18 janeiro 2016

APRENDIZADOS CENTRAIS


Floradas para pensar janeiros*

 

Uma vez, convivendo com os Tapeba, tronco indígena cearense, ouvi deles a história da Meninazinha, que seria um Espírito a habitar a mata dali, na região de Caucaia.

Quando a Meninazinha aparecia a quem ia buscar caça, a pessoa "se ariava" na mata, como diz o povo – quer dizer, se alheava ou perdia-se do caminho.

"E quando é que a pessoa encontrava a Meninazinha?", eu perguntei ao velho índio. "Quando tirava da mata mais do que precisava para viver, sem cuidado e sem replantar", ele disse.
 

Há neste conto uma ideia de cuidado que vale para todo ato cotidiano; há uma ideia de que, quando tiramos da natureza e da vida se deve pensar em replantar, devolvendo ao mundo algo de nós mesmos, e, também, há uma crítica à ambição de buscar constantemente levar para si mais do que se precisa.

Atualmente, ceder ao fascínio do consumo em excesso e do materialismo redutor é, não raro, afastarmo-nos daquilo que, em essência, somos. E, como já colocava Pasolini, o cineasta, o consumo causa uma espécie de mutação na alma humana, sendo, mesmo, um substitutivo do amor.

As pessoas dizem comumente que, quando estão se sentindo vazias ou sozinhas, vão ver “as promoções” e dar uma ida aos shoppings.

Há certa beleza nas vitrines, sem dúvida, e poder-se-ia fazer isso vez em quando, mas isto revela um traço dessa compulsão para o "ter" que tem tomado a vida coletiva. 

Os antigos sertanejos diziam que, quando a gente lavra a terra, tirando mato, plantando, cuidando e colhendo, a gente sente melhor o movimento da vida. "É que, quando ficamos atentos ao ritmo das tarefas essenciais da vida, não precisamos dar comida de mentirinha à nossa alma", completavam.


O ano bom, que vem com as marés de janeiro, nos traz renovadamente essa pergunta pelos aprendizados centrais de nossa existência. E a educação dos coletivos de que fazemos parte – família, grupos de trabalho e religiosos, movimentos sociais, entre outros – são ambientes grupais que nos fazem perguntar o que estamos perdendo de vista e que seria essencial retomar, para novas criações.


Na verdade, para novas aprendizagens do amor, nos contextos concretos de nossa vida com os outros.
 

Hoje se põe em cena a ideia de ancestralidade como um movimento de busca às antigas gerações ou ao quê que do passado deve durar, sendo base para o novo hoje. É nesse sentido que falar de janeiro e ano bom, entre secas e floradas doces, é refletir um pouco sobre o tempo.

Kardec, em um estudo intitulado “Vida Futura”, em Obras Póstumas, nos traz ideias complexas sobre o assunto, que de leve apenas vamos tocar. Primeiro, ele mesmo pergunta: se a crença na imortalidade é um aspecto importante da vida moral e ética das criaturas, por que os que a pregaram foram tão maus?

Ele refuta: quem diria se não seriam piores sem isso? E passa a observar – e este é um dos objetivos do espiritismo – que as ideias sobre vida futura, além de vagas, sendo muito imperfeitas, dificultavam a compreensão do mundo espiritual e seu movimento de vida.

E é então que Kardec mostra que a construção do saber ou da fé raciocinada sobre o mundo espiritual leva-nos a compreender o laço entre presente, passado e futuro.
 

Quando tirarmos o mundo espiritual e a vida que lá perdura das “nuvens da abstração”, compreenderemos melhor “a reação do futuro sobre o presente” (veja que aqui não há erro de redação, ele diz “a reação do futuro sobre o presente”, o que quer apontar a influência da ideia de futuro como chave para pensar o presente).

Segundo o codificador da doutrina espírita, nessa perspectiva o futuro passa a ser pensado como uma necessidade, como algo que já começa agora, “inexorável como a véspera, o dia de hoje e o dia seguinte”. “Uma etapa da vida presente e da vida em geral” – completa Kardec, referindo-se à vida futura.
 

Observa Kardec que, por termos ideias muito vagas da vida no mundo espiritual e da vida futura, é que temos dito sobre isso apenas: “Será o que for”, nos fechando para a busca de novas dimensões de compreensão, necessárias para situarmos nosso ser ante as questões da felicidade e do sofrimento.

Atualmente, percebe-se que a sensação de um presente maciço, onde falta a elaboração de um projeto de futuro, tem desesperançado especialmente as juventudes, com a agravante de estarmos no seio de uma permanente ideia de crise na vida social.
 

Caminhar para ir ultrapassando esse vazio de projetos e compreensões do porvir, que implica adentrar em saberes sobre a transcendência, a vida futura, como diz com precisão Kardec, seria fundamental para atuar ante as transformações das coletividades, tarefas das gerações também.

Assim, a verdadeira solidariedade e fraternidade não seriam mais deveres circunstanciais, mas formas do ser-estar no Universo, repleto de mundos habitados, onde um Deus cósmico nos ama infinitamente, mas nos concede a liberdade para construir nossa evolução.

 *Ângela Linhares é cantora, compositora e dramaturga.
É também assessora pedagógica da Associação de
Corais Infantis "Um Canto Em Cada Canto". Participa
como dramaturga da Companhia Vidança e como
docente do Mestrado em Saúde Pública da Faculdade
de Medicina da UFC. É membro da Articulação Nacional
de Educação Popular em Saúde, do conselho consultivo
do Instituto Terramar e da Federação Espírita do Ceará.
Conteúdo publicado em www.opovo.com.br.
 

15 janeiro 2016

SÉTIMO CONTINENTE


Era do Lixo*



Concentração de plástico e materiais descartados é vista flutuando no Oceano Pacífico
Plástico e materiais descartados podem ser vistos até do espaço flutuando no Oceano Pacífico

O ano de 2016 começou cheio de ideias. Algumas, bem curiosas. Cientistas voltados para o espaço estudam o plantio de batatas em Marte, por suas propriedades nutricionais para a sobrevivência humana quando chegarmos ao planeta vermelho.

Cientistas voltados para a Terra concluem que é chegada a hora de assumirmos uma nova época geológica. Sugerem o termo Antropoceno para identificar a era de pleno domínio dos seres humanos e que se tornou inquestionável a partir dos anos 1950.

O período é apropriado para entendermos o papel do homem e a grandiosidade dos seus atos. Os nascidos nos anos que se seguiram à catástrofe da Segunda Guerra Mundial, a maior de todos os tempos (até agora), ficaram conhecidos como "Geração Baby-Boomer".

Não só porque houve uma explosão populacional no pós-guerra, mas também porque essa foi a guerra da bomba atômica, a guerra dos estrondos que redefiniram os destinos do mundo.

Em algum momento, tenhamos ou não nos mudado para saborear batatas em Marte, as camadas geológicas do planeta Terra exibirão vestígios do Antropoceno, a era de nossa passagem por aqui: concreto, plástico, carbono, metano etc.

Além da imaginação

Enquanto isso, um criativo arquiteto belga concebeu uma cidade submarina a ser totalmente construída com o lixo que os humanos atiram ao mar. Seria uma forma maravilhosa de reciclagem para a atualidade e, por ser tão maravilhosa, ele naturalmente visualizou a Baía da Guanabara como cenário perfeito para sua obra futurista.


A beleza do Rio de Janeiro é tão forte no imaginário das pessoas, sejam elas daqui ou de qualquer outro lugar, que todos querem salvá-la. Mesmo que seja apenas no plano das ideias.

É certo que o Rio está sob os holofotes globais por causa da proximidade da Olimpíada deste ano (que muitos insistem em mencionar no plural, talvez porque ela vá valer por muitas Olimpíadas). Mas também é certo que o lixo marítimo não é exclusividade da cidade.

Ele predomina soberano em toda a costa brasileira e em oceanos afora. No Pacífico, por exemplo, há ilhas de lixo que já podem ser vistas do espaço.

Segundo os cientistas franceses que desde maio de 2012 investigam o Sétimo Continente (a quantidade de plástico no Oceano Pacífico que já assumiu a dimensão de um continente), "estima-se que 300 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente em todo o mundo. Cerca de 10% desse montante acabam nos oceanos".

Para quem quiser saber mais, vale a pena uma visita ao site do Sétimo Continente: (www.septiemecontinent.com). 

Utopia
Este texto acabou saindo carregado de ironia, mas não de todo desesperançado. No domingo, 10 de janeiro, os organizadores da prova de Redação da segunda fase da Fuvest propuseram o tema "Utopia" para os candidatos.


O tema enseja a reflexão sobre a sociedade perfeita, aquela que se sonha construir e usufruir, mas também remete à questão de sua viabilidade. Nós, seres humanos, somos capazes de criar uma sociedade ideal? Escrever sobre a utopia é um desafio, tamanha a riqueza de ideias que possam surgir sobre a busca de um ambiente mais favorável e digno à vida humana.

É possível investir no desenvolvimento e manter a floresta em pé? É possível trocar o combustível fóssil pela energia que vem do sol e dos ventos? É possível ter água limpa e condições básicas de higiene para uma população que vive à beira de praias impróprias para o banho e córregos fétidos contaminados por esgotos?

É possível ter filhos saudáveis que, no futuro, não sejam chamados de "Geração Zika-Boomer"? É possível reinventar o planeta?

Precisamos, com urgência, repensar o que estamos fazendo por aqui. Durante um bom tempo as batatas de Marte não serão acessíveis à maioria dos humanos.

Uma cópia perfeita do Rio de Janeiro em solo vermelho soa improvável. Talvez, então, a saída seja fazermos da Era do Homem uma era de ideias boas e viáveis.

Não essa Era do Lixo que agora vivemos.

* Lucila Cano  é colunista especializada em temas relacionados
ao 3º Setor.
Graduada em Comunicação Social pela FAAP (SP), é 
consultora editorial e assina a coluna Responsabilidade
Social e Ética 
em alguns periódicos, dando seguimento ao
trabalho
do jornalista e escritor Engel Paschoal. 
Conteúdo publicado em http://educacao.uol.com.br





EVIDÊNCIAS E MITOS


Saber tradicional contra 
a mudança climática*


Adolfo é um exemplo dos benefícios da agroecologia camponesa em El Salvador.
(Foto: Jason Taylor/Amigos da Terra Internacional)

Milhões de agricultores africanos não precisam se adaptar à mudança climática, já que o fizeram graças à agroecologia, baseada em práticas e saberes tradicionais, que também permitem garantir a segurança alimentar.Como muitas comunidades na África, as das Terras Altas de Gamo, na Etiópia, estão bem preparadas para as variações climáticas.

A grande biodiversidade da área, a base de seu sistema agrícola, permite adaptar suas práticas agrícolas com facilidade às variações do clima.Essa comunidade também está acostumada a administrar o ambiente e os recursos naturais de forma adequada e sustentável, arraigada em seus costumes e conhecimentos tradicionais, o que as torna resilientes a inundações e secas.

Os sistemas agrícolas ancestrais costumam ser considerados muito arcaicos pelos governos centrais, mas têm muito a ensinar ao mundo, especialmente diante dos desafios apresentados pela mudança climática e a insegurança alimentar.A partir dos conhecimentos indígenas, agricultores de todo o continente conseguiram acumular muita experiência e inovação de sucesso em matéria agrícola.

Esses esforços se desenvolveram de forma consistente nas últimas décadas, após as secas que atingiram muitos países nos anos 1970 e 1980.No Quênia, o sistema de agricultura biointensiva foi desenhado nos últimos 30 anos para ajudar os pequenos agricultores a cultivarem maior quantidade de alimentos nas terras mais pobres e com um mínimo de água.

Cerca de 200 mil agricultores quenianos, que alimentam aproximadamente um milhão de pessoas, adotaram a agricultura biointensiva, que utiliza até 90% menos água do que com a alternativa convencional, alémde reduzir entre 50% e 100% a compra de fertilizantes, graças a um conjunto de práticas agroecológicas que fornecem mais material orgânico ao solo, a quase continuidade da cobertura de terras cultivadas e uma fertilidade adequada para a boa saúde das plantas e raízes.

A região do Sahel, na fronteira do deserto do Saara, é conhecida por suas duras condições ambientais e pela ameaça da desertificação. O que não se sabe muito é a respeito do enorme êxito das ações adotadas para deter o avanço das terras áridas.Lançado nos anos 1980, o Projeto de Desenvolvimento Rural Keita, em Níger, demorou 20 anos para recuperar o equilíbrio ecológico e melhorar drasticamente a economia agrária na região.

Nesse período, foram plantadas cerca de 18 milhões de árvores, a superfície florestal aumentou 300%, enquanto a estepe com arbustos e dunas diminuíram 30%. Além disso, as terras cultiváveis se expandiram em cerca de 80%.Em toda a região, um grande número de projetos utilizou soluções agroecológicas para restabelecer as terras degradadas e poupar os escassos recursos hídricos, ao mesmo tempo aumentando a produção de alimentos e melhorando a resiliência e o sustento dos agricultores.


Frederic Mousseau coordena as pesquisas a partir do
Instituto Oakland, sediado na Califórnia, EUA.
(Foto: Cortesia do autor)

Em Tombuctu, norte de Mali, o Sistema de Intensificação do Arroz conseguiu resultados surpreendentes com produção de nove toneladas desse cereal por hectare, mais que o dobro do que permitem os métodos convencionais, ao mesmo tempo em que foi possível economizar água e outros insumos.Em Burkina Faso, as técnicas de conservação de água e do solo, incluída uma versão modernizada da tradicional forma de plantar com poços, teve muito êxito na recuperação das terras degradadas e melhoria da produção de alimentos e da renda.

Os países da África austral lidam com contínuas secas, que geram grandes perdas nos cultivos de milho, o principal cereal da região. Há vários anos, agricultores e governos criaram uma variedade de soluções agroecológicas para evitar as crises alimentares e impulsionar a resiliência frente aos impactos climáticos.O enfoque comum foi abandonar o cultivo exclusivo de milho, que é altamente vulnerável às variações climáticas, além de muito custoso e de exigir a compra de insumos, como sementes híbridas e fertilizantes.

As soluções sustentáveis e acessíveis de sucesso incluem gestão e coleta de água da chuva, ampliação da agricultura de conservação e regenerativa, promoção da produção e do consumo de mandioca e outros tubérculos, diversificação da produção e integração de cultivos com árvores fertilizantes e plantas leguminosas que fixam o nitrogênio.

Os exemplos anteriores procedem de uma série de 33 estudos de caso, divulgados pelo Instituto Oakland, que ilustram o enorme sucesso da agricultura agroecológica em todo o continente africano diante da mudança climática, da fome e da pobreza. Um dos aspectos que todos apresentam em comum é que os agricultores, entre os quais há muitas mulheres, estão à frente de seus próprios projetos de desenvolvimento.

Outro elemento comum é que não se baseiam em insumos agrícolas externos, como as sementes comerciais, os fertilizantes sintéticos e os pesticidas químicos, a base da agricultura chamada convencional.Os principais insumos para a agroecologia são a própria energia das pessoas e o senso comum, conhecimentos compartilhados e, naturalmente, o respeito pelos recursos naturais e seu uso adequado.

A pergunta sobre a razão de esses casos de sucesso não serem conhecidos é pertinente; ficam enterrados sob a retórica do discurso favorável a um desenvolvimento baseado em um coquetel destrutivo de ignorância, cobiça e neocolonialismo.

Desde a crise dos preços dos alimentos em 2008, ouviu-se uma e outra vez o argumento de que a África necessitava do investimento estrangeiro na agricultura para “desenvolver” o continente, de uma revolução verde, de mais fertilizantes sintéticos e de cultivos transgênicos para combater a fome e a pobreza. 

Pois bem, os estudos de caso da agroecologia jogam por terra esses mitos.

A evidência, fatos e dados irrefutáveis, estão ali: milhões de africanos já desenharam suas próprias soluções para seu próprio beneficio e conseguiram se adaptar tanto aos sistemas agrícolas insustentáveis herdados da época colonial com aos atuais desafios que a mudança climática e a degradação ambiental apresentam.

Outra boa notícia é que a transição para a agroecologia é acessível para os governos africanos, que já gastam milhares de milhões de dólares por ano em subsídios para fertilizantes e pesticidas. No Malawi, os subsídios à agricultura chegam a cerca de 10% do orçamento nacional anual.

A evidência existente, baseada na experiência de milhões de agricultores, deveria impulsionar os governos africanos a optarem pela única alternativa razoável: que o continente seja o protagonista na superação da fome e na exploração corporativa e avanço para uma forma sustentável e adaptada ao clima para a produção de alimentos para todos. 


*Frederic Mousseau é diretor de políticas 
do Instituto Oakland e coordenador da 
pesquisa do projeto de agroecologia.
Conteúdo publicado em www.envolverde.com.br


30 dezembro 2015

ESTE QUE PASSA


Um ano para esquecer (ou lembrar?!?)

Vai-te, 2015. Pega o beco, ano ruim. Nas tuas dobras, perdi minha mãe e uma porção de amigos. Quase perco também a fé e a esperança na chama que guia a vida. Quantas más notícias diárias, quantos sustos, quantas decepções, quantos aborrecimentos! 

Por esta época, costumamos riscar o traço de soma e avaliar o balanço dos 365 dias que se foram. Tenho que te dizer, 2015, que a tua nota não foi boa! 

Aliás, foi péssima, nem foste aprovado. O homem lá de cima teve que mexer os seus celestiais pauzinhos para te liberar, pois seria muito esquisito um ano repetir o ano, ainda mais tu sendo o que és. Já pensou se, em lugar de 2016, tivéssemos que te engolir de novo? Dose para leão, não? Para com esse sorriso cínico que a areia na ampulheta está se acabando. 

Não, não te chateies comigo, é que abusaste, meu caro, passaste do limite. Trouxeste contigo uma ruma de canalhas que, somados aos que já estavam por aqui, fizeram desandar o ponto do doce. Presenteaste-nos também com muita reversão de expectativas, a nós, brasileiros, que vivemos de acreditar que amanhã sempre será supimpamente melhor. 

Fizeste-nos intolerantes, brutos e mal-educados nas redes sociais e nos contatos interpessoais, estes cada vez mais raros. Tua lama destruiu um rio e a política nacional. Tornaste-nos amargos, desconfiados, avaros, bem mais que éramos. 

Uma nuvem de teus mosquitos empesteou-nos de moléstias vis. Ah, sim, e também ampliaste a nossa cota de individualismo, mesquinhez e consumismo, besta 
fera maligna.

O que dizes?! “Como é bom colocar a culpa pelos próprios fracassos nas costas alheias”?! Bem, acho que tens um pouco de razão. Como dizia Luigi Pirandello, nós, humanos, lamentavelmente temos necessidade de culpar os outros pelos nossos desastres e as nossas desventuras. 

Tipo eu aqui, já quase te incriminando pela terrível ressaca que ora me acomete. Claro que eu sei, meu chapa, que mais uma vez não cumpri as promessas que fiz quando tu começaste. 

Se vou ou não vou fazer o mesmo com o que se inicia é problema meu. Não, não estou sendo grosso contigo, é porque esse é um direito que me assiste, dá licença? Parece que não conheces a gente. Tiveste esse tempo todo para isso, aprontaste das tuas e ainda queres ser o rei da nossa vontade?

Ficas por aí, zombando da minha cara enquanto teu termo se esvai. Tua hora vai chegar, patife. És apenas uma mercadoria com prazo de validade quase vencido, apodrecendo nas gôndolas do supermercado das eras. 

Não posso dizer que em ti foi tudo um mar de fel, houve mel também. É que, neste ajuste de contas, o primeiro deu de lavagem no segundo. Há quem afirme, com Émile Zola, que "o sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito". 

Se for assim, por tua causa minha alma está mais que desperta. Por trás desse teu riso sardônico, sinto tua respiração ofegante. Tuas mãos, antes tão ocupadas com tantas tragédias, tremem a olhos vistos. 

Já, já tua boca ficará seca e teu coração parará. E a mim, de ilusão em ilusão, só restará tocar o barco adiante.


*Romeu Duarte é é arquiteto e urbanista pela UFC (1985),
Mestre (2005) e Doutor (2012) em Arquitetura e Urbanismo
pela USP. Atualmente é professor adjunto do Curso de
 Arquitetura e Urbanismo da UFC, sendo representante
suplente da instituição no Conselho Municipal
de Patrimônio Histórico e Cultural de Fortaleza.
Imagens em 
www.mtalbertprimary.school.nz e www.afitandspicylife.com


09 dezembro 2015

ETERNO TEMPLO DE FÉ


Adeste Fideles*




Cântico religioso natalino composto por John Reading (1677-1746), organista em Winchester, Inglaterra: “Vinde, fiéis”. 

Vinde adorar o Deus-menino, a salvo dos Herodes e demais demos, ancorado na praia.
Vinde juntar-se aos refugiados a palmilhar o chão, da Síria aos Inhamuns, buscando a salvação. É o povo refazendo as trilhas dos missionários, hoje infestadas por mercenários e assoldadados outros, a serviço dos anticristos.

“Adeste Fideles”, vinde integrar esta turma de sobreviventes, orar pelos que nasceram para não ser, e morreram de fome, de frio, no mar, ou na lama de Mariana. Ignoremos as vozes dos algozes e ouçamos os vagidos vindos daquela manjedoura. 

Fechai-lhes, Pai, os ouvidos ao ribombar das metralhadoras daqueles que fazem da morte um meio de vida. Deploremos o que vaticinou (profetizou) o filósofo genebrês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em seu “Discurso sobre Ciências e Artes”: “quanto mais civilizados ficamos, mais corruptos nos tornamos”. E bárbaros! Tempos insanos estes.

Dias da ira, irônicos tempos. Assaltantes matam cardiologista com bala no coração, alpinista morre abalroado em rodovia. Estaríamos assistindo a um ensaio de outro apocalipse? Sonho, pesadelo ou realidade? 

Mas, como apregoam os africanos, a água da chuva não é tão preta como aparentam as nuvens. Festejemos o infante Jesus, em mais este Natal nosso, das luzes, dos sinos, nos presépios de palha e nos berços dourados, nas senzalas e nas casas grandes.

Natal das juras veladas, promessas não cumpridas, palavras que esquecemos de dizer, graças obtidas sem nosso reconhecimento. Penitenciemo-nos. Nessa noite, na consoada (ceia natalina ou de Ano Novo) recordemos quem partiu sem se despedir. Acorram! 

É tempo de colher a nova safra de esperança. Natal é Cristo de novo, um eterno templo de fé. Contrariemos o ódio e uma das “Odes” (1,1,8) do poeta e filósofo romano Quintus Horatius Flaccus (65 – 8 a.C.) em suas “Carmina”: “Carpe diem, quam minimum credula postero”, i.e., aproveita o dia (ou o momento fugaz) confiando o mínimo no futuro.

Esqueçamos este Horácio e pensemos com confiança. O Natal está dobrando a esquina. Exultemos, ao jeito de crianças esperando Papai Noel. O essencial é a espera. O resto é só alegria. Acreditemos no futuro que a Deus pertence, porquanto ele é nosso também.
Aleluia! Feliz Natal!


(*) Pedro Henrique Saraiva Leão é professor
Emérito da UFC, titular das academias Cearense 
de  Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Publicado em www.opovo.com.br
Imagem em www.musicalion.com

(N. do E., com adendos da Wikipedia): O tema natalício Adeste fideles ganhou o nome Portuguese Hymn (ou Hino 
Português) em várias publicações inglesas, por ser esta composição 
cantada na capela da Embaixada de Portugal em Londres. Até a 
legalização do culto católico na Inglaterra, com a promulgação da Acta de 
Ajuda Católica de 1829, era um dos únicos locais em que sua 
celebração ocorria no território britânico. 

Vincent Novello (1781–1861), que foi a partir de 1797 "Mestre de Capela 

e Organista" da Capela Portuguesa, publicou em 1811 a coletânea intitulada 
"A Collection of Sacred Music, as Performed at the Royal Portuguese Chapel in London",
obra 
muito influente na constituição de um repertório católico inglês, e como “Adeste 

fideles” estava nela incluída, passou a ser conhecida como o "Hino Português".

Peça composta em harmonia funcional inteiramente tonal, com acompanhamento 

de baixo contínuo, num estilo, segundo alguns estudiosos, incompatível com a prática
musical do tempo do rei D. João IV de Portugal — que morreu em 1656 —, o Adeste fideles 

não deixa certeza absoluta sobre quem foi seu autor. Por sua natureza,  
não poderia ter sido composta antes do último quarto do século XVII

Vincent Novello, ao publicar o seu arranjo desta obra,
atribuiu-a a John Reading, organista do Winchester College morto em 1692, mas
a primeira versão conhecida é a de John Francis Wade (1711–1786). Sendo Reading
protestante e Wade um católico assumido, exilado no Continente por lealdade à
causa do Pretendente Stuart, seria mais natural que a Capela da Embaixada
Portuguesa adotasse uma obra sua do que uma composta por um anglicano.


Assim, embora a autoria desta cantiga de Natal seja contestada
na atualidade, popularmente — atendendo ao fato do rei D. João IV
de Portugal ser autor nascido em data mais antiga — a mesma
é considerada criação do primeiro monarca da Dinastia de Bragança.






04 dezembro 2015

PARA ONDE?


Pena que sejamos tão poucos*





Quando eu era estudante de Jornalismo, frequentava uma hemeroteca que havia no curso, e foi lá que consolidei o hábito de ler cadernos de cultura de tudo o que era jornal. 

Pouco depois, passei a comprar e colecionar alguns deles. Ainda tenho alguns exemplares do Rascunho, um caderno sobre livros que era publicado com a Folha de S.Paulo. Tenho também um especial sobre Fernando Pessoa, veiculado no JB

Em seguida, vieram as revistas. Minha coleção de Bravo, doei para um ex-repórter. Assim como tive que me desfazer de outras coleções, como as das revistas Cult, História, Primeira Leitura, Entre Livros; cadernos de cultura da extinta Gazeta Mercantil e Você &, caderno de cultura do jornal Valor Econômico

Só me restam alguns cadernos Mais, Ilustríssima, Sabático.

Quase tudo citado até aqui não existe mais. Ficamos mais pobres a cada caderno ou revista de cultura que sai de cena. 







Ultimamente, eu esperava a revista da livraria Cultura e a Ipsilonportuguesa, que trazia excelentes entrevistas com escritores, pensadores e músicos europeus e brasileiros. Embora fossem gratuitas, eu pagaria por elas. 

Eu sei que tem tudo na internet e o YouTube é um mundo, mas às vezes dá vontade de ver a seleção feita por outras pessoas. 

Além disso, folhear um bom produto editorial é uma experiência rara para os sentidos. Há dois meses, a Ipsilon anunciou que deixava de existir no papel. A Revista da Cultura encolheu tanto que pode ser prenúncio do fim.

Cada produto desses que saem do mercado me enche de certa tristeza. Para onde nós estamos caminhando? 








Os poucos leitores dessas revistas e suplementos culturais – que ainda resistem – ficam cada vez mais abandonados nesse movimento contínuo de desistências. 

Por isso mesmo, quase choro ao ler a notícia do fechamento da Cosac Naify. Só quem gosta muito de livro sabe como é lamentável tamanha baixa entre as casas editoras.

Lamentável em todos os sentidos. Pelos autores editados pela Cosac, pelo mercado que perde uma concorrente capaz de elevar o padrão das publicações, mas principalmente perdemos nós, os leitores, que amamos tanto aqueles livros caprichados, feitos com apuro e beleza. 

Mas que importa isso, se somos tão poucos...?!?



*a jornalista Regina Ribeiro é editora-executiva das
Edições Demócrito Rocha e colunista do jornal O Povo.








16 novembro 2015

PARIS, BEIRUTE, MARIANA


O que faz uma tragédia
ganhar a sua atenção?






Tragédias não são medidas pela quantidade de corpos amontoados, mas pelo que elas significam para cada um. Tenho uma certa dificuldade em absorver comentários de pessoas que reclamam que determinado massacre ganhou destaque quando outro, bem maior, permaneceu desconhecido. 

Até porque essa mesma pessoa provavelmente ignorou uma série de outras tragédias e, evitando buscar informações, responsabiliza apenas a imprensa. Que tem suas culpas, claro, mas não está sozinha.

Estou resgatando um texto que escrevi sobre a comparação de desgraças e a questão da empatia. Creio que vale a pena, neste momento em que uma competição entre Paris, Beirute, Mariana ou Baga parece ter ocupado as redes sociais.

Mantive durante anos, na sala do meu escritório, uma capa da revista Time retratando centenas de corpos espalhados no chão de Ruanda, vítimas do genocídio perpetrado pela maioria hutu contra a minoria tutsi, em 1994. Nela, pessoas procuram por parentes e aves procuram por almoço.

O título era algo como “Este é o início dos últimos dias, o apocalipse'' – talvez uma tentativa de chamar a atenção dos Estados Unidos e Europa para o massacre, através de um elemento simbólico que está no alicerce de sua fundação: o julgamento final do Novo Testamento.

Mas não era o começo do fim, apenas mais um expurgo – tanto que, após os 800 mil mortos em Ruanda, tivemos tempo de matar mais 400 mil no Sudão.

Essa capa era um lembrete para me empurrar para fora da zona de conforto. E também uma verdade incômoda. Em 1998, quando estava cobrindo a guerra pela independência de Timor Leste, onde o exército indonésio matou – de bala ou de fome – mais de 30% da população da ilha, um vendedor me disse, ao saber de onde eu era, que ficava feliz pelo Brasil, visto como um grande irmão lusófono, apoiar a luta.

Não tive coragem de dizer a ele que o meu país nem sabia de sua existência e que se aqueles mauberes pardos vivessem ou morressem, praticamente nenhuma ruga de preocupação seria produzida. Duvido que entre vocês, leitores, muitos tenham ouvido falar do Massacre do Cemitério de Santa Cruz, em Dili, capital de Timor. Imagine quantos massacres mais, mundo afora, acontecem invisíveis?

Por que relatamos tão pouco mortes nesses locais? A discussão faz parte de alguns debates acalorados em jornalismo. Isso é de interesse público? Do nosso público? 

As pessoas se interessam em saber sobre isso? Como as pessoas vão se interessar sobre isso se não as informamos com a devida importância? 

É possível ter opinião formada (não "preconceito de internet") sobre aquilo do qual nunca se ouviu falar? Enfim, “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais"?

Somem-se a isso alguns elementos. Na teoria, a Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos temos direito à dignidade por termos nascido humanos. Na prática, a vida de não brancos vale menos que a vida de brancos. E a vida de ricos vale mais que a vida de pobres. E a das mulheres menos que a dos homens. Simples assim. Se essa vida for de religião que cause estranhamento aos olhos ocidentais, pior ainda.





Outro elemento é a justificativa cultural, de que mortes em Nova Iorque, Roma, Paris e Londres causam mais impacto porque estão mais “próximas'' de nós. Elas aconteceriam no mesmo “caldo cultural'' em que estamos inseridos, com o qual temos uma histórica troca e convivência mútua e através do qual construímos nossa sociedade.

Sabemos quem são e como vivem e trabalham os moradores dessas cidades. E, a partir desse conhecimento, geramos empatia: nos projetamos no outro, entendemos a sua dor e conseguimos até senti-la.

Sim, mas se dividimos elementos simbólicos com a “metrópole'' também temos elos com as outras “colônias'', que passaram por processos históricos semelhantes aos nossos e, como nós, têm que pagar, até hoje, seus tributos. Seus problemas econômicos e sociais são semelhantes e, não raro, suas dores também. Damos as costas ao Sul e nos projetamos apenas ao Norte, sonhando, talvez um dia, sermos reconhecidos como parte da mesma "civilização ocidental" da qual não fazemos parte.

Não é inato um jovem brasileiro se interessar mais por Miami do que por La Paz. Ele aprende isso. Da mesma forma que aprende que a África, boa parte da América Latina e o Sul da Ásia são locais em que a vida não vale muita coisa, onde "selvagens" se matam desde sempre, como se as marcas da colonização e os processos políticos e econômicos globais, somados à ignomínia dos seus líderes locais, não valessem nada.

Se eles tivessem oportunidade de conhecer o Outro, as coisas seriam diferentes?

Uma menina-bomba, com cerca de dez anos de idade, teria se explodido, levando 20 pessoas consigo em um mercado na cidade de Maiduguri, norte da Nigéria, área de atuação do Boko Haram – milícia fundamentalista que deturpa os ensinamentos do islamismo em sua luta por poder. Ganhou pouca atenção no noticiário.

Da mesma forma, provavelmente você nunca ouviu falar do Ricky.

Tive o prazer de conhecê-lo há alguns anos. Sua história é incrível. Ele foi raptado e escravizado quando criança pelo Exército de Resistência do Senhor, em Uganda – um grupo fundamentalista que deturpa os ensinamentos do cristianismo em sua luta por poder, liderado por Joseph Kony, que se dizia porta-voz de Deus. 

Os meninos passavam por lavagem cerebral para se tornar soldados e, as meninas, para servirem de escravas sexuais. Ele conseguiu fugir, graduou-se e criou a Friends of Orphans, uma organização não-governamental que luta para reintegrar esses jovens à sociedade.

Disse-me que não há como alguém conhecer uma criança que foi escravizada para matar e morrer e aquilo não mudar a vida dessa pessoa definitivamente. Porque o relato levaria a perceber que todos aqueles que matam em nome de Alá ou Jeová, na verdade, não acreditam neles. 

E que mesmo esses “combatentes'' não são bestas-feras, mas pessoas transformadas em máquinas de guerra. Às vezes em nome daquilo que enche o tanque de nossos carros, às vezes em nome daquilo que brilha em dedos e pescoços.

Entramos na rede e, em um pé de página, a Anistia Internacional denuncia que os açougueiros do Boko Haram podem ter matado centenas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, na Nigéria. Faltam braços para apurar e checar a informação, ocupados com outros assuntos. Alguns importantes e que também são de interesse público. Outros, nem tanto.

Temos afinidade com aquilo que nos é mais próximo ou que desperta determinados sentimentos. Entendo que a libertação de 150 escravos que sangram na Amazônia para produzir boi que muitos nem sabem como vira bife choca menos que o resgate de um jovem sequestrado em nossa cidade.

Mas todos sabem o que é uma criança. É duro, portanto, imaginar que não desperte sentimentos. Talvez isso ocorra por banalização dessa violência. Talvez por um ato de fuga consciente ou inconsciente, diante da crença na incapacidade de fazer qualquer coisa para resolver o problema – mesmo que a indignação com a história de vida daquela criança africana possa levar você a ajudar na melhoria da qualidade de vida das crianças que estão ao seu lado.

Talvez a resposta resida no fato de que uma criança nua, exausta e com olhar perdido numa cama na beira de estrada, depois de uma hora de sexo forçado ou coberta de sangue após um dia de confronto armado, ou explodida em mil pedaços após um ataque suicida não é uma coisa fofa de se ver. 

Pelo contrário, para muitos é repugnante a ponto de transferirem a culpa pelo ocorrido para a própria vítima, que “se deixou ficar naquela situação indigna aos olhos de Deus''.

A discussão, porém, não é apenas sobre a distante África, mas também sobre as periferias das nossas cidades, que ficam logo ali. 

Em São Paulo, no Rio e em tantas outras, há uma matança orquestrada de jovens -- negros e pobres –, segundo as estatísticas do poder público. Desde que o seu sangue não respingue em ninguém, tudo bem.

É impossível comparar tragédias pelo número de mortes, uma vez que uma única morte pode compor uma tragédia.

E a indignação por algo não exclui a indignação por outra coisa.

Mas jogar para baixo do tapete os incômodos que também dizem respeito a todos nós, não os faz desaparecerem.





Portanto, busquem informação na internet para além de sua zona de conforto. Não fiquem esperando que a mídia os sirva de bandeja. 

Você não defende tanto sua autonomia? Seja independente, vá atrás! Mas também exija de nós, jornalistas, que tenhamos coragem de oferecer informação que as pessoas não querem ler, a despeito da audiência, da circulação e de outras formas de medir o “interesse público''. 

Ou seja, que divulguemos o que vocês não querem ler.

Por fim, dei de presente a capa da revista para uma amiga que estava em seus primeiros passos no Jornalismo. Não que eu não precise mais do lembrete, a ética é o exercício diário da memória. 

Mas aquilo é muito forte para ficar na memória de uma pessoa só. Torço para que a geração dela, inspirada em nossos erros e acertos, seja melhor que a nossa.


Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política 
pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em 
diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. 
É professor de Jornalismo na PUC-SP e pesquisador visitante do 
Departamento de Política da New School, em Nova York. É ainda 
diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das 
Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.

Conteúdo publicado em blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br

06 outubro 2015

SINAIS DE FALÊNCIA


A Amazônia pede socorro*

“Difundir esta mensagem para crianças e jovens é o segredo de um
futuro em que ainda possamos apreciar sombra e água 
fresca”

Uma brava guerreira, que resistiu por milhões de anos a cataclismos climáticos começou a sucumbir, nas últimas quatro décadas, aos ataques de inimigos cruéis: motosserras, tratores e fogo. O desmatamento sem limites ameaça a última grande floresta do planeta. 

Desde a década de 1970, a Amazônia perdeu uma área de 763 mil quilômetros quadrados (extensão equivalente a três estados de São Paulo) contabilizados apenas no território brasileiro. Ao todo, estima-se que 42 bilhões de árvores foram derrubadas. Os dados alarmantes constam no relatório O futuro climático da Amazônia, escrito por Antonio Donato Nobre, agrônomo com Mestrado em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e PhD em Earth System Sciences (Biogeochemistry) pela University of New Hampshire (localizada em Durham/NH, EUA). 

Atualmente, Nobre é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e no Centro de Ciências do Sistema Terrestre, do INPE-Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Divulgado em outubro de 2014, o Relatório utiliza uma linguagem acessível para demonstrar a extrema importância do ecossistema amazônico para o equilíbrio do clima e o que precisa ser feito para frear a destruição desse bioma. Embora a sociedade não se dê conta, a situação já está muito grave. “Estamos na UTI e vemos sinais fortes de falência múltipla de órgãos”, afirma o cientista. 

“As magníficas florestas que tínhamos funcionavam como um ‘colchão verde’ que permitia amortecer os trancos do clima planetário. Com o desmatamento, essa resiliência está sendo perdida. As mudanças climáticas nos atingem secamente na coluna, como quando trafegamos em uma estrada esburacada em um jipe sem amortecedores e sem molas na suspensão”, compara.

Segundo Antonio Nobre, a ignorância das leis da natureza é o motor que impulsiona o desmatamento. Por isso, ele propõe a universalização do acesso às descobertas da ciência sobre o papel determinante da floresta na regulação do clima. “É vital que os fatos científicos cheguem à sociedade e tornem-se conhecimento corrente”, argumenta ele. O pesquisador aponta, ainda, outra medida a ser adotada urgentemente: o desmatamento zero. 

E só isto não basta. É preciso replantar as florestas em todo o País. “Se nos movermos como se estivéssemos diante de um esforço de guerra, talvez, ainda, tenhamos uma fresta de oportunidade para usar o poder de cicatrização dos sistemas vivos na recuperação do ‘berço esplendido’ que recebemos e que soubemos sujar e destruir como ninguém”, enfatiza. Leia a seguir a íntegra de sua entrevista:

SUELI ZOLA: No ano de 2014, o sudeste do Brasil enfrentou as mais altas temperaturas associadas à pior estiagem registrada na região. Isto é um sinal de que as temidas mudanças climáticas deixaram de ser cenário futuro e já se tornaram uma realidade? 
ANTONIO NOBRE: O noticiário internacional mostra que essas mudanças climáticas não são privilégio nosso. Muitas áreas no mundo já sofrem efeitos pesados pela perda da “saúde” do sistema de suporte da vida. A comunidade científica vem, há várias décadas, fazendo alertas e soando o alarme, de forma progressivamente mais chamativa. No entanto, a humanidade continuou dormitando e não querendo escutar, como o jovem com preguiça de acordar para ir à escola. Interesses escusos e sujos financiaram uma poderosa máquina de embaralhamento cognitivo, mantendo as pessoas na funesta crença de que estava tudo bem, que a natureza tem seus altos e baixos, mas que daqui a pouco volta tudo ao normal.

SZ: Não estamos percebendo a gravidade da situação? 
AN: Fazendo um paralelo com a saúde humana, nossa situação é comparável à de um alcoolista, que passou a vida se intoxicando, sentindo os efeitos de cada sessão de intoxicação na ressaca do dia seguinte, mas sempre se iludindo; acreditando na enorme capacidade do corpo (e da vida) de recuperar-se, de reconstruir bem-estar. Até que um dia os abusos repetidos (e todos registrados pelo corpo) levam ao diagnóstico fatal: cirrose hepática. Assim como o alcoolista, a humanidade gera e expele todos os tipos de tóxicos no organismo terrestre. Além de intoxicar, dedica-se também a devastar os próprios órgãos (ecossistemas), que em condições normais fariam a faxina e os reparos dos abusos. Neste sentido, a relação da humanidade com o planeta é ainda pior do que a do alcoolista com seu sofrido corpo; apesar de intoxicar-se repetidamente, não ocorreria ao alcoolista sair “desmatando” seu fígado. Então, eu creio que estamos na UTI e já vemos sinais fortes de falência múltipla de órgãos. As magníficas florestas que tínhamos funcionavam como um “colchão verde”, que permitia amortecer os trancos do clima planetário. Com o desmatamento, essa resiliência está sendo perdida. As mudanças climáticas nos atingem secamente na coluna, como quando trafegamos em uma estrada esburacada em um jipe sem amortecedores e sem molas na suspensão. 

SZ: O senhor utilizou, em uma palestra, uma metáfora para explicar como a Floresta Amazônica funciona, caracterizando-a como um coração...
AN: A Amazônia funciona, por analogia, como um corpo vivo e possui vários sistemas. A água irriga e drena os solos de forma análoga ao sangue, que irriga e drena os tecidos do corpo. Se os familiares
rios são análogos às veias, que drenam a água usada e a retornam para a origem no oceano, onde ficam as artérias do sistema natural? São os rios aéreos, que trazem a água fresca, renovada na evaporação do oceano. Para completar o sistema circulatório, faltava somente o coração, a bomba que impulsiona os fluxos nas artérias aéreas. A teoria da bomba biótica veio explicar que a potência que propele os ventos canalizados nos rios aéreos deve ser atribuída à grande floresta, que funciona,
então, como coração do ciclo hidrológico.

SZ: No relatório “O futuro climático da Amazônia”, o senhor mostra que a floresta perdeu, em 40 anos, uma área de 763 mil quilômetros quadrados, correspondente a três estados de São Paulo. Quais são as consequências desse passivo ambiental?
AN: Na realidade, essa extensão gigantesca é somente corte raso (barbear rente da floresta) na Amazônia brasileira; não inclui o corte raso nos outros países. Também não considera a degradação florestal, cuja área está estimada em 1,2 milhão de hectares só na Amazônia brasileira. As consequências do desmatamento são as mesmas quando um banco resolve executar o principal de uma dívida impagável de algum cliente, porque o próprio banco está à beira da falência. Cunhei uma expressão que esclarece bem as consequências: “o desmatamento sem limite encontrou no clima um juiz que sabe contar árvores, que não esquece e nem perdoa”.

SZ: Por que o desmatamento avançou tanto nesses últimos 40 anos?
AN: Estamos, hoje, trilhando na ciência das florestas um caminho trilhado pela Medicina no passado. Até o século 19 ainda se acreditava que a sangria (deixar verter o sangue por um corte) era um bom tratamento para doenças. Pouco ou nada se conhecia sobre a circulação, as doenças e os milhares de fatores que concorrem para a saúde em um complexo corpo humano. Até hoje, setores expressivos das sociedades em países que ainda têm florestas creem que a sangria da floresta (desmatamento) é algo bom para o seu país, porque abre espaço para outras atividades econômicas. Décadas atrás, apenas pouco ou nada se conhecia sobre o metabolismo da grande floresta e sua conexão com a atmosfera, o que a liga com outras regiões e com o planeta como um todo. Agora sabemos que o desmatamento é um desastre de grandes proporções e que, assim como a sangria da Medicina primitiva, pode levar mais provavelmente à morte do que à cura. Neste caso, a morte da grande guerreira, a Floresta Amazônica, afeta todos os que dependem de chuvas fartas, reguladas e benignas, entre muitos outros serviços prestados por essa usina ambiental.

SZ: Há como frear a esteira que nos conduz a esse triste fim?
AN: Vários colegas acreditam que não tem mais retorno. Imagino que pensam assim porque sabem da teimosia desta sociedade que preferiu ignorar os alertas qualificados de seus cientistas para seguir dormitando em cima de elaboradas mentiras que lhe ofereceu a máquina de embaralhamento cognitivo. Eu, porém, creio que, se nos movermos como se estivéssemos diante de um esforço de guerra, talvez, ainda, tenhamos uma fresta de oportunidade para usar o poder de cicatrização dos sistemas vivos na recuperação do “berço esplêndido” que recebemos e que soubemos sujar e destruir como ninguém.

SZ: Além da imprescindível manutenção do clima (e da vida, por decorrência), essa “usina ambiental” que é a Amazônia presta outros serviços ao nosso continente e planeta?
AN: Por meio dos serviços ao clima, a Amazônia conecta o funcionamento ecoclimático dos dois oceanos contíguos (Atlântico e Pacífico); tem manifesta importância na atenuação de oscilações como El niño e La niña, contém e mantém enorme quantidade de carbono, entretecido na astronomicamente complexa trama da vida (carbono que não vai produzir aquecimento planetário se a floresta não for queimada). E esses são apenas dois exemplos de muitas funções da grande floresta para o continente e para o planeta.

SZ: O senhor afirma, no Relatório, que o seu objetivo é reduzir a principal causa do desmatamento: a ignorância. Mas seria a ignorância a principal causa do desmatamento? Ou esta causa não estaria aliada também à ganância?
AN: Atrás dos sete pecados capitais, entre eles a ganância, reside e atua a crassa ignorância das leis da natureza. Não é por acaso que, na maior parte das histórias de cinema, vemos tais vícios terminarem mal. Creio firmemente que, se conseguirmos vencer essa guerra contra a ignorância em toda a sua desafiante extensão, veremos menos e menos ânimos escurecidos por ganância, gulodice, avareza e tantas outras excrescências humanas. Difundir essa mensagem para crianças e jovens é o segredo de um futuro em que ainda possamos apreciar sombra e água fresca. Mas mesmo hoje podemos ver conversões pelo saber. No Relatório, listo e coloco links para exemplos bonitos de que erros não precisam persistir quando entendemos e nos conscientizamos. O caminho para o abismo se abre ameaçador à nossa frente, mas aqui no cantinho ainda tem uma corda pendurada, que pode nos salvar do precipício. Temos que pegá-la com todas as forças e nos alçarmos por ela.
*Entrevista por Sueli Zola, publicada na revista
Saúde Samel - Ano III, 
n.o 13, jan-fev-mar 2015.
Imagem em http://ipam.org.br