da paridade.

Paridade é uma comparação que prova que uma coisa é igual a outra, ou semelhante. É por meio dela que entendemos o mundo. A gente vê ou ouve as coisas e exercita a paridade, comparando o que vemos ou ouvimos com o que conhecemos. Tal exercício comparativo — com base em nossos valores e convicções — é que fundamenta nossos julgamentos. Consideramos algo bom ou ruim a partir dessas comparações.

O que minha filha faz é um exercício de paridade de adolescente. Quando reclamo das notas baixas, ela compara com os outros amigos. E conclui que o problema não é só dela, é "da maioria". Portanto, deve ser normal. E se é normal, não deve ser tão ruim... “Ah pai, não exagera!”

Seu conceito de “responsabilidade” ainda não amadureceu para entender que a normalidade não se determina pelo comportamento dos outros. Nem da maioria. Fosse assim, 300 torcedores de um time trucidando um torcedor do time adversário seria normal.

E esse mau uso da paridade não é problema exclusivo dos adolescentes, não. Olhem o caso dos gastos com cartões corporativos do governo. Um escândalo que traz à luz mais uma vez um exercício da paridade dos adolescentes feito por adultos. Alguém apontou comportamento errado dos integrantes do governo? Compare com o governo anterior.

Não importa se o PT governa desde 2003. Importa é ver se os outros também tiraram notas baixas: “Ah, mas no tempo do FHC gastava-se mais!”. “O mensalão foi criado na época do FHC!" “Só aceito CPI se ela cobrir também a época do FHC!”... O Brasil é um país adolescente.

Nossa democracia é adolescente. Mas nossos políticos são bem crescidos. Não podem usar justificativas adolescentes para seus atos. Ah, os problemas estão sendo encontrados? A CPI vai ser criada? A ministra já caiu? O ministro já devolveu o dinheiro? O governo está fazendo tudo pela moralidade? Temos transparência?

Quando vocês vêm com o milho, já voltei com o fubá.

Mas digamos que tudo isso fosse verdade e que providências estão sendo tomadas. Ainda assim teríamos uma grande encrenca, pois o pior problema não dá pra contabilizar: o exemplo que está sendo passado aos nossos filhos, de que os erros passados justificam ou atenuam os atuais.
Não justificam. Não atenuam.
Responsabilidade. É isso que explico todo dia para minha filha. E haja milho...


*O jornalista Luciano Pires, ao ter a sensação de que o Brasil "estava ficando burro", escreveu o livro "Brasileiros pocotó", tornando-se um paladino da luta contra a mediocridade no País


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04 fevereiro 2008

SEM DORMIR

Ao som de duas insônias






Je sentis ma gorge serrée par la main terrible de l'hystérie.
(Charles Baudelaire)

Eis que coloquei minhas palavras em tua boca.
(Jeremias, 1.9)

Só sobrevivo se rio do que é sério.
(Anônimo)






Naquele dia do mês de março de 1909, Giovanni Pascoli havia recebido, pela manhã, uma carta que o deixara inquieto. Datada do dia 19, trazia um conteúdo inesperado, e a resposta a dar suscitava reflexão, embora não pudesse tardar. Olhando a paisagem quieta do entardecer, em pé no pórtico de sua bela casa em Castelvecchio, o poeta sentia um rebuliço interior que o impedia de pensar com clareza. Não sabia se deveria responder à carta, ou, caso respondesse, se deveria fazê-lo de modo indefinido ou com decididas afirmações. Optou por respondê-la com evasivas, mas cuidando, contudo, de não alimentar esperanças.


A despeito da decisão, não se tranqüilizou por inteiro, restando-lhe uma espécie de tremor sutil na mão direita, suficiente para dificultar sua escrita; restou-lhe, também, um fio muito fino e frio no abdome, apesar da bebida quente que ingerira antes de se deitar. A estranha sensação acabou permanecendo em sua noite insone, povoada por imagens de letras, que se embaralhavam formando nomes, a soar em sua mente, imersos em versos que não conseguia delimitar, e dos quais logo se esquecia, numa sucessão de aparições e perdas.

Longe dali, Ferdinand de Saussure, depois de mais um dia dedicado à preparação da segunda série de conferências sobre Lingüística Geral que ministrava na Universidade de Genebra, também não pudera dormir, e dedicav-se a continuar seus cadernos de estudo sobre anagramas, sistematicamente preenchidos durante as noites, até a hora em que o sono o impedia de prosseguir. Nessa ocasião, com a insônia, o trabalho avançava até um ponto em que sua vista se turvava e seu pensamento se aturdia, num misto de sonho e realidade que o tornava ainda mais aflito quanto à veracidade de suas descobertas.


Vinham-lhe à mente, então, a partir de direções difusas, inauditos sons guturais, enquanto sentia, pouco a pouco, a garganta apertar-se. Uma breve pausa e alguns goles de água, sorvidos em silêncio num canto escuro, eram suficientes para que se percebesse parcialmente refeito, retornando à sua longa tarefa.


Após alguns anos de pesquisa incansável, permanecia a dúvida primária quanto à própria existência do objeto de sua busca: apesar do deslumbramento a que se entregara, por reconhecer tantos anagramas evidentes nas obras que examinava e conseguir formular as regras que deveriam ter orientado os autores na realização daqueles feitos poéticos, persistia nele um duro foco de incerteza, imanente ao seu estudo, que se contrapunha ao encanto como um gume aguçado, impiedoso, a introduzir-se cada vez mais fundo em seu espírito.


Durante a madrugada, além do trabalho, ocupava-lhe a imaginação uma possível segunda carta dirigida a Pascoli, na qual formularia, de maneira sucinta mas suficiente, a questão crucial que o aliviaria pela resposta que obtivesse, mesmo que negativa. Lia e relia a primeira carta enviada àquele poeta, um dos poucos a cultivar ainda a poesia latina, e tantas vezes premiado no Certamen Hoeufftianum da Academia de Amsterdã:

"Tendo me ocupado da poesia latina moderna a propósito da versificação latina em geral, encontrei-me mais uma vez diante do seguinte problema: certos pormenores técnicos que parecem observados na versificação de alguns modernos são puramente fortuitos ou são desejados e aplicados de maneira consciente?

"Entre todos aqueles que se distinguiram em nossos dias, por obras de poesia latina e que poderiam, por conseguinte, esclarecer-me, são poucos os que se poderia considerar ter dado modelos tão perfeitos como os seus e onde se sentisse tão nitidamente a continuação de uma tradição muito pura. É a razão que me leva a não hesitar em dirigir-me particularmente ao senhor e que deve servir-me de justificativa pela grande liberdade que tomo.

"Caso o senhor estivesse disposto a receber em pormenor minhas perguntas, eu teria a honra de enviá-las numa próxima carta."

Saussure iniciara sua pesquisa sobre os anagramas em 1906, e, a esta altura, já havia preenchido seu 1.170.º caderno, além de papéis avulsos. No momento, fazia anotações nas grandes folhas em que tratava dos poemas latinos de Pascoli e de outro autor, também italiano e também Giovanni — Rosati. Seus cadernos continham essencialmente exercícios de decifração, por meio dos quais buscava encontrar os anagramas fonéticos que teriam sido incluídos pelos versificadores: um ou mais versos comporiam uma certa palavra, geralmente o nome de um deus ou de um herói.


Ao escutar versos latinos, Saussure ouvia levantarem-se, pouco a pouco, os fonemas principais de um nome próprio, distribuídos — acreditava — intencionalmente e conforme normas definíveis. A cada lance de dados do olhar, surgia um premeditado arranjo anagramático, a evidenciar a intervenção do demiurgo, uma inteligência organizadora do caos, que a sua própria desvendava; divisados em toda parte, os nomes insuflavam o seu ânimo, nunca serenado, todavia, pela convicção.

Pascoli, professor da Universidade de Bolonha e, portanto, seu colega de ensino acadêmico, seria seu salvador, o deus-vivo a revelar-lhe a própria intenção criadora, a dar-lhe sustentação às asas do seu vôo, a confirmar-lhe a determinação dos gestos por ele desvelados, a dar-lhe a paz necessária à sua excitação, chão à sua descoberta sem limites.


Ao raiar a aurora, entrevendo por uma fresta um tênue raio de sol, Saussure adormeceu. E teve um sonho curioso, com estantes e estantes de livros; numa delas (onde seus olhos captaram de relance a palavra “Ficção” encerrada numa etiqueta) apareceu-lhe, num close à meia-luz —detalhe sobressaído em meio às contíguas edições na linha da prateleira —, o título Sobre a psicopatologia da vida cotidiana.


A inscrição fê-lo despertar-se. Lembrou-se, logo, de já ter visto tal volume numa livraria de Genebra, sem chegar a folheá-lo — era, sabia-o ele, outra obra de Sigmund Freud, autor de A interpretação dos sonhos, que também não lera. Tratava-se, aquele vislumbre, de algo estranho e mero acaso, como lhe pareciam ser, quase sempre, os sonhos... Após deixar de lado os signos esvanecidos na memória, voltou ao seu mundo presente, focalizando a resposta que receberia do poeta italiano.

Maria, irmã de Pascoli, notou na manhã seguinte a sua inquietude: estava lívido, com as feições contraídas, visivelmente maldormido. Trazia uma expressão rude, grave, interrogativa, além do habitual ar sombrio que se instalara nele desde o assassinato nunca aclarado de seu pai Ruggero, quando tinha apenas 12 anos. Ela ofereceu-lhe, então, um revigorante desjejum, que ele mal tocou.


Ainda à mesa, o escritor relia versos seus, de Ultima linea — “Ergo Vergilius cecinit nova saecula frustra, / frustra ego praedixi, frustraque effata Sybilla est...” —, de Senex Coricius — “Spectabat mare caeruleum de vertice collis / mente Cilix tota. Prope falx et marra iacebant” —, e de Nestor, na página casualmente aberta de Catullocalvos — “sub arbore umbra Nestoris sedet senis”. Depois, debruçou-se sobre versos de seus familiares poetas latinos, buscando neles, também, possíveis “pormenores técnicos” a que o lingüista aludia. Seriam procedimentos por ele ignorados? E, se apareciam em seus próprios poemas, seriam fruto de uma consciência misteriosa que guiara sua pena, uma consciência alheia que o tornara um simples instrumento de sua vontade?


Ou estaria tão imbuído da poesia no idioma do Lácio que a criaria, em seus moldes, como um meio transmissor de uma tradição, sem que isto se limitasse à sua iniciativa? Afinal, ele, Iohannis, recebera medalhas de ouro do concurso holandês, o que revelava que, aos olhos dos críticos, assim como aos do próprio Saussure, seus versos eram legítimos e destacados representantes da poética latina. Não lhe agradava a idéia de não saber coisas importantes acerca de sua própria obra, composta com o máximo de atenção, labor, dedicação e controle que podia oferecer a si mesmo, naquilo que mais lhe importava.


Outrossim, conhecia e estimava, é claro, os momentos em que lhe vinham soluções sem que as perseguisse, as fases mais férteis, a inspiração especial de alguns momentos, sem os quais, acreditava ele, não seria um poeta. Mas a simples sugestão de algo que fizesse sem ter plena ciência de que o fazia fincava-lhe novamente no abdome um frio e fino fio, como se a ponta delgadíssima de uma seta, ou mesmo uma agulha gélida, estivesse cravando-se em suas entranhas. Desencorajando o interlocutor sobre a existência de algo que não identificava, foi cortês o suficiente, em sua resposta, para propiciar a nova e esperada carta, com a questão mais definida acerca dos tais “pormenores”. A mensagem não categórica dava-lhe a alternativa de estar escondendo o que não queria revelar, em vez de atestar o possível desconhecimento de algo que pudesse ser real.

Ao receber a resposta de Pascoli, Saussure inicialmente prostrou-se, por não lhe indicar, ela, qualquer identificação com suas sugestões. Anteviu, portanto, a negativa quanto à realidade de seus achados, talvez apenas uma miragem, uma projeção de sua mente excitada sobre uma massa, ou mancha, que se prestava a qualquer molde que a ela se impusesse. Mas a chama de uma possível revelação, vista a cada passo de seu empenho, não se apagava com mais uma incerteza, e sua iniciativa de escrever a segunda carta deu-se logo, sem rodeios. Era o dia 6 de abril:

"Dois ou três exemplos bastarão para colocar o senhor no centro da questão que se colocou ao meu espírito e, ao mesmo tempo, permitir-lhe uma resposta geral, pois, se é somente o acaso que está em jogo nesses poucos exemplos, disso decorre certamente que o mesmo acontece em todos os outros. De antemão, creio bastante provável, a julgar por algumas palavras de sua carta, que tudo não deve passar de simples coincidências fortuitas:

1. É por acaso ou intencional que, numa passagem como Catullocalvos p. 16, o nome Falerni se encontre rodeado de palavras que reproduzem as sílabas desse nome


... / facundi cálices hausere – alterni /
... / FA AL ER AL ERNI/

2. Ibidem à p. 18, é ainda por acaso que as sílabas de 'Ulixes' parecem procuradas numa seqüência de palavras como

... / Urbium simul / Undique pepulit lux umbras ... resides
... / U - - - UL U - - - - - ULI- -X - - - - S - - - S-ES,

assim como as de 'Circe' em / Cicuresque /
CI -R- CE
ou em / Comes est itineris illi cerva pede / ... ?!?"

A carta continuaria, mas o essencial estava dito. Se isto não fosse, como deixara explícito, um procedimento consciente, nada o seria, e seu esforço teria sido em vão. A angústia instalou-se nele com um suspiro indefinível, pelo tempo que durasse a espera de uma resposta que previa desértica, árida, vazia, a consumir-lhe o ânimo.

Sem prestar muita atenção à correspondência, Maria passou-a ao irmão, que apanhou imediatamente, dentre as diversas cartas, a do mestre suíço. Ela notou, mais uma vez, que o desassossego tomava conta do poeta, alçando-se, pela premência de algo oculto, a um nível bem mais elevado do que aquele que percebia nele desde os dias finais do último mês.

Pascoli leu-a rapidamente, e dirigiu-se, como em busca de ar, aos arredores de sua residência. Uma névoa discreta tomava conta do lugar, fundindo-se a seu pensamento, curiosamente vago. Não pensara, considerava-se certo disso, em espargir elementos de nomes nos poemas, mas eles estavam ali, e o remetente da carta tinha razão. Desconhecia de fato algo que ele próprio fizera? Ou seu conhecimento era maior do que supunha? Por um instante, pareceu-lhe natural que tivesse engendrado tais palavras nos versos.

Seu devaneio ingressou numa dimensão mais interna, a olhar para dentro, buscando enxergar em meio à névoa que espelhava o exterior, agora não visto — e viu um possível outro de si, a rir de sua ignorância, a ironizar sua cegueira. Voltando novamente o olhar para o lado de fora, dominado por uma superfície vaporosa amena, continuou a ver uma face de si mesmo no éter, como um reflexo que, não obedecendo a seu gesto, ria enquanto ele franzia o cenho.

Seria este outro o autor daqueles gestos precisos de sílabas, de sons, entremeando-se em seu ofício como uma linha que costura no tecido alheio, mas cede à fusão de seu feitio? Ou seu riso denunciava a não-autoria de quem quer que não fosse a própria escritura, a gerar em seus meandros suas próprias leis, dotada de um cérebro, motor da linguagem, criador de urdiduras independentes do veículo de sua concretização, esta mão trêmula?

Não havia resposta a dar, sem partir-se, sem negar a sua consciência, ou exaurir a do outro, ou afirmar o inexistente, ou cegar-se diante da evidência, ou admitir que sua poesia lhe era transcendente, ou que, se não o era, talvez fosse algo que não conhecia bem, e, se não conhecia bem, talvez não existisse, assim como sua consciência — que agora lhe parecia demente, com um teor indistinto de mentira a roer-lhe desde dentro (e desde fora).

Nada a responder. A decisão amainou-lhe a alma, que clareava em seu centro, enquanto a névoa se dissipava, permitindo contornos mais nítidos. O ar frio entrou mais livremente em seus pulmões, acalentando-lhe o peito revolto. Parecia agora delimitar-se, em raros traços de vapor, a face translúcida de seu pai, sugerindo-lhe, com voz pálida e longínqua, que deixasse os mistérios se diluírem nos vãos do intelecto.

No início, a ausência de resposta intensificou a agrura de Saussure, que, febril, já não conseguia prosseguir a escrita em seus papéis grandes. As noites tornaram-se vazias, porque povoadas apenas de fantasmas. Fantasmas são nada, vêm e vão, à mercê dos ventos de nossa fantasia; emergem e retornam ao infinito das possibilidades amorfas, ao vazio das formas. Só a intenção, só o ato atento determina a existência do que se identifica. O que apenas surge, e some, nada é, desprovido da determinação da vigília. Assim os sonhos incertos das noites em Genebra, quando a elas retornou o sono, só reaparecido no momento em que os cadernos foram definitivamente ocultados dos olhos exangues de seu autor, num móvel de sólida madeira.


*Marcelo Tápia, radicado em São Paulo/SP, é professor, poeta, musicista e escritor. Produziu este conto motivado por informações contidas na obra As palavras sob as palavras – Os anagramas de Ferdinand de Saussure, de Jean Starobinski (tradução de Carlos Vogt, Editora Perspectiva, São Paulo/SP, 1974). Os trechos das cartas de Saussure (foto acima) foram retirados desta edição, com mínimas alterações, assim como dela provém alguma frase incorporada ao texto






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